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</front><body><![CDATA[ <P align="justify"><I>Katherine</I> <I>Donahue, </I><B>Slave of Allah: Zacarias    Moussaoui <I>vs.</I> The USA,</B> Londres, Ann Arbor, Pluto Press, 2007, 224    p&aacute;ginas.</P>      <p>&nbsp;</p>      <P align="justify"><I>Slave of Allah</I>, o mais recente livro de Katherine Donahue,    pretende ser, como o pr&oacute;prio subt&iacute;tulo sugere, uma pesquisa sobre    o processo judicial que op&ocirc;s Zacarias Moussaoui ao estado norte-americano.    Moussaoui &eacute; um cidad&atilde;o franc&ecirc;s de ascend&ecirc;ncia marroquina    que, como muitos se recordar&atilde;o, a seguir ao 11 de Setembro de 2001, no    auge das buscas por colaboradores e c&uacute;mplices na organiza&ccedil;&atilde;o    e perpetra&ccedil;&atilde;o dos atentados &agrave;s Torres G&eacute;meas de    Nova Iorque, foi o &uacute;nico indiciado e condenado (por oculta&ccedil;&atilde;o    de informa&ccedil;&atilde;o, j&aacute; que nunca se provou a liga&ccedil;&atilde;o    aos atentados de 11 de Setembro).</P>     <p align="justify">O &#171;vig&eacute;simo `hijacker'&#187; (dos 19 envolvidos),    como ficou conhecido, foi acusado de conspirar com Osama bin Laden e a <I>Al-Qaeda</I>    &#171;to murder thousands of innocent people in New York, Virginia and Pennsylvania    on September the 11th&#187; (Ashcroft, 2001, <I>in</I> Donahue, 2007, p. 1).    Segundo o procurador-geral do departamento de Justi&ccedil;a norte-americano,    John Ashcroft, as acusa&ccedil;&otilde;es contra Zacarias eram: &#171;[...]    one, commit acts of terrorism transcending national boundaries; two, commit    aircraft piracy; three, destroy aircraft; four, use weapons of mass destruction.    The other two accounts were conspiracy to: five, murder United States employees,    and six, destroy property&#187; (Donahue, 2007, p. 1).</P>     <p align="justify">O intuito do livro de Katherine C. Donahue &eacute;, pois,    produzir uma etnografia sobre este t&atilde;o mediatizado processo judicial.    Atrav&eacute;s dele, procura perceber as din&acirc;micas por detr&aacute;s da    ades&atilde;o e participa&ccedil;&atilde;o deste cidad&atilde;o franc&ecirc;s,    com um elevado grau de instru&ccedil;&atilde;o (um mestrado em <I>international    business</I>), em movimentos militantes. Atrav&eacute;s de um exerc&iacute;cio    metodol&oacute;gico em tudo id&ecirc;ntico ao &#171;cl&aacute;ssico&#187; estudo    de caso etnogr&aacute;fico, a autora procura fazer uma reflex&atilde;o mais    geral que poderia ser resumida com as quest&otilde;es que coloca logo no in&iacute;cio    do livro: &#171;why is there so much alienation and discontent among young Muslim    men and women living in the West? Why do hundreds, even thousands, of people    in North America and in Europe join fundamentalist islamic groups which offer    them a role in the global jihad?&#187; (Donahue, p. 6).</P>     <p align="justify">O argumento central aponta para a rela&ccedil;&atilde;o entre    exclus&atilde;o e radicaliza&ccedil;&atilde;o, rela&ccedil;&atilde;o que &eacute;,    ali&aacute;s, frequentemente real&ccedil;ada em algumas das pesquisas sobre    o tema. Perante a impossibilidade de concretizar as suas expectativas devido    ao racismo e exclus&atilde;o em Fran&ccedil;a (que bloquearam o seu percurso    de ascens&atilde;o social), Moussaoui emigrou para Londres. Aqui completou os    seus estudos e, simultaneamente, aproximou-se dos &#171;movimentos militantes&#187;    e das suas ideologias.</P>     <p align="justify">A explica&ccedil;&atilde;o para a radicaliza&ccedil;&atilde;o    de Moussaoui encontra-se assim, segundo Donahue, nos processos de exclus&atilde;o    social que o impediram de aceder aos sonhos que ent&atilde;o acalentava. Perante    uma mobilidade social bloqueada, Zacarias ter&aacute; progressivamente substitu&iacute;do    um sonho por um outro, associado a um isl&atilde;o &#171;radical&#187;, &#171;fundamentalista&#187;    e militante.</P>     <p align="justify">Tais ideias v&atilde;o-se tornando evidentes &agrave; medida    que lemos este minucioso trabalho etnogr&aacute;fico. Os tr&ecirc;s primeiros    cap&iacute;tulos s&atilde;o uma descri&ccedil;&atilde;o densa do processo judicial    desde o seu in&iacute;cio, em 2002, at&eacute; &agrave; senten&ccedil;a final,    em 2006. No primeiro cap&iacute;tulo, &#171;The legal process begins&#187;,    descrevem-se as circunst&acirc;ncias que levaram &agrave; pris&atilde;o de Zacarias    Moussaoui, as audi&ecirc;ncias preliminares, a elabora&ccedil;&atilde;o da acusa&ccedil;&atilde;o    e documenta&ccedil;&atilde;o relativa ao processo, bem como as reac&ccedil;&otilde;es    da imprensa. Em causa estava a prepara&ccedil;&atilde;o do processo, judicial    contra Zacarias Moussaoui pelo Minist&eacute;rio P&uacute;blico.</P>     <p align="justify">No cap&iacute;tulo seguinte, &#171;Slave of Allah: Zacarias    Moussaoui's struggle to represent himself&#187;, Donahue mostra como, ao longo    do processo, Moussaoui procurou apresentar-se como representante da <I>Ummah</I>    (conceito que remete para a exist&ecirc;ncia de uma comunidade isl&acirc;mica    global), mais concretamente a parte jihadista da <I>Ummah</I>, perante o poder    judicial americano. A forma como era representado nos pa&iacute;ses e regi&otilde;es    de maioria isl&acirc;mica constitu&iacute;a a principal preocupa&ccedil;&atilde;o    de Zacarias.</P>     <p align="justify">Em &#171;Courtroom 700, Alexandria, Virginia&#187;, o leitor    &eacute; levado a acompanhar o dia a dia do processo judicial. A escolha do    j&uacute;ri, a audi&ccedil;&atilde;o das testemunhas de defesa e de acusa&ccedil;&atilde;o,    a senten&ccedil;a (pris&atilde;o perp&eacute;tua no estabelecimento prisional    federal conhecido como <I>Administrative Maximum Facility</I>) e as reac&ccedil;&otilde;es    dos espectadores e da imprensa s&atilde;o alguns dos temas abordados.</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="justify">Uma vez terminada a descri&ccedil;&atilde;o de todo o processo,    a autora prop&otilde;e-se ent&atilde;o fazer uma hist&oacute;ria de vida do    &#171;vig&eacute;simo `hijacker'&#187;. Para tal, recorreu sobretudo aos materiais    produzidos em tribunal, onde a hist&oacute;ria de vida do acusado foi pormenorizadamente    dissecada, e &agrave; anterior experi&ecirc;ncia de trabalho de campo em Fran&ccedil;a    no final dos anos 80 (foi o facto de Zacarias ser oriundo da regi&atilde;o onde    tinha trabalhado anteriormente que motivou a autora a realizar esta pesquisa).    Tal exerc&iacute;cio come&ccedil;a no quarto cap&iacute;tulo, &#171;Zacarias    my brother: the making of a terrorist&#187;, atrav&eacute;s de uma viagem ao    passado de Moussaoui e das circunst&acirc;ncias que o levaram da Fran&ccedil;a    ao Afeganist&atilde;o e, finalmente, aos EUA. As quest&otilde;es centrais s&atilde;o    os desapontamentos e as desilus&otilde;es que o levaram a uma progressiva islamiza&ccedil;&atilde;o    e mais tarde a aderir a movimentos militantes. </P>     <p align="justify">No quinto cap&iacute;tulo, &#171;Why can't they be more french?&#187;,    todo este trajecto (de vida e viagens) &eacute; pensado por rela&ccedil;&atilde;o    aos processos de marginaliza&ccedil;&atilde;o a que o acusado esteve sujeito    em Fran&ccedil;a. Analisando as pol&iacute;ticas francesas de cidadania, torna-se    evidente a exclus&atilde;o que sofrem os jovens franceses de ascend&ecirc;ncia    marroquina e, no geral, &#171;magrebina&#187;. &Eacute; neste contexto que o    leitor &eacute; levado a interpretar a hist&oacute;ria de vida de Moussaoui    e a sua fr&aacute;gil posi&ccedil;&atilde;o estrutural.</P>     <p align="justify">A sua ades&atilde;o a um isl&atilde;o sem fronteiras nacionais,    descrito no sexto cap&iacute;tulo, &#171;Islam without borders&#187;, &eacute;    vista, precisamente, como uma reac&ccedil;&atilde;o &agrave;queles entraves.    Ao renegar a cidadania francesa e aderir a uma ideologia religiosa transnacional,    Zacarias estava a reflectir os pr&oacute;prios debates sobre a exist&ecirc;ncia    de um isl&atilde;o franc&ecirc;s ou um isl&atilde;o em Fran&ccedil;a. Aqui confrontam-se    dois universalismos: o republicanismo e um isl&atilde;o sem fronteiras. Este    &uacute;ltimo questiona os limites do Estado-na&ccedil;&atilde;o e, como tal,    &eacute; demonizado e classificado como um &#171;perigo&#187;.</P>     <p align="justify">O cap&iacute;tulo seguinte, &#171;By word and bullet: language    and symbolic violence&#187;, pretende ser uma reflex&atilde;o sobre a efic&aacute;cia    das ret&oacute;ricas de muitos destes movimentos &#171;radicais&#187;. Para    Donahue, para al&eacute;m da exclus&atilde;o e marginaliza&ccedil;&atilde;o    social e racial a que Moussaoui tinha sido sujeito ao longo da vida, &eacute;    necess&aacute;rio tamb&eacute;m levar em linha de conta a atrac&ccedil;&atilde;o    que estes movimentos exercem sobre os jovens mu&ccedil;ulmanos europeus que    se encontram em circunst&acirc;ncias semelhantes. Para tal, a autora recorre    &agrave; no&ccedil;&atilde;o de viol&ecirc;ncia simb&oacute;lica de Pierre Bourdieu    com o intuito de mostrar o qu&atilde;o &#171;eficazes&#187; muitos destes movimentos    conseguem ser.</P>     <p align="justify">Finalmente, no &uacute;ltimo cap&iacute;tulo, intitulado &#171;What    the west should learn from the case of Zacarias Moussaoui&#187;, a autora chama    a aten&ccedil;&atilde;o do leitor para aquilo que o &#171;Ocidente&#187; deveria    aprender com este caso. Mais concretamente, a decis&atilde;o de estes jovens,    os &#171;novos m&aacute;rtires de Allah&#187;, se tornarem militantes religiosos    e as medidas pol&iacute;ticas necess&aacute;rias para impedir tais decis&otilde;es.    Uma das conclus&otilde;es fundamentais &eacute; a necessidade de reconhecer    que estes jovens s&atilde;o europeus e, neste sentido, a possibilidade de ac&ccedil;&atilde;o    sobre estes universos n&atilde;o passa pela criminaliza&ccedil;&atilde;o da    imigra&ccedil;&atilde;o. O que importa perceber s&atilde;o as causas de t&atilde;o    grandes ressentimentos, argumenta Donahue.</P>     <p align="justify">Chegados ao fim desta obra, n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel    deixar de pensar nas in&uacute;meras publica&ccedil;&otilde;es que se prop&otilde;em    abordar tais problem&aacute;ticas, especialmente sobre os mu&ccedil;ulmanos    e o isl&atilde;o, algumas das quais t&ecirc;m contribu&iacute;do para o refor&ccedil;o    das ideias hegem&oacute;nicas (e islam&oacute;fobas!) acerca dos mu&ccedil;ulmanos    enquanto alteridade e o &#171;irredutivelmente&#187; outro (retratos, ali&aacute;s,    formatados por discursos de inspira&ccedil;&atilde;o orientalista e colonial).    Para alguns, teremos de procurar no isl&atilde;o a explica&ccedil;&atilde;o    primeira para as ac&ccedil;&otilde;es violentas e actos hediondos perpetrados    por muitos. Para outros, tais actos ser&atilde;o apenas o reflexo de um &#171;choque    de civiliza&ccedil;&otilde;es&#187;.</P>     <p align="justify">O livro de Donahue distancia-se destas abordagens e aproxima-se    de discuss&otilde;es e argumentos um pouco mais s&eacute;rios. De facto, o que    a autora mostra &eacute; que, se queremos perceber por que &eacute; que h&aacute;    jovens que aderem a movimentos pol&iacute;ticos militantes (movimentos esses    que recorrem a argumentos religiosos como forma de inspira&ccedil;&atilde;o),    n&atilde;o devemos procurar na religi&atilde;o o factor explicativo, mas sim    nas circunst&acirc;ncias (marginaliza&ccedil;&atilde;o, racismo, mobilidade    social bloqueada, etc.) que rodeiam muitos destes jovens. Dito isto, &eacute;    importante reter que n&atilde;o s&atilde;o os mais desprovidos e exclu&iacute;dos    que aderem a estes movimentos, mas sim aqueles que cresceram em meios educacional    e economicamente capitalizados &#151; Zacarias &eacute; oriundo de uma fam&iacute;lia    de classe m&eacute;dia &#151; e que se confrontam com barreiras (exclus&atilde;o    e marginaliza&ccedil;&atilde;o) que bloqueiam o acesso &agrave;s suas expectativas.</P>     <p align="justify">Embora n&atilde;o seja teoricamente inovador (de resto, a autora    poupa-nos a grandes extrapola&ccedil;&otilde;es te&oacute;ricas), o interesse    desta obra &eacute; precisamente o excepcional trabalho etnogr&aacute;fico realizado    e revela como alguns m&eacute;todos cl&aacute;ssicos da antropologia, como o    <I>extended case method</I> de Max Gluckman, mant&ecirc;m toda a sua actualidade    para interpretar e descrever os mundos contempor&acirc;neos.</P>        <p>Jos&eacute; Mapril</P>     <p>Instituto de Ci&ecirc;ncias Sociais da Universidade de Lisboa</P>      ]]></body>
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