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</front><body><![CDATA[ <p><i>Maria Manuela Cruzeiro, Rui Bebiano </i><b>Anos Inquietos. Vozes do Movimento    Estudantil em Coimbra (1961-1974), </b>Porto, Edi&ccedil;&otilde;es Afrontamento,    305 p&aacute;ginas.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="justify">No panorama dos estudos relativos ao movimento estudantil portugu&ecirc;s    &#8212; e em particular coimbr&atilde;o &#8212; saiu mais uma interessante contribui&ccedil;&atilde;o    de Rui Bebiano em colabora&ccedil;&atilde;o com Maria Manuela Cruzeiro. Ambos    os autores t&ecirc;m dedicado grande parte do seu trabalho &agrave; an&aacute;lise    da oposi&ccedil;&atilde;o &agrave; ditadura e aos seus protagonistas. </p>     <p align="justify">Rui Bebiano &eacute; professor na Faculdade de Letras da Universidade    de Coimbra &#8212; onde integra tamb&eacute;m o Instituto de Hist&oacute;ria    e Teoria das Ideias &#8212; e investigador no Centro de Estudos Sociais, onde    &eacute; co-respons&aacute;vel pelo projecto de investiga&ccedil;&atilde;o &laquo;Culturas    Juvenis e Participa&ccedil;&atilde;o C&iacute;vica: Diferen&ccedil;a, Indiferen&ccedil;a    e Desafios Democr&aacute;ticos&raquo;. </p>     <p align="justify">Entre as suas obras sobre o movimento estudantil destaca-se    O Poder da Imagina&ccedil;&atilde;o. Juventude, Rebeldia e Resist&ecirc;ncia    nos Anos 60 (Coimbra, Angelus Novus, 2003), que, como Anos Inquietos, mas atrav&eacute;s    de instrumentos diferentes, consegue reconstruir a atmosfera da contesta&ccedil;&atilde;o    durante os anos 60, a sua carga de ruptura a n&iacute;vel cultural e social    &#8212; al&eacute;m de pol&iacute;tico &#8212; e o seu equil&iacute;brio espec&iacute;fico    entre tem&aacute;ticas internacionais e condi&ccedil;&otilde;es locais. </p>     <p align="justify">Maria Manuela Cruzeiro &eacute; investigadora no Centro de    Documenta&ccedil;&atilde;o 25 de Abril da Universidade de Coimbra, onde &eacute;    respons&aacute;vel pelo projecto de hist&oacute;ria oral, no &acirc;mbito do    qual realizou dezenas de entrevistas e estudos das principais figuras e acontecimentos    quer do per&iacute;odo revolucion&aacute;rio, quer da oposi&ccedil;&atilde;o    e resist&ecirc;ncia ao Estado Novo. Autora, entre outros trabalhos, de monografias    sobre alguns dos protagonistas da revolu&ccedil;&atilde;o, como Costa Gomes    e Vasco Gon&ccedil;alves, tamb&eacute;m colaborou em obras espec&iacute;ficas    sobre o 25 de Abril, como O Pulsar da Revolu&ccedil;&atilde;o &#8212; Cronologia    da revolu&ccedil;&atilde;o de 25 de Abril, 1973-1976 (Porto, Afrontamento, 1997)    e 25 de Abril &#8212; Outras Maneiras de Contar a Mesma Hist&oacute;ria (Lisboa,    Not&iacute;cias, 2000). </p>     <p align="justify">A publica&ccedil;&atilde;o de Anos Inquietos vem enriquecer    os estudos sobre o movimento estudantil portugu&ecirc;s, relativamente ao qual    a investiga&ccedil;&atilde;o ainda tem muito para dizer. Al&eacute;m de trabalhos    como os de &Aacute;lvaro Garrido (Movimento Estudantil e Crise do Estado Novo:    Coimbra 1962, Coimbra, Minerva, 1996), de Maria C&acirc;ndida Proen&ccedil;a    (Maio de 1968. Trinta Anos Depois. Movimentos Estudantis em Portugal, Lisboa,    Colibri, 1999) e da j&aacute; citada obra de 2003 de Rui Bebiano, n&atilde;o    existem muitas outras monografias sobre o tema, nomeadamente sobre a sua dimens&atilde;o    nacional e internacional, sendo a maioria das investiga&ccedil;&otilde;es centrada    sobre o caso espec&iacute;fico de Coimbra. </p>     <p align="justify">Neste sentido, embora tenha tamb&eacute;m uma abordagem local,    a Universidade de Coimbra, Anos Inquietos tem uma perspectiva mais ampla. Nos    relatos dos protagonistas fundamental &eacute; a viv&ecirc;ncia do &laquo;algures&raquo;,    quer se trate do &laquo;al&eacute;m-mar&raquo;, quer de outras cidades portuguesas    ou ainda de outros pa&iacute;ses europeus, para os quais v&aacute;rios protagonistas    viajaram com uma bolsa de estudo, com o grupo do teatro ou para fugir ao servi&ccedil;o    militar e &agrave; guerra. Este &laquo;algures &raquo; parece, ali&aacute;s,    fundamental no percurso de evolu&ccedil;&atilde;o e de tomada de consci&ecirc;ncia    pol&iacute;tica dos protagonistas, pelo contacto com ideias, situa&ccedil;&otilde;es    e pessoas que o meio de Coimbra, ainda sufocado pelo estrito controlo social,    pol&iacute;tico e cultural do regime, nunca teria veiculado.</p>     <p align="justify"> Antes de passar ao pr&oacute;prio conte&uacute;do do livro    &eacute; oportuno sublinhar que Anos Inquietos n&atilde;o &eacute; em si uma    obra anal&iacute;tica ou o resultado de uma investiga&ccedil;&atilde;o &#8212;    ainda que ambas estejam sempre presentes, seja na escolha das pessoas a entrevistar,    seja na formula&ccedil;&atilde;o das quest&otilde;es &#8212;, mas &eacute; uma    narra&ccedil;&atilde;o em que as vozes dos protagonistas descrevem percursos    de vida nos quais a universidade, mas sobretudo a crise acad&eacute;mica, constitui    o epicentro. Trata-se de sete entrevistas conduzidas por Maria Manuela Cruzeiro    entre 2004 e 2005, feitas a protagonistas do movimento estudantil de Coimbra    desde 1961 at&eacute; 1974, um per&iacute;odo de tempo que abrange as tr&ecirc;s    grandes crises acad&eacute;micas de 1962, 1964-1965 e 1969. A primeira parte    de cada entrevista &eacute; dedicada a fornecer um perfil do entrevistado antes    do seu contacto com a realidade acad&eacute;mica e com o movimento estudantil,    atrav&eacute;s de quest&otilde;es relativas &agrave;s suas origens sociais e    vida familiar. Passa-se depois a considerar o ingresso na faculdade e, para    os que n&atilde;o nasceram em Coimbra, o embate com a cidade. </p>     <p align="justify">A parte relativa ao associativismo estudantil &eacute; claramente    a mais desenvolvida, sobretudo no que diz respeito &agrave; an&aacute;lise dos    percursos de socializa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica que levam ao activismo,    os quais talvez constituam o verdadeiro objecto de estudo da obra. Trata- -se    de um processo que em alguns casos &eacute; coerente com a tradi&ccedil;&atilde;o    de oposi&ccedil;&atilde;o familiar, noutros representa algo de completamente    inovador quanto &agrave;s pr&oacute;prias ra&iacute;zes. Sempre fundamental    &eacute;, todavia, por um lado, o exemplo das grande figuras, quase m&iacute;ticas,    da resist&ecirc;ncia portuguesa (como &Aacute;lvaro Cunhal), por outro, a exig&ecirc;ncia    de abertura do espa&ccedil;o cultural e social &#8212; sufocado pela perman&ecirc;ncia    de c&oacute;digos de comportamento conservadores e pela rigidez das normas autorit&aacute;rias    &#8212; e, por fim, a influ&ecirc;ncia dos acontecimentos e da literatura pol&iacute;tica    internacional. As entrevistas aprofundam ainda as consequ&ecirc;ncias pessoais    da participa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica &#8212; sempre mais dram&aacute;ticas    para os rapazes, que, al&eacute;m da pris&atilde;o, podiam sofrer a guerra colonial    &#8212; e, por &uacute;ltimo, os percursos profissionais e pol&iacute;ticos    depois do 25 de Abril, evidenciando os elementos de continuidade quanto &agrave;s    escolhas ideol&oacute;gicas feitas durante os anos do activismo estudantil.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="justify">Os crit&eacute;rios de selec&ccedil;&atilde;o dos entrevistados    n&atilde;o s&atilde;o explicitados, mas &eacute; evidente que os autores procuraram    incluir no grupo figuras muito diferentes entre si &#8212; quer quanto &agrave;    pr&oacute;pria actividade pol&iacute;tica, quer, nomeadamente, quanto &agrave;s    origens familiares e &agrave; proveni&ecirc;ncia &#8212;, conseguindo reconstruir,    atrav&eacute;s de uma abordagem qualitativa e da metodologia da hist&oacute;ria    oral, algumas das poss&iacute;veis traject&oacute;rias de forma&ccedil;&atilde;o    pol&iacute;tica dos protagonistas do movimento estudantil. Al&eacute;m disso,    a obra tamb&eacute;m fornece tra&ccedil;os importantes para eventuais futuras    an&aacute;lise quantitativas do fen&oacute;meno, n&atilde;o existindo ainda    no panorama portugu&ecirc;s estudos deste tipo &#8212; no sentido, por exemplo,    de determinar com mais precis&atilde;o a influ&ecirc;ncia das origens familiares,    quer a n&iacute;vel social, quer pol&iacute;tico, na forma&ccedil;&atilde;o    de uma atitude dissidente &#8212;, como seja, por exemplo, o trabalho relativo    ao caso espanhol realizado por Jos&eacute; Maria Maravall (Dictadura y Disentimiento    Pol&iacute;tico: Obreros y Estudiantes bajo el Franquismo, Madrid, Alfaguara,    1978). </p>     <p align="justify">Os entrevistados t&ecirc;m origens familiares e prov&ecirc;m    de lugares diferentes, com uma idade entre os 56 e os 60 anos, e s&oacute; em    alguns casos participaram na mesma fase da crise. &Eacute; natural que a idade    pessoal tenha uma influ&ecirc;ncia no foco da entrevista, pois a luta acad&eacute;mica    em Coimbra mudou durante toda a d&eacute;cada de 60 e, ainda que os elementos    comuns sejam muitos, a crise de 1962 foi algo de diferente, por exemplo, da    de 1969. Entre os elementos de continuidade emerge claramente a repress&atilde;o,    quer atrav&eacute;s de cargas de pol&iacute;cias contra manifestantes, quer    atrav&eacute;s de verdadeiras invas&otilde;es do espa&ccedil;o universit&aacute;rio    e da pris&atilde;o dos activistas. Comuns s&atilde;o ainda algumas formas de    luta, como o &laquo;luto acad&eacute;mico &raquo; e a greve aos exames, assim    como parece constante a exig&ecirc;ncia de defesa da autonomia dos organismo    associativos dos estudantes, em primeiro lugar da Associa&ccedil;&atilde;o Acad&eacute;mica.  </p>     <p align="justify">Quase em todos os casos &eacute; a limita&ccedil;&atilde;o    desta autonomia por parte do governo a desencadear a crise. Ocorreu por exemplo    em 1962, quando a contesta&ccedil;&atilde;o &#8212; que de facto j&aacute; tinha    come&ccedil;ado nos &uacute;ltimos meses de 1961, com a pris&atilde;o de v&aacute;rios    estudantes por terem manifestado posi&ccedil;&otilde;es contra a guerra colonial    &#8212; eclodiu em Mar&ccedil;o depois da proibi&ccedil;&atilde;o do Dia do    Estudante. Como sempre acontece &#8212; e como lembram alguns entrevistados,    como a jurista Eliana Gers&atilde;o &#8212;, a violenta repress&atilde;o teve    o &ecirc;xito de exacerbar e ampliar o movimento, que em Junho chegou a p&ocirc;r    em causa o Decreto-Lei n.&ordm; 40 900, de 1956, o qual determinava um controlo    do governo sobre a elei&ccedil;&atilde;o dos dirigentes associativos. </p>     <p align="justify">Voltando &agrave; obra, s&atilde;o duas as mulheres entrevistadas:    Eliana Gers&atilde;o e F&aacute;tima Saraiva. A primeira, origin&aacute;ria    de Coimbra, licenciou-se em Direito numa altura em que os estudos jur&iacute;dicos    ainda eram considerados uma quest&atilde;o masculina. Participou na crise acad&eacute;mica    de 1962 e na sua forma&ccedil;&atilde;o teve bastante import&acirc;ncia o meio    familiar, caracterizado por uma grande abertura cultural, ainda que n&atilde;o    directamente pol&iacute;tica. Como muitos outros representantes do movimento    estudantil, come&ccedil;ou o seu percurso numa associa&ccedil;&atilde;o cat&oacute;lica,    no seu caso a JUC, afastando-se depois para entrar no conselho feminino da AAC    e para integrar o Centro de Inicia&ccedil;&atilde;o Teatral da Universidade    de Coimbra. </p>     <p align="justify">F&aacute;tima Saraiva, ge&oacute;grafa, prov&eacute;m, por    seu lado, de uma fam&iacute;lia bastante conservadora de Castanheira de P&ecirc;ra.    Frequentou o liceu em Lisboa, onde teve a possibilidade de ampliar os seus horizontes    culturais, uma abertura que ela reconhece como bastante importante no seu percurso    de ades&atilde;o a valores e ideais pol&iacute;ticos opostos aos do seu meio    familiar. No ambiente coimbr&atilde;o, destacou-se por ir contra todas as regras    consideradas &laquo;adequadas&raquo; para uma rapariga &#8212; como, por exemplo,    n&atilde;o &laquo;frequentar os caf&eacute;s&raquo; &#8212; e participou nas    crises de 1964 e de 1969. </p>     <p align="justify">Os relatos de Fernando Martinho e Carlos Baptista s&atilde;o    significativos pelo esbo&ccedil;o da &Aacute;frica que trazem. Nascidos em fam&iacute;lias    &#8212; embora de meio social diferente &#8212; de colonos portugueses, ambos    sublinham a maior abertura cultural das col&oacute;nias, onde o controlo do    regime, pelo menos at&eacute; ao come&ccedil;o da guerra colonial, n&atilde;o    chega a ser t&atilde;o eficaz como na metr&oacute;pole. Esta abertura e a experi&ecirc;ncia    di&aacute;ria do racismo e da discrimina&ccedil;&atilde;o dos negros foram fundamentais    para a forma&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, assim como o contacto com militantes    dos movimentos de liberta&ccedil;&atilde;o. </p>     <p align="justify">Em Coimbra, onde chegou em 1961, Fernando Martinho integrou    uma c&eacute;lula do MPLA que tinha como objectivo recrutar jovens angolanos    para o movimento de liberta&ccedil;&atilde;o e organizar uma rede de deser&ccedil;&atilde;o.    Empenhado nas actividades da Associa&ccedil;&atilde;o Acad&eacute;mica, foi    preso pela PIDE durante alguns meses. Como outros dois entrevistados, Pio Abreu    e Jos&eacute; Cavalheiro, sofreu a experi&ecirc;ncia da guerra colonial, embora    tenha conseguido evitar um envolvimento directo nas ac&ccedil;&otilde;es militares    gra&ccedil;as a sua profiss&atilde;o de m&eacute;dico. </p>     <p align="justify">M&eacute;dico, no seu caso psiquiatra, &eacute; tamb&eacute;m    Pio Abreu, origin&aacute;rio de Santar&eacute;m, onde nasceu, numa fam&iacute;lia    bastante cat&oacute;lica e conservadora, em que a pol&iacute;tica era uma coisa    proibida. Chega a Coimbra em 1962, em plena crise acad&eacute;mica, e liga-se,    como F&aacute;tima Saraiva, ao Conge, uma estrutura que ser&aacute; fundamental    na crise de 1969. Tamb&eacute;m nesta entrevista a experi&ecirc;ncia da guerra    na Guin&eacute; ocupa um lugar essencial, em que se salienta sobretudo a forte    contradi&ccedil;&atilde;o entre a forma&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica do    entrevistado e a participa&ccedil;&atilde;o num conflito que se baseava em fundamentos    completamente opostos. Assim como Fernando Martinho e Jos&eacute; Cavalheiro,    Pio Abreu descreve a sua atitude de &laquo;boicote passivo&raquo; das ac&ccedil;&otilde;es    militares, favorecida, tamb&eacute;m neste caso, pela sua forma&ccedil;&atilde;o    de m&eacute;dico, que sempre tentou desenvolver segundo a sua pr&oacute;pria    &eacute;tica contra a do ex&eacute;rcito. </p>     <p align="justify">Jos&eacute; Cavalheiro, engenheiro, nasceu no Porto, numa fam&iacute;lia    de esquerda que contribuiu para a sua forma&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica    sobretudo no sentido do desenvolvimento de um esp&iacute;rito cr&iacute;tico    face &agrave; verdade imposta pelo regime. Chegado a Coimbra em 1968, desenvolveu    um papel de destaque na crise que eclodiu no ano seguinte, durante a qual foi    preso e enviado para a tropa, primeiro em Mafra e depois em Mo&ccedil;ambique.    Na crise de 1969 participou tamb&eacute;m o pediatra Lu&iacute;s Janu&aacute;rio,    o mais jovem entre os entrevistados. Nasceu em Coimbra, numa fam&iacute;lia    com uma clara tradi&ccedil;&atilde;o de oposi&ccedil;&atilde;o ao Estado Novo,    pois o seu av&ocirc; materno, anarquista, morreu no Tarrafal, enquanto o pai,    compagnon de route do PCP, sofreu alguns meses de pris&atilde;o em 1962. </p>     <p align="justify">A actividade pol&iacute;tica de Lu&iacute;s come&ccedil;ou    logo no liceu e continuou na Faculdade de Medicina, onde pertenceu, antes de    aderir ao PCP, aos grupos mais radicais, sobretudo trotskistas, apelidados de    &laquo;contestas &raquo; pelos outros estudantes. Interessante &eacute; a vis&atilde;o    que este entrevistado traz dos organismos estudantis que tinham sido fundamentais    nas outras crises, como o Conselho das Rep&uacute;blicas, que, em 1969, aos    seus olhos, j&aacute; aparece como algo de antigo, como um grupo de &laquo;veteranos    dos copos, uma coisa arcaica&raquo;. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="justify">&Eacute; com esta entrevista que melhor nos apercebemos da    clivagem geracional que separa os protagonistas das crises de 1962, 1964-1965    e 1969, em que todas as tem&aacute;ticas s&atilde;o renovadas tamb&eacute;m    &agrave; luz dos acontecimentos internacionais e sobretudo do Maio franc&ecirc;s.    Diferente parece ainda a viv&ecirc;ncia do dia a dia do activismo, a dimens&atilde;o    quase &laquo;l&uacute;dica&raquo;, festiva, da pol&iacute;tica, que n&atilde;o    se conhecia antes. Assim, entre os protagonistas das crises anteriores h&aacute;    quem defina o movimento de 1969 como &laquo;uma bolha&raquo;, um acontecimento    folcl&oacute;rico, contestando-lhe sobretudo o abandono da luta de classe e    a ing&eacute;nua confian&ccedil;a na for&ccedil;a revolucion&aacute;ria do &laquo;estudantariado&raquo;.    Mas, se o movimento tinha mudado, a repress&atilde;o continuava a mesma e Lu&iacute;s    Janu&aacute;rio, preso pela PIDE, no dia em que o homem chegou &agrave; Lua    estava numa cela, sem poder assistir ao evento, uma situa&ccedil;&atilde;o que,    significativamente, tamb&eacute;m outros entrevistados lembram. Assim, esta    imagem de forte carga simb&oacute;lica parece quase resumir em si o conte&uacute;do    mais profundo das v&aacute;rias experi&ecirc;ncias narradas pelos entrevistados,    a luta contra aquele obscurantismo social, cultural e pol&iacute;tico que o    regime continuava a perpetuar, procurando bloquear o poderoso e irrevers&iacute;vel    processo de mudan&ccedil;a e moderniza&ccedil;&atilde;o que estava a envolver    tamb&eacute;m a sociedade portuguesa. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right">Guya Accornero</p>     <p>&nbsp; </p>      ]]></body>
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