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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Língua e hegemonia nas ciências sociais]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="fr"><p><![CDATA[Ce texte bref discute la question de la relation entre langue scientifique et hégémonie globale dans le domaine des sciences sociales, et tisse quelques propositions stratégiques pour une meilleure négociation de position face à la situation globale actuelle de certaines communautés scientifiques qui, telles la portugaise, utilisent d'autres langues en plus de l'anglais.]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This short essay discusses the relation between scientific language and global hegemony in relation to the social sciences. The text draws out a number of strategic proposals geared towards a better negotiation of the global position of scientific communities that express themselves in other languages beside English - such as that of Portuguese speakers.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p><b>L&iacute;ngua e hegemonia nas ci&ecirc;ncias sociais</b></p>      <p>&nbsp; </p>      <p>Jo&atilde;o de Pina Cabral<a href="#1">*</a><a name="top1"></a></p>       <p>&nbsp; </p>      <P align="justify">Neste curto texto discute-se a quest&atilde;o da rela&ccedil;&atilde;o    entre l&iacute;ngua cient&iacute;fica e hegemonia global no campo das ci&ecirc;ncias    sociais, alinhavando algumas propostas estrat&eacute;gicas conducentes &agrave;    melhor negocia&ccedil;&atilde;o da posi&ccedil;&atilde;o face &agrave; situa&ccedil;&atilde;o    global actual de comunidades cient&iacute;ficas que, como a portuguesa, usam    outras l&iacute;nguas para al&eacute;m do ingl&ecirc;s.</p>     <P align="justify"><B>Palavras-chave:</B> ci&ecirc;ncias sociais; hegemonia; lusofonia.</p>      <p>&nbsp; </p>      <P><B>Langue et h&eacute;g&eacute;monie dans les sciences sociales</B></p>      <P align="justify">Ce texte bref discute la question de la relation entre langue    scientifique et h&eacute;g&eacute;monie globale dans le domaine des sciences    sociales, et tisse quelques propositions strat&eacute;giques pour une meilleure    n&eacute;gociation de position face &agrave; la situation globale actuelle de    certaines communaut&eacute;s scientifiques qui, telles la portugaise, utilisent    d'autres langues en plus de l'anglais.</P>     <P align="justify"><B>Mots cl&eacute;s:</B> sciences sociales; h&eacute;g&eacute;monie;    lusophonie.</P>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp; </p>      <P><B>Language and hegemony in the social sciences</B></p>      <P align="justify">This short essay discusses the relation between scientific    language and global hegemony in relation to the social sciences. The text draws    out a number of strategic proposals geared towards a better negotiation of the    global position of scientific communities that express themselves in other languages    beside English &#151; such as that of Portuguese speakers.</P>     <P align="justify"><B>Keywords:</B> social sciences; hegemony; lusophony.</P>      <p>&nbsp; </p>      <p align="justify">Neste curto texto discute-se a quest&atilde;o da rela&ccedil;&atilde;o    entre l&iacute;ngua cient&iacute;fica e hegemonia global no campo das ci&ecirc;ncias    sociais, alinhavando algumas propostas estrat&eacute;gicas conducentes &agrave;    melhor negocia&ccedil;&atilde;o da posi&ccedil;&atilde;o de comunidades cient&iacute;ficas    como a portuguesa face &agrave; situa&ccedil;&atilde;o global actual.</p>     <p align="justify">Tendo em vista a hegemonia intelectual exercida no per&iacute;odo    ap&oacute;s a queda do muro de Berlim pelos Estados Unidos da Am&eacute;rica    e tendo em vista que as comunidades cient&iacute;ficas com peso alternativo    no per&iacute;odo da guerra fria, tal como a brit&acirc;nica ou a francesa,    perderam muito r&aacute;pida e marcadamente a relativa centralidade cultural    e independ&ecirc;ncia que detinham, urge compreender que, a n&iacute;vel global,    s&oacute; existem quatro comunidades lingu&iacute;sticas<sup><a href="#2">1</a><a name="top2"></a></sup>    de cientistas sociais exprimindo-se em l&iacute;nguas outras que n&atilde;o    a <i>l&iacute;ngua franca</i> internacional com peso significativo (tanto quantitativo    como qualitativo): a francesa, a espanhola, a germ&acirc;nica e a portuguesa.    Repare-se que as comunidades russ&oacute;fona e sin&oacute;fona demorar&atilde;o    ainda previsivelmente pelo menos uma d&eacute;cada a reconstituir-se ap&oacute;s    a grav&iacute;ssima perda de centralidade resultante do colapso do modelo marxista-leninista.</p>     <p align="justify">Destas quatro, a de l&iacute;ngua portuguesa &eacute;, porventura,    a maior em termos estat&iacute;sticos, tendo em vista a quantidade de cientistas    sociais brasileiros e a vivacidade actual da comunidade cient&iacute;fica portuguesa.    A presen&ccedil;a de dois grandes pa&iacute;ses africanos com l&iacute;ngua    portuguesa (Angola e Mo&ccedil;ambique) e de pelo menos um pa&iacute;s asi&aacute;tico    em que se utilizar&aacute; no futuro o portugu&ecirc;s (Timor) contribui mais    ainda para dar ao desenvolvimento do pensamento s&oacute;cio-cient&iacute;fico    em portugu&ecirc;s uma perspectiva de relev&acirc;ncia global futura.</p>     <p align="justify">A comunidade franc&oacute;fona &#8212; que &eacute; cada vez    mais reduzida quantitativamente &#8212; det&eacute;m, por&eacute;m, um peso    cient&iacute;fico consider&aacute;vel, largamente devido &agrave; relev&acirc;ncia    hist&oacute;rica da sua contribui&ccedil;&atilde;o para a constitui&ccedil;&atilde;o    intelectual da modernidade (a sua preteridade). A comunidade hispanófona tem    alguns pontos altos e é quantitativamente vasta, mas não tem a vivacidade e    a quantidade de trabalhos que detém a lusófona ou o privilégio de preteridade    da francófona. A comunidade de língua alemã está em processo de reconstituição    (já que só após a queda do muro de Berlim lhe foi possível libertar-se das fortes    heranças intelectuais do início do século XX — tanto a marxista como a romântica)    e só dentro de alguns anos poderemos julgar da sua capacidade de afirmação internacional.</p>     <p align="justify">Tendo em vista que a <i>lingua franca</i> continuará, previsivelmente,    a ser o inglês ainda por muito tempo e que, portanto, todos os cientistas sociais    que queiram ter qualquer impacto durável nas suas disciplinas se verão obrigados    a, pelo menos, ser receptores da <i>lingua franca</i>, poder-se-ia pensar que    a existência de comunidades científicas exprimindo-se noutras línguas seria    largamente irrelevante. Tal julgamento, contudo, é sociologicamente simplista    porque não toma em conta o facto de que as comunidades linguísticas funcionam    como campos de constituição de hegemonias<sup><a href="#3">2</a><a name="top3"></a></sup>    científicas de médio alcance, isto é, como meios de veicularem disposições teóricas    e metodológicas que, não sendo incompatíveis com as praticadas na <i>lingua    franca</i>, têm, apesar de tudo, alguma autonomia. Assim, é lícito argumentar    que estas comunidades linguísticas são espaços de relativa autonomia e, por    conseguinte, poderosíssimos instrumentos de negociação da hegemonia mais abrangente.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="justify">O problema principal que confronta as ciências sociais de língua    portuguesa hoje é o de criar as condições para que o trabalho que realizamos    tenha relevância, isto é, tenha capacidade de sobrevivência enquanto contributo    relevante para os debates futuros — para simplificar, chamarei a esta qualidade    «futuridade»<sup><a href="#4">3</a><a name="top4"></a></sup>. Essa relevância    futura do nosso contributo (a futuridade da nossa obra) não pode ser só vista    unicamente em termos globais, ela tem de ser vista em primeiro lugar em termos    locais. Contudo, as duas coisas estão interligadas devido ao funcionamento dos    processos automáticos de silenciamento que caracterizam a própria natureza do    processo de constituição de hegemonias científicas e intelectuais. O que quero    dizer, em termos práticos, é que os nossos próprios alunos não terão razão para    acharem relevante o que nós escrevemos caso o que nós escrevemos não tenha alguma    capacidade de afirmação face a hegemonias mais abrangentes.</p>     <p align="justify">A trag&eacute;dia das comunidades cient&iacute;ficas marginais    &eacute; a trag&eacute;dia do silenciamento perante si mesmas. Somos muitas    vezes levados, por simplismo, a culpar os colegas angl&oacute;fonos pelo silenciamento    dos nossos trabalhos (que, queixamo-nos n&oacute;s, eles n&atilde;o citam);    os nossos colegas angl&oacute;fonos, ali&aacute;s, s&atilde;o muito dados a    atribu&iacute;rem-se a si mesmos essa autocr&iacute;tica, desculpando-se por    &laquo;n&atilde;o terem jeito para outras l&iacute;nguas&raquo;. Mas essas declara&ccedil;&otilde;es    de <i>mea culpa</i> s&atilde;o v&aacute;cuas e at&eacute; suspeitas, j&aacute;    que s&oacute; servem para lhes atribuir a eles, reflexivamente, a agencialidade    sobre o silenciamento dos outros. Na verdade, <i>n&atilde;o s&atilde;o os colegas    angl&oacute;fonos os principais respons&aacute;veis pela falta de futuridade    do que n&oacute;s fazemos nas margens</i>.</p>     <p align="justify">Olhemos para n&oacute;s pr&oacute;prios, cientistas sociais    de l&iacute;ngua portuguesa hoje, com algum distanciamento e alguma franqueza.    S&oacute; muito raramente somos levados a atribuir significado aos cientistas    sociais de l&iacute;ngua portuguesa que nos precederam (no caso do Brasil, apesar    de tudo, verifica-se menos descuido pelo c&acirc;non regional do que no caso    portugu&ecirc;s); s&oacute; muito raramente somos levados a dialogar uns com    os outros de forma aberta, franca e contundente (mais uma vez, o Brasil tem    conseguido superar parcialmente este sinal de fraqueza); os nossos alunos n&atilde;o    acham &laquo;interessante&raquo;<sup><a href="#5">4</a><a name="top5"></a></sup>    citar nos seus projectos e nas suas notas de rodap&eacute; as obras que n&oacute;s    escrevemos; os alunos dos nossos alunos far&atilde;o o mesmo com os mestres    deles (eu pr&oacute;prio j&aacute; tive ocasi&atilde;o de verificar a perplexidade    que isso causa a colegas mais jovens que, no entanto, nas suas pr&oacute;prias    obras, sempre foram os principais silenciadores dos seus colegas mais seniores).</p>     <p align="justify">As antrop&oacute;logas feministas nos gloriosos anos 80 repetiam    muitas vezes que as sogras eram pelo menos t&atilde;o respons&aacute;veis pela    opress&atilde;o dom&eacute;stica feminina quanto os maridos. Tamb&eacute;m n&oacute;s    vamos descobrir que o sil&ecirc;ncio que cai sobre as nossas obras, e que nos    transforma em cientistas sem relev&acirc;ncia futura, &eacute; o produto dos    nossos pr&oacute;prios disc&iacute;pulos &#8212; de <i>n&oacute;s pr&oacute;prios</i>    enquanto jovens.</p>     <p align="justify">Ora, poder-se-ia dizer que s&oacute; &eacute; poss&iacute;vel    ultrapassar a falta de &laquo;futuridade &raquo; &laquo;publicando e sendo citado    no &iacute;ndice ISI&raquo;! Tal engodo, por&eacute;m, s&oacute; enganar&aacute;    quem deseje ser enganado. H&aacute; limites muito claros para a constitui&ccedil;&atilde;o    de futuridade por parte de cientistas sociais que est&atilde;o fora dos c&iacute;rculos    de excel&ecirc;ncia global e estes &uacute;ltimos estar&atilde;o sempre ligados    umbilicalmente aos centros hegem&oacute;nicos de poder &#8212; qualquer outra    no&ccedil;&atilde;o seria dif&iacute;cil de contemplar. A futuridade da actividade    cient&iacute;fica n&atilde;o &eacute; &uacute;nica e simplesmente mensur&aacute;vel    em termos de um qualquer impacto &laquo;objectivo&raquo; sobre o conhecimento,    nem em termos te&oacute;ricos, nem sequer em termos tecnol&oacute;gicos. N&atilde;o    basta &laquo;descobrir&raquo; coisas importantes para ganhar pr&eacute;mios    Nobel e fazer patentes milion&aacute;rias &#8212; e nas ci&ecirc;ncias sociais    por maioria de raz&atilde;o. A actividade cient&iacute;fica (e pe&ccedil;o que    n&atilde;o interpretem esta posi&ccedil;&atilde;o historicista como uma declara&ccedil;&atilde;o    anticientiv&iacute;stica &#8212; s&oacute; para os simplistas &eacute; que as    duas coisas s&atilde;o incompat&iacute;veis) &eacute; uma actividade social    e como tal est&aacute; imersa em todo um esquema de reprodu&ccedil;&atilde;o    que passa pela exist&ecirc;ncia de hegemonias &#8212; o poder militar, pol&iacute;tico,    econ&oacute;mico e o poder cultural, intelectual e cient&iacute;fico cruzam-se.</p>     <p align="justify">Eu pr&oacute;prio tenho verificado &#8212; e o debate com colegas    seniores brasileiros tem confirmado esta opini&atilde;o &#8212; que n&atilde;o    basta publicar obras consideradas de valor em l&iacute;ngua inglesa para assegurar    a futuridade do que publicamos. Mais cedo ou mais tarde se revela que as coisas    que os colegas citam (e que, portanto, t&ecirc;m futuridade) t&ecirc;m menos    a ver com o que l&aacute; est&aacute; escrito e mais a ver com o que eles pr&oacute;prios    &laquo;ganham&raquo; ao cit&aacute;-las. Ponho &laquo;ganham&raquo; entre aspas    para que se perceba que n&atilde;o falo de qualquer ganho financeiro (se bem    que esse aspecto esteja presente, est&aacute; claro), mas sim de um interesse    mais vasto, que inclui at&eacute; aspectos de natureza vagamente est&eacute;tica.    Por exemplo, &eacute; mais interessante/chique citar Foucault (e isto porque    Foucault &eacute; a coqueluche americana, nada a ver com francofilia) do que    Thales de Azevedo, mesmo quando o que se est&aacute; a dizer tem mais a ver    com a brilhante obra deste &uacute;ltimo &#8212; que, ali&aacute;s, a maioria    de n&oacute;s simplesmente desconhece.</p>     <p align="justify">Tanto eu pr&oacute;prio como os colegas brasileiros que, como    eu, t&ecirc;m uma j&aacute; longa carreira marcada pela publica&ccedil;&atilde;o    desde o in&iacute;cio em revistas e editoras angl&oacute;fonas temos observado    empiricamente que o nosso &laquo;capital de prest&iacute;gio cient&iacute;fico&raquo;    n&atilde;o tem a mesma for&ccedil;a de acumula&ccedil;&atilde;o que a de colegas    americanos cuja obra foi at&eacute;, por vezes, menos bem recebida e publicada    em editoras menos prestigiadas do que as nossas. Vinte ou trinta anos depois    de termos iniciado as nossas carreiras continuamos a ser tratados como iniciantes.    Os ensaios que mandamos para revistas cujos editores s&atilde;o alunos dos que    foram nossos colegas em Paris, Oxford, Berkeley ou Nova Iorque s&atilde;o recebidos    e comentados pelos <i>referees</i> como se fossem obras de iniciantes.</p>     <p align="justify">O fil&oacute;sofo J. A. Giannotti, disc&iacute;pulo de Sartre,    colega intelectual de Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso e tantas    outras figuras marcantes da <i>intelligentzia</i> paulista, e cuja obra publicada    em franc&ecirc;s e ingl&ecirc;s &eacute; consider&aacute;vel (para al&eacute;m    da important&iacute;ssima obra filos&oacute;fica publicada em portugu&ecirc;s),    declarou-me que, confrontados com o silenciamento externo, ele e os seus colegas    tiveram de fazer uma op&ccedil;&atilde;o de carreira: &laquo;A nossa op&ccedil;&atilde;o    foi ser fil&oacute;sofos municipais.&raquo; Essa frase, pronunciada em tom ir&oacute;nico,    deixou-me profundamente instigado, como se diz por l&aacute;. &Eacute; que a    municipalidade onde ele habita tem 14 milh&otilde;es de habitantes e o pa&iacute;s    onde eu vivo s&oacute; tem 9 milh&otilde;es, sem contar com a iliteracia generalizada!</p>     <p align="justify">Em suma, se as considera&ccedil;&otilde;es acima s&atilde;o    v&aacute;lidas, ent&atilde;o a constitui&ccedil;&atilde;o de espa&ccedil;os    interm&eacute;dios de hegemonia intelectual &eacute; essencial para a reprodu&ccedil;&atilde;o    das comunidades cient&iacute;ficas dos pa&iacute;ses menos centrais. A exist&ecirc;ncia    de tais espa&ccedil;os permitir&aacute; a constitui&ccedil;&atilde;o de hegemonias    locais, que, por sua vez, constituir&atilde;o p&oacute;los negociais fortes    na confronta&ccedil;&atilde;o com a hegemonia global. Se formos capazes de assegurar    a futuridade das nossas obras a n&iacute;vel das comunidades lingu&iacute;sticas    n&atilde;o angl&oacute;fonas, n&atilde;o ser&aacute; t&atilde;o f&aacute;cil    o v&eacute;u do silenciamento cair sobre n&oacute;s a n&iacute;vel global &#8212;    cair&aacute;, sim, mas menos, o que faz toda a diferen&ccedil;a.</p>     <p align="justify">Temos de produzir obras de elevado n&iacute;vel cient&iacute;fico,    empiricamente correctas e teoricamente consequentes, plenas da melhor <i>scholarship</i>.    Tal, por&eacute;m, n&atilde;o chega para assegurar que a nossa obra tenha futuridade.    Para isso, teremos sempre de passar por um trabalho de constitui&ccedil;&atilde;o    social, porque a ci&ecirc;ncia &eacute; uma actividade social. Teremos, pois,    de realizar essa obra em quatro frentes de socialidade:</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="justify">a) O associativismo cient&iacute;fico (e temos, por exemplo,    na Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Antropologia, em portugu&ecirc;s,    as reuni&otilde;es regulares antropol&oacute;gicas mais participadas do mundo,    afora as da American Anthropological Association);</p>     <p align="justify">b) A cria&ccedil;&atilde;o de interconhecimento cient&iacute;fico    atrav&eacute;s da realiza&ccedil;&atilde;o de investiga&ccedil;&otilde;es cruzadas    que obrigam, por interesse emp&iacute;rico, &agrave; refer&ecirc;ncia m&uacute;tua    (temos de fazer os brasileiros, os franceses e os espanh&oacute;is virem investigar    para c&aacute; e n&oacute;s temos de ir para l&aacute;);</p>     <p align="justify">c) A troca de pessoal docente;</p>     <p align="justify">d) A forma&ccedil;&atilde;o local dos nossos pr&oacute;prios    alunos de p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o, por forma que estes n&atilde;o    escapem aos contextos formais de constitui&ccedil;&atilde;o de futuridade do    ensino que recebem.</p>     <p align="justify">Concluo, pois, que a estrat&eacute;gia de desenvolvimento acad&eacute;mico    que devemos implementar em Portugal tem de superar os sentimentos de inferioridade    que caracterizaram a comunidade cient&iacute;fica portuguesa do p&oacute;s-25    de Abril em que tudo se validava com express&otilde;es do g&eacute;nero &laquo;&eacute;    como eles fazem &#8216;l&aacute; fora&#8217;&raquo;. Acontece que &laquo;l&aacute;    fora&raquo; &eacute; um lugar que n&atilde;o existe, por um lado, e &laquo;l&aacute;    em cima&raquo; &eacute; um lugar onde n&oacute;s s&oacute; teremos acesso se    abdicarmos de sermos portugueses, brasileiros, espanh&oacute;is, mexicanos,    franceses, alem&atilde;es, etc. O que nem podemos nem queremos.</p>     <p align="justify">Para constituir a futuridade do nosso trabalho (sem o que os    nossos sal&aacute;rios foram dinheiro que o Estado investiu mal) temos de entrar    no jogo da negocia&ccedil;&atilde;o hegem&oacute;nica. Tal faz-se, no caso portugu&ecirc;s,    pela cria&ccedil;&atilde;o de la&ccedil;os preferenciais com as comunidades    cient&iacute;ficas da nossa l&iacute;ngua (a comunidade brasileira) ou de l&iacute;nguas    que est&atilde;o em condi&ccedil;&otilde;es de subalternidade relativa aproximada    da nossa (a espanhola e a francesa) em cada uma das quatro frentes de socialidade    acima referidas. Pe&ccedil;o que esta posi&ccedil;&atilde;o n&atilde;o seja    interpretada como um argumento contra a <i>l&iacute;ngua franca</i> (o ingl&ecirc;s).    Pelo contr&aacute;rio, trata-se de uma proposta estrat&eacute;gica que pretende    precisamente contemplar a necessidade de negociar o silenciamento <i>no interior</i>    da <i>l&iacute;ngua franca</i>.</p>      <p>&nbsp; </p>      <p><sup><a href="#top2">1</a><a name="2"></a></sup> Uso aqui esta express&atilde;o    &laquo;comunidade&raquo; de forma propositadamente vaga.</p>      <!-- ref --><p><sup><a href="#top3">2</a><a name="3"></a></sup> Por hegemonia, seguindo a    tradição gramsciana, sem lhe respeitar completamente a intenção (v. Pina Cabral,    Análise Social, n.º 153, 2000, pp. 865-892), refiro-me a formas de dominação    negociada, portanto culturalmente mediadas, em que os dominados aceitam tornar-se    representados mediante a resposta por parte dos dominadores a condições que    os dominados considerem que os compensam, pelo menos parcialmente, pela perda    do poder.      &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000041&pid=S0003-2573200700010001100001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p><sup><a href="#top4">3</a><a name="4"></a></sup> Sigo aqui a sugestão de Hermínio    Martins relativa ao uso que faz do conceito de «preteridade» na sua obra clássica    sobre «O tempo e a teoria social» (v. Hegel, Texas e Outros Ensaios de Teoria    Social, 1996 [1974]). </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a href="#top5">4</a><a name="5"></a></sup> Temo em dizer &laquo;chique&raquo;,    porque pode parecer que estou a critic&aacute;-los por algo que n&atilde;o &eacute;    &laquo;pecado&raquo; individual deles, mas &eacute; uma condi&ccedil;&atilde;o    geral.</p>      <p><a href="#top1">*</a><a name="1"></a> Instituto de Ci&ecirc;ncias Sociais da    Universidade de Lisboa.</p>       ]]></body><back>
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