<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0003-2573</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Análise Social]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Anál. Social]]></abbrev-journal-title>
<issn>0003-2573</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0003-25732007000400016</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Da Torre de Babel às Terras Prometidas: Pluralismo Religioso em Portugal]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Dix]]></surname>
<given-names><![CDATA[Steffen]]></given-names>
</name>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A">
<institution><![CDATA[,  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>00</month>
<year>2007</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>00</month>
<year>2007</year>
</pub-date>
<numero>185</numero>
<fpage>1156</fpage>
<lpage>1163</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0003-25732007000400016&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0003-25732007000400016&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0003-25732007000400016&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p><I>Helena Vila&ccedil;a, </I><B>Da Torre de Babel &agrave;s Terras Prometidas    &#151; Pluralismo Religioso em Portugal</B>, Porto, Edi&ccedil;&otilde;es Afrontamento,    2006, 285 p&aacute;ginas.      <p>&nbsp;      <p>      <p>Uma das tend&ecirc;ncias mais marcantes e mais importantes no passado recente,    na vida actual e no futuro pr&oacute;ximo das sociedades europeias &eacute;    a crescente pluraliza&ccedil;&atilde;o cultural, &eacute;tnica, moral e religiosa.    Hoje em dia j&aacute; n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel encontrar qualquer    na&ccedil;&atilde;o moderna sem diversos estilos de vida, mundivid&ecirc;ncias    ou religi&otilde;es. N&atilde;o h&aacute; d&uacute;vidas de que esta situa&ccedil;&atilde;o    pode ser encarada com um enriquecimento, embora possa provocar alguns mal-entendidos    enquanto houver uma falta de conhecimento perante o &#171;outro&#187;. Neste    sentido, h&aacute; uma necessidade crescente em estudar, interpretar e entender    esta &#171;nova&#187; multiplicidade na nossa vida quotidiana.      <p>Um estudo explicativo deste g&eacute;nero foi apresentado em    2006 por Helena Vila&ccedil;a, abordando a diversidade religiosa na vida contempor&acirc;nea    em Portugal. Trata-se do livro <I>Da Torre de Babel &agrave;s Terras Prometidas    &#151; Pluralismo Religioso em Portugal,</I> que se baseia parcialmente numa    disserta&ccedil;&atilde;o de doutoramento defendida em 2003 na Faculdade de    Letras da Universidade do Porto. Independentemente de algumas outras pesquisas    que a autora j&aacute; tinha feito anteriormente, este livro representa uma    aproxima&ccedil;&atilde;o pormenorizada do complexo assunto da paisagem religiosa    portuguesa em mudan&ccedil;a. Trata-se de um estudo sempre bem-vindo e muito    necess&aacute;rio.      <p>Tendo em considera&ccedil;&atilde;o que somos confrontados com uma &aacute;rea    cient&iacute;fica com algumas dificuldades terminol&oacute;gicas, a aten&ccedil;&atilde;o    do leitor centra-se logo na introdu&ccedil;&atilde;o na frase seguinte: &#171;A    quest&atilde;o fundamental que nos acompanhou ao longo da pesquisa prende-se,    em boa medida, com a necessidade de estabelecer a distin&ccedil;&atilde;o entre    a diversidade religiosa e o pluralismo religioso&#187; (p. 25). Trata-se de    uma inten&ccedil;&atilde;o ambiciosa se o leitor reparar que a recente literatura    cient&iacute;fica ainda carece de uma clara separa&ccedil;&atilde;o entre &#171;pluralismo&#187;    <I>(pluralism)</I> e &#171;pluralidade/diversidade&#187; <I>(plurality/diversity)</I>.    Por&eacute;m, Helena Vila&ccedil;a decide-se explicitamente pela utiliza&ccedil;&atilde;o    da palavra &#171;pluralismo&#187;, &#171;procurando depurar a sua carga ideol&oacute;gica    e normativa&#187; <I>(ibid.)</I>. Esta decis&atilde;o tem a sua origem principalmente    na confronta&ccedil;&atilde;o da autora com os soci&oacute;logos James A. Beckford    e Ole Riis. Enquanto o ingl&ecirc;s Beckford prefere a palavra <I>diversity</I>    para <I>denominar</I> simplesmente uma realidade social e chama a aten&ccedil;&atilde;o    para as dificuldades na utiliza&ccedil;&atilde;o do conceito de &#171;pluralismo&#187;,    sublinhando exactamente as tend&ecirc;ncias ideol&oacute;gicas e normativas    deste termo<a href="#1"><SUP>1</SUP></a><SUP></SUP><a name="top1"></a>, o dinamarqu&ecirc;s    Riis utiliza o conceito de &#171;pluralismo&#187; n&atilde;o apenas para <I>denominar</I>    a mesma realidade social, mas tamb&eacute;m para <I>medir</I> uma diversidade    religiosa em tr&ecirc;s linhas ou n&iacute;veis gerais: (<I>a</I>) a rela&ccedil;&atilde;o    das autoridades sociais com as religi&otilde;es; (<I>b</I>) a rela&ccedil;&atilde;o    entre as religi&otilde;es; (<I>c</I>) a situa&ccedil;&atilde;o do indiv&iacute;duo    perante uma variedade de religi&otilde;es<a href="#2"><SUP>2</SUP></a><a name="top2"></a>.    Contudo, uma confronta&ccedil;&atilde;o directa destas duas concep&ccedil;&otilde;es    terminol&oacute;gicas pode facilmente provocar um certo equ&iacute;voco, reconhecendo    que ambas as op&ccedil;&otilde;es s&atilde;o completamente leg&iacute;timas    &#151; tudo depende das condi&ccedil;&otilde;es te&oacute;ricas. Por outras    palavras, o conceito &#171;pluralismo&#187; &eacute; leg&iacute;timo, descrevendo    uma organiza&ccedil;&atilde;o social de uma diferen&ccedil;a &eacute;tnica ou    religiosa <I>sem tentativas normativas,</I> enquanto o conceito de &#171;pluralidade&#187;    tem a mesma legitimidade, referindo-se simplesmente &agrave; coexist&ecirc;ncia    de v&aacute;rias op&ccedil;&otilde;es religiosas.      <p>Todavia, parece que n&atilde;o foi por acaso que Helena Vila&ccedil;a    se decidiu logo no in&iacute;cio pela utiliza&ccedil;&atilde;o do conceito terminologicamente    mais &#171;problem&aacute;tico&#187; (p. 33), estabelecendo no primeiro cap&iacute;tulo    um interessante panorama hist&oacute;rico das particularidades do &#171;pluralismo    religioso&#187; no mundo ocidental. Embora a autora tenha raz&atilde;o quando    desenha uma hist&oacute;ria religiosa europeia, sobretudo sob o dom&iacute;nio    absoluto do cristianismo, esta forma de historiografia tem descurado as alternativas    religiosas que sempre existiram no velho continente. N&atilde;o h&aacute; a    m&iacute;nima d&uacute;vida de que o monop&oacute;lio da &#171;verdade crist&atilde;&#187;    criou uma posi&ccedil;&atilde;o inflex&iacute;vel perante op&ccedil;&otilde;es    religiosas divergentes ou sistemas de sentido diferentes e suprimiu, assim,    as possibilidades de um &#171;pluralismo&#187; religioso. Por&eacute;m, as diferentes    op&ccedil;&otilde;es nunca desapareceram por completo durante o dom&iacute;nio    monol&iacute;tico do cristianismo e constru&iacute;ram assim, pelo menos teoricamente,    uma situa&ccedil;&atilde;o plural. Ou seja, posi&ccedil;&otilde;es teol&oacute;gicas,    confiss&otilde;es ou conc&iacute;lios serviram ou tornaram-se necess&aacute;rios    geralmente para uma diferencia&ccedil;&atilde;o perante uma realidade, considerada    o &#171;outro&#187;.      <p>Nas p&aacute;ginas seguintes encontramos observa&ccedil;&otilde;es bem ponderadas    a partir das quais Helena Vila&ccedil;a confronta as diferentes tradi&ccedil;&otilde;es    do &#171;pluralismo religioso&#187; no velho continente e nos Estados Unidos.    Esta confronta&ccedil;&atilde;o oferece uma imagem l&uacute;cida e compacta    das enormes diverg&ecirc;ncias entre estas duas paisagens religiosas, e falta-nos    apenas acrescentar que &eacute; exactamente aqui que reside a origem de algumas    dificuldades te&oacute;ricas e terminol&oacute;gicas da nossa contempor&acirc;nea    sociologia da religi&atilde;o, muitas vezes demasiado influenciada por algumas    concep&ccedil;&otilde;es que nasceram dentro da sociologia dos Estados Unidos.    Isso significa que duas realidades diferentes n&atilde;o podem sempre ser explicadas    com uma s&oacute; teoria. N&atilde;o menos interessante &eacute; a &uacute;ltima    parte deste primeiro cap&iacute;tulo onde a autora salienta claramente as dificuldades    em designar o mundo religioso dentro da actual Uni&atilde;o Europeia com a palavra    &#171;pluralismo&#187;, mostrando a incongru&ecirc;ncia entre os conceitos de    &#171;pluralismo&#187; e &#171;toler&acirc;ncia&#187; (p. 59). Tendo em conta    que o leitor pode ainda sentir no final deste primeiro cap&iacute;tulo uma certa    incerteza sobre o significado amb&iacute;guo dos conceitos de &#171;pluralismo&#187;    e &#171;pluralidade&#187;, a autora oferece aqui um estratagema bastante inteligente,    declarando que chegou com a sua argumenta&ccedil;&atilde;o a um ponto onde tem    de recapitular mais uma vez a teoria da &#171;problem&aacute;tica do pluralismo    religioso&#187; (p. 62).      <p>Assim mergulhamos, no segundo cap&iacute;tulo, directamente numa das discuss&otilde;es    mais complexas e dif&iacute;ceis de toda a sociologia da religi&atilde;o dos    &uacute;ltimos anos. Somos confrontados concretamente com a pol&eacute;mica    sobre o fen&oacute;meno da seculariza&ccedil;&atilde;o, e Helena Vila&ccedil;a    utiliza tamb&eacute;m neste cap&iacute;tulo uma estrat&eacute;gia sensata, come&ccedil;ando    por delinear um panorama das condi&ccedil;&otilde;es hist&oacute;ricas que originaram    a teoria da seculariza&ccedil;&atilde;o. Assim, nas p&aacute;ginas seguintes    s&atilde;o abordados, em linhas gerais, alguns autores importantes que est&atilde;o    na base do debate sobre a seculariza&ccedil;&atilde;o, tais como Comte, Spencer,    Marx, Engels, Weber, Durkheim, T&ouml;nnies e Simmel (pp. 64-82). Nesta incurs&atilde;o    hist&oacute;rico-te&oacute;rica a autora salienta de uma forma muito atenta    que os pais da sociologia da religi&atilde;o, especialmente Durkheim e Weber,    sublinharam o facto de que a modernidade e a religi&atilde;o n&atilde;o precisam    de ser necessariamente antag&oacute;nicas. Trata-se de uma problem&aacute;tica    que ainda continua a provocar algumas confus&otilde;es nas discuss&otilde;es    cient&iacute;ficas acerca de fen&oacute;menos religiosos. Por&eacute;m, nas    primeiras considera&ccedil;&otilde;es sociol&oacute;gicas sobre a religi&atilde;o    ainda n&atilde;o existia nenhuma verdadeira preocupa&ccedil;&atilde;o acerca    do termo &#171;seculariza&ccedil;&atilde;o&#187;, e esta aus&ecirc;ncia explica-se    principalmente pela convic&ccedil;&atilde;o a partir da qual a religi&atilde;o    continuar&aacute; a ter um papel importante em sociedades modernas e industrializadas    (p. 81). Nos par&aacute;grafos seguintes, Helena Vila&ccedil;a descreve as primeiras    teorias modernas sobre a seculariza&ccedil;&atilde;o. Este procedimento &eacute;    leg&iacute;timo, embora este ponto possa provocar algumas ambiguidades se o    leitor n&atilde;o tiver anteriormente uma certa familiaridade com a discuss&atilde;o    sobre o conceito de &#171;seculariza&ccedil;&atilde;o&#187;.      <p>Ou seja, as observa&ccedil;&otilde;es e explica&ccedil;&otilde;es da autora    est&atilde;o completamente correctas, mas exigem, contudo, um conhecimento pr&eacute;vio    da parte do leitor. Neste sentido, a autora tem plenamente raz&atilde;o, dizendo    que, por exemplo, o soci&oacute;logo Thomas Luckmann elabora no seu livro cl&aacute;ssico    <I>The Invisible Religion</I> (1967) uma teoria funcionalista que pode ser compreendida    como uma consolida&ccedil;&atilde;o da &#171;seculariza&ccedil;&atilde;o&#187;,    vista aqui como uma &#171;desloca&ccedil;&atilde;o&#187; da religi&atilde;o    do espa&ccedil;o institucional para uma esfera privada ou individual (ou seja,    publicamente <I>invis&iacute;vel</I>). Por&eacute;m, tal como esta desloca&ccedil;&atilde;o    ou esta &#171;nova forma social da religi&atilde;o&#187; foi confundida nos    anos seguintes muitas vezes com um certo desaparecimento ou um decl&iacute;nio    geral da religi&atilde;o, Luckmann declarou, a partir dos anos 80, a &#171;seculariza&ccedil;&atilde;o&#187;    francamente como um &#171;mito moderno&#187;<a href="#3"><SUP>3</SUP></a><a name="top3"></a><SUP></SUP>.    Luckmann entendeu a religi&atilde;o sempre como uma esp&eacute;cie de <I>conditio    humana,</I> e alguns dos seus textos tardios podem ser assim interpretados facilmente    como uma clara rejei&ccedil;&atilde;o do paradigma da &#171;seculariza&ccedil;&atilde;o&#187;.    Helena Vila&ccedil;a apresenta depois Peter L. Berger, que estabeleceu uma teoria    da &#171;seculariza&ccedil;&atilde;o&#187;, que significa para este soci&oacute;logo    &#171;o processo mediante o qual as representa&ccedil;&otilde;es colectivas    se emancipam em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s refer&ecirc;ncias religiosas&#187;    (p. 85). Esta observa&ccedil;&atilde;o, ou seja, a tend&ecirc;ncia para o decl&iacute;nio    das institui&ccedil;&otilde;es religiosas em muitas sociedades europeias, est&aacute;    completamente correcta, embora possa ser interessante saber que especialmente    Peter L. Berger come&ccedil;ou nos &uacute;ltimos anos a falar repetidamente,    e de uma forma muito n&iacute;tida, sobre uma &#171;desseculariza&ccedil;&atilde;o    do mundo&#187;<a href="#4"><SUP>4</SUP></a><SUP></SUP><a name="top4"></a>. E,    finalmente, temos a concep&ccedil;&atilde;o de Bryan Wilson, que estabelece    uma liga&ccedil;&atilde;o entre &#171;seculariza&ccedil;&atilde;o&#187; e racionaliza&ccedil;&atilde;o    (p. 87), partindo de uma certa laiciza&ccedil;&atilde;o das igrejas tradicionais.  </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Depois da breve explica&ccedil;&atilde;o destes tr&ecirc;s &#171;te&oacute;ricos&#187;    da seculariza&ccedil;&atilde;o, Helena Vila&ccedil;a apresenta especialmente    Talcott Parson, Robert Bellah e Niklas Luhmann como soci&oacute;logos que n&atilde;o    s&atilde;o propriamente autores centrais na discuss&atilde;o sobre a &#171;seculariza&ccedil;&atilde;o&#187;,    mas que deram, pelo menos, contributos importantes para a discuss&atilde;o sobre    o assunto. Neste ponto apenas se podia acrescentar uma refer&ecirc;ncia ir&oacute;nica    de Luhmann atrav&eacute;s da qual ele sublinha um dos grandes valores da discuss&atilde;o    sobre a &#171;seculariza&ccedil;&atilde;o&#187;. Ou seja, pelo menos atrav&eacute;s    desta discuss&atilde;o, a religi&atilde;o teve a grande sorte de regressar ao    centro da aten&ccedil;&atilde;o dos soci&oacute;logos<a href="#5"><SUP>5</SUP></a><a name="top5"></a><SUP></SUP>.    Nas p&aacute;ginas seguintes, Helena Vila&ccedil;a procura lan&ccedil;ar algumas    pistas para a sistematiza&ccedil;&atilde;o dos diferentes conceitos da seculariza&ccedil;&atilde;o    e destaca nomeadamente as tentativas fundamentais de Karel Dobbeleare e de Olivier    Tschannen (pp. 91-94). Esta parte tem um valor essencial, pois o leitor toma    conhecimento de que a &#171;seculariza&ccedil;&atilde;o&#187; continua a ser    um conceito amb&iacute;guo e pol&eacute;mico.      <p> Helena Vila&ccedil;a reconhece que este excurso sobre a discuss&atilde;o acerca    da &#171;seculariza&ccedil;&atilde;o&#187; pode ser entendido como uma &#171;estrat&eacute;gia    discut&iacute;vel&#187; (p. 95). Por&eacute;m, a autora chega no final deste    segundo cap&iacute;tulo a um ponto importante, sublinhando agora uma rela&ccedil;&atilde;o    estreita entre &#171;pluralismo&#187; e &#171;seculariza&ccedil;&atilde;o&#187;.    Assim, Helena Vila&ccedil;a chama novamente a aten&ccedil;&atilde;o para Bryan    Wilson, sobretudo para Peter L. Berger, que reflectiu mais profundamente sobre    a liga&ccedil;&atilde;o entre &#171;moderniza&ccedil;&atilde;o&#187; (&#171;seculariza&ccedil;&atilde;o&#187;)    e &#171;pluraliza&ccedil;&atilde;o&#187;. Assim, a &#171;estrat&eacute;gia discut&iacute;vel&#187;    revela-se uma t&aacute;ctica inteligente, tal como este profundo mergulho no    interior da discuss&atilde;o pol&eacute;mica da &#171;seculariza&ccedil;&atilde;o&#187;    se mostrou capaz de esclarecer &#171;as potencialidades deste modelo te&oacute;rico    para a compreens&atilde;o do pluralismo religioso&#187; (pp. 99-100). Embora    uma tentativa deste g&eacute;nero signifique sempre um grande risco, Helena    Vila&ccedil;a conseguiu apresentar, em linhas gerais, alguns dos pontos mais    marcantes dentro da controv&eacute;rsia sobre a &#171;seculariza&ccedil;&atilde;o&#187;.    Uma das maiores qualidades desta apresenta&ccedil;&atilde;o consiste no facto    de a autora deixar esta discuss&atilde;o praticamente em aberto, apresentando    simplesmente algumas posi&ccedil;&otilde;es bastante opostas. Assim, o leitor    toma depois contacto com a vers&atilde;o sociol&oacute;gica da <I>rational choice    theory,</I> desenvolvida pelos americanos Rodney Stark e Roger Finke, que defenderam    um aumento da religiosidade individual atrav&eacute;s de uma concorr&ecirc;ncia    entre v&aacute;rios grupos religiosos. Por outro lado, existem tamb&eacute;m    posi&ccedil;&otilde;es como a do soci&oacute;logo ingl&ecirc;s Steve Bruce,    que v&ecirc; na moderna diversidade religiosa uma das raz&otilde;es para uma    crescente indiferen&ccedil;a perante a religi&atilde;o. Helena Vila&ccedil;a    facilita o entendimento destas posi&ccedil;&otilde;es principalmente contradit&oacute;rias    quando chama a aten&ccedil;&atilde;o para o facto de as paisagens religiosas    nos Estados Unidos e na Europa serem realidades diferentes, ou quase incompar&aacute;veis.      <p>Depois desta esclarecedora exposi&ccedil;&atilde;o acerca das bases te&oacute;ricas    da &#171;seculariza&ccedil;&atilde;o&#187; e do &#171;pluralismo&#187;, a autora    prepara um desenho mais emp&iacute;rico e sistematizado da diversidade religiosa    em Portugal. A recapitula&ccedil;&atilde;o do racioc&iacute;nio metodol&oacute;gico    ajuda a entender a delinea&ccedil;&atilde;o das particularidades locais na realidade    social portuguesa. Helena Vila&ccedil;a recorre mais uma vez &agrave; excelente    proposta anal&iacute;tica de Ole Riis, que pretende examinar o &#171;pluralismo&#187;    em &#171;tr&ecirc;s n&iacute;veis sociais consecutivos: <I>macro,</I> <I>meso    </I>e <I>micro</I>&#187; (p. 114). Para al&eacute;m de ser uma entrada favor&aacute;vel    para a parte mais emp&iacute;rica do estudo, esta nova sinopse ajuda tamb&eacute;m    a perceber definitivamente a decis&atilde;o da autora em usar o termo &#171;pluralismo&#187;.    Assim, vemos que existe na &#171;dimens&atilde;o macrossocietal&#187; uma certa    exig&ecirc;ncia que obriga as autoridades sociais a aceitarem e admitirem uma    multiplicidade ou pluralidade dentro do campo religioso, tal como o &#171;pluralismo&#187;    implica no micron&iacute;vel a liberdade de uma escolha individual. A autora    acrescenta a estas tr&ecirc;s dimens&otilde;es a teoria de campo de Pierre Bourdieu    que ajudar&aacute; especialmente a &#171;determinar a presen&ccedil;a e coexist&ecirc;ncia    de v&aacute;rios agentes e organiza&ccedil;&otilde;es com posi&ccedil;&otilde;es,    objectivos e poderes diferenciados&#187; (p. 115).      <p>Na parte mais pr&aacute;tica da pesquisa que come&ccedil;a com o cap&iacute;tulo    4, &#171;Religi&atilde;o e Estado na sociedade portuguesa&#187;, a autora come&ccedil;a    com um retrato da produ&ccedil;&atilde;o sociol&oacute;gica (ou geralmente cient&iacute;fica)    sobre a religi&atilde;o em Portugal que &eacute; simultaneamente interessante    e algo preocupante. Trata-se de uma leitura interessante pela simples raz&atilde;o    de que o leitor pode ter aqui r&aacute;pida e facilmente uma vis&atilde;o geral    sobre toda a cria&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica (n&atilde;o confessional)    que foi feita nos &uacute;ltimos anos em torno de fen&oacute;menos religiosos    em Portugal. Por outro lado, este retrato afigura-se um pouco inquietante por    causa de um certo desinteresse das ci&ecirc;ncias sociais em Portugal perante    fen&oacute;menos religiosos. Neste caso, o leitor estar&aacute; completamente    de acordo com Helena Vila&ccedil;a, que pronuncia aqui claramente a necessidade    de um aumento tem&aacute;tico de trabalhos na &aacute;rea de uma ci&ecirc;ncia    (ou sociologia) <I>n&atilde;o confessional</I> das religi&otilde;es (p. 130).    Depois de um percurso atrav&eacute;s da hist&oacute;ria religiosa de Portugal,    Helena Vila&ccedil;a aborda a situa&ccedil;&atilde;o actual das minorias religiosas    em Portugal, come&ccedil;ando com o n&iacute;vel da &#171;toler&acirc;ncia religiosa&#187;.    Para a exposi&ccedil;&atilde;o deste macron&iacute;vel, a autora descreve os    contornos da nova lei da liberdade religiosa, sem se esquecer de chamar a aten&ccedil;&atilde;o    para um par&aacute;grafo que parece escrito, quase inconfundivelmente, contra    alguns grupos de (neo)pentecostalismo, tal como a Igreja Universal do Reino    de Deus ou a Igreja do Man&aacute;. A autora &eacute; tamb&eacute;m neste ponto    bastante sensata, deixando o leitor decidir por si se existe um verdadeiro apoio    a uma plena liberdade religiosa num par&aacute;grafo que exclui grupos religiosos    implantados h&aacute; menos de trinta anos no pa&iacute;s ou sessenta no estrangeiro    (p. 156). Independentemente deste par&aacute;grafo &#171;antipentecostal&#187;,    Portugal aproxima-se, pelo menos teoricamente, de uma situa&ccedil;&atilde;o    &#171;pluralista&#187; em quest&otilde;es religiosas. Por&eacute;m, o discurso    religioso oficial continua a ser em grande parte dominado pela Igreja cat&oacute;lica.    E, de facto, ainda hoje em dia se encontra na sociedade portuguesa pontualmente    a opini&atilde;o a partir da qual religi&atilde;o e catolicismo s&atilde;o a    mesma coisa (pp. 157-158). No sub-cap&iacute;tulo 4.4, &#171;A religi&atilde;o    em n&uacute;meros no espa&ccedil;o e no tempo&#187;, a autora oferece uma aproxima&ccedil;&atilde;o    num&eacute;rica baseada nos recenseamentos gerais da popula&ccedil;&atilde;o    e que mostra nitidamente um crescimento da diversidade religiosa sobretudo entre    1991 e 2001. Ao ler estas p&aacute;ginas informativas, n&atilde;o restam d&uacute;vidas    de que se trata de uma tend&ecirc;ncia cont&iacute;nua.      <p>A &uacute;ltima parte do livro, do cap&iacute;tulo 5 at&eacute; ao 7, traz    consigo um panorama sobre &#171;o universo religioso minorit&aacute;rio&#187;    e uma avalia&ccedil;&atilde;o das &#171;atitudes dos portugueses face ao pluralismo&#187;.    Tendo em considera&ccedil;&atilde;o que a autora procura sobretudo &#171;perceber    em que medida a an&aacute;lise de um fen&oacute;meno minorit&aacute;rio contribui    para a compreens&atilde;o mais aprofundada da nossa sociedade e dos processos    sociais em curso&#187; (p. 174), o leitor aceitar&aacute; que a aten&ccedil;&atilde;o    principal da autora se debruce essencialmente sobre a comunidade protestante.    Esta decis&atilde;o justifica-se pela apresenta&ccedil;&atilde;o pormenorizada    desta minoria religiosa, e desta forma &eacute;-nos apresentada uma boa explica&ccedil;&atilde;o    sobre o funcionamento do &#171;pluralismo&#187; religioso em Portugal no meson&iacute;vel.    Finalmente, existe uma exposi&ccedil;&atilde;o de algumas atitudes sociais dos    portugueses perante uma variedade das orienta&ccedil;&otilde;es religiosas.    Neste sentido, Helena Vila&ccedil;a resume que &#171;o monolitismo religioso    continua a matizar culturalmente as representa&ccedil;&otilde;es religiosas    dos portugueses&#187; (p. 259). Todavia, na nota final a autora faz entender,    de uma forma absolutamente clara, que tamb&eacute;m Portugal &eacute; recentemente    marcado por enormes transforma&ccedil;&otilde;es no campo religioso e a sociedade    portuguesa apresenta um crescente grau de diversidade religiosa (p. 264). &Eacute;    exactamente aqui que reside o enorme valor deste livro, pois &eacute; o primeiro    estudo sistem&aacute;tico sobre as metamorfoses na paisagem religiosa em Portugal.      <p>Embora a op&ccedil;&atilde;o pela palavra &#171;pluralismo&#187; e a suposta    &#171;inexist&ecirc;ncia de uma pluralidade religiosa&#187; na hist&oacute;ria    de Portugal sejam assuntos que podem provocar opini&otilde;es divergentes, Helena    Vila&ccedil;a oferece um contributo extremamente proveitoso para o entendimento    das mudan&ccedil;as sociais nos &uacute;ltimos anos em Portugal. A leitura deste    estudo esclarece, em termos te&oacute;ricos, assuntos t&atilde;o complexos como    a &#171;seculariza&ccedil;&atilde;o&#187; e amplia o nosso conhecimento pr&aacute;tico    sobre as especificidades religiosas da sociedade portuguesa e as mudan&ccedil;as    ocorridas nos &uacute;ltimos anos. Isso significa que esta obra representa um    estudo indispens&aacute;vel sobre as mudan&ccedil;as religiosas que ocorreram    nos &uacute;ltimos tempos na sociedade portuguesa. E, finalmente, para al&eacute;m    das pesquisas te&oacute;ricas e pr&aacute;ticas de grande qualidade, este livro    representa mais um valor bastante importante: o livro de Helena Vila&ccedil;a    obriga ao reconhecimento de que o estudo ou a sociologia das religi&otilde;es    precisam de uma continua&ccedil;&atilde;o permanente. Trata-se de uma &aacute;rea    cient&iacute;fica que, curiosamente, continua ainda a ser bastante subestimada    na paisagem acad&eacute;mica de Portugal.      <p>&nbsp;     <p align="right"><b>Steffen Dix </b>     <p>&nbsp;     <p>&nbsp;     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="left"><B>Notas</B>      <p><SUP><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></SUP> James A. Beckford, &#171;The    management of religious diversity in England and Wales with special reference    to prison Chaplaincy&#187;, in <I>International Journal on Multicultural Societies,    </I>v. 1 (2), 1999, pp. 55-66.      <p><SUP><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></SUP> O. Riis, &#171;Modes of religious    pluralism under conditions of globalisation&#187;, in <I>International Journal    on Multicultural Societies, </I>1 (1), 1999, pp. 20-34.      <p><SUP><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></SUP> Thomas Luckmann, &#171;S&auml;kularisierung    &#151; ein moderner Mythos&#187;, <I>in</I> Luckmann, <I>Lebenswelt und Gesellschaft:    Grundstrukturen und geschichtliche Wandlungen,</I> Paderborn, 1980, pp. 161-172.      <p><SUP><a name="4"></a><a href="#top4">4</a></SUP> Peter L. Berger (org.), <I>The    Desecularization of the World: Resurgent Religion and World Politics, </I>Washington,    D. C., 1999.      <p><SUP><a name="5"></a><a href="#top5">5</a> </SUP>N. Luhmann, <I>Funktion der    Religion,</I> Frankfurt am Main, 1996 p. 225.      <p>&nbsp;     <p>&nbsp; </p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp; </p>     <p>&nbsp;</p>      ]]></body>
</article>
