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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Religião e pertença em discursos europeus: conceitos e agentes muçulmanos]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade de Lisboa Instituto de Ciências Sociais (ICS) ]]></institution>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[In the academic literature, as well as in recent political discourse, muslim minorities in Europe are often described as diasporas or transnational communities. Although these concepts do not originate in the teological traditions of Islamic law, and are not used therein, they do reflect the new societal experience of those they describe. This discursive analysis shows that it is (mostly non muslim) researchers and the educated muslim middle-classes who have played key roles in introducing identitarian forms such as "diasporas" and "the transnational". A new generation of muslim European intellectuals have discussed and developed these concepts to encapsulate and analyze the new practices, situations and experiences of different classes, groups and communities, in language which is not teological but secular, and which marks the transition from traditional to modern religion.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p><b>Religi&atilde;o e perten&ccedil;a em discursos europeus: conceitos    e agentes mu&ccedil;ulmanos</b> </p>     <p><b>Nina Clara Tiesler</b><a href="#1">*</a> <a name="top1"></a></p>     <p>&nbsp;     <p>Na literatura acad&eacute;mica, bem como em recentes discursos    pol&iacute;ticos, as minorias mu&ccedil;ulmanas na Europa s&atilde;o frequentemente    descritas como di&aacute;sporas ou comunidades transnacionais. Embora estes    conceitos n&atilde;o tenham origem nem sejam utilizados nas tradi&ccedil;&otilde;es    teol&oacute;gicas e na linguagem jur&iacute;dica isl&acirc;micas, eles reflectem    novas experi&ecirc;ncias societais dos sujeitos em causa. Na presente an&aacute;lise    discursiva demonstra-se que o papel fulcral na introdu&ccedil;&atilde;o de refer&ecirc;ncias    identit&aacute;rias constitu&iacute;das como &quot;diasp&oacute;ricas&quot;    ou &quot;transnacionais&quot; &eacute; desempenhado pelos investigadores (na    maioria n&atilde;o mu&ccedil;ulmanos) e pelas classes m&eacute;dias mu&ccedil;ulmanas    instru&iacute;das. Discutindo e desenvolvendo estes conceitos, os protagonistas    de uma gera&ccedil;&atilde;o de intelectuais mu&ccedil;ulmanos europeus resumem    e analisam as novas pr&aacute;ticas, situa&ccedil;&otilde;es e experi&ecirc;ncias    de diferentes classes, grupos e comunidades numa linguagem n&atilde;o teol&oacute;gica,    mas secular, que assinala a transforma&ccedil;&atilde;o da religi&atilde;o tradicional    em moderna.      <p><B>Palavras-chave: </B>mu&ccedil;ulmanos; di&aacute;spora;    transnacionalismos; Europa.      <p>&nbsp;     <p><B>Religion and belonging in European discourse: muslim concepts    and actors</B>      <p>In the academic literature, as well as in recent political    discourse, muslim minorities in Europe are often described as diasporas or transnational    communities. Although these concepts do not originate in the teological traditions    of Islamic law, and are not used therein, they do reflect the new societal experience    of those they describe. This discursive analysis shows that it is (mostly non    muslim) researchers and the educated muslim middle-classes who have played key    roles in introducing identitarian forms such as &quot;diasporas&quot; and &quot;the    transnational&quot;. A new generation of muslim European intellectuals have    discussed and developed these concepts to encapsulate and analyze the new practices,    situations and experiences of different classes, groups and communities, in    language which is not teological but secular, and which marks the transition    from traditional to modern religion.      <p><B>Keywords: </B>muslims; diaspora; transnationalisms; Europe. </p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp; </p>     <p>Como &eacute; que os mu&ccedil;ulmanos na Europa respondem    aos imperativos dominantes de &quot;integra&ccedil;&atilde;o, lealdade e perten&ccedil;a&quot;    na esfera p&uacute;blica? Como &eacute; que os intelectuais mu&ccedil;ulmanos    encaram as pr&aacute;ticas da generalidade dos mu&ccedil;ulmanos europeus? E,    no contexto das ci&ecirc;ncias sociais e dos discursos isl&acirc;micos, quais    s&atilde;o as tend&ecirc;ncias discursivas respeitantes aos t&oacute;picos do    &quot;transnacionalismo mu&ccedil;ulmano&quot; e da di&aacute;spora (hoje dissociado    de conota&ccedil;&otilde;es religiosas)<SUP><a href="#2">1</a></SUP><a name="top2"></a>?    O presente artigo procura abordar estas quest&otilde;es, analisando os contributos    de dois dos mais importantes autores mu&ccedil;ulmanos que definem a situa&ccedil;&atilde;o    das minorias mu&ccedil;ulmanas atrav&eacute;s desta pr&aacute;tica discursiva<SUP><a href="#3">2</a></SUP><a name="top3"></a>.      <p>No centro da an&aacute;lise situam-se os trabalhos de dois    intelectuais mu&ccedil;ulmanos que cresceram na Europa e que a&iacute; leccionam    e investigam em faculdades de ci&ecirc;ncias humanas e sociais: Tariq Ramadan    (Su&iacute;&ccedil;a e Reino Unido) e S. Sayyid (Reino Unido). Enquanto a influ&ecirc;ncia    dos &quot;concepts of space and belonging&quot; de Ramadan j&aacute; ultrapassou    o contexto franc&oacute;fono, e at&eacute; mesmo europeu, encontrando entretanto    eco em comunidades de jovens mu&ccedil;ulmanos politicamente activos, Sayyid    exerce uma influ&ecirc;ncia decisiva no discurso anglo-mu&ccedil;ulmano, efectuando    a jun&ccedil;&atilde;o dos estudos p&oacute;s-coloniais <I>(postcolonial studies)    </I>e da cr&iacute;tica de esquerda <I>(critical left)</I> com conceitos isl&acirc;micos.      <p>A observa&ccedil;&atilde;o de que esta metalinguagem difere    da autopercep&ccedil;&atilde;o dos sujeitos em causa, que aqui s&atilde;o apresentados    atrav&eacute;s de amostras de entrevistas, pode parecer trivial numa primeira    abordagem. De forma alguma sugere uma &quot;particularidade mu&ccedil;ulmana&quot;,    mas antes o peso que, em geral, as classes m&eacute;dias instru&iacute;das &#151;    neste caso, educadores e educandos &#151; t&ecirc;m nos processos de constru&ccedil;&atilde;o    da subjectividade colectiva (Hroch, 1978; Siems, 2007). Entretanto, o que torna    esta din&acirc;mica interessante &eacute; o facto de estarmos perante representantes    de uma nova gera&ccedil;&atilde;o de intelectuais euro-mu&ccedil;ulmanos<SUP><a href="#4">3</a></SUP><B><a name="top4"></a>    </B>que analisam as novas condi&ccedil;&otilde;es sociais e as pr&aacute;ticas    de minorias religiosas heterog&eacute;neas em termos culturais e etno-lingu&iacute;sticos,    n&atilde;o atrav&eacute;s das tradicionais categorias isl&acirc;micas do foro    teol&oacute;gico e jur&iacute;dico, mas antes recorrendo &agrave; linguagem    do discurso secular e &agrave;s suas no&ccedil;&otilde;es de transnacionalidade    e diasporicidade<SUP><a href="#5">4</a><a name="top5"></a></SUP><B>.</B>      <p>No &acirc;mbito dos estudos comparados de religi&atilde;o existe    um consenso alargado relativamente &agrave; no&ccedil;&atilde;o de que a observa&ccedil;&atilde;o    de religi&otilde;es e a formula&ccedil;&atilde;o de teorias de hist&oacute;ria    religiosa se repercutem nos processos culturais<SUP><a href="#6">5</a><a name="top6"></a></SUP>,    notando-se igualmente uma crescente &quot;aten&ccedil;&atilde;o prestada &agrave;s    estruturas discursivas em que os estudos comparados de religi&atilde;o encontram    as suas tem&aacute;ticas&quot; (Seiwert, 2003). O mesmo &eacute; sobremaneira    v&aacute;lido para as disciplinas das ci&ecirc;ncias sociais, e da&iacute; que    a motiva&ccedil;&atilde;o do presente artigo consista em demonstrar de que forma    os discursos dominantes podem influenciar o processo de desenvolvimento do respectivo    tema de investiga&ccedil;&atilde;o.      <p>&nbsp;     <P><b>Os discursos sobre os mu&ccedil;ulmanos na Europa num primeiro relance</b>      <p>Desde a Segunda Guerra Mundial que imigrantes, popula&ccedil;&otilde;es    p&oacute;s-coloniais (Sayyid, 2006, pp. 1-10) e refugiados vindos de sociedades    maioritariamente isl&acirc;micas t&ecirc;m demandado a Europa e nela se t&ecirc;m    estabelecido. Contudo, at&eacute; meados da d&eacute;cada de 80, a sua filia&ccedil;&atilde;o    religiosa apenas suscitava a aten&ccedil;&atilde;o de um pequeno n&uacute;mero    de soci&oacute;logos da religi&atilde;o e de membros das igrejas (Nielsen, 1992,    p. 2). Entretanto, nos &uacute;ltimos trinta anos, nos discursos e cen&aacute;rios    de investiga&ccedil;&atilde;o em ci&ecirc;ncias sociais relacionados com migra&ccedil;&otilde;es,    os mu&ccedil;ulmanos na Europa t&ecirc;m sido mais insistentemente citados do    que estratos sociais representativos de outras religi&otilde;es n&atilde;o crist&atilde;s,    como &eacute; o caso dos hindus e dos siks. A maior parte dos acad&eacute;micos    que iniciaram as suas investiga&ccedil;&otilde;es sobre o isl&atilde;o e os    mu&ccedil;ulmanos antes do 11 de Setembro parecem estar cientes do imperativo    de reflex&atilde;o autocr&iacute;tica <I>nas</I> universidades sobre as consequ&ecirc;ncias    deste momento decisivo <I>para</I> as institui&ccedil;&otilde;es de investiga&ccedil;&atilde;o.    Os discursos pol&iacute;ticos e p&uacute;blicos, bem como a situa&ccedil;&atilde;o    das minorias mu&ccedil;ulmanas que constituem o tema dos nossos debates, modificaram-se    (de forma mais vis&iacute;vel em contextos urbanos).      <p>Enquanto os momentos decisivos de 1989 [fim da guerra fria,    o caso Rushdie, a primeira &quot;pol&eacute;mica do v&eacute;u&quot; <I>(affaire    du foulard)</I> em Fran&ccedil;a] e os acontecimentos pol&iacute;ticos de dimens&atilde;o    mundial nos primeiros anos da d&eacute;cada de 90 (&quot;renascimento religioso&quot;,    B&oacute;snia, Saddam no Kuwait) deram origem a novos centros de interesse para    a investiga&ccedil;&atilde;o num campo que antes era relativamente marginal,    n&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida de que o 11 de Setembro e o novo contexto    hist&oacute;rico marcado pela &quot;guerra ao terrorismo&quot; suscitaram um    enorme interesse por parte do p&uacute;blico e das institui&ccedil;&otilde;es    de investiga&ccedil;&atilde;o relativamente a fen&oacute;menos ligados com o    isl&atilde;o. Qualificada como &quot;de interesse priorit&aacute;rio&quot;,    a vigil&acirc;ncia dos mu&ccedil;ulmanos e da sua vida comunit&aacute;ria, especialmente    em contextos minorit&aacute;rios, passou a ser frequente e oficialmente anunciada    pelos pol&iacute;ticos, atrav&eacute;s dos <I>media</I>, e pontualmente mencionada    pelos servi&ccedil;os secretos.      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Neste contexto, as conota&ccedil;&otilde;es do atributo &quot;transnacional&quot;    tamb&eacute;m se alteraram parcialmente. Enquanto algumas abordagens cr&iacute;ticas    transnacionais procedentes de institui&ccedil;&otilde;es de investiga&ccedil;&atilde;o    contribu&iacute;ram para a percep&ccedil;&atilde;o de que os migrantes internacionais    e as suas comunidades n&atilde;o devem continuar a ser olhados como &quot;anomalias,    mas sim como manifesta&ccedil;&otilde;es de um mundo cada vez mais globalizado&quot;    (Al-Ali e Khoser, 2002, p. 3), a ret&oacute;rica da &quot;guerra ao terrorismo&quot;,    ao sugerir a ideia de amea&ccedil;a, tende a fazer reviver a conota&ccedil;&atilde;o    negativa do transnacionalismo quando este termo &eacute; associado aos mu&ccedil;ulmanos.      <p>Contudo, com especial destaque para os autores que j&aacute;    tinham contribu&iacute;do para o tema antes do 11 de Setembro, as ci&ecirc;ncias    sociais emp&iacute;ricas e os estudos isl&acirc;micos disp&otilde;em hoje de    um amplo leque de trabalhos sobre o t&oacute;pico dos mu&ccedil;ulmanos na Europa<SUP><a href="#7">6</a></SUP><a name="top7"></a>.      <p>Nas d&eacute;cadas de 80 e de 90, a principal preocupa&ccedil;&atilde;o    dos estudos acad&eacute;micos dedicados ao isl&atilde;o e aos mu&ccedil;ulmanos    na Europa centrava-se na institucionaliza&ccedil;&atilde;o do isl&atilde;o.    Pretendia-se compreender o lugar dos mu&ccedil;ulmanos, logo do isl&atilde;o,    no espa&ccedil;o p&uacute;blico das sociedades ocidentais, incluindo o estatuto    jur&iacute;dico do isl&atilde;o (por exemplo, Shadid e van Koningsveld, 1991,    1996a, 1996b e 2002, e Metcalf, 1996). Para al&eacute;m da cont&iacute;nua aten&ccedil;&atilde;o    prestada &agrave; &quot;mudan&ccedil;a religiosa&quot;, &agrave; educa&ccedil;&atilde;o    isl&acirc;mica e ao papel dos actores sociais (por exemplo, mulheres, jovens    e artistas), recentemente desenvolveu-se outra linha de pesquisa, nela se notando    a influ&ecirc;ncia de novos t&oacute;picos no estudo dos fen&oacute;menos sociais    e culturais, designadamente devido ao desenvolvimento te&oacute;rico dos estudos    transnacionais e da di&aacute;spora. Ao interpretarem as quest&otilde;es da    migra&ccedil;&atilde;o e da globaliza&ccedil;&atilde;o, estas teorias t&ecirc;m    tamb&eacute;m sido aplicadas aos mu&ccedil;ulmanos e ao isl&atilde;o. Os trabalhos    inovadores devem-se a Mandaville (2001), a Roy (2003), a Allievi e Nielsen (2003),    a Grillo (2004) e a Bowen (2004). Estas perspectivas tentam desenhar as actuais    dimens&otilde;es europeias do isl&atilde;o e dos mu&ccedil;ulmanos, designadamente    quando cruzam as fronteiras dos estados e das cidadanias.      <p>Movimentos transnacionais isl&acirc;micos, tais como a <I>tablighi    jamaat, </I>a rede de migrantes mu&ccedil;ulmanos, e a <I>umma,</I> a comunidade    isl&acirc;mica mundial que vai sendo constru&iacute;da no dia-a-dia, s&atilde;o    apenas tr&ecirc;s exemplos que revelam at&eacute; que ponto &eacute; importante    a met&aacute;fora do transnacionalismo para compreender o isl&atilde;o contempor&acirc;neo    e o modo como &eacute; vivido e exteriorizado pelos mu&ccedil;ulmanos na Europa.    Aspecto importante, estes estudos sugerem a distin&ccedil;&atilde;o entre, por    um lado, o isl&atilde;o transnacional, incluindo escolas de pensamento, redes    e discursos que explicitamente se referem ao isl&atilde;o mundial e ao isl&atilde;o    como sistema e religi&atilde;o, e, por outro, as viv&ecirc;ncias e as pr&aacute;ticas    di&aacute;rias de pessoas que, sendo mu&ccedil;ulmanas, passaram pela experi&ecirc;ncia    da migra&ccedil;&atilde;o (por exemplo, Al-Ali e Khoser, 2002, Salih, 2002,    e Bryceson e Vuorela, 2002). Naturalmente, e porventura seria desnecess&aacute;rio    diz&ecirc;-lo, as muito diversificadas liga&ccedil;&otilde;es transnacionais,    experi&ecirc;ncias e pr&aacute;ticas destas pessoas n&atilde;o devem ser, necessariamente,    vistas como uma esp&eacute;cie de &quot;particularidade mu&ccedil;ulmana&quot;,    nem, muito menos, como uma &quot;pr&aacute;tica isl&acirc;mica&quot; espec&iacute;fica.    Os contributos para esclarecer o que &eacute; que o transnacionalismo efectivamente    significa para aqueles que o vivem baseiam-se, fundamentalmente, nas pesquisas    etnogr&aacute;ficas provindas de antrop&oacute;logos sociais e culturais.      <p>&nbsp;      <P><b>Transnacionalismo e di&aacute;spora mu&ccedil;ulmana: breves impress&otilde;es    recolhidas no terreno </b>      <p>A quem se tem dedicado nos &uacute;ltimos quinze a vinte anos,    no &acirc;mbito dos estudos sobre migra&ccedil;&atilde;o, ao estudo de minorias    religiosas, culturais, &eacute;tnicas ou definidas de qualquer outro modo pareceu    quase inevit&aacute;vel conceber a sua linha de investiga&ccedil;&atilde;o &agrave;    luz dos conceitos actuais e dos discursos dominantes. Na Europa, desde finais    dos anos 80, tais conceitos compreendiam, por exemplo, o multiculturalismo (Rex,    1996; Modood e Werbner, 1997; K&uuml;rsat-Ahlers <I>et al.,</I> 1999), o &quot;crescimento/regresso    de religi&otilde;es&quot; (Kepel, 1991; Pollack, 1997 e 1998) e &quot;o pr&oacute;prio    e o outro&quot; (Bielefeld, 1991). Com o avan&ccedil;o dos anos 90, surgiram    as ideias de etnicidade (Stender, 2000; Roy, 2000), de di&aacute;spora (Anthias,    1998; Baumann, 2000; Cohen, 1998), de &quot;identidades colectivas&quot; (Hall,    1990; Castells, 1997) e de transnacionalismo (Vertovec, 1999; Al-Ali e Khoser,    2002).      <p>No meu caso, depois de efectuadas as primeiras entrevistas    no extenso terreno dos &quot;mu&ccedil;ulmanos na Europa&quot;<SUP><a href="#8">7</a><a name="top8"></a></SUP>,    come&ccedil;aram a surgir algumas d&uacute;vidas: a experi&ecirc;ncia quotidiana    dos meus &quot;sujeitos de estudo&quot; seria efectivamente a de um membro de    uma <I>di&aacute;spora</I> ou <I>comunidade transnacional?</I> E isto apesar    de serem raros os meus primeiros interlocutores, masculinos ou femininos<SUP><a href="#9">8</a><a name="top9"></a></SUP>,    que aplicavam esses conceitos a si pr&oacute;prios, ou cuja linguagem se inseria    num discurso acad&eacute;mico. As determinantes do seu quotidiano e a sua correspondente    reflex&atilde;o em pouco ou nada deixavam transparecer as &quot;formas de consci&ecirc;ncia&quot;    hoje descritas como di&aacute;spora<SUP><a href="#10">9</a><a name="top10"></a></SUP>    ou transnacionalidade. Ou ent&atilde;o, no caso de a defini&ccedil;&atilde;o    destes conceitos ser t&atilde;o abrangente, revelavam que tinha sido efectuada,    quase arbitrariamente, uma selec&ccedil;&atilde;o de caracter&iacute;sticas    determinantes.      <p>Relativamente &agrave;s entrevistas, tudo dependia do n&iacute;vel    de forma&ccedil;&atilde;o dos entrevistados: os respons&aacute;veis por comunidades    isl&acirc;micas e as pessoas formadas da classe m&eacute;dia j&aacute; tinham    ouvido falar de conceitos n&atilde;o ar&aacute;bes e n&atilde;o isl&acirc;micos,    mas com diferentes conota&ccedil;&otilde;es &#151; o que tamb&eacute;m acontece    nas universidades ocidentais. A maior parte dos interlocutores negava, umas    vezes com as mesmas raz&otilde;es, outras vezes por raz&otilde;es totalmente    diferentes, a aplica&ccedil;&atilde;o dos conceitos de di&aacute;spora ou de    transnacionalismo ao &quot;isl&atilde;o&quot; ou &agrave; sua comunidade. As    raz&otilde;es de v&aacute;rios interlocutores mu&ccedil;ulmanos decorriam da    defesa do conceito isl&acirc;mico de universalismo, de acordo com o qual a <I>umma,</I>    a comunidade mundial dos crentes, tal como &eacute; entendida actualmente, representa    a comunidade transnacional por excel&ecirc;ncia e <I>avant la lettre</I><SUP><a href="#11">10</a><a name="top11"></a></SUP>.      <p>No que respeita &agrave;s experi&ecirc;ncias quotidianas das    pessoas em quest&atilde;o, o exemplo de uma entre muitas<SUP><a href="#12">11</a><a name="top12"></a></SUP>    fam&iacute;lias mu&ccedil;ulmanas portuguesas que mant&ecirc;m la&ccedil;os    familiares entre Mo&ccedil;ambique, Portugal e o Reino Unido &#151; designadamente    viajando, comunicando e, por vezes, fazendo com&eacute;rcio atrav&eacute;s das    fronteiras em contextos p&oacute;s-coloniais &#151; sugere o entendimento de    que os horizontes transnacionais constituem um tipo de recurso de capital social    e que as liga&ccedil;&otilde;es e as pr&aacute;ticas transnacionais (enquanto    elementos marcantes da biografia de uma fam&iacute;lia)<SUP><a href="#13">12</a><a name="top13"></a></SUP>    s&atilde;o normais na vida di&aacute;ria<SUP><a href="#14">13</a></SUP><a name="top14"></a>.    Num debate com jovens deste grupo espec&iacute;fico de mu&ccedil;ulmanos portugueses    (que em Portugal podem ser considerados representativos do <I>isl&atilde;o p&uacute;blico</I>)    acerca das suas atitudes relativamente &agrave; mobilidade e do seu auto-conhecimento    em compara&ccedil;&atilde;o com outros jovens lisboetas (sem experi&ecirc;ncia    de migra&ccedil;&atilde;o nas suas hist&oacute;rias familiares), uma estudante    universit&aacute;ria fez a seguinte observa&ccedil;&atilde;o reveladora:      ]]></body>
<body><![CDATA[<p> &Eacute; certo que somos transnacionais, porventura um pouco    mais do que a maioria dos portugueses, mas n&atilde;o necessariamente mais do    que aqueles [n&atilde;o mu&ccedil;ulmanos] cujos pais tamb&eacute;m prov&ecirc;m    das col&oacute;nias ou que foram trabalhar para a Fran&ccedil;a ou para outro    pa&iacute;s europeu. Tamb&eacute;m n&atilde;o somos os &uacute;nicos que estamos    interessados na pol&iacute;tica internacional e na ajuda humanit&aacute;ria,    ou contra a guerra no Iraque. De alguma maneira torn&aacute;mo-nos transnacionais,    mas isso n&atilde;o foi de prop&oacute;sito...<SUP></SUP>.<sup><a href="#15">14</a><a name="top15"></a></sup>     <p>A relev&acirc;ncia desta observa&ccedil;&atilde;o reside no    modo como a entrevistada encara a sua &quot;transnacionalidade&quot;, que &eacute;    vista como uma vantagem e como algo normal, de forma alguma em oposi&ccedil;&atilde;o    ou contra o seu sentimento de perten&ccedil;a nacional, sendo esta claramente    portuguesa (por nascimento, nacionalidade ou socializa&ccedil;&atilde;o), apesar    das diferen&ccedil;as relativamente &agrave; &quot;maioria da popula&ccedil;&atilde;o&quot;    em termos de hist&oacute;ria de migra&ccedil;&atilde;o (popula&ccedil;&otilde;es    das ex-col&oacute;nias provenientes de Mo&ccedil;ambique), de filia&ccedil;&atilde;o    religiosa (isl&atilde;o) e de caracter&iacute;sticas &eacute;tnicas (origem    indiana). A referida observa&ccedil;&atilde;o traduz uma esp&eacute;cie de senso    comum deste grupo de jovens portugueses mu&ccedil;ulmanos, cujos pais j&aacute;    eram nacionais portugueses quando Mo&ccedil;ambique se encontrava sob o dom&iacute;nio    colonial e que se v&ecirc;em a si pr&oacute;prios, n&atilde;o como imigrantes,    mas sim como &quot;retornados&quot;, tal como outros portugueses n&atilde;o    mu&ccedil;ulmanos e n&atilde;o etnicamente identificados<SUP><a href="#16">15</a><a name="top16"></a></SUP>.    Segundo um inqu&eacute;rito quantitativo realizado em 2006, 89% destes jovens    mu&ccedil;ulmanos aderiam &agrave; no&ccedil;&atilde;o de &quot;sentir-se em    casa&quot; em Portugal, percentagem compar&aacute;vel aos 88% dos jovens portugueses    n&atilde;o mu&ccedil;ulmanos<SUP><a href="#17">16</a><a name="top17"></a></SUP>.    Mais uma vez se torna claro que pessoas com horizontes, pr&aacute;ticas e experi&ecirc;ncias    transnacionais n&atilde;o s&atilde;o &quot;necessariamente sujeitos desinseridos    que conduzem as suas vidas num &quot;espa&ccedil;o flu&iacute;do&quot;, sem    limites definidos e desenraizado&quot;; pelo contr&aacute;rio, s&atilde;o actores    sociais que &quot;estabelecem fronteiras e fundam identidades&quot; (Smith,    2002, p. XIV).      <p>Neste aspecto, a observa&ccedil;&atilde;o da estudante universit&aacute;ria    introduz e corrobora o principal argumento do presente artigo, nomeadamente    o de que uma linguagem discursiva acad&eacute;mica (neste caso, o termo &quot;transnacionalismo&quot;)    fornece e/ou sugere instrumentos e marcadores para a auto-reflex&atilde;o e    iden tidade em pessoas da classe m&eacute;dia. Quando pontualmente adoptados,    estes termos constituem autodescri&ccedil;&otilde;es, enquanto neste tipo de    p&ecirc;ndulo entre a investiga&ccedil;&atilde;o social e o <I>terreno,</I>    a <I>academia </I>(na minha humilde impress&atilde;o), na sua produ&ccedil;&atilde;o    de linhas discursivas, corre o risco de sobrestimar a relev&acirc;ncia de &#151;    e a consci&ecirc;ncia sobre &#151; esses elementos no constante processo de    forma&ccedil;&atilde;o da subjectividade h&iacute;brida colectiva.      <p>Em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; di&aacute;spora, ficou patente    que entre os membros da comunidade da &quot;primeira gera&ccedil;&atilde;o&quot;    existia o receio de se estabelecerem paralelismos entre a hist&oacute;ria do    juda&iacute;smo e a dos mu&ccedil;ulmanos actualmente espalhados pelo mundo.    Na maior parte dos casos, as conversas sobre a di&aacute;spora conduziam &agrave;    hist&oacute;ria isl&acirc;mica do direito e &agrave; problem&aacute;tica da    situa&ccedil;&atilde;o das minorias, para as quais n&atilde;o existe conceito    teol&oacute;gico ou jur&iacute;dico isl&acirc;mico, mas sim exemplos hist&oacute;ricos,    como o do al-Andaluz, depois da Reconquista<SUP><a href="#18">17</a><a name="top18"></a></SUP>.      <p>Os conceitos anal&iacute;ticos tendem sempre a ocultar e a    anular diferen&ccedil;as &#151; a l&oacute;gica da generaliza&ccedil;&atilde;o    &eacute;-lhes inerente. O que &eacute; interessante nestas tend&ecirc;ncias    discursivas &eacute;, antes de mais, a discrep&acirc;ncia entre a linguagem    das autoridades tradicionais e as vozes mu&ccedil;ulmanas actuais, provocada    pela emancipa&ccedil;&atilde;o de conceitos restritos que j&aacute; n&atilde;o    reflectem as realidades societais.      <p>&nbsp;      <P><b>A aus&ecirc;ncia de uma situa&ccedil;&atilde;o diasp&oacute;rica na    teoria </b>      <p>Apesar de hoje em dia quase um ter&ccedil;o dos mu&ccedil;ulmanos    viver em circunst&acirc;ncias equivalentes, isto &eacute;, fora do &quot;territ&oacute;rio    do isl&atilde;o&quot;, no sentido estrito, a situa&ccedil;&atilde;o das minorias    que se encontram longe dos pa&iacute;ses centrais isl&acirc;micos, ou seja,    a presen&ccedil;a de mu&ccedil;ulmanos em territ&oacute;rios sujeitos ao direito    n&atilde;o isl&acirc;mico, &eacute; ainda estigmatizada por c&iacute;rculos    conservadores de vis&atilde;o normativa e sunita, especialmente pelas autoridades    religiosas nas sociedades de maioria isl&acirc;mica. Uma situa&ccedil;&atilde;o    &quot;diasp&oacute;rica&quot; &eacute; recusada ou s&oacute; &eacute; aceite    temporariamente com argumentos que resultam, em parte, de complexos enredos    de teologia e de experi&ecirc;ncia hist&oacute;rica (Dur&aacute;n, 1990).      <p>Isto n&atilde;o significa que, devido a essa estigmatiza&ccedil;&atilde;o,    lacuna jur&iacute;dica ou de orienta&ccedil;&atilde;o teol&oacute;gica e te&oacute;rica,    o mu&ccedil;ulmano que imigrou para a Europa &agrave; procura de melhores condi&ccedil;&otilde;es    de vida <I>voltaria</I> &agrave; sua terra de origem (ou &agrave; dos seus pais).    A aus&ecirc;ncia de um modelo jur&iacute;dico isl&acirc;mico para uma &quot;boa    vida isl&acirc;mica&quot; no seio de sociedades dominantes p&oacute;s-industriais    ou p&oacute;s-secularizadas parece n&atilde;o ter significado especial para    grande parte dos mu&ccedil;ulmanos envolvidos. A origem da problem&aacute;tica    da denominada &quot;separa&ccedil;&atilde;o do mundo em dois&quot;, nas zonas    antag&oacute;nicas &quot;territ&oacute;rio do isl&atilde;o&quot; e &quot;territ&oacute;rio    da guerra ou da descren&ccedil;a&quot; (a Europa inclu&iacute;a-se nesta), &eacute;    tida como medieval e ultrapassada &#151; ou ent&atilde;o s&atilde;o estabelecidos    novos par&acirc;metros de ordena&ccedil;&atilde;o, pelos quais a Europa (ou    parte dela) poderia ser inclu&iacute;da no &quot;territ&oacute;rio do isl&atilde;o&quot;,    por exemplo, com a liberdade de religi&atilde;o garantida, conforme a constitui&ccedil;&atilde;o    (Shadid e van Koningsveld, 1996a).      <p>Facilmente se imagina que a qualidade da liberdade de religi&atilde;o    nos diversos pa&iacute;ses europeus, ou seja, a condi&ccedil;&atilde;o para    uma &quot;vida isl&acirc;mica&quot; boa numa situa&ccedil;&atilde;o minorit&aacute;ria,    &eacute; apreciada de v&aacute;rias formas por diferentes mu&ccedil;ulmanos:    basta pensar na decis&atilde;o tomada em Fran&ccedil;a sobre o v&eacute;u <I>(hijab),</I>    que levou &agrave; proibi&ccedil;&atilde;o, em 2003, dessa pe&ccedil;a de vestu&aacute;rio    nas escolas p&uacute;blicas francesas. Este tipo de conflito, que rapidamente    origina uma explica&ccedil;&atilde;o-modelo simplista, assente na dicotomia    &quot;isl&atilde;o-Ocidente&quot;, que desrespeita a sua origem s&oacute;cio-hist&oacute;rica    muito espec&iacute;fica e actual, tem como consequ&ecirc;ncia quer o desenvolvimento    de uma solidariedade emancipat&oacute;ria e lutadora e de uma pol&iacute;tica    de identidade, quer a implementa&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas isolacionistas.    A velha divis&atilde;o do mundo em dois presta, mais uma vez, bons servi&ccedil;os    ideol&oacute;gicos &agrave;s posi&ccedil;&otilde;es isolacionistas, parcialmente    no &acirc;mbito verbal-djihadista, e os enredos das inten&ccedil;&otilde;es    jur&iacute;dico-isl&acirc;micas com experi&ecirc;ncia hist&oacute;rica (desde    as cruzadas at&eacute; &agrave; hist&oacute;ria colonial mais actual) estendem-se    at&eacute; &agrave; actualidade. Posi&ccedil;&otilde;es que, embora marginais,    assumem grande efic&aacute;cia nos meios de comunica&ccedil;&atilde;o.      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O facto de a Europa, enquanto local de resid&ecirc;ncia permanente,    n&atilde;o ter sido at&eacute; hoje enquadrada positivamente nas categorias    isl&acirc;micas, bem como a circunst&acirc;ncia de os conceitos isl&acirc;micos    estabelecidos n&atilde;o abarcarem a realidade de 20 milh&otilde;es de imigrantes,    popula&ccedil;&otilde;es provenientes das col&oacute;nias, refugiados e cidad&atilde;os    que a si mesmos se apresentam como mu&ccedil;ulmanos ou s&atilde;o por outros    qualificados como tal devido &agrave;s suas origens &eacute;tnicas, s&atilde;o    aspectos que chamam a aten&ccedil;&atilde;o para a necessidade de desenvolver    novos conceitos. Novas condi&ccedil;&otilde;es e experi&ecirc;ncias de vida    requerem novas respostas a novas perguntas. As respectivas discuss&otilde;es    n&atilde;o tratam apenas da situa&ccedil;&atilde;o internacional e da migra&ccedil;&atilde;o,    mas baseiam-se tamb&eacute;m, no nosso caso, nas experi&ecirc;ncias em contexto    europeu. Mandaville descreve a Europa como um &quot;contexto &iacute;mpar para    a reavalia&ccedil;&atilde;o de teorias, cren&ccedil;as e tradi&ccedil;&otilde;es,    enquanto um transnacionalismo acrescido franqueia o mundo a estas novas reformula&ccedil;&otilde;es&quot;    (Mandaville, 2003, pp. 140-141). N&atilde;o marcam o in&iacute;cio da hist&oacute;ria    mais recente da nova presen&ccedil;a isl&acirc;mica<SUP><a href="#19">18</a><a name="top19"></a></SUP>    na Europa, mas juntaram-se a uma segunda gera&ccedil;&atilde;o que j&aacute;    n&atilde;o encara a sua estada como tempor&aacute;ria, pois a&iacute; nasceu    e cresceu.      <p>&nbsp;     <P><b>A tese de um jogo de permuta entre universidades e comunidades</b>      <p>Como foi anteriormente referido, diversos contributos recentes    de investigadores interpretam determinadas actua&ccedil;&otilde;es de mu&ccedil;ulmanos    dispersos pelo mundo, bem como de diferentes grupos isl&acirc;micos, escolas    de pensamento e redes internacionais, por meio dos conceitos de transnacionalidade    ou de comunidades transnacionais (por exemplo, Mandaville, 2001 e 2003, Werbner,    2002, Allievi e Nielsen, 2003, Vertovec, 2003, Roy, 2003, Grillo, 2004, e Bowen,    2004). As caracter&iacute;sticas e o alcance das rela&ccedil;&otilde;es entre    os mu&ccedil;ulmanos mundialmente dispersos, as suas liga&ccedil;&otilde;es    entre os pa&iacute;ses de origem e os pa&iacute;ses de destino, as viagens (com    mercadorias), ocasionalmente o com&eacute;rcio e a circula&ccedil;&atilde;o    de dinheiro, a participa&ccedil;&atilde;o em conversas e a comunica&ccedil;&atilde;o    atrav&eacute;s da esfera virtual, n&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida de que    constituem ind&iacute;cios do seu car&aacute;cter transnacional. Outros investigadores    t&ecirc;m debatido a no&ccedil;&atilde;o de &quot;di&aacute;spora mu&ccedil;ulmana&quot;    (Saint-Blancat, 1995; Samers, 2003), definindo-a, entre outras coisas, como    uma &quot;antina&ccedil;&atilde;o&quot; (Sayyid, 2002). Na verdade, nos &uacute;ltimos    trinta anos, os mu&ccedil;ulmanos na Europa foram tema em todos os discursos    e perspectivas de investiga&ccedil;&atilde;o que se ocupam da migra&ccedil;&atilde;o.    Existem muitas ideias ou raz&otilde;es suplementares que, do(s) ponto(s) de    vista mu&ccedil;ulmano(s), s&atilde;o a favor ou contra os conceitos de di&aacute;spora    e de transnacionalidade como designa&ccedil;&atilde;o pr&oacute;pria. No entanto,    logo que os r&oacute;tulos exteriores de &quot;di&aacute;spora&quot; e de &quot;transnacionalidade&quot;    come&ccedil;am a ser discutidos no que respeita &agrave; sua poss&iacute;vel    utiliza&ccedil;&atilde;o como auto-rotulagem, levanta-se imediatamente a seguinte    d&uacute;vida: encontrar-nos-emos perante uma linguagem discursiva que, numa    din&acirc;mica pr&oacute;pria e num primeiro momento, se distancia do material    (da experi&ecirc;ncia dos entrevistados) para, em seguida, ser levada por investigadores    e investigadoras desde as universidades at&eacute; &agrave;s comunidades? A    resposta n&atilde;o constitui uma surpresa: sim, foi assim. A tese aqui apresentada    para discuss&atilde;o &eacute; a seguinte: no extenso &acirc;mbito do tema &quot;mu&ccedil;ulmanos    na Europa&quot;, o papel essencial da defini&ccedil;&atilde;o, proclama&ccedil;&atilde;o    e, at&eacute; certo ponto, forma&ccedil;&atilde;o de &quot;consci&ecirc;ncias    diasp&oacute;ricas&quot; ou &quot;transnacionais&quot; tem, efectivamente, origem    nos investigadores (na maioria, n&atilde;o mu&ccedil;ulmanos) e nas classes    m&eacute;dias instru&iacute;das mu&ccedil;ulmanas. Se <I>di&aacute;spora </I>e    <I>transnacionalidade </I>surgem com significados pr&oacute;prios, ent&atilde;o    isso deve-se a uma divulga&ccedil;&atilde;o dessa evid&ecirc;ncia efectuada    por protagonistas mu&ccedil;ulmanos que pertencem a universidades ou faculdades    europeias.<SUP><a href="#20">19</a><a name="top20" id="top20"></a></SUP>     <p>O simples &quot;sim&quot; torna-se expressivo quando observamos    a especificidade hist&oacute;rica deste processo, com relevo para as condi&ccedil;&otilde;es    sociais da Europa, n&atilde;o esquecendo a influ&ecirc;ncia das rela&ccedil;&otilde;es    e dos acontecimentos internacionais nem as interac&ccedil;&otilde;es ao n&iacute;vel    translocal. Frequentemente, esse facto &eacute; esquecido em rela&ccedil;&atilde;o    aos mu&ccedil;ulmanos, quando &quot;o isl&atilde;o&quot; &eacute; percepcionado    como algo distante ou ex&oacute;tico e estranho e os protagonistas locais s&atilde;o    erradamente encarados como reprodutores de uma &uacute;nica tradi&ccedil;&atilde;o,    importada sem altera&ccedil;&otilde;es e simplesmente prolongada (Salih, 2001).    Al&eacute;m disso, afastamos o olhar dos sistemas (neste caso, do isl&atilde;o,    da hist&oacute;ria do direito isl&acirc;mico) em que n&atilde;o existem ideias    como o conceito recente de transnacionalidade ou o termo &quot;di&aacute;spora&quot;    ou as suas novas conceptualiza&ccedil;&otilde;es sem&acirc;nticas e globais,    para nos ocuparmos dos agentes que modificam tradi&ccedil;&otilde;es hist&oacute;ricas.    Estas s&atilde;o, como acontece na maior parte das vezes nos processos de mudan&ccedil;as    sociais e/ou na sua an&aacute;lise, as classes m&eacute;dias educativas<SUP><a href="#21">20</a><a name="top21"></a></SUP>,    neste caso as universidades e os mu&ccedil;ulmanos europeus intelectuais, que    exercem influ&ecirc;ncia na comunica&ccedil;&atilde;o social ou nas respectivas    <I>comunidades.</I> Assim, podemos descobrir por detr&aacute;s do simples &quot;sim&quot;    deste exemplo as consequ&ecirc;ncias que a utiliza&ccedil;&atilde;o de uma linguagem    discursiva secular pode ter nas <I>pol&iacute;ticas comunit&aacute;rias.</I>      <p>&nbsp;     <P><b>Nova presen&ccedil;a isl&acirc;mica e novos discursos acad&eacute;micos    </b>      <p>A situa&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica espec&iacute;fica,    ou seja, a hist&oacute;ria da evolu&ccedil;&atilde;o da nova presen&ccedil;a    isl&acirc;mica na Europa, s&oacute; pode ser compreendida se acrescentarmos    mais alguns dados importantes. Desde o final da Segunda Guerra Mundial, a migra&ccedil;&atilde;o    global, a descoloniza&ccedil;&atilde;o, os objectivos educacionais, a fuga de    zonas de crise e de pobreza econ&oacute;mica, geraram uma vaga crescente de    imigra&ccedil;&atilde;o vinda dos pa&iacute;ses maioritariamente mu&ccedil;ulmanos    em direc&ccedil;&atilde;o aos estados-na&ccedil;&otilde;es que durante a guerra    fria eram designados por &quot;Europa livre&quot;. Hoje cerca de 20 milh&otilde;es    de pessoas consideradas mu&ccedil;ulmanas &#151; devido &agrave;s suas convic&ccedil;&otilde;es    religiosas e express&otilde;es sociopol&iacute;ticas, ou apenas devido &agrave;    sua origem geogr&aacute;fica ou hist&oacute;ria familiar &#151; vivem em sociedades    europeias ocidentais. O n&uacute;mero de cidad&atilde;os mu&ccedil;ulmanos europeus    e seus descendentes (que nasceram e foram educados na Europa) est&aacute; constantemente    a crescer.      <p>Inicialmente, os imigrantes eram sobretudo homens, cuja estada    era considerada provis&oacute;ria por eles pr&oacute;prios e pelos outros, n&atilde;o    sendo olhados como mu&ccedil;ulmanos, antes sendo qualificados de acordo com    a sua condi&ccedil;&atilde;o econ&oacute;mica (por exemplo, <I>guest workers,</I>    &agrave; letra &quot;trabalhadores convidados&quot;), com o seu estatuto jur&iacute;dico    (por exemplo, refugiados) e, sobretudo, com a sua origem nacional (turcos, paquistaneses,    etc.). O facto de n&atilde;o serem vistos como mu&ccedil;ulmanos relaciona-se,    por um lado, com a aus&ecirc;ncia de demonstra&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas    ou com a exibi&ccedil;&atilde;o de sinais vis&iacute;veis de religiosidade (Kettani,    1996) e, por outro, com a falta de interesse p&uacute;blico e cient&iacute;fico    da Europa do p&oacute;s-guerra e p&oacute;s-colonial em rela&ccedil;&atilde;o    &agrave; religi&atilde;o. Quest&otilde;es ligadas &agrave; religi&atilde;o eram,    na altura, consideradas pouco modernas, circunst&acirc;ncia que j&aacute; n&atilde;o    se verifica actualmente (Nielsen, 1992; Pollack, 1997). De um ponto de vista    retrospectivo, apenas em rela&ccedil;&atilde;o aos anos 80 &eacute; que se pode    falar de uma nova presen&ccedil;a isl&acirc;mica na Europa, quando a religiosidade    dos novos membros da sociedade em rela&ccedil;&atilde;o ao isl&atilde;o foi    organizada de forma vis&iacute;vel e de acordo com modelos europeus. Nas ci&ecirc;ncias    sociais europeias &#151; e assim chegamos aos agentes &#151; os investigadores    desenvolviam um discurso paralelo, seguindo uma estrat&eacute;gia discursiva    livre que, desde ent&atilde;o, e em colabora&ccedil;&atilde;o com colegas americanos,    se centrou progressivamente nos &quot;mu&ccedil;ulmanos na Europa&quot; e no    &quot;isl&atilde;o no Ocidente&quot;.      <p>A partir da revolu&ccedil;&atilde;o no Ir&atilde;o, em 1979,    voltamos a encontrar o isl&atilde;o nas agendas pol&iacute;ticas e, mais tarde,    com o fim do <I>pequeno s&eacute;culo XX</I> (1914-1991) (Hobsbawm, 1995) e    da guerra fria, surgiram em v&aacute;rias regi&otilde;es do mundo movimentos    pol&iacute;ticos modernos, de defini&ccedil;&atilde;o religiosa: do despertar    do <I>bible belt</I> americano, durante o governo de Reagan, ou seja, o <I>religious    right</I> protestante nos EUA, passando pela Islamic Salvation Front (FIS) na    Arg&eacute;lia, at&eacute; ao movimento extremista <I>Comunione e Liberazione,</I>    de inspira&ccedil;&atilde;o cat&oacute;lica, em It&aacute;lia. Situamos o ponto    de viragem da hist&oacute;ria da nova presen&ccedil;a isl&acirc;mica na Europa    no ano de 1989 (Tiesler, 2006b, p. 93), marcado pela primeira &quot;pol&eacute;mica    do v&eacute;u&quot; <I>(affaire du foulard)</I> em Fran&ccedil;a, &agrave; qual    a comunica&ccedil;&atilde;o social deu grande relevo, e, no mesmo ano, por ocasi&atilde;o    do caso Rushdie, na Gr&atilde;-Bretanha, que concentrou a aten&ccedil;&atilde;o    mundial (o protesto p&uacute;blico de mu&ccedil;ulmanos em Bradford contra os    <I>Vers&iacute;culos Sat&acirc;nicos,</I> que terminou com uma queima de livros    e levou Khomeini a decretar a denominada &quot;<I>fatwa</I> de morte&quot; contra    o escritor Salman Rushdie).      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Nestas circunst&acirc;ncias, cada vez mais se tornavam not&oacute;rios    os problemas emergentes de minorias &eacute;tnicas com antecedentes migrat&oacute;rios,    nomeadamente durante a estagna&ccedil;&atilde;o econ&oacute;mica das grandes    cidades europeias. Estes problemas dos mu&ccedil;ulmanos que imigraram de regi&otilde;es    de tradi&ccedil;&atilde;o agr&aacute;ria para metr&oacute;poles europeias industrializadas    foram explicados atrav&eacute;s de modelos religiosos, apesar de pouco terem    a ver com o isl&atilde;o e muito mais com um confronto entre padr&otilde;es    de vida tradicionais e modernos.      <p>Aproximadamente nessa altura, os filhos dos primeiros imigrantes    oriundos de sociedades de maioria isl&acirc;mica chegavam &agrave; idade de    ingressar na universidade, tendo crescido a ouvir os conceitos de <I>postcolonial    studies</I> e de <I>cultural studies</I> e, mais importante ainda, os discursos    sobre &quot;identidades colectivas&quot; tardiamente importados dos Estados    Unidos da Am&eacute;rica (Siems, 2007; Tiesler, 2006b). Com a forma&ccedil;&atilde;o    de classes m&eacute;dias euro-mu&ccedil;ulmanas, que tinham frequentado os sistemas    de ensino locais, aumentaram os contributos de acad&eacute;micos e de intelectuais    mu&ccedil;ulmanos sobre o tema &quot;mu&ccedil;ulmanos na Europa&quot;, bem    como os debates dentro do isl&atilde;o, que reflectiam as experi&ecirc;ncias    de emigra&ccedil;&atilde;o e das minorias, por um lado, em colabora&ccedil;&atilde;o    com respons&aacute;veis universit&aacute;rios e religiosos nos pa&iacute;ses    de origem (dos pais) e por outro, demarcando-se e opondo-se a eles.      <p>&nbsp;      <P><b>Protagonistas de modernidades isl&acirc;micas</b>      <p>Dada a actual situa&ccedil;&atilde;o das minorias mu&ccedil;ulmanas,    e atentendo ao panorama do ensino isl&acirc;mico tradicional, considerou-se    que as novas condi&ccedil;&otilde;es sociais criaram a oportunidade e a necessidade    de se desenvolverem novos conceitos. No &acirc;mbito do desenvolvimento destes    novos conceitos euro-isl&acirc;micos, n&atilde;o se deve ignorar a linguagem    discursiva secular, porque os seus agentes s&atilde;o formados em institui&ccedil;&otilde;es    onde lhes s&atilde;o facultados esses instrumentos intelectuais. Contudo, e    na sua grande parte, esses agentes t&ecirc;m educa&ccedil;&atilde;o religiosa    e alguma influ&ecirc;ncia nas suas comunidades. Assim, o meu interesse incide,    mediante uma an&aacute;lise discursiva, no posicionamento dos conceitos da pol&iacute;tica    de identidade e nos conceitos da teologia e do direito isl&acirc;mico que foram    desenvolvidos na Europa e que t&ecirc;m rela&ccedil;&atilde;o com o espa&ccedil;o    europeu, dando especial aten&ccedil;&atilde;o ao comportamento sociol&oacute;gico    dos agentes sociais.      <p>No centro da an&aacute;lise situam-se os trabalhos dos dois    intelectuais mu&ccedil;ulmanos anteriormente referidos: Tariq Ramadan e S. Sayyid.    Tariq Ramadan &eacute;, hoje em dia, o autor euro-isl&acirc;mico mais conhecido.    Neto de Hasan al-Banna<SUP><a href="#22">21</a><a name="top22"></a></SUP> e    filho do exilado eg&iacute;pcio Said Ramadan (ambos considerados &quot;gigantes    dos movimentos de reislamiza&ccedil;&atilde;o&quot; (v. <I>Q-News,</I> 312,    1999), come&ccedil;ou por trabalhar como pedagogo na Su&iacute;&ccedil;a e,    mais tarde, como activista em organiza&ccedil;&otilde;es de ajuda humanit&aacute;ria    ao Terceiro Mundo. S&oacute; h&aacute; cerca quinze anos &eacute; que este su&iacute;&ccedil;o    frequenta o palco das actividades isl&acirc;micas na Europa, sendo consultor    nas comiss&otilde;es europeias que se ocupam das popula&ccedil;&otilde;es mu&ccedil;ulmanas    na Europe de hoje. Para Ramadan, a chave para o sucesso da integra&ccedil;&atilde;o    mu&ccedil;ulmana na Europa reside na obten&ccedil;&atilde;o de uma forma&ccedil;&atilde;o    secular <I>e</I> isl&acirc;mica, ou seja, encontra-se em primeiro lugar na pr&oacute;pria    f&eacute;, no isl&atilde;o, cujas fontes textuais devem ser interpretadas &agrave;    luz do contexto social e hist&oacute;rico actual. Tendo feito o doutoramento    em Friburgo sobre Nietzsche (co-orientado por Reinhard Schulze) e estudado direito    isl&acirc;mico na Universidade Al-Azhar, no Cairo, torna-se &oacute;bvio que    Ramadan &eacute; a pessoa adequada para um empreendimento desta dimens&atilde;o,    devido &agrave; sua hist&oacute;ria familiar. Talvez haja at&eacute; quem afirme    que ele estava predestinado para tal. Ramadan efectuou a referida interpreta&ccedil;&atilde;o    com sucesso, como se pode comprovar pela difus&atilde;o internacional de <I>To    Be a European Muslim</I> (1999) e de <I>Muslims in the West and the Future of    Islam</I> (2003) tanto em c&iacute;rculos mu&ccedil;ulmanos como n&atilde;o    mu&ccedil;ulmanos. Tamb&eacute;m &eacute; visto como precursor de ideias e activista    de uma islamiza&ccedil;&atilde;o contempor&acirc;nea, de &quot;compatibiliza&ccedil;&atilde;o    europeia&quot; dos <I>mu&ccedil;ulmanos na Europa,</I> sendo assim claramente    integr&aacute;vel na tradi&ccedil;&atilde;o familiar dos dirigentes de movimentos    de (re)islamiza&ccedil;&atilde;o.      <p>Tariq Ramadan &eacute; o mais importante elo de liga&ccedil;&atilde;o    de um <I>novo movimento internacional</I> de activistas isl&acirc;micos que    se dedicam, hoje em dia, &agrave; defesa da democracia e dos direitos do homem    e que se preocupam em estabelecer um entendimento com a classe m&eacute;dia    secularizada (Kepel, 2002, p. 429). Os seus conceitos podem ser entendidos atrav&eacute;s    da no&ccedil;&atilde;o de &quot;p&oacute;s-islamismo&quot;. Segundo Asef Bayat    (2005), a viragem p&oacute;s-islamista &eacute; caracterizada pela promo&ccedil;&atilde;o    e proclama&ccedil;&atilde;o de <I>direitos,</I> em vez de <I>obriga&ccedil;&otilde;es,</I>    de <I>pluralidade,</I> em vez de <I>uma </I>voz singular e autorit&aacute;ria,    de <I>historicidade,</I> em vez de <I>escritura imut&aacute;vel,</I> e de <I>futuro,</I>    em vez de <I>passado.</I> Ramadan &eacute; tamb&eacute;m um orador carism&aacute;tico    e um pregador, cujos discursos s&atilde;o solicitados n&atilde;o apenas em confer&ecirc;ncias    acad&eacute;micas, em encontros de especialistas de pol&iacute;tica europeia    e em c&iacute;rculos de di&aacute;logos inter-religiosos, mas tamb&eacute;m    constantemente, e desde o princ&iacute;pio ou meados dos anos 90, nos movimentos    de &quot;jovens mu&ccedil;ulmanos&quot; franceses (por exemplo, a <I>Union des    Jeunes Musulmans,</I> UJM), neste caso em combina&ccedil;&atilde;o com temas    espirituais. No essencial, estes movimentos reclamam a constitui&ccedil;&atilde;o    de uma &quot;identidade isl&acirc;mica&quot;<I>, apelando para uma ideia de    comunidade</I> (Kepel, 1996, p. 325), opini&atilde;o que se reporta &agrave;    Irmandade Mu&ccedil;ulmana (<I>Muslim Brotherhood</I>) e cujos impulsionadores    e defensores dentro da juventude franco-isl&acirc;mica foram sobretudo Tariq    Ramadan e o seu irm&atilde;o Hani (im&atilde; da comunidade isl&acirc;mica de    Genebra)<SUP><a href="#23">22</a></SUP><a name="top23"></a>. O que n&atilde;o    significa que Ramadan perten&ccedil;a a qualquer movimento da Irmandade Mu&ccedil;ulmana;    ele &eacute;, antes de mais, um intelectual cr&iacute;tico e independente, tal    como S. Sayyid.      <p>Ao contr&aacute;rio de Ramadan, Sayyid n&atilde;o &eacute; um pregador nem    utiliza uma argumenta&ccedil;&atilde;o teol&oacute;gica, pelo menos em contextos    que eu conhe&ccedil;a<SUP><a href="#24">23</a><a name="top24"></a></SUP>. Para    al&eacute;m de ser um professor universit&aacute;rio brit&acirc;nico, &eacute;    tamb&eacute;m um <I>muslim networker, </I>como designadamente fica comprovado    pela sua participa&ccedil;&atilde;o no f&oacute;rum de discuss&atilde;o no Muslim    Institute, em Londres. Os seus trabalhos nunca abandonam o terreno de uma linguagem    rigorosa e cr&iacute;tica, cultivada dentro do contexto te&oacute;rico da ci&ecirc;ncia    pol&iacute;tica, da filosofia e da sociologia, que demonstra uma forma&ccedil;&atilde;o    filos&oacute;fica e um n&iacute;vel de pensamento acima dos discursos dominantes    ocidentais<SUP><a href="#25">24</a></SUP><a name="top25"></a>. Tamb&eacute;m    n&atilde;o abdica dessa linguagem em textos que s&atilde;o publicados, por exemplo,    na &quot;sala de leitura&quot; virtual do Jamaat-e-Islami Bangladesh<SUP><a href="#26">25</a></SUP><a name="top26"></a>.      <p>Na verdade, Tariq Ramadan tamb&eacute;m se distancia da linguagem    habitual dos religiosos e dos intelectuais isl&acirc;micos. Mas identifica-se    com o motivo principal desse grupo, o que levou a que, frequentemente, em artigos    de jornais e outros, se referissem a ele como a <I>cabe&ccedil;a de Jano</I>    ou o <I>cavalo de Tr&oacute;ia do fundamentalismo,</I> ou que o comparassem    com Martinho Lutero ou com os te&oacute;logos de liberta&ccedil;&atilde;o da    Am&eacute;rica Latina dos anos 80. Essas compara&ccedil;&otilde;es tornaram-se,    de alguma forma, obrigat&oacute;rias na imprensa, bem como nos artigos da internet    que o referem.      <p>&nbsp;      ]]></body>
<body><![CDATA[<P><b>Hor&aacute;rio nobre para conceitos de espa&ccedil;o e perten&ccedil;a</b>      <p>O essencial dos trabalhos destes autores s&oacute; pode ser    aqui abordado resumidamente<SUP><a href="#27">26</a><a name="top27"></a></SUP>.    Interessante para n&oacute;s &#151; e no &acirc;mbito da tese acima referida    &#151; &eacute; o ponto de partida desses trabalhos e o tipo de conceitos que    a&iacute; s&atilde;o articulados ou desenvolvidos. A partir do in&iacute;cio    dos anos 90, Tariq Ramadan tem centralizado o seu interesse na lacuna do sistema    jur&iacute;dico isl&acirc;mico acima descrito. Diz ele que &eacute; premente    definir a Europa como um local de viv&ecirc;ncia mu&ccedil;ulmana (1999, p.    145): as condi&ccedil;&otilde;es de vida dos mu&ccedil;ulmanos na Europa s&atilde;o    boas, embora este n&iacute;vel nada tenha a ver com a sua condi&ccedil;&atilde;o    minorit&aacute;ria. De acordo com este autor, a seguran&ccedil;a de um mu&ccedil;ulmano    n&atilde;o &eacute; maior nos pa&iacute;ses de maioria mu&ccedil;ulmana do que    na Europa. Ramadan invalida a referida lacuna, na medida em que cria um novo    conceito de &quot;territ&oacute;rio&quot; com base na antiga divis&atilde;o    do mundo em dois: o &quot;territ&oacute;rio da profiss&atilde;o de f&eacute;&quot;,    o<I> space of testimony,</I> ao qual claramente pertence a Europa.      <p>De sublinhar &eacute; o facto de a obra de Tariq Ramadan, <I>To    Be a European Muslim</I> (1999), demonstrar que existe uma crescente aceita&ccedil;&atilde;o    da tentativa de regulamenta&ccedil;&atilde;o jur&iacute;dico-isl&acirc;mica    e de conceptualiza&ccedil;&atilde;o teol&oacute;gica isl&acirc;mica da situa&ccedil;&atilde;o    minorit&aacute;ria, levando ao fim da estigmatiza&ccedil;&atilde;o dos mu&ccedil;ulmanos    que nela se encontram. Ramadan rejeita uma transfer&ecirc;ncia terminol&oacute;gica    relativamente ao termo judaico da di&aacute;spora com o argumento, entre outros,    de que a defini&ccedil;&atilde;o da <I>umma</I> n&atilde;o inclui o conceito    de exclus&atilde;o<SUP><a href="#28">27</a></SUP><a name="top28"></a>. Por isso,    n&atilde;o utiliza como ponto de partida para a sua argumenta&ccedil;&atilde;o    o cl&aacute;ssico modelo do juda&iacute;smo hel&eacute;nico, que defende que    todos os judeus vivem na di&aacute;spora, mas antes a moderna ideologia sionista,    que tencionava atrair a imigra&ccedil;&atilde;o para o novo Estado de Israel,    aquando da sua funda&ccedil;&atilde;o, e que, seguidamente, estigmatizou os    judeus da di&aacute;spora (Zuckermann, 1997).      <p>Quando do lado isl&acirc;mico se fala de di&aacute;spora mu&ccedil;ulmana,    na maior parte dos casos as conota&ccedil;&otilde;es s&atilde;o sociodemogr&aacute;ficas,    incluem refer&ecirc;ncias &eacute;tnicas ou procuram ser compreendidas como    um conceito pol&iacute;tico &#151; em todo o caso, n&atilde;o se referem a discuss&otilde;es    islamol&oacute;gicas ou conceptuais<SUP><a href="#29">28</a><a name="top29"></a></SUP>.    Assim, a no&ccedil;&atilde;o de Sayyid de uma di&aacute;spora mu&ccedil;ulmana    n&atilde;o &eacute; teol&oacute;gica. Na base das suas reflex&otilde;es encontram-se,    por um lado, as actuais interpreta&ccedil;&otilde;es da <I>umma</I> e, por outro,    o acervo das discuss&otilde;es te&oacute;ricas acerca das intermin&aacute;veis    extens&otilde;es do termo &quot;di&aacute;spora&quot;. Na exposi&ccedil;&atilde;o    liter&aacute;ria do termo <I>umma</I> como <I>lugar de perten&ccedil;a</I> pode    afirmar-se, conclusivamente, que a <I>umma</I> &eacute; estilizada como a comunidade    imaginada por excel&ecirc;ncia, <I>the imagined community </I>(Anderson, 1991),    ou como a pr&oacute;pria na&ccedil;&atilde;o, <I>the very nation</I> (Tiesler,    1999). Sayyid caminha em sentido contr&aacute;rio e descreve a <I>umma</I> como    um fen&oacute;meno n&atilde;o nacional,<I> a-national,</I> que simultaneamente    questiona e transcende a l&oacute;gica da na&ccedil;&atilde;o:      <p>A afirma&ccedil;&atilde;o da subjectividade mu&ccedil;ulmana    representa um s&eacute;rio desafio &agrave; ideia de na&ccedil;&atilde;o [...]    O isl&atilde;o suspende a l&oacute;gica da na&ccedil;&atilde;o ao evidenciar    o problema da integra&ccedil;&atilde;o, isto &eacute;, como incluir v&aacute;rias    popula&ccedil;&otilde;es dentro das fronteiras da mesma na&ccedil;&atilde;o,    e ao incidir a sua aten&ccedil;&atilde;o no problema da lealdade dessas popula&ccedil;&otilde;es    para com uma entidade mais ampla do que a na&ccedil;&atilde;o [Sayyid, 2002,    p. 2 e 4]      <p>Recorrendo ao aparelho te&oacute;rico das modernas teorias    da na&ccedil;&atilde;o (Derrida, em particular), Sayyid argumenta contra a corrente.    No seu caminho para a formula&ccedil;&atilde;o da subjectividade mu&ccedil;ulmana,    com o apoio da no&ccedil;&atilde;o de di&aacute;spora mu&ccedil;ulmana entendida    como antina&ccedil;&atilde;o, Sayyid afirma claramente: a <I>umma</I> n&atilde;o    &eacute; uma na&ccedil;&atilde;o. Em primeiro lugar, refere que a na&ccedil;&atilde;o    define uma p&aacute;tria, enquanto a di&aacute;spora descreve uma situa&ccedil;&atilde;o    sem p&aacute;tria. No caso de uma na&ccedil;&atilde;o, os sujeitos nacionais    e o territ&oacute;rio estariam juntos, mas no caso da di&aacute;spora n&atilde;o.    A di&aacute;spora n&atilde;o &eacute; o que se encontra em frente, n&atilde;o    &eacute; o &quot;outro&quot; dentro de uma na&ccedil;&atilde;o. Assim, a exist&ecirc;ncia    de uma di&aacute;spora dentro de uma na&ccedil;&atilde;o evita a sua coes&atilde;o,    ou a unidade da na&ccedil;&atilde;o. Reside aqui o car&aacute;cter antinacional    da di&aacute;spora.      <p>Al&eacute;m disso, segundo Sayyid, a <I>umma</I> n&atilde;o    &eacute; uma comunidade econ&oacute;mica ou comercial, uma civiliza&ccedil;&atilde;o    ou uma sociedade lingu&iacute;stica e n&atilde;o revela realmente um estilo    de vida comum. O caminho da conceptualiza&ccedil;&atilde;o de uma di&aacute;spora    mu&ccedil;ulmana parte de duas considera&ccedil;&otilde;es: em primeiro lugar,    est&aacute; presente a ideia de que a proclama&ccedil;&atilde;o ou as discuss&otilde;es    acerca de uma subjectividade mu&ccedil;ulmana podem ser encontradas, hoje em    dia, em todas as comunidades isl&acirc;micas do mundo. Contudo, em segundo lugar,    surge a seguinte quest&atilde;o:      <p>Ainda existem algumas pr&aacute;ticas que s&atilde;o comuns    entre os mu&ccedil;ulmanos (por exemplo, os mu&ccedil;ulmanos rezam voltados    para Meca); contudo, &eacute; dif&iacute;cil concluir [&#133;] que isso constitua    a unidade da <I>umma </I>no seu modo de vida uniforme. Se a <I>umma </I>n&atilde;o    &eacute; uma na&ccedil;&atilde;o, um mercado comum ou uma civiliza&ccedil;&atilde;o    &#151; ser&aacute; porventura alguma coisa? Ser&aacute; que a dificuldade em    identificar a <I>umma</I> sugere que a ideia de uma subjectividade mu&ccedil;ulmana    n&atilde;o passa de uma quimera? Se a identidade mu&ccedil;ulmana &eacute; t&atilde;o    fragment&aacute;ria, como ser&aacute; poss&iacute;vel conceptualiz&aacute;-la?    Um forma ser&aacute; conceb&ecirc;-la em termos de uma di&aacute;spora mu&ccedil;ulmana    [Sayyid, 2002, p. 6].      <p>Apesar das claras diferen&ccedil;as entre os trabalhos de Ramadan    e Sayyid, as quest&otilde;es colocadas s&atilde;o, na sua ess&ecirc;ncia, muito    parecidas. Ramadan, o pol&iacute;tico da identidade, sintetiza-as da seguinte    maneira:      <p>Onde estamos n&oacute;s? Quem somos n&oacute;s? A que lugar    ou a quem pertencemos? Qual &eacute; a nossa &quot;identidade&quot;?<SUP><a href="#30">29</a></SUP><a name="top30"></a>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Estas quest&otilde;es e as respectivas reflex&otilde;es n&atilde;o    marcam o princ&iacute;pio da hist&oacute;ria da nova presen&ccedil;a isl&acirc;mica    na Europa, mas colocam-se com mais prem&ecirc;ncia desde o final dos anos 80    a uma segunda gera&ccedil;&atilde;o de intelectuais mu&ccedil;ulmanos. Enquanto    Ramadan procura solu&ccedil;&otilde;es que aos jovens europeus com ascend&ecirc;ncia    mu&ccedil;ulmana oferecem a possibilidade de serem mais isl&acirc;micos, sem    os obrigar a serem menos europeus, Sayyid (s.d.) entende esta mesma quest&atilde;o    como um desafio colocado aos acad&eacute;micos.      <p>Podemos resumir os conceitos de Ramadan e Sayyid com o lema    <I>&quot;</I>conceitos de espa&ccedil;o e perten&ccedil;a&quot;,<I> concepts    of space and belonging</I>, uma tem&aacute;tica que se articula com as &quot;quest&otilde;es    de espa&ccedil;o e de perten&ccedil;a&quot;, <I>questions of space and belonging</I>,    cuja relev&acirc;ncia nas sociedades dominantes e nas pol&iacute;ticas das &quot;maiorias&quot;    europeias vem crescendo desde os anos 80, como &eacute; confirmado pelo debate    sobre as &quot;identidades&quot;<SUP><a href="#31">30</a><a name="top31"></a></SUP>    nacionais e culturais, bem como pelos discursos acad&eacute;micos (Claussen,    2000b). De uma forma breve (ou lac&oacute;nica), podemos dizer que os intelectuais    mu&ccedil;ulmanos colocam estas quest&otilde;es, n&atilde;o porque uma av&oacute;    do Afeganist&atilde;o ou um im&atilde; oriundo da Turquia est&atilde;o a debater    &quot;identidades colectivas&quot;, mas porque, na Europa, essas quest&otilde;es    est&atilde;o constantemente a ser invocadas nos discursos proferidos nos meios    acad&eacute;micos, p&uacute;blicos e pol&iacute;ticos.      <P>&nbsp;     <P><b>Conclus&atilde;o </b>     <p>Como foi anteriormente mencionado, o contexto discursivo no    &acirc;mbito do qual foram escritas as obras dos acad&eacute;micos europeus    Ramadan e Sayyid &eacute; decisivo como suporte da tese segundo a qual existe    uma din&acirc;mica rela&ccedil;&atilde;o pendular entre a investiga&ccedil;&atilde;o    em ci&ecirc;ncias sociais e as pol&iacute;ticas dirigidas &agrave;s comunidades.      <p>Os discursos dominantes acima referidos, desde o multiculturalismo    at&eacute; &agrave; transnacionalidade, nos quais s&atilde;o tratadas, entre    outras quest&otilde;es, as diferen&ccedil;as entre maiorias e minorias sociais    e em que tamb&eacute;m se encontram pistas para &quot;saber como estudar&quot;    popula&ccedil;&otilde;es mu&ccedil;ulmanas locais, remetem, desde o final do    <I>pequeno s&eacute;culo XX,</I> para tr&ecirc;s concep&ccedil;&otilde;es.      <p>Em primeiro lugar, para o denominado <I>cultural turn,</I>    que chega a extravasar as ci&ecirc;ncias culturais, pol&iacute;ticas e socias.    De um ponto de vista cr&iacute;tico, trata-se aqui de uma aplica&ccedil;&atilde;o    cultural &agrave;s problem&aacute;ticas sociais. As pol&iacute;ticas das maiorias    e das minorias revelam um desenvolvimento crescente em rela&ccedil;&atilde;o    a atribui&ccedil;&otilde;es pr&oacute;prias ou alheias de &iacute;ndole religiosa    e cultural, que resultam em categorias de origem ou ascend&ecirc;ncia j&aacute;    ultrapassadas ao longo da hist&oacute;ria<SUP><a href="#32">31</a><a name="top32"></a></SUP>.    A tradi&ccedil;&atilde;o passa a ser argumento e modelo explicativo, anunciando-se    um &quot;retorno &agrave; tradi&ccedil;&atilde;o&quot;, mas esquecendo-se muitas    vezes que se recua quase sempre para algo que nunca existiu com essa forma.      <p>Como segunda tend&ecirc;ncia, podemos considerar as novidades    conceptuais de &quot;espacializa&ccedil;&atilde;o&quot;, que surgem com a nova    descoberta de espa&ccedil;os (nacionais) e reclamam &quot;recorda&ccedil;&otilde;es    colectivas&quot;, conformes a um equivalente individual-psicol&oacute;gico.    Este desenvolvimento, que foi previsto por Michel Foucault, entre outros, para    o fim do s&eacute;culo xx em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; import&acirc;ncia    do espa&ccedil;o (a presente &eacute;poca ser&aacute; talvez, acima de tudo,    a &eacute;poca do espa&ccedil;o), &eacute; muitas vezes utilizado erradamente    como &quot;fen&oacute;meno de globaliza&ccedil;&atilde;o&quot;, apenas ganhando    clareza quando pensado em paralelo com o aumento dos discursos de &quot;identidade&quot;.    Porque esta &eacute; a mais decisiva das concep&ccedil;&otilde;es complexas:    a procura e a atribu&ccedil;&atilde;o de &quot;identidades colectivas&quot;.    Pelo menos desde o fim da guerra fria, as conhecidas categorias de subjectividade    colectiva, como <I>povo, na&ccedil;&atilde;o, grupo </I>e<I> classe,</I> come&ccedil;aram    a evoluir, dando origem a um universo de quest&otilde;es abertas para as ci&ecirc;ncias    sociais, preocupadas com fen&oacute;menos de actores e de grupos sociais e colectividades.    Actualmente, as atribui&ccedil;&otilde;es de &quot;identidades colectivas&quot;    est&atilde;o &quot;&agrave; m&atilde;o de semear&quot;, apresentando frequentemente    o risco de ca&iacute;rem na generaliza&ccedil;&atilde;o e de se tornarem redutoras.      <p>Por forma a tornar mais acess&iacute;vel a dial&eacute;ctica    da reifica&ccedil;&atilde;o e da seculariza&ccedil;&atilde;o falhada, Detlev    Claussen, na tradi&ccedil;&atilde;o da teoria cr&iacute;tica, categorizou estas    novas ideologias em termos da &quot;religi&atilde;o da vida quotidiana&quot;    <I>(Alltagsreligion)</I> (Claussen, 2000c). Segundo este autor, a experi&ecirc;ncia    da desintegra&ccedil;&atilde;o social reintroduz as quest&otilde;es b&aacute;sicas    do significado social na consci&ecirc;ncia quotidiana, isto de uma forma radical,    como nunca antes acontecera. A no&ccedil;&atilde;o da &quot;religi&atilde;o    do quotidiano&quot; revela-se &uacute;til para tornar opacas rela&ccedil;&otilde;es    explic&aacute;veis em termos de polaridades. Para o crente, a religi&atilde;o    do quotidiano introduz e justifica &#151; por meio de uma estiliza&ccedil;&atilde;o    da pr&oacute;pria vitimiza&ccedil;&atilde;o do indiv&iacute;duos &#151; uma    clara separa&ccedil;&atilde;o entre amigos e inimigos e, como refere Claussen    (1994, p. 62), oferece ao indiv&iacute;duo respostas para todas as quest&otilde;es    centrais do significado social que uma sociedade sedenta de &quot;identidade&quot;    exige: <I>quem somos n&oacute;s?; donde viemos?; quem &eacute; o culpado?;</I>    de acordo com os requisitos da mentalidade do dia-a-dia, pouco disposta a lidar,    em profundidade, com problemas de dif&iacute;cil solu&ccedil;&atilde;o. As linguagens    discursivas dos intelectuais s&atilde;o influentes porque, hoje em dia, s&atilde;o    rapidamente transmitidas ao p&uacute;blico. Contudo, s&atilde;o por certo de    curta dura&ccedil;&atilde;o &#151; como fica demonstrado no caso das &quot;identidades    colectivas&quot;, ultrapassadas por novas perspectivas que lidam, por exemplo,    com movimentos sociais na era da &quot;p&oacute;s-identidade&quot; e que nos    chegam dos Estados Unidos (Lara&ntilde;a <I>et al.,</I> 1994). Apesar disso,    para as classes m&eacute;dias ocidentais e n&atilde;o ocidentais, &eacute; aparentemente    bastante dif&iacute;cil desistir da procura e da proclama&ccedil;&atilde;o de    &quot;identidades colectivas&quot;, nacionais e religiosas (Tiesler, 2006b,    p. 170).      <p>A interac&ccedil;&atilde;o entre estas concep&ccedil;&otilde;es    e as quest&otilde;es centrais relativas &agrave; etnicidade, &agrave; di&aacute;spora,    &agrave; transnacionalidade e &agrave;s discuss&otilde;es sobre a procura da    &quot;identidade colectiva&quot; e dos conceitos do &quot;pr&oacute;prio&quot;    e do &quot;outro&quot; pode, em todo o caso, ser articulada ou discutida em    fun&ccedil;&atilde;o da constru&ccedil;&atilde;o de espa&ccedil;os <I>(spaces)</I>    e de perten&ccedil;as <I>(belonging)</I>. Neste cen&aacute;rio, s&atilde;o compreens&iacute;veis    os trabalhos de Ramadan e Sayyid, bem como as pol&iacute;ticas de reconhecimento    das comunidades. Dado que a no&ccedil;&atilde;o de uma &quot;identidade europeia&quot;    se tornou extremamente popular, os representantes dos interesses mu&ccedil;ulmanos    transformaram-se em pol&iacute;ticos identit&aacute;rios. Os conceitos euro-mu&ccedil;ulmanos    podem ser lidos como respostas tanto a discursos dominantes como a novas experi&ecirc;ncias    societais. A integra&ccedil;&atilde;o das actuais linguagens discursivas nos    conceitos &quot;euro-isl&acirc;micos&quot; e nas pol&iacute;ticas comunit&aacute;rias    testemunha a transforma&ccedil;&atilde;o da religi&atilde;o tradicional em religi&atilde;o    moderna. Por religi&atilde;o tradicional podemos entender a pr&aacute;tica religiosa    ritualista ou a sabedoria religiosa transmitida oralmente, sem preocupa&ccedil;&otilde;es    reflexivas relativamente aos textos escritos, apenas acess&iacute;veis &agrave;s    elites. A chave da transforma&ccedil;&atilde;o est&aacute; na forma&ccedil;&atilde;o    secular. Uma gera&ccedil;&atilde;o que frequenta os sistemas educativos europeus    (ou outros seculares) tem outra perspectiva em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;    sua religi&atilde;o ou &agrave; dos seus pais. Com outros instrumentos, e com    acesso aos textos escritos, esta gera&ccedil;&atilde;o tem um relacionamento    desafiador para com as autoridades religiosas tradicionais. No &acirc;mbito    da nova presen&ccedil;a isl&acirc;mica, verificou-se que os religiosos &quot;importados&quot;    dos pa&iacute;ses de origem n&atilde;o sabiam responder &agrave;s quest&otilde;es    colocadas pelos jovens mu&ccedil;ulmanos integrados no seu novo contexto. O    lugar do antigo respons&aacute;vel da comunidade ser&aacute; em breve ou j&aacute;    se encontra ocupado por uma nova gera&ccedil;&atilde;o que cresceu na Europa    e que a&iacute; se sente &quot;em casa&quot;. Essa gera&ccedil;&atilde;o guarda    elementos da religi&atilde;o dos pais e, em alguns casos, propaga a ideia de    um &quot;retorno &agrave; verdadeira ess&ecirc;ncia&quot; do isl&atilde;o. A    defini&ccedil;&atilde;o daquilo que &eacute; a verdadeira ess&ecirc;ncia encontra-se    no princ&iacute;pio da pluralidade, muito diferente na Europa daquilo que se    passa, por exemplo, na Arg&eacute;lia, na Ar&aacute;bia Saudita ou no Afeganist&atilde;o.    Mesmo que especialmente entre os jovens mu&ccedil;ulmanos europeus se discuta    o &quot;retorno ao verdadeiro isl&atilde;o&quot;, a situa&ccedil;&atilde;o requer    que se &quot;retorne&quot; a algo que nunca existiu sob essa forma, nomeadamente    porque n&atilde;o se verificavam as mesmas condi&ccedil;&otilde;es sociais nas    quais se desenvolve a religiosidade actual. Apesar de as novas perspectivas    e as pr&aacute;ticas e ideias isl&acirc;micas serem muito variadas, s&atilde;o    diferentes daquelas que seguiam os av&oacute;s desta nova gera&ccedil;&atilde;o.    Forma&ccedil;&atilde;o secular, meios de comunica&ccedil;&atilde;o, formas organizativas,    condi&ccedil;&otilde;es quotidianas, estrat&eacute;gias pol&iacute;ticas, socializa&ccedil;&atilde;o,    mas tamb&eacute;m experi&ecirc;ncias de exclus&atilde;o nas sociedades europeias,    bem como a integra&ccedil;&atilde;o de novas linguagens discursivas nos debates    isl&acirc;micos, apontam para as seguintes tend&ecirc;ncias: por um lado, a    europeiza&ccedil;&atilde;o das culturas mu&ccedil;ulmanas e, por outro, ao mesmo    tempo, a islamiza&ccedil;&atilde;o dos europeus com ascend&ecirc;ncia mu&ccedil;ulmana.    Estas tend&ecirc;ncias s&oacute; podem ser compreendidas &agrave; luz de um    contexto europeu que, desde o final da guerra fria, assistiu &agrave; forma&ccedil;&atilde;o    de espa&ccedil;os de debate, quer p&uacute;blicos, quer no &acirc;mbito das    ci&ecirc;ncias sociais, acerca das atribui&ccedil;&otilde;es tradicionais e    religiosas, incluindo a promo&ccedil;&atilde;o do &quot;transnacionalismo&quot;    e das &quot;di&aacute;sporas&quot;, bem como das respectivas formas de consciencializa&ccedil;&atilde;o    e de identidade pol&iacute;ticas.       ]]></body>
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(2003b), &quot;From the  <I>Reconquista</I> to <I>Portugal  isl&acirc;mico</I>: islamic heritage in the shifting discourses of  portuguese historiography and national identity&quot;.  <I>Arqueologia Medieval,</I> 8, pp. 5-16.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000168&pid=S0003-2573200900010000200003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>Vertovec, S. (1999), &quot;Conceiving and researching transnationalism&quot;.  <I>Ethnic and Racial Studies,</I> 22 (2), pp. 447-462.</p>     <p>Vertovec, S. (2003), &quot;Diaspora, transnationalism and islam: sites of change and modes  of research&quot;. <I>In</I> S. Allievi e J. S. Nielsen (eds),  <I>Muslim Networks and Transnational Communities in and across  Europe,</I> Leiden, Brill, pp. 312-326.</p>     <p>Vertovec, S., e Peach, C. (eds.) (1996),  <I>Islam in Europe. The Politics of Religion and  Community,</I> Londres, Macmillan Press Ltd.</p>     <p>Vertovec, S., e Rogers, A. (eds.) (1998),  <I>Muslim European Youth: Reproducing Ethnicity, Religion,  Culture,</I> Aldershot, Ashgate.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Werbner, P. (2002), &quot;The place which is diaspora: citizenship, religion and gender in  the making of chaordic transnationalism&quot;. <I>Journal of Ethnic and Migration  Studies,</I> 28 (1), pp. 119-133.</p>      <p>Zuckermann, M. (1997), &quot;Die eigentliche Bew&auml;hrungsprobe steht noch    aus. Der Friedensprozess und die israelische Gesellschaft&quot;. <I>Vereinte    Nationen,</I> 6, pp. 199-203.</p>     <p>&nbsp;</p>      <p>&nbsp;</p>     <p><b>Notas</b></p>        <p><SUP><a href="#top2">1</a></SUP><a name="2" id="2"></a> Sobre    a prolifera&ccedil;&atilde;o do termo <I>di&aacute;spora,</I> v. Baumann (2000,    p. 325): &quot;O alargamento sem&acirc;ntico de <I>di&aacute;spora,</I> tanto    no que respeita a qualquer grupo de povos dispersos como para conceptualizar    um determinado tipo de consci&ecirc;ncia, fez da <I>di&aacute;spora</I> um dos    termos mais em voga no discurso acad&eacute;mico de finais do s&eacute;culo    XX.&quot;      <p><SUP><a href="#top3">2</a><a name="3"></a> </SUP>A linha de    pensamento deste artigo j&aacute; estava delineada no ano de 2004 e, assim,    p&ocirc;de beneficiar da discuss&atilde;o em contextos acad&eacute;micos muito    diversos, entre os quais (e em primeiro lugar) o painel dedicado &agrave;s religi&otilde;es    transnacionais (organizado por Ramon Sarr&oacute;) no X Congresso Luso-Afro-Brasileiro    de ci&ecirc;ncias sociais (Coimbra, Portugal, 2004), a confer&ecirc;ncia sobre    o papel das ci&ecirc;ncias sociais, primeira parte, na Funda&ccedil;&atilde;o    Heinrich-B&ouml;ll (Berlim, 2004) e, posteriormente, uma sess&atilde;o do col&oacute;quio    de p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o/p&oacute;s-doutoramento sobre a teoria    cr&iacute;tica contempor&acirc;nea orientado por Detlev Claussen (Universidade    de Hanover). Desejo expressar a minha profunda gratid&atilde;o aos participantes    que formularam coment&aacute;rios estimulantes, bem como aos editores e <I>referees</I>    do presente volume. Enquanto reescrevia este artigo e tentava corresponder a    esses coment&aacute;rios, ajudou-me a circunst&acirc;ncia de os principais argumentos    fazerem parte de um artigo recentemente publicado em alem&atilde;o (Tiesler    2007a) que suscitou novos coment&aacute;rios.      <p><SUP><a href="#top4">3</a></SUP><a name="4"></a> Mandaville    (2003, p. 130) descreve desenvolvimentos no seio da actividade intelectual mu&ccedil;ulmana    na Europa, prestando especial aten&ccedil;&atilde;o &agrave;queles pensadores    e activistas envolvidos nas pol&iacute;ticas da identidade e da comunidade isl&acirc;mica    na Europa. Atrav&eacute;s da reconcilia&ccedil;&atilde;o com as realidades quotidianas    da vida europeia com princ&iacute;pios religiosos, as suas obras s&atilde;o    apelativas para uma segunda gera&ccedil;&atilde;o de mu&ccedil;ulmanos nados    e criados na Europa. Muitos deles s&atilde;o altamente educados e procuram dar    forma a um isl&atilde;o critico e sofisticado.      <p><SUP><a href="#top5">4</a><a name="5"></a></SUP> Nielsen (2003)    sublinha como uma das caracter&iacute;sticas daquilo que designa como as &quot;novas&quot;    redes mu&ccedil;ulmanas transnacionais na Europa as formas de interac&ccedil;&atilde;o    com realidades e institui&ccedil;&otilde;es estranhas ao mundo isl&acirc;mico.    As institui&ccedil;&otilde;es acad&eacute;micas europeias pertencem, indiscutivelmente,    a esta categoria.      <p><SUP><a href="#top6">5</a><a name="6"></a></SUP> Nehring (2005,    p. 46) reconhece que esta consciencializa&ccedil;&atilde;o j&aacute; est&aacute;    presente em Wilfred Cantwell Smith, cuja relev&acirc;ncia no debate cultural    p&oacute;s-colonial &eacute; criticamente apreciada mediante o confronto entre    o seu conceito de uma &quot;teologia mundial&quot; e o modo como o estudo comparado    das religi&otilde;es se auto-apresenta como disciplina.      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><SUP><a href="#top7">6</a><a name="7"></a></SUP> Em Gerholm    e Lithman (1988) e Nielsen (1992) encontramos os primeiros textos gerais sobre    os mu&ccedil;ulmanos na Europa, reunindo contributos explicitamente relacionados    com a religi&atilde;o, aos quais devemos acrescentar, por ordem cronol&oacute;gica,    uma selec&ccedil;&atilde;o de textos de refer&ecirc;ncia que tratam dos mu&ccedil;ulmanos    &quot;no Ocidente&quot; e que, a par de peritos em estudos isl&acirc;micos,    incluem autores provenientes das ci&ecirc;ncias sociais e pol&iacute;ticas (soci&oacute;logos,    antrop&oacute;logos, etc.): Shadid e van Koningsveld (1991, 1996a, 1996b e 2002),    Dassetto (1995), Abulmaham (1995), Kepel (1996), Metcalf (1996), Nonnemann <I>et    al.</I> (1996), Vertovec e Peach (1996), Vertovec e Rogers (1998), Rath <I>et    al. </I>(2001), Al-Sayyed e Castells (2002), Hunter (2003) e Mar&eacute;chal    <I>et al.</I> (2003).      <p><SUP><a href="#top8">7</a></SUP><a name="8"></a> As conversas    tinham a ver, em primeiro lugar, com a utiliza&ccedil;&atilde;o do termo &quot;di&aacute;spora&quot;    em rela&ccedil;&atilde;o ao isl&atilde;o e foram efectuadas durante dois trabalhos    de investiga&ccedil;&atilde;o (tese de mestrado, <I>O Isl&atilde;o na Europa    de hoje: aspectos concordantes e significativos na presen&ccedil;a mu&ccedil;ulmana    devido &agrave; migra&ccedil;&atilde;o,</I> 1998, e tese de doutoramento, <I>P&aacute;tria    e estrangeiro desde 1989: para a nova presen&ccedil;a isl&acirc;mica e hist&oacute;ria    da evolu&ccedil;&atilde;o de conceitos isl&acirc;micos no contexto europeu,</I>    2003) com interlocutores femininos e masculinos mu&ccedil;ulmanos de v&aacute;rias    idades e, no in&iacute;cio, v&aacute;rios n&iacute;veis de forma&ccedil;&atilde;o    na Alemanha, Gr&atilde;-Bretanha e Portugal. Depois das experi&ecirc;ncias iniciais,    o grupo de interlocutores masculinos e femininos foi reduzido &agrave; classe-m&eacute;dia    instru&iacute;da. A este grupo pertenciam estudantes, respons&aacute;veis de    comunidades ou projectos, bem como autores e jornalistas.      <p><SUP><a href="#top9">8</a></SUP><a name="9"></a> Para uma leitura    mais clara, utiliza-se a partir daqui no plural apenas uma forma de g&eacute;nero    para substantivos pessoais, sendo esta compreendida como forma neutra. Por exemplo,    quando s&atilde;o referidos <I>mu&ccedil;ulmanos </I>ou <I>acad&eacute;micos,</I>    isto significa quer mulheres, quer homens. As diferencia&ccedil;&otilde;es de    g&eacute;nero e idade ser&atilde;o determinadas pelo contexto.      <p><SUP><a href="#top10">9</a></SUP><a name="10"></a> Para uma    defini&ccedil;&atilde;o da &quot;consci&ecirc;ncia da di&aacute;spora&quot;,    v., por exemplo, Clifford (1994): &quot;A consci&ecirc;ncia da di&aacute;spora    &eacute; o produto acabado de culturas e hist&oacute;rias em colis&atilde;o    e di&aacute;logo. [...] Os sujeitos diasp&oacute;ricos s&atilde;o, por isso,    vers&otilde;es distintas de uma viv&ecirc;ncia moderna, transnacional e cultural&quot;    (Clifford, 1994, p. 319). Phil Cohen (1998) declara ironicamente: &quot;Di&aacute;spora    &eacute; uma das palavras da moda com curso na p&oacute;s-modernidade: tem a    vantagem de soar de forma ex&oacute;tica quando rola sibilantemente na l&iacute;ngua    inglesa e, ao mesmo tempo, sugere a promessa de profundos sentidos ocultos,    em todo caso n&atilde;o dissonantes com a forma das ondas que morrem suavemente    nas praias que nos s&atilde;o familiares&quot; (trad. da autora).      <p><SUP><a href="#top11">10</a><a name="11"></a></SUP> O car&aacute;cter    transnacional t&iacute;pico da maior parte das chamadas religi&otilde;es mundiais    que estavam e est&atilde;o em expans&atilde;o a n&iacute;vel global &eacute;    apenas um dos exemplos que inspiram quest&otilde;es v&aacute;lidas sobre &quot;o    que h&aa&atilde;o acad&eacute;mica para a inven&ccedil;&atilde;o do termo &quot;transnacional&quot;?    Sobre esta quest&atilde;o, v. Al-Ali e Khoser (2002, pp. 1-8). Sobre a rela&ccedil;&atilde;o    religi&otilde;es/estados-na&ccedil;&otilde;es/sociedades civis contempor&acirc;neas,    v. Rudolph e Piscatori (1997), que, escrevendo em finais da d&eacute;cada de    90, focam a dilui&ccedil;&atilde;o da soberania estatal ao examinarem o atravessamento    das fronteiras nacionais por movimentos religiosos, processo conducente &agrave;    forma&ccedil;&atilde;o de uma sociedade civil transnacional.      <p><SUP><a href="#top12">11</a><a name="12"></a></SUP> V., por    exemplo, os trabalhos de Bryceson e Vuorela (2002).      <p><SUP><a href="#top13">12</a></SUP><a name="13"></a> Acima e    para al&eacute;m de todas as diferen&ccedil;as na experi&ecirc;ncia da migra&ccedil;&atilde;o    (positiva/negativa, aventurosa/traum&aacute;tica, volunt&aacute;ria/for&ccedil;ada),    a experi&ecirc;ncia e as suas consequ&ecirc;ncias (entre elas, o desenvolvimento    de pr&aacute;ticas transnacionais) constituem marcas que pontuam as hist&oacute;rias    familiares dos migrantes. Para os que efectivamente experimentaram a migra&ccedil;&atilde;o    (a chamada primeira gera&ccedil;&atilde;o), a emigra&ccedil;&atilde;o significa    uma ruptura (sem ser necess&aacute;ria e/ou inteiramente positiva ou negativa)    nas suas biografias e normalmente este epis&oacute;dio marcante &eacute; narrado    &agrave;s gera&ccedil;&otilde;es seguintes quando as liga&ccedil;&otilde;es    e pr&aacute;ticas transnacionais j&aacute; constituem uma parte normal da vida    di&aacute;ria.      <p><SUP><a href="#top14">13</a></SUP><a name="14"></a> Sobre o    papel desempenhado por este grupo de mu&ccedil;ulmanos portugueses de origem    indiana, v. Tiesler (2005) e Tiesler e Cairns (2007).      <p><SUP><a href="#top15">14</a><a name="15"></a> </SUP>Di&aacute;rio    de campo, 14 de Mar&ccedil;o de 2007, Tiesler, projecto de investiga&ccedil;&atilde;o    <I>Jovens Mu&ccedil;ulmanos em Portugal. Religi&atilde;o e Cultura, Mobilidade    e Cidadania,</I> Instituto de Ci&ecirc;ncias Sociais da Universidade de Lisboa,    financiado pela Funda&ccedil;&atilde;o para a Ci&ecirc;ncia e a Tecnologia;    v. <a href="http://www.ics.ul.pt/instituto/?ln=p&mm=3&linha=5&ctmid=1&mnid=1%20" target="_blank">http://www.ics.ul.pt/instituto/?ln=p&amp;mm=3&amp;linha=5&amp;ctmid=1&amp;mnid=1    </a>     <p><SUP><a href="#top16">15</a></SUP><a name="16"></a> Sobre as    altera&ccedil;&otilde;es da categoria &quot;mu&ccedil;ulmano&quot; e das imagens    de mu&ccedil;ulmanos em contextos portugueses, v. Vakil (2003a e 2003b).      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><SUP><a href="#top17">16</a><a name="17"></a></SUP> Participaram    neste inqu&eacute;rito 245 jovens lisboetas em transi&ccedil;&atilde;o para    a vida adulta (mu&ccedil;ulmanos e n&atilde;o mu&ccedil;ulmanos) oriundos da    classe m&eacute;dia. O inqu&eacute;rito foi realizado entre Novembro de 2005    e Mar&ccedil;o de 2006, integrado num projecto conjunto realizado por David    Cairns (Instituto de Ci&ecirc;ncias Sociais da Universidade de Lisboa) e pela    autora, intitulado &quot;Attitudes toward mobility among young Lisbon people&quot;    (Cairns e Tiesler, 2006, &quot;Little difference? Young muslims in the context    of Portuguese youth&quot;, ICS-UL, <I>working paper</I> n.&#186; 8 (WP 8-2006),    dispon&iacute;vel em <a href="http://www.ics.ul.pt/" target="_blank">http://www.ics.ul.pt/</a>.<B>    </B>Os dados quantitativos contribu&iacute;ram para o projecto mais alargado    que a autora desenvolve sobre os &quot;Jovens mu&ccedil;ulmanos em Portugal&quot;    (v. nota 8), predominantemente baseado em dados de natureza qualitativa. Entre    os resultados figuram dados que revelam que estes jovens mu&ccedil;ulmanos possuem    horizontes internacionais mais alargados e uma maior mobilidades geogr&aacute;fica    (em termos de compet&ecirc;ncias lingu&iacute;sticas, contactos, viagens e estadas    tempor&aacute;rias no estrangeiro com prop&oacute;sitos educacionais) do que    os jovens cujas biografias familiares n&atilde;o incluem a experi&ecirc;ncia    da migra&ccedil;&atilde;o, embora nem os elementos mu&ccedil;ulmanos nem os    elementos n&atilde;o mu&ccedil;ulmanos da amostra tenham revelado planos para    o futuro ou manifestado a disposi&ccedil;&atilde;o de abandonar Portugal por    per&iacute;odos mais longos com objectivos profissionais, isto apesar da dif&iacute;cil    situa&ccedil;&atilde;o em que o mercado de trabalho se encontra em Portugal.      <p><SUP><a href="#top18">17</a></SUP><a name="18"></a> No que    respeita &agrave; problem&aacute;tica da situa&ccedil;&atilde;o das minorias    sob dom&iacute;nio jur&iacute;dico n&atilde;o isl&acirc;mico, exemplos hist&oacute;ricos    e tamb&eacute;m novas perspectivas, v. Dur&aacute;n (1984 e 1990), Fierro (2000),    Lewis (1993 e 1996), Miller (2000) e Shadid e van Koningsveld (1996a e 1996b).      <p><SUP><a href="#top19">18</a></SUP><a name="19"></a> Em retrospectiva,    designa-se <I>nova presen&ccedil;a isl&acirc;mica </I>(NPI)<I> </I>na Europa    &agrave;quilo que come&ccedil;ou com a imigra&ccedil;&atilde;o de trabalhadores    mu&ccedil;ulmanos, no in&iacute;cio maioritariamente homens, ap&oacute;s o final    da Segunda Guerra Mundial. Usamos este conceito para abranger o fen&oacute;meno    hist&oacute;rico recente de uma popula&ccedil;&atilde;o mu&ccedil;ulmana em    constante crescimento e as suas express&otilde;es culturais multifacetadas nos    pa&iacute;ses europeus. A no&ccedil;&atilde;o subjacente &agrave; NPI aponta    para o facto de n&atilde;o estarmos perante a primeira e &uacute;nica presen&ccedil;a    isl&acirc;mica na Europa. Pelo contr&aacute;rio, ajuda a distinguir as <I>novas</I>    culturas mu&ccedil;ulmanas da <I>presen&ccedil;a tradicional isl&acirc;mica    </I>na Europa oriental e do Sul<I> </I>(por exemplo, nos Balc&atilde;s), por    um lado, e da <I>presen&ccedil;a isl&acirc;mica hist&oacute;rica </I>na Pen&iacute;nsula    Ib&eacute;rica, por outro. A heran&ccedil;a hist&oacute;rica da cultura &aacute;rabe    &eacute; bastante vis&iacute;vel na arquitectura e na linguagem, por exemplo,    mas a presen&ccedil;a mu&ccedil;ulmana no Portugal de hoje n&atilde;o tem qualquer    liga&ccedil;&atilde;o sociodemogr&aacute;fica com a sua vertente hist&oacute;rica.    Desde que Gerholm e Lithman (1988) publicaram o livro <I>The New Islamic Presence    in Western Europe</I>, a no&ccedil;&atilde;o de NPI foi usada com frequ&ecirc;ncia    em discursos sobre mu&ccedil;ulmanos na Europa. Para a conceptualiza&ccedil;&atilde;o    do termo, v. Tiesler (2000, p. 120).      <p><SUP><a href="#top20">19</a></SUP><a name="20"></a> Martin    Baumann, cujos trabalhos sobre a prolifera&ccedil;&atilde;o do termo &quot;di&aacute;spora&quot;    s&atilde;o baseados nos seus trabalhos de campo entre as minorias hindus que    vivem na Europa e nas Cara&iacute;bas, j&aacute; em 2000 chamava a aten&ccedil;&atilde;o    para esta din&acirc;mica. Nas suas palavras: &quot;Face ao crescente uso e estima    do termo na academia e entre os intelectuais, representantes e porta-vozes da    renomeada &quot;di&aacute;spora&quot;, as popula&ccedil;&otilde;es e as comunidades    come&ccedil;aram a adoptar a no&ccedil;&atilde;o para a sua descri&ccedil;&atilde;o.    O termo tornou-se corrente entre a elite urbana e instru&iacute;da, que se relaciona,    ela pr&oacute;pria, com o meio universit&aacute;rio. O termo &quot;di&aacute;spora&quot;    ganhou aceita&ccedil;&atilde;o e circula&ccedil;&atilde;o, seja para conferir    unidade a um grupo efectivamente heterog&eacute;neo de pessoas, seja para enfatizar    uma dada exig&ecirc;ncia de representa&ccedil;&atilde;o, seja para estreitar    os la&ccedil;os que ligam cada um de n&oacute;s ao nosso lar primitivo, cultura    ou pa&iacute;s, ou seja, para servir como libelo contra rela&ccedil;&otilde;es    de poder, passadas ou presentes, quando causadoras da situa&ccedil;&atilde;o    prec&aacute;ria e da marginaliza&ccedil;&atilde;o social do grupo&quot; (Baumann,    2000, p. 323).      <p><SUP><a href="#top21">20</a><a name="21"></a></SUP> O termo    &quot;classes m&eacute;dias educativas&quot; pertence a Detlev Claussen (2000a)    e refere-se aos membros da classe social m&eacute;dia instru&iacute;da, que    ensinam e d&atilde;o forma&ccedil;&atilde;o, nomeadamente professores em todos    os dom&iacute;nios educativos, no &acirc;mbito da comunica&ccedil;&atilde;o    social e professores universit&aacute;rios. Em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;    posi&ccedil;&atilde;o fulcral das classes m&eacute;dias nos processos de transforma&ccedil;&atilde;o    social e na constitui&ccedil;&atilde;o de formas de consci&ecirc;ncia em grandes    colectividades, v., entre outros, Miroslav Hroch (1978).      <p><SUP><a href="#top22">21</a><a name="22"></a></SUP> Hassan    al-Banna (1906-1949) foi um pol&iacute;tico eg&iacute;pcio e fundador da Irmandade    Mu&ccedil;ulmana, denominada pelos mu&ccedil;ulmanos Movimento Isl&acirc;mico    Reformador (com a inten&ccedil;&atilde;o de contrapor um modernismo isl&acirc;mico    ao ocidental). Esta irmandade foi fundada entre 1928 e 1932, quando o Egipto    se encontrava sob o dom&iacute;nio colonial brit&acirc;nico, e conseguiu enraizar-se    em todos os pa&iacute;ses &aacute;rabes, seguindo v&aacute;rias interpreta&ccedil;&otilde;es,    umas vezes radicais, outras vezes bastante livres dos textos de al-Banna. Os    Irm&atilde;os Mu&ccedil;ulmanos s&atilde;o considerados a c&eacute;lula original    do isl&atilde;o pol&iacute;tico (Kepel, 2002) e al-Banna &eacute; visto como    o pioneiro das ideias <I>revivalistas</I> isl&acirc;micas (movimentos de re-islamiza&ccedil;&atilde;o).    Pensadores isl&acirc;micos mais tardios, como Khomeini (Ir&atilde;o), A. A.    Maudoodi (Paquist&atilde;o), tamb&eacute;m chamado Mawdudi ou Maududi, em algumas    tradu&ccedil;&otilde;es, mas sobretudo Sayyid Outb (Egipto), referiram-se &agrave;s    suas obras. Al-Banna foi assassinado em 1949, na sequ&ecirc;ncia de uma conspira&ccedil;&atilde;o    de que resultou o assass&iacute;nio do primeiro-ministro eg&iacute;pcio Nuqraschi    Pascha.      <p><SUP><a href="#top23">22</a><a name="23"></a></SUP> Presentemente,    Tariq Ramadan &eacute; <I>senior research fellow</I> no European Studies Centre    do St Antony's College, na Universidade de Oxford, bem como na Universidade    Doshida (Quioto, Jap&atilde;o) e na Funda&ccedil;&atilde;o Lokahin, em Londres.    &Eacute; professor convidado na Universidade Erasmus, tendo previamente ensinado    estudos isl&acirc;micos na Universidade de Friburgo. Actualmente, &eacute; presidente    do <I>think tank</I> europeu <I>European Muslim Network</I> (EMN). Ramadan &eacute;    autor de numerosos livros, incluindo <I>To be a European Muslim. A Study of    Islamic Sources in the European Context</I> (1999), <I>Globalisation. Muslim    Resistances</I> (2003), <I>Western Muslims and the Future of Islam</I> (2004)    e <I>In the Footsteps of the Prophet</I>, <I>Lessons from the Life of Muhammad</I>    (2007).      <p><SUP><a href="#top24">23</a></SUP><a name="24"></a> Ramadan    e Sayyid participaram na &uacute;ltima confer&ecirc;ncia da rede MEL-net (ICS-UL,    29-11-2007, organizada com o apoio fulcral da comunidade isl&acirc;mica de Lisboa    e do <I>European Muslim Network</I>). O discurso de abertura de Sayyid, &quot;Euro-islam    and European dreams: answering the muslim question?&quot;, est&aacute; dispon&iacute;vel    em <a href="http://www.mel-net.ics.ul.pt" target="_blank">www.mel-net.ics.ul.pt</a>     <p><SUP><a href="#top24">24</a><a name="25"></a></SUP> Desde 2003,    Sayyid tem desenvolvido investiga&ccedil;&atilde;o sobre a &quot;ra&ccedil;a&quot;,    a etnicidade e o p&oacute;s-colonialismo na qualidade de investigador da Universidade    de Leeds, onde exerce actualmente o cargo de director do Center of Ethnicity    and Racism Studies.      <p><SUP><a href="#top26">25</a><a name="26"></a></SUP> V. <a href="http://www.jamaat-e-islami.org" target="_blank">www.jamaat-e-islami.org</a>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><SUP><a href="#top27">26</a><a name="27"></a></SUP> Em Novembro    de 2003 foi lan&ccedil;ada uma monografia de Ramadan que abrange tematicamente    n&atilde;o s&oacute; a Europa, mas tamb&eacute;m a situa&ccedil;&atilde;o dos    mu&ccedil;ulmanos nos EUA: <I>Western Muslims and the Future of Islam</I> (2004).    O livro prepara-se para ter uma difus&atilde;o id&ecirc;ntica ao seu bem sucedido    <I>To Be a European Muslim </I>(1999), que &eacute; considerado, at&eacute;    agora, a obra mais importante de Tariq Ramadan. Em rela&ccedil;&atilde;o a Sayyd,    a monografia <I>A Fundamental Fear: Eurocentrism and the Emergence of Islamism</I>    (2004 [1997]) &eacute; considerada a obra mais relevante do autor. Para esta    compara&ccedil;&atilde;o seleccionei <I>To Be a European Muslim,</I> de Ramadan,    e o artigo &quot;Beyond Westphalia&#133;&quot;, de Sayyid (2002), devido &agrave;    tem&aacute;tica da di&aacute;spora.      <p><SUP><a href="#top28">27</a></SUP><a name="28"></a> Entrevista    realizada pela autora, Lisboa, Outobro de 2000.      <p><SUP><a href="#top29">28</a><a name="29"></a></SUP> O destino    dos palestinianos s&oacute; muito raramente &eacute; discutido utilizando a    categoria da di&aacute;spora e, quando tal acontece, ent&atilde;o &eacute; feito    numa perspectiva pol&iacute;tica e n&atilde;o necessariamente religiosa.      <p><SUP><a href="#top30">29</a></SUP><a name="30"></a> V., por    exemplo, Ramadan (1999, p.VIII).      <p><SUP><a href="#top31">30</a><a name="31"></a></SUP> Uma cr&iacute;tica    aos conceitos de &quot;identidades colectivas&quot; encontra-se em Tiesler (2006a).      <p><SUP><a href="#top32">31</a><a name="32"></a></SUP> Um exemplo    paradigm&aacute;tico: o recente pedido da Uni&atilde;o Europeia a uma comiss&atilde;o    de especialistas para esta definir uma &quot;identidade cultural europeia&quot;    e que tem, afinal, como finalidade ancorar &quot;no cristianismo&quot; aquela    Europa que at&eacute; h&aacute; pouco ainda representava constitucionalmente    a &quot;fortaleza branca&quot;.       <p>&nbsp;     <p><a href="#top1">*</a><a name="1"></a> ICS, Universidade de    Lisboa, Av. Professor An&iacute;bal de Bettencourt, 9 1600-189 Lisboa, Portugal.    e-mail: <a href="mailto:ninaclara.tiesler@ics.ul.pt">ninaclara.tiesler@ics.ul.pt</a>.      <p>&nbsp;</p>      ]]></body><back>
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