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</front><body><![CDATA[ <p>Andr&eacute; Freire, Marina Costa Lobo e Pedro Magalh&atilde;es (orgs.),<b>    Portugal a Votos: as Elei&ccedil;&otilde;es Legislativas de 2002</b>. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Nos trinta anos do 25 de Abril, a edi&ccedil;&atilde;o de um livro como este    &eacute; um contributo fundamental para a democracia. Dir-se-&aacute; que esta    asser&ccedil;&atilde;o se pode aplicar a muitos livros, o que &eacute; verdade.    Mas o que este livro tem de distintivo, de &uacute;nico, &eacute; que serve    como poucos para configurar com rigor a nossa consci&ecirc;ncia e as nossas    atitudes no exerc&iacute;cio da democracia. Trata-se de uma fotografia da qualidade    da nossa democracia, que nos tra&ccedil;a o perfil com uma nitidez pouco comum    em rela&ccedil;&atilde;o ao que se fez at&eacute; hoje, embora nos deixe &#8212;    e tenha deixado os autores &#8212; com vontade de saber mais, de conhecer melhor    algum granulado da imagem. </p>     <p>Resultado do primeiro, sublinho primeiro, Estudo Eleitoral Nacional em Portugal,    um inqu&eacute;rito p&oacute;s-elei&ccedil;&otilde;es legislativas de 2002,    levado a cabo pelo projecto &laquo;Comportamento Eleitoral e Atitudes Pol&iacute;ticas    dos Portugueses &raquo;, este trabalho &eacute; pioneiro e fundamental para    podermos ter uma perspectiva comparada e sistem&aacute;tica das nossas pr&aacute;ticas    pol&iacute;ticas. Ali&aacute;s, se h&aacute; algum reparo a fazer, &eacute;    que s&oacute; nos &uacute;ltimos anos se tenham reunido condi&ccedil;&otilde;es    para este estudo. </p>     <p>Importa tamb&eacute;m dizer que os organizadores, Andr&eacute; Freire, Marina    Costa Lobo e Pedro Magalh&atilde;es, liderados por Ant&oacute;nio Barreto, se    t&ecirc;m distinguido pela publica&ccedil;&atilde;o de um conjunto de estudos    de sociologia pol&iacute;tica e eleitoral que s&atilde;o hoje instrumentos imprescind&iacute;veis    para quem queira avaliar com rigor a democracia portuguesa e tamb&eacute;m para    uma ac&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica esclarecida. Os elogios ao seu trabalho    n&atilde;o s&atilde;o de mais, sobretudo num tempo em que abunda muito palpite    sem lastro. A ideia de que a constru&ccedil;&atilde;o democr&aacute;tica se    deve alicer&ccedil;ar em diagn&oacute;sticos fi&aacute;veis &eacute; um primeiro    passo para se poder contrariar o mal-estar pol&iacute;tico, feito de desconfian&ccedil;a    e indiferen&ccedil;a. </p>     <p>As elei&ccedil;&otilde;es s&atilde;o, obviamente, um momento culminante da    vida democr&aacute;tica, por mais que se diga que o voto n&atilde;o resolve    nada e se actue em conformidade. O voto exerce uma elevada influ&ecirc;ncia    sobre as elites pol&iacute;ticas, pois, como refere Andr&eacute; Freire na apresenta&ccedil;&atilde;o    do inqu&eacute;rito h&aacute; pouco mais de um ano, o resultado do voto determina    se essas elites podem ou n&atilde;o permanecer no poder. Por outro lado, o resultado    das elei&ccedil;&otilde;es afecta todos os cidad&atilde;os, ao contr&aacute;rio    de outras formas de participa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica. E, apesar do    alheamento crescente, que se traduz em absten&ccedil;&atilde;o, o voto &eacute;    ainda a modalidade de participa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica que mobiliza    o maior n&uacute;mero de cidad&atilde;os. </p>     <p>As elei&ccedil;&otilde;es de 2002 foram de facto especiais, como se diz no    livro, desde logo porque n&atilde;o estavam previstas, porque resultaram de    uma demiss&atilde;o do primeiro-ministro na sequ&ecirc;ncia de um acto eleitoral    aut&aacute;rquico e porque fecham um ciclo longo (de quinze anos) de governos    de um s&oacute; partido. </p>     <p>Derrotado nas aut&aacute;rquicas, sem que o governo estivesse necessariamente    em causa, a sa&iacute;da de cena de Ant&oacute;nio Guterres revela hoje com    maior nitidez o esgotamento a que tinha chegado a sua lideran&ccedil;a. A sensa&ccedil;&atilde;o    de bloqueio, de pa&iacute;s empatado, deixou ainda mais longe qualquer sa&iacute;da    para a crise pol&iacute;tica, que depois do Ver&atilde;o foi ganhando ra&iacute;zes    ao ritmo do d&eacute;fice das finan&ccedil;as p&uacute;blicas e da press&atilde;o    das elites. </p>     <p>O governo da maior das minorias parlamentares nasceu &laquo;torto&raquo;, fruto    de um per&iacute;odo menos l&uacute;cido de um homem desiludido pela falta de    maioria absoluta e enredado na desconfian&ccedil;a de muitos quadros do PS,    apesar das apar&ecirc;ncias. O engenheiro da envelhecida maioria n&atilde;o    teve coragem suficiente para enfrentar interesses, mostrou-se indeciso demasiadas    vezes e cedeu ao tacticismo sem estrat&eacute;gia. Perdeu frescura muito cedo,    contemporizou com clientelas e acabou reduzido a falsos unanimismos. Passou    de amado a tolerado no seu pr&oacute;prio partido. </p>     <p>Destinado pelas oposi&ccedil;&otilde;es, em particular pelo PSD, a fritar em    lume brando, Guterres chegou &agrave;s aut&aacute;rquicas com a t&eacute;nue    esperan&ccedil;a de que o voto do eleitorado n&atilde;o passasse de uma censura    branda. Foi pesada. E, aqui chegado, percebeu o cerco. Nessa mesma noite eram    muitos os que ansiavam por um entendimento com o PCP. Algo que sempre recusou.    Apresentar uma mo&ccedil;&atilde;o de confian&ccedil;a poderia ser a solu&ccedil;&atilde;o    para sair de cabe&ccedil;a levantada em caso de recusa parlamentar. Mas tinha    um risco insuport&aacute;vel: ser aprovada, ou porque faltava um deputado, ou    porque votava o deputado &laquo;limiano&raquo;, ou porque o PCP se abstinha.    Guterres imaginou decerto o pandem&oacute;nio... Restar- -lhe-ia provocar elei&ccedil;&otilde;es    e recandidatar- se, mas o m&aacute;ximo que poderia ambicionar era ganhar com    uma maioria menor. Democr&aacute;tico, mas seria pior a emenda do que o soneto    aut&aacute;rquico. Constituir um novo governo sem elei&ccedil;&otilde;es nem    Guterres era ainda uma possibilidade, mas teria legitimidade? Algu&eacute;m    votou em 1999 num outro primeiro-ministro ou noutra solu&ccedil;&atilde;o parlamentar?  </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Naquela noite, Ant&oacute;nio Guterres foi r&aacute;pido a decidir. Foi-se    embora, t&atilde;o derrotado como aliviado. Deixou o PS embara&ccedil;ado, mas    com uma base eleitoral s&oacute;lida, como mais tarde se provou, apesar da derrota.    Agora pode compreender-se melhor o gesto de um tempo de bloqueamento e insatisfa&ccedil;&atilde;o    n&atilde;o apenas com o governo, mas tamb&eacute;m com as oposi&ccedil;&otilde;es.    O empate parlamentar simbolizava isso mesmo. </p>     <p>As elei&ccedil;&otilde;es foram surpresa geral. Alteraram os <i>timings</i>    dos partidos e, no caso do PS, obrigaram mesmo &agrave; escolha de emerg&ecirc;ncia    de um l&iacute;der. </p>     <p>A campanha eleitoral foi competitiva e produziu resultados significativos:  </p>     <p>&#8212; O PS perdeu para o PSD por uma pequena diferen&ccedil;a, a menor desde    1975; </p>     <p>&#8212; O CDS resistiu ao apelo do voto &uacute;til e acabou por se impor ao    PSD, que precisou dele para formar governo; </p>     <p>&#8212; A CDU teve os seus piores resultados; e o Bloco de Esquerda os seus    melhores. </p>     <p>Nem Dur&atilde;o Barroso nem Ferro Rodrigues (eleito um m&ecirc;s antes das    elei&ccedil;&otilde;es) entusiasmaram o eleitorado. Como diz Marina Costa Lobo,    embora a avalia&ccedil;&atilde;o das lideran&ccedil;as seja fundamental, o eleitorado    teve de escolher entre l&iacute;deres que n&atilde;o gozavam de grande popularidade.    Ferro Rodrigues n&atilde;o conseguiu captar os indecisos da sua &aacute;rea    pol&iacute;tica, muito menos os da direita. Em contrapartida, afirmou-se uma    lideran&ccedil;a, a de Paulo Portas no CDS/PP. </p>     <p>Ontem como hoje, dir-se-&aacute; que a campanha foi dominada pelo d&eacute;fice.    N&atilde;o exactamente, a mensagem predominante foi o apelo ao voto, &agrave;    maioria absoluta, depois os temas do futebol e da constru&ccedil;&atilde;o dos    est&aacute;dios, a seguir as quest&otilde;es do emprego ou do desemprego, e    s&oacute; depois os problemas da economia, das finan&ccedil;as p&uacute;blicas    e da fiscalidade.</p>     <p> Os principais partidos n&atilde;o foram muito claros na defini&ccedil;&atilde;o    das suas principais propostas, os tais &laquo;temas de posi&ccedil;&atilde;o&raquo;    estudados por Andr&eacute; Freire. O PSD explicou mal como conjugava a redu&ccedil;&atilde;o    do d&eacute;fice com o anunciado choque fiscal. O PS n&atilde;o foi convincente    quando disse que reduziria o d&eacute;fice mantendo a despesa social. Mas n&atilde;o    foi por aqui, pela avalia&ccedil;&atilde;o prospectiva, que se decidiram os    eleitores, mas pela avalia&ccedil;&atilde;o retrospectiva, de desempenho, particularmente    do desempenho econ&oacute;mico. O eleitorado acredita cada vez menos em promessas,    preocupa-se com o presente ou o passado recente. E, como sabemos, a situa&ccedil;&atilde;o    econ&oacute;mica e financeira deteriorou-se em 2000-2001. Foram, portanto, as    finan&ccedil;as e a fragilidade da lideran&ccedil;a que derrotaram o PS, ainda    que por uma pequena margem. </p>     <p>O voto dos portugueses oscila entre os dois principais partidos: PSD e PS.    Esta bipolariza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o resulta de velhas clivagens &#8212;    o impacto das estruturas sociais e ideol&oacute;gicas diminuiu, se &eacute;    que alguma vez foi realmente grande, exceptuando no PCP &#8212;, mas sobretudo    afirmam- -se os factores de curto prazo, seja a imagem dos candidatos ou o desempenho    econ&oacute;mico dos governantes. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Uma das caracteriza&ccedil;&otilde;es essenciais deste estudo passa pela tipologia    dos partidos. Simplificando, Pedro Magalh&atilde;es dizia h&aacute; poucos dias,    numa entrevista, que temos tido um partido socialista &laquo;conservador&raquo;    e um partido conservador &laquo;progressista &raquo;. O tal &laquo;centr&atilde;o&raquo;.    O PS e o PSD s&atilde;o t&iacute;picos partidos <i>catch-all</i>, ou seja,    partidos com uma posi&ccedil;&atilde;o ideol&oacute;gica pouco consistente e    pouco coerente, se tivermos em conta o percurso hist&oacute;rico nos primeiros    anos da democracia p&oacute;s-25 de Abril. Richard Gunther lembra uma afirma&ccedil;&atilde;o    de M&aacute;rio Soares sobre a defini&ccedil;&atilde;o ideol&oacute;gica do    PS. Soares dizia que o PS n&atilde;o era um partido marxista porque o marxismo    era apenas uma das tr&ecirc;s inspira&ccedil;&otilde;es, sendo as outras o cristianismo    humanista e o cooperativismo. O PS foi muitas vezes um aliado da Igreja cat&oacute;lica.    Tamb&eacute;m o PPD/PSD n&atilde;o cultivou, na sua afirma&ccedil;&atilde;o    partid&aacute;ria durante a revolu&ccedil;&atilde;o, uma distin&ccedil;&atilde;o    ideol&oacute;gica, tamb&eacute;m ele ia a caminho do socialismo, da Internacional    Socialista&#8230; PSD e PS s&atilde;o assim partidos eleitoralistas, j&aacute;    se uniram para governar, muitas vezes protegeram os seus interesses no designado    &laquo;bloco central&raquo;. Faltam contornos suficientemente distintivos, falta    uma organiza&ccedil;&atilde;o partid&aacute;ria eficaz, o que deixa PS e PSD    prisioneiros de lideran&ccedil;as mais ou menos fortes. S&oacute; o PCP, apesar    da eros&atilde;o, tem ra&iacute;zes sociais e ideol&oacute;gicas mais profundas.    Quando Pedro Magalh&atilde;es diz que n&atilde;o se lembra de Ant&oacute;nio    Guterres pronunciar a palavra &laquo;esquerda&raquo; e tem presente que Dur&atilde;o    Barroso faz quest&atilde;o de dizer que n&atilde;o &eacute; de &laquo;direita&raquo;,    isso diz bem das fronteiras pouco n&iacute;tidas entre os dois partidos. Hoje    talvez Ferro Rodrigues se afirme mais &agrave; esquerda, fale mais da esquerda,    mas nem por isso nesta altura de campanha eleitoral europeia se nota uma diferen&ccedil;a    fundamental no projecto europeu dos dois partidos. &Eacute; o desempenho pol&iacute;tico    e econ&oacute;mico recente que, mais uma vez, se coloca em cima da mesa eleitoral.</p>     <p>Tudo isto, toda esta facilidade em atravessar a fronteira PSD-PS ou PS - PSD,    conduz &agrave;quilo que os soci&oacute;logos designam por &laquo;volatilidade&raquo;.    Portugal tem, ali&aacute;s, como se comprova neste estudo comparado, os n&iacute;veis    mais elevados de volatilidade eleitoral. Os contextos e as personalidades s&atilde;o    diferentes, mas n&atilde;o deixa de ser curioso que o CDS j&aacute; tenha sido    parceiro de coliga&ccedil;&atilde;o do PS e do PSD. S&oacute; o PCP, exclu&iacute;do    o per&iacute;odo revolucion&aacute;rio dos governos provis&oacute;rios, n&atilde;o    partilhou o poder executivo nem afirmou qualquer alian&ccedil;a fora do seu    estrito espa&ccedil;o social e ideol&oacute;gico. O centrismo que nos tem governado    surge assim ami&uacute;de como um espa&ccedil;o de neutraliza&ccedil;&atilde;o    das ideologias, de dissolu&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;tica.</p>     <p> A faceta mais preocupante deste estudo &eacute; a que faz o retrato das atitudes    dos portugueses em rela&ccedil;&atilde;o ao sistema pol&iacute;tico. Somos,    diz Pedro Magalh&atilde;es, um dos pa&iacute;ses da Uni&atilde;o Europeia onde    o decl&iacute;nio da satisfa&ccedil;&atilde;o com a democracia foi mais acentuado    dos anos 80 at&eacute; hoje. Um sintoma da perman&ecirc;ncia de uma cultura    pol&iacute;tica &laquo;corporativa&raquo;, &laquo;autorit&aacute;ria&raquo;    e &laquo;iliberal&raquo;. Confrontamo-nos com um poder pol&iacute;tico pouco    escrutinado, apesar do crivo medi&aacute;tico, tentado pelo mediatismo, enredado    na necessidade de parecer, de aparecer, que faz o discurso da transpar&ecirc;ncia    para melhor se dissimular, ineficaz, impotente face &agrave; constela&ccedil;&atilde;o    dos interesses, desresponsabilizado. O que nos leva a falar da linha de fractura    essencial e que passa pelo papel e pelo funcionamento do Estado nas sociedades    contempor&acirc;neas. O pilar da justi&ccedil;a &eacute; fulcral e o que h&aacute;    muito podemos observar e testemunhar &eacute; que ele n&atilde;o funciona. O    Estado mostra- se incapaz de assegurar a justi&ccedil;a em tempo &uacute;til,    &eacute; incapaz de recolher os impostos, n&atilde;o assegura a livre concorr&ecirc;ncia    nos mercados, &eacute; uma esp&eacute;cie de Estado entre par&ecirc;nteses,    que &agrave;s vezes pede desculpa pela sua interrup&ccedil;&atilde;o, sempre    a prometer seguir dentro de momentos&#8230; </p>     <p>Na pol&iacute;tica, diziam alguns descrentes, apenas a lei &eacute; levada    a s&eacute;rio. Hoje, entre n&oacute;s, quando n&atilde;o se cumpre uma lei    faz-se outra&#8230; O eufemismo &eacute; cada vez mais a linguagem da pol&iacute;tica.    O discurso &eacute; t&aacute;ctico, f&aacute;ctico, adjectivo, adverbial. Perde    subst&acirc;ncia e o vazio suscita a d&uacute;vida: como substantivar uma pol&iacute;tica    adjectiva?</p>     <p> O catal&atilde;o Josep Ramoneda, que se tem ocupado da desmontagem do discurso    pol&iacute;tico, tem chamado a aten&ccedil;&atilde;o para o peso do eufemismo.    Para um iniciado nas lides pol&iacute;ticas a aprendizagem do eufemismo chega    a ser considerada um sintoma de responsabilidade, de maturidade pol&iacute;tica.    A maquilhagem discursiva converge no tal centrismo em que se neutralizam as    arestas e as pol&eacute;micas. A palavra perde valor pr&oacute;prio, vale em    fun&ccedil;&atilde;o de quem a diz. J&aacute; nem se estranha quando ouvimos    um governante dizer: &laquo;Uma coisa &eacute; o que se diz em campanha eleitoral,    outro plano &eacute; o da governa&ccedil;&atilde;o.&raquo; </p>     <p>Todos estes vectores confluem para um mal-estar observ&aacute;vel nos comportamentos    eleitorais. Se bem que o apoio &agrave; democracia representativa, &agrave;    sua legitimidade, &agrave; ideia de que n&atilde;o h&aacute; democracia sem    partidos, n&atilde;o esteja em causa, como observam Pedro Magalh&atilde;es e    Manuel Villaverde Cabral, o descontentamento com o funcionamento da democracia,    com o estado da economia e com a actua&ccedil;&atilde;o dos governos ganha uma    visibilidade muito forte. H&aacute; uma desafei&ccedil;&atilde;o, soltam-se    os la&ccedil;os entre pol&iacute;ticos e cidad&atilde;os, menos de metade dos    cidad&atilde;os se consideram bem representados, cava-se um fosso cada vez mais    largo entre os eleitores e os partidos e respectivos dirigentes. </p>     <p>Num artigo publicado na revista <i>An&aacute;lise Social</i> <sup><a href="#1">1</a><a name="top1"></a></sup>,    tamb&eacute;m no &acirc;mbito deste projecto, Peter Mair mostra-se pouco optimista    sobre o futuro dos partidos pol&iacute;ticos. Parecem existir poucas ou nenhumas    perspectivas de reconstru&ccedil;&atilde;o social de fortes ra&iacute;zes partid&aacute;rias    ou de que os partidos consolidem a sua identidade. E sobram muitas d&uacute;vidas    sobre o modo como os partidos poder&atilde;o fortalecer a representa&ccedil;&atilde;o.    Ali&aacute;s, Peter Mair desconfia de que a eros&atilde;o pode acentuar- se    e n&atilde;o restar aos partidos mais do que um papel procedimental para cuidar    das apar&ecirc;ncias&#8230; No futuro, prognostica, os partidos depender&atilde;o,    provavelmente, da orienta&ccedil;&atilde;o e do apoio contingente de organiza&ccedil;&otilde;es    da sociedade civil, que podem ser fontes de ideias e fornecer <i>feed-back</i>.    J&aacute; hoje conhecemos algumas em Portugal que v&atilde;o preparando o terreno    dos poderes. Os partidos n&atilde;o seriam mais do que m&aacute;quinas eleitorais,    se &eacute; que n&atilde;o s&atilde;o j&aacute;, preocupadas com a conquista    ou a conserva&ccedil;&atilde;o do poder. As organiza&ccedil;&otilde;es de interesses    canalizariam a representa&ccedil;&atilde;o enquanto os partidos se ocupariam    da governa&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>Pedro Magalh&atilde;es fala em &laquo;neglig&ecirc;ncia &raquo; dos cidad&atilde;os    face &agrave; vida p&uacute;blica, resultado de um comportamento passivo, de    desinteresse pela informa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica. E, se o v&iacute;nculo    se corta, diz Villaverde Cabral, h&aacute; riscos de ruptura. Embora o mal n&atilde;o    seja um exclusivo portugu&ecirc;s, o retrato n&atilde;o podia ser mais preocupante.    H&aacute; algum tempo, Alain Touraine alertava para o perigo da &laquo;desagrega&ccedil;&atilde;o    da sociedade pol&iacute;tica e da sociedade civil, reduzidas ambas a mercados    &raquo;. Segundo o soci&oacute;logo franc&ecirc;s, &laquo;a popula&ccedil;&atilde;o    pode renunciar &agrave; responsabilidade da cidadania e contentar- se com os    prazeres do consumo de massas, pedindo ao Estado que seja um pol&iacute;cia    ben&eacute;volo que distribui o seu socorro aos marginalizados da mudan&ccedil;a    econ&oacute;mica e que garante a seguran&ccedil;a das boas pessoas&raquo; <sup><a href="#2">2</a><a name="top2" id="top2"></a></sup>.  </p>     <p>O &laquo;mercado pol&iacute;tico&raquo; vai perdendo a sua subst&acirc;ncia    e torna-se cada vez mais um &laquo;mercado <i>tout court</i>&raquo;. Talvez    por isso Pierre Rosanvallon, director do Centro de Investiga&ccedil;&atilde;o    Pol&iacute;tica Raymond Aron de Paris, diga que a Uni&atilde;o Europeia alargada    a 25 vai mudar de natureza: ter&aacute; um grande mercado, mas n&atilde;o haver&aacute;    constru&ccedil;&atilde;o social nem solidariedade efectiva. O professor de Hist&oacute;ria    e Filosofia Pol&iacute;tica afirma que o problema- chave &eacute; a dissid&ecirc;ncia    dos ricos quando se p&otilde;e em causa o Estado-provid&ecirc;ncia, quando se    permite a fraude fiscal. Ao passarmos de uma sociedade de classes para uma sociedade    de indiv&iacute;duos, Rosanvallon considera que teremos de &laquo;reconstruir    os la&ccedil;os invis&iacute;veis entre os cidad&atilde;os, la&ccedil;os sociais    que n&atilde;o podem fabricar-se pela via identit&aacute;ria ou greg&aacute;ria&raquo;,    mas com base em &laquo;comunidades de experi&ecirc;ncias&raquo; <sup><a href="#3">3</a></sup><a name="top3"></a>.    E acrescenta: &laquo;Temos de inventar um novo Estado-provid&ecirc;ncia para    armar o indiv&iacute;duo, para lhe oferecer defesa e oportunidades, para lhe    assegurar o alojamento e a forma&ccedil;&atilde;o para que possa associar-se    e ter uma representa&ccedil;&atilde;o. H&aacute; que encontrar novas institui&ccedil;&otilde;es,    fixar novos objectivos, prestar uma nova seguran&ccedil;a <sup><a href="#4">4</a></sup><a name="top4"></a>.&raquo;  </p>     <p>Um cen&aacute;rio doce em tempos duros de secess&atilde;o social. N&oacute;s    por c&aacute;, garantido, garantido, &eacute; que &laquo;os interesses triunfam    sempre&raquo;. Palavra de presidente da Rep&uacute;blica. Jorge Sampaio pede    &laquo;um novo sobressalto democr&aacute;tico &raquo;. Enquanto ele n&atilde;o    surge, por que n&atilde;o aceitar o repto do provocador Mill&ocirc;r Fernandes?    Nas elei&ccedil;&otilde;es, possibilitar apenas o voto contra? O menos votado    seria eleito&#8230;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="right">   Ant&oacute;nio Jos&eacute; Teixeira</p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></sup> Peter Mair, &laquo;Os partidos    pol&iacute;ticos e a democracia&raquo;, in <i>An&aacute;lise Social</i>, vol.    XXXVIII (167), 2003, pp. 277-293.</p>     <p><sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></sup> Alain Touraine, <i>Qu&#8217;est-ce    que la d&eacute;mocratie</i>, Paris, Fayard, 1994.</p>     <p><sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></sup> <i>El Pais</i>, ed. de 6    de Junho de 2004. </p>     <p><sup><a name="4"></a><a href="#top4">4</a></sup> <i>Ibid</i>.</p>      ]]></body>
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