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</front><body><![CDATA[ <p><i>Guilherme Veiga, </i><b>Ritual, Risco e Arte Circense.   O homem em situa&ccedil;&otilde;es-limite</b>, Bras&iacute;lia, Editora   Universidade de Bras&iacute;lia, 2008, 314 p&aacute;ginas.</p>       <p>&nbsp;</p>        <p align="justify">Li com emo&ccedil;&atilde;o <i>Ritual, Risco e Arte Circense</i>.    <i>O homem em situa&ccedil;&otilde;es-limite</i>. Este livro resulta de uma    investiga&ccedil;&atilde;o de doutoramento em Sociologia apresentada na Universidade    de Bras&iacute;lia. O seu autor, Guilherme Veiga, era investigador, professor,    artista pl&aacute;stico, m&uacute;sico e compositor.</p>     <p align="justify">Trata-se de uma investiga&ccedil;&atilde;o muito rica que promove    uma aproxima&ccedil;&atilde;o forte da sociologia da arte e do investigador    ao seu objecto de estudo. O observador torna-se observado, sujeito e objecto    da investiga&ccedil;&atilde;o atrav&eacute;s de metodologias de car&aacute;cter    experimental e trabalhos pr&aacute;ticos realizados <i>in situ</i>.</p>     <p align="justify">Um dos aspectos mais originais do livro reside, pois, no trabalho    de campo que o autor desenvolveu na Escola Nacional de Circo, no Brasil, e que    nos proporciona um raro testemunho de todos os movimentos implicados numa &quot;acrobacia    de solo&quot;, &quot;perna-de-pau&quot;, &quot;malabarismo&quot; e &quot;cama    el&aacute;stica&quot;.</p>     <p align="justify">No entanto, a riqueza desta investiga&ccedil;&atilde;o n&atilde;o    fica por aqui, sendo de assinalar: (<i>i</i>) o recurso a um quadro te&oacute;rico    interdisciplinar que vai da antropologia &agrave; sociologia, &agrave; hist&oacute;ria,    &agrave; filosofia e &agrave; psicologia; (<i>ii</i>) a discuss&atilde;o em    torno da passagem do ritual ao espect&aacute;culo ou, se quisermos, do participante    ao espectador contemplador; por fim, (<i>iii</i>) o tributo que &eacute; feito    &agrave;s artes performativas, dando-nos a conhecer as especificidades do exerc&iacute;cio    &#8212; arriscado e temeroso &#8212; das artes circenses.</p>     <p align="justify">Inicialmente, o mote do autor foi compreender as <i>performances</i>    como &quot;manifesta&ccedil;&otilde;es t&iacute;picas do mundo contempor&acirc;neo&quot;,    os seus tra&ccedil;os de originalidade, exotismo e liberdade infinita jamais    vistos e que nunca como hoje estiveram t&atilde;o profundamente ligados &agrave;    arte tecnol&oacute;gica. Ent&atilde;o ser&aacute; que a <i>performance</i> &eacute;    ritual ou &eacute; arte?, pergunta Guilherme Veiga, para defender que, tanto    do ponto de vista conceptual como do pr&aacute;tico, uma <i>performance</i>    &eacute; mais do que uma apresenta&ccedil;&atilde;o de um artista ao seu p&uacute;blico.</p>     <p align="justify">Por isso, no cap&iacute;tulo 1 do seu livro descreve como &eacute;    que na antiguidade se assistiu &agrave; maior inova&ccedil;&atilde;o de sempre:    a cis&atilde;o entre actores e espectadores. Ou seja, o indiv&iacute;duo deixou    de ser um participante no ritual para se tornar num espectador contemplador.    A este prop&oacute;sito, o autor faz uma incurs&atilde;o pelo teatro cl&aacute;ssico    &#8212; de &Eacute;squilo, S&oacute;focles e Eur&iacute;pides &#8212; que nos    parece muito &uacute;til para os estudantes dos cursos art&iacute;sticos.</p>     <p align="justify">Estabelecendo uma ponte com a actualidade, Guilherme Veiga    procura chamar a nossa aten&ccedil;&atilde;o para os grandes eventos e espect&aacute;culos    de m&uacute;sica e televis&atilde;o que promovem a dilui&ccedil;&atilde;o da    interac&ccedil;&atilde;o do espectador e do artista, ent&atilde;o muito afastados    f&iacute;sica e simbolicamente. Ali&aacute;s, quanto mais famoso, mais o artista    se separa do seu p&uacute;blico. Em simult&acirc;neo, assistimos cada vez mais    aos chamados &quot;espect&aacute;culos participativos&quot;, em que o p&uacute;blico    interage com os artistas. Paradoxos da cria&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica    contempor&acirc;nea, conclui o autor.</p>     <p align="justify">Procurando ir sempre mais longe na pesquisa, no cap&iacute;tulo    2 questionam--se as consequ&ecirc;ncias desta ideia de contempla&ccedil;&atilde;o    da obra para a forma ocidental de pensar a arte. De novo, recupera-se a heran&ccedil;a    da cultura cl&aacute;ssica e mostra-se como a palavra &quot;arte&quot; tem m&uacute;ltiplos    sentidos: o de cria&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica e criatividade, mas tamb&eacute;m    o de artif&iacute;cio ou habilidade, podendo a produ&ccedil;&atilde;o de um    objecto de arte ser um processo que resultar&aacute; improdutivo no sentido    material do termo.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="justify">Em meu entender, um dos mais importantes contributos deste    livro reside no debate em torno das finalidades da arte para aqueles que a criam:    &quot;A ess&ecirc;ncia da arte est&aacute; no ritual, naquilo que ele tem de    auto-expressivo, de auto-suficiente, de n&atilde;o espectacular&quot; (p. 66).    A arte e a sua origem, diz ele, est&atilde;o ligadas ao efeito que produzem    no artista e &quot;a possibilidade de o processo gerar uma obra e ainda a possibilidade    de essa obra ser exposta para um p&uacute;blico s&atilde;o duas consequ&ecirc;ncias    contingentes que funcionam, em parte, para explicar o espect&aacute;culo, mas    que n&atilde;o funcionam, de forma alguma, para se compreender o ritual ou a    <i>performance</i>&quot; (p. 66). O que significa que quando o artista faz uso    da sua criatividade sente o gozo da sua cria&ccedil;&atilde;o, incompleta e    imprevis&iacute;vel. Este &eacute; o &quot;n&iacute;vel auto-expressivo&quot;    da arte, descrito por M. Veiga neste livro.</p>     <p align="justify">Esta tem&aacute;tica n&atilde;o nos &eacute; estranha. &Eacute;    a &quot;realiza&ccedil;&atilde;o de si mesmo&quot;, a &quot;aprendizagem constante    do eu&quot; e o duplo sentido da &quot;desmultiplica&ccedil;&atilde;o de si&quot;,    de que nos falam Pierre-Michel Menger (<i>La profession de com&eacute;dien.    Formations, activit&eacute;s et carri&egrave;res dans la d&eacute;multiplication    de soi,</i> DEPS, 1997), quando analisa a profiss&atilde;o de actor, Janine    Rannou e Ionela Roarik (<i>Les danseurs. Un m&eacute;tier d</i>'<i>engagement</i>,    Paris, Minist&egrave;re de la culture, DEPS, 2006), quando descrevem o <i>engagement</i>    dos bailarinos no seu trabalho, ou ainda Marie Buscatto (&quot;De la vocation    artistique au travail musical: tensions, compromis et ambivalences chez les    musiciens de jazz&quot;, in <i>Sociologie de l</i>'<i>art,</i> Opus 5, 2004,    pp. 35-56), quando analisa as voca&ccedil;&otilde;es art&iacute;sticas dos m&uacute;sicos    de <i>jazz, </i>entre muitos outros exemplos que poderia deixar aqui.</p>     <p align="justify">Guilherme Veiga refere-se, por um lado, ao &quot;n&iacute;vel    auto-expressivo&quot; da arte e, por outro lado, &agrave; necessidade de o artista    mostrar o seu trabalho, que denomina &quot;n&iacute;vel expressivo da exibi&ccedil;&atilde;o&quot;    e que, na sua opini&atilde;o, &eacute;, afinal, menos importante do que o primeiro    (o &quot;n&iacute;vel auto-expressivo&quot; da arte). Ora isto leva-nos a recuperar    aqui o bin&oacute;mio voca&ccedil;&atilde;o/arte e profiss&atilde;o, utilizado,    por exemplo, por Judith Blau (<i>Architects and Firms: A Sociological Perspective    on Architectural Practice,</i> Cambridge, Mass., The MIT Press, 1982) para a    arquitectura, e a tens&atilde;o existente entre as partes deste bin&oacute;mio,    como se verificou no exerc&iacute;cio da profiss&atilde;o de arquitecto no nosso    pa&iacute;s [cf. Manuel Villaverde Cabral e Vera Borges, <i>A arquitectura como    voca&ccedil;&atilde;o e como profiss&atilde;o,</i> 2008 (no prelo)].</p>     <p align="justify">Como o pr&oacute;prio autor afirma a certa altura do seu texto,    fazer um trabalho &quot;dentro&quot; do universo da cria&ccedil;&atilde;o, seja    no <i>atelier </i>ou durante os ensaios de um espect&aacute;culo ou a rodagem    de um filme, n&atilde;o &eacute; em si mesmo uma novidade. De facto, j&aacute;    P.-M. Menger (<i>Retrato do Artista enquanto trabalhador,</i> Lisboa, Ed. Roma,    2005) considerou que uma das formas de fazer o retrato sociol&oacute;gico dos    artistas passava tamb&eacute;m pela an&aacute;lise dos seus processos de cria&ccedil;&atilde;o    e, entre n&oacute;s, alguns investigadores interessados em estudar, por exemplo,    o circo e o teatro t&ecirc;m apresentado as suas incurs&otilde;es &#8212; diferenciadas    &#8212; pelos processos de cria&ccedil;&atilde;o. &Eacute; o caso de Joana Afonso    (<i>Os Circos n&atilde;o existem. Fam&iacute;lia e Trabalho no meio circense,</i>    Lisboa, Imprensa de Ci&ecirc;ncias Sociais, 2002) e da observa&ccedil;&atilde;o    participante que realizou no interior do circo Chen; de Andr&eacute; Brito de    Correia (<i>Arte como Vida e Vida como Arte &#8212; Sociabilidades num contexto    de cria&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica, </i>Porto, Afrontamento, 2003) e    do seu estudo das sociabilidades e pr&aacute;ticas teatrais no grupo de teatro    o Acto; do trabalho que Berta Teixeira, soci&oacute;loga e actriz, tem vindo    a desenvolver no Centro de Estudos Sociais, em Coimbra, no &acirc;mbito do seu    projecto de doutoramento; e ainda de uma pesquisa desenvolvida no interior de    tr&ecirc;s grupos de teatro, os Artistas Unidos, o Pogo Teatro e o Teatro Nacional    D. Maria II, durante os ensaios dos seus espect&aacute;culos (Vera Borges, <i>Todos    ao Palco. Estudos sociol&oacute;gicos sobre o Teatro em Portugal,</i> Oeiras,    Celta, 2001).</p>     <p align="justify">Mais adiante, nos cap&iacute;tulos 4 e 5 do livro em apre&ccedil;o,    voltam a encontrar-se m&uacute;ltiplas raz&otilde;es de interesse no trabalho    deste autor. Desde logo, pelos seus argumentos e pela escolha de um tema que,    recorrentemente, tem vindo a ser discutido no &acirc;mbito da sociologia da    arte (entre outros) e que se prende com o risco f&iacute;sico de certas actividades    art&iacute;sticas, como a acrobacia &#8212; o trabalho com o trap&eacute;zio    fixo, de balan&ccedil;o e o tecido &#8212; e a dan&ccedil;a, e actividades corporais    de lazer muito valorizadas na cultura urbana, como o <i>skate,</i> a acrobacia    em bicicletas, a prancha com p&aacute;ra-quedas.</p>     <p align="justify">Ao estudar as quest&otilde;es subjacentes ao risco, o autor    refere-se n&atilde;o ao risco constitutivo da nossa vida quotidiana, mas ao    risco a que o indiv&iacute;duo se exp&otilde;e mais por prazer, por op&ccedil;&atilde;o,    por gosto, por desafio, do que por necessidade e que vulgarmente se associa    ao desporto, &agrave; guerra e &agrave; arte. Para estudar este risco, G. Veiga    interessou-se pelo fascinante mundo da acrobacia, onde destreza f&iacute;sica,    risco e beleza (arte) s&atilde;o, afinal, indissoci&aacute;veis, para concluir    que muitas vezes um determinado objecto art&iacute;stico, como um quadro, ou    uma cria&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica, como um espect&aacute;culo de acrobacia,    &eacute; um momento &#8212; &agrave;s vezes nem &eacute; o mais importante &#8212;    da actividade expressiva dos indiv&iacute;duos, que &eacute;, no fundo, o cerne    deste estudo.</p>     <p align="justify">Como se pode ver, <i>Ritual, Risco e Arte Circense,</i> de    Guilherme Veiga, tem a potencialidade de conciliar autores e formas diferentes,    mas complementares de fazer sociologia da arte. O que fica da sua investiga&ccedil;&atilde;o    n&atilde;o &eacute; pouco.</p>       <p>Vera Borges</p>       <p>Instituto de Ci&ecirc;ncias Sociais, Universidade de   Lisboa</p>         ]]></body>
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