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</front><body><![CDATA[ <p><i>Helena Machado,</i> <b>Moralizar para identificar.   Cen&aacute;rios da Investiga&ccedil;&atilde;o Judicial da Paternidade,</b>   Porto, Edi&ccedil;&otilde;es Afrontamento, colec&ccedil;&atilde;o &quot;Saber   Imaginar o Social&quot;, 2007, 248 p&aacute;ginas.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p align="justify">Helena Machado &eacute; professora de Sociologia e directora-adjunta    do Centro de Investiga&ccedil;&atilde;o em Ci&ecirc;ncias Sociais da Universidade    do Minho. A publica&ccedil;&atilde;o de <i>Moralizar para identificar</i> resulta    de uma disserta&ccedil;&atilde;o de doutoramento defendida publicamente em 2003    e galardoada com uma men&ccedil;&atilde;o honrosa no Pr&eacute;mio CES para    Jovens Cientistas Sociais de L&iacute;ngua Oficial Portuguesa (edi&ccedil;&atilde;o    de 2005). De certo modo, esta obra representa uma primeira etapa do percurso    intelectual da autora, a qual tem desenvolvido ao longo dos &uacute;ltimos anos    investiga&ccedil;&atilde;o no &acirc;mbito dos estudos sociais da justi&ccedil;a    e dos estudos sociais da infertilidade, em particular no que diz respeito aos    impactos sociais, &eacute;ticos e pol&iacute;ticos das rela&ccedil;&otilde;es    estabelecidas entre o direito, a justi&ccedil;a, a gen&eacute;tica forense,    as tecnologias de informa&ccedil;&atilde;o e comunica&ccedil;&atilde;o, os meios    de comunica&ccedil;&atilde;o social e os cidad&atilde;os. &Eacute; autora, co-autora    e organizadora de diversos livros, nomeadamente <i>Scientific Proofs and International    Justice: the future for scientific standards in global environmental protection    and international trade </i>(2005), <i>Justi&ccedil;a Tecnol&oacute;gica: promessas    e desafios </i>(2008), <i>Manual de Sociologia do Crime</i> (no prelo), <i>O    sofrimento oculto &#8212; causas, cen&aacute;rios e viv&ecirc;ncias da infertilidade    </i>(no prelo) e <i>Gender and well-being in Europe: historical and contemporary    perspectives </i>(no prelo).</p>     <p align="justify">Este trabalho &eacute; uma das primeiras investiga&ccedil;&otilde;es    sociol&oacute;gicas realizadas em Portugal sobre as interac&ccedil;&otilde;es    entre o direito, a justi&ccedil;a e a ci&ecirc;ncia forense. O seu pioneirismo    revela-se, sobretudo, na desoculta&ccedil;&atilde;o e desconstru&ccedil;&atilde;o    do car&aacute;cter pretensamente neutro e objectivo dos discursos jur&iacute;dico-legais    e das pr&aacute;ticas judiciais quotidianas que permeiam os processos de investiga&ccedil;&atilde;o    judicial da paternidade, destacando, em particular, as restri&ccedil;&otilde;es    no exerc&iacute;cio da cidadania das mulheres neste dom&iacute;nio. O objectivo    principal consiste em &quot;captar os sentidos e significados constru&iacute;dos    pelo aparelho jur&iacute;dico portugu&ecirc;s [&#8230;] no que toca &agrave;    paternidade, &agrave; maternidade, &agrave; sexualidade, &agrave; procria&ccedil;&atilde;o    e, em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, &agrave;s normas e valores que `idealmente'    devem regular as rela&ccedil;&otilde;es &iacute;ntimas entre mulheres e homens&quot;    (p. 10).</p>     <p align="justify">A problem&aacute;tica central deste estudo &eacute; constru&iacute;da    a partir de um enquadramento social, pol&iacute;tico e cultural das l&oacute;gicas    inscritas nas leis da filia&ccedil;&atilde;o, na constru&ccedil;&atilde;o dos    la&ccedil;os de parentesco e na organiza&ccedil;&atilde;o das fam&iacute;lias    desde finais do s&eacute;culo xix at&eacute; &agrave; actualidade em Portugal,    onde o C&oacute;digo Civil de 1966 e a Reforma da Filia&ccedil;&atilde;o de    1977 se afiguram como marcos hist&oacute;ricos importantes ao admitirem, respectivamente,    a figura do Estado enquanto autor do processo judicial de investiga&ccedil;&atilde;o    de paternidade e os exames cient&iacute;ficos como meio de prova neste dom&iacute;nio.    A perspectiva sociol&oacute;gica &eacute; convocada a reflectir sobre a forma    como as especificidades nacionais se demarcam e se articulam com as tradi&ccedil;&otilde;es    legais europeias na &aacute;rea do direito da fam&iacute;lia, concluindo-se,    relativamente a este aspecto, que existe uma rela&ccedil;&atilde;o autorit&aacute;ria    entre o Estado e o sistema judicial, por um lado, e os cidad&atilde;os, por    outro, e que persiste uma dist&acirc;ncia simb&oacute;lica entre o direito erudito    e o direito &quot;vivo&quot;, no quadro de uma sociedade profundamente heterog&eacute;nea.    A pr&aacute;tica judicial de investiga&ccedil;&atilde;o da paternidade em Portugal    &eacute; perspectivada como um dos pilares de uma &quot;pol&iacute;tica da reprodu&ccedil;&atilde;o&quot;    dirigida &agrave;s mulheres, ou seja, como uma inst&acirc;ncia de controlo e    regulamenta&ccedil;&atilde;o dos comportamentos sexuais e reprodutivos femininos    levada a cabo pelo poder p&uacute;blico, cujas figuras principais s&atilde;o,    neste caso, oriundas do mundo social do direito e da ci&ecirc;ncia. Tal abordagem    alicer&ccedil;a-se em tr&ecirc;s tradi&ccedil;&otilde;es te&oacute;rico--metodol&oacute;gicas    fundamentais &#8212; a sociologia do direito, os estudos sociais da ci&ecirc;ncia    e da tecnologia e os estudos sobre as mulheres.</p>     <p align="justify">A pesquisa emp&iacute;rica que sustenta este livro tem um car&aacute;cter    qualitativo e combina tr&ecirc;s t&eacute;cnicas principais de recolha de informa&ccedil;&atilde;o:    a observa&ccedil;&atilde;o etnogr&aacute;fica de sess&otilde;es de julgamento    e de depoimentos colhidos pelos magistrados do Minist&eacute;rio P&uacute;blico    durante a fase de instru&ccedil;&atilde;o dos processos; a realiza&ccedil;&atilde;o    de entrevistas a magistrados; a an&aacute;lise documental de 1327 casos de processos    de investiga&ccedil;&atilde;o judicial de paternidade que decorreram no &quot;Tribunal    do Vale&quot; entre 1893 e 2000, assim como de doutrina e jurisprud&ecirc;ncia    publicadas nas revistas portuguesas de maior difus&atilde;o.</p>     <p align="justify">A an&aacute;lise do movimento, dura&ccedil;&atilde;o e resultados    destes processos, assim como o esbo&ccedil;o do perfil sociol&oacute;gico da    popula&ccedil;&atilde;o neles envolvida com base na idade, no estado civil,    na profiss&atilde;o declarada em tribunal e no n&iacute;vel de escolaridade    das m&atilde;es e dos pretensos pais, permitem evidenciar algumas vulnerabilidades    que restringem a cidadania das mulheres envolvidas em investiga&ccedil;&otilde;es    judiciais da paternidade, nomeadamente: (<i>a</i>) a &quot;celeridade processual&quot;;    (<i>b</i>) a maior facilidade em admitir a julgamento as mulheres jovens, eventuais    v&iacute;timas inocentes do poder de homens mais velhos ou pretensamente destitu&iacute;das    de recursos capazes de satisfazer as necessidades das crian&ccedil;as; (<i>c</i>)    um menor acesso destas mulheres ao mercado matrimonial, o que muitas vezes tem    repercuss&otilde;es na avalia&ccedil;&atilde;o moral dos seus comportamentos    sexuais, encarados com particular suspei&ccedil;&atilde;o no caso das mulheres    solteiras e cuja classifica&ccedil;&atilde;o como duvidosos se afigura como    um entrave ao reconhecimento da paternidade em tribunal; (<i>d</i>) uma subalternidade    profissional e baixos n&iacute;veis de escolaridade, o que tende a constituir    um obst&aacute;culo &agrave; obten&ccedil;&atilde;o de um resultado judicial    favor&aacute;vel. A autora conclui que, se &quot;a profiss&atilde;o das mulheres    parece ser apreciada, no contexto dos tribunais, em fun&ccedil;&atilde;o da    sua adequa&ccedil;&atilde;o ao que se entende serem as caracter&iacute;sticas    femininas ou atrav&eacute;s de avalia&ccedil;&otilde;es normativas sobre a sua    respeitabilidade, j&aacute; o elemento estado civil parece servir de base para    opor mulheres solteiras a mulheres casadas, sendo que as primeiras s&atilde;o    tendencialmente encaradas com suspei&ccedil;&atilde;o, pelas d&uacute;vidas    que despertam em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; moralidade dos seus comportamentos    sexuais&quot; (p. 118).</p>     <p align="justify">Os significados dos rituais envolvidos nas interac&ccedil;&otilde;es    corporais e nos epis&oacute;dios lingu&iacute;sticos, verbais e n&atilde;o verbais,    no contexto dos tribunais, e a respectiva inscri&ccedil;&atilde;o selectiva    nos autos dos processos judiciais enunciam as mundivid&ecirc;ncias que subjazem    &agrave;s pr&aacute;ticas profissionais quotidianas dos magistrados. Os diversos    procedimentos de avalia&ccedil;&atilde;o e classifica&ccedil;&atilde;o dos comportamentos    sexuais e reprodutivos das mulheres e dos homens est&atilde;o associados a uma    constru&ccedil;&atilde;o e aplica&ccedil;&atilde;o diferenciadas das no&ccedil;&otilde;es    dominantes de maternidade, que invocam elementos de caracteriza&ccedil;&atilde;o    psicol&oacute;gica e moral, e de paternidade, sobretudo vinculadas a factores    biogen&eacute;ticos, afigurando-se os discursos orais e escritos como instrumentos    de &quot;poder sexual&quot; (p. 140). A apar&ecirc;ncia f&iacute;sica da mulher    e o uso de uma linguagem &quot;subordinada&quot; s&atilde;o entendidos como    dois dos ind&iacute;cios directos da respectiva reputa&ccedil;&atilde;o sexual,    da qual se infere a moralidade, constituindo por isso elementos fundamentais    na constru&ccedil;&atilde;o jur&iacute;dica da feminilidade. A estas concep&ccedil;&otilde;es    subjaz um quadro normativo que, por um lado, assenta na preserva&ccedil;&atilde;o    do casamento ou da uni&atilde;o de facto institucionalizada como a base da vida    familiar e, por outro lado, estipula que a mulher deve procriar e ter rela&ccedil;&otilde;es    sexuais apenas dentro destes enquadramentos institucionais e, obviamente, apenas    com um parceiro sexual &#8212; o marido ou aquele com quem vive em uni&atilde;o    de facto.</p>     <p align="justify">As produ&ccedil;&otilde;es legislativas e os discursos orais    e escritos de magistrados em torno dos impactos criados pelos testes de ADN    no estabelecimento da paternidade constituem um objecto de estudo privilegiado    no que toca &agrave;s traject&oacute;rias e percursos da tecnologia de identifica&ccedil;&atilde;o    de indiv&iacute;duos por perfis de ADN. &Agrave; semelhan&ccedil;a do que acontece    noutros pa&iacute;ses europeus, este estudo revela uma elevada receptividade    dos magistrados portugueses ao progresso cient&iacute;fico e tecnol&oacute;gico,    assim como um crescente isomorfismo do direito e da ci&ecirc;ncia, o que refor&ccedil;ar&aacute;    a tentativa do direito em eliminar os elementos considerados subjectivos do    acto de legislar e de julgar, procurando desta forma atingir a objectividade    e a neutralidade, valores que est&atilde;o tradicionalmente associados ao acto    cient&iacute;fico. No entanto, as decis&otilde;es judiciais apoiadas neste tipo    de prova est&atilde;o condicionadas por um vi&eacute;s sexista, que faz com    que os testes de paternidade biol&oacute;gica sejam preferencialmente usados    quando as m&atilde;es apresentam comportamentos sexuais convencionais.</p>     <p align="justify">Em suma, Helena Machado mostra como a investiga&ccedil;&atilde;o    judicial da paternidade &quot;constitui uma inter-rela&ccedil;&atilde;o complexa,    h&iacute;brida e difusa entre o sistema de patriarcado, o poder judicial e o    poder cient&iacute;fico&quot; (p. 223) e se afigura como um campo f&eacute;rtil    de an&aacute;lise sociol&oacute;gica dos tribunais a n&iacute;vel interaccional,    organizacional e socioestrutural. Estes processos judiciais evidenciam a masculinidade    do direito e reafirmam desigualdades de g&eacute;nero ao operarem pela desqualifica&ccedil;&atilde;o/domina&ccedil;&atilde;o    ou supress&atilde;o do feminino, em particular quando est&atilde;o envolvidas    mulheres cujos comportamentos sexuais e reprodutivos n&atilde;o obedecem &agrave;    configura&ccedil;&atilde;o jur&iacute;dica &quot;ideal&quot; das mulheres (que    <i>dever&atilde;o </i>ser fi&eacute;is e confinar a sua actua&ccedil;&atilde;o    ao espa&ccedil;o privado), e ao veicularem uma concep&ccedil;&atilde;o biologista    da paternidade, que se sobrep&otilde;e a elementos como a preocupa&ccedil;&atilde;o    com a subsist&ecirc;ncia, a educa&ccedil;&atilde;o e a felicidade dos filhos    e a fidelidade a uma s&oacute; parceira sexual.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="justify">De particular import&acirc;ncia &eacute; a conclus&atilde;o    deste trabalho, onde o leitor pode encontrar um conjunto de propostas que visam    contribuir para a democraticidade e transpar&ecirc;ncia da justi&ccedil;a e,    em especial, para a defesa dos direitos das mulheres e das crian&ccedil;as sem    pai legalmente reconhecido, enfatizando desta forma a relev&acirc;ncia social    dos estudos sociol&oacute;gicos na prossecu&ccedil;&atilde;o de uma cidadania    justa e igualit&aacute;ria.</p>       <p>Susana Silva</p>       <p>Instituto de Ci&ecirc;ncias Sociais, Universidade do   Minho</p>         ]]></body>
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