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</front><body><![CDATA[ <p><I>S. N. Eisenstadt,</I> <B>M&uacute;ltiplas Modernidades:  Ensaios,</B> Lisboa, Livros Horizonte, col. &#171;Estudos Pol&iacute;ticos&#187;,  2007, 166 p&aacute;ginas.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p align="justify">Em 1991 tive o privil&eacute;gio de colaborar com Pedro Tavares    de Almeida e Jorge Miguel Pedreira na 1.&#170; edi&ccedil;&atilde;o de um livro    de S. N. Eisenstadt em Portugal, <I>A Din&acirc;mica das Civiliza&ccedil;&otilde;es:    Tradi&ccedil;&atilde;o e Modernidade,</I> na colec&ccedil;&atilde;o &#171;Coordenadas&#187;,    da entretanto malograda Cosmos; tratava-se de uma colect&acirc;nea de textos    publicados originariamente entre os anos 60 e 1987, com pref&aacute;cio e notas    conclusivas escritas pelo autor especificamente para a edi&ccedil;&atilde;o.    Na nota de apresenta&ccedil;&atilde;o salient&aacute;vamos ent&atilde;o tr&ecirc;s    grandes eixos que os orientavam: &#171;a delimita&ccedil;&atilde;o das din&acirc;micas    macrossociol&oacute;gicas (estruturais e culturais) que originam a eclos&atilde;o,    o desenvolvimento ou o colapso da modernidade, em diferentes situa&ccedil;&otilde;es    hist&oacute;ricas; a reaprecia&ccedil;&atilde;o conceptual do bin&oacute;mio    tradi&ccedil;&atilde;o/modernidade; e a defini&ccedil;&atilde;o das `premissas    culturais b&aacute;sicas' da `vis&atilde;o do mundo' moderna, dos tipos de din&acirc;mica    institucional por ela gerados e dos conflitos que suscitam&#187;, buscando a    &#171;defini&ccedil;&atilde;o dos pressupostos civilizacionais da ordem cultural    moderna, considerada como um novo tipo, fortemente expansivo, de tradi&ccedil;&atilde;o&#187;.    E conclu&iacute;amos: &#171;Nesta relativiza&ccedil;&atilde;o da modernidade    &#151; na ideia da sua pluralidade, cimentada na diversidade das tradi&ccedil;&otilde;es    preexistentes, em oposi&ccedil;&atilde;o &agrave; sua identifica&ccedil;&atilde;o    como uma etapa final para que todas as hist&oacute;rias convergiriam &#151;    reside talvez uma das ideias mais estimulantes desta leitura, especialmente    numa &eacute;poca em que os particularismos &eacute;tnicos, nacionais ou religiosos    e as contesta&ccedil;&otilde;es &agrave; racionalidade revelam a fragilidade    da civiliza&ccedil;&atilde;o moderna&#187; (pp. 16-17).     <p align="justify">      <p align="justify">Se comecei a recens&atilde;o de um livro com a recapitula&ccedil;&atilde;o    de notas que subscrevi sobre uma outra obra, &eacute; evidentemente por me permitirem    situar as continuidades e os progressos das ideias que Eisenstadt elaborou durante    d&eacute;cadas e que, vai para vinte anos, organizou e nos confiou para a edi&ccedil;&atilde;o    portuguesa. A continuidade cronol&oacute;gica &eacute; quase perfeita, tratando-se    agora de textos publicados entre 1992 e 2006 (a maioria deles, contudo, em 2002),    al&eacute;m do curto mas substantivo pref&aacute;cio escrito especialmente para    a edi&ccedil;&atilde;o portuguesa. Mais importante, a continuidade te&oacute;rica    e problem&aacute;tica &eacute; completa, n&atilde;o no sentido de uma redund&acirc;ncia,    mas no de um mais pleno desenvolvimento de ideias seminais que ficaram lan&ccedil;adas    em <I>A Din&acirc;mica das Civiliza&ccedil;&otilde;es</I> &#151; particularmente    as condensadas nas &#171;Considera&ccedil;&otilde;es finais&#187;, cap&iacute;tulo    que quase poderia figurar como introdu&ccedil;&atilde;o a <I>M&uacute;ltiplas    Modernidades</I>. &Agrave; pluralidade e &agrave; abertura das solu&ccedil;&otilde;es    hist&oacute;ricas, em v&aacute;rias sociedades, da tens&atilde;o entre a expans&atilde;o    hegem&oacute;nica da grande tradi&ccedil;&atilde;o moderna e a reelabora&ccedil;&atilde;o    selectiva das tradi&ccedil;&otilde;es preexistentes sucedeu um esfor&ccedil;o    te&oacute;rico para explorar sistematicamente os factores da multiplica&ccedil;&atilde;o    dos tipos de modernidade e para propor um conceito de modernidade que permita    abranger alguns dos desenvolvimentos mais recentes e cr&iacute;ticos do mundo    contempor&acirc;neo e globalizado. Para isso, sobre um pano de fundo conceptual    que permanece fundamentalmente o mesmo, sobressaem agora com maior &ecirc;nfase    os temas do conflito e das formas pol&iacute;ticas de regula&ccedil;&atilde;o    (j&aacute; abordado em <I>Os Regimes Democr&aacute;ticos: Fragilidade, Continuidade    e Transformabilidade,</I> publicado em 2000 pela Celta), da dissocia&ccedil;&atilde;o    e tens&atilde;o entre a racionalidade formal e orientada para fins (<I>Zweckrationalit&auml;t</I>)    e a racionalidade orientada para valores (<I>Wertrationalit&auml;t</I>) e do    paradoxal substrato moderno dos movimentos fundamentalistas explicitamente antimodernos    (tema tamb&eacute;m de <I>Fundamentalismo e Modernidade: Heterodoxias, Utopismo    e Jacobinismo na Constitui&ccedil;&atilde;o dos Movimentos Fundamentalistas</I>,    publicado igualmente pela Celta em 1997). Nesta continuidade e nestas novas    acentua&ccedil;&otilde;es se desenvolve o argumento de <I>M&uacute;ltiplas Modernidades.</I></p>     <p align="justify">De facto, embora se trate de uma colect&acirc;nea de artigos    que podem ser lidos autonomamente, estes textos constituem, na ordena&ccedil;&atilde;o    agora adoptada, um argumento coerente &#151; embora, inevitavelmente, a forma    de colect&acirc;nea gere uma s&eacute;rie de repeti&ccedil;&otilde;es de fundamentos    te&oacute;ricos, de elabora&ccedil;&atilde;o dos problemas e de alguns dos elementos    hist&oacute;ricos analisados entre os v&aacute;rios cap&iacute;tulos. Argumento    expresso na linguagem, literariamente simples mas conceptualmente densa, caracter&iacute;stica    do autor; tradu&ccedil;&atilde;o delicada e exigente por cujo resultado final    cumpre felicitar Susana Serras Pereira.</p>     <p align="justify">Assim, o primeiro cap&iacute;tulo (&#171;M&uacute;ltiplas modernidades:    problem&aacute;tica e enquadramento de base&#187;) coloca os problemas e as    premissas de base numa formula&ccedil;&atilde;o originariamente publicada em    2002 mas revista pelo autor para esta edi&ccedil;&atilde;o. Retomando o fio    dos seus escritos anteriores, postula que &#171;a modernidade deve ser vista    como um tipo novo e distinto de civiliza&ccedil;&atilde;o, de modo n&atilde;o    muito diferente do da forma&ccedil;&atilde;o e expans&atilde;o das grandes religi&otilde;es    [&#133;] um programa cultural distinto, combinado com o desenvolvimento de um    conjunto ou conjuntos de novas forma&ccedil;&otilde;es institucionais, caracterizado    por uma `abertura' e incerteza sem precedentes&#187; (p. 19), em que as din&acirc;micas    e movimentos de protesto passaram de fen&oacute;menos marginais a &#171;elementos    b&aacute;sicos do simbolismo social e pol&iacute;tico do centro societal&#187;    (p. 21).</p>     <p align="justify">Se, indiscutivelmente, a diferencia&ccedil;&atilde;o estrutural    e o desenvolvimento de arenas institucionais aut&oacute;nomas constituem tra&ccedil;os    comuns e definidores da moderniza&ccedil;&atilde;o, o grau de diferencia&ccedil;&atilde;o    estrutural, o grau de defini&ccedil;&atilde;o e de estrutura&ccedil;&atilde;o    de novas arenas institucionais reguladas por valores espec&iacute;ficos e os    padr&otilde;es de conflito e de regula&ccedil;&atilde;o dos conflitos da&iacute;    decorrentes s&atilde;o vari&aacute;veis entre as diversas sociedades modernas    e em cada sociedade ao longo do tempo. A sua varia&ccedil;&atilde;o &eacute;    fortemente influenciada pelos tipos espec&iacute;ficos de interpreta&ccedil;&atilde;o    cultural e pol&iacute;tica das premissas civilizacionais b&aacute;sicas do &#171;programa    cultural da modernidade&#187; em disputa no interior de cada sociedade.</p>     <p align="justify">Contra as teorias lineares da moderniza&ccedil;&atilde;o como    expans&atilde;o uniformizadora e hegem&oacute;nica de um padr&atilde;o civilizacional    &#171;ocidental&#187;, sustenta assim que &#171;as v&aacute;rias arenas institucionais    aut&oacute;nomas modernas &#151; econ&oacute;mica, pol&iacute;tica, educativa    e familiar &#151; se regulam e interagem de modos diferentes em diferentes sociedades,    em fun&ccedil;&atilde;o dos seus per&iacute;odos hist&oacute;ricos&#187; (pp.    15-16). Em resultado das diversas combina&ccedil;&otilde;es destes elementos    e das tens&otilde;es criadas pelas diferentes formas de os concretizar, numa    civiliza&ccedil;&atilde;o em forte expans&atilde;o e erodindo, mas n&atilde;o    simplesmente aniquilando, as premissas institucionais e simb&oacute;licas das    sociedades que nela se incorporaram &#171;surgiu uma grande variedade de sociedades    modernas ou em processo de moderniza&ccedil;&atilde;o, tendo muitas caracter&iacute;sticas    comuns, mas evidenciando tamb&eacute;m grandes diferen&ccedil;as entre si&#187;    (p. 37), cujos &#171;programas culturais e institucionais [&#133;] implicam    diferentes interpreta&ccedil;&otilde;es e reformula&ccedil;&otilde;es profundas    do programa inicial da modernidade, suas concep&ccedil;&otilde;es e premissas    b&aacute;sicas&#187; (p. 42): <I>m&uacute;ltiplas modernidades</I>.</p>     <p align="justify">Em suma, o mundo contempor&acirc;neo e a pr&oacute;pria hist&oacute;ria    da modernidade s&atilde;o mais bem entendidos, n&atilde;o como um &#171;fim    da hist&oacute;ria&#187;, uma completa&ccedil;&atilde;o e supera&ccedil;&atilde;o    do projecto moderno, nem como um &#171;choque de civiliza&ccedil;&otilde;es&#187;    em que a civiliza&ccedil;&atilde;o moderna se veria confrontada com uma reac&ccedil;&atilde;o    de civiliza&ccedil;&otilde;es pr&eacute;-modernas, mas antes &#171;enquanto    hist&oacute;ria da permanente forma&ccedil;&atilde;o, constitui&ccedil;&atilde;o,    reconstitui&ccedil;&atilde;o e desenvolvimento de modernidades m&uacute;ltiplas,    fluidas e muitas vezes contestadas ou conflituosas&#187; (p. 14), com diversos    programas pol&iacute;ticos e culturais cujas tens&otilde;es e antinomias &#171;implicaram    o correlativo desenvolvimento, nas sociedades modernas, de for&ccedil;as bastante    destrutivas&#187; (p. 46). </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="justify">Os restantes quatro cap&iacute;tulos s&atilde;o outras tantas    concretiza&ccedil;&otilde;es das perspectivas e dos instrumentos anal&iacute;ticos    sobre problemas historicamente situados que o autor considera exemplos cr&iacute;ticos    do desenvolvimento de m&uacute;ltiplas modernidades.</p>     <p align="justify">Come&ccedil;a por uma an&aacute;lise comparativa do que considera    terem sido os primeiros exemplos hist&oacute;ricos desse processo na constitui&ccedil;&atilde;o    dos Estados do continente americano (&#171;As primeiras <I>m&uacute;ltiplas    modernidades</I>: identidades colectivas, esfera p&uacute;blica e ordem pol&iacute;tica    nas Am&eacute;ricas&#187;). Os casos dos Estados Unidos, do Canad&aacute; e    dos Estados latino-americanos surgem com um car&aacute;cter quase experimental,    por se tratar de processos hist&oacute;ricos paralelos de cristaliza&ccedil;&atilde;o    de padr&otilde;es institucionais enraizados na modernidade europeia e ocidental,    nos quais surgiram &#171;n&atilde;o apenas varia&ccedil;&otilde;es locais do    modelo ou modelos europeus, mas padr&otilde;es ideol&oacute;gicos e institucionais    completamente novos&#187; (p. 51). A detec&ccedil;&atilde;o de diferen&ccedil;as    profundas nos padr&otilde;es de modernidade que vieram a constituir-se nesses    novos contextos hist&oacute;rico-geogr&aacute;ficos, a partir de diferen&ccedil;as    iniciais que n&atilde;o seriam mais do que varia&ccedil;&otilde;es limitadas    de uma vis&atilde;o iluminista europeia, estabelece dois pontos fundamentais    do argumento geral. O primeiro &eacute; que de pormenores significativos das    configura&ccedil;&otilde;es institucionais de base europeia, cruzados com as    novas circunst&acirc;ncias da sua aplica&ccedil;&atilde;o (as formas de representa&ccedil;&atilde;o    de interesses entre centros europeus e col&oacute;nias, as rela&ccedil;&otilde;es    entre colonos e povos nativos e a consequente reformula&ccedil;&atilde;o das    fronteiras identit&aacute;rias), geraram diferen&ccedil;as civilizacionais fundamentais    e de grande alcance, mesmo no contexto lato da civiliza&ccedil;&atilde;o ocidental.    O segundo ponto, impl&iacute;cito mas directamente infer&iacute;vel do anterior,    &eacute; que tais diferen&ccedil;as na estrutura&ccedil;&atilde;o das civiliza&ccedil;&otilde;es    modernas n&atilde;o poderiam deixar de se acentuar quando as premissas civilizacionais    de base fossem ainda mais distintas do que as varia&ccedil;&otilde;es de pormenor    que clivaram as matrizes origin&aacute;rias da Europa ocidental e da cristandade    &#151; abrindo assim a porta ao pr&oacute;ximo passo do argumento.</p>     <p align="justify">Deste pr&oacute;ximo passo se encarregam dois outros cap&iacute;tulos:    &#171;Modernidades em reverso&#187;, an&aacute;lise comparada dos padr&otilde;es    de protesto e da forma&ccedil;&atilde;o de identidades colectivas entre os Estados    Unidos, o Jap&atilde;o e a Europa, e &#171;A estrutura&ccedil;&atilde;o do protesto    social nas sociedades modernas&#187;, an&aacute;lise mais alargada de como as    premissas culturais de base, as configura&ccedil;&otilde;es sociais e institucionais    das elites e as posi&ccedil;&otilde;es no sistema pol&iacute;tico mundial em    evolu&ccedil;&atilde;o se combinaram para gerar distintos padr&otilde;es de    protesto nas diversas civiliza&ccedil;&otilde;es modernas (retomando explicitamente    a cl&aacute;ssica quest&atilde;o de Sombart sobre a irrelev&acirc;ncia do movimento    socialista nos Estados Unidos). Aponte-se que este &uacute;ltimo cap&iacute;tulo,    publicado em 1992, &eacute; o &#171;decano&#187; da reflex&atilde;o aqui apresentada,    levando a pensar que, mais do que uma concretiza&ccedil;&atilde;o da problem&aacute;tica    te&oacute;rica, poderemos estar perante uma das explora&ccedil;&otilde;es fundadoras    dessa problem&aacute;tica, na continuidade de <I>A Din&acirc;mica das Civiliza&ccedil;&otilde;es</I>.    A isso convidam, quer a centralidade dos padr&otilde;es e movimentos de protesto    na vis&atilde;o eisenstadtiana da modernidade, que utiliza os modos de protesto    e da sua regula&ccedil;&atilde;o como um indicador fundamental das diferen&ccedil;as    das sociedades modernas, quer o pr&oacute;prio subt&iacute;tulo do cap&iacute;tulo,    &#171;Os limites e a direc&ccedil;&atilde;o da converg&ecirc;ncia&#187;.</p>     <p align="justify">O &uacute;ltimo cap&iacute;tulo, &#171;Transforma&ccedil;&atilde;o    e transposi&ccedil;&atilde;o das m&uacute;ltiplas modernidades na &eacute;poca    da globaliza&ccedil;&atilde;o&#187;, n&atilde;o s&oacute; alarga ainda mais    a concretiza&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica, mas tamb&eacute;m, e de modo    menos &oacute;bvio, avan&ccedil;a um novo, decisivo e qui&ccedil;&aacute; o    mais contest&aacute;vel passo no argumento te&oacute;rico e no alcance da problem&aacute;tica    fundadora. Este texto recente, publicado em 2006, questiona as mudan&ccedil;as    civilizacionais que se desencadearam com a globaliza&ccedil;&atilde;o dos mercados    e dos sistemas de comunica&ccedil;&atilde;o e de conhecimento, com o surgimento    de quadros institucionais alternativos em competi&ccedil;&atilde;o com o Estado-na&ccedil;&atilde;o    e o Estado revolucion&aacute;rio socialista, ambos de matriz iluminista ocidental,    e com a emerg&ecirc;ncia de novos temas e movimentos de protesto &#171;p&oacute;s-modernos&#187;,    &#171;p&oacute;s-materialistas&#187;, &#171;fundamentalistas&#187; e mesmo agressivamente    &#171;antimodernos&#187;. O desafio que o autor aqui se coloca n&atilde;o &eacute;    apenas uma continua&ccedil;&atilde;o dos anteriores, &eacute;-lhes de facto    superior numa ordem de magnitude: o de reconduzir a uma combinat&oacute;ria    distinta de premissas b&aacute;sicas da modernidade &#151; e portanto a outras    e diferentes formas de multiplicidade desta &#151; fen&oacute;menos como os    novos fundamentalismos religiosos e pol&iacute;ticos, como os novos padr&otilde;es    de protesto que visam a contesta&ccedil;&atilde;o radical das pr&oacute;prias    premissas da modernidade, alimentando-se da eros&atilde;o dos &#171;marcadores    de certeza&#187; e da universalidade da raz&atilde;o, como a obsolesc&ecirc;ncia    da tipologia moderna dos Estados, minada a um tempo pelo desenvolvimento de    mercados, institui&ccedil;&otilde;es, identidades colectivas e movimentos de    protesto transnacionais, de tens&otilde;es regionalistas e particularistas,    e pela descren&ccedil;a crescente na vis&atilde;o do progresso de base racional,    cient&iacute;fica e tecnol&oacute;gica incorporada na ideologia dos Estados    modernos.</p>     <p align="justify">A resposta a este desafio encontra-a o autor na recondu&ccedil;&atilde;o    destes desenvolvimentos contradit&oacute;rios &agrave; dimens&atilde;o ut&oacute;pica    e escatol&oacute;gica inerente ao projecto da modernidade: o da realiza&ccedil;&atilde;o    terrena de uma ordem transcendente, tendo a arena pol&iacute;tica e a esfera    p&uacute;blica como meios centrais da ac&ccedil;&atilde;o transformadora. &#171;Acima    de tudo muitos movimentos fundamentalistas partilham com as grandes revolu&ccedil;&otilde;es    a cren&ccedil;a no primado da pol&iacute;tica [&#133;] ou pelo menos a cren&ccedil;a    na ac&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica por uma vis&atilde;o religiosa da reconstru&ccedil;&atilde;o    holista da sociedade [&#133;] Na verdade, a heran&ccedil;a ideol&oacute;gica    e pol&iacute;tica das revolu&ccedil;&otilde;es, representando a vit&oacute;ria    das tentativas gn&oacute;sticas de trazer &agrave; Terra o Reino dos C&eacute;us,    constitui o la&ccedil;o vital entre o programa cultural e pol&iacute;tico da    modernidade e os movimentos fundamentalistas&#187; (p. 138), que se aproveitam    selectivamente de aspectos da cultura moderna e das suas implica&ccedil;&otilde;es    institucionais, nomeadamente pela &#171;apropria&ccedil;&atilde;o das dimens&otilde;es    mobilizadoras e participat&oacute;rias do programa pol&iacute;tico moderno e    das suas forma&ccedil;&otilde;es institucionais b&aacute;sicas [&#133;] ao mesmo    tempo que negam a sua legitimidade em termos `seculares', sobretudo em nome    da raz&atilde;o `fria' e da autonomia individual&#187; (p. 139) (tal como, reciprocamente,    a expans&atilde;o da civiliza&ccedil;&atilde;o moderna se apropria selectivamente    de aspectos das culturas e institui&ccedil;&otilde;es tradicionais, minando-lhes    a legitimidade particularista). Para melhor perceber este ponto conv&eacute;m    regressar por um momento &agrave;s bases te&oacute;ricas lan&ccedil;adas no    primeiro cap&iacute;tulo, onde se afirma que, longe de constituir algo oposto    &agrave; ideia de modernidade, &#171;a ideologiza&ccedil;&atilde;o da viol&ecirc;ncia,    do terror e da guerra [&#133;] tornou-se a mat&eacute;ria-prima mais importante    da constru&ccedil;&atilde;o dos Estados modernos&#187; (p. 47). O cr&iacute;tico,    por&eacute;m, n&atilde;o pode deixar de notar que essa ideologiza&ccedil;&atilde;o    da viol&ecirc;ncia apenas teve esse papel na medida em que a legitimidade pol&iacute;tica    do exerc&iacute;cio dessa viol&ecirc;ncia passara a ser monopolizada pelo Estado,    como um dos pilares da pr&oacute;pria defini&ccedil;&atilde;o de Estado moderno,    ao inv&eacute;s das suas reapropria&ccedil;&otilde;es por alguns movimentos    fundamentalistas contempor&acirc;neos.</p>     <p align="justify">Este programa de investiga&ccedil;&atilde;o que Eisenstadt    denominou <I>m&uacute;ltiplas modernidades</I> &eacute; incontestavelmente um    desenvolvimento da reflex&atilde;o sociol&oacute;gica e hist&oacute;rica sobre    a modernidade &#151; no fundo, a grande problem&aacute;tica fundadora da pr&oacute;pria    sociologia, a raz&atilde;o maior para esta se manter fiel &agrave; vis&atilde;o    hist&oacute;rica e comparativa dos seus autores cl&aacute;ssicos. Se esta problem&aacute;tica    fundadora se ossificou, aqui e ali, em grandes narrativas da moderniza&ccedil;&atilde;o,    ou em quadros te&oacute;ricos reificando a modernidade como uma entidade quase    metaf&iacute;sica, n&atilde;o &eacute; menos certo que as reflex&otilde;es sociol&oacute;gicas    mais recentes t&ecirc;m tendido a estilha&ccedil;ar esses quadros. Nesse questionamento,    a vis&atilde;o hist&oacute;rica e comparativa de Eisenstadt foi certamente pioneira.    Os ensaios reunidos neste volume e o argumento a eles subjacente afirmam a necessidade    de substituir a grande narrativa da modernidade por uma metanarrativa te&oacute;rica    e comparativa das combina&ccedil;&otilde;es de factores que geram a multiplicidade    hist&oacute;rica das modernidades, tornando o conceito ao mesmo tempo mais d&uacute;ctil    e mais exigente nas suas especifica&ccedil;&otilde;es emp&iacute;ricas.</p>     <p align="justify">Enquanto desenvolvimento do programa de investiga&ccedil;&atilde;o    anterior, o que acima designei como o segundo passo do argumento &#151; a an&aacute;lise    comparativa entre as modernidades europeia, do continente americano e do Jap&atilde;o    &#151; afigura-se uma via teoricamente consistente, abrindo vias para analisar    os padr&otilde;es de modernidade emergentes noutras regi&otilde;es, como a &Iacute;ndia    e a China. Menos pac&iacute;fico se afigura o terceiro passo. &Eacute;, sem    d&uacute;vida, aliciante a subtileza te&oacute;rica com que resolve o aparente    paradoxo de encarar como parte integrante da modernidade e da sua expans&atilde;o    &#151; e n&atilde;o s&oacute; como seus efeitos, o que seria menos inovador    e mais dificilmente contest&aacute;vel &#151; o tipo de fen&oacute;menos fundamentalistas    que programaticamente se lhe op&otilde;em, frequentemente com viol&ecirc;ncia    (e, sendo o autor um democrata israelita, dificilmente podemos deixar de ter    como referentes tanto o fundamentalismo judaico, que assassinou Rabin, quanto    o fundamentalismo isl&acirc;mico, que certamente o teria feito, se pudesse).    &Eacute; mobilizadora a ideia de que &#171;o paradigma emergente de m&uacute;ltiplas    modernidades fornece um esquema para a an&aacute;lise e, em &uacute;ltima inst&acirc;ncia,    para a coexist&ecirc;ncia pac&iacute;fica destas diferen&ccedil;as numa era    de condi&ccedil;&otilde;es globais comuns [&#133;]&#187; (p. 48). Essa mesma    ductilidade, entretanto, e a busca de extens&atilde;o do campo de aplica&ccedil;&atilde;o    do conceito de modernidade at&eacute; este tipo de fen&oacute;menos levam a    perguntar quanto de uma casa pode cair at&eacute; deixar de ser uma casa (&eacute;,    deste ponto de vista, interessante que o conceito de colapso da moderniza&ccedil;&atilde;o,    ass&iacute;duo em <I>A Din&acirc;mica das Civiliza&ccedil;&otilde;es,</I> se    tenha agora desvanecido) &#151; e em que medida os elementos dos movimentos    fundamentalistas antiocidentais que Eisenstadt caracteriza como modernos s&atilde;o    vigas mestras suficientes para conduzir, atrav&eacute;s de institui&ccedil;&otilde;es    pol&iacute;ticas e de vis&otilde;es culturais modernas, uma coexist&ecirc;ncia    pac&iacute;fica das diferen&ccedil;as. Tal &eacute; talvez o principal terreno    de debate intelectual e pol&iacute;tico que torna indispens&aacute;vel a leitura    destes textos sociol&oacute;gicos.</p>      <P>Rui Santos</p>     <p>Faculdade de Ci&ecirc;ncias Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa</p>       ]]></body>
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