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</front><body><![CDATA[ <p><i>G&iacute;sli P&aacute;lsson,</i> <b>Anthropology and the New   Genetics</b>, Cambridge, New York, Cambridge University Press, series   &quot;New Departures in Anthropology&quot;, no. 4, 2007, 268 p&aacute;ginas.</p>       <p>&nbsp;</p>        <p align="justify">G&iacute;sli P&aacute;lsson &eacute; professor de Antropologia    na Faculdade de Ci&ecirc;ncias Sociais da Universidade da Isl&acirc;ndia. Nos    &uacute;ltimos anos tem desenvolvido investiga&ccedil;&atilde;o sobre gen&oacute;mica,    tratando-se de um renomado especialista em impactos sociais da biotecnologia,    em particular no que concerne &agrave; recolha, armazenamento e circula&ccedil;&atilde;o    de material biol&oacute;gico humano e informa&ccedil;&atilde;o m&eacute;dica.    &Eacute; autor, co-autor e organizador de diversos livros, nomeadamente <i>The    Textual Life of Savants: Ethnography, Iceland, and the Linguistic Turn</i> (1995,    Harwood Academic Publishers), <i>Travelling Passions: The Hidden Life of Vilhjalmur    Stefansso</i> (2005, University of Manitoba Press and University Press of New    England) e <i>Nature and Society: Anthropological Perspectives</i> (1996, Routledge).</p>     <p align="justify">Detentor de vasta experi&ecirc;ncia de trabalho de campo em    contextos diversos, nomeadamente na Isl&acirc;ndia, no &Aacute;rctico canadiano    e na Rep&uacute;blica de Cabo Verde, o seu livro mais recente, <i>Anthropology    and the New Genetics,</i> resulta em boa medida de aturado trabalho etnogr&aacute;fico    num dos laborat&oacute;rios da empresa multinacional deCode, uma das companhias    l&iacute;deres mundiais em biofarm&aacute;cia e gen&eacute;tica. Conhecida pela    aplica&ccedil;&atilde;o da investiga&ccedil;&atilde;o &agrave; gen&eacute;tica    populacional no sentido de isolar os genes respons&aacute;veis por v&aacute;rias    doen&ccedil;as &#8212; desde o cancro a doen&ccedil;as cardiovasculares &#8212;    e de desenvolver novas drogas terap&ecirc;uticas, esta empresa, fundada em 1996,    em resultado de um cons&oacute;rcio entre a Isl&acirc;ndia e os Estados Unidos    da Am&eacute;rica, ganhou notoriedade internacional pela participa&ccedil;&atilde;o    no pol&eacute;mico projecto de constru&ccedil;&atilde;o de uma base de dados    gen&eacute;ticos e m&eacute;dicos de toda a popula&ccedil;&atilde;o islandesa    (aprovado em 1998 pelo parlamento island&ecirc;s).</p>     <p align="justify">Tendo em vista o desenvolvimento da investiga&ccedil;&atilde;o    na &aacute;rea da biomedicina, geneologia e farmac&ecirc;utica personalizada,    os objectivos &#8212; cient&iacute;ficos e mercantis &#8212; da deCode conjugaram-se    com os interesses pol&iacute;ticos do Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de island&ecirc;s,    formando deste modo um complexo sociot&eacute;cnico que ilustra alguns dos debates    mais intensos dos impactos sociais da biomedicina e da bioinform&aacute;tica.    A perspectiva antropol&oacute;gica &eacute; assim convocada a analisar o desenvolvimento    e implica&ccedil;&otilde;es das pr&aacute;ticas cient&iacute;ficas associadas    &agrave; visualiza&ccedil;&atilde;o e sequencia&ccedil;&atilde;o dos genes e    a identificar os imagin&aacute;rios sociais e as rela&ccedil;&otilde;es que    emergem da investiga&ccedil;&atilde;o sobre o genoma humano e a diversidade    gen&eacute;tica.</p>     <p align="justify">O fundo emp&iacute;rico deste livro resulta de trabalho etnogr&aacute;fico    com base na observa&ccedil;&atilde;o directa dos cientistas que trabalhavam,    em 2000, num dos laborat&oacute;rios da deCode na Isl&acirc;ndia e em entrevistas    com interlocutores-chave. Contudo, o autor estende a an&aacute;lise a outros    projectos de investiga&ccedil;&atilde;o similares, alguns dos quais com resson&acirc;ncias    mundiais e que resultam de actividades de coopera&ccedil;&atilde;o entre cientistas,    ind&uacute;strias farmac&ecirc;uticas e governos nacionais. Tanto o projecto    do genoma humano como o projecto da diversidade do genoma humano e outros estudos    de &acirc;mbito regional e nacional dirigidos a grupos particulares de pacientes    (ou, no caso da Isl&acirc;ndia, a toda a popula&ccedil;&atilde;o) t&ecirc;m    como objectivo comum mapear e sequenciar o genoma humano e desenvolver meios    para aplicar informa&ccedil;&atilde;o gen&eacute;tica no estudo da biologia    e da medicina na descoberta e desenvolvimento de novos f&aacute;rmacos. Nas    palavras do autor, todos estes projectos dirigidos &agrave; compreens&atilde;o    da gen&eacute;tica e evolu&ccedil;&atilde;o humanas ilustram o actual fasc&iacute;nio    com o potencial da biologia molecular para o bem-estar humano, a curiosidade    face &agrave; componente gen&eacute;tica da hist&oacute;ria geneal&oacute;gica    e a crescente e complexa imbrica&ccedil;&atilde;o da biotecnologia, medicina,    inform&aacute;tica, ind&uacute;stria e mercado farmac&ecirc;uticos.</p>     <p align="justify">A coopera&ccedil;&atilde;o transnacional de cientistas, as    redes globais de organiza&ccedil;&atilde;o e ac&ccedil;&atilde;o das ind&uacute;strias    farmac&ecirc;uticas, ou os mecanismos internacionais de dinamiza&ccedil;&atilde;o    do mercado, fazem com que a governa&ccedil;&atilde;o da gen&eacute;tica e da    gen&oacute;mica deixe de se efectuar no &acirc;mbito exclusivo da regula&ccedil;&atilde;o    nacional. Este fen&oacute;meno surge na Isl&acirc;ndia associado a intenso debate    &eacute;tico e pol&iacute;tico, objecto de amplo interesse p&uacute;blico no    que G&iacute;sli P&aacute;lsson designa por interac&ccedil;&otilde;es &quot;epigen&eacute;ticas&quot;    &#8212; os modos pelos quais os genes se podem expressar diferentemente em resposta    a distintos ambientes, embora mantendo inalter&aacute;vel a sequ&ecirc;ncia    do ADN do organismo humano.</p>     <p align="justify">O objectivo central do livro &eacute;, pois, explorar algumas    das poss&iacute;veis perspectivas antropol&oacute;gicas dirigidas &agrave; &quot;nova    gen&eacute;tica&quot;, tratando-se de um fen&oacute;meno global, assente na    imbrica&ccedil;&atilde;o entre a investiga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica    do genoma humano e a ind&uacute;stria farmac&ecirc;utica e biom&eacute;dica.    Na perspectiva do autor, constroem-se novas pr&aacute;ticas e saberes, emergem    novas infra-estruturas e desenvolvem-se redes mais extensas de interac&ccedil;&atilde;o,    ancoradas num olhar e imagin&aacute;rio biologizantes, que redefinem alguns    conceitos centrais na compreens&atilde;o da identidade humana &#8212; e, diga-se,    nucleares na forma&ccedil;&atilde;o da antropologia &#8212;, tais como os sentidos    de perten&ccedil;a, de parentesco, de propriedade, de governa&ccedil;&atilde;o,    de bem-estar, de interesse p&uacute;blico, de moral, de individualismo e de    &quot;ra&ccedil;a&quot;.</p>     <p align="justify">G&iacute;sli P&aacute;lsson apresenta-nos uma proposta de &quot;antropologia    gen&oacute;mica&quot; (p. 208) que envereda por estudos emp&iacute;ricos de    cariz etnogr&aacute;fico, orientados para a compreens&atilde;o do modo como    a &quot;nova gen&eacute;tica&quot; causa impactos sociais e, simultaneamente,    potencia a emerg&ecirc;ncia de novas rela&ccedil;&otilde;es sociais &#8212;    que, de um modo geral, se podem designar como formas de &quot;biossociabilidade&quot;    (p. 212) &#8212; sustentadas em inscri&ccedil;&otilde;es corp&oacute;reas pelas    quais as identidades &eacute;tnicas est&atilde;o contidas em identidades biol&oacute;gicas    conferidas pelos genes. Prop&otilde;e-se, assim, analisar algumas das profundas    implica&ccedil;&otilde;es nas reconfigura&ccedil;&otilde;es das no&ccedil;&otilde;es    de bem-estar e de condi&ccedil;&atilde;o humana, provocando mudan&ccedil;as    nos modos de pensar o corpo, a sa&uacute;de, a responsabilidade individual e    as rela&ccedil;&otilde;es entre peritos e leigos.</p>     <p align="justify">Torna-se central para a antropologia da gen&oacute;mica perceber    quem s&atilde;o os actores envolvidos, em que circunst&acirc;ncias os indiv&iacute;duos    e as popula&ccedil;&otilde;es s&atilde;o governados pela ci&ecirc;ncia gen&oacute;mica    e pela biotecnologia e como se constroem conceitos regionais de identidade e    de normatividade e moralidade da ac&ccedil;&atilde;o &#8212; pol&iacute;tica    e cient&iacute;fica. Essa ideia consolida a necessidade, desde h&aacute; muito    sentida pela antropologia e pelas ci&ecirc;ncias sociais em geral, de questionar    criticamente o dualismo natureza/sociedade e f&iacute;sico-biol&oacute;gico/sociocultural.    Reclama-se a urg&ecirc;ncia em ultrapassar a convencional divis&atilde;o acad&eacute;mica    do trabalho, em expandir fronteiras disciplinares e em reimaginar o corpo e    identidade humanos, possibilitando a enuncia&ccedil;&atilde;o de novas quest&otilde;es    relativas ao &quot;sobre quem somos&quot; (p. 12), que comunidades e popula&ccedil;&otilde;es    gen&eacute;ticas podemos construir, como &eacute; que podemos pensar e construir    as rela&ccedil;&otilde;es sociais e as identidades com base na assun&ccedil;&atilde;o    da heran&ccedil;a biol&oacute;gica partilhada.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="justify">As possibilidades em aberto para a extrac&ccedil;&atilde;o,    armazenamento e circula&ccedil;&atilde;o de amostras biol&oacute;gicas ganham    hoje novos contornos com o crescente desenvolvimento de aplica&ccedil;&otilde;es    inform&aacute;ticas que permitem a constru&ccedil;&atilde;o de maiores e mais    complexas bases de dados. Isto a par de um contexto social e de uma concep&ccedil;&atilde;o    do corpo favor&aacute;vel ao conceito foucaltiano de biopoder, tornando-se critic&aacute;vel    sobretudo o controlo e os usos da informa&ccedil;&atilde;o obtida sobre o corpo    humano. Este fen&oacute;meno da governa&ccedil;&atilde;o gen&eacute;tica ganha    particular relevo no caso da base de dados islandesa, que unifica numa s&oacute;    plataforma de informa&ccedil;&atilde;o as bases de dados de informa&ccedil;&atilde;o    m&eacute;dica, gen&eacute;tica e geneal&oacute;gica (contendo dados de toda    a popula&ccedil;&atilde;o islandesa desde 1915, reunidos sem o consentimento    pr&eacute;vio, expresso e informado das pessoas). O escrut&iacute;nio do capital    gen&eacute;tico das popula&ccedil;&otilde;es torna-se inevit&aacute;vel e &eacute;    apresentado politicamente n&atilde;o s&oacute; como necess&aacute;rio, mas tamb&eacute;m    como desej&aacute;vel, na medida em que surge sob a &eacute;gide da responsabilidade    do Estado para o bem colectivo. De facto, a base de dados m&eacute;dico-gen&eacute;ticos    est&aacute; sob a cust&oacute;dia do Servi&ccedil;o Nacional de Sa&uacute;de    e foi reconfigurada pelo governo island&ecirc;s como instrumento essencial para    tornar o sistema de sa&uacute;de mais eficiente e para permitir uma mais extensa    monitoriza&ccedil;&atilde;o dos cuidados de sa&uacute;de, do impacto dos medicamentos    e do papel dos estilos de vida na constru&ccedil;&atilde;o do bem-estar humano.    Essa monitoriza&ccedil;&atilde;o &eacute; apresentada ao p&uacute;blico como    suporte fundamental para produzir informa&ccedil;&atilde;o que sirva de base    ao estabelecimento de pr&aacute;ticas de investiga&ccedil;&atilde;o m&eacute;dico-farmac&ecirc;utica    e pol&iacute;ticas de preven&ccedil;&atilde;o de doen&ccedil;as.</p>     <p align="justify">Uma base de dados universal, com acesso privilegiado a informa&ccedil;&atilde;o    m&eacute;dica da parte de uma empresa multinacional, tem sido encarada pelos    cr&iacute;ticos como um dos primeiros e mais vis&iacute;veis passos para um    eugenismo e regime totalit&aacute;rio do s&eacute;culo xxi. A compreens&atilde;o    da complexa intersec&ccedil;&atilde;o da biomedicina, mercado e pol&iacute;tica,    acompanhada daquilo que o autor considera ser uma crescente mercantiliza&ccedil;&atilde;o    do corpo (p. 123), projecta consumos de biotecnologia e atitudes perante o corpo    constituintes de novas moralidades, que potenciam desigualdades sociais assentes    em caracter&iacute;sticas gen&eacute;ticas e estilos de vida considerados adequados.    Alguns dos grandes desafios colocados ao antrop&oacute;logo consistem, neste    contexto, em mapear os factores legais, &eacute;ticos e sociais que influenciam    a tradu&ccedil;&atilde;o e convers&atilde;o de informa&ccedil;&atilde;o gen&eacute;tica    em contributos para a sa&uacute;de humana, as implica&ccedil;&otilde;es para    os indiv&iacute;duos e sociedade da cren&ccedil;a na influ&ecirc;ncia dos genes    na forma&ccedil;&atilde;o de comportamentos e caracter&iacute;sticas humanas,    e como indiv&iacute;duos, culturas e religi&otilde;es diferentes se posicionam    face ao debate das fronteiras &eacute;ticas no uso da gen&oacute;mica (p. 125).</p>     <p align="justify">Trata-se, indubitavelmente, de um livro que convoca o saber    antropol&oacute;gico para a compreens&atilde;o mais profunda dos impactos sociais    dos processos de celebriza&ccedil;&atilde;o da ci&ecirc;ncia e da tecnologia    e das esperan&ccedil;as projectadas pela ret&oacute;rica da qualidade e excepcionalidade    dos genes. Ao longo de oito cap&iacute;tulos, o autor explora v&aacute;rias    vertentes do projecto sociot&eacute;cnico island&ecirc;s de constru&ccedil;&atilde;o    da &quot;cidadania gen&eacute;tica&quot; enquanto conceito que descreve os processos    m&uacute;ltiplos e complexos, globais e regionais, pelos quais indiv&iacute;duos    e grupos se envolvem e reconstroem as suas identidades pelos encontros com a    biotecnologia enquanto tecnologia, mas tamb&eacute;m como fonte de informa&ccedil;&atilde;o    e poder (p. 139). As complexidades inerentes ao que podemos tamb&eacute;m designar    como biocidadania e &agrave; moraliza&ccedil;&atilde;o do manuseamento e classifica&ccedil;&atilde;o    do material biol&oacute;gico surgem articuladas com a mobiliza&ccedil;&atilde;o    de um conjunto de expectativas e de imagin&aacute;rios sociais em torno do impacto    futuro da investiga&ccedil;&atilde;o gen&eacute;tica e do uso do material biol&oacute;gico.</p>       <p>Helena Machado</p>       <p>Instituto de Ci&ecirc;ncias Sociais, Universidade do   Minho</p>   </td>   <td valign=top style='padding:0cm 0cm 0cm 0cm;height:345.0pt'></td>  </tr>  <tr style='mso-yfti-irow:6;mso-yfti-lastrow:yes;height:484.5pt'>   <td valign=top style='padding:0cm 0cm 0cm 0cm;height:484.5pt'></td>   <td width=541 colspan=2 valign=top style='width:405.75pt;padding:0cm 0cm 0cm 0cm;   height:484.5pt'>         ]]></body>
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