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</front><body><![CDATA[ <p>Maria Jo&atilde;o Valente Rosa, Cl&aacute;udia Vieira, <b>A Popula&ccedil;&atilde;o  Portuguesa no s&eacute;culo XX</b>, Lisboa, Imprensa de Ci&ecirc;ncias Sociais,  colec&ccedil;&atilde;o &laquo;Breve &#8212; Demografia&raquo;, 2003, 170 p&aacute;ginas.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p>Maria Lu&iacute;s Rocha Pinto</p>      <p>&nbsp;</p>      <p align="justify">A abordagem de um s&eacute;culo de demografia portuguesa feita    neste livro &eacute;, antes de mais, um texto util&iacute;ssimo e que se revelou    extremamente oportuno por a sua edi&ccedil;&atilde;o pouco ter diferido da sa&iacute;da    dos dados definitivos do recenseamento de 2001. &Eacute; tamb&eacute;m um livro    que, tal como as autoras anunciam na &laquo;Apresenta&ccedil;&atilde;o&raquo;,    pretende &laquo;produzir um trabalho de divulga&ccedil;&atilde;o destinado n&atilde;o    unicamente a dem&oacute;grafos ou a outros investigadores, como tamb&eacute;m    a um p&uacute;blico mais vasto&raquo;, o que as levou a uma linguagem simples    e a explica&ccedil;&otilde;es clarificadoras de alguns princ&iacute;pios da    demografia. As autoras assumem tamb&eacute;m que &laquo;a perspectiva de abordagem    que se privilegia &eacute; essencialmente descritiva&raquo;. Este duplo posicionamento    constitui-se, em minha opini&atilde;o, como o ponto mais forte do livro, mas    simultaneamente como a sua maior fragilidade, na medida em que, para o dem&oacute;grafo    e para especialistas de &aacute;reas afins, ele fica aqu&eacute;m das expectativas    do trabalho que poderia ser produzido por estas autoras sobre a demografia portuguesa    do s&eacute;culo xx. </p>     <p align="justify">Este texto revela, por outro lado, uma op&ccedil;&atilde;o,    que tem constitu&iacute;do uma quase constante dos trabalhos em que Maria Jo&atilde;o    Valente Rosa tem sido o fio condutor, sozinha ou com outros autores, de dar    a conhecer a demografia portuguesa de uma forma pragm&aacute;tica e quase dir&iacute;amos    utilit&aacute;ria, como complemento indispens&aacute;vel de outras abordagens    da realidade social portuguesa.      <p align="justify">Globalmente, gostaria ainda de saudar a inclus&atilde;o de    dois &iacute;ndices, um de quadros e outro de figuras, e ainda do anexo. O anexo    inclui as estruturas por idades da popula&ccedil;&atilde;o portuguesa para todos    os censos de 1900 a 2001 e as respectivas pir&acirc;mides et&aacute;rias, ferramentas    sempre &uacute;teis, bem como um gloss&aacute;rio dos principais termos e conceitos    utilizados. A inclus&atilde;o deste gloss&aacute;rio e a forma como est&aacute;    redigido refor&ccedil;am a perspectiva de se tratar de um texto que se pretende    acess&iacute;vel a n&atilde;o dem&oacute;grafos, n&atilde;o perdendo de vista    que o rigor da sua leitura depende de um correcto entendimento dos conceitos.  </p>     <p align="justify">O primeiro tema tratado, ap&oacute;s uma pequena nota introdut&oacute;ria    aos censos portugueses do per&iacute;odo considerado, diz respeito aos &laquo;Volumes    e din&acirc;micas populacionais&raquo;. Depois de uma abordagem simples relativa    aos volumes e ritmos de crescimento da popula&ccedil;&atilde;o, as autoras centram-se    fundamentalmente na din&acirc;mica populacional. </p>     <p align="justify">A din&acirc;mica natural &eacute; analisada e periodizada quer    em rela&ccedil;&atilde;o aos saldos naturais, quer em rela&ccedil;&atilde;o    &agrave; evolu&ccedil;&atilde;o da mortalidade e da natalidade. A mortalidade    surge tratada atrav&eacute;s das taxas brutas, da taxa de mortalidade infantil    e da esperan&ccedil;a de vida, esta na dupla vertente da esperan&ccedil;a de    vida &agrave; nascen&ccedil;a e da esperan&ccedil;a de vida aos 65 anos, o que    desde logo indicia a preocupa&ccedil;&atilde;o de uma an&aacute;lise mais pormenorizada    do envelhecimento no topo da popula&ccedil;&atilde;o.      <p align="justify">A an&aacute;lise da natalidade, vista tamb&eacute;m atrav&eacute;s    das respectivas taxas brutas e da fecundidade, &eacute; feita de forma mais    anal&iacute;tica e com menos informa&ccedil;&atilde;o do que a mortalidade.    Na explica&ccedil;&atilde;o da quebra do n&uacute;mero total de nados-vivos    para o per&iacute;odo de 1917 a 1919 gostaria de ter visto expresso, para al&eacute;m    do efeito da primeira guerra mundial, o efeito inequ&iacute;voco da gripe pneum&oacute;nica,    que &eacute;, ali&aacute;s, bem referenciada em nota sobre a evolu&ccedil;&atilde;o    do saldo natural deste mesmo per&iacute;odo. Ali&aacute;s, esta quest&atilde;o    volta a surgir mais &agrave; frente, na an&aacute;lise do aumento da nupcialidade    em 1920. Igualmente neste ponto existe uma outra pequena quest&atilde;o relativa    ao calend&aacute;rio da fecundidade, que &eacute; uma tem&aacute;tica que vale    a pena abordar quando se podem aprofundar mais os seus significados, quer demogr&aacute;ficos,    quer sociais. Quando as autoras se referem &agrave;s importantes altera&ccedil;&otilde;es    sofridas pela fecundidade nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas do s&eacute;culo,    abordam a altera&ccedil;&atilde;o do calend&aacute;rio da fecundidade, medida    pela idade m&eacute;dia da fecundidade ao nascimento do primeiro filho, que    se torna mais tardia e que ocorrem entre, genericamente, o in&iacute;cio da    d&eacute;cada de 80 e o in&iacute;cio da de 90, como significativa dessas altera&ccedil;&otilde;es.    Ora, acontece que Portugal teve de forma persistente ao longo do s&eacute;culo    uma fecundidade bastante tardia, que pode ser traduzida por uma idade m&eacute;dia    da fecundidade superior aos 30 anos em 1930, em cima dos 29 anos em 1970, em    cima dos 27 anos em 1980 e manifestando a partir da&iacute; novo movimento de    subida, como os valores das autoras tamb&eacute;m traduzem. Logo, a minha observa&ccedil;&atilde;o    tem a ver fundamentalmente com o facto de n&atilde;o ser referido que, tendo    embora em aten&ccedil;&atilde;o que os contextos sociais se foram alterando,    a fecundidade ter sempre sido tardia a n&iacute;vel nacional, manifestando um    lent&iacute;ssimo movimento para idades mais jovens, que se acentua de forma    r&aacute;pida ap&oacute;s 1974 (nos &uacute;ltimos anos da d&eacute;cada e at&eacute;    cerca de meados da d&eacute;cada de 80, a maior intensidade da fecundidade deslocou-se    mesmo para o grupo de idades 20-24). Julgo, assim, que, como ilustra&ccedil;&atilde;o    das altera&ccedil;&otilde;es sofridas pela fecundidade, o exemplo n&atilde;o    foi o mais feliz. H&aacute;, ali&aacute;s, ao longo do livro, mais algumas observa&ccedil;&otilde;es    das autoras que, em minha opini&atilde;o, deveriam ter sido mais fundamentadas.      ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="justify">Quanto &agrave; din&acirc;mica migrat&oacute;ria, as autoras    fazem uma an&aacute;lise fundamentalmente descritiva, simples e clara, chamando    a aten&ccedil;&atilde;o para a dificuldade de trabalhar com dados pouco fi&aacute;veis    e socorrendo-se de outros trabalhos j&aacute; realizados. A virtualidade deste    ponto est&aacute; na aten&ccedil;&atilde;o dada ao fen&oacute;meno da imigra&ccedil;&atilde;o    n&atilde;o s&oacute; no que cont&eacute;m de fen&oacute;meno novo na actualidade,    mas tamb&eacute;m na sua explicita&ccedil;&atilde;o ao longo do s&eacute;culo    xx. </p>     <p align="justify">O segundo tema, relativo &agrave;s &laquo;Fam&iacute;lias e    estruturas familiares&raquo;, tem uma estrutura interessante em que, a par de    uma an&aacute;lise sobre a evolu&ccedil;&atilde;o do n&uacute;mero de fam&iacute;lias    e da sua dimens&atilde;o m&eacute;dia, se encontram abordadas quest&otilde;es    sobre a evolu&ccedil;&atilde;o da tipologia das fam&iacute;lias e da sua complexifica&ccedil;&atilde;o    ao longo do per&iacute;odo. Surgem tamb&eacute;m tratadas vari&aacute;veis mais    comuns em trabalhos de demografia, como a nupcialidade ou o celibato. &Eacute;    de saudar a introdu&ccedil;&atilde;o deste ponto no trabalho, dado n&atilde;o    constituir uma &aacute;rea de an&aacute;lise muito usual em an&aacute;lises    de uma popula&ccedil;&atilde;o, principalmente tratando-se de uma vis&atilde;o    secular e inserida numa vis&atilde;o concisa dessa mesma evolu&ccedil;&atilde;o.      <p align="justify">Optaram as autoras pela abordagem do tema &laquo;As &Aacute;reas    Metropolitanas de Lisboa e do Porto e a ocupa&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o    portugu&ecirc;s&raquo;, que constitui o terceiro tema do livro, em detrimento    de uma an&aacute;lise sobre a evolu&ccedil;&atilde;o dos aspectos regionais    dessa mesma popula&ccedil;&atilde;o. Logo na &laquo;Apresenta&ccedil;&atilde;o&raquo;,    e na primeira nota, assumem n&atilde;o tratar esses aspectos, por considerarem    que &laquo;a sua import&acirc;ncia e especificidade justificam, s&oacute; por    si, um estudo &agrave; parte&raquo;. Assim, este tema percorre brevemente a    quest&atilde;o da progressiva litoraliza&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s e da    sua lenta urbaniza&ccedil;&atilde;o para se centrar na evolu&ccedil;&atilde;o    da popula&ccedil;&atilde;o, desde 1900, dos espa&ccedil;os hoje considerados    as &Aacute;reas Metropolitanas de Lisboa e do Porto. O trabalho come&ccedil;a    por incidir na an&aacute;lise do fen&oacute;meno da bipolariza&ccedil;&atilde;o    do povoamento em torno das cidades de Lisboa e do Porto para depois, com mais    pormenor, analisar a periodiza&ccedil;&atilde;o do fen&oacute;meno nas duas    &aacute;reas metropolitanas, descendo at&eacute; ao n&iacute;vel dos concelhos.    De forma pertinente, observam o papel diferencial dos saldos naturais e migrat&oacute;rios    neste processo.      <p align="justify">O &uacute;ltimo tema tratado corresponde &agrave; &laquo;Composi&ccedil;&atilde;o    da popula&ccedil;&atilde;o por idades&raquo;. Depois de uma abordagem dos aspectos    globais da evolu&ccedil;&atilde;o da estrutura et&aacute;ria da popula&ccedil;&atilde;o,    &eacute; dado algum relevo a cada um dos grupos funcionais (que correspondem    aos grupos de idade 0-14, 15-64 e 65 e mais anos). Para o &uacute;ltimo grupo    de idades &eacute;, de forma interessante, analisado o &laquo;&iacute;ndice    de envelhecimento interno&raquo;, ou seja, o progressivo aumento dos idosos    mais velhos. Em seguida &eacute; apresentada a evolu&ccedil;&atilde;o dos &iacute;ndices    de envelhecimento e dos r&aacute;cios de depend&ecirc;ncia. De forma descritiva,    &eacute; em seguida dada aten&ccedil;&atilde;o ao processo de envelhecimento    em curso, em que tamb&eacute;m se aborda o envelhecimento diferencial por sexo.    Este ponto &eacute; conclu&iacute;do por um pequeno exerc&iacute;cio de evolu&ccedil;&atilde;o    prospectiva da popula&ccedil;&atilde;o, utilizando dois modelos simples. O primeiro,    em que apenas s&atilde;o consideradas as vari&aacute;veis &laquo;mortalidade&raquo;    e &laquo;fecundidade/natalidade&raquo;, e um segundo, em que &eacute; tamb&eacute;m    inclu&iacute;da uma hip&oacute;tese relativamente aos movimentos migrat&oacute;rios.  </p>     <p align="justify">Este exerc&iacute;cio, sustentado na an&aacute;lise anterior    da evolu&ccedil;&atilde;o da popula&ccedil;&atilde;o nas suas v&aacute;rias    vertentes, permite &agrave;s autoras terminar este ponto com algumas observa&ccedil;&otilde;es    acerca n&atilde;o s&oacute; do futuro inexor&aacute;vel de envelhecimento da    popula&ccedil;&atilde;o portuguesa, como tamb&eacute;m sobre quais os factores    determinantes da velocidade a que ocorrer&aacute;, ou seja, os movimentos migrat&oacute;rios    e a fecundidade. </p>     <p align="justify">O livro termina com uma &laquo;S&iacute;ntese conclusiva&raquo;,    onde se defende a tese das cinco transi&ccedil;&otilde;es demogr&aacute;ficas    que Portugal sofreu ao longo do s&eacute;culo xx: epidemiol&oacute;gica, da    fecundidade, migrat&oacute;ria e urbana, familiar e, finalmente, et&aacute;ria.    &Eacute; uma abordagem interessante, que serve fundamentalmente como forma de    arruma&ccedil;&atilde;o das v&aacute;rias vertentes-chave da evolu&ccedil;&atilde;o    da popula&ccedil;&atilde;o portuguesa ao longo do s&eacute;culo xx e que permite    &agrave;s autoras terminar o seu livro concluindo que &laquo;Portugal deixou,    assim, de significar uma das principais excep&ccedil;&otilde;es da demografia    europeia no que diz respeito aos percursos e estruturas familiares, &agrave;s    condi&ccedil;&otilde;es sanit&aacute;rias e aos n&iacute;veis de mortalidade,    &agrave; composi&ccedil;&atilde;o et&aacute;ria da popula&ccedil;&atilde;o,    aos n&iacute;veis de urbaniza&ccedil;&atilde;o, aos n&iacute;veis de fecundidade    ou &agrave; atrac&ccedil;&atilde;o exercida sobre a popula&ccedil;&atilde;o    de outros pa&iacute;ses. E por todas estas raz&otilde;es afirmou-se, no final    do s&eacute;culo xx, como um pa&iacute;s de demografia moderna.&raquo;</p>       ]]></body>
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