<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0003-2573</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Análise Social]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Anál. Social]]></abbrev-journal-title>
<issn>0003-2573</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0003-25732005000300016</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Dilemas da Civilização Tecnológica]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Nascimento]]></surname>
<given-names><![CDATA[Susana]]></given-names>
</name>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A">
<institution><![CDATA[,  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>07</month>
<year>2005</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>07</month>
<year>2005</year>
</pub-date>
<numero>175</numero>
<fpage>441</fpage>
<lpage>446</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0003-25732005000300016&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0003-25732005000300016&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0003-25732005000300016&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="justify">Herm&iacute;nio Martins, Jos&eacute; Lu&iacute;s Garcia (coords.),    <b>Dilemas da Civiliza&ccedil;&atilde;o Tecnol&oacute;gica</b>, Lisboa, Imprensa    de Ci&ecirc;ncias Sociais, 2003, 377 p&aacute;ginas. </p>      <p>&nbsp;</p>      <p>Susana Nascimento</p>      <p>&nbsp;</p>      <p align="justify">A presente obra centra-se na tem&aacute;tica da ci&ecirc;ncia    e da tecnologia, enquanto processos e estruturas centrais na actual civiliza&ccedil;&atilde;o    ocidental, segundo uma linha problematizadora que procura debater, nos mais    v&aacute;rios dom&iacute;nios sociais e na pr&oacute;pria &laquo;condi&ccedil;&atilde;o    humana&raquo;, as muitas encruzilhadas ou &laquo;dilemas&raquo; suscitados pelo    avan&ccedil;ar exponencial do fen&oacute;meno tecnocient&iacute;fico. Tal &eacute;    o tra&ccedil;o comum do conjunto de catorze textos de autores portugueses e    estrangeiros de diferentes gera&ccedil;&otilde;es e percursos intelectuais que    perfazem <i>Dilemas da Civiliza&ccedil;&atilde;o Tecnol&oacute;gica</i>.</p>     <p align="justify">Os seus ensaios adv&ecirc;m de um debate entrecruzado destes    mesmos autores no Col&oacute;quio Internacional sobre Ci&ecirc;ncia, Natureza    e Tecno&eacute;tica, realizado em Cascais em Setembro de 2001, por iniciativa    do programa &laquo;Ci&ecirc;ncia, Tecnologia e Vida Contempor&acirc;nea&raquo;    do Instituto de Ci&ecirc;ncias Sociais da Universidade de Lisboa (ICSUL), dirigido    pelos coordenadores da obra. Compreendendo a estrutura deste livro quatro sec&ccedil;&otilde;es,    s&atilde;o privilegiados na discuss&atilde;o: os &laquo;Dilemas te&oacute;ricos&raquo;    (caps. i a iv); os &laquo;Dilemas da condi&ccedil;&atilde;o humana&raquo; (caps.    v a vii); os &laquo;dilemas &eacute;ticos&raquo; (caps. viii a x); os &laquo;Dilemas    do ciberespa&ccedil;o e da globaliza&ccedil;&atilde;o&raquo; (caps. xi a xiv).  </p>     <p align="justify">Num esfor&ccedil;o de s&iacute;ntese, coloca-se o in&iacute;cio    desta recens&atilde;o no cap. i, no qual Herm&iacute;nio Martins (<i>emeritus    fellow</i> do St. Antony's College da Universidade de Oxford, investigador coordenador    convidado do Instituto de Ci&ecirc;ncias Sociais da Universidade de Lisboa e    um dos mais proeminentes pensadores portugueses sobre a t&eacute;cnica) nos    apresenta o texto &laquo;Acelera&ccedil;&atilde;o, progresso e <i>experimentum    humanum&raquo;</i> atrav&eacute;s de excelentes &laquo;refer&ecirc;ncias desviantes&raquo;    sobre a genealogia da tem&aacute;tica da acelera&ccedil;&atilde;o. O texto &eacute;    composto por uma primeira parte, denominada &laquo;Popula&ccedil;&atilde;o e    acelera&ccedil;&atilde;o&raquo;, onde explora um fen&oacute;meno caracter&iacute;stico    do mundo actual de mudan&ccedil;as tecno-econ&oacute;micas exponenciais, e por    uma segunda parte, com o nome de &laquo;Acelera&ccedil;&atilde;o para a singularidade&raquo;,    em que problematiza uma corrente actual do pensamento nas ci&ecirc;ncias da    vida, da mente e do c&eacute;rebro enunciadora de uma muta&ccedil;&atilde;o    ontol&oacute;gica radical para o ser p&oacute;s-humano a ocorrer num prazo de    trinta a cinquenta anos e que assim dispensaria a intelig&ecirc;ncia natural    e o corpo biol&oacute;gico.      <p align="justify">Herm&iacute;nio Martins caracteriza esta posi&ccedil;&atilde;o    dos &laquo;trans-humanistas&raquo; ou &laquo;cibergn&oacute;sticos&raquo; pelo    desprezo que apresentam face a uma primazia ontol&oacute;gica, c&oacute;smica    ou epistemol&oacute;gica do ser vivo biol&oacute;gico (em particular do <i>homo    sapiens</i>), aliado a uma concep&ccedil;&atilde;o de um <i>faber hominis</i>,    um &laquo;homem construtor do homem&raquo; que implica o &laquo;experimento-sobre-o-homem&raquo;    ou <i>experimentum humanum</i>, atrav&eacute;s de interven&ccedil;&otilde;es    sobre o seu pr&oacute;prio ser ou a sua pr&oacute;pria natureza. Realizando    um acentuado exerc&iacute;cio geneal&oacute;gico, o autor remete estes &laquo;aceleracionistas    escatol&oacute;gicos&raquo; para uma matriz original presente, de forma indirecta,    nas obras do f&iacute;sico-qu&iacute;mico John Desmond Bernal (1929), do fil&oacute;sofo    Fran&ccedil;ois Meyer (1953) e do matem&aacute;tico I. J. Good (1965). De forma    cr&iacute;tica, Herm&iacute;nio Martins exp&otilde;e um paradoxo fundamental    nesta corrente: os processos de transforma&ccedil;&atilde;o tecno-econ&oacute;mica    e tecnocibern&eacute;tica, indispens&aacute;veis &agrave; nossa sobreviv&ecirc;ncia,    levam &agrave; interrup&ccedil;&atilde;o dessa mesma exist&ecirc;ncia humana    biol&oacute;gica, passando por uma ciborgifica&ccedil;&atilde;o, e em vista    do verdadeiro p&oacute;s-humano, o <i>ens virtualissimum</i>.</p>     <p align="justify">Esta transforma&ccedil;&atilde;o da natureza humana com vista    &agrave; sua supera&ccedil;&atilde;o encontra uma discuss&atilde;o aprofundada    no cap. v, &laquo;Tecnologia e sele&ccedil;&atilde;o. Varia&ccedil;&otilde;es    sobre o futuro do humano&raquo;, da autoria de Laymert Garcia dos Santos, investigador    e docente brasileiro do Instituto de Filosofia e Ci&ecirc;ncias Humanas da Universidade    Estadual de Campinas. Para este autor existe uma distin&ccedil;&atilde;o conceptual    entre a vis&atilde;o dos &laquo;aceleracionistas escatol&oacute;gicos&raquo;    (Herm&iacute;nio Martins) e a apologia dos seres p&oacute;s-humanos de suporte    biol&oacute;gico ou maqu&iacute;nico de N. Katherine Hayles (embora estreitamente    ligadas). Laymert dos Santos distingue fundamentalmente uma quarta varia&ccedil;&atilde;o    do tema, formulada por Gilles Deleuze e Keith Ansell Pearson, que radicaliza    as perspectivas p&oacute;s-modernas anteriores atrav&eacute;s de uma defesa    de uma condi&ccedil;&atilde;o trans-humana, de uma &laquo;forma-al&eacute;m--do-homem&raquo;.    Numa nova concep&ccedil;&atilde;o de evolu&ccedil;&atilde;o maqu&iacute;nica,    a vida passa a ser pensada pela vontade de pot&ecirc;ncia (a natureza como inven&ccedil;&atilde;o    ou t&eacute;cnica), dirigida para uma experimenta&ccedil;&atilde;o de excessos    que atravessa os homens, as plantas e as m&aacute;quinas, dispensando qualquer    pressuposto teleol&oacute;gico da natureza humana.</p>     <p align="justify">O esfor&ccedil;o de clarifica&ccedil;&atilde;o conceptual realizado    pelos autores anteriores reenvia igualmente para o cap. iii, &laquo;Sobre as    origens da cr&iacute;tica da tecnologia na teoria social. A vis&atilde;o pioneira    e negligenciada da autonomia da tecnologia de Georg Simmel&raquo;, de Jos&eacute;    Lu&iacute;s Garcia (assistente de investiga&ccedil;&atilde;o do Instituto de    Ci&ecirc;ncias Sociais da Universidade de Lisboa). O autor sustenta, neste ensaio,    a originalidade de Simmel<sup><a href="#1">1</a><a name="top1"></a></sup> como    fundador de um pensamento social cr&iacute;tico acerca do processo de autonomiza&ccedil;&atilde;o    da tecnologia nas sociedades modernas, que prosseguiu num amplo sentido em v&aacute;rios    autores, como, por exemplo, Max Weber, Harold Innis, Lewis Mumford, Herbert    Marcuse, Hannah Arendt e Jacques Ellul. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="justify">Analisando exaustivamente as formula&ccedil;&otilde;es de Simmel    em v&aacute;rios trabalhos e ensaios, em particular no estudo de 1900 A <i>Filosofia    do Dinheiro</i>, Jos&eacute; Lu&iacute;s Garcia destaca a posi&ccedil;&atilde;o    epistemol&oacute;gica inovadora de Simmel da &laquo;rela&ccedil;&atilde;o movente    entre os meios e as formas sociais&raquo; (p. 103) e afirma a sua consequente    concep&ccedil;&atilde;o dial&eacute;ctica da tecnologia n&atilde;o somente como    um conjunto de artefactos e meios instrumentais (que integram a cultura objectiva),    mas como exterioriza&ccedil;&atilde;o do esp&iacute;rito subjectivo na cultura    (como estado da rela&ccedil;&atilde;o do ser humano com o mundo), contrariando    assim qualquer tipo de determinismo econ&oacute;mico, sociol&oacute;gico ou    tecnol&oacute;gico.</p>     <p align="justify">No entanto, para Jos&eacute; Lu&iacute;s Garcia, a originalidade    de Simmel concretiza-se tamb&eacute;m num diagn&oacute;stico da cultura do mundo    moderno que apresenta uma hipertrofia da cultura objectiva e um eminente recuo    da subjectividade que o autor designa por &laquo;tecniciza&ccedil;&atilde;o    interior&raquo;. Num mundo moderno dominado por racionalidades calculistas,    instrumentais, aritm&eacute;ticas, quantitativas e utilit&aacute;rias, Simmel    denuncia como os processos e progressos t&eacute;cnicos se tornam sistemas aut&oacute;nomos    que atingem o estatuto de fim da pr&oacute;pria ac&ccedil;&atilde;o pr&aacute;tica    dos seres humanos. E assim ocorre a designada &laquo;heterogonia dos fins&raquo;,    segundo a qual os meios encontram a sua transforma&ccedil;&atilde;o nos pr&oacute;prios    fins do homem que se v&ecirc; alienado perante os instrumentos criados por si.    Em contraposi&ccedil;&atilde;o, a proposta filos&oacute;fica simmeliana sintetizada    por Jos&eacute; Lu&iacute;s Garcia procura &laquo;[g]uiar o mundo objectivo    do homem por rela&ccedil;&atilde;o ao homem, ou melhor, a uma ideia de homem    [...]&raquo; (p. 134) que remete para um agir &eacute;tico. </p>     <p align="justify">No cap. ii, &laquo;Duas vis&otilde;es da civiliza&ccedil;&atilde;o    tecnol&oacute;gica&raquo;, Langdon Winner (professor de Ci&ecirc;ncia Pol&iacute;tica    no Departamento de Estudos de Ci&ecirc;ncia e Tecnologia do Instituto Polit&eacute;cnico    de Renssellaer, Nova Iorque) desenvolve na mesma linha as cr&iacute;ticas formuladas    por Herm&iacute;nio Martins e Jos&eacute; Lu&iacute;s Garcia perante determinadas    concep&ccedil;&otilde;es de mudan&ccedil;a tecnol&oacute;gica como impulsionadora    de for&ccedil;as cont&iacute;nuas e aut&oacute;nomas. Num enfoque eminentemente    pol&iacute;tico, o autor procura contrariar a ideia de inova&ccedil;&atilde;o    tecnol&oacute;gica dotada de um rumo definido que n&atilde;o necessita ou n&atilde;o    possibilita a discuss&atilde;o alargada das escolhas sociais e pol&iacute;ticas    subjacentes. Colocando o acento no agir do homem enquanto ser pol&iacute;tico,    Winner pugna por um novo tipo de movimento social, um &laquo;movimento da tecnologia    profunda&raquo;, que poder&aacute; desempenhar um &laquo;papel promissor&raquo;    ao promover a discuss&atilde;o dos problemas da tecnologia de forma aberta,    p&uacute;blica e controversa, questionando criticamente os fins dos projectos    de inova&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica.</p>     <p align="justify">O texto anterior encontra poss&iacute;veis pontos de conex&atilde;o    com Viriato Soromenho-Marques (professor auxiliar do Departamento de Filosofia    da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), que, no cap. xiv, &laquo;T&eacute;cnica,    cidadania e globaliza&ccedil;&atilde;o: for&ccedil;as e limites de uma rela&ccedil;&atilde;o    complexa&raquo;, defende tamb&eacute;m uma &laquo;cultura pol&iacute;tica do    exerc&iacute;cio da cidadania&raquo; centrada nos movimentos sociais, mas efectivamente    ligada a um modelo federal de governa&ccedil;&atilde;o em estreita rela&ccedil;&atilde;o    com os cidad&atilde;os. </p>     <p align="justify">Num tom semelhante de valoriza&ccedil;&atilde;o da cidadania,    Jos&eacute; L&oacute;pez Cerejo (professor de Filosofia da Ci&ecirc;ncia na    Universidade de Oviedo, Espanha) toma como pressuposto no cap. iv, &laquo;Governabilidade    na sociedade de conhecimento&raquo;, a possibilidade de concretizar distintas    traject&oacute;rias na evolu&ccedil;&atilde;o da tecnoci&ecirc;ncia numa &laquo;sociedade    de conhecimento&raquo; e de &laquo;risco&raquo; para colocar a quest&atilde;o    fundamental da escolha do modelo de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas. Na sua    perspectiva, tal escolha dever&aacute; depender da participa&ccedil;&atilde;o    alargada dos cidad&atilde;os como condi&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria &agrave;    governabilidade e legitimidade democr&aacute;tica das sociedades contempor&acirc;neas    com vista &agrave; constru&ccedil;&atilde;o de uma &laquo;sociedade de sabedoria&raquo;    apoiada numa consci&ecirc;ncia &eacute;tica e moral.</p>     <p align="justify">No cap. vii surge Jos&eacute; Esteban Castro (investigador    principal do Centro de Pesquisas sobre a &Aacute;gua da Universidade de Oxford)    com o texto &laquo;Incertezas manufacturadas, tecnoci&ecirc;ncia e pol&iacute;ticas    de desigualdade: o caso da gest&atilde;o dos recursos h&iacute;dricos&raquo;,    centrado num dilema pol&iacute;tico espec&iacute;fico de grande actualidade.    Neste caso, o autor defende um equil&iacute;brio entre os dom&iacute;nios t&eacute;cnicos,    s&oacute;cio-econ&oacute;micos e pol&iacute;ticos, salientando o papel dos cientistas    sociais em clarificarem os processos sociais determinantes nos conflitos no    acesso &agrave; &aacute;gua. Afirmando que nos conflitos intranacionais as dificuldades    no acesso a este recurso vital s&atilde;o resultado n&atilde;o s&oacute; de    limita&ccedil;&otilde;es t&eacute;cnicas ou f&iacute;sico-naturais, mas principalmente    de sistemas de desigualdades s&oacute;cio-econ&oacute;micas estruturais que    transfiguram assim estes conflitos numa &laquo;[...] express&atilde;o da luta    social mais alargada pela expans&atilde;o e consolida&ccedil;&atilde;o dos direitos    de cidadania&raquo; (p. 205). </p>     <p align="justify">Por&eacute;m, o desenvolvimento de um modelo de organiza&ccedil;&atilde;o    e de ac&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica consciente do car&aacute;cter paradoxal    da ci&ecirc;ncia e da tecnologia como potencialmente ben&eacute;ficas, mas portadoras    de riscos passados, presentes e futuros, pode remeter para uma discuss&atilde;o    do agir &eacute;tico, moral e/ou religioso dos cidad&atilde;os e dos cientistas    (ou dos m&eacute;dicos e da sua &laquo;&eacute;tica particularista&raquo; de    &laquo;aten&ccedil;&atilde;o &agrave; vida&raquo;), como abordado no cap. vi,    &laquo;O vinagre e a monarquia. Pequena hist&oacute;ria das indiferen&ccedil;as    em medicina&raquo;, de Manuel Silv&eacute;rio Marques (m&eacute;dico hematologista    e membro do Centro de Estudos de Filosofia da Medicina do Instituto Portugu&ecirc;s    de Oncologia de Francisco Gentil). Neste mesmo sentido encontramos a proposta    de Rafael Marques (professor auxiliar do Instituto Superior de Economia e Gest&atilde;o    da Universidade T&eacute;cnica de Lisboa e membro do Centro de Investiga&ccedil;&atilde;o    em Sociologia Econ&oacute;mica e das Organiza&ccedil;&otilde;es do mesmo Instituto)    no cap. x, &laquo;Os fundamentos de uma &eacute;tica amoral: a sociedade da    reciprocidade&raquo;, apresentando-se porventura como controversa na sua defesa    de uma &laquo;&eacute;tica sem moralidade&raquo;, isto &eacute;, sem estar baseada    num ideal de perfei&ccedil;&atilde;o da conduta humana, mas num esquema universal    de interac&ccedil;&otilde;es sociais livres que pressup&otilde;e o dever de    responder com a ideia de transcender o que, por sua vez, se recebeu. </p>     <p align="justify">No cap. viii, &laquo;Ci&ecirc;ncia e religi&atilde;o: aproxima&ccedil;&atilde;o    e dist&acirc;ncia &agrave; luz de uma an&aacute;lise epistemol&oacute;gica&raquo;,    Maria Manuel Ara&uacute;jo Jorge (professora associada do Departamento de Filosofia    da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e membro do Instituto de Filosofia    Moderna e Contempor&acirc;nea da mesma Faculdade) procura aprofundar os discursos    cient&iacute;ficos e religiosos frequentemente considerados antag&oacute;nicos.    A seu ver, a compreens&atilde;o da verdade, enquanto demonstrabilidade cient&iacute;fica,    contudo tamb&eacute;m como experi&ecirc;ncia subjectiva, pode ser realizada    num di&aacute;logo entre ambos em zonas de media&ccedil;&atilde;o, onde se estabele&ccedil;a,    por exemplo, a &laquo;bio&eacute;tica&raquo; enquanto &laquo;saber h&iacute;brido    que tenta aproximar o ser do dever ser&raquo; (p. 232) e que contribui para    aproximar ci&ecirc;ncia, &eacute;tica, religi&atilde;o, tradi&ccedil;&otilde;es,    etc. O campo disciplinar controverso da bio&eacute;tica encontra uma an&aacute;lise    aplicada no cap. ix, &laquo;&Eacute;tica e religi&atilde;o na sociedade t&eacute;cnico-cient&iacute;fica.    A vis&atilde;o dos jesu&iacute;tas portugueses&raquo;, de Helena Mateus Jer&oacute;nimo    (assistente do Instituto Superior de Economia e Gest&atilde;o da Universidade    T&eacute;cnica de Lisboa e membro do Centro de Investiga&ccedil;&atilde;o em    Sociologia Econ&oacute;mica e das Organiza&ccedil;&otilde;es). Esta autora analisa    o debate nas p&aacute;ginas da revista <i>Brot&eacute;ria</i> (da qual Maria    Manuel Ara&uacute;jo Jorge &eacute; uma das colaboradoras), publica&ccedil;&atilde;o    de influ&ecirc;ncia e divulga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica da responsabilidade    de uma ordem religiosa da Igreja cat&oacute;lica. Embora destacando a sua import&acirc;ncia    no campo do debate, Helena Jer&oacute;nimo critica de forma geral o centramento    exclusivo da revista na reflex&atilde;o moral, teol&oacute;gica e axiol&oacute;gica    sobre o conhecimento cient&iacute;fico, privilegiando o campo da bio&eacute;tica    e secundarizando outras abordagens &eacute;ticas, como as desenvolvidas por    Hans Jonas e J&uuml;rgen Habermas.</p>     <p align="justify">Por fim, a &uacute;ltima sec&ccedil;&atilde;o da obra introduz    o debate sobre os dilemas tecnol&oacute;gicos associados &agrave; &laquo;revolu&ccedil;&atilde;o    inform&aacute;tica&raquo; nas tecnologias de informa&ccedil;&atilde;o e de comunica&ccedil;&atilde;o    e a sua influ&ecirc;ncia nas v&aacute;rias esferas da vida social. Neste &acirc;mbito    &eacute;-nos apresentado, no campo econ&oacute;mico e cultural, no cap. xiii,    de Jos&eacute; Afonso Furtado (director da Biblioteca de Arte da Funda&ccedil;&atilde;o    Calouste Gulbenkian e membro do Conselho Superior de Bibliotecas), o texto &laquo;A    edi&ccedil;&atilde;o no mundo digital: quest&otilde;es de c&oacute;digo e de    controlo&raquo;, onde o autor se debru&ccedil;a sobre algumas das dificuldades    no advento de livros electr&oacute;nicos, como a gest&atilde;o da propriedade    intelectual e os novos modelos de neg&oacute;cio.</p>     <p align="justify">Num campo distinto de discuss&atilde;o te&oacute;rica, no cap.    xi, &laquo;Uma teoria da globaliza&ccedil;&atilde;o <i>avant la lettre</i>.    Tecnologias da comunica&ccedil;&atilde;o, espa&ccedil;o e tempo em Harold Innis&raquo;,    Filipa Subtil (assistente da Escola Superior de Comunica&ccedil;&atilde;o Social    do Instituto Polit&eacute;cnico de Lisboa) procura recuperar as intui&ccedil;&otilde;es    pioneiras de Harold Adams Innis, uma das maiores influ&ecirc;ncias de Marshall    McLuhan, pela sua an&aacute;lise cr&iacute;tica da rela&ccedil;&atilde;o entre    comunica&ccedil;&atilde;o, tecnologia, tempo, espa&ccedil;o e globaliza&ccedil;&atilde;o.    Se, por um lado, reconhece uma continuidade de pensamento entre os dois autores,    por outro lado, Filipa Subtil enfatiza as suas diferen&ccedil;as fulcrais no    tom mais cr&iacute;tico de Innis a respeito da coloniza&ccedil;&atilde;o do    espa&ccedil;o e da comercializa&ccedil;&atilde;o do tempo pelos modernos meios    de comunica&ccedil;&atilde;o e o consequente decl&iacute;nio das formas de democracia    participativa. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="justify">O relativo esquecimento da vis&atilde;o de Innis, denunciado    pela autora, pode ser contraposto &agrave; expans&atilde;o das teorias de McLuhan,    embora no cap. xii, &laquo;Teoria criog&eacute;nica. Remediar McLuhan como &iacute;cone    da cibercultura&raquo;, Chris Horrocks (<i>senior lecturer</i> de Hist&oacute;ria    de Arte na Universidade de Kingston, Reino Unido) aponte tra&ccedil;os revisionistas    no tratamento de McLuhan por parte da cibercultura nos anos 90. Com efeito,    Horrocks exp&otilde;e que, sobretudo num primeiro momento de cria&ccedil;&atilde;o    do seu l&eacute;xico base, a cibercultura realizou um decalque acr&iacute;tico    e uma aplica&ccedil;&atilde;o directa das formula&ccedil;&otilde;es de McLuhan,    transformado num &laquo;profeta m&iacute;tico&raquo; desaparecido, marginalizado    e ressuscitado na era da Internet.</p>     <p align="justify">Os debates aprofundados em <i>Dilemas da Civiliza&ccedil;&atilde;o    Tecnol&oacute;gica</i> revelam controv&eacute;rsias centrais nos campos ambientais,    pol&iacute;ticos, econ&oacute;micos e culturais potenciadas pelos avan&ccedil;os    tecnol&oacute;gicos contempor&acirc;neos. Como problema primordial encontra-se    a defini&ccedil;&atilde;o que a ci&ecirc;ncia realiza de si pr&oacute;pria em    fun&ccedil;&atilde;o das t&eacute;cnicas, esquecendo a sua dota&ccedil;&atilde;o    original de conhecimento orientado para finalidades a serem definidas pelo ser    humano. Contrariando, por um lado, esta &laquo;tecnoci&ecirc;ncia&raquo; dominante    e, por outro, certas tend&ecirc;ncias nos estudos sociais sobre a ci&ecirc;ncia    que desembocam em anticienticismos ou assentimentos acr&iacute;ticos, urge um    pensamento social radical que defenda a sua liberdade de reflex&atilde;o e de    cr&iacute;tica, mas sempre em di&aacute;logo com o campo da ci&ecirc;ncia e    com os seus especialistas. </p>      <p>&nbsp;</p>      <p align="justify"><sup><a href="#top1">1</a><a name="1"></a></sup> De salientar    que alguns dos seus ensaios foram publicados em 2004 pela Rel&oacute;gio d'&Aacute;gua    sob o t&iacute;tulo Fragmento sobre o Amor e Outros Textos.</p>       ]]></body>
</article>
