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</front><body><![CDATA[ <p><i>Joaquim Costa</i>, <b>Sociologia dos Novos Movimentos Eclesiais. Focolares,    Carism&aacute;ticos e Neocatecumenais em Braga</b>, Porto, Afrontamento, 2006.  </p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="justify">Uma das chaves para a compreens&atilde;o do cristianismo contempor&acirc;neo    em Portugal &eacute; o acompanhamento e entendimento da pluralidade de manifesta&ccedil;&otilde;es    e institui&ccedil;&otilde;es que o comp&otilde;em. Neste contexto, n&atilde;o    se tratar&aacute; apenas de uma pluralidade no sentido de uma alternativa protestante    ao catolicismo predominante, mas tamb&eacute;m da pluralidade de manifesta&ccedil;&otilde;es    crist&atilde;s no seio da pr&oacute;pria institui&ccedil;&atilde;o cat&oacute;lica:    os movimentos de renova&ccedil;&atilde;o carism&aacute;tica, as teologias da    liberta&ccedil;&atilde;o, as migra&ccedil;&otilde;es, etc., promoveram novas    direc&ccedil;&otilde;es e realidades no seio daquilo a que tradicionalmente    se chamaria &laquo;catolicismo portugu&ecirc;s&raquo;. Dois bons exemplos que    suportam este argumento s&atilde;o a hist&oacute;ria particular do fen&oacute;meno    &laquo;F&aacute;tima&raquo; (a forma como a sua frequ&ecirc;ncia e significa&ccedil;&atilde;o    foram evoluindo nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas) e a contribui&ccedil;&atilde;o    das comunidades migrantes e minorias &eacute;tnicas (evang&eacute;licos e carism&aacute;ticos    brasileiros, profetismo africano, ortodoxos ucranianos, etc.).</p>     <p align="justify">H&aacute;, no entanto, outras realidades e exemplos menos conhecidos    ou mediatizados a corrobor&aacute;-lo. &Eacute; o caso deste Sociologia dos    Novos Movimentos Eclesiais. Focolares, Carism&aacute;ticos e Neocatecumenais    em Braga, um interessante (e original, pelo tema) estudo sobre os &laquo;novos    movimentos eclesiais&raquo; em Portugal, da autoria do soci&oacute;logo da Universidade    do Minho Joaquim Costa &#8212; esta tese &eacute; a vers&atilde;o em livro da    sua tese de doutoramento. Este estudo, focado na regi&atilde;o de Braga, exemplifica    esse conceito de &laquo;novos movimentos eclesiais&raquo; atrav&eacute;s do    estudo de tr&ecirc;s grupos distintos: os carism&aacute;ticos, os focolares    e os neocatumenais.</p>     <p align="justify">O livro em quest&atilde;o, inserido claramente numa linha de    reflex&atilde;o da sociologia da religi&atilde;o contempor&acirc;nea, come&ccedil;a    precisamente por introduzir o debate te&oacute;rico, j&aacute; de si muito discutido,    acerca da &laquo;religi&atilde;o, modernidade e seculariza&ccedil;&atilde;o&raquo;    (cap&iacute;tulo 1): isto &eacute;, a velha quest&atilde;o sobre o papel da    religi&atilde;o nas sociedades contempor&acirc;neas e a verifica&ccedil;&atilde;o    (ou n&atilde;o) de tend&ecirc;ncias secularizadoras nas mesmas. O autor cita    Steve Bruce, Brian Wilson, Daniele H&eacute;rvieu-Leger e Marcel Gauchet, entre    outros, para retomar o debate sobre se estamos hoje perante um processo de &laquo;desclassifica&ccedil;&atilde;o    &raquo; da religi&atilde;o na defini&ccedil;&atilde;o de estatutos sociais de    indiv&iacute;duos, grupos e Estados e de migra&ccedil;&atilde;o da religi&atilde;o    da esfera p&uacute;blica para a privada. </p>     <p align="justify">Neste contexto, Costa invoca a genealogia e as teses mais recentes    de &laquo;regresso do religioso&raquo; no virar do mil&eacute;nio e no contexto    p&oacute;s-moderno (pp. 36 e segs.): os &laquo;supermercados da f&eacute;&raquo;,    o individualismo religioso, etc., traduzem-se num dos principais desafios da    institui&ccedil;&atilde;o cat&oacute;lica (e religiosa, neste ponto) contempor&acirc;nea,    o de conciliar o individualismo crist&atilde;o com a &laquo;estrutura&raquo;    secular (p. 38) e, em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, definir o que &eacute;    ou n&atilde;o &laquo;religi&atilde;o&raquo; e &laquo;ser religioso&raquo; &#8212;    coisa que o pr&oacute;prio autor procura fazer (p. 47).</p>     <p align="justify">Costa procura localizar e aprofundar este debate no contexto    da &laquo;estrutura social&raquo; (cap&iacute;tulo 2), isto &eacute;, em fun&ccedil;&atilde;o    dos supostos atributos da referida modernidade ou &laquo;crise da normalidade&raquo;:    cepticismo, individualismo moral, autonomia pessoal, diferencia&ccedil;&atilde;o/    societaliza&ccedil;&atilde;o, perda de controlo social de proximidade, multiplicidade    de refer&ecirc;ncias, opacidade estrutural (p. 49) &#8212; tudo elementos que,    somados a um contexto actual de media&ccedil;&atilde;o, mediatiza&ccedil;&atilde;o    e heterotopia, afectariam a &laquo;seguran&ccedil;a ontol&oacute;gica &raquo;    oferecida pela autoridade da tradi&ccedil;&atilde;o. Neste contexto, a religiosidade    contempor&acirc;nea (integrismos, fundamentalismos, novos movimentos eclesiais,    etc.) seria uma esp&eacute;cie de reac&ccedil;&atilde;o a essas &laquo;crises    de identidade &raquo; ou anomias durkheimianas: &laquo;Prefiro considerar que    a intensa actividade religiosa, podendo ter um car&aacute;cter evasivo, n&atilde;o    se esgota a&iacute; [...] Enquanto atitude cognitiva, envolta na quest&atilde;o    do sentido da vida, formulo-a como insepar&aacute;vel da no&ccedil;&atilde;o    de seguran&ccedil;a, da necessidade de se situar, de se identificar com (inclus&atilde;o    de id&ecirc;nticos) e de se identizar (diferencia&ccedil;&atilde;o da alteridade)&raquo;    (p. 58; it&aacute;licos do autor).</p>     <p align="justify">&Eacute;, literalmente, na &uacute;ltima p&aacute;gina do cap&iacute;tulo    onde Costa tenta transportar estas reflex&otilde;es para o contexto espec&iacute;fico    de Portugal. Neste pa&iacute;s, gra&ccedil;as &agrave; sua particular configura&ccedil;&atilde;o    s&oacute;cio-econ&oacute;mica e hist&oacute;ria pol&iacute;tica recente, Costa    reconhece a import&acirc;ncia da transversalidade do associativismo religioso    na assun&ccedil;&atilde;o de Portugal como um &laquo;laborat&oacute;rio fascinante&raquo;    para a discuss&atilde;o do cristianismo contempor&acirc;neo (p. 72).</p>     <p align="justify">Ser&aacute; este o contexto desenhado por Costa na introdu&ccedil;&atilde;o    do seu tema de pesquisa: os &laquo;novos movimentos eclesiais&raquo; (cap&iacute;tulo    3), que interpreta como movimentos de &laquo;protesto espiritual &raquo; n&atilde;o    s&oacute; em rela&ccedil;&atilde;o ao mundo contempor&acirc;neo, como tamb&eacute;m    &agrave; tradi&ccedil;&atilde;o institucional eclesi&aacute;stica (p. 73), definindo-se,    desde dentro da c&uacute;pula cat&oacute;lica, como laicais e espirituais. Esta    quest&atilde;o da defini&ccedil;&atilde;o &eacute; precisamente um dos principais    pontos de reflex&atilde;o na C&uacute;ria romana em rela&ccedil;&atilde;o a    estes movimentos de base &#8212; um processo de designa&ccedil;&atilde;o que    Costa procura acompanhar na sua tentativa de explica&ccedil;&atilde;o do nascimento    e ess&ecirc;ncia dos mesmos para assim nos introduzir nos tr&ecirc;s grupos    por ele estudados. </p>     <p align="justify">O primeiro deles &eacute; o chamado Movimento dos Focolares    (ou Obra de Maria) &#8212; abordado no cap&iacute;tulo 4 desta obra &#8212;,    um movimento espiritualista nascido em It&aacute;lia na d&eacute;cada de 1930    (fundado pela activista cat&oacute;lica Chiara Lubich), que promove votos de    castidade, pobreza e obedi&ecirc;ncia e se declara &laquo;reevangelizador &raquo;    tanto de crist&atilde;os como de leigos e ateus. O segundo grupo &eacute; o    do Movimento Neocatecumenal (cap&iacute;tulo 5), fundado em Espanha na d&eacute;cada    de 1960 com o prop&oacute;sito de &laquo;re-missionar&raquo; uma Europa &laquo;p&oacute;s-crist&atilde;&raquo;,    agn&oacute;stica e ateia (p. 96), invocando a exig&ecirc;ncia da convers&atilde;o,    baptismo e catequese como o &laquo;&uacute;nico caminho verdadeiro&raquo;. J&aacute;    o terceiro &laquo;grupo&raquo; n&atilde;o o ser&aacute; tanto, mas antes um    movimento de renova&ccedil;&atilde;o mais abrangente: a Renova&ccedil;&atilde;o    Carism&aacute;tica &#8212; ou, nas palavras do autor, um &laquo;pentecostalismo    cat&oacute;lico&raquo; (p. 119). Este movimento, transversal ao catolicismo    e protestantismo e assente essencialmente no reconhecimento de contacto directo    e &laquo;&iacute;ntimo&raquo; (p. 123) com Deus atrav&eacute;s do Esp&iacute;rito    Santo (que se manifesta e atribui &laquo;carismas &raquo; aos crentes), conseguiu    igualmente ver-se reconhecido como express&atilde;o federativa.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="justify">Estes tr&ecirc;s grupos &#8212; a sua hist&oacute;ria, organiza&ccedil;&atilde;o    e especificidade &#8212; s&atilde;o acertadamente descritos por Costa, que nos    d&aacute; conta da forma como foram recebidos no seio da C&uacute;ria vaticana    (um interessante mecanismo de aferi&ccedil;&atilde;o do seu papel no cristianismo    contempor&acirc;neo). Este esfor&ccedil;o descritivo anteceder&aacute; (esperamos    n&oacute;s) a apresenta&ccedil;&atilde;o do contexto emp&iacute;rico em causa,    que o autor abordou atrav&eacute;s de observa&ccedil;&atilde;o directa e da    aplica&ccedil;&atilde;o de um question&aacute;rio &#8212; cuja relev&acirc;ncia    e vicissitudes discutir&aacute; ao longo de todo um cap&iacute;tulo (o 7), mas    que, curiosamente, n&atilde;o nos &eacute; disponibilizado na obra. No entanto,    Costa regressa a um registo de heur&iacute;stica sociol&oacute;gica ao procurar    reflectir sobre os aspectos comuns e afins aos tr&ecirc;s movimentos propostos    (cap&iacute;tulo 8) &#8212; os perfis sociogr&aacute;ficos, os contextos de    proselitismo e recruta, din&acirc;micas de convers&atilde;o &#8212; para depois    insistir nos aspectos particulares de cada um (cap&iacute;tulos 9, 10 e 11).    &Eacute; aqui, finalmente, que ficamos a conhecer aspectos concretos da vida    e actividade focolar, neocatecumenal ou carism&aacute;tica, a incurs&atilde;o    nas suas particularidades e a complexifica&ccedil;&atilde;o dos retratos superficiais    e homog&eacute;neos anteriormente tra&ccedil;ados: as ideologias, tens&otilde;es,    discrep&acirc;ncias entre grupos e no seio dos mesmos, o seu lugar na religiosidade    crist&atilde; local, etc.</p>     <p align="justify">Com uma estrutura de argumenta&ccedil;&atilde;o que nos transporta    progressivamente do plano abstracto e te&oacute;rico (a sociologia das religi&otilde;es    contempor&acirc;neas) para o plano emp&iacute;rico e concreto (os novos movimentos    eclesiais em Braga) e com um estilo de argumenta&ccedil;&atilde;o nem sempre    linear e facilitador, o leitor fica com uma certa sensa&ccedil;&atilde;o de    desequil&iacute;brio a favor da reflex&atilde;o te&oacute;rica: n&atilde;o ficamos    com um retrato suficientemente consistente sobre a realidade portuguesa e, neste    caso concreto, do Norte do pa&iacute;s &#8212; noutras palavras, como &eacute;    que estes grupos vivem a sua experi&ecirc;ncia religiosa de facto no contexto    da realidade portuguesa contempor&acirc;nea? &Eacute;-nos oferecida informa&ccedil;&atilde;o    deste teor, mas dispersa por notas de rodap&eacute; e coment&aacute;rios laterais    nas p&aacute;ginas finais dos cap&iacute;tulos.</p>     <p align="justify">No entanto, esta ser&aacute;, em &uacute;ltima inst&acirc;ncia,    uma op&ccedil;&atilde;o metodol&oacute;gica do autor, cujo prop&oacute;sito    principal &eacute;, assumidamente, o de elaborar uma &laquo;sociologia dos novos    movimentos eclesiais&raquo;. Neste sentido, estamos perante uma contribui&ccedil;&atilde;o    valios&iacute;ssima para as ci&ecirc;ncias sociais preocupadas com a religiosidade    e cristianismo em Portugal. </p>     <p align="justify">&nbsp;</p>     <p align="right">Ruy Llera Blanes</p>     <p>&nbsp;</p>      ]]></body>
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