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<journal-title><![CDATA[Análise Social]]></journal-title>
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<publisher-name><![CDATA[Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa]]></publisher-name>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Manejos da religião, da etnicidade e recursos de classe na construção de uma cultura migratória transnacional]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Religion, ethnicity and class resources as building blocks of a transnational migration culture]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade Nova de Lisboa Faculdade de Ciências Sociais e Humanas Departamento de Antropologia]]></institution>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Anglo-Indian migrants in Mozambique developed mechanisms of territoriality and transnational binding which played a fundamental role in establishing the intermediate ethnic trader minority status they acquired during the colonial period. Using a corpus of memories, this article seeks to determine to what extent the Hindu and muslim religions were effective variables in the consolidation of a transnational migration culture. In doing so, however, it argues that these processes can only be properly understood if class values and resources, specificities related to differential ethnicity, and new strategies for relating to other groups in colonial society are all taken into account at the same time.]]></p></abstract>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[transnacionalismos indianos]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ <p><b>Manejos da religi&atilde;o, da etnicidade e recursos de classe na constru&ccedil;&atilde;o    de uma cultura migrat&oacute;ria transnacional </b></p>     <p><b>Susana Pereira Bastos</b><a href="#1">*</a><a name="top1"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <P ALIGN="JUSTIFY">Os processos de territorializa&ccedil;&atilde;o e de reconex&atilde;o    transnacional desenvolvidos pelos <I>passengers</I> indo-brit&acirc;nicos em    Mo&ccedil;ambique desempenharam um papel fundamental na constru&ccedil;&atilde;o    do estatuto de minorias &eacute;tnicas intermedi&aacute;rias comerciais que    lhes foi conferido durante o per&iacute;odo colonial. Partindo de um <I>corpus</I>    de mem&oacute;rias, procuraremos interrogar em que medida a religi&atilde;o    hindu e mu&ccedil;ulmana se revelou uma vari&aacute;vel efectiva na consolida&ccedil;&atilde;o    de uma cultura migrat&oacute;ria transnacional. Argumentaremos, todavia, que    a compreens&atilde;o destes processos exige considerar, em simult&acirc;neo,    valores e recursos de classe, particularidades relacionadas com uma etnicidade    diferencial, mas ainda novas estrat&eacute;gias de relacionamento com os restantes    grupos da sociedade colonial.      <P ALIGN="JUSTIFY"><B>Palavras-chave:</B> transnacionalismos indianos; religi&atilde;o;    Mo&ccedil;ambique     <P ALIGN="JUSTIFY">&nbsp;     <P ALIGN="JUSTIFY"><b>Religion, ethnicity and class resources as building  blocks</b> <b>of a transnational migration culture</b>      <P ALIGN="JUSTIFY">Anglo-Indian migrants in Mozambique developed mechanisms of    territoriality and transnational binding which played a fundamental role in    establishing the intermediate ethnic trader minority status they acquired during    the colonial period. Using a corpus of memories, this article seeks to determine    to what extent the Hindu and muslim religions were effective variables in the    consolidation of a transnational migration culture. In doing so, however, it    argues that these processes can only be properly understood if class values    and resources, specificities related to differential ethnicity, and new strategies    for relating to other groups in colonial society are all taken into account    at the same time.      <P ALIGN="JUSTIFY"><B>Keywords:</B> Indian transnationalisms; religion; Mozambique.      <P ALIGN="JUSTIFY">&nbsp;     ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY">&nbsp;     <P ALIGN="JUSTIFY">&nbsp;      <P><b>Introdu&ccedil;&atilde;o </b>     <P ALIGN="JUSTIFY">Sem negligenciar o papel dos estados e das rela&ccedil;&otilde;es    interestatais, coloniais e p&oacute;s-coloniais, no refor&ccedil;o da mobilidade    diasp&oacute;rica e/ou nos processos de reterritorializa&ccedil;&atilde;o migrat&oacute;ria    (Waldinger e Fitzgerald, 2004), n&atilde;o podemos, contudo, escamotear que    tais processos exigem aos seus autores a mobiliza&ccedil;&atilde;o de m&uacute;ltiplos    recursos. No que respeita &agrave;s di&aacute;sporas mercantis com origem, em    particular, no subcontinente indiano, a literatura dispon&iacute;vel tem vindo    a enfatizar a import&acirc;ncia da filia&ccedil;&atilde;o religiosa comum, bem    como a influ&ecirc;ncia de algumas dimens&otilde;es relacionadas com uma etnicidade    diferencial (a organiza&ccedil;&atilde;o em comunidades de casta, a perten&ccedil;a    a microlocalidades espec&iacute;ficas, determinados valores e pr&aacute;ticas    ligadas ao parentesco, etc.) na estrutura&ccedil;&atilde;o de redes transnacionais,    entre um ou mais centros e diversos conjuntos de localidades, no seio das quais    circulam n&atilde;o apenas capitais, bens, cr&eacute;ditos, informa&ccedil;&otilde;es    e pessoas, mas ainda uma cultura partilhada (Lal, 2006; Bastos, 2005; Jacobsen    e Kumar, 2004; Markovits, 2000; Rudner, 1994; Gregory, 1993).      <P ALIGN="JUSTIFY">Optando pela an&aacute;lise intensiva de alguns grupos espec&iacute;ficos,    no &acirc;mbito de um conjunto muito mais vasto de comunidades que constituem    a di&aacute;spora gujarati e, mais especificamente, de uma rede de comerciantes    hindus e mu&ccedil;ulmanos que se estabeleceu em Mo&ccedil;ambique a partir    da segunda metade do s&eacute;culo XIX, procuraremos interrogar em que medida    a perten&ccedil;a comunit&aacute;ria etno-religiosa se revelou uma vari&aacute;vel    efectiva na emerg&ecirc;ncia e consolida&ccedil;&atilde;o de uma cultura migrat&oacute;ria    transnacional<SUP><a href="#2">1</a><a name="top2"></a></SUP>. Argumentaremos,    n&atilde;o obstante, que para a compreens&atilde;o destes processos ser&aacute;    necess&aacute;rio considerar, em simult&acirc;neo, valores e recursos que remetem    para um <I>background </I>de classe partilhado e ainda novas estrat&eacute;gias    e recursos desenvolvidos localmente ao longo de v&aacute;rias d&eacute;cadas    de relacionamento com os restantes grupos da sociedade colonial.      <P ALIGN="JUSTIFY">&nbsp;      <P><b>Entre a &Iacute;ndia e o Leste Africano: o &quot;neg&oacute;cio da    permuta&quot; </b>     <P ALIGN="JUSTIFY">Constituindo um exemplo de liga&ccedil;&atilde;o directa entre    o local e o global, n&atilde;o mediada de uma forma &oacute;bvia pela administra&ccedil;&atilde;o    colonial brit&acirc;nica, certas redes de comerciantes indianos desempenharam    um papel importante na economia externa indiana durante o per&iacute;odo 1800-1850    (Markovits, 2000, p. 29). Entre eles, alguns comerciantes do Kutch, hindus de    casta<I> bhatia</I><SUP><a href="#3">2</a><a name="top3"></a></SUP>, e mu&ccedil;ulmanos    ismaelitas <I>khojas</I><SUP><a href="#4">3</a><a name="top4"></a></SUP>, nomeadamente,    estenderam as suas actividades &agrave; costa africana, estabelecendo-se em    Zanzibar (Clarence-Smith 1989; Salvadori, 1989 e 1996).      <P ALIGN="JUSTIFY">Para al&eacute;m do com&eacute;rcio costeiro, das importa&ccedil;&otilde;es    e exporta&ccedil;&otilde;es com a &Iacute;ndia, bem como do seu envolvimento    na recolha e fiscaliza&ccedil;&atilde;o de impostos, alguns destes comerciantes,    sobretudo <I>bhatias,</I> financiaram o tr&aacute;fico de escravos durante a    segunda metade do s&eacute;culo XIX. Argumentando que eram s&uacute;bditos do    pr&iacute;ncipe do Kutch, tentavam escapar &agrave; legisla&ccedil;&atilde;o    que proibia qualquer s&uacute;bdito brit&acirc;nico de comprar e vender escravos,    inclusive em territ&oacute;rios n&atilde;o pertencentes &agrave; coroa brit&acirc;nica    (Morris, 1968, pp. 4-5). Reconhecendo, no entanto, que a exporta&ccedil;&atilde;o    de marfim lhes poderia ser igualmente vantajosa, dado que possu&iacute;am numerosos    contactos em Bombaim, destino de grande parte das exporta&ccedil;&otilde;es,    rapidamente deixaram o tr&aacute;fico de escravos para outros agentes.      <P ALIGN="JUSTIFY">Tal como eles, v&aacute;rios <I>khojas</I> de Zanzibar come&ccedil;aram    tamb&eacute;m a financiar as caravanas arabo-sua&iacute;lis, europeias e americanas    que se aventuravam pelo interior do continente africano. Depois de ter come&ccedil;ado    como aprendiz do <I>bhatia</I> Jairam Sewji, Taria Topam ter-se-&aacute; envolvido    neste neg&oacute;cio a partir de 1860; dez anos mais tarde, Sewa Haji Paroo    n&atilde;o se limitava apenas a fornecer mercadorias aos negociantes do interior,    como se ocupava de toda a organiza&ccedil;&atilde;o das caravanas, chegando    a enviar correspondentes para postos comerciais permanentes estabelecidos ao    longo das rotas. No in&iacute;cio de 1890, e aproveitando a experi&ecirc;ncia    profissional adquirida como aprendiz numa firma de Sewa Haji em Bagamoyo, Allidina    Visram montou a sua pr&oacute;pria rede de neg&oacute;cios, criando e alimentando    m&uacute;ltiplos postos de venda no interior, onde trocava mercadorias importadas    por marfim e peles. Por volta de 1909 havia constru&iacute;do um imp&eacute;rio    comercial com mais de quarenta sucursais por todo o Leste africano e v&aacute;rias    f&aacute;bricas (Penrad, 1988; Salvadori, 1989).      ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY">As inova&ccedil;&otilde;es introduzidas por Visram, nomeadamente    o recrudescimento do volume de trocas e o est&iacute;mulo &agrave; oferta de    novos produtos agr&iacute;colas, a sua transforma&ccedil;&atilde;o em produtos    export&aacute;veis, a dimens&atilde;o transnacional dos seus neg&oacute;cios    (sediados na &Iacute;ndia, no Uganda, no Qu&eacute;nia, no Congo, etc.), bem    como o investimento na constru&ccedil;&atilde;o de f&aacute;bricas que valorizavam    os produtos locais (Penrad, 1988), foram rapidamente implementadas por outros    comerciantes indianos. Ranchordas Odha, <I>bhatia</I> do Kutch, oriundo de Bombaim,    comerciante de Zanzibar e exportador de marfim, foi um dos primeiros a concretizar    algumas destas novidades no Norte de Mo&ccedil;ambique durante a segunda metade    do s&eacute;culo XIX.      <P ALIGN="JUSTIFY">N&atilde;o foi, contudo, o primeiro indiano a investir neste    territ&oacute;rio. &Agrave; epoca, uma rede de<I> banias </I>(comerciantes,    neste contexto) de Diu, sediada na ilha de Mo&ccedil;ambique, juntamente com    um pequeno grupo de armadores portugueses n&atilde;o indianos, intervinha activamente    no mercado transatl&acirc;ntico do tr&aacute;fico de escravos, secundarizando    o com&eacute;rcio a longa dist&acirc;ncia com as pra&ccedil;as de Goa, Diu e    Dam&atilde;o, em que se havia empenhado at&eacute; meados do s&eacute;culo XVIII.    Enquanto os <I>banias</I> de Diu organizavam o tr&aacute;fico de escravos, primeiro,    a partir da ilha de Mo&ccedil;ambique e, posteriormente, de Quelimane, reinvestindo    os capitais acumulados no mesmo ramo de actividade e tamb&eacute;m em Diu, Ranchordas    Odha estabeleceu-se primeiro em Ibo e, posteriormente, em Pemba, onde instalou    a sede da sua empresa. Multiplicou, posteriormente, sucursais/<I>cantinas</I>    em Mucimboa da Praia, Ibo, Necuji, Quissanga, Porto Am&eacute;lia, Mahate, etc.,    onde empregava familiares e co-&eacute;tnicos como aprendizes.      <P ALIGN="JUSTIFY">Das v&aacute;rias cantinas<SUP><a href="#5">4</a><a name="top5"></a></SUP>    &quot;recebia caju, amendoin, mapira, calumbo, gergelin, cera dos africanos    em troca de alguns bens de primeira necessidade e panos&quot;. Para al&eacute;m    de estimular a produ&ccedil;&atilde;o e a oferta de produtos agr&iacute;colas    por parte do campesinato mo&ccedil;ambicano, de os canalizar e distribuir por    armaz&eacute;ns, exportava-os. Em simult&acirc;neo, importava e assegurava o    aprovisionamento regular das suas cantinas e das dos outros comerciantes da    mesma &aacute;rea. Nos finais do s&eacute;culo XIX era j&aacute; &quot;o grande    importador e exportador do Norte de Mo&ccedil;ambique, o maior de todos, entre    hindus, maometanos e portugueses. Fez um imp&eacute;rio esse Ranchordas. Era    dono de toda a Pemba e n&atilde;o s&oacute;.&quot; Paralelamente ao com&eacute;rcio    geral, &agrave; importa&ccedil;&atilde;o e exporta&ccedil;&atilde;o, temos ainda    not&iacute;cia de que Odha se empenhou numa intensa actividade banc&aacute;ria:    &quot;Ele era o pr&oacute;prio banco, financiava muitas empresas de indianos    e de portugueses<SUP><a href="#6">5</a><a name="top6"></a></SUP>.&quot;      <P ALIGN="JUSTIFY">A pol&iacute;tica colonial portuguesa implementada depois de    1885 e, em particular, a ced&ecirc;ncia de determinadas prov&iacute;ncias a    companhias, bem com a administra&ccedil;&atilde;o directa de certos territ&oacute;rios    por parte do Estado portugu&ecirc;s, n&atilde;o parecem ter prejudicado a actividade    dos agentes indianos. O seu conhecimento comercial e os contactos locais que    possu&iacute;am com a popula&ccedil;&atilde;o africana eram indispens&aacute;veis    &agrave; prossecu&ccedil;&atilde;o dos pr&oacute;prios objectivos coloniais    de domina&ccedil;&atilde;o comercial e territorial. Por acr&eacute;scimo, a    implementa&ccedil;&atilde;o das companhias acabou por estimular o desenvolvimento    de novas estrat&eacute;gias comerciais. Na Zamb&eacute;zia, por exemplo, alguns    <I>bhatias</I> e <I>khojas</I> come&ccedil;aram a trabalhar como intermedi&aacute;rios    comerciais entre os camponeses mo&ccedil;ambicanos e as empresas nacionais e    estrangeiras de exporta&ccedil;&atilde;o sediadas em Quelimane. Alguns chegaram    mesmo a constituir-se como parceiros comerciais relativamente autonomizados    (Teixeira, 2001).      <P ALIGN="JUSTIFY">Foi o caso de Damodar Anangy, <I>bhatia</I> do Kutch, que assinou    em 1892 um contrato comercial com a Companhia da Zamb&eacute;zia atrav&eacute;s    do qual adquiriu direitos comerciais exclusivos sobre v&aacute;rios prazos.    Alguns anos mais tarde, o mesmo Damodar estabelecia a Haridas Damodar Ananji    &amp; filhos em Nampula e na Beira, reconhecida como uma das mais pr&oacute;speras    empresas de importa&ccedil;&atilde;o e exporta&ccedil;&atilde;o de Mo&ccedil;ambique    e &quot;cujo neg&oacute;cio principal sempre foi o do caju&quot;. O seu prest&iacute;gio    continua a ser evocado por antigos empregados e conhecidos: &quot;Havia uma    grande fam&iacute;lia na Beira, eram donos da casa Damodar. O descendente mais    conhecido, Gulapsin Gokaldas, tamb&eacute;m conhecido por Piripiri, era um <I>bhatia</I>    do Kutch. Se for &agrave; Beira basta perguntar pelo Piripiri e todos se lembram    dele<SUP><a href="#7">6</a><a name="top7"></a></SUP>.&quot;      <P ALIGN="JUSTIFY">Muito embora se tenham estabelecido primeiramente no Norte    do territ&oacute;rio, n&atilde;o raramente as firmas pioneiras na importa&ccedil;&atilde;o/exporta&ccedil;&atilde;o    do caju estendiam as suas actividades a outras prov&iacute;ncias. Foi o caso    da Pradhan Babool &amp; C.&#170; e da Noormahomed Rawjee &amp; Co., recordada    como uma das primeiras a estabelecer-se<SUP> </SUP>(Keshavjee, 1945). O testemunho    de Zainu Labedin Rawjee sintetiza bem as estrat&eacute;gias e os percursos desenvolvidos    tipicamente pelos primeiros exportadores/importadores indianos estabelecidos    em Mo&ccedil;ambique: (<i>I</i>) a implementa&ccedil;&atilde;o de pr&aacute;ticas    transnacionais entre Mo&ccedil;ambique e a &Iacute;ndia, sobretudo viabilizadas    por uma estrat&eacute;gia de fragmenta&ccedil;&atilde;o familiar (rotativa ou    n&atilde;o) que permitia agilizar as importa&ccedil;&otilde;es/exporta&ccedil;&otilde;es;    (<I>II</I>) a constru&ccedil;&atilde;o de uma cadeia regional composta por uma    ou mais firmas comerciais e por armaz&eacute;ns sediados nas &aacute;reas urbanas    que asseguravam o fornecimento regular de bens importados a uma multiplicidade    de cantinas, as quais tinham a obriga&ccedil;&atilde;o de canalizar produtos    agr&iacute;colas destinados &agrave; exporta&ccedil;&atilde;o para os armaz&eacute;ns    urbanos; (<I>III</I>) a manuten&ccedil;&atilde;o de rela&ccedil;&otilde;es de    interdepend&ecirc;ncia entre grossistas/importadores/exportadores e cantineiros    locais; (<I>IV</I>) o refor&ccedil;o das hierarquias sociais e intracomunit&aacute;rias;    (<I>V</I>) a implementa&ccedil;&atilde;o de rela&ccedil;&otilde;es positivas    com a administra&ccedil;&atilde;o colonial portuguesa:      <P ALIGN="JUSTIFY">O meu <I>dada</I> [av&ocirc; paterno] deve ter chegado por    volta de 1880 e tal. Com muitas dificuldades, come&ccedil;ou por arranjar uma    cantina e depois outra, at&eacute; chegar a armazenista, importador e exportador    de caju. Foi um dos pioneiros, primeiro a partir da ilha de Mo&ccedil;ambique    e depois a partir de Delagoa Bay [Louren&ccedil;o Marques, actual Maputo], onde    se instalou antes de 1910, pelas minhas contas. Sempre trabalhou com os irm&atilde;os.    As empresas eram dos cinco. Geralmente dois ou tr&ecirc;s irm&atilde;os estavam    em Mo&ccedil;ambique a gerir a Pradhan Babool &amp; C.&#170; e a Noormahomed    Rawjee &amp; Co.; outros dois irm&atilde;os estavam na &Iacute;ndia, em Bombaim    e em Una, a gerir outras empresas e a tomar conta dos pais. A firma em Bombaim    era a Somjee Babool e C.&#170; e depois intercambiavam as mercadorias. Os meus    tios que estavam em Mo&ccedil;ambique forneciam produtos e davam cr&eacute;dito    aos cantineiros do interior. Os cantineiros trocavam esses produtos por caju.    Vendiam o caju aos meus tios e depois eles exportavam para Bombaim, para a firma    que era gerida pelos outros dois tios, donde importavam v&aacute;rias mercadorias.    Era o neg&oacute;cio da permuta [...] No princ&iacute;pio do s&eacute;culo,    o meu av&ocirc; j&aacute; tinha adquirido 36 a 40 cantinas em Gaza. O meu pai    at&eacute; contava que nessa altura, antes dele nascer, houve uma grande seca    em Gaza e o meu av&ocirc; ofereceu um barco cheio de cereais que tinha acabado    de chegar ao porto para distribuir por Gaza. O governador-geral ficou muito    agradecido e perguntou como poderia retribuir. O meu av&ocirc; e tios disseram:    &quot;n&oacute;s n&atilde;o queremos nada&quot;. Nessa altura n&atilde;o havia    autom&oacute;veis e o governador tinha uma carruagem para se transportar. Ent&atilde;o,    quando ele n&atilde;o a utilizava disponibilizava a carruagem para o meu av&ocirc;    e os meus tios se passearem<SUP><a href="#8">7</a><a name="top8"></a></SUP>.      <P ALIGN="JUSTIFY">Nem a crise mundial de 1929-1934, nem as medidas promulgadas    a partir de 1926 que visavam estabelecer novas rela&ccedil;&otilde;es de domina&ccedil;&atilde;o    econ&oacute;mica entre as col&oacute;nias portuguesas e a metr&oacute;pole alteraram    a prosperidade das firmas indianas ligadas ao neg&oacute;cio do caju. Por um    lado, porque a pr&oacute;pria crise mundial retardou e condicionou a implementa&ccedil;&atilde;o    de tais medidas. Por outro lado, porque a baixa geral dos pre&ccedil;os n&atilde;o    atingiu o caju. Pelo contr&aacute;rio, o aumento da sua procura, acompanhado    da subida (na ordem dos 1000%) da sua cota&ccedil;&atilde;o no mercado externo,    estimulou (sobretudo nas prov&iacute;ncias de Nampula e Cabo Delgado) muitos    camponeses a optarem pela cultura do cajueiro. Concomitantemente, o aumento    da oferta camponesa ao cantineiro enriqueceu armazenistas e exportadores do    litoral, ao mesmo tempo que lhes permitiu diversificar e expandir neg&oacute;cios.      <P ALIGN="JUSTIFY"> <B> </B>      <P><b>Diversificando as conex&otilde;es internacionais </b>      ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY">A emerg&ecirc;ncia das primeiras empresas indo-brit&acirc;nicas    no Sul da col&oacute;nia n&atilde;o pode ser dissociada dos movimentos migrat&oacute;rios    que se realizaram a partir de 1860 entre a &Iacute;ndia e a &Aacute;frica austral    e, nomeadamente, da vaga de <I>passengers </I>gujaratis, oriundos sobretudo    de Khatiawar, Surat e Porbandar, que chegavam &agrave; Africa do Sul e, posteriormente,    a Delagoa Bay, a expensas pr&oacute;prias (Lal, 2006). Com efeito, as hist&oacute;rias    de fam&iacute;lia recolhidas revelam que os primeiros gujaratis estabelecidos    em Delagoa Bay tinham como destino idealizado a &Aacute;frica do Sul (onde se    haviam instalado v&aacute;rios co-&eacute;tnicos), mas n&atilde;o esclarecem    claramente por que decidiram aqueles ficar em Mo&ccedil;ambique. N&atilde;o    obstante, em alguns dos relatos dos descendentes dos que chegaram depois de    1911 o aumento crescente da hostilidade por parte dos colonos de origem europeia    &agrave; presen&ccedil;a indiana na &Aacute;frica do Sul, as restri&ccedil;&otilde;es    brit&acirc;nicas &agrave; sua entrada neste territ&oacute;rio (Vahed, 2002),    bem como a exist&ecirc;ncia de redes de apoio em Mo&ccedil;ambique dinamizadas    pelos pioneiros, poderiam ter justificado a escolha de Delagoa Bay como um destino    alternativo (Leite, 1996; Carvalho, 1999):      <P ALIGN="JUSTIFY">Em Delagoa Bay, o meu av&ocirc; hospedava muitos ismaelitas    que vinham com aquela ideia de se estabelecerem na &Aacute;frica do Sul. Naquela    altura, na viragem do s&eacute;culo, era um <I>eldorado</I>, iam todos &agrave;    procura do ouro. Eles precisavam de apoio e ficavam algum tempo antes de irem.    Como os obst&aacute;culos foram aumentando, muitos ismaelitas decidiram ficar    em Mo&ccedil;ambique<SUP><a href="#9">8</a><a name="top9"></a></SUP>.      <P ALIGN="JUSTIFY">Com a excep&ccedil;&atilde;o da Vrajdas Lalchande &amp; Calanche    Irachande C.&#170;<SUP><a href="#10">9</a></SUP><a name="top10"></a>, uma parte    significativa dos fundadores das primeiras grandes empresas de Louren&ccedil;o    Marques era indo-brit&acirc;nica de origem gujarati, hindu, sunita e ismaelita.    Os seus fundadores come&ccedil;avam geralmente por trabalhar como empregados    comerciais em algumas firmas indianas pioneiras (por exemplo, na Vrajdas Lalchande    &amp; Calanche Irachande C.&#170;, no caso dos hindus, ou na Pradhan Babool    &amp; C.&#170; e na Noormahomed Rawjee &amp; Co., no caso dos <I>khojas</I>).    Posteriormente, tantas vezes com o apoio dos antigos patr&otilde;es, dedicavam-se    ao com&eacute;rcio ambulante entre Delagoa Bay e os arredores. Compravam-lhes    mercadoria a cr&eacute;dito, trocavam-na por produtos agr&iacute;colas que lhes    eram fornecidos pela popula&ccedil;&atilde;o camponesa, vendiam-nos aos importadores/exportadores,    pagavam as d&iacute;vidas e voltavam a abastecer-se para regressarem ao <I>mato</I>.    Passado algum tempo, trocavam o com&eacute;rcio ambulante pelo com&eacute;rcio    cantineiro. A utiliza&ccedil;&atilde;o do trabalho familiar (de irm&atilde;os    mais velhos e mais novos e/ou de filhos ou sobrinhos var&otilde;es, que eram    progressivamente &quot;chamados&quot;) permitia-lhes multiplicar as cantinas.      <P ALIGN="JUSTIFY">Tarun Laxmidas, neto de Popatlal Haribhai, fundador de uma    das maiores e mais antigas firmas <I>lohanas</I> de Louren&ccedil;o Marques,    relatou-nos como os seus antepassados conseguiram enriquecer a partir do interc&acirc;mbio    de produtos locais para exporta&ccedil;&atilde;o e, sobretudo, atrav&eacute;s    do endividamento de milhares de camponeses mo&ccedil;ambicanos que migravam    para as minas da &Aacute;frica do Sul:      <P ALIGN="JUSTIFY">Tinham v&aacute;rias cantinas em Xai-Xai, Alvor, Ressano-Garcia    e em locais pr&oacute;ximos do caminho-de-ferro para a &Aacute;frica do Sul.    Na altura, milhares e milhares de mo&ccedil;ambicanos iam para l&aacute; trabalhar    nas minas. Ent&atilde;o, muitos africanos, antes de partirem, combinavam com    o cantineiro indiano. Diziam aos familiares para comprarem naquela cantina e    quando chegavam faziam os pagamentos. O meu av&ocirc; e outros indianos davam    esse cr&eacute;dito. Ganharam bom dinheiro e depois vieram instalar-se na rua    atr&aacute;s do bazar em Louren&ccedil;o Marques<SUP><a href="#11">10</a></SUP><a name="top11"></a>.      <P ALIGN="JUSTIFY">Mesmo em alturas de crise, como durante a recess&atilde;o econ&oacute;mica    mundial de 1930, que afectou o n&uacute;mero de migrantes a trabalhar fora de    Mo&ccedil;ambique, os cantineiros indianos n&atilde;o eram afectados, pois a    administra&ccedil;&atilde;o colonial procurava renegociar um m&iacute;nino de    trabalhadores nas minas. Por acr&eacute;scimo, ao neutralizarem a tend&ecirc;ncia    para a emigra&ccedil;&atilde;o permanente, as v&aacute;rias conven&ccedil;&otilde;es    assinadas pelo governo portugu&ecirc;s com a &Aacute;frica do Sul diminu&iacute;am    fortemente o risco de os <I>cantineiros</I> indianos n&atilde;o serem reembolsados.    O pr&oacute;prio sistema de trabalho imposto (implementado depois de 1930 e    at&eacute; ao fim da d&eacute;cada de 50), no qual a pr&aacute;tica mais comum    era pagar uma pequena percentagem (s&oacute; uma sexta parte) do sal&aacute;rio    no local de trabalho, sendo o restante (depois de descontado o imposto) pago    pelo administrador nos distritos de origem, favorecia o pagamento das d&iacute;vidas    contra&iacute;das pelo campesinato mo&ccedil;ambicano ao cantineiro indiano.      <P ALIGN="JUSTIFY">O passo seguinte era a aquisi&ccedil;&atilde;o de um estabelecimento    comercial em pequenas vilas (Xai-Xai, Ressano Garcia, etc.) e depois em Louren&ccedil;o    Marques; o conhecimento comercial, no que respeita aos circuitos de importa&ccedil;&atilde;o    e exporta&ccedil;&atilde;o, adquirido enquanto empregados, ou como s&oacute;cios    minorit&aacute;rios de firmas pioneiras, a combina&ccedil;&atilde;o do com&eacute;rcio    urbano com o com&eacute;rcio cantineiro nos arredores, a diversifica&ccedil;&atilde;o    das rela&ccedil;&otilde;es comerciais, bem como a gratid&atilde;o, a admira&ccedil;&atilde;o,    a colabora&ccedil;&atilde;o e a subordina&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica &agrave;    administra&ccedil;&atilde;o colonial, favoreciam a realiza&ccedil;&atilde;o    do sonho indo-brit&acirc;nico: ser comerciante geral, grossista, importador    e exportador, comerciante de moeda (cambista) autorizado pelo regime e ainda    banqueiro:      <P ALIGN="JUSTIFY">O meu bisav&ocirc; Ayob Vakil era advogado na &Iacute;ndia,    na regi&atilde;o do Kathiavar, Junagath State, Vanthali. Um dos filhos dele,    Abdool Latif, foi o primeiro a chegar a Delagoa Bay em 1887<SUP><a href="#12">11</a><a name="top12"></a></SUP>.    &quot;Em 1913, fundaram a Casa Coimbra, da firma Abdool Saccor, Abdool Latif    e C.&#170; Era uma firma de venda a retalho que importava produtos de Inglaterra    e sobretudo de Portugal, porque era onde t&iacute;nhamos mais liga&ccedil;&otilde;es.    Em 1938-1939, compraram um terreno na Avenida da Rep&uacute;blica. A nova Casa    Coimbra foi inaugurada em 1940, com a presen&ccedil;a do governador-geral Bettencourt.    Mas j&aacute; antes a nossa Casa tinha sido visitada pelo ministro das Col&oacute;nias    e pelo general Carmona<SUP><a href="#13">12</a><a name="top13"></a></SUP>.      <P ALIGN="JUSTIFY">Nos anos 30 e 40, a Popatlal Haribhai e C.&#170; chegou a ter    17 s&oacute;cios, todos da fam&iacute;lia pr&oacute;xima. Na altura, era considerada    um imp&eacute;rio. Eram importadores e tamb&eacute;m vendiam ao p&uacute;blico.    Importavam sobretudo tecidos e confec&ccedil;&otilde;es da &Iacute;ndia, do    Jap&atilde;o, da China, de Inglaterra e de Portugal. Sobretudo de Portugal porque    est&aacute;vamos numa col&oacute;nia portuguesa. Tamb&eacute;m fomos cambistas    autorizados pelo regime<SUP><a href="#14">13</a></SUP><a name="top14"></a>.      <P ALIGN="JUSTIFY">A emerg&ecirc;ncia das primeiras grandes empresas indianas    no Sul de Mo&ccedil;ambique foi viabilizada, tal como no Norte, pela implementa&ccedil;&atilde;o    de la&ccedil;os e trocas transnacionais (de mercadorias, pessoas, capitais)    que envolviam os espa&ccedil;os de origem. Para al&eacute;m das transac&ccedil;&otilde;es    comerciais, os migrantes indianos mantinham outras rela&ccedil;&otilde;es com    estes espa&ccedil;os: regressavam para se casarem e visitarem familiares, geravam    novos descendentes, compravam terras, constru&iacute;am novas casas, cumpriam    obriga&ccedil;&otilde;es rituais, realizavam peregrina&ccedil;&otilde;es, preparavam    &quot;os documentos&quot; para chamar mais parentes e conterr&acirc;neos, exibiam    o estatuto material adquirido, promoviam o respeito associado ao seu nome exercendo    fun&ccedil;&otilde;es universal&iacute;sticas, para usar a express&atilde;o    de Cohen (1981)<SUP><a href="#15">14</a><a name="top15"></a></SUP>;<B> </B>no    retorno, aproveitavam tamb&eacute;m as paragens dos navios em que viajavam para    &quot;visitar e falar de neg&oacute;cios&quot; com co-&eacute;tnicos residentes    na costa leste africana, contribuindo activamente para a circula&ccedil;&atilde;o    de informa&ccedil;&otilde;es variadas; e, quando envelhecidos, retornavam definitivamente    para serem enterrados e cremados nos locais de origem e a&iacute; receberem    os rituais f&uacute;nebres adequados.      ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY">Todavia, sobretudo a partir da d&eacute;cada de 30, temos not&iacute;cia    de que a &Iacute;ndia se tornou gradualmente menos importante. A deteriora&ccedil;&atilde;o    da qualidade dos produtos indianos (e, em particular, dos t&ecirc;xteis), concomitante    com a emerg&ecirc;ncia de certos espa&ccedil;os economicamente mais rent&aacute;veis    (na rela&ccedil;&atilde;o qualidade/pre&ccedil;o), como o Jap&atilde;o, a China    ou a Inglaterra, e a pr&oacute;pria inclus&atilde;o da metr&oacute;pole colonial    nos investimentos econ&oacute;micos das empresas familiares indianas, na sequ&ecirc;ncia    da implementa&ccedil;&atilde;o de fortes medidas proteccionistas, conduziram,    em grande medida, a este afastamento econ&oacute;mico em rela&ccedil;&atilde;o    &agrave;s origens:      <P ALIGN="JUSTIFY">A partir dos anos 30, os t&ecirc;xteis japoneses passaram a    dominar as nossas importa&ccedil;&otilde;es. Eram melhores e mais baratos do    que os indianos<SUP><a href="#16">15</a><a name="top16"></a></SUP>.      <P ALIGN="JUSTIFY">Na altura, o Salazar fez uma lei que dizia que s&oacute; se    podia importar 25% de fora, os outros 75% tinham de ser de Portugal. Era uma    lei proteccionista. Consoante os pre&ccedil;os, n&oacute;s import&aacute;vamos    do Jap&atilde;o, da China, de Hong-Kong, de Inglaterra e, claro, de Portugal<SUP><a href="#17">16</a></SUP><a name="top17"></a>.      <P ALIGN="JUSTIFY">O meu av&ocirc; e os meus tios importavam e exportavam para    a &Iacute;ndia [&#133;] Mais tarde, a irm&atilde; do meu pai casou numa fam&iacute;lia    de Momba&ccedil;a, ent&atilde;o essa fam&iacute;lia funcionava como intermedi&aacute;ria    para as nossas exporta&ccedil;&otilde;es e importa&ccedil;&otilde;es para o    Qu&eacute;nia<SUP><a href="#18">17</a><a name="top18"></a></SUP>.      <P ALIGN="JUSTIFY">Validando o ponto de vista de James Clifford segundo o qual    as conex&otilde;es transnacionais que ligam as di&aacute;sporas n&atilde;o necessitam    de ser articuladas atrav&eacute;s de um espa&ccedil;o de origem simb&oacute;lico    ou real (Clifford, 1994, p. 36), as mem&oacute;rias recolhidas apontam para    a import&acirc;ncia e influ&ecirc;ncia crescente dos n&uacute;cleos diasp&oacute;ricos    da costa oriental africana nas pr&aacute;ticas transnacionais indianas, quer    dos hindus, quer dos mu&ccedil;ulmanos sunitas e de uma forma mais pronunciada    dos ismaelitas. Em parte, os processos de reunifica&ccedil;&atilde;o familiar    que se intensificam a partir de 1920 nas comunidades indianas sediadas em territ&oacute;rios    sob administra&ccedil;&atilde;o inglesa s&atilde;o convergentes com testemunhos    como o de Amad: &quot;j&aacute; n&atilde;o tinhamos l&aacute; [na &Iacute;ndia]    ningu&eacute;m de confian&ccedil;a que tomasse conta do lado indiano<SUP><a href="#19">18</a><a name="top19"></a></SUP>.&quot;    Os pr&oacute;prios processos de diferencia&ccedil;&atilde;o e hierarquiza&ccedil;&atilde;o    identit&aacute;ria em marcha entre &quot;indianos da &Iacute;ndia&quot;, &quot;indianos    de Mo&ccedil;ambique&quot; e &quot;indianos da &Aacute;frica oriental&quot;    (Bastos, 2005) e, nomeadamente, a progressiva deprecia&ccedil;&atilde;o dos    parceiros indianos, associada a quebras repetidas de acordos verbais estabelecidos    com base na confian&ccedil;a m&uacute;tua, n&atilde;o favoreciam o <I>neg&oacute;cio</I>    com as origens (Oonk, 2004). Sobretudo quando, em contrapartida, a experi&ecirc;ncia    acumulada de relaciona mento comercial com indianos da costa oriental (sobretudo    com os do Qu&eacute;nia, percepcionados como &quot;os mais pr&oacute;speros&quot;,    &quot;os mais instru&iacute;dos&quot;, &quot;os mais <I>british</I>&quot;) inspirava    maior confian&ccedil;a. At&eacute; mesmo as medidas de &quot;desindianiza&ccedil;&atilde;o&quot;    e ocidentaliza&ccedil;&atilde;o desenvolvidas por Aga Khan III e, entre elas,    o est&iacute;mulo &agrave; completa reunifica&ccedil;&atilde;o familiar fora    da &Iacute;ndia, bem como a desaprova&ccedil;&atilde;o da postura &quot;um p&eacute;    c&aacute;, um p&eacute; l&aacute;&quot;, ao contribu&iacute;rem para que as    conex&otilde;es dos <I>khojas</I> com os seus locais de origem se extinguissem    mais precocemente, suscitavam identifica&ccedil;&otilde;es ambivalentes em hindus    e sunitas. N&atilde;o obstante, como veremos, foram sobretudo as pol&iacute;ticas    coloniais de &quot;combate econ&oacute;mico&quot; aos indo-brit&acirc;nicos    que os obrigaram a alterar as suas rela&ccedil;&otilde;es com as origens.      <P ALIGN="JUSTIFY">&nbsp;      <P><b>Reagindo &agrave;s pol&iacute;ticas coloniais de &quot;combate econ&oacute;mico&quot;    </b>     <P ALIGN="JUSTIFY">Justificando-se com a &quot;crise de desemprego&quot; existente    na col&oacute;nia, o governo de Mo&ccedil;ambique estabeleceu em 1932<SUP><a href="#20">19</a></SUP><a name="top20"></a>    determinadas regras limitativas ao emprego de estrangeiros na col&oacute;nia.    Nos termos do artigo 5.&#186; deste diploma legislativo, em todas as empresas    ou sociedades comerciais, agr&iacute;colas e industriais ou outras singulares    ou colectivas, pelo menos, 70% do seu pessoal &quot;n&atilde;o-ind&iacute;gena&quot;    deveria possuir nacionalidade portuguesa. Por acr&eacute;scimo, e de acordo    com a mesma legisla&ccedil;&atilde;o, os indo-brit&acirc;nicos que sa&iacute;am    da col&oacute;nia n&atilde;o poderiam regressar, a n&atilde;o ser que provassem    que vinham ocupar o emprego ou a posi&ccedil;&atilde;o que haviam deixado em    Mo&ccedil;ambique. Para al&eacute;m disso, eram obrigados a formalidades complicadas    (requerimentos ao governador-geral, certid&otilde;es) e dispendiosas. Inclusivamente,    as mulheres e os filhos dos indiv&iacute;duos autorizados a entrar, apesar de    isentos das formalidades previstas na lei, eram frequentemente obrigados ao    seu cumprimento.      <P ALIGN="JUSTIFY">Contra tais medidas reclamaram diversos governos estrangeiros,    sobretudo o de Inglaterra. Num per&iacute;odo de depress&atilde;o do com&eacute;rcio,    as firmas indo-brit&acirc;nicas dificilmente poderiam admitir um n&uacute;mero    t&atilde;o elevado de empregados portugueses. Por exemplo, uma firma m&eacute;dia    urbana, com um dono/gerente e com quatro empregados, todos indo-brit&acirc;nicos,    para conseguir a percentagem legal ou admitiria 11 empregados portugueses adicionais    (totalizando 16 pessoas, 30% estrangeiros e 70% portugueses) ou teria de despedir    alguns dos seus empregados brit&acirc;nicos, admitindo o n&uacute;mero requerido    de nacionais portugueses.      <P ALIGN="JUSTIFY">Dado que a press&atilde;o pol&iacute;tica n&atilde;o apresentava    resultados, os indo-brit&acirc;nicos come&ccedil;aram a desenvolver estrat&eacute;gias    para contornar tais medidas. Algumas das grandes empresas (como foi o caso da    Popatlal Haribhai e C.&#170;, da Prabusdas Binji e C.&#170; ou da Zacarias Hagiamad    e Amod Moti e C.&#170;) davam sociedade n&atilde;o apenas a parentes pr&oacute;ximos    (irm&atilde;os, primos, cunhados), mas tamb&eacute;m, com uma pequen&iacute;ssima    quota, a empregados de confian&ccedil;a geralmente da &quot;fam&iacute;lia distante&quot;,    de tal maneira que estes, como s&oacute;cios, muito embora estrangeiros, n&atilde;o    contavam para efeitos de percentagem. Largamente implementada, tal estrat&eacute;gia    levou mesmo &agrave; publica&ccedil;&atilde;o de um despacho, em 1948, esclarecendo    que se contava como pessoal empregado os s&oacute;cios das firmas que nas mesmas    desempenhassem efectivamente qualquer fun&ccedil;&atilde;o, incluindo a de ger&ecirc;ncia.    Em simult&acirc;neo, algumas m&eacute;dias e grandes empresas passaram tamb&eacute;m    a empregar (mas apenas em lugares intermedi&aacute;rios) indianos de origem    indo-portuguesa (oriundos de Diu e de Dam&atilde;o)<SUP><a href="#21">20</a></SUP><a name="top21"></a>:      ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY">S&oacute; no bazar Mo&ccedil;ambique tinha 40 empregados [&#133;]    Havia maneiras de contornar essas leis, sim. Por um lado, havia os de Diu e    Dam&atilde;o que eram portugueses. E como os nossos filhos, os sobrinhos, j&aacute;    tinham nascido em Mo&ccedil;ambique, eram portugueses. Utiliz&aacute;vamos esses    nomes para contarem como empregados portugueses<SUP><a href="#23">22</a><a name="top23"></a></SUP>.      <P ALIGN="JUSTIFY">Mais dif&iacute;ceis de superar foram as restri&ccedil;&otilde;es    e as formalidades que envolviam as entradas e os retornos &agrave; col&oacute;nia.    Concomitantemente, os indo-brit&acirc;nicos come&ccedil;aram a alterar as suas    pr&aacute;ticas de circula&ccedil;&atilde;o em rela&ccedil;&atilde;o aos territ&oacute;rios    de origem. O pr&oacute;prio padr&atilde;o de migra&ccedil;&atilde;o masculina    (com perman&ecirc;ncia das mulheres e dos filhos pequenos na &Iacute;ndia, acompanhado    de visitas peri&oacute;dicas dos chefes de fam&iacute;lia) foi progressivamente    abandonado<SUP><a href="#24">23</a></SUP><a name="top24"></a> e o n&uacute;mero    de casamentos entre c&ocirc;njuges nascidos e residentes em Mo&ccedil;ambique    come&ccedil;ou tamb&eacute;m a aumentar.      <P ALIGN="JUSTIFY">Os processos de reunifica&ccedil;&atilde;o familiar e de reterritorializa&ccedil;&atilde;o    que desenvolveram, coincidentes com uma certa desvaloriza&ccedil;&atilde;o socioecon&oacute;mica    da posi&ccedil;&atilde;o da &Iacute;ndia em termos negociais, contribu&iacute;ram    para o recrudescimento do seu investimento material e identit&aacute;rio em    Mo&ccedil;ambique. N&atilde;o obstante, o modo como aproveitaram as rela&ccedil;&otilde;es    comerciais inter&eacute;tnicas que entretanto foram construindo na col&oacute;nia    (quer com representantes de firmas portuguesas, metropolitanas ou locais, quer    com estrangeiras) para diversificarem e at&eacute; ampliarem os seus circuitos    de importa&ccedil;&atilde;o/exporta&ccedil;&atilde;o mostra bem como os investimentos    nacionais e as conex&otilde;es transnacionais podem constituir processos inextricavelmente    articulados.      <P ALIGN="JUSTIFY">&nbsp;      <P><b>Construindo redes transnacionais a partir de microlocalidades</b>      <P ALIGN="JUSTIFY">Markovits (2000) problematiza a influ&ecirc;ncia diferencial    da perten&ccedil;a religiosa, hindu ou mu&ccedil;ulmana, na iniciativa migrat&oacute;ria    dos gujaratis pioneiros em direc&ccedil;&atilde;o ao Leste africano. Todavia,    n&atilde;o temos qualquer evid&ecirc;ncia de que o suposto tabu hindu de atravessar    as <I>kala pani</I><SUP><a href="#24">23</a><a name="top24"></a></SUP> ou de    que, de um modo mais amplo, a exist&ecirc;ncia de conceitos diferenciados de    pureza e impureza associados &agrave; viagem e ao contacto com novas ecologias    tivessem inibido os hindus <I>bhatias </I>do Kutch de se estabelecerem em Zanzibar    no mesmo intervalo temporal dos seus conterr&acirc;neos mu&ccedil;ulmanos ismaelitas    <I>khojas</I>. Por outro lado, mais interessado na <I>performance </I>comercial    dos seus colaboradores do que na sua perten&ccedil;a religiosa, temos not&iacute;cia    de que o sult&atilde;o de Oman se envolvia indiferenciadamente com mu&ccedil;ulmanos    e hindus, concedendo tamb&eacute;m a estes &uacute;ltimos cargos de import&acirc;ncia    pol&iacute;tica, como a recolha e fiscaliza&ccedil;&atilde;o dos impostos.      <P ALIGN="JUSTIFY">N&atilde;o constituindo um obst&aacute;culo maior &agrave;    imigra&ccedil;&atilde;o, a exist&ecirc;ncia de uma filia&ccedil;&atilde;o religiosa    comum n&atilde;o explica, no entanto, por si s&oacute;, o percurso migrat&oacute;rio    dos pioneiros. Algumas das hist&oacute;rias de fam&iacute;lia recolhidas sugerem,    com efeito, que as vari&aacute;veis mais significativas se relacionariam, sobretudo,    com recursos e atributos relacionados com a sua classe social de perten&ccedil;a:      <P ALIGN="JUSTIFY">O meu <I>dada</I> era conhecido como <I>the king of rice</I>.    Era um grande importador/exportador de arroz. Tinha muitos neg&oacute;cios em    Burma. Ele e os quatro irm&atilde;os que trabalhavam juntos. O meu pai contava    que ele passava l&aacute; 6 meses, e outros 6 meses na &Iacute;ndia. Com o dinheiro    que ganhou ofereceu um hospital que ainda hoje existe, em Jamnagar [...] Pelos    servi&ccedil;os que prestou &agrave; coroa Brit&acirc;nica, recebeu uma medalha    e passou a ser chamado Sir Jamal Sodagar. Como v&ecirc;, a minha fam&iacute;lia    fazia parte da <I>high society,</I> j&aacute; na &Iacute;ndia. O meu <I>dada,</I>    juntamente com Adamji Hajidaud, que era um grande industrial de Jutha de Bengal,    e com Abdula Harun, um fabricante e comerciante de tecidos do Sindh, fundou    a 1.&#170; associa&ccedil;&atilde;o m&eacute;mom: a Memon Welfare Education    Society<SUP><a href="#25">24</a></SUP><a name="top25"></a>.      <P ALIGN="JUSTIFY">O mesmo extracto, convergente com outros testemunhos, indicia    ainda que a exist&ecirc;ncia de uma tradi&ccedil;&atilde;o migrat&oacute;ria    comercial associada a recursos e projectos de classe nem sempre era sin&oacute;nimo    de uma viv&ecirc;ncia mais ou menos prolongada em determinados centros urbanos    costeiros (como Porbandar, Surat ou Mandvi) onde se desenvolvera uma esp&eacute;cie    de cultura c&iacute;vica mercantil (Markovits, 2000) caracterizada por uma forte    interac&ccedil;&atilde;o entre actores ligados a diferentes comunidades religiosas    e de casta<I> (gnati).</I> Localidades pequenas, inseridas em &aacute;reas predominantemente    rurais (do Kutch, por exemplo), ou cidades do interior (como Quetta) s&atilde;o    evocadas por v&aacute;rios entrevistados como locais de origem de importantes    subdi&aacute;sporas comerciais gujaratis, quer de hindus <I>(bhatias, lohanas),</I>    quer de mu&ccedil;ulmanos (<I>khojas</I>, <I>bohras</I> ou sunitas <I>memons</I>).      <P ALIGN="JUSTIFY">&Agrave; cultura mercantil pr&eacute;via de alguns dos migrantes    gujaratis desenvolvida a partir de localidades de pequena e m&eacute;dia escala    (quer interiores, quer costeiras) &eacute; necess&aacute;rio articular, por&eacute;m,    outras dimens&otilde;es, sem as quais dificilmente se poder&aacute; compreender    o percurso migrat&oacute;rio de um segmento muito significativo dos pioneiros.    Nos s&eacute;culos XIX e XX, um jovem gujarati pertencente a uma determinada    casta (<I>bhatia</I> ou <I>m&eacute;mom,</I> por exemplo) ou a uma comunidade    religiosa (<I>bhora</I> ou ismaleita <I>khoja,</I> nomeadamente) com tradi&ccedil;&otilde;es    migrat&oacute;rias, experi&ecirc;ncia internacional na importa&ccedil;&atilde;o/exporta&ccedil;&atilde;o    e no manejo das rela&ccedil;&otilde;es familiares e comunit&aacute;rias a longa    dist&acirc;ncia, mesmo que fosse iletrado e oriundo de uma fam&iacute;lia pobre,    tinha decerto uma maior probabilidade de se iniciar nas <I>kala pani,</I> de    obter emprego numa casa comercial e, inclusive, de estabelecer a sua empresa    familiar passados alguns anos.      ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY">Tal como determinadas localidades, tamb&eacute;m certas comunidades    de casta e etno-religiosas de perten&ccedil;a funcionavam como uma importante    fonte de identifica&ccedil;&atilde;o competitiva e mim&eacute;tica entre os    seus membros, revelando uma not&oacute;ria capacidade no que respeita &agrave;    circula&ccedil;&atilde;o interna de experi&ecirc;ncias, conhecimentos acumulados    e informa&ccedil;&otilde;es actualizadas, quer espacialmente (entre v&aacute;rias    localidades no interior da &Iacute;ndia, mas tamb&eacute;m entre estas e os    seus elementos sediados em v&aacute;rios destinos migrat&oacute;rios), quer    temporalmente, entre v&aacute;rias gera&ccedil;&otilde;es. Muito efectivas na    mobiliza&ccedil;&atilde;o migrat&oacute;ria, estas redes (parcialmente reconstru&iacute;das    nos locais de destino) forneciam hospitalidade inicial, um emprego por conta    de outrem, inicia&ccedil;&atilde;o num conhecimento pr&aacute;tico (e, ao fim    de alguns anos, nos pr&oacute;prios &quot;segredos&quot; do neg&oacute;cio)    ou ainda, tantas vezes, um apoio inestim&aacute;vel &agrave; autonomiza&ccedil;&atilde;o    empresarial do migrante.      <P ALIGN="JUSTIFY">&nbsp;      <P><b>A difus&atilde;o de um modelo empresarial familialista </b>      <P ALIGN="JUSTIFY">O sonho do meu pai era construir algo para n&oacute;s, como    uma fam&iacute;lia, e queria que fosse independente. N&atilde;o queria que f&ocirc;ssemos    mandados. Sempre nos meteu na cabe&ccedil;a aquele lema: &quot;N&atilde;o sejas    empregado de ningu&eacute;m<SUP><a href="#26">25</a><a name="top26"></a></SUP>.&quot;      <P ALIGN="JUSTIFY">Muito embora testemunhos como o anterior pare&ccedil;am corroborar    a explica&ccedil;&atilde;o estrutural segundo a qual as oportunidades bloqueadas    resultantes da experi&ecirc;ncia da discrimina&ccedil;&atilde;o (Phizacklea    e Ram, 1996; Mulholland, 1997) constituiriam a for&ccedil;a motriz das inciativas    empresariais indo-brit&acirc;nicas, o <I>neg&oacute;cio da fam&iacute;lia</I>    constitu&iacute;a uma estrat&eacute;gia j&aacute; testada e consolidada de crescimento    econ&oacute;mico, partilhada por diferentes grupos de comerciantes, quer hindus,    quer mu&ccedil;ulmanos.      <P ALIGN="JUSTIFY">Se bem que o objectivo fosse reunir duas gera&ccedil;&otilde;es    de homens adultos ligados por la&ccedil;os de parentesco &#151; pai e filhos    var&otilde;es, v&aacute;rios irm&atilde;os e respectivos filhos var&otilde;es,    no modelo mais habitual &#151;, &quot;trabalhando juntos&quot; no mesmo neg&oacute;cio,    o modo de o atingir comprendia v&aacute;rias fases. Geralmente, a experi&ecirc;ncia    migrat&oacute;ria pr&eacute;via de um familiar pr&oacute;ximo interpelava primos    e irm&atilde;os a tentarem a sua sorte no mesmo ou em diferentes territ&oacute;rios.    Movimentos de dispers&atilde;o familiar (para exponenciar oportunidades e/ou    para contornar barreiras legislativas &agrave; emigra&ccedil;&atilde;o em determinados    territ&oacute;rios), movimentos de reunifica&ccedil;&atilde;o familiar parcial    (sobretudo quando um dos var&otilde;es montava um neg&oacute;cio por conta pr&oacute;pria,    chamando ent&atilde;o irm&atilde;os e primos), movimentos de refragmenta&ccedil;&atilde;o    familiar (com vista &agrave; multiplica&ccedil;&atilde;o das sucursais da empresa-sede    e &agrave; cria&ccedil;&atilde;o de uma cadeia de cantinas em zonas rurais que    garantissem o neg&oacute;cio da permuta), pautavam frequentemente a emerg&ecirc;ncia    da empresa familiar.      <P ALIGN="JUSTIFY">Irm&atilde;os (e at&eacute; primos) com idades similares &agrave;    do(s) fundador(es) eram habitualmente considerados s&oacute;cios, mas um irm&atilde;o    mais novo, um filho ou um sobrinho deveriam &quot;come&ccedil;ar por baixo&quot;:    primeiramente, e tantas vezes, como aprendizes de empresas de &quot;fam&iacute;lias    conhecidas ou amigas&quot;, onde adquiriam conhecimentos, experi&ecirc;ncia,    contactos e redes de influ&ecirc;ncia valiosos; posteriormente, como empregados    das empresas das suas fam&iacute;lias. A estrat&eacute;gia partilhada assente    no &quot;come&ccedil;ar por baixo&quot; (pelos trabalhos mais baixos e indiferenciados),    a que se seguia a atribui&ccedil;&atilde;o progressiva de lugares de responsabilidade    (guarda-livros, por exemplo) at&eacute; &agrave; ger&ecirc;ncia (primeiro sem    sociedade e posteriormente com uma pequena quota), prendia-se quer com objectivos    de aprendizagem, quer com a constru&ccedil;&atilde;o de uma identifica&ccedil;&atilde;o    com o esfor&ccedil;o do(s) fundador(es) do neg&oacute;cio da fam&iacute;lia,    ao mesmo tempo que funcionava como uma prova de que o futuro s&oacute;cio, apesar    do seu la&ccedil;o de parentesco, merecia o privil&eacute;gio de herdar e gerir.    A narrativa seguinte deixa entrever como os valores de dist&acirc;ncia hierarquizante,    respeito e obedi&ecirc;ncia dos mais novos face &agrave;s gera&ccedil;&otilde;es    parentais garantiam a efic&aacute;cia de tal estrat&eacute;gia, viabilizando    n&atilde;o apenas a sua continuidade, como o pr&oacute;prio aumento do processo    de enriquecimento:      <P ALIGN="JUSTIFY">Mesmo comigo, o meu pai disse: vais come&ccedil;ar a trabalhar    por baixo de algu&eacute;m. Tens de aprender a ser guarda-livros. Quem n&atilde;o    &eacute; guarda-livros, nunca poder&aacute; ser um grande comerciante. E eu    disse-lhe que n&atilde;o gostava de neg&oacute;cios, que queria ser advogado,    que queria estudar Direito. Mas o meu pai nunca deixou. Ele sempre dizia: para    qu&ecirc;, para seres empregado de outros; ser empregado tem limite de vencimento,    comerciante, n&atilde;o. Fiz-lhe a vontade e ajudei-o a construir o imp&eacute;rio    da fam&iacute;lia<SUP><a href="#27">26</a><a name="top27"></a></SUP>.      <P ALIGN="JUSTIFY">Em paralelo, gerir uma empresa familiar implicava entrosar    uma dose indispens&aacute;vel de racionalidade econ&oacute;mica com v&aacute;rias    estrat&eacute;gias de rela&ccedil;&atilde;o entre os familiares envolvidos:    entre irm&atilde;os, mas tamb&eacute;m entre pai e tios, filhos e sobrinhos,    s&oacute;cios com a mesma ou com diferentes quotas na sociedade, usufrutu&aacute;rios    ou n&atilde;o dos mesmos lucros, diferenciados no imagin&aacute;rio hier&aacute;rquico    microfamiliar, bem como na sua <I>performance,</I> grau de autonomia e proemin&ecirc;ncia    empresarial. Com efeito, a divis&atilde;o em propor&ccedil;&otilde;es iguais    do capital e dos lucros pelos v&aacute;rios s&oacute;cios, quando ocorria, n&atilde;o    invalidava o desenvolvimento de processos de diferencia&ccedil;&atilde;o interna    em fun&ccedil;&atilde;o do grau de participa&ccedil;&atilde;o de cada s&oacute;cio    (s&oacute;cios gerentes com vencimento proporcional <I>versus</I> s&oacute;cios    sem actividade, por exemplo), das compet&ecirc;ncias empresariais reconhecidas,    bem como de crit&eacute;rios de distribui&ccedil;&atilde;o de tarefas, ramos    e responsabilidades de neg&oacute;cio, sobretudo quando a empresa atingia um    grau significativo de crescimento, diversifica&ccedil;&atilde;o e transnacionalismo.    N&atilde;o obstante, o respeito intergeracional determinava, muito frequentemente,    que fosse pedido ao pai (mesmo quando envelhecido) ou ao irm&atilde;o mais velho    (independentemente da sua centralidade empresarial) o &quot;consentimento final&quot;    para os neg&oacute;cios:      <P ALIGN="JUSTIFY">O <I>big boss</I> era o meu tio Esmael, o mais velho, era ele    que dava o consentimento final mas a cabe&ccedil;a era o meu tio Bashir. Cada    irm&atilde;o tinha as suas responsabilidades nos neg&oacute;cios, cada um tinha    o seu ramo. O outro meu tio era o <I>bon-vivant</I> da fam&iacute;lia [...]    Quando eu nasci, o meu <I>dada</I> j&aacute; n&atilde;o queria saber dos neg&oacute;cios,    toda a sua vida era para ajudar os mais desfavorecidos. Ele obrigava todos os    netos a comerem com os pobres<SUP><a href="#28">27</a></SUP><a name="top28"></a>.      ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY">Uma das dimens&otilde;es de maior vulnerabilidade deste projecto    manifestava-se quando morria o pai ou um dos irm&atilde;os fundadores. Associada    &agrave; multiplica&ccedil;&atilde;o de herdeiros, esta situa&ccedil;&atilde;o    despoletava muito frequentemente conflitos, decorrentes da sa&iacute;da e/ou    da introdu&ccedil;&atilde;o de novos s&oacute;cios, da compra, venda e redistribui&ccedil;&atilde;o    de quotas (tantas vezes em propor&ccedil;&otilde;es desiguais), da implementa&ccedil;&atilde;o    de novos crit&eacute;rios de gest&atilde;o (como o da hierarquiza&ccedil;&atilde;o    de vencimentos e dos lucros em fun&ccedil;&atilde;o da participa&ccedil;&atilde;o    e responsabilidade dos herdeiros). Em muitos casos culminava na pr&oacute;pria    dissolu&ccedil;&atilde;o das sociedades, mas dava origem &agrave; funda&ccedil;&atilde;o    de novas empresas familiares. Apesar desta vulnerabilidade c&iacute;clica, reconhecida    pelos pr&oacute;prios agentes, o modelo do neg&oacute;cio da fam&iacute;lia    reproduzia-se, renovado, gera&ccedil;&atilde;o ap&oacute;s gera&ccedil;&atilde;o.      <P ALIGN="JUSTIFY">Noutras situa&ccedil;&otilde;es, nomeadamente quando os futuros    empres&aacute;rios n&atilde;o possu&iacute;am uma experi&ecirc;ncia e cultura    empresarial pr&eacute;via &agrave; migra&ccedil;&atilde;o, passavam geralmente    mais anos a trabalhar para estes e a identificar-se com eles antes de iniciarem    o seu neg&oacute;cio de fam&iacute;lia. Os primeiros cinco a sete anos, consoante    os casos, serviam para poupar algum dinheiro (inclusive para enviar para &Iacute;ndia),    para angariar conhecimentos e experi&ecirc;ncia no neg&oacute;cio, para obter    a confian&ccedil;a dos patr&otilde;es (nem sempre da mesma casta e religi&atilde;o)    e de muitos dos seus fornecedores e clientes, aos quais, na fase seguinte, j&aacute;    como cantineiro ou como pequeno comerciante urbano, pediria cr&eacute;dito (em    mercadoria e em dinheiro), e ainda para aprender (e, mais tarde, recriar) uma    mesma cultura empresarial.      <P ALIGN="JUSTIFY">Se um filho ou um sobrinho deveriam come&ccedil;ar por baixo,    por maioria de raz&atilde;o, aos empregados eram atribu&iacute;dos os trabalhos    mais duros (carregar e descarregar mercadorias, transportar produtos agr&iacute;colas    num burro, negociar o pre&ccedil;o do caju em locais in&oacute;spitos), bem    como tarefas muito polivalentes (vender produtos, cozinhar para o patr&atilde;o,    tratar da limpeza dos armaz&eacute;ns e das lojas), em troca de um sal&aacute;rio    m&iacute;nimo e de um alojamento nas traseiras ou em barrac&otilde;es constru&iacute;dos    nos quintais das casas dos patr&otilde;es. Por outras palavras, exigia-se-lhes    uma dedica&ccedil;&atilde;o quase total ao patr&atilde;o, ao seu neg&oacute;cio    e &agrave;s suas necessidades pessoais. Come&ccedil;ar &quot;por baixo&quot;    significava, deste modo, come&ccedil;ar por baixo de algu&eacute;m. E isto inclu&iacute;a    m&uacute;ltiplas pr&aacute;ticas que visavam &quot;rebaixar&quot; e &quot;humilhar&quot;    propositamente o empregado (acusa&ccedil;&otilde;es de roubo e de faltas n&atilde;o    cometidas, castigos sob a forma de cortes no sal&aacute;rio, etc.) para lhe    relembrar a sua posi&ccedil;&atilde;o subordinada<SUP><a href="#29">28</a><a name="top29"></a></SUP>:      <P ALIGN="JUSTIFY">Um dia, o patr&atilde;o ralhou muito com o meu av&ocirc;, porque    ele n&atilde;o tinha cozinhado como ele queria. Veio-se embora sem fazer contas    e com v&aacute;rios sal&aacute;rios em atraso. Nunca mais quis saber dele, nem    das lojas dele. Os <I>vania</I>, sobretudo os de antigamente, gostavam muito    de rebaixar os empregados.<SUP><a href="#30">29</a></SUP><a name="top30"></a>      <P ALIGN="JUSTIFY">Nos anos 30, o meu pai teve muito preju&iacute;zo, d&iacute;vidas    de v&aacute;rias lojas. Problemas com os empregados. Eu sempre dizia a ele:    temos de tratar bem os empregados, para que eles n&atilde;o tenham aquela vontade    de abusar e para evitar a competi&ccedil;&atilde;o. Mas o meu pai n&atilde;o    pensava assim. Rebaixava muito a eles<SUP><a href="#31">30</a><a name="top31"></a></SUP>.      <P ALIGN="JUSTIFY">N&atilde;o obstante, depois de demonstrada a honestidade, fidelidade    e a gratid&atilde;o do empregado, o patr&atilde;o poderia trat&aacute;-lo &quot;como    se fosse um filho&quot;, ajudando-o a montar o seu neg&oacute;cio (atrav&eacute;s    de um empr&eacute;stimo inicial, de um cr&eacute;dito em mercadorias, da utiliza&ccedil;&atilde;o    do seu nome e de conhecimentos para que lhe fosse concedida uma licen&ccedil;a    comercial). Em simult&acirc;neo, a recria&ccedil;&atilde;o progressiva de padr&otilde;es    familialistas entre patr&otilde;es e empregados contribu&iacute;a para a reputa&ccedil;&atilde;o    da empresa, como promovia, nos empregados e potenciais competidores sentimentos    de d&iacute;vida e gratid&atilde;o que garantiriam o respeito de certas regras    deontol&oacute;gicas entre empresas rivais.      <P ALIGN="JUSTIFY">&nbsp;      <P><b>O contributo das mulheres migrantes na constru&ccedil;&atilde;o de    uma cultura transnacional </b>      <P ALIGN="JUSTIFY">The veil of dishonour foisted on Indian indentured women has    been lifted [Lal, 1998, p. 231].      <P ALIGN="JUSTIFY">Apesar de terem sido poupadas &agrave;s acusa&ccedil;&otilde;es    de m&aacute;s m&atilde;es e de conduta imoral enquanto esposas, veiculadas por    m&uacute;ltiplas fontes coloniais acerca das mulheres indianas que migravam    atrav&eacute;s de um contrato de trabalho, a agencialidade daquelas que concretizaram    projectos migrat&oacute;rios no contexto do crescimento capitalista e urbano    dos territ&oacute;rios da costa oriental de &Aacute;frica com o intuito de se    reunirem aos maridos n&atilde;o assalariados nem sempre &eacute; devidamente    contemplada na investiga&ccedil;&atilde;o dispon&iacute;vel. Tantas vezes concebidas    como isoladas (profissional, lingu&iacute;stica e culturalmente) dos respectivos    contextos migrat&oacute;rios, s&atilde;o apenas responsabilizadas pela manuten&ccedil;&atilde;o    das liga&ccedil;&otilde;es com os espa&ccedil;os de origem, pela conserva&ccedil;&atilde;o    da refer&ecirc;ncia do <I>jati</I><SUP><a href="#32">31</a><a name="top32"></a></SUP>    e pela reprodu&ccedil;&atilde;o de tradi&ccedil;&otilde;es religiosas e culturais    de refer&ecirc;ncia.      ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY">Todavia, e apesar de n&atilde;o participarem activamente no    <I>neg&oacute;cio da fam&iacute;lia</I>, o seu desempenho nas empresas familiares    n&atilde;o &eacute;, contudo, negligenciado nas mem&oacute;rias recolhidas.    As estrat&eacute;gias de conten&ccedil;&atilde;o e a resolu&ccedil;&atilde;o    dos conflitos (reais ou potenciais) entre mulheres da mesma fam&iacute;lia de    alian&ccedil;a (coabitantes ou n&atilde;o) sem contamina&ccedil;&atilde;o das    rela&ccedil;&otilde;es de consaguinidade masculinas, a transmiss&atilde;o aos    filhos var&otilde;es da ac&ccedil;&atilde;o empreendedora dos seus pais e tios,    bem como da import&acirc;ncia de darem continuidade aos seus projectos, o incutir    constante de valores de esfor&ccedil;o, trabalho e sacr&iacute;ficio aos descendentes,    o seu papel como mediadoras privilegiadas nos casamentos das gera&ccedil;&otilde;es    emergentes, ou at&eacute; o modo como algumas estimularam a educa&ccedil;&atilde;o    das novas gera&ccedil;&otilde;es e, por consequ&ecirc;ncia, contribu&iacute;ram    para modernizar algumas empresas familiares, s&atilde;o aspectos repetidamente    evocados (Bastos e Bastos, 2006).      <P ALIGN="JUSTIFY">Outras mem&oacute;rias v&atilde;o ainda mais longe, sublinhando    o seu desempenho como gestoras de rela&ccedil;&otilde;es com familiares de refer&ecirc;ncia    estabelecidos no mesmo ou noutros territ&oacute;rios migrat&oacute;rios. Muito    embora, de acordo com o sistema de valores reconstru&iacute;do, a posi&ccedil;&atilde;o    de s&oacute;cio num neg&oacute;cio de fam&iacute;lia s&oacute; pudesse ser ocupada    por um n&uacute;mero limitado de parentes (pai, tios paternos, irm&atilde;os,    filhos e filhos de irm&atilde;os), o sogro e os irm&atilde;os e primos da mulher    ou outros parentes das esposas constitu&iacute;am um recurso empresarial n&atilde;o    desprez&iacute;vel. A ajuda financeira directa numa altura de crise, os empr&eacute;stimos    de capital numa fase inicial ou de amplia&ccedil;&atilde;o do neg&oacute;cio,    informa&ccedil;&otilde;es e aconselhamento sobre novas oportunidades de investimento,    utiliza&ccedil;&atilde;o do nome, prest&iacute;gio empresarial e rede de influ&ecirc;ncias    de tal familiar para obter uma licen&ccedil;a, um empr&eacute;stimo banc&aacute;rio    ou a confian&ccedil;a de um fornecedor ou cliente, as possibilidades de transnacionaliza&ccedil;&atilde;o    atrav&eacute;s de importa&ccedil;&otilde;es/exporta&ccedil;&otilde;es vantajosas    para ambas as partes ou at&eacute; pedidos de emprego para membros da fam&iacute;lia    &quot;pr&oacute;xima&quot; e &quot;distante&quot; nas empresas de familiares    das m&atilde;es, noras, irm&atilde;s e filhas constitu&iacute;am situa&ccedil;&otilde;es    frequentes. Tamb&eacute;m nestes momentos, a diplomacia feminina era fundamental    para que nenhum dos seus familiares masculinos, de alian&ccedil;a ou de refer&ecirc;ncia,    se sentisse &quot;humilhado&quot;<I>.</I>      <P ALIGN="JUSTIFY">Gestoras, locais e &agrave; dist&acirc;ncia, de rela&ccedil;&otilde;es    familiares que indirectamente interferiam com as empresas das suas fam&iacute;lias,    as mulheres dos pioneiros exerceram tamb&eacute;m um papel determinante na implementa&ccedil;&atilde;o    de mecanismos de controlo social e na pr&oacute;pria constru&ccedil;&atilde;o    e reprodu&ccedil;&atilde;o das comunidades etno-religiosas de perten&ccedil;a.    Deste modo, para al&eacute;m de refor&ccedil;arem o projecto de pessoa familiar    (Lima, 2003) no qual sujeito, fam&iacute;lia e empresa se sobrepunham e confundiam,    aumentavam um capital &uacute;nico, o &quot;respeito&quot; associado ao nome    da fam&iacute;lia, aquela reputa&ccedil;&atilde;o que persistia mesmo em momentos    de crise e constitu&iacute;a um ingrediente indispens&aacute;vel nas transac&ccedil;&otilde;es    comerciais baseadas na confian&ccedil;a m&uacute;tua.      <P ALIGN="JUSTIFY">&nbsp;      <P><b>Estrat&eacute;gias de abertura e confian&ccedil;a inter&eacute;tnicas    </b>     <P ALIGN="JUSTIFY">Ao contr&aacute;rio de algumas teoriza&ccedil;&otilde;es sobre    enclaves e minorias intermedi&aacute;rias segundo as quais as empresas familiares    &eacute;tnicas estariam for&ccedil;adas a uma posi&ccedil;&atilde;o marginal    e perif&eacute;rica, porque voltadas sobretudo para co-&eacute;tnicos, a cultura    empresarial indiana implementada em Mo&ccedil;ambique pode ser tamb&eacute;m    caracterizada pela emerg&ecirc;ncia e reprodu&ccedil;&atilde;o de um conjunto    partilhado de estrat&eacute;gias de abertura inter&eacute;tnica que constitu&iacute;am,    ali&aacute;s, a for&ccedil;a motriz da sua vitalidade econ&oacute;mica:      <P ALIGN="JUSTIFY">O cliente negro mandava tirar tudo, para ver, e depois n&atilde;o    levava. E o indiano tinha mais paci&ecirc;ncia, desarrumava, voltava a arrumar,    porque queria clientes. Muitos tamb&eacute;m davam cr&eacute;dito e at&eacute;    faziam trocas. O branco, o portugu&ecirc;s, n&atilde;o tinha paci&ecirc;ncia.    Por isso, a maioria dos negros preferia comprar nos estabelecimentos indianos.    Depois, o branco insultava, chamava nomes, ralhava ou batia ao empregado negro.    O indiano raramente<SUP><a href="#33">32</a></SUP><a name="top33"></a>.      <P ALIGN="JUSTIFY">O tratamento tamb&eacute;m variava em fun&ccedil;&atilde;o    da posi&ccedil;&atilde;o social e do grau de educa&ccedil;&atilde;o do negro.    Por exemplo, se o negro era r&eacute;gulo, se era chefe tradicional ou se era    <I>nduma,</I> o indiano tratava-o de uma maneira diferente, dava-lhe um tratamento    de <I>marketing,</I> porque o hindu sempre coloca os seus interesses comerciais    em primeiro plano. Como alguns chefes tribais e r&eacute;gulos influenciavam    os nativos sob a sua jurisdi&ccedil;&atilde;o, podiam encaminh&aacute;-los para    a cantina de determinado indiano e afast&aacute;-los da cantina de outro comerciante<SUP><a href="#34">33</a><a name="top34"></a></SUP>.      <P ALIGN="JUSTIFY">O n&uacute;mero de africanos que o iam visitar impressionou-me.    Eles falavam entre si e depois cada um deixava dinheiro em cima do ba&uacute;.    No fim, perguntei-lhe: <I>dada</I>, o que &eacute; que est&atilde;o a fazer?    E ele disse: todos estes homens que aqui v&ecirc;m s&atilde;o doutores em feiti&ccedil;aria.    V&ecirc;m pedir-me que os proteja dos outros feiti&ccedil;eiros. Eles acreditam    que s&oacute; eu os posso proteger. E por isso pagam-me. Se n&atilde;o me pagassem,    n&atilde;o se iam sentir protegidos<SUP><a href="#35">34</a><a name="top35"></a></SUP>.      <P ALIGN="JUSTIFY">Independentemente da sua filia&ccedil;&atilde;o religiosa,    os migrantes indianos aproveitavam-se da reduzida familariedade dos nativos    na execu&ccedil;&atilde;o das transac&ccedil;&otilde;es comerciais. Utilizavam,    nas suas pr&oacute;prias palavras, &quot;estrat&eacute;gias de<I> marketing</I>&quot;,    agindo como fornecedores de cr&eacute;ditos e deposit&aacute;rios das suas economias    ou quando visavam ganhos comerciais face &agrave; concorr&ecirc;ncia crescente.    Alguns mobilizavam ainda o seu &quot;poder&quot; de compreens&atilde;o, comunica&ccedil;&atilde;o    e ac&ccedil;&atilde;o sobre as linguagens nativas em benef&iacute;cio pessoal.    N&atilde;o obstante, as mem&oacute;rias recolhidas obrigam a complexificar a    posi&ccedil;&atilde;o do &quot;estrangeiro&quot;, desafectado e movido exclusivamente    por estrat&eacute;gias de objectividade e oportunismo mercantil, atribu&iacute;da    por v&aacute;rios cientistas sociais aos elementos das minorias &eacute;tnicas    intermedi&aacute;rias (Turner e Bonachi, 1980):      ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY">Vivi sessenta anos em Mo&ccedil;ambique. Fartei-me de ver ricos    que se afundaram e pobres que enriquecerem de um dia para o outro [&#133;] O    que fica &eacute; o nome, o respeito que uma pessoa merece, que tamb&eacute;m    &eacute; uma d&aacute;diva de Deus. Mas que tamb&eacute;m se ganha a ajudar    os pobres, os ind&iacute;genas, os mistos, sem fazer distin&ccedil;&atilde;o    de ra&ccedil;a<SUP><a href="#36">35</a></SUP><a name="top36"></a>. Os pretos    ou os mistos n&atilde;o eram equiparados a n&oacute;s, mesmo dentro da comunidade.    S&oacute; que os bons mu&ccedil;ulmanos sabem que o orgulho &eacute; muito mau,    eu sou rico, voc&ecirc; n&atilde;o &eacute; ningu&eacute;m, voc&ecirc; n&atilde;o    sabe, voc&ecirc; n&atilde;o presta porque &eacute; preto, isso &eacute; muito    mau<SUP><a href="#37">36</a><a name="top37"></a></SUP>.      <P ALIGN="JUSTIFY">Isto passou-se em 1890 e tal. O meu <I>nana</I> (av&ocirc;    materno) era um homem rico e, por isso, tornou-se muito orgulhoso. Um dia, quando    voltava do rio, encontrou um homem com pele escura. Mas foi muito orgulhoso    na maneira de falar. E aquele senhor disse-lhe: eu sou uma pessoa especial.    Isso &eacute; que tu n&atilde;o sabes. Em vez de o respeitar, o <I>nana</I>    pediu provas. Logo, logo, Mahatma Bapa abanou uma &aacute;rvore e caiu ouro.    Depois de v&aacute;rias provas, o <I>nana </I>ajoelhou-se aos seus p&eacute;s    e disse: n&atilde;o vou ser mais orgulhoso. N&atilde;o quero mais dinheiro.    Quero ajudar as outras pessoas<SUP><a href="#38">37</a><a name="top38"></a></SUP>.      <P ALIGN="JUSTIFY">Como temos vindo a argumentar, o isl&atilde;o indiano, tal    como o hindu&iacute;smo, reconstru&iacute;dos e vividos em Mo&ccedil;ambique,    constitu&iacute;ram um mecanismo de controlo e de refor&ccedil;o das exig&ecirc;ncias    m&iacute;ninas de reciprocidade no plano inter&eacute;tnico (Bastos, 2007),    nomeadamente quando difundiam vis&otilde;es do mundo de acordo com as quais    a pr&oacute;pria abertura n&atilde;o arrogante e generosa face ao &quot;inferior&quot;    era concebida como uma fonte cumulativa de poder tanto no plano material como    em termos de reputa&ccedil;&atilde;o identit&aacute;ria. N&atilde;o obstante,    outras raz&otilde;es justificavam, complementarmente, que o campon&ecirc;s ou    o mineiro mo&ccedil;ambicano merecessem a hindus e mu&ccedil;ulmanos um tratamento    &quot;diferente&quot;, ainda que assim&eacute;trico.      <P ALIGN="JUSTIFY">Assente num conjunto de pressupostos ontol&oacute;gicos partilhados    por nativos<SUP><a href="#39">38</a><a name="top39"></a></SUP> e indianos, a    explica&ccedil;&atilde;o do sofrimento, inexplic&aacute;vel como uma agress&atilde;o    m&aacute;gica causada por ac&ccedil;&otilde;es desencadeadas pelos pr&oacute;prios    sofredores (por excessos desqualificantes e/ou humilhantes na rela&ccedil;&atilde;o    com o &quot;inferior&quot;, nomeadamente), refor&ccedil;ada pela atribui&ccedil;&atilde;o    aos especialistas aut&oacute;ctones de um sobrepoder de interfer&ecirc;ncia    nos processos de influ&ecirc;ncia m&aacute;gica, parece ter exponenciado a preocupa&ccedil;&atilde;o    gujarati com o cumprimento de certas exig&ecirc;ncias m&iacute;nimas de reciprocidade:      <P ALIGN="JUSTIFY">N&atilde;o se podia tratar mal o preto, porque eles sabem fazer    feiti&ccedil;o para matar<SUP><a href="#40">39</a><a name="top40"></a></SUP>.      <P ALIGN="JUSTIFY">O preto s&oacute; disse: tu vai ver&#133; Pouco tempo depois,    a filha desse indiano morreu. S&oacute; tinha 13 ou 14 anos<SUP><a href="#41">40</a><a name="top41"></a></SUP>.      <P ALIGN="JUSTIFY">&Eacute; sempre a inveja. Ainda hoje estou a sofrer por causa    da inveja dos pretos. N&atilde;o se pode causar inveja nos outros<SUP><a href="#42">41</a><a name="top42"></a></SUP>.      <P ALIGN="JUSTIFY">Esta preocupa&ccedil;&atilde;o quase obsidiante com o &quot;outro&quot;    maximizava-se, contudo, na rela&ccedil;&atilde;o com o &quot;dom&iacute;nio    branco&quot;<I>.</I> Conscientes de que a sua seguran&ccedil;a identit&aacute;ria    e prosperidade econ&oacute;mica em Mo&ccedil;ambique dependiam de serem considerados    estreitos colaboradores do regime, os indo-brit&acirc;nicos, em particular as    suas elites, forneciam continuadamente ao Estado portugu&ecirc;s &quot;provas&quot;    de abertura inter&eacute;tnica, gratid&atilde;o e subordina&ccedil;&atilde;o    pol&iacute;tica. Entre as mais insistentes destacavam-se: a confirma&ccedil;&atilde;o    da toler&acirc;ncia econ&oacute;mica, racial e religiosa como tra&ccedil;o distintivo    (e superiorizante) do imp&eacute;rio colonial portugu&ecirc;s; a &ecirc;nfase    &quot;na amizade e na colabora&ccedil;&atilde;o fraternas, que ligavam indianos    e portugueses, em prol de uma mesma p&aacute;tria lusitana&quot;<SUP><a href="#43">42</a></SUP><a name="top43"></a>;    a utiliza&ccedil;&atilde;o frequente (quer por hindus, quer por sunitas e ismaelitas)    de voc&aacute;bulos e de estilos discursivos prevalecentes na ecologia religiosa    dominante e o recurso insistente &agrave; pr&oacute;pria tradu&ccedil;&atilde;o    de cren&ccedil;as, cerim&oacute;nias, figuras divinas mu&ccedil;ulmanas e hindus    em equivalentes cat&oacute;licos; uma postura ambivalente que combinava, em    graus diferentes, mimetismo exterior (Bhabha, 1994) e identifica&ccedil;&atilde;o    incorporativa em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; &quot;cultura portuguesa&quot;;    sobretudo, a nega&ccedil;&atilde;o de qualquer projecto pol&iacute;tico organizado    de luta anticolonial.      <P ALIGN="JUSTIFY">Contestando o que Gosden e Knowles t&ecirc;m vindo a definir    como &quot;cultura colonial em denega&ccedil;&atilde;o&quot; (2001, p. 10),    isto &eacute;, um modo dominante de representa&ccedil;&atilde;o de sociedades    coloniais pautado pela exist&ecirc;ncia de interac&ccedil;&otilde;es e trocas    entre diferentes grupos sociais (raciais, socioecon&oacute;micos, etno-religiosos),    mas, em simult&acirc;neo, caracterizado pela aus&ecirc;ncia de uma representa&ccedil;&atilde;o    conjunta que reconhe&ccedil;a estas mesmas interac&ccedil;&otilde;es e trocas,    m&uacute;ltiplas mem&oacute;rias de indianos de Mo&ccedil;ambique enfatizam,    pelo contr&aacute;rio, o relacionamento quotidiano com os <I>bagl&aacute;s </I>(&agrave;    letra &quot;brancos&quot;), tanto nos centros urbanos como nas zonas rurais,    patente nas rela&ccedil;&otilde;es comerciais &quot;com base na confian&ccedil;a    m&uacute;tua, porque n&atilde;o havia nada escrito&quot;,<I> </I>nas<I> </I>rela&ccedil;&otilde;es    na escola colonial (onde alguns entrevistados se sentiram discriminados), mas    da qual ret&ecirc;m mem&oacute;rias do<I> </I>&quot;conv&iacute;vio entre garotos    indianos, portugueses, negros e mulatos&quot;, inexistente &quot;fora da escola,    onde cada um se fechava na sua ra&ccedil;a&quot;); rela&ccedil;&otilde;es de    cumplicidade com s&oacute;cios portugueses para contornar algumas restri&ccedil;&otilde;es    colocadas ao investimento indiano (no sector industrial, nomeadamente); mas    ainda rela&ccedil;&otilde;es interpessoais de &quot;amizade&quot;, que &quot;n&atilde;o    eram poss&iacute;veis no Uganda, no Qu&eacute;nia e muito menos na Rod&eacute;sia    e na &Aacute;frica do Sul&quot;.      <P ALIGN="JUSTIFY">&nbsp;      ]]></body>
<body><![CDATA[<P><b>Constrangimentos coloniais: reterritorializa&ccedil;&atilde;o e transnacionalismo    </b>     <P ALIGN="JUSTIFY">Descendentes e antigos empregados da Ranchordas Oddha &amp;    Co., da Haridas Damodar Ananji &amp; Co. ou da Gorbandas Vallabdas &amp; Co.,    da Damodar Manglagy &amp; Co. mas tamb&eacute;m da Gulamhusem &amp; Co. e da    Tharani &amp; Co. recordam como o per&iacute;odo da guerra interrompeu alguns    dos circuitos de importa&ccedil;&atilde;o e exporta&ccedil;&atilde;o, afectando    nomeadamente o neg&oacute;cio do caju. N&atilde;o obstante, logo no in&iacute;cio    dos anos 50 registou-se no mercado mundial um aumento da sua procura (acompanhado    da subida de pre&ccedil;o), o que reactivou a permuta entre cantineiros, armazenistas    e exportadores. Por acr&eacute;scimo, para as firmas que importavam sobretudo    a partir de Portugal, bem como para os principais cambistas indianos de Louren&ccedil;o    Marques, o per&iacute;odo da segunda guerra correspondeu a uma fase de acentuado    enriquecimento. A posi&ccedil;&atilde;o neutral assumida pelo governo portugu&ecirc;s    e, por corol&aacute;rio, a manuten&ccedil;&atilde;o das rotas de navega&ccedil;&atilde;o    de muitos navios portugueses, o aumento da procura de certos bens pelos pa&iacute;ses    envolvidos na guerra e a subsequente subida dos pre&ccedil;os, bem como o afluxo    de moeda estrangeira aos portos mo&ccedil;ambicanos, n&atilde;o s&oacute; refor&ccedil;aram    o capital econ&oacute;mico e o prest&iacute;gio de algumas das grandes firmas    e fam&iacute;lias indianas pioneiras, como viabilizaram a expans&atilde;o de    novas empresas familiares:      <P ALIGN="JUSTIFY">Portugal era neutral e os navios portugueses podiam circular    &agrave; vontade, eram livres. O que acontecia &eacute; que com a guerra houve    um grande aumento da procura de mercadorias pelos pa&iacute;ses envolvidos.    Como faltava mercadoria, os pre&ccedil;os subiam<SUP><a href="#44">43</a><a name="top44"></a></SUP>.      <P ALIGN="JUSTIFY">Na altura da guerra, Portugal era neutral e por isso muitos    barcos paravam no porto de Louren&ccedil;o Marques. Por isso havia muita moeda    e muito c&acirc;mbio<SUP><a href="#45">44</a></SUP><a name="top45"></a>.      <P ALIGN="JUSTIFY">Caracterizado pela prosperidade, o p&oacute;s-segunda guerra    foi, contudo, marcado pela independ&ecirc;ncia da &Iacute;ndia, pela parti&ccedil;&atilde;o    &Iacute;ndia/Paquist&atilde;o, bem como por um agravamento progressivo das rela&ccedil;&otilde;es    entre Portugal e a Uni&atilde;o Indiana, que culminou na invas&atilde;o da &Iacute;ndia    portuguesa em 1961. Pressionado pelo poder pol&iacute;tico, bem como por determinados    sectores da popula&ccedil;&atilde;o portuguesa, o ent&atilde;o governador de    Mo&ccedil;ambique determinou o &quot;internamento&quot; dos s&uacute;bditos    de nacionalidade hindust&acirc;nica, o &quot;encerramento das suas firmas comerciais    e resid&ecirc;ncias&quot; e, posteriormente, a sua &quot;expuls&atilde;o&quot;.      <P ALIGN="JUSTIFY">Na pr&aacute;tica, tais medidas atingiram sobretudo as comunidades    hindus, em que predominava a nacionalidade indiana. Com efeito, at&eacute; &agrave;    independ&ecirc;ncia da &Iacute;ndia, os indianos n&atilde;o portugueses eram    considerados s&uacute;bditos ingleses e possu&iacute;am documentos comprovativos    dessa condi&ccedil;&atilde;o. A partir da cria&ccedil;&atilde;o da Uni&atilde;o    Indiana e do Paquist&atilde;o, foram pressionados a documentarem-se ou como    indianos ou como paquistaneses. Uma parte importante dos mu&ccedil;ulmanos escolheu    a nacionalidade paquistanesa e a maioria dos hindus a nacionalidade indiana,    muito embora um n&uacute;mero significativo dos seus descendentes, j&aacute;    nascidos em Mo&ccedil;ambique, tenha sido registado como portugueses. Em virtude    da alian&ccedil;a pol&iacute;tica entre o Paquist&atilde;o e Portugal, a maioria    da popula&ccedil;&atilde;o mu&ccedil;ulmana sunita, tal como a ismaelita (protegida    pelas rela&ccedil;&otilde;es existentes entre o seu l&iacute;der Aga Khan e    os governantes portugueses), n&atilde;o foram fustigadas pelas medidas de internamento,    liquida&ccedil;&atilde;o de bens e expuls&atilde;o.      <P ALIGN="JUSTIFY">Pelo contr&aacute;rio, um n&uacute;mero muito significativo    de hindus foi realmente expulso, muito embora importantes firmas hindus de exporta&ccedil;&atilde;o    e importa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o tenham sido encerradas (nomeadamente as    de Haridas Damodar Anandji, Dayaram Gopaldas, K. B. Kakobhai ou Prabusdas Binji).    Por acr&eacute;scimo, entre 1961 e 1963, dezenas de gerentes e subgerentes das    firmas pertencentes &agrave;s elites hindust&acirc;nicas (em Porto Am&eacute;lia,    Quelimane, Nampula, Ant&oacute;nio Enes, Nacala, Louren&ccedil;o Marques, Beira,    etc.) viram esta ordem anulada, em virtude de a sua sa&iacute;da inviabilizar    &quot;o funcionamento de firmas fundamentais para os interesses da prov&iacute;ncia&quot;<SUP><a href="#46">45</a><a name="top46"></a></SUP>.      <P ALIGN="JUSTIFY">A ambival&ecirc;ncia demonstrada pelas autoridades coloniais    portuguesas em rela&ccedil;&atilde;o aos indianos, ora fornecendo-lhes protec&ccedil;&atilde;o    quando da&iacute; retiravam vantagens econ&oacute;micas e at&eacute; pol&iacute;ticas,    ora utilizando-os como bodes expiat&oacute;rios em per&iacute;odos de crise    e de exarceba&ccedil;&atilde;o do nacionalismo, acabou por refor&ccedil;ar nas    comunidades de origem indiana a import&acirc;ncia dos investimentos <I>c&aacute;    </I>e <I>l&aacute;</I>. Tamb&eacute;m por isso, e n&atilde;o obstante politicamente    resguardadas, muitas das empresas familiares incrementaram as suas pr&aacute;ticas    de transnacionalismo a partir dos anos 60, investindo em Goa e no Paquist&atilde;o,    em territ&oacute;rios africanos vizinhos, como o Qu&eacute;nia, a Uni&atilde;o    Sul-Africana, o Tanganica, bem como na Europa, apoiadas, tal como no passado,    por redes de familiares que forneciam informa&ccedil;&otilde;es sobre as melhores    oportunidades de neg&oacute;cio, ou se constitu&iacute;am como intermedi&aacute;rios,    s&oacute;cios ou gerentes locais dos neg&oacute;cios sediados no estrangeiro.    Contudo, ao mesmo tempo que funcionavam como uma precau&ccedil;&atilde;o (face    a um aumento da conflitualidade racial, a conjunturas pol&iacute;ticas desfavor&aacute;veis),    os investimentos transnacionais representavam sempre algum risco, sobretudo    no contexto dos processos de independ&ecirc;ncia e africaniza&ccedil;&atilde;o    que caracterizaram o Leste africano a partir da d&eacute;cada de 60.      <P ALIGN="JUSTIFY">&nbsp;     <p></p> <b>Notas conclusivas</b>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Como sublinha Tololyan, &quot;as di&aacute;sporas t&ecirc;m vindo a ser idealizadas    como comunidades transnacionais exemplares, abertas, porosas, cosmopolitas [&#8230;]    desterritorializadas e, deste modo, capazes de fornecer &#8212; mas n&atilde;o    de impor, como fazem os Estados-na&ccedil;&otilde;es, aos seus cidad&atilde;os/s&uacute;bditos    &#8212; identidades flex&iacute;veis e m&uacute;ltiplas&quot; (2000, p. 112).    Distanciando-nos em parte desta idealiza&ccedil;&atilde;o (e das antinomias    conceptuais que lhe subjazem), procur&aacute;mos analisar as pr&aacute;ticas    transnacionais dos indo-brit&acirc;nicos que se estabeleceram em Mo&ccedil;ambique,    bem como os seus investimentos e estrat&eacute;gias de reterritorializa&ccedil;&atilde;o    enquanto processos estreitamente relacionados. Enfatiz&aacute;mos, em paralelo,    que a compreens&atilde;o de tais processos exige uma articula&ccedil;&atilde;o    sistem&aacute;tica entre as agencialidades e os recursos dos actores migrantes    envolvidos com as pol&iacute;ticas nacionais (e suas varia&ccedil;&otilde;es),    bem como com as pr&oacute;prias circunst&acirc;ncias internacionais. Nem os    actores (apoiados nos seus m&uacute;ltiplos recursos) constroem e reconstroem    autonomamente experi&ecirc;ncias transnacionais nem os Estados e as rela&ccedil;&otilde;es    internacionais produzem automaticamente processos de ressedentariza&ccedil;&atilde;o    ou de transnacionaliza&ccedil;&atilde;o (Waldinger e Fitzgerald, 2004). </p>     <p>Problematizando, sobretudo, a influ&ecirc;ncia da filia&ccedil;&atilde;o religiosa,    da etnicidade e dos recursos de classe quer na reconfigura&ccedil;&atilde;o    das pr&aacute;ticas transnacionais desenvolvidas pelos pioneiros indo-brit&acirc;nicos    em Mo&ccedil;ambique, quer nas suas estrat&eacute;gias de integra&ccedil;&atilde;o    nacional, destac&aacute;mos a exist&ecirc;ncia de uma cultura migrat&oacute;ria    e mercantil pr&eacute;via centrada em certas microlocalidades, a qual atravessava    diferentes comunidades de casta e v&aacute;rias identidades &eacute;tnico-religiosas,    uma cultura caracterizada por uma not&aacute;vel capacidade de circula&ccedil;&atilde;o    (de informa&ccedil;&otilde;es, bens, cr&eacute;ditos, homens e at&eacute;, posteriormente,    mulheres) no interior de redes que combinavam um grau de fechamento (assente    em la&ccedil;os de parentesco, de casta e/ou de comunidade) com uma dose significativa    de abertura inter&eacute;tnica. </p>     <p>Como argument&aacute;mos, foi sobretudo ao n&iacute;vel das rela&ccedil;&otilde;es    inter&eacute;tnicas que os repert&oacute;rios religiosos de orienta&ccedil;&atilde;o    ofereceram recursos indispens&aacute;veis aos processos de reterritorializa&ccedil;&atilde;o,    os quais, por extens&atilde;o, n&atilde;o s&oacute; n&atilde;o funcionaram como    uma tend&ecirc;ncia antag&oacute;nica, como potenciaram as ambi&ccedil;&otilde;es    e op&ccedil;&otilde;es transnacionais dos passengers gujaratis. Com efeito,    ao questionarem a exist&ecirc;ncia de rela&ccedil;&otilde;es de poder estanques    e irrevers&iacute;veis (em particular, as baseadas na cor da pele e no poder    econ&oacute;mico) e condenarem processos de fechamento e de hierarquiza&ccedil;&atilde;o    excessivos, quer o isl&atilde;o indiano, quer o hindu&iacute;smo vividos em    Mo&ccedil;ambique viabilizaram (legitimando tamb&eacute;m no plano religioso)    as m&uacute;ltiplas interac&ccedil;&otilde;es e trocas quotidianas entre indianos    e africanos, indispens&aacute;veis ao neg&oacute;cio da permuta, fonte principal    da prosperidade indiana.<SUP><a href="#47">46</a><a name="top47"></a></SUP>  </p>     <p>De outro &acirc;ngulo, e apesar de a filia&ccedil;&atilde;o religiosa, hindu    ou mu&ccedil;ulmana, n&atilde;o constituir uma influ&ecirc;ncia significativa    na cultura empresarial indiana, a rela&ccedil;&atilde;o diferencial que as autoridades    coloniais portuguesas mantinham com hindus, sunitas e ismaelitas desempenhou    um papel importante nas pr&aacute;ticas de transnacionalismo que se desenvolveram,    em particular, a partir da d&eacute;cada de 60. Embora os sunitas de origem    indiana tenham sido perioridicamente encarados como uma fonte potencial de transmiss&atilde;o    de &quot;ideias subversivas&quot;, a obsess&atilde;o com o suposto nacionalismo    hindu, enquanto &quot;inimigo&quot; do sonho imperial a partir de 1961, confirmou    (sobretudo a estes &uacute;ltimos e aos seus descendentes) a import&acirc;ncia    das conex&otilde;es e dos investimentos multilocais. Neste sentido, a pr&oacute;pria    ambival&ecirc;ncia colonial em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; presen&ccedil;a    indiana acabou por contribuir para a renova&ccedil;&atilde;o de saberes e estrat&eacute;gias    de circula&ccedil;&atilde;o e de relacionamento inter&eacute;tnico que voltariam    a ser cruciais nas decis&otilde;es e nos investimentos p&oacute;s-coloniais    dos indo-mo&ccedil;ambicanos. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp; </p>     <p><strong>Fontes e Bibliografia </strong></p>     <p>Fontes </p>     <p>IANTT, Correspond&ecirc;ncia da comiss&atilde;o coordenadora dos assuntos relativos    a pessoas e bens dos s&uacute;bditos da Uni&atilde;o Indiana &agrave; PIDE.  </p>     <p>Keshavjee, H. V. (1945), <i>The Aga Khan and Africa, His Leadership and Inspiration</i>,    Durban, The Mercantile Printing Works. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Guardian (Louren&ccedil;o Marques), 2 de Outubro de 1946. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><strong>Bibliografia</strong> </p>     <p>Bastos, S. (2005), &quot;Indian transnationalims in colonial and postcolonial    Mozambique&quot;. <i>Migration Vienna Journal of African Studies</i>, 8, pp.    277-306. </p>     <!-- ref --><p>Bastos, S. (2007), &quot;`In Mozambique, we didn't have apartheid'. Identity    constructions on inter-ethnic relations during the third portuguese empire&quot;.    <i>Revista de Estudos Africanos</i>, 9/10, pp. 77-99. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000127&pid=S0003-2573200900010000300001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>Bastos, S., e Bastos, J. (2006), <i>Filhos Diferentes de Deuses Diferentes:    Manejos da Religi&atilde;o e Processos de Inser&ccedil;&atilde;o Social Diferenciada</i>,    Lisboa, ACIME. </p>     <p>Bhabha, H. (1994), <i>Location of Culture</i>, Londres, Routledge. </p>     <p>Carvalho, A. (1999), <i>O Empresariado Isl&acirc;mico em Mo&ccedil;ambique    no Per&iacute;odo P&oacute;s-Colonial 1974-1994</i>. Tese de doutoramento,    Instituto Superior de Economia e Gest&atilde;o. </p>     <p>Clarence-Smith, G. (1989), &quot;Indian business communities in the Western    Indian ocean in the nineteenth century&quot;. <i>Indian Ocean</i>, 2 (4),    pp. 18-21. </p>     <p>Clifford, J. (1994), &quot;Diasporas&quot;. <i>Cultural Anthropology</i>,    9 (3), pp. 302-338 </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Cohen, A. (1981), <i>The Politics of Elite Culture</i>, Berkeley, University    of California Press. </p>     <p>Gosden, C., e Knowles, C. (2001), <i>Collecting Colonialism</i>, Oxford,    Berg. </p>     <p>Gregory, R. G. (1993), <i>South Asians in East Africa. An Economic and Social    History 1890-1980</i>, Boulder, Westview Press. </p>     <p>Jacobsen, K., e Kumar, P. (eds.) (2004), <i>South Asians in the Diaspora,    Histoires and Religious Traditions</i>, Leiden, Brill. </p>     <p>Lal, B. V. (1998), &quot;Understanding the indian indenture experience&quot;.    <i>South Asia</i>, XXI, pp. 215-237. </p>     <p>Lal, B. V. (ed.) (2006), <i>The Encyclopedia of the Indian Diaspora</i>,    Singapura, ed. Didier Millet. </p>     <p>Leite, J. P. (1996), &quot;En torno da presen&ccedil;a indiana em Mo&ccedil;ambique:    s&eacute;culo XX e primeiras d&eacute;cadas da &eacute;poca colonial&quot;.    <i>Comunica&ccedil;&atilde;o ao IV Congresso Luso-Afro-Brasileiro em Ci&ecirc;ncias    Sociais</i> (texto n&atilde;o publicado). </p>     <p>Lima, A. P. de (2003), <i>Grandes Fam&iacute;lias, Grandes Empresas</i>,    Lisboa, Edi&ccedil;&otilde;es D. Quixote. </p>     <p>Markovits, C. (2000), <i>The Global World of Indian Merchants 1750-1947. Traders    of Sind from Bukhara to Panama</i>, Cambridge, Cambridge University Press.  </p>     <p>Morris, H. S. (1968), <i>The Indians in Uganda</i>, Chicago, University of    Chicago Press. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Mulholland, K. (1997), &quot;The family enterprise and business strategies&quot;.    <i>Work, Employment and Society</i>, 11 (4), pp. 685-711. </p>     <p>Oonk, G. (2004), &quot;The changing culture of the hindu lohana community in    East Africa&quot;. <i>Contemporary Asian Studies</i>, 13 (1), pp. 7-23. </p>     <p>Penrad, J.-C. (1988), &quot;La pr&eacute;sence ismailienne en Afrique de l'Est&quot;.    In D. Lombard e J. Aubin (eds.), <i>Marchands et hommes d'affaires asiatiques    dans l'ocean Indique et la mer de Chine</i>, 13e-20e si&egrave;cles, Paris,    &Eacute;ditions de L'EHESS, pp. 221-236. </p>     <p>Phizacklea, A., e Ram, M. (1996), &quot;Being your own boss: ethnic minority    entrepreneurs in comparative perspective&quot;. <i>Work, Employment and Society</i>,    10 (2), pp. 319-339. </p>     <p>Rudner, D. W. (1994), <i>Caste and Capitalism in Colonial India: The Nattukottai    Chettiars</i>, Berkeley, University of California Press. </p>     <p>Salvadori, C. (1989), <i>Through Open Doors. A View of Asian Cultures in Kenya</i>,    Nairobi, Kenway Publications. </p>     <p>Salvadori, C. (1996), <i>We Came in Dhows</i>, 3 vols., Nairobi, Paperchase    Kenya, Ltd. </p>     <p>Schiller, N. G., Basch, L., e Blanc-Szanton, C. (eds.) (1992), <i>Towards    a Transnational Perspective on Migration</i>, Nova Iorque, New York Academy    of Sciences. </p>     <p>Teixeira, L. (2001), &quot;La communaut&eacute; marchande indienne en Zambezie    au debut de l'implantation du syst&egrave;me colonial portugais au Mozambique    (1870-1900)&quot;. <i>Comunica&ccedil;&atilde;o ao Laboratoir MALD &#8212;    Mutations africaines dans la longue dur&eacute;e</i>, CNRS, Paris (texto n&atilde;o    publicado). </p>     <p>Tololyan, K. (2000), &quot;Elites and institutions in the Armenian transnation&quot;.    <i>Diaspora</i>, 9 (1), pp. 107-136. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Turner, J., e Bonachi, E. (1980), &quot;Toward a composite theory of middleman    minorities&quot;. <i>Ethnicity</i>, 7, pp. 144-158. </p>     <p>Vertovec, S. (1999), &quot;Conceiving and researching transnationalism&quot;.    <i>Ethnic and Racial Studies</i>, 22 (2), pp. 447-462 </p>     <p>Vahed, Goolam (2002), &quot;Constructions of community and identity among indians    in colonial Natal 1860-1910&quot;. <i>Journal of African History</i>, 43,    pp. 77-93. </p>     <p>Waldinger, R., e Fitzgerald, D. (2004),&quot;Transnationalism in question&quot;.    <i>American Journal of Sociology</i>, 109 (5), pp. 1117-1195. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Notas</b></p>      <p><SUP><a href="#top2">1</a></SUP><a name="2"></a> O conceito de transnacionalismo    imigrante emergiu nas ci&ecirc;ncias sociais atrav&eacute;s do trabalho <I>Towards    a Transnational Perspective on Migration</I> (1992), de Schiller, Basch e Blanc-Szanton.    Apesar da variedade de perspectivas em que tem vindo a ser utilizado (forma    de &quot;organiza&ccedil;&atilde;o social&quot;, &quot;tipo de consci&ecirc;ncia&quot;,    &quot;modo de produ&ccedil;&atilde;o cultural&quot;, reconstru&ccedil;&atilde;o    da &quot;localidade&quot;, etc.), uma parte significativa dos cientistas sociais    concorda que o conceito de transnacionalismo se refere &agrave;s m&uacute;ltiplas    interacc&ccedil;&otilde;es e trocas que atravessam as fronteiras dos Estados-na&ccedil;&otilde;es,    ligando pessoas e institui&ccedil;&otilde;es (Vertovec, 1999). </p>     <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top3">2</a></SUP><a name="3"></a> Os <I>bhatias</I>    constituem uma casta hindu do Gujarat. No s&eacute;culo XVIII come&ccedil;aram    a deixar Jamnagar e sobretudo o porto de Mandvi, no Kutch, em direcc&ccedil;&atilde;o    a Bombaim para participarem no com&eacute;rcio do oceano &Iacute;ndico. Segundo    Salvadori (1989), foram provavelmente os primeiros comerciantes hindus a estabelecerem-se    (com as respectivas mulheres) em Zanzibar.      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top4">3</a></SUP><a name="4"></a> Existe alguma    evid&ecirc;ncia de que ter&aacute; sido o Pir Sadardin (Sadr-al-Din) quem converteu    muitos comerciantes hindus, de casta <I>lohana</I>, do Sindh e do Gujarat, ao    ismaelismo nizari durante o s&eacute;culo XIV. Ao longo do s&eacute;culo XIX,    os ismaelitas de origem indiana, tamb&eacute;m conhecidos por <I>khojas,</I>    tornaram-se uma das mais poderosas comunidades mercantis do Leste africano.    &Eacute; geralmente reconhecido que a sua expans&atilde;o e sucesso derivaram    de um investimento empresarial no seio de uma comunidade diasp&oacute;rica organizada    orientado por um im&atilde; &quot;presente e vivo&quot;.      ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top5">4</a></SUP><a name="5"></a> O neg&oacute;cio    do <I>cantineiro </I>inclu&iacute;a a aquisi&ccedil;&atilde;o e transporte de    v&aacute;rios tipos de produtos (caju, amendoim, algod&atilde;o, milho, etc.)    cultivados pela popula&ccedil;&atilde;o nativa em direc&ccedil;&atilde;o aos    centros urbanos. Os cantineiros tamb&eacute;m vendiam aos nativos capulanas    (roupas tradicionais) e outros t&ecirc;xteis, bens de primeira necessidade (querosene,    facas, martelos) e o chamado &quot;vinho colonial&quot;, que compravam, tantas    vezes a cr&eacute;dito, aos comerciantes urbanos.      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top6">5</a></SUP><a name="6"></a> Santilal Jatha,    hindu, de casta <I>khania,</I> comerciante, entrevistado em Maputo.      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top7">6</a></SUP><a name="7"></a> Mahendra,    hindu, de casta <I>br&acirc;mane</I>, empres&aacute;rio, entrevistado em Maputo.      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top8">7</a><a name="8"></a></SUP> Zainu Labedin    Rawjee, ismaelita, director da Delta Trading Corporation e s&oacute;cio maiorit&aacute;rio    do ISCTEM (Instituto Superior de Ci&ecirc;ncias do Trabalho e Empresa de Mozambique),    entrevistado em Maputo.      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top9">8</a></SUP><a name="9"></a> Zainu Labedin    Rawjee &#151; v. nota 7.      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top10">9</a><a name="10"></a></SUP> Uma das    mais antigas empresas sediadas em Delagoa Bay, pertencente a dois irm&atilde;os    <I>vania</I> de Diu.      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top11">10</a><a name="11"></a></SUP> Tarun Laxmidas,    hindu, de casta <I>lohana</I>, neto de Popatlal Haribhai, s&oacute;cio da Popatlal    Haribhai &amp; C.&#170;, bem como da Lacxmi Newshy &amp; C.&#170;, entrevistado    em Lisboa e Maputo.      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top12">11</a><a name="12"></a></SUP> Rafik Hajee,    mu&ccedil;ulmano sunita, bisneto de Abdool Rehman Ayob Vakil, fundador da Abdool    Saccor, Abdool Latif and Co.; actualmente, s&oacute;cio gerente da Casa Coimbra,    entrevistado em Maputo.      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top13">12</a></SUP><a name="13"></a> Abdool    Suleman, mu&ccedil;ulmano sunita, bisneto de Abdool Sacoor Ayob Vakil, fundador    da Abdool Saccor, Abdool Latif and Co.; actualmente, s&oacute;cio gerente da    Casa Coimbra, entrevistado em Maputo.      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top14">13</a></SUP><a name="14"></a> Tarun Laxmidas    &#151; v. nota 10.      ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top15">14</a><a name="15"></a></SUP> Atrav&eacute;s    de ajudas materiais a familiares, mas ainda de contribui&ccedil;&otilde;es destinadas    &agrave;s comunidades de casta, ao financiamento de templos e mesquitas, e das    doa&ccedil;&otilde;es &agrave;s localidades sob a forma de hospitais, orfanatos,    etc.      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top16">15</a></SUP><a name="16"></a> Sunderji    Nanji, hindu, de casta <I>lohana,</I> empres&aacute;rio, entrevistado em Lisboa.      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top17">16</a></SUP><a name="17"></a> Jamal,    mu&ccedil;ulmano sunita, empres&aacute;rio reformado, residente em Inglaterra    desde 1992, entrevistado em Leicester e em Lisboa.      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top18">17</a><a name="18"></a></SUP> Tarun Laxmidas    &#151; v. nota 10.      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top19">18</a><a name="19"></a></SUP> Amad, mu&ccedil;ulmano    sunita, contabilista reformado, residente em Inglaterra desde 2002, entrevistado    em Leicester e em Lisboa.      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top20">19</a><a name="20"></a></SUP> Cf. diploma    legislativo n.&#186; 352 de 23 de Julho de 1932.      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top21">20</a></SUP><a name="21"></a> A partir    da segunda metade do s&eacute;culo xix assistimos tamb&eacute;m a um fluxo de    indo-portugueses em direc&ccedil;&atilde;o a Mo&ccedil;ambique, nomeadamente    de hindus oriundos de Diu e de sunitas de Dam&atilde;o. A maioria veio para    trabalhar como pedreiros nas infraestruturas coloniais.      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top23">22</a></SUP><a name="23"></a> Os indo-portugueses    (quer hindus, quer sunitas) mantiveram um contacto mais duradouro com os seus    territ&oacute;rios de origem e o padr&atilde;o de migra&ccedil;&atilde;o masculina,    uma vez que estavam imunes a tais medidas.      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top24">23</a><a name="24"></a></SUP> Literalmente,    &quot;&aacute;guas escuras&quot;; trata-se de uma express&atilde;o muito utilizada    para referir a viagem mar&iacute;tima.      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top25">24</a><a name="25"></a></SUP> Babu &#151;    v. nota 21.      ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top26">25</a><a name="26" id="26"></a></SUP>    Mahendra &#151; v. nota 6.      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top27">26</a></SUP><a name="27"></a> Babu &#151;    v. nota 21.      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top28">27</a><a name="28"></a></SUP> Moshin,    mu&ccedil;ulmano sunita, neto de Aboobbakar Bava, residente em Inglaterra, entrevistado    em Leicester e em Lisboa.      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top29">28</a></SUP><a name="29"></a> Para estes,    o trabalhar por conta pr&oacute;pria numa unidade econ&oacute;mica familiar    independente era concebido como uma alternativa &agrave; experi&ecirc;ncia de    discrimina&ccedil;&atilde;o intra-&eacute;tnica.      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top30">29</a></SUP><a name="30"></a> Kumar Premgi,    hindu, de casta <I>khania,</I> comerciante, entrevistado em Lisboa.      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top31">30</a><a name="31"></a></SUP> Babu &#151;    v. nota 21.      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top32">31</a><a name="32"></a></SUP> <I>Jati</I>    ou <I>gnati</I> s&atilde;o os termos gujaratis para casta.      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top33">32</a></SUP><a name="33"></a> Chagan    Lala, hindu, de casta <I>fudami&aacute;,</I> consultor jur&iacute;dico, residente    em Mo&ccedil;ambique, entrevistado em Maputo.      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top34">33</a><a name="34"></a> </SUP>Latichandra,    hindu, de casta <I>surti,</I> industrial, residente em Mo&ccedil;ambique, entrevistado    na Matola.      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top35">34</a></SUP><a name="35"></a> Jassat,    mu&ccedil;ulmano sunita, advogado, residente em Inglaterra, entrevistado em    Leicester.      ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top36">35</a></SUP><a name="36"></a> Gulamo,    mu&ccedil;ulmano sunita, empres&aacute;rio reformado, entrevistado em Lisboa.      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top37">36</a></SUP><a name="37"></a> Bashir,    mu&ccedil;ulmano sunita, empres&aacute;rio reformado, entrevistado em Lisboa.      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top38">37</a><a name="38"></a></SUP> Laxmi Premgi,    hindu, de casta <I>fudami&aacute;,</I> entrevistada em Lisboa. Trata-se de uma    vers&atilde;o resumida sobre a cria&ccedil;&atilde;o do santu&aacute;rio hindu    de Salamanga em 1908 no Sul de Mo&ccedil;ambique.      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top39">38</a><a name="39"></a></SUP> A hip&oacute;tese    de que tamb&eacute;m os aut&oacute;ctones utilizavam os mesmos pressupostos    ontol&oacute;gicos para desenvolverem estrat&eacute;gias de resist&ecirc;ncia    simb&oacute;lica contra os indianos que se estabeleciam no sert&atilde;o foi    explorada em Bastos (2007).      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top40">39</a><a name="40"></a></SUP> Sithala,    hindu, de casta <I>lohana,</I> propriet&aacute;ria de supermercado, residente    em Mo&ccedil;ambique, entrevistada em Sommerchield e em Maputo.      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top41">40</a><a name="41"></a></SUP> Motiben,    hindu, de casta <I>vanja,</I> comerciante, residente em Inhambane, entrevistada    em Lisboa.      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top42">41</a><a name="42" id="42"></a></SUP>    Kumar, hindu, de casta <I>fudami&aacute;,</I> assalariado da constru&ccedil;&atilde;o    civil, residente em Inglaterra, entrevistado em Alperton.      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top43">42</a></SUP><a name="43"></a> Extracto    do discurso proferido por Jossub Jajee Suleman Ebrahim e Abdool Dada Osman,    l&iacute;deres da comunidade maometana laurentina, perante mais de 150 convidados    ligados a firmas indianas, portuguesas e europeias, e &agrave; pr&oacute;pria    administra&ccedil;&atilde;o colonial (Louren&ccedil;o Marques, <I>Guardian,</I>    2 de Outubro de 1946).      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top44">43</a></SUP> <a name="44"></a>Abdool    Suleman &#151; v. nota 12.      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top45">44</a></SUP><a name="45"></a> Sobrinho    de B. Kakoobhai (conhecido cambista de Louren&ccedil;o Marques), entrevistado    em Lisboa.      ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top46">45</a></SUP><a name="46"></a> Cf. IAN/TT,    Correspond&ecirc;ncia da comiss&atilde;o coordenadora dos assuntos relativos    a pessoas e bens dos s&uacute;bditos da Uni&atilde;o Indiana &agrave; PIDE.      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top47">46</a><a name="47"></a></SUP> Interac&ccedil;&otilde;es    ainda mais intensas, no caso dos mu&ccedil;ulmanos sunitas, que (ao contr&aacute;rio    dos hindus) integravam os seus filhos mistos nas respectivas comunidades e encorajavam    a convers&atilde;o da popula&ccedil;&atilde;o nativa.      <P ALIGN="JUSTIFY">&nbsp;      <p><a href="#top1">*</a><a name="1"></a> Departamento de Antropologia, Faculdade    de Ci&ecirc;ncias Sociais e Humanas, Av. de Berna, 26-C, 1069-061, Lisboa, Portugal.    e-mail: <a href="mailto:sus.bastos@fcsh.unl.pt">sus.bastos@fcsh.unl.pt</a></p>     <p>&nbsp; </p>      ]]></body><back>
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<surname><![CDATA[Bastos]]></surname>
<given-names><![CDATA[S.]]></given-names>
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<article-title xml:lang="en"><![CDATA["`In Mozambique, we didn't have apartheid': Identity constructions on inter-ethnic relations during the third portuguese empire]]></article-title>
<source><![CDATA[Revista de Estudos Africanos]]></source>
<year>2007</year>
<volume>9/10</volume>
<page-range>77-99</page-range></nlm-citation>
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