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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Passagens para África. O Povoamento de Angola e Moçambique com Naturais da Metrópole]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p><i>Cl&aacute;udia Castelo,</i> <b>Passagens para &Aacute;frica. O Povoamento    de Angola e Mo&ccedil;ambique com Naturais da Metr&oacute;pole,</b> Porto, Edi&ccedil;&otilde;es    Afrontamento, 2007, 405 p&aacute;ginas. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>       <p>A historiografia    sobre a recente empreitada colonial portuguesa em terras africanas est&aacute;    a passar por uma mudan&ccedil;a assombrosa. Podemos dizer, sem medo, que nos    dias do fim da presen&ccedil;a portuguesa nos grandes territ&oacute;rios de    Angola e Mo&ccedil;ambique o debate historiogr&aacute;fico era, em grande medida,    alimentado por uma evidente polariza&ccedil;&atilde;o ideol&oacute;gica: de    um lado, os que se alinhavam com o regime institu&iacute;do pelo Estado Novo    portugu&ecirc;s, que resistia &agrave;s transforma&ccedil;&otilde;es em curso    no continente africano e insistia na realidade desterritorializada e multirracial    da na&ccedil;&atilde;o portuguesa; do outro, os que h&aacute; muito se opunham    &agrave; ditadura fascista e colonialista existente em Portugal e nas suas col&oacute;nias    e que, fortalecidos a partir do in&iacute;cio dos anos 60 pela eclos&atilde;o    dos movimentos de liberta&ccedil;&atilde;o nacional, procuravam denunciar a    fal&aacute;cia de um colonialismo de cinco s&eacute;culos ou a suposta continuidade    espiritual existente entre a metr&oacute;pole e os territ&oacute;rios ultramarinos.    </p>     <p>Se &eacute;    verdade que encontramos ecos deste debate na cena p&uacute;blica portuguesa    contempor&acirc;nea ao lado de <i>revivalismos </i>de um luso-tropicalismo tardio    e mesmo um certo mal-estar em diversos c&iacute;rculos portugueses, distintas    correntes historiogr&aacute;ficas v&ecirc;m-se debru&ccedil;ando sobre as transforma&ccedil;&otilde;es    que tiveram lugar nos territ&oacute;rios africanos de l&iacute;ngua oficial    portuguesa e, num di&aacute;logo din&acirc;mico com a produ&ccedil;&atilde;o    africanista, acompanhamos a produ&ccedil;&atilde;o de trabalhos de qualidade    excepcional, preenchendo imensos vazios e formulando novas quest&otilde;es sobre    uma hist&oacute;ria em grande medida ainda por ser escrita. </p>     <p>O trabalho de Cl&aacute;udia Castelo pertence, sem sombra de d&uacute;vida,    ao que h&aacute; de mais vigoroso em Portugal. Em publica&ccedil;&atilde;o anterior,    que teve origem na sua disserta&ccedil;&atilde;o de mestrado, <i>O Modo Portugu&ecirc;s    de Estar no Mundo. O Luso-Tropicalismo e a Ideologia Colonial Portuguesa (1933-1961)</i><sup><a href="#1">1</a><a name="top1"></a></sup>,    Castelo enfrentou o <i>labirinto m&iacute;tico</i> que cercava o colonialismo    portugu&ecirc;s, a sua &aacute;urea de mist&eacute;rio e a incorpora&ccedil;&atilde;o    do luso-tropicalismo freyriano com o prop&oacute;sito de perpetuar a presen&ccedil;a    lusitana em terras africanas. A historiadora desenvolveu ent&atilde;o uma hist&oacute;ria    <i>cr&iacute;tica</i> das ideias, revelando as distintas leituras, por vezes    antag&oacute;nicas, de que a obra de Freyre fora objecto em Portugal antes da    sua transforma&ccedil;&atilde;o definitiva em ideologia oficial do regime. &Agrave;    leitura detida da obra de Freyre sucedeu outra, n&atilde;o menos detida, das    m&uacute;ltiplas leituras a que Freyre foi submetido at&eacute; a assun&ccedil;&atilde;o    do luso-tropicalismo por parte da <i>intelligentsia</i> pol&iacute;tica colonialista    portuguesa. Consolidado como ideologia de Estado, e longe de um debate p&uacute;blico    democr&aacute;tico, </p>     <p>o luso-tropicalismo acabaria por afectar a vida dos portugueses e de todos    aqueles que se encontravam em territ&oacute;rios sob a administra&ccedil;&atilde;o    colonial de Portugal. De ideologia, transforma-se numa verdadeira <i>vis&atilde;o    do mundo,</i> a informar jovens obrigados ao alistamento militar e a uma guerra    em terras long&iacute;nquas e mesmo aqueles que procuravam nas col&oacute;nias    aquilo que lhes era negado em Portugal. E &eacute; sobre o povoamento com naturais    da metr&oacute;pole nas grandes col&oacute;nias de Angola e Mo&ccedil;ambique    o novo trabalho de Cl&aacute;udia Castelo. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Longe do Brasil, na &Aacute;frica colonial </b></p>     <p>Em <i>Passagens para &Aacute;frica. O Povoamento de Angola e Mo&ccedil;ambique    com Naturais da Metr&oacute;pole</i> encontramo-nos com o mesmo vigor cr&iacute;tico    do seu trabalho anterior &#8212; agora num trabalho de maior f&ocirc;lego e    ambi&ccedil;&atilde;o. Cl&aacute;udia Castelo tem como prop&oacute;sito descrever    os distintos fluxos de colonos metropolitanos rumo a Angola e Mo&ccedil;ambique    ao longo de boa parte do s&eacute;culo xx. Se &eacute; verdade que a presen&ccedil;a    portuguesa nestes territ&oacute;rios sempre foi relativamente pequena (no final    do s&eacute;culo xix e in&iacute;cio do s&eacute;culo xx era realmente diminuta),    n&atilde;o &eacute; menos verdade que ela foi crescente e que n&atilde;o apenas    houve pretens&otilde;es de transform&aacute;-la em verdadeiras col&oacute;nias    de povoamento, como de facto o fluxo metropolitano foi cont&iacute;nuo, crescente    e decisivo entre os anos 20 e o in&iacute;cio dos anos 70. Parte da historiografia    existente estava por de mais preocupada em denunciar as fal&aacute;cias do luso-tropicalismo,    insistindo mesmo, como fez Gerald Bender, na quase inexist&ecirc;ncia de colonos    at&eacute; um per&iacute;odo extremamente tardio. Ora, o car&aacute;cter anacr&oacute;nico    assumido muitas vezes pelo colonialismo portugu&ecirc;s em &Aacute;frica, a    exist&ecirc;ncia de col&oacute;nias penais at&eacute; &agrave; entrada do s&eacute;culo    xx, n&atilde;o deve deter a pesquisa, e Cla&uacute;dia revela-nos o crescente,    embora desigual ao longo do tempo, estabelecimento de naturais da metr&oacute;pole    nos grandes territ&oacute;rios africanos. E, como faz a autora de entrada, deve-se    comparar o assentamento de colonos em Angola e Mo&ccedil;ambique com outras    experi&ecirc;ncias europeias no continente africano, em particular na Arg&eacute;lia,    no Qu&eacute;nia, na Rod&eacute;sia do Sul e mesmo na &Aacute;frica do Sul,    distanciando assim, definitivamente, a experi&ecirc;ncia lusitana nos grandes    territ&oacute;rios africanos da ocorrida no Brasil. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O Brasil aqui n&atilde;o entra como compara&ccedil;&atilde;o, nem poderia.    O pa&iacute;s sul-americano surge antes como uma esp&eacute;cie de <i>problema</i>    &#8212; para aqueles que, desde o in&iacute;cio do s&eacute;culo xx, queriam    redireccionar os fluxos migrat&oacute;rios portugueses &#8212; ou como uma solu&ccedil;&atilde;o    &#8212; para os que percebiam o car&aacute;cter dependente do Estado portugu&ecirc;s    com rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s divisas geradas pela emigra&ccedil;&atilde;o.    N&atilde;o se trata de um par&acirc;metro comparativo para a experi&ecirc;ncia    dos colonos em &Aacute;frica, como gostariam os entusiastas do luso-tropicalismo!    Em Angola e Mo&ccedil;ambique, mesmo nos anos de relativa hegemonia do pensamento    luso-tropical em Portugal (a partir de meados dos anos 50), a experi&ecirc;ncia  </p>     <p>dos colonos    metropolitanos assemelhava-se antes aos assentamentos brancos da &Aacute;frica    do Sul, da Rod&eacute;sia do Sul ou do Qu&eacute;nia: a tend&ecirc;ncia crescente    para o estabelecimento das fam&iacute;lias; a sua concentra&ccedil;&atilde;o    em n&uacute;cleos urbanos com condi&ccedil;&otilde;es de saneamento e onde se    sentissem protegidos diante da massa aut&oacute;ctone desconhecida e amea&ccedil;adora;    a dispers&atilde;o de um n&uacute;mero restrito de fam&iacute;lias brancas pelo    territ&oacute;rio, ocupando cargos burocr&aacute;ticos ou posi&ccedil;&otilde;es    em grandes empreendimentos agr&iacute;colas; a cria&ccedil;&atilde;o de espa&ccedil;os    sociais exclusivos, marcados pela clara segrega&ccedil;&atilde;o do elemento    aut&oacute;ctone e pela rejei&ccedil;&atilde;o violenta da miscigena&ccedil;&atilde;o.    </p>     <p>Se os debates delineados por Cl&aacute;udia sugerem distintas posi&ccedil;&otilde;es    no que diz respeito ao povoamento de Angola e Mo&ccedil;ambique, sempre marcados    pela obsess&atilde;o da classe pol&iacute;tica portuguesa, e mesmo da burguesia    metropolitana, em torno da nacionalidade ou dos destinos da na&ccedil;&atilde;o    (e, nunca &eacute; de mais lembrar, constrangidos por um regime de natureza    autorit&aacute;ria), a din&acirc;mica assumida pelas levas de colonos que passam    a dirigir-se para os territ&oacute;rios africanos &#8212; por vezes em fun&ccedil;&atilde;o    dos limites impostos pelo Estado brasileiro a emigrantes europeus, ou mesmo    em competi&ccedil;&atilde;o com destinos europeus que passam a dominar a op&ccedil;&atilde;o    dos portugueses a partir da d&eacute;cada de 50 &#8212; n&atilde;o foge ao j&aacute;    ocorrido em territ&oacute;rios outrora sob dom&iacute;nio brit&acirc;nico. Com    uma grande diferen&ccedil;a no futuro imediato desta colectividade: nos anos    da descoloniza&ccedil;&atilde;o, e apesar de afirmar o seu compromisso com o    ultramar, a esmagadora maioria dos naturais da metr&oacute;pole retorna a Portugal    &#8212; certamente em fun&ccedil;&atilde;o das dificuldades que se anunciavam    nos novos pa&iacute;ses africanos, mas com toda a certeza como consequ&ecirc;ncia    dos fortes v&iacute;nculos familiares que matinham com a sua terra de origem,    ou com a terra de origem dos seus pais e av&oacute;s... o mesmo n&atilde;o ocorreria    em determinadas col&oacute;nias brit&acirc;nicas, pelo menos n&atilde;o na &Aacute;frica    do Sul e na Rod&eacute;sia. Mas esta &eacute; outra hist&oacute;ria. </p>     <p>&nbsp;</p>      <p><b>Povoamento    controlado: o medo da pobreza branca </b></p>     <p>Geralmente, o trabalho dos antrop&oacute;logos &eacute; cercado de uma certa    &aacute;urea. Dificuldades de toda a ordem e a aventura parecem acompanhar a    viagem a terras distantes. No entanto, n&atilde;o hesitaria um momento sequer    em definir Cl&aacute;udia Castelo como uma desbravadora e uma verdadeira aventureira.    Como fica claro logo no in&iacute;cio do seu texto, os arquivos portugueses    e africanos &#8212; com a not&aacute;vel excep&ccedil;&atilde;o do Arquivo Hist&oacute;rico    de Mo&ccedil;ambique<sup><a href="#2">2</a></sup><a name="top2"></a> &#8212;    est&atilde;o longe de fornecerem condi&ccedil;&otilde;es ideais de pesquisa.    Enfrentar caixas e caixas sem classifica&ccedil;&atilde;o, s&eacute;ries descont&iacute;nuas,    ou o descuido na manuten&ccedil;&atilde;o de arquivos e documentos &#8212; em    grande medida consequ&ecirc;ncia do desinteresse daqueles que ocupam o aparelho    de Estado numa pol&iacute;tica de arquivos hist&oacute;ricos &#8212;, constitui    o dia a dia do historiador e do cientista social em Portugal (e no Brasil).    <i>Passagens para &Aacute;frica</i> revela o que pode ser feito a partir dos    arquivos existentes, em particular o extraordin&aacute;rio (e ca&oacute;tico)    Arquivo Hist&oacute;rico Ultramarino, mas tamb&eacute;m aponta para o muito    que h&aacute; por fazer. </p>     <p>O car&aacute;cter    desbravador de Cl&aacute;udia Castelo deve-se ainda ao tema e ao m&eacute;todo    escolhidos. A mem&oacute;ria daqueles que passaram parte das suas vidas em Angola    e Mo&ccedil;ambique faz parte da sociedade portuguesa contempor&acirc;nea. E    parte das novas gera&ccedil;&otilde;es v&ecirc;-se &agrave;s voltas com hist&oacute;rias    e sil&ecirc;ncios de pais e av&oacute;s que foram definitivamente marcados por    um <i>retorno</i> nem sempre tranquilo ou pela nostalgia dos tempos africanos.    </p>     <p>Do lado    africano, as coisas n&atilde;o s&atilde;o diferentes. Hist&oacute;rias sobre    <i>os tempos coloniais</i> fazem parte do dia a dia de angolanos e mo&ccedil;ambicanos.    Geralmente, trata-se de hist&oacute;rias sobre os colonos ou sobre os <i>brancos</i>    que se foram. E estamos longe de um m&iacute;nimo consenso em torno destas hist&oacute;rias:    um trabalho sobre a <i>mem&oacute;ria</i>, muitas vezes uma <i>mem&oacute;ria    traum&aacute;tica</i>, levar-nos-ia a um campo que a historiadora quer evitar.    Tratar-se-ia, enfim, de uma outra pesquisa. O necess&aacute;rio aqui &eacute;,    sim, desbravar os arquivos, organizar os documentos, criar uma cronologia, compreender    as institui&ccedil;&otilde;es que se encarregavam do controlo dos territ&oacute;rios    coloniais e do assentamento de colonos; saber quantos foram, em que per&iacute;odos,    qual a sua origem social e a que se dedicaram na terra de destino. E conhecer    minimamente as informa&ccedil;&otilde;es de que dispunham sobre o continente    que os iria receber, quais as suas expectativas. </p>     <p>O trabalho    ganha, assim, imensa densidade. Sempre matizando os problemas e limites do material    dispon&iacute;vel, temos muitas vezes n&atilde;o apenas o n&uacute;mero de portugueses    embarcados para Angola e Mo&ccedil;ambique, como tamb&eacute;m, e em determinados    per&iacute;odos, a sua divis&atilde;o por g&eacute;nero, o seu estado civil,    a idade e o grau de instru&ccedil;&atilde;o. Podemos acompanhar como, efectivamente,    pelo menos a partir dos anos 40, o n&uacute;mero de mulheres se aproxima do    n&uacute;mero de homens e, sobretudo, o grau de instru&ccedil;&atilde;o m&eacute;dio    daquele que se aventurava nas col&oacute;nias africanas era superior ao da metr&oacute;pole    e certamente ao dos emigrantes que a partir dos anos 50 passam a preferir destinos    europeus. </p>     <p>Compreender    este perfil exigiu da autora enfrentar o controlo que o Estado autorit&aacute;rio    portugu&ecirc;s pretendeu exercer sobre os fluxos rumo ao ultramar. Se &eacute;    verdade que boa parte dos grandes projectos de coloniza&ccedil;&atilde;o levados    a cabo pelo Estado fracassaram &#8212; particularmente aqueles que implicavam    a coloniza&ccedil;&atilde;o rural &#8212;, tudo leva a crer que a tentativa    de evitar uma emigra&ccedil;&atilde;o desordenada e impulsionada somente pela    pobreza que imperava em Portugal foi bem sucedida. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Mas por    que evitar que Angola e Mo&ccedil;ambique se transformassem, efectivamente,    no lugar de destino das massas miser&aacute;veis que desde as &uacute;ltimas    d&eacute;cadas do s&eacute;culo xix emigravam para o Brasil e, posteriormente,    para a Venezuela, os Estados Unidos e, a partir dos anos 50, para os pa&iacute;ses    desenvolvidos da Europa ocidental? Nos congressos coloniais muitos foram os    intelectuais e pol&iacute;ticos que defenderam que deveria ser a &Aacute;frica    o destino do excedente populacional peninsular. No entanto, um temor pairava    particularmente entre aqueles que ocupavam cargos nas col&oacute;nias ultramarinas:    o temor da produ&ccedil;&atilde;o de uma massa branca pobre e despreparada a    competir com os ind&iacute;genas. E novamente Portugal se aproximava das demais    col&oacute;nias europeias do seu entorno africano: no Congo Belga, na Rod&eacute;sia    do Sul, no Qu&eacute;nia, dever-se-ia evitar a todo o custo a exist&ecirc;ncia    de uma pobreza branca; a consolida&ccedil;&atilde;o do Estado sul-africano ao    longo do s&eacute;culo xx, que culmina com o estabelecimento do <i>apartheid</i>,    representou um imenso esfor&ccedil;o de eliminar a mis&eacute;ria que caracterizava    as grandes massas de <i>afrikaans</i> que povoavam os sub&uacute;rbios das grandes    urbes sul-africanas. De certa forma, os esfor&ccedil;os dos distintos Estados    coloniais foram bem sucedidos e, como lembra Doris Lessing no 1.&ordm; volume    da sua autobiografia, <i>Under my Skin </i>(1994), a mem&oacute;ria de uma pobreza    branca foi praticamente apagada de territ&oacute;rios como a &Aacute;frica do    Sul ou o Zimbabwe e tamb&eacute;m de Angola e Mo&ccedil;ambique. </p>     <p>A pobreza    branca deveria ser evitada a todo custo, pois os ind&iacute;genas deveriam estar    absolutamente convencidos da superioridade europeia. Era sobre a cren&ccedil;a    nesta superioridade que pretendeu-se assentar a arquitectura colonial, o que    foi notavelmente eficaz, pelo menos ao longo de um determinado per&iacute;odo    de tempo. O poder colonial manteve-se n&atilde;o apenas pela for&ccedil;a das    armas. Ap&oacute;s o brutal per&iacute;odo da denominada <i>pacifica&ccedil;&atilde;o,</i>    um complexo aparelho ideol&oacute;gico em torno da superioridade branca deveria    n&atilde;o apenas ser disseminado como ritualizado. E &eacute; aqui que surge    um <i>estilo de vida colonial,</i> t&atilde;o distante da matriz europeia e    que s&oacute; fazia sentido naquela estrutura de poder. </p>     <p>E este <i>estilo de vida </i>deveria ser t&atilde;o pomposo e exclusivo quanto    poss&iacute;vel para, no caso portugu&ecirc;s, e como lembra Cl&aacute;udia    Castelo, superar n&atilde;o apenas o fantasma da pobreza branca, mas evitar    o que poderia definitivamente colocar em xeque o poder colonial aos olhos dos    nativos (e dos demais europeus): a miscigena&ccedil;&atilde;o e a cafrealiza&ccedil;&atilde;o,    ou seja, a ado&ccedil;&atilde;o por parte dos brancos de comportamentos associados    aos ind&iacute;genas (p. 288). </p>     <p>&nbsp;</p>      <p><b>Estilo    de vida colonial: o ideal do <i>n&atilde;o</i> trabalho </b></p>     <p>&#8212;    Quando foi pela primeira vez a Portugal? </p>     <p>&#8212;    Em 1937. </p>        <p>&#8212;    Gostou? </p>     <p>&#8212;    N&atilde;o. Fui para ficar tr&ecirc;s anos, e n&atilde;o aguentei mais que um.    </p>     <p>&#8212;    O que mais o surpreendeu quando chegou a Portugal? </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&#8212;    Logo no porto tive a minha grande surpresa: ver brancos a trabalhar, a descarregar    os navios. </p>     <p><i>Trecho    da hist&oacute;ria de vida de um mo&ccedil;ambicano branco registada em Janeiro    de 2001</i> </p>     <p>Eis o que deveria ser evitado a todo o custo: o trabalho manual realizado por    brancos. &Eacute; impressionante o n&uacute;mero de refer&ecirc;ncias que recolhi    na minha pesquisa de campo em Mo&ccedil;ambique sobre o choque dos brancos coloniais    quando chegavam &agrave; metr&oacute;pole e deparavam com brancos a carregar    caixas ou a servir em mesas de bar &#8212; refer&ecirc;ncias estas que se repetiam    no caso rodesiano<sup><a href="#3">3</a><a name="top3"></a></sup>. Na verdade,    havia um verdadeiro debate quanto &agrave; natureza do trabalho a ser realizado    pelos brancos em territ&oacute;rios ultramarinos, e n&atilde;o eram poucos os    que reclamavam uma maior implanta&ccedil;&atilde;o de colonos como agricultores,    trabalhando lado a lado com os nativos africanos, como forma de garantir a assimila&ccedil;&atilde;o    da massa ind&iacute;gena ao que se considerava uma civiliza&ccedil;&atilde;o    superior. </p>     <p>No debate,    e como demonstra Cl&aacute;udia Castelo, predominaram muitas vezes aqueles que    queriam garantir aos brancos metropolitanos as posi&ccedil;&otilde;es de mando    junto da massa ind&iacute;gena, esta sim dedicada ao trabalho nas grandes empresas    agr&iacute;colas. Para tanto, competia n&atilde;o apenas a vis&atilde;o predominante    da n&atilde;o resist&ecirc;ncia dos brancos ao trabalho manual em ambiente tropical    africano, mas mesmo a negativa dos assentados europeus. Parte dos naturais da    metr&oacute;pole associava a sua ida &agrave;s col&oacute;nias a um evidente    projecto de ascens&atilde;o social, o que implicava justamente deixar para tr&aacute;s    poss&iacute;veis origens rurais ou camponesas; outros procediam, na verdade,    da pr&oacute;pria burguesia metropolitana, que encarava o estabelecimento em    Angola e Mo&ccedil;ambique n&atilde;o s&oacute; como forma de ascens&atilde;o    social, mas como uma estrat&eacute;gia para fugir &agrave; estreiteza da vida    metropolitana de ent&atilde;o. As col&oacute;nias das revistas, manuais e dos    romances a partir pelo menos dos anos 30 prometiam n&atilde;o apenas fortuna,    mas tamb&eacute;m aventura e, sobretudo, um <i>estilo de vida,</i> que implicava    u&iacute;sque ou gin no fim da tarde &#8212; algo muito distante do trabalho    de um campon&ecirc;s. </p>     <p>A    foto apresentada na capa de <i>Passagens para &Aacute;frica </i>&#8212; &laquo;Colonos    e suas fam&iacute;lias em Benguela seguem para Angola e Mo&ccedil;ambique&raquo;,    publicada pelo jornal <i>O S&eacute;culo</i> em 29-8-1947 &#8212; indica uma    ambiente relativamente relaxado existente entre aqueles que partiam da metr&oacute;pole    rumo &agrave;s grandes col&oacute;nias africanas. N&atilde;o deparamos com emigrantes    assustados ou mal vestidos. Alguns homens encontravam-se engravatados, outros    j&aacute; usavam o inconfund&iacute;vel chap&eacute;u colonial, um deles com    uma harm&oacute;nica. Dois jovens est&atilde;o ao fundo, claramente felizes.    As tr&ecirc;s mulheres que aparecem na foto, &agrave; esquerda, tamb&eacute;m    aparecem bem vestidas, assim como a menina sentada na mesma cadeira com aquele    que possivelmente seria o seu pai. Homens, mulheres, crian&ccedil;as, jovens,    indicam a ida de fam&iacute;lias, e todos estes parecem querer registar na foto    a sua melhor imagem &#8212; uma imagem de alegria de quem parte para um destino    que lhe reserva algo certamente mais empolgante do que sua terra de origem.    </p>     <p>Mas a    implanta&ccedil;&atilde;o do <i>estilo de vida colonial</i> em muitas cidades    de Angola e Mo&ccedil;ambique deu-se, na verdade, com o extraordin&aacute;rio    desenvolvimento que acompanhou as guerras de liberta&ccedil;&atilde;o nacional.    O desenvolvimento e o estabelecimento de grandes comunidades brancas nestes    territ&oacute;rios passaram a ser estrat&eacute;gicos no interior do esfor&ccedil;o    de guerra e de uma portugaliza&ccedil;&atilde;o que se queria definitiva dos    territ&oacute;rios, que passaram a reivindicar a partir dos anos 60 o direito    &agrave; autodetermina&ccedil;&atilde;o e &agrave; independ&ecirc;ncia. Em grande    medida, e como conclui Cl&aacute;udia Castelo, as mem&oacute;rias de &Aacute;frica    que percorrem parte da sociedade portuguesa contempor&acirc;nea fazem refer&ecirc;ncia    justamente a este per&iacute;odo, quando a exclusividade dos espa&ccedil;os    dos brancos coloniais come&ccedil;ou a ser pressionada por um cada vez maior    n&uacute;mero de africanos que se representavam a si mesmos como cidad&atilde;os    e que haviam sido beneficiados com o tardio crescimento das institui&ccedil;&otilde;es    de ensino em Angola e Mo&ccedil;ambique. </p>     <p>Uma &Aacute;frica    multirracial portuguesa j&aacute; n&atilde;o era poss&iacute;vel naquele momento.    Embora distante dos centros de assentamento europeus, em Angola e Mo&ccedil;ambique    ardiam guerras de liberta&ccedil;&atilde;o nacional, transformadas ulteriormente    em guerras civis. E as rela&ccedil;&otilde;es entre as transforma&ccedil;&otilde;es    promovidas pelo tardo-colonialismo portugu&ecirc;s, que sup&ocirc;s o estabelecimento    sem precedentes de naturais da metr&oacute;pole em terras africanas, e os conflitos    sangrentos que sucederam &agrave;s independ&ecirc;ncias ainda est&atilde;o para    serem estudadas. </p>     <p>Consciente    de que esta resenha n&atilde;o faz justi&ccedil;a ao trabalho de Cl&aacute;udia    Castelo, na medida em que destaquei apenas alguns pontos de <i>Passagens para    &Aacute;frica</i> com o prop&oacute;sito de indicar a sua import&acirc;ncia    e de seduzir poss&iacute;veis futuros leitores, permito-me uma diverg&ecirc;ncia    com a autora. Logo no in&iacute;cio Cl&aacute;udia adverte que, apesar de pressupor    um di&aacute;logo com os estudos africanos, a sua pesquisa n&atilde;o se encontra    no &acirc;mbito da hist&oacute;ria de </p>     <p>&Aacute;frica. Ora, e hoje mais do que nunca, sabemos que a coloniza&ccedil;&atilde;o    faz parte da hist&oacute;ria do continente africano. No caso daquelas col&oacute;nias    que num determinado per&iacute;odo foram terra de destino de milhares de fam&iacute;lias    europeias, a din&acirc;mica do assentamento europeu &#8212; e do seu fim &#8212;    revela-nos parte da heran&ccedil;a do colonialismo tardio. <i>Passagens para    &Aacute;frica</i> representa, assim, uma contribui&ccedil;&atilde;o decisiva    para a historiografia contempor&acirc;nea de Angola e Mo&ccedil;ambique, mas    n&atilde;o s&oacute;: lan&ccedil;a luz sobre processos similares noutras experi&ecirc;ncias    coloniais, procurando abordar com um olhar mais agudo os processos de assentamento    branco na &Aacute;frica como um todo. Nesse sentido, &eacute;, sem d&uacute;vida,    importante para qualquer interessado em estudos do colonialismo europeu em &Aacute;frica,    nos estudos africanos e nos estudos p&oacute;s-coloniais. </p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>      <p><b>Omar Ribeiro Thomaz </b></p>     <p><b>Universidade Estadual de Campinas </b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>      <sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></sup>  Porto, Afrontamento, 1999.       <p><sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></sup>    O Arquivo Hist&oacute;rico de Mo&ccedil;ambique merece um destaque especial.    Enfrentando dificuldades de toda a ordem, e embora parte da documenta&ccedil;&atilde;o    ainda se encontre &agrave; espera de tratamento, encontramos uma institui&ccedil;&atilde;o    digna que manteve as portas abertas constantemente a pesquisadores mo&ccedil;ambicanos    e estrangeiros que por l&aacute; passaram. O acesso &agrave;s s&eacute;ries    e documentos &eacute; ainda facilitado por arquivistas que realmente conhecem    os meandros do AHM e est&atilde;o interessados em efectivamente facilitar o    nosso trabalho. </p>     <p><sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></sup>    Numa entrevista que realizei a um rodesiano (assim se definia, embora a Rod&eacute;sia    j&aacute; n&atilde;o exista), ele afirmou que a primeira vez que entrou num    avi&atilde;o da British Airways num voo de Salisbury para Londres ficou chocado    ao ver aeromo&ccedil;as brancas a servirem os passageiros, pois jamais fora    servido por um branco. </p>       ]]></body>
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