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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b>      <p>&nbsp;     <p>&nbsp;     <p><b>As institui&ccedil;&otilde;es h&iacute;bridas. Reclus&atilde;o e la&ccedil;os    sociais </b>      <p>&nbsp;      <p>Este <I>dossier </I>resulta de um conjunto de an&aacute;lises suscitadas pela    confer&ecirc;ncia &#171;A pris&atilde;o, a psiquiatria e a rua&#187;, que teve    lugar no Instituto de Ci&ecirc;ncias Sociais (UL) entre 6 e 7 de Junho de 2005.    Tr&ecirc;s t&oacute;picos funcionaram ent&atilde;o como os pontos focais de    uma maior variedade de contribui&ccedil;&otilde;es tratando de aspectos da reclus&atilde;o,    de institui&ccedil;&otilde;es, pr&aacute;ticas e discursos terap&ecirc;uticos,    e ainda da &#171;rua&#187; &#151; entendida aqui a &#171;rua&#187;, <I>latu    sensu,</I> como aquilo que est&aacute; fora, para l&aacute; do espa&ccedil;o    f&iacute;sico das institui&ccedil;&otilde;es. Este termo n&atilde;o foi pois    necessariamente utilizado como uma categoria espec&iacute;fica de pobreza urbana,    &agrave; maneira da <I>rua</I> que tem informado alguma etnografia urbana recente<SUP><a href="#1">1</a><a name="top1"></a></SUP>.      <p>H&aacute; v&aacute;rios nexos hist&oacute;ricos e conex&otilde;es contempor&acirc;neas    entre estes dom&iacute;nios, cuja defini&ccedil;&atilde;o foi deixada &agrave;    partida deliberadamente imprecisa. N&atilde;o faremos aqui um invent&aacute;rio    sistem&aacute;tico dessas conex&otilde;es. Come&ccedil;aremos antes por evocar    algumas delas a partir de um momento cr&iacute;tico nos anos 70 e do modo como    o futuro era ent&atilde;o imaginado e antevisto por fil&oacute;sofos e cientistas    sociais. Michel Foucault (1975), para referir o mais saliente, sustentava que,    da mesma maneira que a pris&atilde;o havia tornado obsoletas modalidades f&iacute;sicas,    mais brutais, de puni&ccedil;&atilde;o, assim ela pr&oacute;pria acabaria por    tornar-se n&atilde;o mais do que uma mera inst&acirc;ncia perif&eacute;rica    de controlo no quadro de uma &#171;forma disciplinar&#187; difusa, dispersa    na sociedade. O controlo social e a normaliza&ccedil;&atilde;o operariam por    todo o lado, atrav&eacute;s das escolas, dos hospitais, dos t&eacute;cnicos    de reinser&ccedil;&atilde;o social, do discurso psiqui&aacute;trico, entre outras    vias. O argumento de Foucault influenciou toda uma gera&ccedil;&atilde;o de    an&aacute;lises sobre institui&ccedil;&otilde;es, vigil&acirc;ncia e controlo.      <p>Pouco depois de <I>Surveiller et punir</I> surgiram outras formula&ccedil;&otilde;es    deste mesmo diagn&oacute;stico, mais espec&iacute;ficas e empiricamente sustentadas.    Por muito diferentes que fossem a outros t&iacute;tulos, coincidiam com o de    Foucault num ponto importante: o encarceramento seria uma forma em recuo, prestes    a ser substitu&iacute;da por algo de outro. Na sua vers&atilde;o penal este    diagn&oacute;stico estava em sintonia com um forte desencanto em rela&ccedil;&atilde;o    &agrave;s promessas de reabilita&ccedil;&atilde;o que a pris&atilde;o afinal    n&atilde;o cumprira (Allen, 1981)<SUP><a href="#2">2</a><a name="top2"></a></SUP>.    Por&eacute;m este desencanto n&atilde;o era uma simples r&eacute;plica da atmosfera    pessimista que um s&eacute;culo antes tinha levado a que os ideais filantr&oacute;picos    de regenera&ccedil;&atilde;o sofressem um recuo nas miss&otilde;es que a pris&atilde;o    ent&atilde;o se atribu&iacute;ra (Duprat, 1980). Agora &#151; isto &eacute;,    na d&eacute;cada de 70 &#151; a decep&ccedil;&atilde;o e o cepticismo quanto    ao m&eacute;todo da pris&atilde;o crescia a par de um optimismo penal confiante    na maior efic&aacute;cia, ou pelo menos na menor nocividade, de medidas alternativas,    n&atilde;o carcerais &#151; confiante por conseguinte no inexor&aacute;vel decl&iacute;nio    do encarceramento. &Agrave; reclus&atilde;o pensava-se vir a recorrer apenas    como medida excepcional. Regime probat&oacute;rio e penas a executar em meio    livre seriam algumas das op&ccedil;&otilde;es penais constitutivas de uma rede    reguladora alternativa fora dos muros da pris&atilde;o.      <p>Pela mesma altura, o tratamento psiqui&aacute;trico passava por uma evolu&ccedil;&atilde;o    de sentido paralelo a esta. A cr&iacute;tica antipsiqui&aacute;trica, sobretudo    a italiana e a brit&acirc;nica, fazia o seu caminho, os hospitais psiqui&aacute;tricos    abriam-se ao exterior e abandonavam algumas das caracter&iacute;sticas carcer&aacute;rias    das velhas institui&ccedil;&otilde;es asilares e, por fim, uma psicofarmacologia    cada vez mais eficiente tornava poss&iacute;vel a desinstitucionaliza&ccedil;&atilde;o    de muitos doentes mentais. O avan&ccedil;o dos medicamentos neurol&eacute;pticos    vinha viabilizar para os psic&oacute;ticos cr&oacute;nicos uma vida no exterior    e a sofistica&ccedil;&atilde;o dos ansiol&iacute;ticos e antidepressivos veio    tornar dispens&aacute;veis muitos internamentos prolongados<SUP><a href="#3">3</a><a name="top3"></a></SUP>.    Consultas em centros de dia, apoio domicili&aacute;rio, cuidados psiqui&aacute;tricos    descentralizados em hospitais gerais mais pr&oacute;ximos da comunidade, regimes    ambulat&oacute;rios, entre outros, sustentariam o regresso destes doentes &agrave;    sociedade. Tamb&eacute;m aqui o fechamento, a clausura, era suposto tornarem-se    ultrapassados e serem usados unicamente como &uacute;ltimo recurso. E no que    toca aos doentes psiqui&aacute;tricos a desinstitucionaliza&ccedil;&atilde;o    ocorreu, de facto, em grande parte<SUP><a href="#4">4</a></SUP><a name="top4"></a>.      <p>Mas algo de muito diferente estava prestes a suceder no dom&iacute;nio da reclus&atilde;o    penal. O desencarceramento previsto n&atilde;o veio a ocorrer e, pelo contr&aacute;rio,    enquanto os hospitais psiqui&aacute;tricos come&ccedil;avam a esvaziar-se, a    demografia prisional iria em breve explodir. Em vez de convergirem, como antevira    Scull (1977 e 1984), estas duas vers&otilde;es de enclausuramento iriam divergir.    &Eacute; verdade que as penas extraprisionais se multiplicaram, alastrando por    conseguinte no meio livre a rede de controlo penal (Cohen, 1985). Mas o mesmo    aconteceu com as penas de pris&atilde;o. Isto &eacute;, ambos os sistemas de    controlo se expandiram<SUP><a href="#5">5</a></SUP><a name="top5"></a>. Como    Lo&iuml;c Wacquant (2002b) sugeriu a prop&oacute;sito do inaudito crescimento    das popula&ccedil;&otilde;es prisionais, o diagn&oacute;stico prospectivo de    Foucault n&atilde;o podia ter estado mais errado. Mesmo que outros sistemas    de controlo e vigil&acirc;ncia se tenham desenvolvido e disseminado pelas esferas    do quase invis&iacute;vel e &iacute;ntimo, as pris&otilde;es n&atilde;o s&oacute;    n&atilde;o desapareceram, mas cresceram e multiplicaram-se. Wacquant (no prelo)    sugere tamb&eacute;m que a pris&atilde;o n&atilde;o pode hoje ser entendida    unicamente com base na categoria demasiadamente estreita de <I>repress&atilde;o.    </I>A pris&atilde;o est&aacute;, para este autor, no centro das mais importantes    transforma&ccedil;&otilde;es do Estado ocorridas nas &uacute;ltimas tr&ecirc;s    d&eacute;cadas e no &acirc;mago da rela&ccedil;&atilde;o entre a gest&atilde;o    penal e a gest&atilde;o social da pobreza.      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&Eacute; a esta luz que Wacquant trata aqui da forma como nos    aparece hoje a rela&ccedil;&atilde;o entre as institui&ccedil;&otilde;es penais    e psiqui&aacute;tricas &#151; a pris&atilde;o e o hospital &#151; no contexto    dos EUA. O que ocorreu em termos de desinstitucionaliza&ccedil;&atilde;o no    sector psiqui&aacute;trico veio na verdade a redundar no refor&ccedil;o do sector    penal: muitas das pessoas que eram tratadas como doentes psiqui&aacute;tricos    passaram a ser reinstitucionalizadas na pris&atilde;o. Com o encerramento das    grandes institui&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas n&atilde;o foi proporcionado    um suced&acirc;neo adequado nos servi&ccedil;os de sa&uacute;de e, dada a depaupera&ccedil;&atilde;o    de centros de dia, hospitais e servi&ccedil;os sociais, o tratamento psiqui&aacute;trico    atr&aacute;s das grades passou a ser o &uacute;nico dispon&iacute;vel para alguns    doentes (v. tamb&eacute;m a este prop&oacute;sito Herszberg, 2006). Em conjunto    com popula&ccedil;&otilde;es toxicodependentes e sem abrigo, os doentes psiqui&aacute;tricos    tornaram-se um dos principais clientes de um sistema prisional inflacionado    e multivalente. Assim, Wacquant encara a sua situa&ccedil;&atilde;o como a demonstra&ccedil;&atilde;o    viva de um actual nexo causal entre a retrac&ccedil;&atilde;o do Estado social    e a expans&atilde;o do Estado penal.      <p>Com o encarceramento maci&ccedil;o de pessoas com problemas ps&iacute;quicos    que n&atilde;o encontraram tratamento a montante, ao acabar por assumir um papel    terap&ecirc;utico que n&atilde;o fazia parte da sua miss&atilde;o e que era    do foro de outras institui&ccedil;&otilde;es, a pris&atilde;o tornou-se uma    institui&ccedil;&atilde;o h&iacute;brida<SUP><a href="#6">6</a><a name="top6"></a></SUP>.    E, se, nesta an&aacute;lise, a terap&ecirc;utica aparece como subproduto da    pris&atilde;o, j&aacute; no artigo de Pat Carlen temos uma vers&atilde;o da    pris&atilde;o em que o tratamento passa a ser quase a sua pr&oacute;pria ess&ecirc;ncia,    sendo, em todo caso, j&aacute; a sua forma. A pris&atilde;o <I>diz ser</I> uma    institui&ccedil;&atilde;o terap&ecirc;utica. Contudo, esta pretens&atilde;o    decorre menos do tratamento de doentes psiqui&aacute;tricos reais, mas antes    de uma redefini&ccedil;&atilde;o dos problemas sociais dos reclusos <I>como</I>    problemas psicol&oacute;gicos. Reposicionados desta forma, &eacute; poss&iacute;vel    presumir-se que tais problemas s&atilde;o suscept&iacute;veis de serem superados    atrav&eacute;s de programas psicol&oacute;gicos intraprisionais que se d&atilde;o    por objectivo reduzir a reincid&ecirc;ncia.      <p>O revivalismo das perspectivas psicol&oacute;gicas sobre o crime tem alimentado    uma nova ret&oacute;rica de reintegra&ccedil;&atilde;o que se alheia das circunst&acirc;ncias    sociais adversas no que toca a alojamento, perspectivas de emprego, toxicodepend&ecirc;ncias,    rela&ccedil;&otilde;es de abuso e viol&ecirc;ncia dom&eacute;stica, e p&otilde;e    antes a t&oacute;nica na adapta&ccedil;&atilde;o psicol&oacute;gica atrav&eacute;s    de uma esp&eacute;cie de reprograma&ccedil;&atilde;o cognitiva trabalhando atitudes    e promovendo disposi&ccedil;&otilde;es na &oacute;rbita do &#171;pensamento    positivo&#187;. Estes programas est&atilde;o agora a tornar-se os produtos penais    mais vend&aacute;veis numa arena global mercadorizada a que Pat Carlen chama    aqui &#171;ind&uacute;stria de reintegra&ccedil;&atilde;o&#187;.      <p>O problema com este novo mercado &eacute; que a oferta est&aacute;    tamb&eacute;m, de certo modo, a criar a procura. Isto &eacute;, se as pris&otilde;es    s&atilde;o (ou dizem ser) institui&ccedil;&otilde;es t&atilde;o ben&eacute;ficas    e eficazes &#151; logo imprescind&iacute;veis &#151; na supera&ccedil;&atilde;o    dos problemas dos reclusos, ent&atilde;o n&atilde;o h&aacute; raz&atilde;o para    procurar preferir alternativas n&atilde;o prisionais e <I>&eacute;</I> racional    encarcer&aacute;-los, mesmo por crimes menores. Da&iacute; o crescimento do    &#171;carceralismo&#187; ou, como o coloca Pat Carlen, a emerg&ecirc;ncia de    uma s&iacute;ndrome em que a aposta nos programas prisionais vai de m&atilde;o    dada com o aumento das popula&ccedil;&otilde;es prisionais. Enquanto Lo&iuml;c    Wacquant p&otilde;e em evid&ecirc;ncia os factores externos implicados na explos&atilde;o    da demografia carceral, Pat Carlen acrescenta-lhes a hip&oacute;tese de um factor    end&oacute;geno ao sistema judici&aacute;rio e prisional favorecendo esta mesma    infla&ccedil;&atilde;o.      <p>Outro resultado da ret&oacute;rica terap&ecirc;utica dos programas intramuros    de reintegra&ccedil;&atilde;o &eacute; a transfer&ecirc;ncia de recursos da    comunidade para a pris&atilde;o, mesmo quando o investimento no meio externo    j&aacute; provou ser crucial. Este movimento n&atilde;o deixa de evocar um paralelo    com aquele relatado aqui por Wacquant para os EUA, onde &eacute; agora frequente    que o or&ccedil;amento do sector psiqui&aacute;trico em contextos prisionais    seja superior ao or&ccedil;amento hom&oacute;logo no contexto dos hospitais    p&uacute;blicos. Ambos os autores apresentam-nos assim duas vers&otilde;es de    uma pris&atilde;o h&iacute;brida; no caso descrito por Carlen, apesar das pretens&otilde;es    terap&ecirc;uticas que a institui&ccedil;&atilde;o ostenta, nem por isso deixa    de ser uma institui&ccedil;&atilde;o h&iacute;brida. A pris&atilde;o &#171;terapunitiva&#187;    &eacute; apenas a mais recente mistura, mesmo se reciclada de modo a ir ao encontro    do <I>zeitgeist</I> gerencial e do <I>marketing</I>, de uma velha injun&ccedil;&atilde;o    contradit&oacute;ria dirigida &agrave;s institui&ccedil;&otilde;es prisionais:    tratar e punir. Frise-se que esta injun&ccedil;&atilde;o sempre foi mais acentuada    no caso das pris&otilde;es de mulheres, que s&atilde;o aqui o objecto do artigo    de Pat Carlen. As reclusas e as suas circunst&acirc;ncias sempre tenderam a    ser mais patologizadas, por isso mais sujeitas a um discurso psicologizante,    do que os reclusos, cujos problemas e traject&oacute;rias n&atilde;o padeceram    nos estudos prisionais da mesma desaten&ccedil;&atilde;o em rela&ccedil;&atilde;o    &agrave; interven&ccedil;&atilde;o de factores de outro tipo, como os s&oacute;cio-econ&oacute;micos<SUP><a href="#7">7</a></SUP><a name="top7"></a>.    Mas a l&oacute;gica terap&ecirc;utica intra-prisional n&atilde;o pode, uma vez    mais, permanecer imune a uma l&oacute;gica carceral inevitavelmente omnipresente    e que, por esta raz&atilde;o, sempre acaba por prevalecer, como tamb&eacute;m    h&aacute; muito tem vindo a ser documentado neste dom&iacute;nio de investiga&ccedil;&atilde;o.    Para al&eacute;m dos efeitos perversos que a ret&oacute;rica terap&ecirc;utica    pode ter no aumento do n&uacute;mero de presos, esta &eacute; mais uma raz&atilde;o    pela qual este artigo insiste em lembrar que uma pris&atilde;o &eacute;, antes    de tudo e acima de tudo, uma pris&atilde;o.      <p> E, no que toca a l&oacute;gicas contradit&oacute;rias no &acirc;mbito das    institui&ccedil;&otilde;es totais, o panorama parece ainda mais problem&aacute;tico    no centro educativo portugu&ecirc;s &#151; um dos ex-denominados institutos    de reeduca&ccedil;&atilde;o de menores &#151;, que Tiago Neves traz &agrave;    discuss&atilde;o. Da legisla&ccedil;&atilde;o &agrave;s pr&aacute;ticas quotidianas,    dos funcion&aacute;rios e t&eacute;cnicos aos &#171;clientes&#187;, como s&atilde;o    conciliados o confinamento e a reintegra&ccedil;&atilde;o? Aqui estas ambiguidades,    que come&ccedil;am por estar inscritas no pr&oacute;prio modelo presente do    sistema de justi&ccedil;a de menores, assumem outro rosto ainda. Outras economias    institucionais mistas, bem como outras maneiras de psiquiatrizar a diferen&ccedil;a    &#151; seja a diferen&ccedil;a definida como desvio ou cultura, em termos de    g&eacute;nero, classe ou etnicidade &#151;, foram discutidas no encontro &#171;A    pris&atilde;o, a psiquiatria e a rua&#187;. Ficamo-nos aqui por algumas delas.      <p>Os dados etnogr&aacute;ficos trazidos por Megan Comfort e Raquel    Matos levam-nos a interrogar mais de perto no&ccedil;&otilde;es abstractas de    reintegra&ccedil;&atilde;o e a desconstruir &#151; ou pelo menos complexificar    &#151; uma no&ccedil;&atilde;o monol&iacute;tica e apressada de reinser&ccedil;&atilde;o.    Quando aplicada &agrave;s rela&ccedil;&otilde;es de proximidade dos prisioneiros,    especialmente rela&ccedil;&otilde;es familiares e conjugais, o sentido habitualmente    subentendido na no&ccedil;&atilde;o de reintegra&ccedil;&atilde;o &eacute; o    da preserva&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o o da ruptura, desses la&ccedil;os sociais.    Em conson&acirc;ncia com esta ideia, &eacute; tamb&eacute;m usual caracterizar    o impacto da reclus&atilde;o nas rela&ccedil;&otilde;es pessoais segundo o esquema    bin&aacute;rio de separa&ccedil;&atilde;o ou reatamento com aqueles que ficaram    no exterior. Em vez disso, e de maneira muito mais elucidativa, Megan Comfort    e Raquel Matos focam o modo como a pris&atilde;o recontextualiza estas rela&ccedil;&otilde;es.    As duas autoras fazem-no a partir de &acirc;ngulos complementares, os quais    tamb&eacute;m permitem captar os efeitos das diferen&ccedil;as de g&eacute;nero:    Raquel Matos a partir da perspectiva de mulheres presas, Megan Comfort a partir    da perspectiva de mulheres em meio livre cujos companheiros est&atilde;o atr&aacute;s    das grades. Em ambos os casos, a dist&acirc;ncia interposta pela reclus&atilde;o    leva-as a encarar tais rela&ccedil;&otilde;es a uma nova luz, mas com resultados    opostos. No caso apresentando mulheres presas, a pris&atilde;o cria espa&ccedil;o    para uma reavalia&ccedil;&atilde;o que &#171;negativiza&#187; os la&ccedil;os    anteriores. A reclus&atilde;o &eacute; ent&atilde;o vista como uma oportunidade    para p&ocirc;r termo a rela&ccedil;&otilde;es percebidas como danosas. No outro    caso, em contraste, rela&ccedil;&otilde;es destrutivas passam a ser encaradas    como &#171;positivas&#187; n&atilde;o s&oacute; porque a dist&acirc;ncia proporciona    &agrave;s companheiras um novo ponto de vista, mais favor&aacute;vel aos homens    presos, mas tamb&eacute;m porque a pris&atilde;o em si mesma providencia um    ambiente controlado e protegido onde se torna poss&iacute;vel para as mulheres    lidar _ mesmo se apenas tempor&aacute;ria e artificialmente &#151; com o comportamento    ca&oacute;tico, irrespons&aacute;vel e violento dos respectivos parceiros. Relacionamentos    que estas mesmas mulheres de outro modo tolerariam mal ou considerariam n&atilde;o    vi&aacute;veis s&atilde;o assim perpetuados, quando n&atilde;o se d&aacute;    o caso de florescerem, &agrave; sombra protectora da cadeia.      <p>Uma vez mais, como tamb&eacute;m o indicam os artigos de Lo&iuml;c    Wacquant e de Pat Carlen, a institui&ccedil;&atilde;o penal torna-se &#171;uma    ag&ecirc;ncia social de primeiro recurso&#187; (Currie, 1998) para problemas    n&atilde;o atendidos noutra sede. Mas, para al&eacute;m desta faceta da pris&atilde;o    h&iacute;brida, as contribui&ccedil;&otilde;es de Megan Comfort e      <p>Raquel Matos levam-nos a repensar a no&ccedil;&atilde;o de reintegra&ccedil;&atilde;o    naquilo que ela pressup&otilde;e acerca da renova&ccedil;&atilde;o de rela&ccedil;&otilde;es    pr&eacute;vias. Quer a pris&atilde;o induza rupturas, ou, pelo contr&aacute;rio,    a perpetua&ccedil;&atilde;o dos la&ccedil;os sociais, nem tudo &eacute; o que    aparenta ser.      <p>&nbsp;      ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="right"><b>Manuela Ivone Cunha </b>     <p align="right"><b>Cristiana Bastos </b>      <p>&nbsp;     <p>&nbsp;     <p><B>Notas</B>      <p><SUP><a name="1" id="1"></a><a href="#top1">1</a></SUP> V. a este prop&oacute;sito,    por exemplo, Wacquant (2002a).      <p><SUP><a name="2" id="2"></a><a href="#top2">2</a></SUP> V. em mais pormenor    Cunha (2002).      <p><SUP><a name="3" id="3"></a><a href="#top3">3</a></SUP> Estas mudan&ccedil;as    ter&atilde;o no entanto trazido por sua vez no reverso a tend&ecirc;ncia para    fazer evoluir para a cronicidade o tratamento psiqui&aacute;trico de muitas    afec&ccedil;&otilde;es (v. a este prop&oacute;sito Lant&eacute;ri-Laura, 1997).      <p><SUP><a name="4" id="4"></a><a href="#top4">4</a></SUP> &Eacute; certo que    este movimento n&atilde;o foi linear nem uniforme em todos os pa&iacute;ses,    mas complexo e com aspectos contradit&oacute;rios, variando bastante a propor&ccedil;&atilde;o    ainda ocupada pelos hospitais psiqui&aacute;tricos p&uacute;blicos num leque    de tipos de assist&ecirc;ncia que se tornou mais aberto e diversificado. Para    referir alguns exemplos europeus, enquanto em It&aacute;lia e no Reino Unido    a desactiva&ccedil;&atilde;o dos hospitais psiqui&aacute;tricos foi bastante    acentuada (correspondendo mesmo em parte esta desospitaliza&ccedil;&atilde;o    a alguma despsiquiatriza&ccedil;&atilde;o da sa&uacute;de mental e &agrave;    afirma&ccedil;&atilde;o de outras terapias), em Fran&ccedil;a e em Portugal    o peso dos hospitais psiqui&aacute;tricos no sector da sa&uacute;de mental &eacute;    ainda bastante forte (Piel e Roelandt, 2001; AAVV, 2004). Em Portugal, na &uacute;ltima    d&eacute;cada, tem sido especialmente flagrante o contraste entre, por um lado,    uma pr&aacute;tica disponibilizando um alto n&uacute;mero de camas e concentrando    profissionais nestas institui&ccedil;&otilde;es e, por outro, o discurso pol&iacute;tico    e as directrizes legais que sublinham ano ap&oacute;s ano a ideia da desinstitucionaliza&ccedil;&atilde;o    dos doentes mentais, a psiquiatria de proximidade (Lei da Sa&uacute;de Mental    &#151; Lei n.&#186; 36/98 e Decreto-Lei n.&#186; 35/99, AAVV, 2004-2006), e    anunciam o encerramento iminente dos maiores asilos psiqui&aacute;tricos portugueses,    ainda n&atilde;o concretizado at&eacute; &agrave; data.      <p><SUP><a name="5" id="5"></a><a href="#top5">5</a></SUP> Em Portugal esta expans&atilde;o    real (v. Cunha, 2002) n&atilde;o deixou nunca por&eacute;m de se acompanhar    de declara&ccedil;&otilde;es de respons&aacute;veis pol&iacute;ticos e operadores    judici&aacute;rios acerca da necessidade de descarcerizar&atilde;o do sistema    punitivo e de amplia&ccedil;&atilde;o do leque de penas alternativas, a mais    recente das quais sendo a vigil&acirc;ncia electr&oacute;nica.      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><SUP><a name="6"></a><a href="#top6">6</a></SUP> Para este e outro tipo de    pap&eacute;is extraprisionais desempenhados na cadeia, v. tamb&eacute;m Cunha    (2002), pp. 203-240.      <p><SUP><a name="7"></a><a href="#top7">7</a></SUP> V. Cunha (2007 e, para uma    an&aacute;lise mais em pormenor deste aspecto, 1994).      <p>&nbsp;     <p>&nbsp;      <p align="center"><B>Bibliografia</B>      <p align="center">&nbsp;     <p>AAVV (2004), <I>Rede de Referencia&ccedil;&atilde;o de Psiquiatria    e Sa&uacute;de Mental, </I>Direc&ccedil;&atilde;o-Geral de Sa&uacute;de, Minist&eacute;rio    da Sa&uacute;de.      <p>AAVV (2004), <I>Plano Nacional de Sa&uacute;de 2004/2010 &#151;    Sa&uacute;de Mental e Doen&ccedil;as Psiqui&aacute;tricas,</I> Direc&ccedil;&atilde;o-Geral    de Sa&uacute;de, Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de.      <p>Allen, Francis (1981), <I>The Decline of the Rehabilitative    Ideal, </I>New Haven, Connecticut, Yale University Press.      <p>Cohen, Stanley (1985), <I>Visions of Social Control,</I> Cambridge,    Polity.      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Cunha, Manuela P. da (1994), <I>Malhas que a Reclus&atilde;o    Tece. Quest&otilde;es de Identidade numa Pris&atilde;o Feminina,</I> Lisboa,    Cadernos do Centro de Estudos Judici&aacute;rios.      <p>Cunha, Manuela P. da (2002), <I>Entre o Bairro e a Pris&atilde;o:    Tr&aacute;fico e Trajectos,</I> Lisboa, Fim de S&eacute;culo.      <p>Cunha, Manuela P. da (2007), &#171;A reclus&atilde;o segundo    o g&eacute;nero: os estudos prisionais, a reclus&atilde;o de mulheres e a varia&ccedil;&atilde;o    dos contextos da identidade&#187;, <I>in</I> AAVV, <I>Educar o Outro: As Quest&otilde;es    de G&eacute;nero, dos Direitos Humanos, e da Educa&ccedil;&atilde;o nas Pris&otilde;es    Por</I>tu<I>guesas,</I> Coimbra, Publica&ccedil;&otilde;es Humanas, pp. 80-89.      <p>Currie, Elliott (1998),<I> Crime and Punishment in America,</I>    Nova Iorque, Henry Holt and Company.      <p>Duprat, Catherine (1980), &#171;Punir et gu&eacute;rir: en    1819, la prison des philantropes&#187;, <I>in</I> M. Perrot (ed.),<I> L'Impossible    prison. Recherches sur le syst&egrave;me p&eacute;nitentiaire au xix,</I> Paris,    Seuil, pp. 64-122.      <p>Foucault, Michel (1975), <I>Surveiller et punir,</I> Paris,    Gallimard.      <p>Herszberg, Catherine (2006), <I>Fresnes, histoires de fous,    </I>Paris, Seuil.      <p>Lant&eacute;ri-Laura, Georges&#160;(1997), <I>La chronicit&eacute;    en psychiatrie,</I> Paris, Les Emp&ecirc;cheurs de Penser en Rond.      <p>Piel, &Eacute;ric, e Roelandt, Jean-Luc (2001), <I>De la psychiatrie    vers la sant&eacute; mentale,</I> Minist&egrave;re de l'Emploi et de la Solidarit&eacute;.      <p>Scull, Andrew (1984 [1977]), <I>Decarceration: Community Treatment    and the Deviant &#151; A Radical View,</I> Englewood Cliffs, New Jersey, Prentice-Hall.      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Wacquant, Lo&iuml;c (2002a), &#171;Scrutinizing the street;    poverty, morality, and the pitfalls of urban ethnography&#187;, in <I>American    Journal of Sociology,</I> 107 (6), pp. 1468-1532.      <p>Wacquant, Lo&iuml;c (2002b), &#171;The curious eclipse of prison    ethnography in the age of mass incarceration&#187;, in <I>Ethnography,</I> n.<SUP>os</SUP>    3-4, pp. 371-397.      <p>Wacquant, Lo&iuml;c (no prelo), <I>Punir os Pobres. A Nova    Gest&atilde;o da Mis&eacute;ria nos Estados Unidos,</I> Porto, Edi&ccedil;&otilde;es    Afrontamento.      <p>&nbsp;</p>      ]]></body>
</article>
