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</front><body><![CDATA[ <p><b>Jos&eacute; Miguel Sardica<a href="#25">*</a><a name="top25"></a> </b></p>     <p>&nbsp; </p>     <p><b>Flaubert ensina mais do que Marx </b>     <p>&nbsp;     <p><I>Maria de F&aacute;tima Bonif&aacute;cio,</I> <B>Estudos    de Hist&oacute;ria Contempor&acirc;nea de Portugal,</B><I> </I>Lisboa, Imprensa    de Ci&ecirc;ncias Sociais, Abril de 2007, 359 p&aacute;ginas.      <p>      <p>      <p>O mais recente livro de Maria de F&aacute;tima Bonif&aacute;cio &#151; o d&eacute;cimo    de uma vasta obra de servi&ccedil;o &agrave; causa da historiografia, muito    particularmente na &aacute;rea do oitocentismo portugu&ecirc;s<SUP><a href="#1">1</a></SUP><a name="top1"></a>    &#151; &eacute; uma colect&acirc;nea de estudos v&aacute;rios, que re&uacute;ne    uma d&uacute;zia de trabalhos, onze dos quais editados entre 1993 (o mais antigo)    e 2006 (o mais recente) em diversas publica&ccedil;&otilde;es acad&eacute;micas,    e um in&eacute;dito, presumivelmente resultante de investiga&ccedil;&atilde;o    em curso. A pr&oacute;pria autora explica, na nota de apresenta&ccedil;&atilde;o    do volume, a l&oacute;gica que permite internamente agrup&aacute;-los em tr&ecirc;s    n&uacute;cleos: um primeiro, com seis estudos hist&oacute;ricos de diferentes    tem&aacute;ticas, incluindo um sobre a historiografia do Estado Novo; um segundo,    com tr&ecirc;s trabalhos de reflex&atilde;o te&oacute;rica; um terceiro, com    tr&ecirc;s estudos biogr&aacute;ficos (dois deles elaborados a partir da recens&atilde;o    de fontes hist&oacute;ricas oitocentistas).      <p>No seu conjunto, estes <I>Estudos de Hist&oacute;ria Contempor&acirc;nea    de Portugal</I> s&atilde;o uma obra com in&uacute;meros e ineg&aacute;veis m&eacute;ritos.    Sem concess&otilde;es a modas cient&iacute;ficas ou acad&eacute;micas facilitistas,    intelectualmente corajosa pelo lado iconoclasta que constitui uma saud&aacute;vel    marca distintiva da autora, a soma dos seus conte&uacute;dos ruma contra culturas    feitas e <I>acquis</I> de conhecimento julgados intoc&aacute;veis, n&atilde;o    hesitando muitas vezes em ressuscitar o essencial &#151; de factos e de pressupostos    metodol&oacute;gicos ou epistemol&oacute;gicos &#151; no meio do ru&iacute;do    acess&oacute;rio que h&aacute; muito parece ter invadido e descaracterizado    este particular e sens&iacute;vel ramo do conhecimento humano que &eacute; a    hist&oacute;ria. Como j&aacute; em anteriores ocasi&otilde;es acontecera, &eacute;    mesmo um livro com uma arriscada, mas assumida, dose de exposi&ccedil;&atilde;o    pessoal (rara na pequena comunidade acad&eacute;mica portuguesa), que constitui    tamb&eacute;m o testemunho de um percurso intelectual coerente, onde a escrita,    inovadora, da hist&oacute;ria do Portugal oitocentista (a grande &aacute;rea    de especializa&ccedil;&atilde;o da autora) foi sendo sempre feita e enquadrada    por uma persistente reflex&atilde;o sobre as condi&ccedil;&otilde;es, os m&eacute;todos    e a identidade do of&iacute;cio de historiador.      <P>&nbsp;     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><i><b>O seu a seu dono: uma reabilita&ccedil;&atilde;o da economia cartista    </b></i>     <p>O volume abre com &#171;O setembrismo corrigido e actualizado&#187;, um artigo    originalmente publicado em 1993 e filiado ainda na carreira de hist&oacute;ria    econ&oacute;mica e social realizada por F&aacute;tima Bonif&aacute;cio no quadro    da sua lecciona&ccedil;&atilde;o e investiga&ccedil;&atilde;o universit&aacute;rias    ao longo da d&eacute;cada de 1980. Foi nessa &aacute;rea, e n&atilde;o ainda    na da hist&oacute;ria pol&iacute;tica contempor&acirc;nea <I>strictu sense,</I>    que a autora realizou as suas provas de aptid&atilde;o cient&iacute;fica e pedag&oacute;gica    (em 1982) e a sua tese de doutoramento (em 1990). Ao tempo da sua publica&ccedil;&atilde;o,    este artigo sobre o setembrismo era uma esp&eacute;cie de balan&ccedil;o final,    abreviado e escolar, sobre a economia e a sociologia daquela corrente ideol&oacute;gica    portuguesa da primeira metade de oitocentos &#151; um balan&ccedil;o que come&ccedil;ara    a tomar forma em textos v&aacute;rios da d&eacute;cada de 1980, particularmente    num artigo de 1988 que talvez tivesse valido a pena recuperar tamb&eacute;m<SUP><a href="#2">2</a></SUP><a name="top2"></a>,    que fora o fulcro central da longa tese de doutoramento da autora<SUP><a href="#3">3</a></SUP><a name="top3"></a>    e que seria ainda sucintamente resumido no primeiro cap&iacute;tulo dos <I>Seis    Estudos sobre o Liberalismo Portugu&ecirc;s</I> (livro de 1991).      <p>Para que n&atilde;o restassem d&uacute;vidas sobre a linha interpretativa do    setembrismo sugerida, e para relembrar evid&ecirc;ncias pouco convenientes para    alguma historiografia de cunho marxizante mais arreigado, F&aacute;tima Bonif&aacute;cio    voltou uma &uacute;ltima vez &agrave; pol&eacute;mica em 1993 &#151; no que    foi um dos seus &uacute;ltimos textos de hist&oacute;ria econ&oacute;mica e    social antes da decidida viragem para a hist&oacute;ria pol&iacute;tico-institucional.    Esta viragem, valha a verdade, foi mais aparente do que real: a autora n&atilde;o    abandonou a economia para ir estudar a pol&iacute;tica pela simples raz&atilde;o    de que mesmo nos tempos em que leccionava Hist&oacute;ria Econ&oacute;mica e    Social nunca perdeu de vista, e sempre lembrou aos seus alunos, que muitas das    quest&otilde;es e problemas da hist&oacute;ria econ&oacute;mica e social n&atilde;o    t&ecirc;m uma explica&ccedil;&atilde;o causal de cunho determinista, sendo mais    produtivamente compreens&iacute;veis a partir de um ponto de vista da conting&ecirc;ncia    pol&iacute;tico-ideol&oacute;gica.      <p>Foi precisamente essa leitura &#151; que se diria antimarxista    e revisionista &#151; de quem se predisp&otilde;e a olhar para l&aacute; da    economia para explicar as grandes op&ccedil;&otilde;es dessa mesma economia    que levou a autora a olhar a quest&atilde;o espec&iacute;fica (quase se diria    t&eacute;cnica) do proteccionismo portugu&ecirc;s como uma quest&atilde;o essencialmente    ideol&oacute;gica, muito filha da cosmovis&atilde;o do radicalismo oitocentista.    Munida deste pressuposto, F&aacute;tima Bonif&aacute;cio gastou anos a fio a    enfrentar e desmontar a velha dicotomia, criada por Albert Silbert e depois    muito acriticamente reproduzida, da sociologia e filia&ccedil;&atilde;o econ&oacute;mica    do setembrismo como porta-voz do proteccionismo, por contraposi&ccedil;&atilde;o    ao cartismo de bandeira livre-cambista &#151; sendo o primeiro eminentemente    &#171;patri&oacute;tico&#187;, pequeno-burgu&ecirc;s/oper&aacute;rio e pr&oacute;-industrialista    e o segundo &#171;desnacionalizador&#187;, porque representante do grande capital    &#171;import-export&#187;, sempre servil perante a mais desenvolvida Inglaterra.      <p>O artigo relembra a revolu&ccedil;&atilde;o de Setembro (em    1836), o processo de apropria&ccedil;&atilde;o dessa vit&oacute;ria an&oacute;nima    pelos chefes da at&eacute; a&iacute; oposi&ccedil;&atilde;o constitucional,    as rela&ccedil;&otilde;es perigosas mantidas pelo radicalismo da rua com o setembrismo    respeit&aacute;vel e tamb&eacute;m as justifica&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas,    constitucionais e doutrin&aacute;rias que obrigaram a esquerda a ter de derrubar,    naquela circunst&acirc;ncia, um governo para (com um enquadramento constitucional    alternativo) conseguir ser poder no quadro da monarquia de D. Maria II. Seguidamente,    e porque a principal medida do setembrismo no poder foi a famosa Pauta Geral    das alf&acirc;ndegas de 1837, vem ent&atilde;o o essencial do texto, ou seja,    o exerc&iacute;cio revisionista de dar o seu a seu dono, restaurando a autoria    <I>conservadora</I> (isto &eacute;, cartista) da dita pauta e explicando por    que raz&atilde;o a cosmovis&atilde;o pol&iacute;tica e ideol&oacute;gica dos    radicais (que preexistia a qualquer considerando imediato de ordem t&eacute;cnico-econ&oacute;mica)    os levou a apropriarem-se da pauta como coisa sua e eminentemente patri&oacute;tica    (pp. 18-19).      <p>Daqui relevam os dois ensinamentos principais da autora neste texto: (1) que    o pa&iacute;s era esmagadoramente proteccionista; (2) que a excep&ccedil;&atilde;o    livre-cambista n&atilde;o recobria nenhuma fam&iacute;lia sociol&oacute;gica    ou pol&iacute;tica, sendo antes circunstancial no tempo, limitada na geografia    (o Douro/Porto) e sectorial, portanto, no que ao apuramento de uma sociologia    das op&ccedil;&otilde;es econ&oacute;micas diz respeito (p. 25). Porventura    menos bem explicitada fica, todavia, uma quest&atilde;o: por que raz&atilde;o,    uma vez operada a &#171;falsifica&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica&#187; (p.    26) que foi a apropria&ccedil;&atilde;o radical da pauta e a consequente diaboliza&ccedil;&atilde;o    do cartismo como uma clique de devoristas vendida &agrave; Inglaterra, n&atilde;o    foi este mais lesto e en&eacute;rgico, logo na &eacute;poca, a defender-se e    a repor a verdade.      <p>&nbsp;      <P><b><i>Genealogia da direita liberal conservadora portuguesa </i></b>     <p>Publicado tamb&eacute;m em 1993, &#171;Costa Cabral no contexto do liberalismo    doutrin&aacute;rio&#187; resultou de uma sab&aacute;tica da autora em Inglaterra    (em 1991-1992), que definitivamente reorientou a sua carreira acad&eacute;mica    para o universo da pol&iacute;tica, das ideias, da cultura e das institui&ccedil;&otilde;es    do s&eacute;culo xix. &Agrave; sua maneira, tratou-se tamb&eacute;m de um texto    fundador e revisionista: fundador, por um lado, por ter tido o m&eacute;rito    original de situar, por comparabilidade internacional, um pol&iacute;tico portugu&ecirc;s    (Ant&oacute;nio Bernardo da Costa Cabral, o futuro conde de Tomar) no espectro,    complexo, da direita liberal conservadora europeia, tornando assim a leitura    do liberalismo mon&aacute;rquico nacional mais espessa e mais particularizada;    revisionista, por outro lado, por ter tido tamb&eacute;m o m&eacute;rito original    de estudar e clarificar o que chegou a ser essa direita em Portugal, rumando    assim contra a persistente imagem caricatural, constru&iacute;da pela oposi&ccedil;&atilde;o    do radicalismo e popularizada pela historiografia mais jacobina, de um cabralismo    ditatorial e autorit&aacute;rio.      <p>No limite, trata-se at&eacute; mais de um trabalho sobre a cultura pol&iacute;tica    franco-espanhola das d&eacute;cadas centrais do s&eacute;culo xix do que de    um estudo aprofundado sobre Costa Cabral, na medida em que s&oacute; a compreens&atilde;o    do que eram os problemas internacionais da Restaura&ccedil;&atilde;o p&oacute;s-napole&oacute;nica    (a urg&ecirc;ncia da ordem contra a persistente amea&ccedil;a da &#171;hidra    revolucion&aacute;ria&#187;) permite iluminar (isto &eacute;, dar sentido, coer&ecirc;ncia    e racionalidade) a l&oacute;gica do poder e da actua&ccedil;&atilde;o cabralista,    evitando assim tom&aacute;-la superficialmente como teimosia autista de qualquer    ditador contempor&acirc;neo <I>avant-la-lettre</I><SUP><a href="#4">4</a></SUP><a name="top4"></a>.      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&Eacute; por isso que Costa Cabral, o modesto filho de Fornos de Algodres,    o ex-vociferador radical convertido &agrave; modera&ccedil;&atilde;o, o primeiro    caso de <I>character assassination</I> metodicamente levado a cabo na imprensa    e na opini&atilde;o p&uacute;blica do tempo, aparece aqui a uma outra luz. Cabral    n&atilde;o foi um Royer-Collard nem um Do&ntilde;oso Cort&eacute;s (cujas reflex&otilde;es    filos&oacute;ficas s&oacute; ter&atilde;o tido o seu equivalente portugu&ecirc;s    em alguns textos de Alexandre Herculano, o patriarca da teoria cartista), mas    nem por isso deixou de ser a express&atilde;o nacional clara de uma linha que    atingiu o auge do seu poder na d&eacute;cada de 1840, com Guizot em Fran&ccedil;a    e N&aacute;rvaez em Espanha, e que, l&aacute; como c&aacute;, se tornaria crescentemente    desnecess&aacute;ria ap&oacute;s o esvaziamento da &#171;hidra revolucion&aacute;ria&#187;    em 1848-1851<SUP><a href="#5">5</a></SUP><a name="top5"></a>.      <p>Enquanto durou &#151; e olhado na perspectiva de uma genealogia da direita    liberal conservadora portuguesa &#151; Cabral foi a encarna&ccedil;&atilde;o    nacional daquela linha, materializando um lugar e uma pol&iacute;tica equidistante    dos extremos absolutista e republicano, como um <I>juste milieu</I> que se empenhou    em repensar e reelaborar o vocabul&aacute;rio liberal, redefinindo conceitos    como a legitimidade (a sageza do tempo plasmada nas cartas constitucionais <I>versus</I>    a cacofonia constituinte plasmada nas constitui&ccedil;&otilde;es), a representa&ccedil;&atilde;o    (capacidade e &#171;raz&atilde;o p&uacute;blica&#187; <I>versus</I> vontade    contratualista), a natureza do governo (constitucional mas n&atilde;o estritamente    parlamentar) ou o sufr&aacute;gio (indirecto e censit&aacute;rio, e n&atilde;o    directo e alargado).      <p>&nbsp;      <P><b><i>O nome e a coisa: o imposs&iacute;vel consenso sobre o Salazarismo </i></b>     <p>Contrariamente a qualquer outro, o ensaio &#171;Historiografia do Estado Novo&#187;<I>    </I>n&atilde;o tem uma filia&ccedil;&atilde;o ou uma continua&ccedil;&atilde;o    definidas; foi publicado no vol. viii do suplemento ao <I>Dicion&aacute;rio    de Hist&oacute;ria de Portugal, </I>em 1999, e nasceu do puro interesse intelectual    de F&aacute;tima Bonif&aacute;cio pelo s&eacute;culo xx portugu&ecirc;s e pelo    mais apetec&iacute;vel dos seus temas historiogr&aacute;ficos: o Estado Novo.    Da&iacute; resultou este texto, que &eacute; uma recens&atilde;o/reflex&atilde;o    conjunta &agrave;s principais linhas de investiga&ccedil;&atilde;o e de interpreta&ccedil;&atilde;o    do fen&oacute;meno salazarista, no quadro da sociedade portuguesa do tempo.    O seu principal interesse reside mesmo no facto &#151; aparentemente paradoxal    &#151; de a autora n&atilde;o ser especialista no Estado Novo, o que, todavia,    n&atilde;o a impediu de conseguir um retrato rigoroso e sint&eacute;tico desse    regime, onde o leitor consegue, de facto, destrin&ccedil;ar o essencial do acess&oacute;rio    no emaranhado de quest&otilde;es e interpreta&ccedil;&otilde;es que o salazarismo    at&eacute; hoje levanta. Nada tendo a defender, ou seja, n&atilde;o sendo parte    interessada nas pol&eacute;micas ideol&oacute;gicas sobre os usos (e abusos)    historiogr&aacute;ficos do Estado Novo, F&aacute;tima Bonif&aacute;cio p&ocirc;de    ter a dist&acirc;ncia necess&aacute;ria para ser equilibrada e imparcial. Isto    n&atilde;o significa ter sido ass&eacute;ptica e neutral: como em rela&ccedil;&atilde;o    ao velho setembrismo corrigido e actualizado, tamb&eacute;m aqui se nota, sobre    outra &eacute;poca e outro tema, a cr&iacute;tica e o distanciamento face &agrave;s    explica&ccedil;&otilde;es de cariz mais imediatista do &#171;marxismo ortodoxo&#187;    (&#171;e, portanto, mais grosseiro&#187;) (p. 93).      <p>Segundo a autora, uma vez superadas as primeiras teses de que    o salazarismo s&oacute; podia ser explicado como uma &#171;maldi&ccedil;&atilde;o    absurda&#187; lan&ccedil;ada por &#171;duzentas fam&iacute;lias&#187; ego&iacute;stas    sobre oito milh&otilde;es de c&acirc;ndidos portugueses, a historiografia tem    vindo a apresentar, sucessivamente, variadas respostas para &#171;perguntas    essencialmente as mesmas&#187; (pp. 94-95). Essas perguntas, enunciadas e respondidas    por Herm&iacute;nio Martins, Manuel de Lucena, Fernando Rosas, Manuel Braga    da Cruz e Ant&oacute;nio Costa Pinto (s&atilde;o estes, e s&oacute; estes, os    cinco autores aqui passados em revista), s&atilde;o esquematicamente formuladas    pela autora (p. 98): a que tipo pol&iacute;tico pertenceu o Estado Novo? Qual    foi a sua base de apoio social? Quais as origens e as caracter&iacute;sticas    ideol&oacute;gicas do Estado Novo? Respondendo a isto, responder-se-&aacute;    &agrave;quela que &eacute; a m&atilde;e de todas as pol&eacute;micas que se    digladiam at&eacute; hoje, a saber, &#171;poder&aacute; classificar-se de fascista    um regime que dispensou o movimento&#187;?      <p>Nos anos 70, e ainda em 1994, Manuel de Lucena considerou ter    sido o salazarismo &#171;um fascismo sem movimento fascista&#187; e o fascismo    ele mesmo a forma concretizadora do que fora a ess&ecirc;ncia comum dos regimes    portugu&ecirc;s e italiano &#151; o corporativismo (p. 100). Embora renunciando    ao basismo antifascista de ver o Estado Novo como simples instrumento de domina&ccedil;&atilde;o,    e descobrindo nele um papel de &aacute;rbitro equilibrador dos diferentes interesses    sociais das &#171;for&ccedil;as vivas&#187;, tamb&eacute;m Fernando Rosas se    inclinou, e inclina ainda, para a identifica&ccedil;&atilde;o do salazarismo    como &#171;uma esp&eacute;cie particular de um fen&oacute;meno global de fascismo    gen&eacute;rico&#187; e do Estado Novo como um regime &#171;tendencialmente    totalit&aacute;rio&#187; &#151; se n&atilde;o em todas as suas inten&ccedil;&otilde;es    te&oacute;rico-ideol&oacute;gicas, ao menos na maioria das suas concretiza&ccedil;&otilde;es    institucionais quotidianas (pp. 105-106).      <p>Outra leitura detecta F&aacute;tima Bonif&aacute;cio em Manuel Braga da Cruz    e Ant&oacute;nio Costa Pinto. O primeiro recusa-se a ver fascismo num regime    historicamente filiado na doutrina social da Igreja e na leitura do corporativismo    org&acirc;nico chegada a Salazar atrav&eacute;s da democracia crist&atilde;    de Le&atilde;o XIII. Teria sido essa matriz conciliadora, moderada, conservadora,    que mitigou e diluiu o eventual influxo que o fascismo europeu poderia (e quis)    dar ao ruralista e cat&oacute;lico Estado Novo (pp. 111-112). Ant&oacute;nio    Costa Pinto, por seu turno, mostrou, a partir dos estudos de Juan Linz sobre    o autoritarismo franquista, por que raz&atilde;o o fascismo e, sobretudo, o    seu movimento &#151; a cor e o ru&iacute;do das massas, a ac&ccedil;&atilde;o    armada e a viol&ecirc;ncia totalit&aacute;ria &#151; eram plantas ex&oacute;ticas    de dif&iacute;cil implanta&ccedil;&atilde;o, concluindo, assim, n&atilde;o ser    &#171;l&iacute;cito&#187; encarar a ditadura salazarista como um regime fascista    (p. 116).      <p>Que concluir? Foi Salazar fascista? Houve fascismo em Portugal? E o que &eacute;    que afinal o caracteriza &#151; apenas o corporativismo, ou isso, o movimento    e outros aspectos? E <I>quanto</I> movimento ser&aacute; necess&aacute;rio para    se aceitar o r&oacute;tulo de fascista para um determinado regime? Pese embora    posicione bem o problema, F&aacute;tima Bonif&aacute;cio n&atilde;o oferece    uma resposta final (embora traia a sua prefer&ecirc;ncia pela desfilia&ccedil;&atilde;o    do salazarismo do &#171;clube&#187; dos fascismos de entre guerras), at&eacute;    porque, em boa verdade, tal resposta n&atilde;o existe, nem provavelmente existir&aacute;    alguma vez &#151; j&aacute; porque o Estado Novo &eacute; ainda muito pol&iacute;tico    e n&atilde;o somente hist&oacute;rico, j&aacute; porque &eacute; imposs&iacute;vel    um acordo sobre uma vis&atilde;o &uacute;nica do Estado Novo, dado que os pressupostos    e opini&otilde;es do que nele foi fundamental e identit&aacute;rio variar&atilde;o    sempre entre os v&aacute;rios historiadores que sobre esse per&iacute;odo se    debru&ccedil;am.      <p>&nbsp;      ]]></body>
<body><![CDATA[<P><i><b>A irreconcili&aacute;vel divis&atilde;o das esquerdas portuguesas </b></i>     <p>Publicado em 2001, &#171;Hist&oacute;ria de um nado-morto: o primeiro minist&eacute;rio    hist&oacute;rico (1856-1859)&#187; constituiu uma releitura particularizada    das venturas, e sobretudo desventuras, vividas pelo governo hist&oacute;rico    do marqu&ecirc;s de Loul&eacute;, &agrave; luz do quadro geral interpretativo    do final da d&eacute;cada de 1850 e in&iacute;cios da d&eacute;cada de 1860<SUP><a href="#6">6</a></SUP><a name="top6"></a>    j&aacute; fixado pela autora n'&#171;A republicaniza&ccedil;&atilde;o da monarquia&#187;,    trabalho de 1999. No seu todo, &eacute; um <I>case-study</I> demonstrativo das    raz&otilde;es por que a esquerda n&atilde;o pode, ou parece n&atilde;o conseguir,    governar estavelmente Portugal<SUP><a href="#7">7</a><a name="top7"></a></SUP>    &#151; premissa que se comprova, no caso presente, pela radical impossibilidade    de o governo de Loul&eacute; de 1856-1859 ter tido viabilidade no m&eacute;dio    prazo.      <p>Por que &eacute; que a esquerda &#151; mormente o ministeri&aacute;vel centro-esquerda    &#151; n&atilde;o dura no poder? Por que &eacute; que o primeiro governo hist&oacute;rico,    na d&eacute;cada de 1850, foi um &#171;nado-morto&#187;? Acidentes de conjuntura    ou pequenas intrigas parlamentares &agrave; parte (que sempre os h&aacute;,    sob qualquer governo), porque no tempo de Loul&eacute;, devido ao desajuste    do conservadorismo de um l&iacute;der de esquerda, como ele o foi, num quadro    de renascimento do radicalismo como o do final da d&eacute;cada de 1850, veio    &agrave; tona da actualidade pol&iacute;tica, e com inusitada for&ccedil;a,    o sempre-eterno dilema do centro-esquerda portugu&ecirc;s e a sua sempre-eterna    ambiguidade (a que nenhuma linguagem ou postura fusionista e &#171;pasteleira&#187;    jamais p&ocirc;de p&ocirc;r cobro) (pp. 147-148). Esse dilema e essa ambiguidade    consistiam em manter obscuras, mas indispens&aacute;veis, liga&ccedil;&otilde;es    com o radicalismo da rua e das bases populares, na ilus&atilde;o de, atrav&eacute;s    delas, alargar a sua apacidade de penetra&ccedil;&atilde;o social e agigantar-se    como cred&iacute;vel alternativa &agrave; direita, nunca sabendo, contudo, at&eacute;    onde ir nessas liga&ccedil;&otilde;es perigosas, com o risco de lhes perder    o controlo e, por via disso, ficar ref&eacute;m da chantagem radical que o descredibilizava    perante a direita e o Pa&ccedil;o. Fora assim com o setembrismo; foi assim com    Loul&eacute;; seria assim com a esquerda mon&aacute;rquica que insistiu em namorar    o Partido Republicano na d&eacute;cada de 1880 &#151; e, em boa verdade, talvez    ainda hoje seja assim sempre que o Partido Socialista tem bases fracturantes    e l&iacute;deres moderados.      <p>&Eacute; a esta luz que se percebe o inelut&aacute;vel destino que esperava    o gabinete de Loul&eacute;: ao cabo de dois anos e nove meses de tens&otilde;es,    chantagens, avisos, vexames e campanhas de rua, estabeleceu-se um absoluto impasse    entre a din&acirc;mica centr&iacute;peta do aristocr&aacute;tico l&iacute;der    do governo e a vozearia centr&iacute;fuga das suas bases de apoio, que n&atilde;o    cessavam de recomendar ao chefe que se arrancasse &agrave; sua proverbial indol&ecirc;ncia    e caminhasse resoluto na senda do movimento e das reformas. &Agrave; &eacute;poca,    e nas fontes, esta irreconcili&aacute;vel divis&atilde;o deu lugar a uma nomenclatura    muito pr&oacute;pria: o centro-esquerda ministerial, e quem estava com ele,    representava a &#171;unha branca&#187;; as bases radicais, e quem estava com    elas, representavam a &#171;unha negra&#187;. Foi o choque entre as duas, e    aquele impasse, que afinal explica, segundo a autora, se n&atilde;o o momento    (Mar&ccedil;o de 1859) da queda do executivo de Loul&eacute;, seguramente a    inevitabilidade, a prazo, desse desfecho.      <p>&nbsp;      <P><b><i>Contributos para uma reabilita&ccedil;&atilde;o do parlamento oitocentista    </i> </b>     <p>Embora n&atilde;o seja in&eacute;dito, o texto &#171;O parlamento    portugu&ecirc;s no s&eacute;culo xix&#187; &eacute; aqui publicado pela primeira    vez depois de ter sido apresentado, como comunica&ccedil;&atilde;o oral, num    semin&aacute;rio de debate sobre a obra colectiva <I>Dicion&aacute;rio Biogr&aacute;fico    Parlamentar, </I>organizado pelo Instituto de Ci&ecirc;ncias Sociais em Junho    de 2006. &Eacute; menos um artigo acad&eacute;mico do que um texto de s&iacute;ntese    e reflex&atilde;o ensa&iacute;sticas, que passa em revista os principais t&oacute;picos    de discuss&atilde;o sobre o lugar, fun&ccedil;&atilde;o, relevo e especificidade    da institui&ccedil;&atilde;o parlamentar no quadro do constitucionalismo mon&aacute;rquico    portugu&ecirc;s.      <p>Para al&eacute;m de fazer leis, dar voz &agrave; livre discuss&atilde;o    de ideias e representar a opini&atilde;o p&uacute;blica (uma novidade muito    valorizada, como demonstra a autora, por vultos t&atilde;o definidores da cultura    pol&iacute;tica oitocentista como Fontes Pereira de Melo) (p. 156), o parlamento    oitocentista portugu&ecirc;s era, fazia e representava mais do que o parlamento    da actual democracia no que ao funcionamento quotidiano do sistema pol&iacute;tico    dizia respeito. Se este texto tem uma moral, ou uma inten&ccedil;&atilde;o,    ela &eacute; a de desmontar a caricatura que a gera&ccedil;&atilde;o de 70 e,    particularmente, as p&aacute;ginas queirosianas d'<I>As Farpas</I> deixaram    acerca de S&atilde;o Bento. Assim, em vez de a encarar como uma assembleia &#171;muda,    sonolenta e ignorante&#187; (cit. de E&ccedil;a de Queir&oacute;s, p. 154),    F&aacute;tima Bonif&aacute;cio ressuscita, bem ao contr&aacute;rio, a essencial    import&acirc;ncia das Cortes como centro da vida pol&iacute;tica e escola de    elites, de jornalismo e de orat&oacute;ria. Era isto que &#151; n&atilde;o obstante    a fraude eleitoral e a endogamia da base de recrutamento parlamentar &#151;    tornava o parlamento oitocentista comparativamente mais importante, s&eacute;rio,    &uacute;til e digno do que o seu cong&eacute;nere actual. Numa afirma&ccedil;&atilde;o    politicamente incorrecta, a autora n&atilde;o hesita mesmo em dizer que &#171;a    cultura m&eacute;dia do deputado oitocentista por certo faria inveja ao deputado    actual&#187; (p. 157).      <p>Mesmo que a org&acirc;nica de poderes prescrita na Carta Constitucional    tenha conferido a supremacia ao rei e ao executivo, a progressiva parlamentariza&ccedil;&atilde;o    da vida pol&iacute;tica oitocentista (particularmente &agrave; luz do Acto Adicional    aprovado em 1852) assegurou sempre ao parlamento uma enorme e insubstitu&iacute;vel    centralidade na monarquia constitucional portuguesa. &Eacute; verdade que havia    a dissolu&ccedil;&atilde;o e que os parlamentos eram mais fabricados eleitoralmente    pelos governos em exerc&iacute;cio do que extra&iacute;dos do resultado eleitoral    apurado do confronto, na urna, entre as diferentes sensibilidades da opini&atilde;o    p&uacute;blica e partid&aacute;ria, mas isso n&atilde;o invalida que ele era    a sede da soberania nacional reconhecida e o guardi&atilde;o da legitimidade    representativa &#151; qualquer coisa que a dispers&atilde;o de centros de poder    e de influ&ecirc;ncia parapol&iacute;tica dos dias de hoje j&aacute; ter&aacute;    feito perder ou diluir.      <p>No &uacute;ltimo ponto deste ensaio, F&aacute;tima Bonif&aacute;cio aborda    uma quest&atilde;o que n&atilde;o &eacute; s&oacute; hist&oacute;rica, mas actual    &#151; o bicameralismo. Justificado, na &eacute;poca, por quem o defendia, pelo    efeito &#171;calmante&#187; que a segunda c&acirc;mara poderia exercer sobre    as &#171;paix&otilde;es&#187; partid&aacute;rias muito vivas na primeira c&acirc;mara    e atacado desde sempre por reformistas e radicais de esquerda como uma excresc&ecirc;ncia    feudo-senhorial do Antigo Regime, a exist&ecirc;ncia da chamada C&acirc;mara    dos Pares foi sempre um t&oacute;pico pol&eacute;mico ao longo do s&eacute;culo    xix. Ora, na an&aacute;lise da autora, na medida em que a justifica&ccedil;&atilde;o    dos adeptos da c&acirc;mara alta para a sua exist&ecirc;ncia foi sempre mais    um <I>wishfull thinking</I> do que uma realidade (porque muitas foram as vezes    em que os pares assumiram o papel de fautores, e n&atilde;o de trav&otilde;es,    da agita&ccedil;&atilde;o partid&aacute;ria e da instabilidade governativa)    (p. 163), &eacute; de crer que F&aacute;tima Bonif&aacute;cio aconselharia os    actuais constitucionalistas a n&atilde;o recriarem, por sobre o unicameralismo    vigente na democracia portuguesa, qualquer esp&eacute;cie de c&acirc;mara alta,    de pares, lordes ou senadores &#151; pelo menos nos moldes em que a segunda    c&acirc;mara tradicionalmente foi organizada em Portugal.      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;     <P><b><i>&#171;O grande eleitor&#187;<SUP><a href="#8">8</a></SUP><a name="top8"></a>    </i></b>     <p>O estudo &#171;O maior patrono de Portugal. Problemas em torno das elei&ccedil;&otilde;es    oitocentistas, 1852-1884&#187; &eacute; o &uacute;nico trabalho in&eacute;dito    do volume &#151; e percebe-se pela sua leitura que &eacute; investiga&ccedil;&atilde;o    espec&iacute;fica em curso ou porventura base de reflex&atilde;o e apoio para    outro trabalho. Num certo sentido, pode ser interpretado como uma esp&eacute;cie    de segunda parte, ou continua&ccedil;&atilde;o temporal, do trabalho &#171;A    guerra de todos contra todos. (Ensaio sobre a instabilidade pol&iacute;tica    antes da Regenera&ccedil;&atilde;o)&#187; (de 1992<SUP><a href="#9">9</a><a name="top9"></a></SUP>),    uma vez que prolonga a an&aacute;lise das elei&ccedil;&otilde;es e dos mecanismos    de luta/acordo da vida pol&iacute;tica portuguesa da &eacute;poca anterior &agrave;    Regenera&ccedil;&atilde;o (1834-1851) para o quadro temporal da Regenera&ccedil;&atilde;o,    balizado aqui entre 1852 (data do primeiro Acto Adicional &agrave; Carta Constitucional)    e 1884 (data da importante reforma eleitoral fontista). Algo do que a autora    concluiu em 1992 sobre a primeira fase do constitucionalismo mon&aacute;rquico    &#151; a incipi&ecirc;ncia dos partidos pol&iacute;ticos e o uso da fraude eleitoral    &#151; &eacute; aqui reverificado e confirmado para os anos posteriores, embora    numa &eacute;poca em que, claro est&aacute;, a capacidade eleitoral dos governos    era j&aacute; mais est&aacute;vel e s&oacute;lida do que o acontecido at&eacute;    1851.      <p>O texto come&ccedil;a por enunciar uma contratese em rela&ccedil;&atilde;o    a um certo ju&iacute;zo de senso comum &#151; que as elei&ccedil;&otilde;es    eram disputadas entre partidos &#151; assente na evid&ecirc;ncia de que qualquer    governo, mesmo sem partido, por norma, vencia as elei&ccedil;&otilde;es que    organizava. O facto de nunca se ter reparado nisto e, ao contr&aacute;rio, de    se ter sempre repetido aquilo (que &eacute;, ao fim ao cabo, uma projec&ccedil;&atilde;o    anacr&oacute;nica do que acontece no pluripartidarismo de hoje) levou a que    se obliterasse &#171;a perspectiva do historiador que procura entender o que    significavam e valiam politicamente as elei&ccedil;&otilde;es oitocentistas&#187;    (p. 171).      <p>No s&eacute;culo xix, os partidos pol&iacute;ticos (&#171;de    not&aacute;veis&#187;, como ent&atilde;o se dizia) nunca ganharam grande solidez    ideol&oacute;gica, estrutura organizativa e implanta&ccedil;&atilde;o social    e espacial &#151; o que &eacute; tanto mais verdade num pa&iacute;s como Portugal,    conhecido pela sua escassa alfabetiza&ccedil;&atilde;o, d&eacute;bil consciencializa&ccedil;&atilde;o    c&iacute;vica e fraco debate social. N&atilde;o eram, portanto, sustenta a autora,    os partidos pol&iacute;ticos que enquadravam o corpo eleitoral na hora do voto;    eram antes as autoridades administrativas, dependentes hirarquicamente do governo,    que, jogando com os interesses imediatos das comunidades de eleitores, compravam    o seu voto com promessas de empregos, subs&iacute;dios, dinheiros, obras, favores    legislativos ou at&eacute; isen&ccedil;&otilde;es fiscais e de recrutamento    militar.      <p>O governo vencia as elei&ccedil;&otilde;es gra&ccedil;as &agrave;    sua capacidade negocial e retributiva; nisso, muito mais do que na viol&ecirc;ncia    eleitoral expl&iacute;cita, residia aquilo a que se chamava fraude ou corrup&ccedil;&atilde;o    &#151; e que era, e ainda &eacute;, a vers&atilde;o oitocentista do com&eacute;rcio    medi&aacute;tico de promessas eleitorais com que a democracia actual tamb&eacute;m    &#171;faz&#187; e ganha elei&ccedil;&otilde;es.      <p>O principal agente do governo no terreno era o &#171;cacique burocr&aacute;tico&#187;    (na c&eacute;lebre express&atilde;o de Oliveira Martins), uma figura cujo papel,    de acordo com a autora, n&atilde;o se acentuou apenas a partir dos anos 70 (como    defende Pedro Tavares de Almeida<SUP><a href="#10">10</a><a name="top10"></a></SUP>),    mas logo desde o in&iacute;cio da Regenera&ccedil;&atilde;o, e cuja influ&ecirc;ncia    a introdu&ccedil;&atilde;o dos c&iacute;rculos uninominais (em 1859) n&atilde;o    s&oacute; n&atilde;o reduziu (ao arrepio dos que, defendendo aquela reforma    eleitoral, acreditavam que os c&iacute;rculos uninominais tornariam a elei&ccedil;&atilde;o    mais livre e mais respeitadora da genu&iacute;na vontade local), mas aumentou    (pp. 180-181). Num pa&iacute;s onde o &#171;cacique propriet&aacute;rio&#187;    (ainda segundo a terminologia de Oliveira Martins) nunca foi verdadeira alternativa,    por n&atilde;o existir nem aristocracia terratenente independente nem tradi&ccedil;&atilde;o    local de resist&ecirc;ncia ao poder central, o &#171;cacique burocr&aacute;tico&#187;    era a chave da vit&oacute;ria eleitoral, por ser ele quem, a mando do governo,    aliciava o voto enquanto distribuidor de meios para o poder local. Desde que    a compra do voto n&atilde;o chegasse &agrave; coac&ccedil;&atilde;o violenta    &#151; e um dos m&eacute;ritos deste artigo &eacute; o de demonstrar que essa    viol&ecirc;ncia n&atilde;o era t&atilde;o frequente quanto a &#171;lenda negra&#187;    das elei&ccedil;&otilde;es oitocentistas quer fazer crer &#151;, a inger&ecirc;ncia    do governo no acto eleitoral era aceite por todos os parceiros do jogo, quanto    mais n&atilde;o fosse porque todas as oposi&ccedil;&otilde;es a ela recorreriam    no dia em que fossem governo, e nunca suscitou demasiados pruridos sobre a representatividade    formal ou substancial do corpo de deputados assim eleitos (pp. 187-189).      <p>&Eacute; por tudo isto que, no s&eacute;culo xix, o governo (qualquer que ele    fosse) era o &#171;grande eleitor&#187;, face ao qual ningu&eacute;m (indiv&iacute;duo,    partido, grupo ou coliga&ccedil;&atilde;o) tinha capacidade de rivalizar (p.    190). Desta constata&ccedil;&atilde;o relevam alguns pontos importantes, devidamente    assinalados por F&aacute;tima Bonif&aacute;cio: (1) era o governo que auxiliava,    no limite fazia, o(s) partido(s) pol&iacute;tico(s), e n&atilde;o o inverso,    pelo que os partidos eram, na realidade, extens&otilde;es e capas do governo    para o fim espec&iacute;fico das elei&ccedil;&otilde;es; (2) n&atilde;o se formavam    governos consoante o resultado eleitoral, mas o inverso, ou seja, produzia-se    atrav&eacute;s da urna, e <I>a posteriori</I> em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;    investidura do gabinete nas cadeiras ministeriais, o resultado bastante que    viabilizasse uma representa&ccedil;&atilde;o parlamentar maiorit&aacute;ria    para o novo executivo; (3) finalmente, mais do que mostrar a fraqueza dos partidos,    a volatilidade do eleitorado de um escrut&iacute;nio para outro mostra at&eacute;    uma &#171;admir&aacute;vel const&acirc;ncia&#187; nos votantes (p. 208). Isto    significa que, num pa&iacute;s onde o Estado era o grande empregador e onde    perder o emprego era quase sempre sin&oacute;nimo da mais completa mis&eacute;ria,    a maioria dos eleitores votava sempre no governo, fosse ele qual fosse, porque    da&iacute; vinha o maior benef&iacute;cio. E, porque o governo era, e &eacute;    ainda, &#171;o maior patrono de Portugal&#187;, a autora conclui que o verdadeiro    significado das elei&ccedil;&otilde;es oitocentistas n&atilde;o era o sinalizar    de &#171;uma prefer&ecirc;ncia partid&aacute;ria&#187;, mas t&atilde;o-s&oacute;    &#171;o processo, imperfeito, atrav&eacute;s do qual os governos eram autorizados    a governar&#187; (p. 208).      <p>&nbsp;     <P><b><i>&#171;No story; no history&#187;: orgulhosamente historiadora </i></b>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Datado de 1993, o texto &#171;O aben&ccedil;oado retorno da    velha hist&oacute;ria&#187; &eacute; contempor&acirc;neo da viragem realizada    pela autora &#151; e j&aacute; acima enunciada &#151; da hist&oacute;ria econ&oacute;mico-social    para a hist&oacute;ria pol&iacute;tica no in&iacute;cio da d&eacute;cada de    1990, sendo talvez de acreditar que a mudan&ccedil;a de tem&aacute;ticas foi    causa e consequ&ecirc;ncia n&atilde;o de um radical corte epistemol&oacute;gico    (porque F&aacute;tima Bonif&aacute;cio nunca foi declaradamente adepta do c&acirc;none    que neste artigo critica), mas mais de uma clarifica&ccedil;&atilde;o reafirmadora    &#151; e &eacute; disso que aqui se trata.      <p>Este artigo &eacute;, indiscutivelmente, o mais iconoclasta de todo o volume,    tendo at&eacute; merecido da autora uma refer&ecirc;ncia individualizada na    nota de apresenta&ccedil;&atilde;o: ali se l&ecirc; que se tratou de um texto    sinalizador da &#171;liberta&ccedil;&atilde;o dos c&acirc;nones historiogr&aacute;ficos    impostos pelas v&aacute;rias novas hist&oacute;rias a partir dos anos 70 do    s&eacute;culo xx&#187; (p. 9). Numa clara manifesta&ccedil;&atilde;o contra    a corrente, que aqui e ali assume mesmo um saboroso tom de ajuste de contas,    F&aacute;tima Bonif&aacute;cio relembra, reabilita e celebra a &#171;velha hist&oacute;ria&#187;,    numa altura em que ainda se acreditava, maioritariamente, que s&oacute; a &#171;nova    hist&oacute;ria&#187; era boa, e sa&uacute;da o seu regresso como algo &#171;aben&ccedil;oado&#187;,    porventura para provocar os muitos que naquela altura ainda o olhariam como    algo &#171;maldito&#187;<SUP><a href="#11">11</a><a name="top11"></a></SUP>.      <p>Que velha hist&oacute;ria era essa, cujo regresso a autora celebrava e saudava    na altura? Era a hist&oacute;ria na acep&ccedil;&atilde;o mais cl&aacute;ssica    de um discurso narrativo da &aacute;rea das humanidades, que aborda o &#171;concreto&#187;,    o &#171;singular&#187;, a &#171;ac&ccedil;&atilde;o&#187;, o &#171;acontecimento&#187;,    o &#171;contingente&#187;, o &#171;indiv&iacute;duo irredut&iacute;vel&#187;,    &#171;imperme&aacute;vel &agrave; ci&ecirc;ncia social&#187; (pp. 210-211),    e que voluntariamente renuncia &agrave; pretensa objectividade (afinal tamb&eacute;m    ela sempre relativa) de uma hist&oacute;ria-ci&ecirc;ncia social total, te&oacute;rica    e abstracta, que, por ser tudo isto, terminava por ser fundamentalmente a-hist&oacute;rica.    Se, durante muito tempo, aquela &#171;velha hist&oacute;ria&#187; esteve obscurecida    por outros c&acirc;nones historiogr&aacute;ficos, tal ficou a dever-se, para    a autora, ao &#171;contrabando&#187; (<I>sic,</I> p. 209) de quest&otilde;es,    m&eacute;todos e olhares alimentado entre as ci&ecirc;ncias sociais e a hist&oacute;ria,    atrav&eacute;s do qual muitos tentaram, sem &ecirc;xito, conferir &agrave; segunda    um &#171;estatuto epistemol&oacute;gico mais elevado&#187; (p. 209). Acontece    que essa busca apenas revelou o pernicioso efeito de diluir a identidade da    disciplina hist&oacute;rica e de a fazer adoecer, envolvida que se viu em problemas    e demandas alheios ao seu enfoque<SUP><a href="#12">12</a><a name="top12"></a></SUP>.      <p>Recusar o influxo das ci&ecirc;ncias sociais no campo da hist&oacute;ria, que    deve ser independente e resguardado, n&atilde;o significa empurr&aacute;-la    para o p&oacute;lo oposto, ou seja, para o puro reino da efabula&ccedil;&atilde;o    liter&aacute;ria e da fic&ccedil;&atilde;o acient&iacute;fica. Por aqui se descobre    a verdadeira natureza da hist&oacute;ria que F&aacute;tima Bonif&aacute;cio    pretende ver reabilitada e que ela pr&oacute;pria vem praticando desde h&aacute;    anos a esta parte: um conhecimento que est&aacute;, por um lado, fundado em    regras objectivas e n&atilde;o negoci&aacute;veis de heur&iacute;stica, cujo    cumprimento &eacute; a garantia da validade do que se escreve (n&atilde;o no    sentido de algo cientificamente demonstr&aacute;vel, mas no sentido de algo    veros&iacute;mil e consistente no argumento explanado), e que se materializa,    ou apresenta, por outro lado, partindo de uma hermen&ecirc;utica saudavelmente    subjectiva (porque baseada em opera&ccedil;&otilde;es mentais de compreens&atilde;o    emp&aacute;tica das coisas), sob um registo liter&aacute;rio e art&iacute;stico<SUP><a href="#13">13</a></SUP><a name="top13"></a>.      <p>Se a hist&oacute;ria que a autora aqui reivindica &eacute;    mais liter&aacute;ria do que cient&iacute;fica, &eacute; porque essa op&ccedil;&atilde;o    &eacute; precisamente a melhor via para fazer o of&iacute;cio sair do gueto    acad&eacute;mico em que o hermetismo dos seus praticantes e o respectivo jarg&atilde;o    cient&iacute;fico o acantonaram. A melhor forma de aqui se chegar &#151; a uma    hist&oacute;ria humana, redigida em registo liter&aacute;rio, propondo &#171;uma    opini&atilde;o informada sobre o mundo&#187; (p. 217) &#151; seria atrav&eacute;s    de uma aposta clara no renascimento e na pr&aacute;tica do que a autora j&aacute;    considerava, neste texto, ser a forma natural do discurso hist&oacute;rico &#151;    a narrativa (p. 212).      <p>No seu todo, portanto, este artigo de 1993 era um manifesto epistemol&oacute;gico    sobre a liberdade, a conting&ecirc;ncia, a humanidade e at&eacute; a &#171;poesia&#187;    inerente ao olhar do historiador<SUP><a href="#14">14</a><a name="top14"></a></SUP>,    retirado do espartilho cient&iacute;fico onde se deixara longamente aprisionar    e devolvido a uma sua natural, mas de forma alguma arbitr&aacute;ria, &#171;anarquia&#187;    (no sentido em que John Vincent usa o termo para descrever o processo de constru&ccedil;&atilde;o    do conhecimento hist&oacute;rico<SUP><a href="#15">15</a></SUP><a name="top15" id="top15"></a>).    Tudo isto, claro, a bem da restaura&ccedil;&atilde;o do &uacute;nico objecto    pr&oacute;prio definidor da identidade da disciplina: o estudo do homem.      <p>Aqui lan&ccedil;ado quase em registo de desabafo provocador, o grito de defesa    da &#171;velha hist&oacute;ria&#187; conheceria depois &#151; no itiner&aacute;rio    intelectual da autora &#151; um longo processo de desenvolvimento e de matura&ccedil;&atilde;o,    no sentido de consolidar a disciplina como ramo do conhecimento de conte&uacute;do    dominantemente pol&iacute;tico e liter&aacute;rio, que haveria de culminar na    &#171;Apologia da hist&oacute;ria pol&iacute;tica&#187;, um extenso ensaio de    &#171;ego-hist&oacute;ria&#187; que F&aacute;tima Bonif&aacute;cio viria a publicar    no livro hom&oacute;nimo de 1999.      <p>&nbsp;      <P><b><i>Narro, logo explico </i></b>     <p>Foi tamb&eacute;m em 1999 que o texto seguinte &#151; &#171;A narrativa na    `&eacute;poca p&oacute;s-hist&oacute;rica'&#187; &#151; saiu a p&uacute;blico.    Trata-se aqui, especificamente, da particulariza&ccedil;&atilde;o, ou desenvolvimento,    de um t&oacute;pico de epistemologia e de metodologia que deriva, na vis&atilde;o    de F&aacute;tima Bonif&aacute;cio, da quest&atilde;o mais geral da natureza    e dos contornos da velha hist&oacute;ria anteriormente ressuscitada. Tendo-se    mostrado agradada com o ressurgimento da narrativa como forma e caminho natural    para a reconsidera&ccedil;&atilde;o da hist&oacute;ria no campo das humanidades,    este artigo foi o seu contributo pessoal para essa causa.      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O ponto de partida &eacute; a analogia entre a pulveriza&ccedil;&atilde;o de    paradigmas est&eacute;ticos verific&aacute;vel na p&oacute;s-modernidade art&iacute;stica    (a que a autora chega atrav&eacute;s de um estudo de Arthur Danto<SUP><a href="#16">16</a><a name="top16"></a></SUP>)    e a semelhante pulveriza&ccedil;&atilde;o de temas e m&eacute;todos patente    no campo historiogr&aacute;fico e por muitos lamentada. Na &eacute;poca a que    chama &#171;p&oacute;s-hist&oacute;rica&#187;, F&aacute;tima Bonif&aacute;cio    constata o absoluto relativismo de valores e interpreta&ccedil;&otilde;es, originando    um crescimento do conhecimento hist&oacute;rico que j&aacute; n&atilde;o se    faz linearmente, por camadas, &agrave; maneira de uma grande narrativa que se    vai sedimentando por adi&ccedil;&atilde;o sucessiva de contributos, mas que    se faz antes de forma an&aacute;rquica e centr&iacute;fuga. No limite, ter&aacute;    deixado de haver um objecto histori&aacute;vel, visto que a disciplina se desintegrou    numa esp&eacute;cie de <I>big bang,</I> onde todos os discursos s&atilde;o puramente    auto-referenciados e onde todos os objectos de estudo s&atilde;o parcelares    e reduzidos a representa&ccedil;&otilde;es de uma realidade liquefeita. Ora,    reagindo a isto, perante o &#171;niilismo epistemol&oacute;gico&#187; e a &#171;anarquia    estrutural&#187; do conhecimento vis&iacute;vel nos conflitos entre verdades    de um &#171;ambiente&#187; radicalmente relativista (p. 226) &#151;, no qual    deixou at&eacute;, inclusivamente, de se reconhecer &#171;a exist&ecirc;ncia    de uma realidade hist&oacute;rica extr&iacute;nseca ao discurso&#187; (p. 228)    &#151;, &eacute; necess&aacute;rio e urgente regressar atr&aacute;s, l&aacute;    onde a hist&oacute;ria era uma narrativa (uma &#171;grande narrativa&#187; ao    modo de Vasari na arte, p. 222) sobre qualquer coisa que <I>realmente</I> aconteceu    no passado.      <p>F&aacute;tima Bonif&aacute;cio n&atilde;o hesita em verbalizar    algo que para muitos &eacute; politicamente incorrecto: que a hist&oacute;ria    reza sobretudo de homens, ricos, poderosos e letrados e que ela &eacute; uma    actividade humana que fundamentalmente se desenvolveu (melhor se diria desenrolou)    atrav&eacute;s da pol&iacute;tica, da guerra e da diplomacia. Ou seja &#151;    e &eacute; esta a tese fundamental do artigo &#151;, que &#171;a dimens&atilde;o    &eacute;pica da exist&ecirc;ncia humana &eacute; o assunto espec&iacute;fico    da hist&oacute;ria e que a narrativa &eacute; a sua forma t&iacute;pica&#187;,    na exacta medida em que, sendo a narrativa &#171;a estrutura da nossa mem&oacute;ria&#187;    (linear e causal), ela &eacute; &#171;o modo espont&acirc;neo como se organiza    e se confere sentido &agrave; experi&ecirc;ncia humana&#187; (pp. 229-230).      <p>O que &eacute;, pois, a narrativa em hist&oacute;ria? Um g&eacute;nero liter&aacute;rio    que prop&otilde;e o que Isaiah Berlin chamava vers&otilde;es plaus&iacute;veis    de um mundo poss&iacute;vel (p. 231), falando, portanto, de factos passados,    primordialmente pol&iacute;ticos, que realmente aconteceram e deixaram rasto    documental. N&atilde;o se trata, por&eacute;m, de alinhar apenas factos. Uma    narrativa hist&oacute;rica n&atilde;o &eacute; uma cr&oacute;nica, no sentido    medieval ou jornal&iacute;stico do termo: ela &eacute; mais do que a mera soma    das partes (factos) que reproduz, porque lhes confere um sentido, porque nos    permite uma compreens&atilde;o que est&aacute; acima do mero registo <I>&eacute;v&eacute;nementielle</I><SUP><a href="#17">17</a><a name="top17"></a></SUP>,    porque nos convoca um olhar emp&aacute;tico de conjunto. E &eacute; este olhar    que, no fim, d&aacute; &agrave; narrativa a possibilidade de atingir uma unidade    dram&aacute;tica da qual se extrai moral e ju&iacute;zo, discut&iacute;veis    ambos, &eacute; certo, contudo n&atilde;o arbitr&aacute;rios e empiricamente    verific&aacute;veis. Tudo isto serve &#151; e &eacute; essa a inten&ccedil;&atilde;o    da autora &#151; para argumentar que nem s&oacute; a ci&ecirc;ncia ensina; tamb&eacute;m    a literatura, a arte ou a filosofia o fazem, ao possibilitarem-nos &#171;um    ju&iacute;zo informado sobre o mundo&#187; (p. 233), que &eacute;, &agrave;    sua maneira, uma forma de conhecimento sobre esse mesmo mundo<SUP><a href="#18">18</a><a name="top18"></a></SUP>.    Era a isso que os antigos apelavam ao considerarem a hist&oacute;ria &#171;mestra    da vida&#187;<SUP><a href="#19">19</a><a name="top19"></a></SUP>.      <p>Para F&aacute;tima Bonif&aacute;cio, a hist&oacute;ria s&oacute; explica porque,    e quando, narra, porque explicar &eacute;, na ess&ecirc;ncia, contar mais, contar    melhor<SUP><a href="#20">20</a><a name="top20"></a></SUP>, e explicar n&atilde;o    &eacute; &#151; n&atilde;o tem de ser, em hist&oacute;ria &#151; atingir verdades    cient&iacute;ficas, mas antes sentidos morais, n&atilde;o judicativos ou teol&oacute;gicos,    mas de ensinamento c&iacute;vico, porque s&oacute; esses nos poder&atilde;o    arrancar, enquanto cidad&atilde;os, &agrave; modorra passiva e consumista caracter&iacute;stica    da nossa &eacute;poca p&oacute;s-moderna, em que tudo se equivale e em que a    crise da cultura &eacute; patente. Ora, para quem n&atilde;o se contenta com    as &#171;conclus&otilde;es&#187; da sociologia ou da economia, talvez o caminho    seja redescobrir os &#171;ensinamentos&#187; da hist&oacute;ria; e aos muitos    para quem a demanda de sentidos morais se tornou um f&uacute;til pretexto de    &#171;divertimento&#187; a autora lembra, provocadoramente, a terminar, que    de forma alguma deve ser qualificado de &#171;fr&iacute;volo&#187; o prazer    &#171;que retiramos de ouvir um quarteto de Beethoven ou de ler um romance de    Flaubert&#187; (p. 239).      <p>&nbsp;     <P><b><i>Homem e mundo em jogo de espelhos e luz </i></b>     <p>Era expect&aacute;vel e inevit&aacute;vel que uma cultora da    velha hist&oacute;ria pol&iacute;tica e do m&eacute;todo narrativo desembocasse    um dia num particular g&eacute;nero historiogr&aacute;fico que, como poucos,    reflecte e permite exercitar as potencialidades da narrativa pol&iacute;tica    &#151; a biografia hist&oacute;rica. &Eacute; sobre ela que se debru&ccedil;a    o texto &#171;Biografia e conhecimento hist&oacute;rico&#187;, apresentado oralmente,    e nunca antes publicado, num semin&aacute;rio organizado pelo Instituto de Hist&oacute;ria    Contempor&acirc;nea da Universidade Nova de Lisboa em 2001.      <p>F&aacute;tima Bonif&aacute;cio parte de duas quest&otilde;es: (1) em que &eacute;    que a biografia &eacute; &#151; e se &eacute; &#151; um g&eacute;nero biogr&aacute;fico    espec&iacute;fico; (2) ser&aacute; a biografia um g&eacute;nero historiogr&aacute;fico    superior? Citando Hannah Arendt, a biografia &#171;&agrave; inglesa&#187; (a    particularidade nacional &eacute; importante), posicionada &#171;no cruzamento    da fic&ccedil;&atilde;o e da n&atilde;o-fic&ccedil;&atilde;o&#187; &#151; porque    baseada em rigorosa investiga&ccedil;&atilde;o de factos, mas literariamente    montada atrav&eacute;s de uma narrativa que fornece ao leitor enredo, intriga    e espessura humana &#151;, d&aacute; ao leitor um &#171;retrato vivo&#187; do    homem; com isso &#151; porque o protagonista da hist&oacute;ria inevitavelmente    enche a &#171;boca-de-cena&#187; e &#171;refracte a luz do tempo hist&oacute;rico&#187;    em que viveu &#151; a biografia d&aacute;-nos uma &#171;unidade de vida e mundo&#187;    que dificilmente se encontraria noutro g&eacute;nero historiogr&aacute;fico    (pp. 242-244). Assim sendo, e respondendo &agrave; primeira quest&atilde;o,    a autora opina que, de facto, a biografia &eacute; &#171;uma esp&eacute;cie    particular do g&eacute;nero historiogr&aacute;fico narrativo, que, por seu turno,    &eacute; uma esp&eacute;cie particular do g&eacute;nero liter&aacute;rio&#187;    (p. 245). Porosas que sejam as fronteiras entre a biografia hist&oacute;rica    e o romance &#151; distingue-os o facto de a primeira narrar uma vida que aconteceu    e o segundo ficionar algo que poderia ter acontecido &#151;, &eacute; atrav&eacute;s    daquela, portanto, que o leitor mais facilmente poder&aacute; transportar-se    mentalmente para um mundo que j&aacute; n&atilde;o existe.      <p>Quanto &agrave; segunda quest&atilde;o &#151; se a biografia hist&oacute;rica    veicula um conhecimento superior ao da narrativa hist&oacute;rica <I>tout court</I>    &#151;, a resposta &eacute; positiva se e quando, al&eacute;m de podermos conhecer    os acontecimentos e os soubermos interpretar, o bi&oacute;grafo tiver a arte    de nos dar, atrav&eacute;s do que escreve e do modo como escreve, acesso &agrave;    vis&atilde;o que o biografado teve do seu mundo<SUP><a href="#21">21</a><a name="top21"></a></SUP>.    Foi o caso, exemplifica a autora, de Ian Kershaw, na sua monumental biografia    do chanceler Adolf Hitler: porque o indiv&iacute;duo foi decisivo na defini&ccedil;&atilde;o    do tempo hist&oacute;rico nazi, a sua biografia &eacute; indispens&aacute;vel    e superior como janela para conhecer a &eacute;poca (pp. 249-251). Ser&aacute;    o caso, transitando para a realidade hist&oacute;rica oitocentista portuguesa,    de Rodrigo da Fonseca Magalh&atilde;es, cuja biografia F&aacute;tima Bonif&aacute;cio    actualmente prepara, como projecto de encerramento do seu trabalho de historiadora.    Apesar de n&atilde;o ser &#171;dram&aacute;tico&#187; e menos ainda &#171;&eacute;pico&#187;    (p. 252), Rodrigo dar&aacute; uma boa biografia se, e s&oacute; se &#151; na    condi&ccedil;&atilde;o auto-imposta pela autora &#151; tornar decifr&aacute;veis    aspectos do mundo oitocentista at&eacute; agora imperfeitamente iluminados,    no pressuposto de que, pela import&acirc;ncia do mesmo Rodrigo no palco do constitucionalismo    mon&aacute;rquico, a sua vida se interligou estreitamente com a vida do Portugal    pol&iacute;tico do seu tempo.      <p>O famoso <I>Citizens,</I> de Simon Schama<SUP><a href="#22">22</a><a name="top22"></a></SUP>    &#151; lembra F&aacute;tima Bonif&aacute;cio a terminar &#151;, n&atilde;o &eacute;    propriamente uma biografia, ou n&atilde;o o &eacute; explicitamente. Mas por    que &eacute; que Schama n&atilde;o conhece rival nem superior na elucida&ccedil;&atilde;o    da Revolu&ccedil;&atilde;o Francesa? Porque, no fundo, a <I>sua</I> Revolu&ccedil;&atilde;o    Francesa &eacute; uma narrativa alicer&ccedil;ada na soma, muito humana, das    centenas de biografias que a fizeram, na conting&ecirc;ncia, na incerteza moment&acirc;nea    e na dramaticidade das escolhas inerente a qualquer percurso individual (p.    253)<SUP><a href="#23">23</a></SUP><a name="top23"></a>. E &eacute; precisamente    nesta finura de talento, ao alcance de poucos, que reside aquilo a que os ingleses    (os inventores da boa biografia) chamariam &#171;the notable stuff history is    made of&#187;.      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;     <P><b><i>O elogio de &#171;El-Rei D. Jo&atilde;o VII&#187; </i></b>     <p>Tamb&eacute;m de 2001 data o estudo &#171;Saldanha: uma vida feliz&#187;<SUP><a href="#24">24</a><a name="top24"></a></SUP>.    N&atilde;o se trata, rigorosamente, de uma biografia sobre o famoso e omnipresente    marechal-duque oitocentista, com investiga&ccedil;&atilde;o e interpreta&ccedil;&otilde;es    originais, mas sim de uma longa recens&atilde;o cr&iacute;tica a uma obra ou    fonte hist&oacute;rica que, pela sua dimens&atilde;o e import&acirc;ncia documental,    constituiu um daqueles livros sem cuja leitura n&atilde;o vale a pena tentar    navegar no mundo civilizacional do s&eacute;culo xix portugu&ecirc;s &#151;    as <I>Memoirs of Field-Marshall the Duke de Saldanha with selections of his    correspondence,</I> compiladas por John Smith Athelstane, o conde da Carnota    (cunhado de Saldanha), em 1880.      <p>A obra de Athelstane/Carnota est&aacute; para a vida de Saldanha    um pouco como a de Franco Nogueira para a vida de Salazar: pode e deve ler-se    como fonte e registo de uma &eacute;poca e de um her&oacute;i, mas &eacute;    preciso, na heur&iacute;stica, desconfiar do tom laudat&oacute;rio e do registo    lend&aacute;rio de glorifica&ccedil;&atilde;o dado acerca do protagonista. Todavia,    patente a parcialidade, esta biografia tem, segundo F&aacute;tima Bonif&aacute;cio,    um m&eacute;rito de fundo raro: fazer-nos equacionar e dar-nos pistas sobre    o extremo personalismo a que a pol&iacute;tica portuguesa por vezes &eacute;    reduzida, ou seja, iluminar &#171;o problema de saber o que &eacute; que na    sociedade e na pol&iacute;tica portuguesas de ent&atilde;o tornou poss&iacute;vel    a um indiv&iacute;duo, por diversas vezes, erguer-se acima das institui&ccedil;&otilde;es,    sobrepor-se ao monarca, mandar no Estado e ditar o destino do pa&iacute;s&#187;    (p. 257).      <p>Recenseando os dois grossos volumes de Athelstane/Carnota, a autora revela-nos    o percurso &uacute;nico daquele a quem D. Pedro V, nos dias de ironia, chamava    &#171;D. Jo&atilde;o VII&#187; &#151; o pai adoptivo da rainha D. Maria II,    o guardi&atilde;o da Carta Constitucional, a espada da Regenera&ccedil;&atilde;o,    um her&oacute;i e quase um santo, que a p&aacute;tria nunca estimou (segundo    o pr&oacute;prio Saldanha) de acordo com os seus muitos e insuper&aacute;veis    m&eacute;ritos. O marechal-duque &eacute;, de facto, uma figura &uacute;nica    na galeria dos biograf&aacute;veis oitocentistas &#151; o Washington portugu&ecirc;s,    caudilho militar t&iacute;pico, iniciador de uma linhagem de um certo sebastianismo    pol&iacute;tico nacional que se prolongaria com S&aacute; da Bandeira, Mouzinho,    Sid&oacute;nio, Norton de Matos ou Sp&iacute;nola.      <p>&nbsp;      <P><b><i>Um pol&iacute;tico acidental </i></b>     <p>Em 2003 foi o marqu&ecirc;s de Fronteira o recenseado por F&aacute;tima    Bonif&aacute;cio, atrav&eacute;s da leitura comentada das suas monumentais <I>Mem&oacute;rias</I>.    Tal como as do marqu&ecirc;s do Lavradio, as <I>Mem&oacute;rias</I> de Fronteira    s&atilde;o porventura mais fidedignas do que as que Athelstane/Carnota escreveu    sobre Saldanha, mas n&atilde;o deixam de ser uma vis&atilde;o, pessoal e interessada,    sobre o arco temporal e os acontecimentos vividos pela personagem.      <p>Pela extens&atilde;o do seu relato, D. Jos&eacute; Trazimundo Mascarenhas Barreto,    o marqu&ecirc;s de Fronteira e Alorna, foi uma esp&eacute;cie de cronista-mor    da pol&iacute;tica da primeira metade do s&eacute;culo xix portugu&ecirc;s.    Mas, ao contr&aacute;rio da outra grande espada da rainha D. Maria (Saldanha),    Fronteira nunca foi, nem quis ser, um caudilho pol&iacute;tico em <I>full-time;</I>    foi sobretudo &#151; como &eacute; aqui destacado &#151; o <I>gendarme</I> do    conservadorismo cartista, especialmente entre 1842 e 1851. Durante anos assumiu    o papel de um pol&iacute;tico acidental e com muitos acidentes de percurso na    sua vida pol&iacute;tica: cartista e conservador, colaborou excentricamente    com os setembristas por puro despique antichamorro e apesar do seu visceral    antidemocratismo, mas foi o homem de Costa Cabral na d&eacute;cada de 1840,    vindo mesmo a super&aacute;-lo, aquando da Regenera&ccedil;&atilde;o, ao acantonar-se    numa direita liberal forte que aconselhava um tipo de dureza e de repress&atilde;o    que nem j&aacute; o Pa&ccedil;o julgava conveniente. Como se deduz da interpreta&ccedil;&atilde;o    de F&aacute;tima Bonif&aacute;cio, a Fronteira poderia aplicar-se o c&eacute;lebre    dito de Alexis de Tocqueville sobre a aristocracia francesa perante a revolu&ccedil;&atilde;o    &#151; que nada esquecera e nada aprendera com os revezes pol&iacute;ticos sofridos.      <p>&nbsp;     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><b><I>Misfit lovers: a non-fiction novel</I> </b>     <p>De entre a d&uacute;zia de estudos que comp&otilde;em este    volume, o &uacute;ltimo, &#171;As vidas desencontradas do duque de Palmela e    de Mme. de Sta&euml;l&#187;, publicado em 2006 como estudo-posf&aacute;cio &agrave;    edi&ccedil;&atilde;o da correspond&ecirc;ncia entre os dois, &eacute; o mais    extenso, mas aquele que com mais prazer de leitura romanesca se l&ecirc; &#151;    ou seja, aquele que melhor ilustra as premissas te&oacute;ricas da autora de    que a excel&ecirc;ncia biogr&aacute;fica (aqui uma biografia dupla, de duas    vidas desencontradas) deve aparecer aos olhos do leitor na forma final de um    romance liter&aacute;rio verdadeiro &#151; uma <I>non-fiction novel,</I> para    recuperar a consagrada express&atilde;o do americano Truman Capote. F&aacute;tima    Bonif&aacute;cio conta duas hist&oacute;rias em paralelo, entretecendo na sua    narrativa os pontos de contacto &#151; rigorosamente, os escassos pontos, ou    tempos, de contacto sentimental e f&iacute;sico entre Palmela e Sta&euml;l,    que por pouco tempo aproximaram dois mundos &#171;de coisas, de valores, de    tradi&ccedil;&otilde;es, de ideais, de ambi&ccedil;&otilde;es e de deveres&#187;,    cuja dist&acirc;ncia se revelou, afinal, insuper&aacute;vel (p. 298).      <p>Palmela &eacute;-nos biografado em dois momentos &#151; na origem, educa&ccedil;&atilde;o    e inf&acirc;ncia, primeiro, e na vida adulta e carreira pol&iacute;tico-partid&aacute;ria    at&eacute; &agrave; morte, depois, no essencial que h&aacute; a dizer sobre    o mais <I>british</I> dos estadistas portugueses de ent&atilde;o (&#171;no seu    tempo o &uacute;nico portugu&ecirc;s realmente conhecido e respeitado nas cortes    e capitais da Europa&#187;) (p. 298). No meio desses momentos do texto brilha    ent&atilde;o a estrela e a hist&oacute;ria de Anne Louise Germaine Necker, mulher    livre e independente, para quem o cora&ccedil;&atilde;o e o amor eram as &uacute;nicas    molas e leis da vida, e que durante a dita teve sempre uma especial inclina&ccedil;&atilde;o    para desorganizar a vida dos homens que a rodearam. A futura Mme. de Sta&euml;l    aparece-nos como um resqu&iacute;cio tardio da libertinagem iluminista francesa    (um daqueles casos em que a realidade imita a fic&ccedil;&atilde;o &#151; por    exemplo, a de Mme. de Merteuil do conhecido romance <I>Liaisons dangereuses,</I>    de Choderlos de Laclos) e quase como uma antevis&atilde;o da activista do sufragismo    de finais do s&eacute;culo xix. Personalidade psicologicamente complexa, precoce    na afirma&ccedil;&atilde;o, muito do seu tempo (rom&acirc;ntico) na superioridade    que atribu&iacute;a &agrave; busca do <I>bonheur</I> pessoal, exuberante, caprichosa,    soci&aacute;vel, a filha de Jacques Necker revolucionava tudo e todos por onde    passava: em 51 anos de vida contabilizou, de forma mais longa ou mais epis&oacute;dica,    mais f&iacute;sica ou mais plat&oacute;nica, dois maridos, cinco filhos e doze    amantes.      <p>Palmela ter&aacute; sido o 10.&#186; da lista dos seus amores,    depois do italiano Vicenzo Monti e antes do franc&ecirc;s Prosper Barante. Conheceram-se    em It&aacute;lia em Fevereiro de 1805, ela com 39 anos, ele com 24, e &#171;flirtaram&#187;    em Roma, cidade que o &#171;belo, culto e sens&iacute;vel&#187; (p. 325) aristocrata    portugu&ecirc;s ensinou a inconstante e fogosa Sta&euml;l a apreciar. Palmela    correspondia ao seu amor a medo e viu-a pela &uacute;ltima vez em Fran&ccedil;a    em Setembro de 1806. O id&iacute;lio entre os dois n&atilde;o excedeu, portanto,    um ano e meio &#151; mas &eacute; poss&iacute;vel que Oswaldo, &#171;o jovem    aristocr&aacute;tico melanc&oacute;lico&#187; que antep&otilde;e &#171;o cumprimento    das suas obriga&ccedil;&otilde;es sociais&#187; aos del&iacute;rios do amor    no romance de Mme. de Sta&euml;l <I>Corinne ou L'Italie,</I> tenha sido personagem    liter&aacute;ria parcialmente inspirada no portugu&ecirc;s (p. 327).      <p>Sta&euml;l morreria afogada em &oacute;pio em Julho de 1817,    depois de ter sido &#171;a primeira mulher da Europa&#187; (p. 334) e de ter    sobrevivido &agrave; revolu&ccedil;&atilde;o, ao Terror e ao desprezo e suspeita    que Napole&atilde;o sempre nutriu por ela. Palmela, esse, duraria muito mais    e seria uma das maiores figuras da pol&iacute;tica portuguesa do s&eacute;culo    xix &#151; um apaixonado pela cultura e pelo modelo pol&iacute;tico ingl&ecirc;s,    como o retrata F&aacute;tima Bonif&aacute;cio, que sempre recusou aceitar a    inaplicabilidade do mesmo ao pobre e rude Portugal, a que pertencia por fam&iacute;lia.    Do vintismo &agrave; Patuleia, passando pela &#171;abrilada&#187;, pelo ex&iacute;lio,    pela emigra&ccedil;&atilde;o, pela guerra civil, pelo cartismo p&oacute;s-1834,    pelo setembrismo, pelo ordeirismo e pelo cabralismo, Palmela consumiu a vida    &#171;a tentar conciliar o inconcili&aacute;vel: o absolutismo com o constitucionalismo,    o Portugal de Antigo Regime com o Portugal liberal, os moderados com os radicais    ou o jacobinismo com a Monarquia&#187; (p. 342), procurando teimosamente &#171;um    partido moderado e m&eacute;dio, sem ver que nada disso existia num pa&iacute;s    onde dominava a exalta&ccedil;&atilde;o&#187; (p. 350). Antes de Rodrigo da    Fonseca Magalh&atilde;es, foi ele o grande &#171;fusionista&#187;, o grande    adepto das concess&otilde;es para aplacar os extremos &#151; o miguelismo, primeiro,    e o radicalismo revolucion&aacute;rio, depois. Demitido pela &uacute;ltima vez,    sem honra, em Outubro de 1846, morreria em Lisboa quatro anos depois, em 1850,    nas v&eacute;speras da chegada da Regenera&ccedil;&atilde;o, onde, com toda    a verosimilhan&ccedil;a, se teria sentido finalmente integrado.      <p>Se Palmela tivesse abandonado de vez Portugal em 1805, se se tivesse entregue    totalmente a Mme. de Sta&euml;l (at&eacute; talvez pelo casamento), ter-se-ia    perdido um estadista de carreira, embora sempre &#171;desencontrado do seu tempo&#187;    (p. 357), mas pelo passado, valores e inconst&acirc;ncia sentimental da fugaz    amante, &eacute; quase certo que a uni&atilde;o entre os dois n&atilde;o teria    ido longe.      <p>Na soma das suas muito diferentes doze partes, estes <I>Estudos de Hist&oacute;ria    Contempor&acirc;nea de Portugal </I>s&atilde;o obra de registo rigoroso, claro,    elegante &#151; porque &#171;n&atilde;o h&aacute; boa hist&oacute;ria mal escrita&#187;    (p. 216) &#151;, ao mesmo tempo que se constituem leitura muito recomend&aacute;vel,    quer para os que se querem introduzir empaticamente no s&eacute;culo xix portugu&ecirc;s,    quer para os que querem encontrar uma linha poss&iacute;vel de conduta (porventura    pol&eacute;mica, mas sustentada e l&oacute;gica) na reflex&atilde;o e na pr&aacute;tica    do of&iacute;cio de historiador. Mesmo que estes <I>Estudos</I> sejam o &uacute;ltimo    <I>best of</I> de F&aacute;tima Bonif&aacute;cio, vale a pena fazer votos para    que este n&atilde;o seja o seu &uacute;ltimo livro.      <p>&nbsp;     <p>&nbsp;     <p>&nbsp;     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><B>Notas</B>      <p><SUP><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></SUP> Os nove livros anteriores    s&atilde;o, por ordem cronol&oacute;gica: <I>Industrializa&ccedil;&atilde;o    oitocentista e concorr&ecirc;ncia externa (A ind&uacute;stria chapeleira de    1814 a 1914),</I> Lisboa, Cadernos de Documenta&ccedil;&atilde;o GIS, n.&#186;    2, 1980; <I>Jos&eacute; Jorge Loureiro. Mem&oacute;rias Pol&iacute;ticas, 1834-1844,</I>    Lisboa, Edi&ccedil;&otilde;es Rolim, 1986; <I>Seis Estudos sobre o Liberalismo    Portugu&ecirc;s,</I> Lisboa, Editorial Estampa, 1991; <I>Hist&oacute;ria da    Guerra Civil da Patuleia, 1846-1847, </I>Lisboa, Editorial Estampa, 1993; <I>Apologia    da Hist&oacute;ria Pol&iacute;tica. Estudos sobre o S&eacute;culo XIX Portugu&ecirc;s,</I>    Lisboa, Quetzal Editores, 1999; <I>O S&eacute;culo XIX Portugu&ecirc;s,</I>    Lisboa, ICS, 2002; <I>A Segunda Ascens&atilde;o e Queda de Costa Cabral, 1847-1851,</I>    Lisboa, ICS, 2002; <I>D. Maria II, </I>Lisboa, C&iacute;rculo de Leitores, 2005;    <I>Madame de Sta&euml;l-D. Pedro de Souza. Correspond&ecirc;ncia, </I>Lisboa,    Quetzal Editores, 2006.      <p><SUP><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></SUP> Maria de F&aacute;tima Bonif&aacute;cio,    &#171;O proteccionismo como ideologia radical&#187;, in <I>An&aacute;lise Social,</I>    n.<SUP>os</SUP> 103-104, Lisboa, 1988, pp. 1017-1036.      <p><SUP><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></SUP> Maria de F&aacute;tima Bonif&aacute;cio,    <I>A Via Proteccionista do Liberalismo Portugu&ecirc;s. Pol&iacute;tica econ&oacute;mica    e rela&ccedil;&otilde;es luso-brit&acirc;nicas (1834-1843),</I> Lisboa, FCSH-UNL,    1990.      <p><SUP><a name="4"></a><a href="#top4">4</a></SUP> Para compara&ccedil;&atilde;o    de perspectivas e de inten&ccedil;&otilde;es reabilitadoras, v. o exerc&iacute;cio    feito por Rui Ramos em rela&ccedil;&atilde;o a Jo&atilde;o Franco, outro muito    vilipendiado pol&iacute;tico do constitucionalismo mon&aacute;rquico portugu&ecirc;s,    em <I>Jo&atilde;o Franco e o fracasso do reformismo liberal (1884-1908), </I>Lisboa,    ICS, 2001.      <p><SUP><a name="5"></a><a href="#top5">5</a></SUP> Depois de 1993, a autora voltaria    extensamente a este problema no livro <I>A Segunda Ascens&atilde;o e Queda de    Costa Cabral, 1847-1851,</I> 2002.      <p><SUP><a name="6"></a><a href="#top6">6</a></SUP> Maria de F&aacute;tima Bonif&aacute;cio,    &#171;A republicaniza&ccedil;&atilde;o da monarquia&#187;, in <I>Apologia da    Hist&oacute;ria Pol&iacute;tica. Estudos sobre o S&eacute;culo XIX Portugu&ecirc;s,</I>    1999, pp. 239-362.      <p><SUP><a name="7"></a><a href="#top7">7</a></SUP> V., sobre esta quest&atilde;o,    o diagn&oacute;stico sat&iacute;rico de Vasco Pulido Valente, em &#171;Porque    &eacute; que a esquerda n&atilde;o pode governar&#187;, in <I>&Agrave;s Avessas,</I>    Lisboa, Ass&iacute;rio e Alvim, 1990, pp. 248-251.      <p><SUP><a name="8"></a><a href="#top8">8</a></SUP> Express&atilde;o com que o    deputado Vaz Preto definia o governo perante as elei&ccedil;&otilde;es (<I>Di&aacute;rio    da C&acirc;mara dos Pares,</I> 24-4-1878), cit. p. 188.      <p><SUP><a name="9"></a><a href="#top9">9</a></SUP> In <I>An&aacute;lise Social,</I>    n.&#186; 115, Lisboa, 1992, pp. 91-134.      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><SUP><a name="10"></a><a href="#top10">10</a></SUP> Pedro Tavares de Almeida,    <I>Elei&ccedil;&otilde;es e Caciquismo no Portugal Oitocentista (1868-1890),</I>    Lisboa, Difel, 1991.      <p><SUP><a name="11"></a><a href="#top11">11</a></SUP> Na dicotomia valorativa    &#171;velha hist&oacute;ria&#187; <I>versus</I> &#171;nova hist&oacute;ria&#187;,    este texto de 1993 ecoava a influ&ecirc;ncia de um muito pol&eacute;mico livro    de Gertrude Himmelfarb, <I>The New History and the Old. Critical Essays and    Reappraisals,</I> Harvard University Press, 1987, objecto de um longo <I>review    article</I> de Rui Ramos em 1991 (&#171;A causa da hist&oacute;ria do ponto    de vista pol&iacute;tico&#187;, in <I>Pen&eacute;lope,</I> n.&#186; 5, Lisboa,    1991, pp. 27-47).      <p><SUP><a name="12"></a><a href="#top12">12</a></SUP> V. o desenvolvimento que    F&aacute;tima Bonif&aacute;cio daria a esta quest&atilde;o no seu livro <I>Apologia    da Hist&oacute;ria Pol&iacute;tica. Estudos sobre o S&eacute;culo XIX Portugu&ecirc;s,</I>    1999, pp. 22 e segs. (&#171;Impasses da hist&oacute;ria como ci&ecirc;ncia&#187;).      <p><SUP><a name="13"></a><a href="#top13">13</a></SUP> Como depois explicaria    a autora, enquanto disciplina acad&eacute;mica, a Hist&oacute;ria tem um irrevog&aacute;vel    &#171;estatuto cr&iacute;tico&#187;: &eacute; feita de afirma&ccedil;&otilde;es    &#171;empiricamente verific&aacute;veis&#187; e de interpreta&ccedil;&otilde;es    &#171;racionalmente discut&iacute;veis&#187;, n&atilde;o dispensando a &#171;evid&ecirc;ncia    documental&#187;, a &#171;l&oacute;gica das infer&ecirc;ncias&#187; e a &#171;consist&ecirc;ncia    dram&aacute;tica do argumento&#187;. Tem, na base e em suma, &#171;uma t&eacute;cnica    que se transmite&#187;, mas no topo, ou seja, na sua forma final de apresenta&ccedil;&atilde;o,    &eacute; &#171;uma arte que n&atilde;o se ensina&#187; (<I>Apologia da Hist&oacute;ria    Pol&iacute;tica,</I> 1999, pp. 32, 111 e 119).      <p><SUP><a name="14"></a><a href="#top14">14</a></SUP> A aproxima&ccedil;&atilde;o    da hist&oacute;ria &agrave; poesia foi feita por Jos&eacute; Mattoso. Definindo    a hist&oacute;ria como &#171;uma fant&aacute;stica sinfonia&#187;, &#171;feita    da incomensur&aacute;vel mistura de elementos de toda a esp&eacute;cie, t&atilde;o    diversos e contradit&oacute;rios como a pr&oacute;pria vida&#187;, ela &eacute;    &#171;um saber, e n&atilde;o propriamente uma ci&ecirc;ncia&#187;, pelo que    s&oacute; &eacute; poss&iacute;vel abarc&aacute;-la com uma atitude &#171;contemplativa&#187;,    que tudo envolve num &#171;golpe de vista&#187;, captando assim, em &#171;registo    po&eacute;tico&#187;, a &#171;espantosa realidade das coisas&#187; (<I>A Escrita    da Hist&oacute;ria. Teoria e M&eacute;todos,</I> Lisboa, Editorial Estampa,    1988, pp. 10, 17-18 e 38).      <p><SUP><a name="15"></a><a href="#top15">15</a></SUP> &#171;History is anarchic,    not authoritarian&#187; (John Vicent, <I>An Intelligent Person's Guide to History,</I>    Londres, Gerald Duckworth &amp; C., 1999, p. 19).      <p><SUP><a name="16" id="16"></a><a href="#top16">16</a></SUP> Arthur Cole Danto,    <I>Art after the End of Art (Contemporary Art and the Pale of History),</I>    Princeton University Press, 1997.      <p><SUP><a name="17" id="17"></a><a href="#top17">17</a></SUP> Nos termos de Hayden    White, um dos autores que inspiraram F&aacute;tima Bonif&aacute;cio neste ensaio,    s&oacute; a narrativa transforma &#171;into a story a list of historical events    that would otherwise be only a chronicle&#187; (<I>The Content of the Form.    Narrative Discorse and Historical Representation,</I> Baltimore/Londres, The    Johns Hopkins University Press, 1990, pp. 42-43).      <p><SUP><a name="18"></a><a href="#top18">18</a></SUP> De novo nos termos de Hayden    White, &#171;one can produce an imaginary discourse about real events that may    be not less true for being imaginary [&#133;] the same is true with respect    to narrative representaions of reality, especially when, as in historical discourses,    these representations are of the human past&#187; (<I>op. cit</I>., p. 57).    Se se entender, como faz White, imagina&ccedil;&atilde;o como criatividade liter&aacute;ria,    e n&atilde;o como fic&ccedil;&atilde;o ou inven&ccedil;&atilde;o, poder&aacute;    ent&atilde;o aceitar-se a afirma&ccedil;&atilde;o de que o texto hist&oacute;rico,    art&iacute;stico na forma, &#171;carries much more information than the scientific    text&#187; (<I>ibid.,</I> p. 42).      <p><SUP><a name="19"></a><a href="#top19">19</a></SUP> Foi em parte este insuper&aacute;vel    m&eacute;rito que consagrou, segundo a autora, o <I>Portugal Contempor&acirc;neo</I>,    de Oliveira Martins (1881), como a melhor vis&atilde;o da hist&oacute;ria do    s&eacute;culo xix portugu&ecirc;s, na medida em que tal obra concede ao seu    leitor a possibilidade de conferir um sentido moral &agrave; hist&oacute;ria    ali contada (p. 235). E foi decerto inspirada nisto que F&aacute;tima Bonif&aacute;cio    escreveu <I>O S&eacute;culo XIX Portugu&ecirc;s</I> em 2002.      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><SUP><a name="20"></a><a href="#top20">20</a></SUP> Na s&iacute;ntese de John    Vincent, &#171;causality is narrative taken to ideal lengths&#187; (<I>op. cit.,</I>    p. 45).      <p><SUP><a name="21"></a><a href="#top21">21</a></SUP> A superioridade da biografia,    dentro dos diferentes g&eacute;neros de escrita da hist&oacute;ria, &eacute;    algo h&aacute; muito reivindicado por diversos autores ingleses. Como um dia    disse o primeiro-ministro vitoriano (e escritor) Benjamin Disraeli, a biografia    era a mais sublime forma de hist&oacute;ria, porque era &#171;a vida sem teoria&#187;:    &#171;Read no history; nothing but biography, for that is life without theory&#187;.    Era a ideia, aqui perfilhada por F&aacute;tima Bonif&aacute;cio, de que a biografia    &eacute; uma das melhores janelas abertas &agrave; hist&oacute;ria, por tratar,    afinal, da vida humana e real, sem abstrac&ccedil;&otilde;es te&oacute;ricas.    Em obra recente, o famoso bi&oacute;grafo ingl&ecirc;s Richard Holmes n&atilde;o    hesitou em qualificar a biografia hist&oacute;rica como nada menos do que &#171;the    proper study of mankind&#187; (&#171;The proper study?&#187;, in <I>Mapping    Lives. The Uses of Biography,</I> ed. Peter France e William St. Clair, Oxford    University Press, 2002, p. 7).      <p><SUP><a name="22"></a><a href="#top22">22</a> </SUP>Simon Schama, <I>Citizens.    A Chronicle of the French Revolution,</I> Londres, Penguin Books, 1989.      <p><SUP><a name="23"></a><a href="#top23">23</a> </SUP>Como Peter Burke j&aacute;    chamou a aten&ccedil;&atilde;o, a obra de Simon Schama teve o importante m&eacute;rito    de demonstrar, atrav&eacute;s de uma trama novel&iacute;stica que reintroduziu    cronologia, homens e vontades, num processo demasiadas vezes despovoado de sujeitos    e analisado abstractamente, que a s&eacute;rie de eventos a que chamamos Revolu&ccedil;&atilde;o    Francesa &#171;was much more the product of human agency than structural conditioning&#187;    (&#171;History of events and the revival of narrative&#187;, in <I>New Perspectives    in Historical Writing,</I> ed. Peter Burke, Cambridge, Polity Press, 1991, pp.    236 e 238).      <p><SUP><a name="24"></a><a href="#top24">24</a> </SUP>Por lapso, n&atilde;o est&aacute;    indicada no livro a proveni&ecirc;ncia deste estudo: ele foi publicado na <I>An&aacute;lise    Social,</I> n.&#186; 160, Lisboa, 2001, pp. 895-914.      <p>&nbsp;     <p><a name="25"></a><a href="#top25">*</a> Faculdade de Ci&ecirc;ncias Humanas    da Universidade Cat&oacute;lica Portuguesa.       ]]></body>
</article>
