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</front><body><![CDATA[ <p><i>Gra&ccedil;a &Iacute;ndias Cordeiro, Lu&iacute;s Vicente   Baptista, Ant&oacute;nio Firmino da Costa</i>   (orgs.), <b>Etnografias Urbanas</b>, Oeiras,   Celta Editora, 2003.</p>      <p>&nbsp;</p>        <p align="justify">&Eacute; de saudar que a comunidade acad&eacute;mica tenha    trocado a publica&ccedil;&atilde;o das velhas &laquo;actas&raquo; de encontros    cient&iacute;ficos &#8212; pesadas, dif&iacute;ceis de encontrar e com textos    demasiadamente pr&oacute;ximos da l&oacute;gica da apresenta&ccedil;&atilde;o    oral &#8212; por formas mais pr&aacute;ticas e duradouras de difus&atilde;o    de resultados. Estas variam, no momento que corre, entre a edi&ccedil;&atilde;o    <i>on-line</i>, com as suas grandes vantagens e grandes riscos, e os mais cl&aacute;ssicos    formatos de livro/colect&acirc;nea ou de n&uacute;mero especial de revista cient&iacute;fica.    Entre estes dois, debate-se ainda qual vir&aacute; a tomar preponder&acirc;ncia:    o n&uacute;mero tem&aacute;tico de revista, com as suas garantias de rigor assente    no sistema de revis&atilde;o por pares, cada vez mais submisso &agrave;s regras    que emanam das ci&ecirc;ncias f&iacute;sico-naturais, ou o livro, com a sua    liberdade e o seu espa&ccedil;o consolidado nos h&aacute;bitos dos consumidores-leitores,    das bibliotecas, dos distribuidores e livreiros. A op&ccedil;&atilde;o &eacute;    ainda livre e foi por este &uacute;ltimo formato que optaram os coordenadores    de <i>Etnografias Urbanas</i> (Oeiras, Celta Editora, 2003) para materializar    os resultados do semin&aacute;rio &laquo;Cidade e diversidade: perspectivas    de desenvolvimento em antropologia urbana&raquo;, realizado no ISCTE em 2001.    Organizado pela antrop&oacute;loga Gra&ccedil;a &Iacute;ndias Cordeiro e pelos    soci&oacute;logos Lu&iacute;s Vicente Baptista e Ant&oacute;nio Firmino da Costa,    todos eles com longa experi&ecirc;ncia de trabalho etnogr&aacute;fico em Lisboa,    o encontro reuniu especialistas portugueses e interlocutores internacionais;    sendo v&aacute;rias as proveni&ecirc;ncias disciplinares, dominam a antropologia    e a sociologia qualitativa. De notar ainda que, embora o referencial te&oacute;rico    explicitado seja largamente o angl&oacute;fono e sociol&oacute;gico, a escolha    dos interlocutores &#8212; os antrop&oacute;logos Gilberto Velho, do Rio de    Janeiro, e Joan Pujadas, de Tarragona &#8212; revela uma das tend&ecirc;ncias    contempor&acirc;neas nas ci&ecirc;ncias sociais portuguesas, a de trocar a rela&ccedil;&atilde;o    hier&aacute;rquica e nem sempre comunicante com os autores de l&iacute;ngua    inglesa e francesa, praticada pela gera&ccedil;&atilde;o anterior, pela rela&ccedil;&atilde;o    mais parit&aacute;ria com colegas espanh&oacute;is e brasileiros que trabalham    em assuntos afins.</p>     <p align="justify">Sem pretender ser exaustiva ou program&aacute;tica, <i>Etnografias    Urbanas</i> d&aacute;-nos uma vis&atilde;o geral sobre o estado da antropologia    urbana em Portugal ou, para sermos mais precisos, dos estudos sociais urbanos    que recorrem &agrave; etnografia como m&eacute;todo principal. O formato de    livro revelou-se uma boa escolha, j&aacute; que permitiu reproduzir a pulsa&ccedil;&atilde;o    das apresenta&ccedil;&otilde;es originais com os devidos enquadramentos te&oacute;ricos    e discuss&atilde;o final. Temos, por conseguinte, um n&uacute;mero razo&aacute;vel    de cap&iacute;tulos curtos, r&aacute;pidos, incisivos, pontuados por reflex&otilde;es    de maior f&ocirc;lego.</p>     <p align="justify">Abre o volume uma introdu&ccedil;&atilde;o geral dos tr&ecirc;s    autores, seguida de uma apresenta&ccedil;&atilde;o te&oacute;rico-metodol&oacute;gica    de Gra&ccedil;a Cordeiro, &laquo;A antropologia urbana entre a tradi&ccedil;&atilde;o    e a pr&aacute;tica&raquo;. Os cap&iacute;tulos organizam-se em duas sec&ccedil;&otilde;es:    &laquo;Territ&oacute;rios, imagens e poderes&raquo;, apresentada por Lu&iacute;s    Baptista, e &laquo;Estilos de sociabilidade&raquo;, apresentada por Firmino    da Costa.</p>     <p align="justify">No primeiro grupo contamos com as reflex&otilde;es de Joaquim    Pais de Brito, que, a partir da Exposi&ccedil;&atilde;o do Fado, que organizou    no Museu de Etnologia, chegou &agrave; &laquo;cidade exposta&raquo; &#8212;    ou como um antrop&oacute;logo treinado no rural e no circunscrito da aldeia    encara os fios do urbano e deles expande para a problematiza&ccedil;&atilde;o    da antropologia, do terreno, do m&eacute;todo. Segue-se Lu&iacute;s Fernandes,    &agrave; solta no Rio de Janeiro com &laquo;a imagem predat&oacute;ria da cidade&raquo;;    e, com Bachelard a bater-lhe no peito e o Porto na lembran&ccedil;a, as imagens    soltas dos perigos que se colam &agrave; cidade cosem-se afinal numa proposta    de reflex&atilde;o articulada onde perpassa a experi&ecirc;ncia sensorial e    cognitiva dos primeiros momentos de uma incurs&atilde;o etnogr&aacute;fica em    territ&oacute;rio estranho. O texto seguinte, &laquo;Processos de integra&ccedil;&atilde;o    na imigra&ccedil;&atilde;o&raquo;, de Rui Pena Pires, constitui-se num momento    de explana&ccedil;&atilde;o conceptual e uma contribui&ccedil;&atilde;o para    o quadro poss&iacute;vel de teoriza&ccedil;&atilde;o de alguns dos processos    que mais atraem os apetites etnogr&aacute;ficos e aparecem, por vezes apenas    na fugacidade da apar&ecirc;ncia, com recortes etnicizados e facilmente encurralados    na rotina te&oacute;rica que lhe prop&otilde;e estudos de integra&ccedil;&atilde;o;    um alerta para os excessos da empiria, portanto. Abordando um outro territ&oacute;rio,    precisamente no lugar oposto dos tendencialmente marginais ou obscuros objectos    de pesquisa etnogr&aacute;fica, vem o cap&iacute;tulo &laquo;Mulheres na pol&iacute;cia    &#8212; visibilidades sociais e simb&oacute;licas&raquo;, de Susana Dur&atilde;o    e Alexandra Leandro; se na constela&ccedil;&atilde;o convencional a pol&iacute;cia    estava fora da cartografia do etnograf&aacute;vel, j&aacute; que era um objecto    conhecido e medido pelos instrumentos do Estado e do poder, j&aacute; a sua    composi&ccedil;&atilde;o e muta&ccedil;&otilde;es merecem uma reconsidera&ccedil;&atilde;o,    e assim o fazem as autoras, abordando como centrais os processos de transforma&ccedil;&atilde;o    na composi&ccedil;&atilde;o e g&eacute;nero deste corpo habitualmente masculino.    Com a pol&iacute;cia e as suas regularidades ao fundo, Tiago Neves apresenta-nos    notas das suas incurs&otilde;es aos contextos portuenses de circula&ccedil;&atilde;o    e consumo de droga, ou, como na linha de outros autores apropriadamente designa,    os &laquo;territ&oacute;rios psicotr&oacute;picos&raquo; e as suas &laquo;defini&ccedil;&otilde;es    de normalidade&raquo; e &laquo;controle social formal&raquo;. Para terminar    a sec&ccedil;&atilde;o, temos em &laquo;Estrat&eacute;gias arquitect&oacute;nicas,    t&aacute;cticas habitacionais&raquo; uma inspirada e inspiradora viagem &agrave;    materialidade habitacional na cidade de Lisboa, com breve refer&ecirc;ncia a    tr&ecirc;s bairros de &eacute;pocas diferentes &#8212; Avenidas, Alvalade e    Olivais Sul, com mergulho completo e a v&aacute;rios ritmos neste &uacute;ltimo.    Sem deixar de contextualizar esta experi&ecirc;ncia urban&iacute;stica de grande    escala entre as medidas para conten&ccedil;&atilde;o das amea&ccedil;as de caos    perif&eacute;rico, enquadramento de conflitos, redu&ccedil;&atilde;o de tens&otilde;es    sociais, Jo&atilde;o Pedro Nunes privilegia a transforma&ccedil;&atilde;o do    espa&ccedil;o material gen&eacute;rico da &laquo;habita&ccedil;&atilde;o&raquo;    no espa&ccedil;o humanizado, vivido, socializado e constrangido de particularidades    da &laquo;casa&raquo;.</p>     <p align="justify">Na segunda sec&ccedil;&atilde;o &eacute;-nos oferecido um conjunto    de olhares intimistas sobre sociabilidades urbanas espec&iacute;ficas. As refer&ecirc;ncias    movem-se entre grupos, redes, bairros, categorias ocupacionais/recreativas e    eventos sociais e culturais. Temos as sociabilidades entre guineenses, apresentadas    por Fernando Lu&iacute;s Machado, articulando espa&ccedil;o, classes, parentesco,    rela&ccedil;&otilde;es intra e inter&eacute;tnicas; as jovens &laquo;Estrelas    caboverdianas&raquo; do bairro &laquo;Estrela d&#8217;&Aacute;frica&raquo;,    estudadas por Marina Antunes, cruzando as refer&ecirc;ncias &agrave; geografia    de diferencia&ccedil;&atilde;o cabo-verdiana, as articula&ccedil;&otilde;es    centr&iacute;petas de classe de idade, a condi&ccedil;&atilde;o de fr&aacute;gil    cidadania e a gram&aacute;tica redentora da amizade e da dan&ccedil;a; a curiosa    Xuventud de Gal&iacute;cia em Lisboa, apresentada por In&ecirc;s Pereira (&laquo;Constru&ccedil;&atilde;o    identit&aacute;ria em rede&raquo;), onde se constroem identidades que dispensam    o lastro geneal&oacute;gico e se concentram em actua&ccedil;&otilde;es criadoras    de legitimidade. Por fim, temos tr&ecirc;s viagens ao mundo das altera&ccedil;&otilde;es    de consci&ecirc;ncia e da sua indu&ccedil;&atilde;o colectiva, os rituais e    pr&aacute;ticas urbanos associados &agrave;s subst&acirc;ncias e ao transe:    Maria do Carmo Carvalho apresenta-nos &laquo;experi&ecirc;ncias psicad&eacute;licas    juvenis&raquo;, Susana Henriques fala-nos de &laquo;risco cultivado&raquo;    em &laquo;novos consumos em ambientes de lazer&raquo; e Miguel Chaves leva-nos    &agrave;s &laquo;imagens e &eacute;ticas de uma festa contempor&acirc;nea&raquo;,    a <i>Rave</i>.</p>     <p align="justify">Com s&iacute;nteses finais de Gilberto Velho (&laquo;Continuidade    e inova&ccedil;&otilde;es na antropologia portuguesa: cidade e diversidade &raquo;)    e Joan Pujadas (&laquo;Territ&oacute;rios, redes e formas de sociabilidade:    novos horizontes nos estudos urbanos portugueses&raquo;), este livro constitui-se    num atraente caleidosc&oacute;pio &#8212; &agrave; semelhan&ccedil;a da cidade,    e, como ela, alegremente viciando, convidando, inspirando a mais.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p align="right">CRISTIANA BASTOS </p>      ]]></body>
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