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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Os Relógos de Einstein e os Mapas de Poincaré: Impérios do Tempo]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p><I>Peter Galison,</I><B> Os Rel&oacute;gos de Einstein e os Mapas de Poincar&eacute;.    Imp&eacute;rios do Tempo,</B> Lisboa, Gradiva, 2005.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Mais um livro sobre Einstein? O mito parece n&atilde;o se esgotar e continua    a alimentar uma ind&uacute;stria de divulga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica    que sobrevive &agrave; custa de g&eacute;nios e teorias revolucion&aacute;rias.    O t&iacute;tulo invoca tamb&eacute;m o nome de Poincar&eacute;, &iacute;cone    menor da populariza&ccedil;&atilde;o da ci&ecirc;ncia, mas com lugar garantido    no pante&atilde;o desde que foi redescoberto como um dos pais fundadores da    teoria do caos. Em ambos os casos, a literatura &eacute; un&acirc;nime sobre    as profundas implica&ccedil;&otilde;es filos&oacute;ficas das suas investiga&ccedil;&otilde;es    e trata de envolver os dois cientistas em considera&ccedil;&otilde;es metaf&iacute;sicas    sobre a experi&ecirc;ncia temporal. Recria-se at&eacute; &agrave; exaust&atilde;o    o relato da vit&oacute;ria sobre o absolutismo da mec&acirc;nica newtoniana,    destronada pelo paradigma da teoria da relatividade e pela multiplicidade de    referentes temporais. Einstein e Poincar&eacute; parecem flutuar por cima das    mesquinhezas dos demais humanos, indiferentes a entraves sociais e materiais,    ocupando-se apenas de abstractos problemas de f&iacute;sica te&oacute;rica.    Por meio de uma misteriosa alquimia estabelecem-se rela&ccedil;&otilde;es directas    entre as incertezas e instabilidades do s&eacute;culo XX e as mentes sobredotadas    daqueles seres &uacute;nicos. Roland Barthes, num gesto inspirado, reduziu,    nas suas Mythologies, Einstein ao seu c&eacute;rebro, &oacute;rg&atilde;o cuidadosamente    dissecado e religiosamente guardado segundo as normas do mais beato relic&aacute;rio.  </p>     <p>A alternativa ao c&eacute;rebro auto-suficiente tem sido a de mais contexto.    As teorias v&ecirc;m acompanhadas de uns quantos factos sobre a sociedade, pol&iacute;tica    ou cultura da &eacute;poca, produzindo uma elegante moldura que deixa intoc&aacute;vel    o n&uacute;cleo duro da ci&ecirc;ncia. A participa&ccedil;&atilde;o de Einstein    no movimento pacifista, a sua rela&ccedil;&atilde;o atribulada com Mileva Mari&aelig;    ou os seus problemas com o FBI do tenebroso J. Edgar Hoover s&atilde;o temas    que produziram sucessos editoriais. Basta que a familiar imagem do s&aacute;bio    louco apare&ccedil;a na capa para que as tiragens se multipliquem. Segundo um    inqu&eacute;rito da Time feito em 2000, Einstein foi eleito o homem do s&eacute;culo,    quando cinquenta anos antes os leitores tinham escolhido F. D. Roosevelt. N&atilde;o    &eacute; preciso ser historiador profissional para citar o new deal ou a participa&ccedil;&atilde;o    dos Estados Unidos na segunda guerra mundial como marcos do s&eacute;culo XX;    mas como justificar a relev&acirc;ncia de Einstein sem cair nos lugares- comuns    da divulga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica? </p>     <p>Peter Galison sugere caminhos bem diferentes. Se os iconoclastas j&aacute;    tinham enfrentado cientistas t&atilde;o famosos como Newton, Lavoisier ou Pasteur,    a figura de Einstein parecia resistir como &uacute;ltimo basti&atilde;o da separa&ccedil;&atilde;o    entre ci&ecirc;ncia e sociedade. Mas Galison n&atilde;o se assustou com a aura    da personagem e decidiu abord&aacute;-la com os instrumentos que t&ecirc;m vindo    a ser aperfei&ccedil;oados pelos estudos de ci&ecirc;ncia desde os anos 80.    Em particular, preocupou-se com as pr&aacute;ticas laboratoriais de Einstein,    entrando no gabinete de patentes de Berna, onde o jovem Einstein decidia a sorte    de m&uacute;ltiplas inova&ccedil;&otilde;es tecnol&oacute;gicas. Pela sua mesa    de trabalho passavam dezenas de propostas de dispositivos el&eacute;ctricos    para a coordena&ccedil;&atilde;o em simult&acirc;neo de diferentes rel&oacute;gios,    um tema fundamental para Berna no princ&iacute;pio do s&eacute;culo e do qual    dependia o bom funcionamento das redes su&iacute;&ccedil;as de caminho de ferro,    tel&eacute;grafo e rel&oacute;gios p&uacute;blicos. </p>     <p>Na maior parte das hagiografias do f&iacute;sico alem&atilde;o o seu posto    de inspector de patentes aparece como um mero ganha-p&atilde;o que o g&eacute;nio    incompreendido tinha de suportar para se poder dedicar ao que realmente importava:    os elevados assuntos da f&iacute;sica te&oacute;rica. O lend&aacute;rio artigo    de 1905, onde pela primeira vez apresentou a sua teoria da relatividade restrita,    demonstrava a superior capacidade de abstrac&ccedil;&atilde;o do asceta, capaz    de ignorar o mon&oacute;tono trabalho do gabinete de registo de patentes. Uma    esp&eacute;cie de Bernardo Soares cientista que, enquanto cumpre com brio as    suas obriga&ccedil;&otilde;es de ajudante de guarda-livros na Rua dos Douradores,    sonha com Samarcanda ou os mares do Sul. Mas Galison n&atilde;o &eacute; adepto    da solu&ccedil;&atilde;o dos heter&oacute;nimos e, em vez de desdobrar Einstein    em m&uacute;ltiplas personagens, prefere vincar as profundas conex&otilde;es    entre relatividade e tecnologia. As famosas experi&ecirc;ncias mentais de Einstein    s&atilde;o reduzidas pelo historiador a assuntos materiais. No esquema com que    se inicia o citado artigo, um observador equipado com um rel&oacute;gio &eacute;    colocado no centro do sistema de coordenadas para determinar a simultaneidade    de acontecimentos: sempre que sinais electromagn&eacute;ticos de pontos distantes    chegam &agrave; mesma hora local ao observador, os acontecimentos s&atilde;o    simult&acirc;neos. Mas este observador desencarnado que, munido apenas de um    rel&oacute;gio, varreu o conceito de tempo absoluto da mec&acirc;nica cl&aacute;ssica    n&atilde;o &eacute;, segundo Galison, uma mera abstrac&ccedil;&atilde;o do c&eacute;rebro    de Einstein. O esquema refere-se directamente ao muito material do sistema de    coordena&ccedil;&atilde;o da hora europeia, feito de cabos el&eacute;ctricos,    geradores e rel&oacute;gios; o rel&oacute;gio do observador n&atilde;o &eacute;    mais do que o rel&oacute;gio-m&atilde;e com os seus dependentes locais secund&aacute;rios    e terci&aacute;rios.</p>     <p> Einstein, ao ligar a no&ccedil;&atilde;o de tempo a tecnologias concretas,    trazia para o cora&ccedil;&atilde;o da f&iacute;sica a sua experi&ecirc;ncia    de funcion&aacute;rio de patentes, definindo a simultaneidade em fun&ccedil;&atilde;o    de rel&oacute;gios e da transmiss&atilde;o de sinais electromagn&eacute;ticos.    O tempo universal que flui uniformemente do vener&aacute;vel Newton foi substitu&iacute;do    pelos tempos de rel&oacute;gios interligados. A simultaneidade produz-se, necessita    de m&aacute;quinas e transmiss&otilde;es, n&atilde;o &eacute; um conceito que    flutue na esfera imaterial das ideias plat&oacute;nicas. </p>     <p>Galison segue a pista do Einstein tecnocient&iacute;fico at&eacute; &agrave;s    suas &uacute;ltimas consequ&ecirc;ncias, dando a conhecer o fasc&iacute;nio    deste pelas m&aacute;quinas. Al&eacute;m da abundante correspond&ecirc;ncia    com as suas amizades sobre bombas de v&aacute;cuo ou volt&iacute;metros, tamb&eacute;m    o pai e o tio de Einstein viviam dos aparelhos electromec&acirc;nicos. Mais    reveladoras ainda s&atilde;o as tentativas de produ&ccedil;&atilde;o de novas    patentes pelo pr&oacute;prio Einstein, um aut&ecirc;ntico &laquo;m&atilde;ozinhas&raquo;    que cuidava de todos os detalhes da sua pequena m&aacute;quina projectada para    medir diferen&ccedil;as de tens&atilde;o m&iacute;nimas. Mas talvez a imagem    do &laquo;m&atilde;ozinhas &raquo; seja excessiva, pois o que Galison descreve    &eacute; uma rela&ccedil;&atilde;o entre tecnologia e teoria que n&atilde;o    se limita aos velhos clich&eacute;s da ci&ecirc;ncia aplicada ou da teoria que    nasce da tecnologia: &laquo;As reflex&otilde;es f&iacute;sico-filos&oacute;ficas    n&atilde;o foram a causa da coordena&ccedil;&atilde;o do tempo de comboios e    tel&eacute;grafos... Nem as vastas redes de rel&oacute;gios coordenados electricamente    foram a causa de que fil&oacute;sofos e cientistas adoptassem uma nova conven&ccedil;&atilde;o    de simultaneidade&raquo; (p. 39)<sup><a href="#1">1</a><a name="top1"></a></sup>.    A imagem proposta &eacute; antes a de flutua&ccedil;&otilde;es constantes entre    o concreto e o abstracto, a de mudan&ccedil;as incessantes de escala entre o    pequeno gabinete de patentes e as expansivas redes de caminho de ferro e tel&eacute;grafo,    a de transi&ccedil;&otilde;es r&aacute;pidas entre fios de cobre e metaf&iacute;sica.  </p>     <p>Os adeptos dos estudos de ci&ecirc;ncia gostam de insistir na ideia de que    tal forma de olhar para a pr&aacute;tica cient&iacute;fica n&atilde;o desvaloriza    a ci&ecirc;ncia. Mais do que desmistificar grandes nomes ou mostrar o car&aacute;cter    convencional do conhecimento, o interesse &eacute; perceber a relev&acirc;ncia    da ci&ecirc;ncia na f&aacute;brica social. O olhar para o laborat&oacute;rio,    para as pr&aacute;ticas materiais do cientista, al&eacute;m de revelar a multiplicidade    de actores e objectos envolvidos na produ&ccedil;&atilde;o de factos, permite    sobretudo dar conta da co-produ&ccedil;&atilde;o de conhecimento e sociedade.    Como diria Bruno Latour, numa das suas mais famosas blagues, &laquo;dai-me um    laborat&oacute;rio e moverei o mundo&raquo;. E poucos t&ecirc;m sido os historiadores    da ci&ecirc;ncia que o t&ecirc;m feito t&atilde;o bem quanto Galison. Se neste    livro o mundo do princ&iacute;pio do s&eacute;culo XX &eacute; movido pelos    tiquetaques dos rel&oacute;gios coordenados de Einstein, em obras anteriores    a guerra fria teve de passar pelos instrumentos dos laborat&oacute;rios da big    science norte-americana. </p>     <p>A grande diferen&ccedil;a &eacute; que Image and Logic<sup><a href="#2">2</a></sup><a name="top2"></a>,    o seu livro sobre a cultura material da f&iacute;sica de altas energias, era    um pesado volume de mais de 900 p&aacute;ginas de leitura nem sempre f&aacute;cil,    ao passo que Rel&oacute;gios de Einstein tem umas dimens&otilde;es bem mais    razo&aacute;veis (menos de 400 p&aacute;ginas, notas inclu&iacute;das) e n&atilde;o    requer tanto esfor&ccedil;o por parte do leitor para seguir o argumento. S&oacute;    assim se explica que o livro se encontre nas livrarias entre os volumes normalmente    apraz&iacute;veis da divulga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica e n&atilde;o    junto de mais enfadonhas e eruditas companhias. O caso da edi&ccedil;&atilde;o    portuguesa &eacute; particularmente revelador, pois apareceu na colec&ccedil;&atilde;o    &laquo;Ci&ecirc;ncia Aberta&raquo; da Gradiva, a mais popular e merit&oacute;ria    colec&ccedil;&atilde;o de divulga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica do pa&iacute;s.    Ali&aacute;s, n&atilde;o deixa de ser ir&oacute;nico que aquela que &eacute;    a tribuna privilegiada dos &laquo;sokalianos &raquo;<sup><a href="#3">3</a></sup>    <a name="top3"></a>portugueses, onde j&aacute; se publicaram violentas acusa&ccedil;&otilde;es    contra os estudos de ci&ecirc;ncia<sup><a href="#4">4</a></sup><a name="top4"></a>    praticados por antrop&oacute;logos, soci&oacute;logos e historiadores, decida    agora editar um livro, que, provavelmente se transformar&aacute; em refer&ecirc;ncia    obrigat&oacute;ria destes &laquo;irrespons&aacute;veis &raquo; cientistas sociais.  </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Mas a verdade &eacute; que Peter Galison parece ser um autor consensual, pois    as guerras da ci&ecirc;ncia tamb&eacute;m n&atilde;o conheceram novos epis&oacute;dios    nos EUA depois do seu Einstein revisitado. Certamente o PhD de Galison em F&iacute;sica    contribuiu para acalmar os &acirc;nimos e as dif&iacute;ceis 900 p&aacute;ginas    do livro anterior tamb&eacute;m ajudaram<sup><a href="#5">5</a></sup><a name="top5"></a>.    Afinal, o autor &eacute; Mallinckrodt, professor do Departamento de Hist&oacute;ria    da Ci&ecirc;ncia da Universidade de Harvard, onde est&aacute; reunida a nata    da disciplina. Mas nada disso esconde o facto de Galison olhar para f&iacute;sicos    de altas energias, ou para o pr&oacute;prio Einstein, atrav&eacute;s de conceitos    provocadores como o de cultura material, desenvolvidos para descrever culturas    ind&iacute;genas, objectos cl&aacute;ssicos da antropologia tradicional. Se    o tom de Galison nunca &eacute; t&atilde;o agressivo como, por exemplo, o de    Bruno Latour, &oacute;dio de estima&ccedil;&atilde;o dos sokalianos, nem por    isso as suas propostas s&atilde;o menos inovadoras ou arriscadas. </p>     <p>Como se n&atilde;o bastasse ter feito do gabinete de patentes de Berna um lugar    fundamental para quem quer falar de Einstein, ao tratar Poincar&eacute;, outro    monstro sagrado da f&iacute;sica te&oacute;rica, Galison obriga-nos agora a    passar pelo aparentemente enfadonho e burocr&aacute;tico Bureau des Longitudes.    &Eacute; que, se Poincar&eacute; &eacute; muitas vezes citado como tendo proposto    uma vers&atilde;o da teoria da relatividade restrita anterior a Einstein, a    sua liga&ccedil;&atilde;o com o mundo material n&atilde;o era menor do que a    deste. Em 1898, o cientista franc&ecirc;s publicou &laquo;La mesure du temps&raquo;    na Revue de m&eacute;taphysique et morale, onde punha em causa as teorias do    famoso fil&oacute;sofo Henri Bergson que tomava o tempo como um assunto da intui&ccedil;&atilde;o    humana. Para Poincar&eacute;, tal como para Einstein poucos anos mais tarde,    o tempo e a simultaneidade eram, pelo contr&aacute;rio, conven&ccedil;&otilde;es    para as quais havia que acordar procedimentos. A simultaneidade s&oacute; se    podia definir por meio de leitura de rel&oacute;gios coordenados por sinais    electromagn&eacute;ticos. </p>     <p>A coincid&ecirc;ncia de temas entre Einstein e Poincar&eacute; n&atilde;o espanta    ao ter em conta a import&acirc;ncia que a simultaneidade assumiu no &uacute;ltimo    ter&ccedil;o do s&eacute;culo XIX. As frequentes colis&otilde;es de comboios    eram invariavelmente atribu&iacute;das &agrave; multiplicidade de horas locais,    que dificultavam a integra&ccedil;&atilde;o da rede ferrovi&aacute;ria, raz&atilde;o    pela qual a unifica&ccedil;&atilde;o do tempo nos diferentes pa&iacute;ses seguiu    o caminho de ferro. Os problemas relativos &agrave; determina&ccedil;&atilde;o    da longitude n&atilde;o eram menores, pois o m&eacute;todo tradicional de transportar    um rel&oacute;gio com a hora de origem, fazer uma medi&ccedil;&atilde;o astron&oacute;mica    (por exemplo, do momento em que a Lua atinge o seu ponto mais alto) e comparar    a diferen&ccedil;a hor&aacute;ria a que o mesmo fen&oacute;meno ocorria no observat&oacute;rio    metropolitano (uma diferen&ccedil;a de seis horas corresponderia a 90 graus    de longitude) produzia grandes erros de determina&ccedil;&atilde;o de posi&ccedil;&atilde;o,    incompat&iacute;veis com a expans&atilde;o colonial. S&oacute; a emiss&atilde;o    de sinais telegr&aacute;ficos atrav&eacute;s de cabos transoce&acirc;nicos libertaria    os mapas da depend&ecirc;ncia de rel&oacute;gios demasiado sens&iacute;veis    aos movimentos de um barco, de uma mula, ou &agrave; humidade e &agrave; temperatura.    Bastava que o tiquetaque do rel&oacute;gio do observat&oacute;rio fosse enviado    por tel&eacute;grafo para que os cart&oacute;grafos pudessem determinar com    grande exactid&atilde;o a sua posi&ccedil;&atilde;o relativamente &agrave;quele.    O imp&eacute;rio expandia-se &agrave; mesma velocidade que se estendia a rede    de cabos transoce&acirc;nicos, ou, dito de outra forma, a expans&atilde;o imperial    seguia a produ&ccedil;&atilde;o de simultaneidade. </p>     <p>Mas que tem tudo isto a ver com o sublime Poincar&eacute;, respons&aacute;vel    por substituir a priori kantianos por conven&ccedil;&otilde;es? Peter Galison,    talvez de forma ainda mais convincente do que para o caso de Einstein, volta    a ligar, por meio de Poincar&eacute;, o alto com o baixo, a f&iacute;sica te&oacute;rica    com a tecnologia, o laborat&oacute;rio com o globo. Desde o seu cargo de director    do Bureau des longitudes de Paris, Poincar&eacute; participava activamente no    grande projecto franc&ecirc;s de redesenhar o mapa imperial por transmiss&atilde;o    el&eacute;ctrica do tempo. Na altura em que escreveu o citado artigo sobre a    medida do tempo havia j&aacute; quatro anos que os problemas da simultaneidade    e longitude faziam parte do seu quotidiano. As celebradas considera&ccedil;&otilde;es    sobre a necessidade de que a sincroniza&ccedil;&atilde;o de rel&oacute;gios    devia tomar em linha de conta o tempo de transmiss&atilde;o n&atilde;o soariam    como palavras revolucion&aacute;rias para cart&oacute;grafos que ao sincronizarem    os seus rel&oacute;gios na Indochina, nos Andes ou no Senegal com o rel&oacute;gio-m&atilde;e    de Paris inclu&iacute;am de forma sistem&aacute;tica factores de correc&ccedil;&atilde;o    para o tempo de transmiss&atilde;o el&eacute;ctrica ao longo de fios de cobre.    Mas, se os funcion&aacute;rios do Bureau des longitudes procediam &agrave;s    correc&ccedil;&otilde;es sem necessitarem da teoria da relatividade, Poincar&eacute;    foi capaz de perceber o alcance filos&oacute;fico de um procedimento que redefinia    os conceitos de tempo e de simultaneidade. O engenheiro franc&ecirc;s, seguindo    a melhor tradi&ccedil;&atilde;o da &Eacute;cole Polytechnique, onde teoria e    tecnologia sempre andaram de bra&ccedil;o dado, estava no ponto de intersec&ccedil;&atilde;o    certo para fazer com que uma regra pr&aacute;tica para a produ&ccedil;&atilde;o    de simultaneidade funcionasse tamb&eacute;m na Revue de m&eacute;taphysique    et morale. </p>     <p>A obsess&atilde;o de Galison &eacute; patente ao longo de todo o livro. Os    caminhos da filosofia mais abstracta ou da matem&aacute;tica mais sofisticada    cruzam- -se constantemente com pol&iacute;ticas imperiais, com rel&oacute;gios    de esta&ccedil;&otilde;es su&iacute;&ccedil;as ou com cabos submarinos. &Eacute;    um aut&ecirc;ntico trabalho de relojoeiro onde por vezes, poucas, o mecanismo    parece falhar, como na dif&iacute;cil rela&ccedil;&atilde;o entre o trabalho    de Poincar&eacute; nas minas de carv&atilde;o e os seus inovadores m&eacute;todos    matem&aacute;ticos baseados na intui&ccedil;&atilde;o. Mas tais reparos s&atilde;o    assuntos menores quando se trata de, finalmente, perceber por que &eacute; que    os esot&eacute;ricos Einstein e Poincar&eacute; s&atilde;o fundamentais para    um mundo baseado na unifica&ccedil;&atilde;o de diferentes sistemas e na produ&ccedil;&atilde;o    de simultaneidade. Galison tem o dom de transformar s&iacute;mbolos et&eacute;reos    em componentes essenciais do mundo material. &Eacute; isso que faz com a Torre    Eiffel, que de monumento de pura celebra&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica,    sem fun&ccedil;&atilde;o pr&aacute;tica aparente, passa a emissora de r&aacute;dio    da hora de Paris, produtora de simultaneidade e unificadora da hora europeia    sem necessidade da rede imperial de cabos submarinos brit&acirc;nica. </p>     <p>J&aacute; em 1894, o jovem anarquista Martial Bourdin tinha tentado colocar    uma bomba no Observat&oacute;rio de Greenwich, sede do primeiro meridiano, um    acto interpretado por Joseph Conrad no seu romance O Agente Secreto como um    ataque ao cora&ccedil;&atilde;o do imp&eacute;rio brit&acirc;nico. O terrorista    parecia ter percebido bem que a sobreviv&ecirc;ncia do imp&eacute;rio dependia    directamente da principal f&aacute;brica de simultaneidade mundial. Hoje os    terroristas continuam a explorar a uni&atilde;o entre sociedade e tecnoci&ecirc;ncia,    amea&ccedil;ando as infra-estruturas que mant&ecirc;m vivas as nossas cidades,    como centrais de energia, sistemas de distribui&ccedil;&atilde;o de &aacute;gua    ou aeroportos. No dia seguinte aos criminosos atentados de 11-3-2004 em Madrid    e de 7-7-2005 em Londres os cidad&atilde;os tiveram de voltar a embarcar nas    carruagens que os transportaram para o local de trabalho. N&atilde;o h&aacute;    sociedade de um lado e tecnoci&ecirc;ncia do outro. Uma e outra s&atilde;o indistingu&iacute;veis.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><SUP><a href="#top1">1</a></SUP> <a name="1"></a>A cita&ccedil;&atilde;o segue    a edi&ccedil;&atilde;o norte-americana, e n&atilde;o a portuguesa. Espero que    o facto n&atilde;o cause aborrecimentos de maior. Refer&ecirc;ncia da edi&ccedil;&atilde;o    original: Peter Galison, <I>Einstein's Clocks, Poincar&eacute;'s Maps. Empires    of Time,</I><B> </B>Nova Iorque, Norton, 2003.</p>     <p><SUP><a href="#top2">2</a></SUP> <a name="2"></a>Para os que se queiram aventurar,    o livro &eacute; muito remunerador: Peter Galison, <I>Image &amp; Logic, A Material    Culture of Microphysics,</I> University of Chicago Press, 1997.</p>     <p><SUP><a href="#top3">3</a></SUP> <a name="3"></a>Refiro-me ao caso Sokal e    &agrave; sua den&uacute;ncia dos p&oacute;s-modernos estudos de ci&ecirc;ncia    que lan&ccedil;ariam a suspeita sobre a actividade cient&iacute;fica. Segundo    Sokal, as m&aacute;s influ&ecirc;ncias de soci&oacute;logos, fil&oacute;sofos,    antrop&oacute;logos e historiadores nos <I>campus </I>norte-americanos n&atilde;o    s&oacute; p&otilde;em em causa o pr&oacute;prio financiamento da actividade    cient&iacute;fica, como lan&ccedil;am os jovens numa cultura de relativismo    e irresponsabilidade. O livro de Sokal foi publicado na referida colec&ccedil;&atilde;o,    &#171;Ci&ecirc;ncia Aberta&#187;: Alan Sokal e Jean Bricmont, <I>Imposturas    Intelectuais,</I> Lisboa, Gradiva, 1999. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><SUP><a href="#top4">4</a></SUP> <a name="4"></a>Refiro-me, em particular,    a Ant&oacute;nio Manuel Baptista, <I>O Discurso P&oacute;s-Moderno contra a    Ci&ecirc;ncia: Obscurantismo e Irresponsabilidade,</I> Lisboa, Gradiva, 2002,    e a Gerald Holton, <I>A Cultura Cient&iacute;fica e os seus Inimigos. O Legado    de Einstein,</I> Lisboa: Gradiva, 1998. Sobre as guerras da ci&ecirc;ncia portuguesas,    v. tamb&eacute;m a vers&atilde;o do outro lado da barricada: Boaventura de Sousa    Santos (org.), <I>Conhecimento prudente para uma Vida Decente, </I>Porto, Afrontamento,    2003.</p>     <p><SUP><a href="#top5">5</a></SUP> <a name="5"></a>Outros autores com credenciais    semelhantes n&atilde;o tiveram tanta sorte. Norton Wise, autor de uma biografia    monumental de William Thompson (Lord Kelvin) e detentor tamb&eacute;m de um    PhD em f&iacute;sica, viu-se inclu&iacute;do pelos sokalianos entre os suspeitos    praticantes dos estudos de ci&ecirc;ncia de inspira&ccedil;&atilde;o latouriana.  </p>     <p align="right">&nbsp;</p>     <p align="right">Tiago Saraiva</p>      ]]></body>
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