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</front><body><![CDATA[ <P  ALIGN="JUSTIFY"><I>Lu&iacute;sa</I> <I>Schmidt</I>, <B>Ambiente no Ecr&atilde;.    Emiss&otilde;es e Demiss&otilde;es no Servi&ccedil;o P&uacute;blico Televisivo,</B>    Lisboa, Imprensa de Ci&ecirc;ncias Sociais, 2003, 465 p&aacute;ginas.      <P  ALIGN="JUSTIFY">Eduardo Cintra Torres     <P ALIGN="JUSTIFY">      <p align="justify">Retomando a disserta&ccedil;&atilde;o de doutoramento da autora    em 1999, esta obra baseia-se num amplo levantamento tem&aacute;tico de um <I>media:</I>    todas as not&iacute;cias, num total de 1374, e todos os programas, num total    de 9155, sobre temas ambientais na RTP desde 1957 a 1995. Foram visionados &#171;cerca    de 786&#187; itens. Raramente se encontra um trabalho na &aacute;rea dos <I>media</I>    com um t&atilde;o extenso corpo de material emp&iacute;rico. Este levantamento    permitiu &agrave; autora criar s&eacute;ries integrais e, atrav&eacute;s delas,    estabelecer uma periodiza&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica da aten&ccedil;&atilde;o    do &uacute;nico e depois principal canal de televis&atilde;o nacional aos temas    ambientais. </p>     <P ALIGN="JUSTIFY">O percurso hist&oacute;rico dos temas e a sua representa&ccedil;&atilde;o    medi&aacute;tica podem, por isso, almejar um grande detalhe, que atinge at&eacute;    o desnecess&aacute;rio, como as estat&iacute;sticas acerca das fam&iacute;lias    de animais mais ou menos exibidas na programa&ccedil;&atilde;o televisiva (as    aves, os animais aqu&aacute;ticos e os mam&iacute;feros marinhos...). As s&eacute;ries    estat&iacute;sticas revelam que, em geral, a televis&atilde;o aborda os temas    quando eles se tornam social e mediaticamente relevantes noutros pa&iacute;ses    e com repercuss&otilde;es em Portugal, seja a prop&oacute;sito da crise energ&eacute;tica,    da polui&ccedil;&atilde;o ou da globaliza&ccedil;&atilde;o dos problemas ambientais    com as grandes cat&aacute;strofes. Um dado surpreendente &eacute; o da quase    total desaten&ccedil;&atilde;o medi&aacute;tica com o ambientenos primeiros    anos depois do 25 de Abril, com quebra relativamente ao per&iacute;odo anterior,    indicando que o novo espa&ccedil;o p&uacute;blico democr&aacute;tico e a constru&ccedil;&atilde;o    da sociedade civil n&atilde;o passavam pelos problemas ambientais (p. 403).    O tema ambiente s&oacute; se &#171;banaliza&#187; a partir de 1980 (p. 157).      <P ALIGN="JUSTIFY">Partindo de uma &#171;articula&ccedil;&atilde;o vivaz&#187;    (p. 33) entre o ambiente e os <I>media,</I> a obra estabelece a correla&ccedil;&atilde;o    entre a sociologia do ambiente e a sociologia da comunica&ccedil;&atilde;o (p.    17), mas parte da televis&atilde;o para chegar ao ambiente: sendo a base fundamental    do trabalho as representa&ccedil;&otilde;es televisivas do ambiente (cotejadas    ainda pela informa&ccedil;&atilde;o num <I>media </I>escrito, a revista <I>Vida</I>    <I>Mundial</I> at&eacute; 1973 e depois o <I>Expresso</I>), a autora assume    o ambiente como uma constru&ccedil;&atilde;o cultural. A &#171;realidade&#187;    entrevista &eacute; a &#171;realidade&#187; cultural acerca da &#171;realidade&#187;    factual: citando Mauro Wolf, a autora afirma que a &#171;cultura telemitida&#187;    assume um papel essencial como &#171;n&uacute;cleo central da produ&ccedil;&atilde;o    simb&oacute;lica na sociedade actual&#187; (p. 54). A escolha da articula&ccedil;&atilde;o    entre as duas sociologias, do ambiente e da comunica&ccedil;&atilde;o, atrav&eacute;s    da an&aacute;lise da televis&atilde;o fica justificada com a asser&ccedil;&atilde;o    de Luhmann &#171;a sociedade &eacute; certamente um sistema sens&iacute;vel    ao ambiente, mas s&oacute; o observa mediante a comunica&ccedil;&atilde;o&#187;    (cit. p. 64).      <P ALIGN="JUSTIFY">A partir da&iacute;, a reflex&atilde;o da incid&ecirc;ncia    informativa sobre o ambiente foi feita atrav&eacute;s de &#171;tr&ecirc;s n&iacute;veis    de articula&ccedil;&atilde;o&#187; entre ambiente, <I>media </I>e opini&atilde;o    p&uacute;blica: a perspectiva da <I>agenda-setting function;</I> a &#171;perspectiva    construtivista&#187;, que considera os problemas ambientais, &#171;acima de    tudo&#187;, uma constru&ccedil;&atilde;o dos<I> media;</I> a &#171;perspectiva    interaccionista&#187;, que toma em conta a rela&ccedil;&atilde;o entre os diversos    agentes de produ&ccedil;&atilde;o medi&aacute;tica (p. 65).      <P ALIGN="JUSTIFY">A focagem da investiga&ccedil;&atilde;o nos materiais medi&aacute;ticos    fez incidir o desenvolvimento deste trabalho nas duas primeiras perspectivas,    embora, quanto &agrave; terceira, a autora mostre a evolu&ccedil;&atilde;o da    presen&ccedil;a dos v&aacute;rios actores da informa&ccedil;&atilde;o ambiental    (pol&iacute;ticos, associa&ccedil;&otilde;es, &#171;outras vozes&#187;, etc.).    A abordagem do ambiente a partir de uma perspectiva exterior aos <I>media </I>teria    permitido fechar o c&iacute;rculo desta ampla investiga&ccedil;&atilde;o medi&aacute;tica.    Como a pr&oacute;pria autora refere, &#171;s&oacute; compreendendo e enquadrando    o ambiente num contexto mais vasto &eacute; que ele ganha um sentido espec&iacute;fico    nos tempos actuais&#187; (p. 280).      <P ALIGN="JUSTIFY">Ao analisar a incid&ecirc;ncia das quest&otilde;es ambientais    no universo simb&oacute;lico da televis&atilde;o p&uacute;blica, a autora estabelece    uma cronologia acertada dos seus v&aacute;rios momentos ou &#171;lan&ccedil;os&#187;,    que constituem, como noutros pa&iacute;ses, um elemento caracterizador do clima    social e cultural no mundo ocidental nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas do s&eacute;culo    XX. Fica plenamente estabelecido o objectivo da investiga&ccedil;&atilde;o:    &#171;trabalhar a dimens&atilde;o social das quest&otilde;es ambientais por    via da sua express&atilde;o medi&aacute;tica, mais particularmente as metamorfoses    por que foram passando as representa&ccedil;&otilde;es e valores ambientais    na televis&atilde;o portuguesa&#187; (p. 95). &Eacute; poss&iacute;vel que a    dimens&atilde;o hist&oacute;rica e as ferramentas da hist&oacute;ria pudessem    ter contribu&iacute;do para darem uma outra profundidade de an&aacute;lise ao    material recolhido, em simult&acirc;neo com a sociologia do ambiente e a sociologia    dos <I>media</I>.      <P ALIGN="JUSTIFY">A autora procura ultrapassar a aus&ecirc;ncia de uma an&aacute;lise    &#171;exterior&#187; aos materiais medi&aacute;ticos considerando a televis&atilde;o    em simult&acirc;neo &#171;grande espelho da realidade social&#187; e &#171;janela&#187;    que se abre como mundo diferente daquele que conhecemos (pp. 24 e 47), quer    dizer, como lugar de ocorr&ecirc;ncia de factos sociais em formato cultural.      ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY">Nesse dom&iacute;nio, fica plenamente provada a desaten&ccedil;&atilde;o    continuada da sociedade portuguesa &agrave;s quest&otilde;es ambientais, espelhada    nas &#171;demiss&otilde;es&#187; do servi&ccedil;o p&uacute;blico e na tentativa    de recupera&ccedil;&atilde;o de um notici&aacute;rio ambiental de proximidade    apenas quando tem a concorr&ecirc;ncia dos canais privados, a partir de 1992-1993:    &#171;ser&atilde;o as novas televis&otilde;es privadas [...] que v&ecirc;m dar    grande projec&ccedil;&atilde;o medi&aacute;tica a todo este conjunto e sobretudo    alterar a forma de abordagem dos problemas ambientais, catapultando-os para    o palco das preocupa&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas e p&uacute;blicas&#187;    (pp. 412-413).      <P ALIGN="JUSTIFY">A altera&ccedil;&atilde;o da cobertura televisiva dos temas    ambientais com a chegada das privadas, que fica ilustrada com este trabalho,    permitiria uma reflex&atilde;o mais aprofundada sobre a quest&atilde;o do &#171;espelho&#187;:    at&eacute; onde espelhou a RTP as quest&otilde;es ambientais nas d&eacute;cadas    anteriores? At&eacute; onde se verificou nesse per&iacute;odo uma articula&ccedil;&atilde;o    equilibrada entre os <I>media, </I>a sociedade e os seus actores?      <P ALIGN="JUSTIFY">A &#171;demiss&atilde;o&#187; da RTP1 nas quatro d&eacute;cadas    observadas &eacute; o &#171;insistente desfasamento&#187; entre a realidade    ambiental degradada e a imagem de um pa&iacute;s &#171;limpo e lindo&#187;.    A &#171;dimens&atilde;o ambientalista&#187; s&oacute; entra na RTP &#171;por    contamina&ccedil;&atilde;o&#187;, e &#171;n&atilde;o por cultura pr&oacute;pria&#187;.    Constitui, assim, um &#171;caso tenaz de autobloqueio&#187; com &#171;vinte    anos de aus&ecirc;ncia do discurso ambiental na televis&atilde;o portuguesa&#187;    (pp. 423-425). A esta conclus&atilde;o de fundo, a autora acrescenta, por&eacute;m,    que, se, por um lado, a televis&atilde;o p&uacute;blica &eacute; palco de &#171;demiss&otilde;es&#187;,    por outro, tem dado um &#171;contributo decisivo&#187; para a compreens&atilde;o    da opini&atilde;o p&uacute;blica sobre o ambiente (p. 20). Pelo que, pode dizer-se,    o <I>media</I> &eacute;, em simult&acirc;neo, fomentador e inibidor do desenvolvimento    do espa&ccedil;o p&uacute;blico que em si mesmo cont&eacute;m.      <P ALIGN="JUSTIFY">Ultrapassando essa constata&ccedil;&atilde;o, a autora parece    esperar da televis&atilde;o do Estado que tivesse sido ou seja ainda mais do    que espelho e tamb&eacute;m ainda mais do que janela, pois considera que ela    deveria reflectir preocupa&ccedil;&otilde;es ambientais que n&atilde;o eram    ainda do seu tempo na pol&iacute;tica, na administra&ccedil;&atilde;o, no Estado,    na sociedade, isto &eacute;, que a TV p&uacute;blica deveria assumir-se como    uma esp&eacute;cie de <I>vanguarda</I> ideol&oacute;gica do pa&iacute;s: &#171;a    televis&atilde;o p&uacute;blica acabou por n&atilde;o dinamizar uma cultura    ambientalista consistente, articulando o local com o global e fazendo a extrapola&ccedil;&atilde;o    c&iacute;vica e pol&iacute;tica necess&aacute;ria a uma responsabiliza&ccedil;&atilde;o    individual e colectiva&#187; (p. 427). Seria importante debater at&eacute; que    ponto se pode esperar de um <I>media</I> &#151; neste caso com particulares    responsabilidades por ser p&uacute;blico e &#171;hegem&oacute;nico&#187; &#151;    que espelhe o que a sociedade e as suas estruturas, a come&ccedil;ar pelo Estado,    ainda <I>n&atilde;o</I> incorporam, neste caso os problemas ambientais enquanto    problemas sociais. Em que circunst&acirc;ncias podem ou devem ser &#151; ou    s&atilde;o &#151; os <I>media </I>n&atilde;o s&oacute; &#171;espelhos&#187;    e &#171;janelas&#187;, mas tamb&eacute;m a pr&oacute;pria <I>luz</I> que permite    aos seus p&uacute;blicos e audi&ecirc;ncias ver o que o Estado e mesmo as restantes    elites ainda n&atilde;o v&ecirc;em? Esta obra fornece material suficiente para    um debate posterior.      <P ALIGN="RIGHT">     <P ALIGN="JUSTIFY">&nbsp;      <p>&nbsp; </p>      ]]></body>
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