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</front><body><![CDATA[ <P  ALIGN="JUSTIFY"><I>Hans G. Kippenberg,</I> <B>Discovering Religious History in    the Modern Age</B>, Princeton e Oxford, Princeton University Press, 2002, 264    p&aacute;ginas.      <P ALIGN="JUSTIFY">      <P ALIGN="JUSTIFY">      <P ALIGN="JUSTIFY">There is no data for religion. Religion is solely the creation    of the scholar's study.      <p>&nbsp;</p>     <P  ALIGN="JUSTIFY">O livro aqui apresentado tem logo no in&iacute;cio uma cita&ccedil;&atilde;o    do famoso texto <I>A &Eacute;tica Protestante e o Esp&iacute;rito Capitalista,</I>    de Max Weber, dizendo que o homem moderno &eacute; incapaz &#151; mesmo com    grande esfor&ccedil;o e com muita vontade &#151; de reconhecer a verdadeira    import&acirc;ncia das ideias religiosas para a conduta de vida, ou seja, para    a constru&ccedil;&atilde;o da cultura, em geral, ou de um car&aacute;cter nacional.    E, embora j&aacute; tenham surgido entretanto estudos diversos sobre a rela&ccedil;&atilde;o    dial&eacute;ctica entre sociedade e religi&atilde;o, hoje em dia a situa&ccedil;&atilde;o    &eacute; quase a mesma, como nos tempos de Weber. O autor do livro, Hans G.    Kippenberg, sublinha que mesmo actualmente podemos encontrar posi&ccedil;&otilde;es    nas ci&ecirc;ncias hist&oacute;ricas que ignoram o papel da religi&atilde;o,    ou posi&ccedil;&otilde;es nas ci&ecirc;ncias sociais que apresentam a religi&atilde;o    como uma ideologia. Para corrigir estas atitudes erradas, o autor de <I>Discovering    Religious History in the Modern Age</I> tenta identificar o nascimento da hist&oacute;ria    das religi&otilde;es como uma reac&ccedil;&atilde;o particular perante a moderniza&ccedil;&atilde;o.      <P ALIGN="JUSTIFY">Especialmente entre 1850 e 1920, muitos cientistas ocidentais    come&ccedil;aram a estudar entusiasticamente a hist&oacute;ria da religi&atilde;o,    a examinar textos recentemente decifrados ou a discutir relat&oacute;rios etnogr&aacute;ficos.    Usando m&eacute;todos comparativos, a religi&atilde;o, que foi rejeitada pelos    fil&oacute;sofos do iluminismo como um fen&oacute;meno irracional e ultrapassado,    &eacute; agora estudada como uma das manifesta&ccedil;&otilde;es mais vigorosas    da exist&ecirc;ncia humana. Foi exactamente nesta altura que, na base da civiliza&ccedil;&atilde;o    moderna, foram encontrados res&iacute;duos <I>(survivals)</I> de culturas passadas;    e foram precisamente estas descobertas que permitiram e exigiram uma nova diagnose    das sociedades modernas. Por outro lado, foi tamb&eacute;m nesta &eacute;poca    que surgiu o entendimento de que as sociedades modernas t&ecirc;m uma hist&oacute;ria    religiosa, da mesma maneira que t&ecirc;m uma hist&oacute;ria social, pol&iacute;tica    ou econ&oacute;mica. Kippenberg escreveu um estudo excelente e extremamente    informativo sobre o aparecimento da hist&oacute;ria das religi&otilde;es, come&ccedil;ando    com os acontecimentos que o antecederam.      <P ALIGN="JUSTIFY">H&aacute; muitos indicadores (at&eacute; agora encarados com        pouca ou nenhuma aten&ccedil;&atilde;o) que apontam para a exist&ecirc;ncia        de rela&ccedil;&otilde;es claras entre a filosofia da religi&atilde;o e a ci&ecirc;ncia      ]]></body>
<body><![CDATA[  da religi&atilde;o enquanto disciplina hist&oacute;rica. Kippenberg exp&otilde;e        no cap&iacute;tulo 1 do seu livro que todas as implica&ccedil;&otilde;es poss&iacute;veis        de uma hist&oacute;ria das religi&otilde;es podem ser apenas compreendidas atrav&eacute;s        de algumas considera&ccedil;&otilde;es filos&oacute;ficas sobre a religi&atilde;o.        Assim, estamos confrontados nas p&aacute;ginas seguintes com a apresenta&ccedil;&atilde;o        informativa de algumas das primeiras tentativas para analisar a religi&atilde;o        fora do seio da teologia. Estas tentativas come&ccedil;aram na hist&oacute;ria        moderna principalmente com Thomas Hobbes e David Hume, que sublinharam, directa        e indirectamente, o paralelismo estreito entre a hist&oacute;ria humana e a        hist&oacute;ria religiosa. Para entender esta analogia ser&aacute; necess&aacute;rio      ]]></body>
<body><![CDATA[  circunscrever o lugar da religi&atilde;o dentro da natureza humana especialmente        atrav&eacute;s de m&eacute;todos emp&iacute;ricos, ou seja, processos cient&iacute;ficos        baseados em &#171;experience and observation&#187; (p. 5). Depois de algumas        observa&ccedil;&otilde;es not&aacute;veis acerca de Rousseau, Kant, Johann Gottfried        Herder, Friedrich Schleiermacher e Hegel, cap&iacute;tulo 1 acaba com uma breve        nota sobre Arthur Schopenhauer. Este fil&oacute;sofo considerou que n&atilde;o        existe por acaso em todas as religi&otilde;es uma certa tend&ecirc;ncia para        uma &#171;renunciation of the world&#187; (p. 21). Para al&eacute;m disso, Schopenhauer        reconheceu lucidamente que a literatura do <I>s&acirc;nscrito </I>ter&aacute;        n&atilde;o menos efeito na hist&oacute;ria humana do que o reaparecimento da      ]]></body>
<body><![CDATA[  literatura grega no s&eacute;culo xv. E, de facto, no cap&iacute;tulo 2 Kippenberg        descreve de uma forma interessante como foram, a partir do s&eacute;culo xviii,        decifradas muitas culturas at&eacute; ent&atilde;o desconhecidas. Uma das figuras-chave        nesta nova decifra&ccedil;&atilde;o de algumas civiliza&ccedil;&otilde;es antigas        foi o franc&ecirc;s Abraham Hyacinthe Anquetil-Duperron, que traduziu pela primeira        vez, em 1771, a <I>Avesta</I> &#151; o livro sagrado dos persas, ou seja, do        zoroastrismo. Anquetil-Duperron, ao escrever no pref&aacute;cio da sua tradu&ccedil;&atilde;o        que os humanistas j&aacute; conheciam a hist&oacute;ria e a cultura dos judeus,        gregos ou romanos, mas &#171;America, Africa, and Asia still remain to be deciphered        [&#133;]&#187; (<I>in</I> Kippenberg, p. 24), provocou com a sua tradu&ccedil;&atilde;o      ]]></body>
<body><![CDATA[  uma aut&ecirc;ntica s&eacute;rie de decifra&ccedil;&otilde;es de l&iacute;nguas        e textos at&eacute; ent&atilde;o desconhecidos, e com isso uma verdadeira &#171;oriental        renaissance&#187; (p. 28). Um dos vultos mais emblem&aacute;ticos deste renascimento        oriental foi o fil&oacute;logo alem&atilde;o Friedrich Max M&uuml;ller, que        prop&ocirc;s a publica&ccedil;&atilde;o de uma s&eacute;rie de livros sagrados        do Oriente. Apenas um pouco mais do que um s&eacute;culo depois da primeira        tradu&ccedil;&atilde;o da <I>Avesta </I>saiu a s&eacute;rie dos <I>Sacred Books        of the East, </I>que teve em 1898 j&aacute; cinquenta volumes. Deste modo, Kippenberg        relata no cap&iacute;tulo 3 a obra de F. M. M&uuml;ller, que pode ser visto        como um dos fundadores mais importantes da ci&ecirc;ncia (comparada) das religi&otilde;es      ]]></body>
<body><![CDATA[  [<I>science of religion </I>ou (<I>Vergleichende</I>) <I>Religionswissenschaft</I>].        Embora muitos dos seus pr&oacute;prios trabalhos cient&iacute;ficos, como, por        exemplo, a classifica&ccedil;&atilde;o das religi&otilde;es atrav&eacute;s das        l&iacute;nguas, estejam hoje em dia j&aacute; ultrapassados, dev&iacute;amos        reconhecer o seu papel essencial na populariza&ccedil;&atilde;o da ci&ecirc;ncia        ou da hist&oacute;ria das religi&otilde;es dentro do c&acirc;non das ci&ecirc;ncias,        assim como a sua influ&ecirc;ncia importante para a futura antropologia ou sociologia        da religi&atilde;o. Kippenberg reconhece que alguns estudos dentro da ci&ecirc;ncia        das religi&otilde;es, por exemplo, os de William Robertson Smith (p. 73) ou        de &Eacute;mile Durkheim (p. 151), seriam impens&aacute;veis sem a confronta&ccedil;&atilde;o      ]]></body>
<body><![CDATA[  com F. M. M&uuml;ller. Tal como no cap&iacute;tulo 3, Kippenberg concentra a        sua aten&ccedil;&atilde;o nos dois cap&iacute;tulos seguintes em duas personagens        que devem ser hoje em dia encaradas como cl&aacute;ssicos dentro da ci&ecirc;ncia        das religi&otilde;es. Trata-se de Edward Burnett Tylor e de William Robertson        Smith. Quando E. B. Tylor come&ccedil;ou a ocupar-se das orienta&ccedil;&otilde;es        religiosas em culturas &#171;primitivas&#187;, dominava ainda a opini&atilde;o        p&uacute;blica a partir da qual as culturas &#171;primitivas&#187; eram compreendidas        como formas ou restos degenerados de algumas civiliza&ccedil;&otilde;es desaparecidas.        No seu livro <I>Primitive Culture: Researches into the Development of Mythology,        Philosophy, Religion, Art, and Custom </I>(1871), E. B. Tylor argumentou que      ]]></body>
<body><![CDATA[  a tese da degenera&ccedil;&atilde;o pode ser apenas demonstrada teologicamente,        mas nunca etnologicamente. Pelo contr&aacute;rio, ainda hoje podem ser encontradas        nas civiliza&ccedil;&otilde;es moderadas representa&ccedil;&otilde;es (<I>survivals</I>)<I>        </I>de religi&otilde;es primordiais. Kippenberg aponta, de uma forma clara,        para a situa&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica na qual as teorias de E. B. Tylor        nasceram e como este se tornou um autor que dominou durante algum tempo os estudos        da antropologia moderna (E. B. Tylor foi o primeiro docente universit&aacute;rio        que fundou em 1905, em Oxford, uma disciplina independente com o nome de &#171;Anthropology&#187;).        Embora a etnologia de E. B. Tylor ofere&ccedil;a um panorama impressionante        sobre as estratifica&ccedil;&otilde;es ou os desenvolvimentos de uma cultura,      ]]></body>
<body><![CDATA[  faltava ainda a apresenta&ccedil;&atilde;o dos princ&iacute;pios sociais e jur&iacute;dicos        que estabeleceram a ordem interior de um povo &#171;primitivo&#187;. Neste ponto,        Kippenberg apresenta William Robertson Smith, especialmente os seus trabalhos        sobre a religi&atilde;o dos semitas, atrav&eacute;s dos quais este cientista        escoc&ecirc;s descobriu o papel predominante do rito perante o mito. A partir        desta tese, e tamb&eacute;m a partir da sua concep&ccedil;&atilde;o de um &#171;archaic        killing ritual&#187;, abriu-se um caminho atrav&eacute;s do qual a fun&ccedil;&atilde;o        social da religi&atilde;o se tornou cada vez mais vis&iacute;vel. A influ&ecirc;ncia        enorme de W. R. Smith, como Kippenberg salientou nitidamente, come&ccedil;ou        j&aacute; em James George Frazer e teve o seu auge em autores t&atilde;o diferentes      ]]></body>
<body><![CDATA[  como Sigmund Freud e &Eacute;mile Durkheim, o qual reconheceu que compreendeu        de uma forma clara o papel central da religi&atilde;o na vida social a partir        da leitura de W. R. Smith (p. 80).      <P ALIGN="JUSTIFY">Nos cap&iacute;tulos 6 e 7, Kippenberg refere-se novamente    &agrave; rela&ccedil;&atilde;o estreita entre a filologia e a hist&oacute;ria    das religi&otilde;es, salientando especialmente os estudos extensos de James    George Frazer e Jane Ellen Harrison. A partir de um encontro pessoal entre J.    G. Frazer e William James [mais tarde James descreveu Frazer numa carta como    um homem ing&eacute;nuo, ou como um &#171;sucking baba&#187; (p. 87)], Kippenberg    conta-nos amenamente como a antropologia de Frazer seria impens&aacute;vel sem    a sua educa&ccedil;&atilde;o filol&oacute;gica, embora s&oacute; algumas das    descri&ccedil;&otilde;es impressionantes do seu palimpsesto <I>Golden Bough    </I>(O subt&iacute;tulo da 1.&#170; edi&ccedil;&atilde;o de <I>Golden Bough    </I>chamava-se <I>A Study in Comparative Religion</I> e pode ser compreendido    como uma alus&atilde;o &agrave; filologia comparada) se baseiem em fontes antigas.    Muitas outras partes s&atilde;o simplesmente o produto da imensa imagina&ccedil;&atilde;o    liter&aacute;ria de Frazer (p. 89), mas a mesma teve na sua &eacute;poca uma    enorme for&ccedil;a sedutora. Apesar da impossibilidade de encontrar hoje algum    antrop&oacute;logo que tenha lido integralmente os 12 volumes da 3.&#170; edi&ccedil;&atilde;o    de <I>Golden</I> <I>Bough, </I>e apesar das suas posi&ccedil;&otilde;es j&aacute;    ultrapassadas, temos de considerar Frazer um dos grandes promotores da moderna    antropologia e ci&ecirc;ncia das religi&otilde;es. Assim, Frazer tentou, quase    nunca saindo do seu escrit&oacute;rio em Cambridge, estimular trabalhos de campo.    N&atilde;o foi ent&atilde;o por acaso que um dos seus alunos mais c&eacute;lebres    foi o polaco Malinowski, hoje considerado um dos promotores principais das pr&aacute;ticas    antropol&oacute;gicas.      <P ALIGN="JUSTIFY">O centro do cap&iacute;tulo 7 do livro de Kippenberg &eacute;    uma admiradora e colega contempor&acirc;nea de Frazer em Cambridge. Jane E.    Harrison, membro dos famosos <I>Cambridge Ritualists</I>, estudou as l&iacute;nguas    cl&aacute;ssicas e passou algum tempo em Atenas, onde acompanhou os trabalhos    arqueol&oacute;gicos do alem&atilde;o Wilhelm D&ouml;rpfeld. Depois do regresso    a Inglaterra, Jane E. Harrison desenvolveu um conceito da religi&atilde;o baseada    principalmente no rito. Especialmente sob a influ&ecirc;ncia de Henri Bergson,    e tamb&eacute;m depois da leitura de Durkheim, Jane E. Harrison percebeu que    os ritos n&atilde;o podem ser apenas compreendidos como uma express&atilde;o    das emo&ccedil;&otilde;es, mas tamb&eacute;m da realiza&ccedil;&atilde;o, apresenta&ccedil;&atilde;o,    visualiza&ccedil;&atilde;o ou exibi&ccedil;&atilde;o das mesmas (p. 111). Paralelamente    a Max Weber, Jane E. Harrison entendeu muito cedo o papel decisivo do cristianismo    no &#171;desencantamento do mundo&#187; e defendeu que um olhar retrospectivo    para a antiguidade grega pode ajudar-nos a compreender como funcionava uma cultura    ainda livre dos defeitos de uma civiliza&ccedil;&atilde;o racional. Esta ideia,    bem como o entendimento nietzschiano dos &#171;Greeks as interpreters&#187;    (<I>Die Griechen als Dolmetscher</I>) (p. 112), continua a ter ainda hoje uma    fascina&ccedil;&atilde;o &uacute;nica.      <P ALIGN="JUSTIFY">Uma outra tentativa, pelo menos temporariamente muito importante,    de perceber a hist&oacute;ria das religi&otilde;es &eacute; relatada por Kippenberg    no cap&iacute;tulo 8 sob o t&iacute;tulo &#171;The productive force of world    rejection&#187; (p. 113). Trata-se concretamente da chamada <I>Religionsgeschichtliche    Schule, </I>cujo membro mais conhecido foi Ernst Troeltsch, que sublinhou o    facto de todas as religi&otilde;es serem, para al&eacute;m da fixa&ccedil;&atilde;o    de uma moral e de uma mundivid&ecirc;ncia, fen&oacute;menos sobretudo subjectivos    e tamb&eacute;m hist&oacute;ricos. E, sendo fen&oacute;menos hist&oacute;ricos,    h&aacute; apenas uma possibilidade de obter um conhecimento normativo sobre    a religi&atilde;o: a hist&oacute;ria das religi&otilde;es. Troeltsch construiu    um modelo a partir do qual as religi&otilde;es t&ecirc;m, atrav&eacute;s da    sua caracter&iacute;stica subjectiva, uma inclina&ccedil;&atilde;o para uma    independ&ecirc;ncia perante o mundo natural e social. Esta tend&ecirc;ncia revela-se    na sua forma mais consequente e mais elevada nas religi&otilde;es da salva&ccedil;&atilde;o.    Kippenberg mostra nitidamente nas suas an&aacute;lises que estas teorias ganharam    uma grande popularidade, especialmente por causa do estado mental dessa &eacute;poca:    &#171;The decades when the Religionsgeschichtliche Schule was taking shape were    full of admiration for apocalyptic expectation and mystical escape from the    world&#187; (p. 124). At&eacute; ao fim do s&eacute;culo xix foram produzidos    muitos estudos que fazem parte do c&acirc;non da ci&ecirc;ncia ou da hist&oacute;ria    das religi&otilde;es. Por outro lado, com o in&iacute;cio do s&eacute;culo xx    tornou-se problem&aacute;tica a classifica&ccedil;&atilde;o do imenso material    hist&oacute;rico e antropol&oacute;gico que foi escolhido at&eacute; ent&atilde;o.    Para al&eacute;m disso, foi por esta altura que os processos da moderniza&ccedil;&atilde;o    come&ccedil;aram a entrar nas rotinas quotidianas da vida. O historismo, enquanto    pensamento que desenvolve as normas da ac&ccedil;&atilde;o atrav&eacute;s da    hist&oacute;ria, entrou nesta altura em crise, porque j&aacute; n&atilde;o teve    capacidades para explicar suficientemente as recentes transforma&ccedil;&otilde;es    sociais. Esta crise influenciou tamb&eacute;m a hist&oacute;ria das religi&otilde;es,    compreendida a partir de agora como uma separa&ccedil;&atilde;o entre sistemas    de sentido <I>(systems of meaning) </I>e express&otilde;es de experi&ecirc;ncias    <I>(expression of experience),</I> ou seja, entre interpreta&ccedil;&otilde;es    funcionais e substanciais da religi&atilde;o. Kippenberg faz assim no cap&iacute;tulo    9 uma primeira, breve e inteligente distin&ccedil;&atilde;o entre as interpreta&ccedil;&otilde;es    de Max Weber e &Eacute;mile Durkheim, por um lado, e de Wilhelm Dilthey (n&atilde;o    foi por acaso que escreveu tamb&eacute;m uma biografia de Friedrich Schleiermacher)    e Rudolf Otto, por outro (pp. 132-135).      <P ALIGN="JUSTIFY">Seguem-se agora dois cap&iacute;tulos, interessantes especialmente    para soci&oacute;logos, nos quais o leitor encontra &Eacute;mile Durkheim e    Max Weber enquanto actores principais. Como nos outros cap&iacute;tulos, Kippenberg    inicia tamb&eacute;m esta parte com algumas preciosas informa&ccedil;&otilde;es    biogr&aacute;ficas e sobre as circunst&acirc;ncias temporais. Assim, chegamos    a saber que Durkheim ficou depois da sua estada na Alemanha profundamente marcado    pelo positivismo do fil&oacute;sofo e psic&oacute;logo Wilhelm Wundt. Em Outubro    de 1886, Wundt publicou <I>Ethik. Eine Untersuchung der Thatsachen und Gesetze    des Sittlichen Lebens (Ethics. An Investigation of the Facts and Laws of the    Moral Life),</I> que teve, atrav&eacute;s de Durkheim, uma recens&atilde;o entusiasmada    em Fran&ccedil;a <I>(La science positive de la morale en Allemagne). </I>Wundt    mostrou no seu livro que uma pessoa singular pode integrar-se num contexto social    apenas atrav&eacute;s de regras morais. Estas regras s&atilde;o fruto de obriga&ccedil;&otilde;es    colectivas e independentes da consci&ecirc;ncia daquela personalidade singular.    Assim, as ac&ccedil;&otilde;es sociais nunca podem ser o resultado de uma motiva&ccedil;&atilde;o    pessoal. Durkheim negou mais tarde estas influ&ecirc;ncias de Wundt um pouco    por causa das dif&iacute;ceis rela&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas entre    a Alemanha e a Fran&ccedil;a, mas foi sobretudo a leitura de W. Robertson Smith    que conduziu o soci&oacute;logo franc&ecirc;s quase directamente &agrave; conhecida    hip&oacute;tese a partir da qual a religi&atilde;o pode ser compreendida como    a matriz da vida colectiva. Mais adiante, Kippenberg explica a sociologia de    Durkheim atrav&eacute;s de muitos pormenores &uacute;teis com refer&ecirc;ncias    not&aacute;veis &agrave; situa&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica na viragem    do s&eacute;culo xix para o s&eacute;culo xx.      <P ALIGN="JUSTIFY">Um dos cap&iacute;tulos mais admir&aacute;veis chega agora    sob o t&iacute;tulo sugestivo de &#171;The great process of disenchantment&#187;,    onde Kippenberg descreve o caminho atrav&eacute;s do qual Max Weber procurou    perceber as condi&ccedil;&otilde;es do capitalismo moderno. Tamb&eacute;m aqui    Kippenberg come&ccedil;a com algumas informa&ccedil;&otilde;es sobre a biografia    cient&iacute;fica de Weber para depois explicar as fontes religiosas da &eacute;tica    capitalista. Sendo um dos conhecedores mais profundos da sistematiza&ccedil;&atilde;o    das religi&otilde;es <I>(Religionssystematik) </I>weberiana, Kippenberg explica    com palavras acess&iacute;veis como Weber chegou da sua sociologia da religi&atilde;o    ao grande momento do &#171;desencantamento&#187; da cultura ocidental. O ponto    de partida para este &#171;desencantamento&#187; foi uma descoberta, &#171;the    special nature of the rationalism of Western culture&#187;. A indiscut&iacute;vel    utilidade dos dados biogr&aacute;ficos, no entendimento de um grande pensador,    foi mostrada novamente por Kippenberg atrav&eacute;s de uma cita&ccedil;&atilde;o    de Marianne Weber, que comentou de uma forma clara a import&acirc;ncia do processo    da racionaliza&ccedil;&atilde;o para Weber: &#171;The process of rationalisation    dissolves the magical notions and increasingly `disenchants' the world and renders    it godless [&#133;] Weber regarded this recognition of the special character    of Eastern <I>rationalism </I>and the role it was given to play for Western    civilization as one of his most important discoveries. As a result, his original    inquiry into the relationship between religion and economics expanded into an    even more comprehensive inquiry into the <I>special character of all of Western    civilization</I>&#187; (Marianne Weber, <I>in </I>Kippenberg, pp. 166 e segs.).    Kippenberg termina este cap&iacute;tulo, extremamente informativo, com uma confiss&atilde;o    de Weber dizendo que esta racionalidade tem, em geral, uma cabe&ccedil;a de    Janus. Esta racionalidade parece provocar automaticamente uma certa pluraliza&ccedil;&atilde;o    das formas de vida. Um indiv&iacute;duo moderno tem agora de decidir ou at&eacute;    de criar a sua pr&oacute;pria forma de vida atrav&eacute;s de decis&otilde;es    subjectivas. Isto exige do indiv&iacute;duo moderno uma nova responsabilidade    e independ&ecirc;ncia, que eram desconhecidas at&eacute; ent&atilde;o, como    vemos especialmente no seu c&eacute;lebre texto <I>Wissenschaft als Beruf [(Ci&ecirc;ncia    como Voca&ccedil;&atilde;o (Profiss&atilde;o)]</I>.      <P ALIGN="JUSTIFY">Ao mesmo tempo que no princ&iacute;pio do s&eacute;culo xx    se refor&ccedil;ou a moderniza&ccedil;&atilde;o das sociedades ocidentais, a    religi&atilde;o tornou-se cada vez mais assunto privado do indiv&iacute;duo.    Esta individualiza&ccedil;&atilde;o da religi&atilde;o despoletou uma s&eacute;rie    de publica&ccedil;&otilde;es que apresentaram a religi&atilde;o j&aacute; n&atilde;o    como uma importante componente social, mas sim como uma experi&ecirc;ncia individual.    Kippenberg fala assim no pen&uacute;ltimo cap&iacute;tulo do seu livro especialmente    sobre autores que encararam a religi&atilde;o enquanto fen&oacute;meno individual,    tais como William James, Rudolf Otto, Nathan S&ouml;derblom ou Gerardus van    der Leeuw. Nestes autores revelou-se sobretudo uma certa reac&ccedil;&atilde;o    contra um racionalismo frio que marcou e dominou nesta &eacute;poca quase todas    as sociedades modernas. As interpreta&ccedil;&otilde;es da religi&atilde;o que    sublinharam principalmente a parte individual, irracional, ext&aacute;tica ou    m&iacute;stica dentro de uma orienta&ccedil;&atilde;o religiosa corresponderam    assim exactamente ao chamado &#171;nerve of the time&#187;, marcado por uma    certa interioriza&ccedil;&atilde;o do indiv&iacute;duo.      <P ALIGN="JUSTIFY">No &uacute;ltimo cap&iacute;tulo, Kippenberg acentua mais uma    vez a ambival&ecirc;ncia que se esconde atr&aacute;s do fen&oacute;meno da moderniza&ccedil;&atilde;o.    A partir de uma refer&ecirc;ncia a Peter L. Berger, Kippenberg destaca que muitas    pessoas entendem a moderniza&ccedil;&atilde;o como uma possibilidade de se libertarem    de algumas tradi&ccedil;&otilde;es velhas e muitas vezes sentidas como sufocantes.    Por outro lado, o indiv&iacute;duo moderno sofre logo um desassossego metaf&iacute;sico,    ou seja, um receio de viver sem abrigo transcendental. Paralelamente a este    processo, numa sociedade moderna o lugar e a fun&ccedil;&atilde;o da religi&atilde;o    mudaram fundamentalmente. E &eacute; especialmente este facto que determina    hoje em dia o trabalho cient&iacute;fico acerca das religi&otilde;es: &#171;The    need for reliable knowledge of worldviews and norms has grown as modernization    has led to a break with the traditional world. The experience of the loss of    certainty and self-evident truths demanded a reflection on what was remaining    of past and foreign religions. Along with the disenchantment of all ways of    life grew the individual's need for meaning&#187; (p. 192).      ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY">Em termos das disciplinas cient&iacute;ficas, o <I>Discovering    Religious History in the Modern Age </I>&eacute; sobretudo um livro que devia    ser considerado hist&oacute;rico. Por outro lado, encontramos nestes not&aacute;veis    ensaios, para al&eacute;m de uma interessante introdu&ccedil;&atilde;o &agrave;    hist&oacute;ria das religi&otilde;es, uma apresenta&ccedil;&atilde;o da situa&ccedil;&atilde;o    hist&oacute;rica na qual nasceram disciplinas como a antropologia ou sociologia    da religi&atilde;o. Finalmente, Kippenberg conseguiu escrever um livro interdisciplinar    que ultrapassa de uma maneira admir&aacute;vel e extremamente informativa o    simples horizonte hist&oacute;rico. Neste sentido, a leitura do livro pode ser    aconselhada a historiadores da religi&atilde;o, bem como a antrop&oacute;logos    e soci&oacute;logos que concentram os seus estudos em fen&oacute;menos religiosos.    Hans G. Kippenberg &eacute; professor de ci&ecirc;ncia das religi&otilde;es    na universidade de Bremen e <I>fellow</I> no prestigiado Max Weber Center for    Advanced Cultural and Social Studies da universidade de Erfurt.      <P ALIGN="JUSTIFY">&nbsp;     <P ALIGN="JUSTIFY">      <P ALIGN="RIGHT">Steffen Dix      ]]></body>
</article>
