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<journal-title><![CDATA[Análise Social]]></journal-title>
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<publisher-name><![CDATA[Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa]]></publisher-name>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O lugar do sacrifício: qurbani e circuitos transnacionais entre bangladeshis em Lisboa]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[The place of sacrifice: qurbani and transnational circuits among Bangladeshis in Lisbon]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Instituto Superior da Empresa e do Trabalho (ISCTE) Centro em Rede de Investigação em Antropologia (CRIA) ]]></institution>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[One of the recurring themes in the literature of migration and the South Asian diasporas is the dynamics of religion. The triangular relationship between religion, countries of origin, and host countries is an important field of research. This article seeks to engage with this literature through a case study involving qurbani, a sacrificial ritual which takes place at the end of the pilgrimage to Mecca (the hajj), among Bengali muslims in Lisbon. In the article I argue that in performing this ceremony these migrants (re)produce places and spaces of belonging in a transnational context.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p><b>O lugar do sacrif&iacute;cio: <I>qurbani</I> e circuitos transnacionais    entre bangladeshis em Lisboa</b><a href="#1">**</a><a name="top1"></a>  </p>     <p><b>Jos&eacute; Mapril</b><a href="#2">*</a><a name="top2"></a> </p>     <P ALIGN="JUSTIFY">Na literatura sobre as migra&ccedil;&otilde;es e as di&aacute;sporas    sul-asi&aacute;ticas, um dos temas mais recorrentes prende-se com as din&acirc;micas    religiosas. A rela&ccedil;&atilde;o triangular entre a religi&atilde;o, os pa&iacute;ses    de origem e os pa&iacute;ses onde residem tem sido um importante tema de pesquisa.     <P ALIGN="JUSTIFY">O presente artigo pretende dialogar com esta literatura atrav&eacute;s    de um estudo de caso sobre o <I>qurbani,</I> um ritual sacrificial realizado    aquando do final da peregrina&ccedil;&atilde;o a Meca <I>(hajj),</I> entre mu&ccedil;ulmanos    bengalis em Lisboa. Ao longo do texto argumentarei que a realiza&ccedil;&atilde;o    desta cerim&oacute;nia revela processos de (re)produ&ccedil;&atilde;o de lugares    e espa&ccedil;os de perten&ccedil;a num contexto transnacional.      <P ALIGN="JUSTIFY"><B>Palavras-chave:</B> transnacionalismo; isl&atilde;o; lugar;    bangladeshis; Lisboa     <P ALIGN="JUSTIFY">&nbsp;     <P ALIGN="JUSTIFY"><B>The place of sacrifice: <I>qurbani</I> and transnational    circuits among Bangladeshis in Lisbon</B>      <P ALIGN="JUSTIFY">One of the recurring themes in the literature of migration    and the South Asian diasporas is the dynamics of religion. The triangular relationship    between religion, countries of origin, and host countries is an important field    of research. This article seeks to engage with this literature through a case    study involving <I>qurbani,</I> a sacrificial ritual which takes place at the    end of the pilgrimage to Mecca <I>(the hajj), </I>among Bengali muslims in Lisbon.    In the article I argue that in performing this ceremony these migrants (re)produce    places and spaces of belonging in a transnational context.      <P ALIGN="JUSTIFY"><B>Keywords:</B> Transnationalism; islam; place; Bangladeshis;    Lisbon     <P ALIGN="JUSTIFY">&nbsp;     ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY">Desde meados dos anos 90 que a imigra&ccedil;&atilde;o em Portugal    tem sido marcada pela presen&ccedil;a de fluxos populacionais oriundos de contextos    sem qualquer la&ccedil;o hist&oacute;rico com o pa&iacute;s. Entre muitos outros,    o caso dos bangladeshis &eacute; um exemplo dessa diversifica&ccedil;&atilde;o.    Esta &eacute; uma imigra&ccedil;&atilde;o que se iniciou nos finais dos anos    80 e que actualmente, de acordo com os dados disponibilizados pelo Servi&ccedil;o    de Estrangeiros e Fronteiras, representa perto de 1600 indiv&iacute;duos legalmente    residentes no pa&iacute;s, isto &eacute;, com vistos de resid&ecirc;ncia, vistos    de perman&ecirc;ncia e naturaliza&ccedil;&atilde;o (e que, segundo os dados    do consulado-Geral do Bangladesh, ronda os 4000 indiv&iacute;duos). Como noutros    fluxos migrat&oacute;rios, tamb&eacute;m neste caso, o padr&atilde;o de distribui&ccedil;&atilde;o    geogr&aacute;fica revela uma forte presen&ccedil;a nas cidades do litoral, com    uma sobre representa&ccedil;&atilde;o em Lisboa, mais concretamente na zona    do Martim Moniz e da Mouraria (Mapril, 2007a; Bastos, 2004). Foi com o intuito    de conhecer esta realidade que desenvolvi entre 2003 e 2007 uma pesquisa etnogr&aacute;fica.      <P ALIGN="JUSTIFY">Aquando do primeiro per&iacute;odo de trabalho de campo, mais    concretamente em Fevereiro de 2003, deparei-me com as celebra&ccedil;&otilde;es    da grande festa, ou a festa do sacrif&iacute;cio, tamb&eacute;m conhecida por    <I>qurbani id </I>ou <I>id ul-Adha</I>. Esta ocorre no d&eacute;cimo dia do    &uacute;ltimo m&ecirc;s do calend&aacute;rio lunar isl&acirc;mico &#151; <I>Dhu    `l-Hidjdja</I> &#151; e &eacute; um dos momentos finais da peregrina&ccedil;&atilde;o    a Meca <I>(hajj).</I> Nesta ocasi&atilde;o, e seguindo a tradi&ccedil;&atilde;o    prof&eacute;tica <I>(sunna),</I> os peregrinos no vale de Mina abatem ritualmente    um animal, reproduzindo a hist&oacute;ria sacrificial de Abra&atilde;o (Ibrahim).    Recorde-se que num teste &agrave; sua devo&ccedil;&atilde;o, Deus ter&aacute;    pedido a Ibrahim para sacrificar o seu filho Ismael. No &uacute;ltimo momento,    por&eacute;m, um anjo t&ecirc;-lo-&aacute; substitu&iacute;do por um carneiro    e assim poupado o seu &uacute;nico filho (Brisebarre, 1998; Bonte <I>et al.,</I>    2002). Simultaneamente, outros mu&ccedil;ulmanos espalhados pelo mundo que estejam    em condi&ccedil;&otilde;es (monet&aacute;rias) de realizar o <I>qurbani</I>    juntam-se aos peregrinos na realiza&ccedil;&atilde;o deste acto sacrificial.    <I>Qurbani </I>&eacute; um termo de origem &aacute;rabe usado pelos meus interlocutores    para designar este ritual e cuja etimologia remete para a ideia de aproxima&ccedil;&atilde;o    a Deus e &agrave; <I>umma,</I> a comunidade dos crentes<SUP><a href="#3">1</a><a name="top3" id="top3"></a></SUP>.      <P ALIGN="JUSTIFY">Ainda que estivessem cientes do papel deste ritual nesta celebra&ccedil;&atilde;o,    nenhum dos meus interlocutores realizou o <I>qurbani</I>. Foram &agrave; mesquita    central de Lisboa fazer as ora&ccedil;&otilde;es do <I>id (salat-al-id),</I>    que se realizaram logo pela manh&atilde;, em dois momentos distintos &#151;    o primeiro &agrave;s 8 horas e o segundo &agrave;s 10 &#151;, por causa da grande    aflu&ecirc;ncia normalmente registada. Como a festa ocorreu num dia de semana,    e uma vez que trabalham no centro de Lisboa, a maior parte participou na primeira    ora&ccedil;&atilde;o. Como &eacute; frequente, durante o <I>id ul-Adha,</I>    bem como no <I>id ul-Fitr</I> (a festa do fim do m&ecirc;s do Ramad&atilde;o),<I>    </I>visitaram amigos e familiares. A comensalidade assumiu aqui uma import&acirc;ncia    central e como tal confeccionaram-se diferentes tipos de doces <I>(mishti),</I>    como <I>shamai</I> (um tipo de aletria) e <I>rice pudding,</I> bem como outros    pratos bangladeshis. No entanto, e contrariamente a outros casos que me eram    familiares da literatura antropol&oacute;gica sobre o tema (Brisebarre, 1998;    Dassetto e Hennart, 1998; Quintino, 2004), nenhum dos meus interlocutores fez    o <I>qurbani</I> em Lisboa.      <P ALIGN="JUSTIFY">Quando procurei uma justifica&ccedil;&atilde;o, comecei por    pensar que o facto de se encontrarem num pa&iacute;s de maioria n&atilde;o isl&acirc;mica    pudesse lan&ccedil;ar alguma luz sobre a quest&atilde;o. No entanto, tal hip&oacute;tese    afigurava-se problem&aacute;tica, uma vez que existem outros mu&ccedil;ulmanos    em Portugal que o fazem, como &eacute; o caso dos guineenses (Quintino, 2004).    Decidi ent&atilde;o questionar os meus interlocutores, que me deram duas respostas:    a primeira remetia para o papel dos parentes no Bangladesh na organiza&ccedil;&atilde;o    desta cerim&oacute;nia. Argumentavam que o <I>qurbani</I> era realizado pelos    familiares no Bangladesh, tendo em conta aqueles que est&atilde;o fora, e, como    tal, n&atilde;o precisavam de o fazer em Portugal. Simultaneamente, apresentavam    outra justifica&ccedil;&atilde;o menos evidente: &quot;n&atilde;o existem pobres    em Portugal&quot; &#151; <I>gorib manusch nai</I> &#151; e, portanto, esta pr&aacute;tica    cerimonial n&atilde;o pode aqui ser realizada. Alguns exclamavam, inclusive,    que n&atilde;o podiam pegar numa panela com comida e ir oferec&ecirc;-la para    o Rossio: certamente ningu&eacute;m aceitaria!      <P ALIGN="JUSTIFY">Contudo, dois anos depois, em Janeiro de 2005, um grupo de    bangladeshis, entre os quais estavam algumas das figuras mais proeminentes da    comunidade em termos pol&iacute;ticos e econ&oacute;micos, decidiu fazer o <I>qurbani</I>    em Lisboa, ao mesmo tempo que ajudou a financiar esta cerim&oacute;nia junto    das suas fam&iacute;lias no Bangladesh.      <P ALIGN="JUSTIFY">N&atilde;o posso ent&atilde;o deixar de me perguntar por que    &eacute; que uns passaram a fazer esta cerim&oacute;nia em Portugal, apesar    de contribu&iacute;rem, simultaneamente, para a mesma no Bangladesh e outros    n&atilde;o? O que mudou de 2003 para 2005?      <P ALIGN="JUSTIFY">Este artigo procurar&aacute; dar resposta a estas quest&otilde;es    atrav&eacute;s de um exerc&iacute;cio etnogr&aacute;fico em torno do <I>qurbani</I>    realizado em Lisboa e em Daca, partindo do argumento central de que esta cerim&oacute;nia    &eacute; &quot;boa para pensar&quot;, para usar a express&atilde;o de L&eacute;vi-Strauss,    a (re)produ&ccedil;&atilde;o de lugares de perten&ccedil;a em contextos migrat&oacute;rios    transnacionais.      <P ALIGN="JUSTIFY">Com vista a tal exerc&iacute;cio interpretativo procurarei,    em primeiro lugar, enquadrar esta tem&aacute;tica na literatura, enfatizando    o papel do sacrif&iacute;cio enquanto ritual transnacional. Em seguida, apresentarei    dois exemplos etnogr&aacute;ficos que servem de esteio para a terceira sec&ccedil;&atilde;o    deste texto, na qual estas pr&aacute;ticas cerimoniais s&atilde;o contextualizadas    atrav&eacute;s dos fluxos transnacionais que ligam o Bangladesh e Portugal.    Finalmente, apresentarei algumas reflex&otilde;es finais.      <P ALIGN="JUSTIFY">&nbsp;     <P><b>Circuitos transnacionais<I> </I>e o<I> qurbani</I></b>      ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY">No &acirc;mbito das pesquisas sobre migra&ccedil;&otilde;es,    a religi&atilde;o tem merecido um interesse crescente, nomeadamente no que diz    respeito aos desenvolvimentos te&oacute;ricos em torno daquele que se constitui    como o paradigma dominante: o transnacionalismo. O conceito foi inicialmente    proposto por Nina Schiller, Linda Basch e Cristina Blanc-Szanton num artigo    publicado em 1992, e mais uma vez discutido em 1997, no famoso <I>Nations Unboud</I>.    Para as autoras, o transnacionalismo &eacute; o processo      <P ALIGN="JUSTIFY">pelo qual os imigrantes estabelecem e mant&ecirc;m m&uacute;ltiplas    rela&ccedil;&otilde;es sociais que ligam as sociedades de origem e de acolhimento.    Designamos estes processos por transnacionalismo para enfatizar o facto de muitos    imigrantes constru&iacute;rem campos sociais que atravessam fronteiras geogr&aacute;ficas,    culturais e pol&iacute;ticas [Schiller <I>et al.,</I> 1997, p. 7]<SUP><a href="#4">2</a><a name="top4"></a></SUP>.      <P ALIGN="JUSTIFY">Nesta interpreta&ccedil;&atilde;o, a t&oacute;nica central    &eacute; colocada nos circuitos e articula&ccedil;&otilde;es entre os v&aacute;rios    locais em que as redes sociais dos migrantes est&atilde;o presentes (Kearney,    1986). O intuito &eacute; cartografar os fluxos e as din&acirc;micas sociais,    pol&iacute;ticas e econ&oacute;micas, os chamados <I>espa&ccedil;os sociais    transnacionais</I> (Kyle, 1999)<SUP><a href="#5">3</a><a name="top5"></a></SUP>.    Tal abordagem constituiu-se como um olhar alternativo face &agrave;s &quot;tradicionais&quot;    posturas te&oacute;ricas que procuravam interpretar o impacto das migra&ccedil;&otilde;es    nas &quot;comunidades de origem&quot; ou revelar as estrat&eacute;gias de adapta&ccedil;&atilde;o    dos migrantes nos &quot;contextos de recep&ccedil;&atilde;o&quot; (Kearney,    1986; Brettell, 2000 e 2003).      <P ALIGN="JUSTIFY">Se inicialmente n&atilde;o mereceu uma aten&ccedil;&atilde;o    particular, nos &uacute;ltimos anos a dimens&atilde;o religiosa destes transnacionalismos    migrantes tem sido crescentemente abordada. A organiza&ccedil;&atilde;o e institucionaliza&ccedil;&atilde;o    de igrejas protestantes entre brasileiros nos Estados Unidos da Am&eacute;rica    e as liga&ccedil;&otilde;es que activam com o Brasil (Levitt, 2001 e 2007),    a &iacute;ntima rela&ccedil;&atilde;o que os movimentos transnacionais hindus    estabelecem entre os hindus nas Cara&iacute;bas e na &Iacute;ndia (Vertovec,    2000), a institucionaliza&ccedil;&atilde;o de igrejas &quot;africanas&quot;    e a reprodu&ccedil;&atilde;o de ret&oacute;ricas universalistas que ultrapassam    divis&otilde;es &eacute;tnicas nas cidades alem&atilde;s (Schiller <I>et al.,</I>    2006), portuguesas e angolanas (Sarr&oacute; <I>et al.,</I> 2008; Blanes, 2008)    ou a produ&ccedil;&atilde;o de um culto sufi entre o Paquist&atilde;o e o Reino    Unido (Werbner, 2003) s&atilde;o alguns dos exemplos que ilustram estes tr&acirc;nsitos.      <P ALIGN="JUSTIFY">Outro lado desta dimens&atilde;o religiosa &eacute; a ritualiza&ccedil;&atilde;o    destes espa&ccedil;os transnacionais (Grillo e Gardner, 2002). Matrim&oacute;nios,    funerais, rituais de inicia&ccedil;&atilde;o e outras cerim&oacute;nias associadas    aos ciclos de vida s&atilde;o muitas vezes vividos em simult&acirc;neo entre    o &quot;pa&iacute;s de origem&quot; e o &quot;pa&iacute;s de acolhimento&quot;,    ligando estes espa&ccedil;os em complexos circuitos rituais. O presente artigo    pretende contribuir para esta literatura, mas agora a partir de outro exemplo    etnogr&aacute;fico: o sacrif&iacute;cio.      <P ALIGN="JUSTIFY">Em antropologia, como, ali&aacute;s, mais genericamente nos    estudos religiosos, o sacrif&iacute;cio est&aacute; presente em v&aacute;rios    momentos da hist&oacute;ria da disciplina. Recorde-se que desde Robertson Smith    (1894), passando por Henri Hubert e Marcel Mauss (1899) e terminando em Maurice    Bloch (1992), muitos foram os antrop&oacute;logos que se dedicaram a este tema.    Os seus esfor&ccedil;os incidem sobre um vasto conjunto de rituais, em v&aacute;rios    contextos etnogr&aacute;ficos, que t&ecirc;m sido usados para pensar diversas    dimens&otilde;es do religioso e do ritual. A media&ccedil;&atilde;o entre o    profano e o sagrado (Hubert e Mauss, 1899), a comensalidade como partilha de    subst&acirc;ncias com os deuses (Detienne e Vernant, 1981), as estruturas elementares    das sociedades (de Heusch, 1985), a viol&ecirc;ncia e o sagrado (Girard, 1998)    e a ideia do auto-sacrif&iacute;cio (Bloch, 1992; Cabral, 1997) s&atilde;o apenas    uma pequena selec&ccedil;&atilde;o de um <I>corpus</I> te&oacute;rico assaz    dif&iacute;cil de sumariar.      <P ALIGN="JUSTIFY">Entre os exemplos etnogr&aacute;ficos abordados, o sacrif&iacute;cio,    em contextos isl&acirc;micos e entre mu&ccedil;ulmanos, mereceu n&atilde;o apenas    a aten&ccedil;&atilde;o de muitos destes cl&aacute;ssicos (Robertson Smith,    entre outros), mas tamb&eacute;m de muitos autores contempor&acirc;neos.      <P ALIGN="JUSTIFY">Mais uma vez, o que sobressai desta vasta literatura &eacute;    uma enorme diversidade de pr&aacute;ticas e de discursos que importa real&ccedil;ar.    Diferentes autores, em diversos contextos (Marrocos, Indon&eacute;sia, Turquia,    Eti&oacute;pia, entre muitos outros), t&ecirc;m enfatizado as dimens&otilde;es    teol&oacute;gicas, pol&iacute;ticas, econ&oacute;micas e sociais do sacrif&iacute;cio.    N&atilde;o pretendo recensear todas estas abordagens e muito menos descrever    detalhadamente cada uma delas (exerc&iacute;cio que extravasaria em muito as    p&aacute;ginas de que disponho), mas apenas perceber quais as linhas de pesquisa    e posicionar-me neste debate com uma interpreta&ccedil;&atilde;o que procurar&aacute;    revelar a rela&ccedil;&atilde;o desta cerim&oacute;nia com a produ&ccedil;&atilde;o    de lugares de perten&ccedil;a em contextos migrat&oacute;rios transnacionais.      <P  ALIGN="JUSTIFY">Um dos autores que se dedicaram a uma pesquisa sobre esta cerim&oacute;nia    foi Abdellah Hammoudi (1988) no seu livro <I>La victime et ses masques</I>.    O seu intuito era o de relacionar o sacrif&iacute;cio <I>(tfaska)</I> realizado    durante a &quot;grande festa&quot;, o <I>id-lekbir,</I> e o carnaval que ocorre    durante os dias da festa. Baseando a sua an&aacute;lise nos <I>Ait Mizane</I>,    um grupo berbere das plan&iacute;cies de Marraquexe, argumenta que a celebra&ccedil;&atilde;o    destas duas festas revela (e supera) as inerentes tens&otilde;es na sociedade    em que ocorre: tens&otilde;es entre as normas, refor&ccedil;adas e reveladas    pelo sacrif&iacute;cio (separa&ccedil;&atilde;o de g&eacute;nero e de gera&ccedil;&atilde;o),    e a sua invers&atilde;o atrav&eacute;s da actividade carnavalesca e, portanto,    das m&aacute;scaras.      <P ALIGN="JUSTIFY">Tamb&eacute;m em Marrocos, mas abordando a dimens&atilde;o    pol&iacute;tica, M. E. Combs-Schilling (1989) prop&otilde;e-se analisar a rela&ccedil;&atilde;o    entre a monarquia e o ritual. A autora argumenta que foi atrav&eacute;s do manuseamento    do grande sacrif&iacute;cio, <I>id al-Kabir,</I> juntamente com as celebra&ccedil;&otilde;es    do anivers&aacute;rio do profeta e do seu primeiro casamento, que a monarquia    manteve o seu poder ao longo de cinco s&eacute;culos. Atrav&eacute;s destes    rituais, a monarquia reinventou-se e reformulou-se, mantendo uma identidade    cultural e uma integridade pol&iacute;tica intacta, perante o &quot;assalto    ocidental&quot; &agrave; regi&atilde;o. As inova&ccedil;&otilde;es nas comemora&ccedil;&otilde;es    do anivers&aacute;rio do profeta, nas pr&aacute;ticas associadas aos casamentos    populares e no sacrif&iacute;cio transformaram o monarca na defini&ccedil;&atilde;o    da na&ccedil;&atilde;o, no prot&oacute;tipo do homem, enquanto reprodutor bem    sucedido, e, finalmente, no elemento de media&ccedil;&atilde;o com o transcendente.    Segundo Combs-Schilling, todos estes rituais seriam a garantia de estabilidade    da monarquia marroquina desde a sua funda&ccedil;&atilde;o at&eacute; &agrave;    contemporaneidade.      ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY">Num outro contexto, nomeadamente entre os gayo na Indon&eacute;sia,    John Bowen (1993) real&ccedil;a tamb&eacute;m a dimens&atilde;o pol&iacute;tica    do sacrif&iacute;cio, designado por <I>reraya qurb&euml;n,</I> ou <I>reraya    kul,</I> mas neste caso num sentido mais alargado, ao n&iacute;vel da produ&ccedil;&atilde;o    de ortodoxia e de ortopraxis. A mesma ocasi&atilde;o &eacute; celebrada de formas    distintas por &quot;tradicionalistas&quot;, da aldeia, e &quot;modernistas&quot;,    da cidade. Para os primeiros, o <I>qurb&euml;n</I> &eacute; pensado como uma    transac&ccedil;&atilde;o com vista a adquirir benef&iacute;cios espirituais    para si e para as suas fam&iacute;lias, enquanto para os segundos a mesma cerim&oacute;nia    &eacute; pensada como uma oferta desinteressada, de devo&ccedil;&atilde;o &quot;sincera&quot;:    apenas atrav&eacute;s do sacrif&iacute;cio de um animal em nome de Deus &eacute;    poss&iacute;vel adquirir m&eacute;rito, argumentam os &quot;modernistas&quot;.      <P ALIGN="JUSTIFY">Esta abordagem de Bowen, nomeadamente no que respeita &agrave;s    concep&ccedil;&otilde;es &quot;modernistas&quot; e &quot;urbanas&quot; do isl&atilde;o,    real&ccedil;a outro ponto de vista sobre o grande sacrif&iacute;cio: a sua rela&ccedil;&atilde;o    com a urbanidade. A quest&atilde;o central, para este autor, era perceber se,    em contextos urbanos, as pr&aacute;ticas ditas &quot;tradicionais&quot;, como    o sacrif&iacute;cio, continuariam a ser realizadas.      <P ALIGN="JUSTIFY">Tour&eacute; e Konat&eacute; (1990), Gokalp (1998) e Mahdi    (1998) prop&otilde;em-se analisar esta problem&aacute;tica atrav&eacute;s de    pesquisas realizadas na Costa do Marfim, na Turquia e em Marrocos, respectivamente.    No primeiro caso, e depois de analisado um inqu&eacute;rito &agrave; escala    nacional sobre popula&ccedil;&otilde;es com diversas filia&ccedil;&otilde;es    religiosas em v&aacute;rias cidades na Costa do Marfim, os autores conclu&iacute;ram    que muitos mu&ccedil;ulmanos praticavam o sacrif&iacute;cio como uma forma de    fazer face a problemas relacionados com emprego, sa&uacute;de e sucesso escolar.    A realiza&ccedil;&atilde;o destes sacrif&iacute;cios propiciat&oacute;rios face    aos realizados aquando da grande festa seria um indicador do isl&atilde;o &quot;animista&quot;,    &quot;africano&quot;, para usar as palavras dos pr&oacute;prios, que os mu&ccedil;ulmanos    da Costa do Marfim seguiam.      <P ALIGN="JUSTIFY">Altan Gokalp (1998), por sua vez, revela como esta cerim&oacute;nia,    apesar de vastamente praticada no mundo rural, assume tamb&eacute;m uma import&acirc;ncia    central no espa&ccedil;o urbano. Numa cidade como Istambul realizam-se anualmente    perto de 4 milh&otilde;es de actos sacrificiais, o que, argumenta Gokalp, num    contexto laico e secularizado, como o turco, constitui um laborat&oacute;rio    para pensar o lugar do isl&atilde;o na esfera p&uacute;blica.      <P ALIGN="JUSTIFY">Finalmente, Mohamed Mahdi (1998) questiona se o <I>qurbani</I>    em meio urbano se mant&eacute;m fiel &agrave;s vers&otilde;es normativas ou    se apresenta inova&ccedil;&otilde;es, varia&ccedil;&otilde;es. Articulando as    suas observa&ccedil;&otilde;es em v&aacute;rios contextos, a cidade &eacute;    aqui encarada como um espa&ccedil;o onde a universalidade desta cerim&oacute;nia    convive com um vasto conjunto de diversidades que a tornam simultaneamente una    e m&uacute;ltipla.      <P ALIGN="JUSTIFY">O facto de muitos destes autores trabalharem em contextos multi-confessionais    levou igualmente a uma crescente preocupa&ccedil;&atilde;o e interesse pelas    interpreta&ccedil;&otilde;es do grande sacrif&iacute;cio. Numa pesquisa levada    a cabo no L&iacute;bano, em aldeias multiconfessionais, Kanafani-Zahar (1997    e 2002) mostra como o <I>Adha,</I> o nome localmente dado ao grande sacrif&iacute;cio,    &eacute; um momento de uni&atilde;o entre mu&ccedil;ulmanos (xiitas) e crist&atilde;os.    Mais recentemente, Ficquet (2006) revela como a carne resultante da morte ritual    est&aacute; imbu&iacute;da de f&eacute; e, como tal, contrariamente ao caso    anterior, &eacute; uma forma de produzir fronteiras entre crist&atilde;os e    mu&ccedil;ulmanos na Eti&oacute;pia.      <P ALIGN="JUSTIFY">Assim, o que sobressai de todas estas abordagens &eacute; precisamente    a grande diversidade de perspectivas e interpreta&ccedil;&otilde;es acerca de    uma cerim&oacute;nia que, apesar de realizada para celebrar a mesma ocasi&atilde;o,    o final da <I>hajj,</I> apresenta enormes diferen&ccedil;as em diversos contextos    isl&acirc;micos. Ent&atilde;o, e no Bangladesh?      <P ALIGN="JUSTIFY">Historicamente, o <I>qurbani</I> foi uma cerim&oacute;nia que    assumiu uma import&acirc;ncia central nos movimentos de reivindica&ccedil;&atilde;o    por um estado isl&acirc;mico entre os mu&ccedil;ulmanos no subcontinente indiano.    As pesquisas hist&oacute;ricas levadas a cabo por Anand Yang (1980), Sandria    Freitag (1980), Rafiuddin Ahmed (1988) e Peter van der Veer (1994) apresentam    v&aacute;rios exemplos. Num contexto marcado pela perda de poder face &agrave;s    autoridades coloniais, muitos movimentos reformistas isl&acirc;micos usaram    o <I>qurbani,</I> especialmente o sacrif&iacute;cio da vaca, juntamente com    outras cerim&oacute;nias, como uma forma de reivindicarem uma maior autonomia    e acesso a cargos de poder e instru&ccedil;&atilde;o na regi&atilde;o. Este    sacrif&iacute;cio foi usado pelos revivalistas como uma forma de <I>comunicar    ritualmente uma identidade</I> e construir um nacionalismo religioso atrav&eacute;s    de no&ccedil;&otilde;es reificadas e naturalizadas da <I>umma </I>(van der Veer,    1994).      <P ALIGN="JUSTIFY">Depois da parti&ccedil;&atilde;o da &Iacute;ndia com o Paquist&atilde;o,    o <I>qurbani</I> passou a figurar nas celebra&ccedil;&otilde;es nacionais com    a participa&ccedil;&atilde;o das autoridades centrais, o que ocorre, ali&aacute;s,    ainda hoje no Bangladesh. A grande festa &eacute; uma ocasi&atilde;o usada por    todas as for&ccedil;as pol&iacute;ticas para se dirigirem &agrave; popula&ccedil;&atilde;o,    o que apenas come&ccedil;ou a ocorrer a partir dos anos 80 do s&eacute;culo    xx. Recorde-se que depois da independ&ecirc;ncia, em 1971, o Bangladesh, dentro    da matriz marxista nehruviana que inspirava o pai da na&ccedil;&atilde;o, come&ccedil;ou    por adoptar uma posi&ccedil;&atilde;o de neutralidade face &agrave;s celebra&ccedil;&otilde;es    p&uacute;blicas das principais festas religiosas (mu&ccedil;ulmanas, crist&atilde;s,    hindus ou budistas). Eram celebradas, mas n&atilde;o tinham a import&acirc;ncia    pol&iacute;tica central que hoje apresentam. Por&eacute;m, foi logo no final    dos anos 70, e especialmente em meados dos anos 80, aquando do in&iacute;cio    dos processos de extensa islamiza&ccedil;&atilde;o do Estado e dos aparelhos    pol&iacute;ticos, que o <I>qurbani id</I> passou a assumir uma import&acirc;ncia    central (Huque e Akhter, 1987; Maniruzzaman, 2001).      <P ALIGN="JUSTIFY">Mas a grande festa n&atilde;o &eacute; apenas importante ao    n&iacute;vel da pol&iacute;tica nacional. Esta aponta tamb&eacute;m para aspectos    aparentemente paradoxais, como as rela&ccedil;&otilde;es hier&aacute;rquicas    na sociedade, os ideais de igualdade ou o refor&ccedil;o das formas de organiza&ccedil;&atilde;o    social.      ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY">Jitka Kotalov&aacute; (1993), por exemplo, faz uma excelente    descri&ccedil;&atilde;o etnogr&aacute;fica desta cerim&oacute;nia na aldeia    de Gameranga, na regi&atilde;o de Faridpur. A autora adopta o ponto de vista    da circula&ccedil;&atilde;o e das ofertas da carne resultantes desta cerim&oacute;nia,    argumentando que o <I>qurbani</I> &eacute; um dos elementos que, juntamente    com as ora&ccedil;&otilde;es e os funerais, promovem uma imagem da <I>samaj</I><SUP><a href="#6">4</a><a name="top6"></a></SUP>    enquanto comunidade indivisa. O acto sacrificial e a comensalidade que se segue    demonstram n&atilde;o s&oacute; a liga&ccedil;&atilde;o com Deus, mas tamb&eacute;m    a liga&ccedil;&atilde;o entre os membros da <I>samaj,</I> revelando, atrav&eacute;s    das trocas de carne e da partilha de refei&ccedil;&otilde;es, a igualdade entre    os membros da comunidade de perten&ccedil;a. Ali&aacute;s, semelhante observa&ccedil;&atilde;o    foi feita por John Thorp (1978) na sua etnografia em Daripalla, na regi&atilde;o    de Comilla. Neste contexto ainda, esta igualdade expande-se para al&eacute;m    das pr&oacute;prias fronteiras da &quot;comunidade&quot; atrav&eacute;s das    d&aacute;divas <I>(lilla)</I> aos pobres, da parte dos quais, e contrariamente    aos membros da <I>samaj,</I> n&atilde;o se espera qualquer reciprocidade, mas    sim de Al&aacute;. Desta forma, e de acordo com a leitura de Kotalov&aacute;    (1993), esta ideologia de igualdade expande-se muito para al&eacute;m dos limites    simb&oacute;licos e territoriais da comunidade, refor&ccedil;ando a ideia de    <I>umma,</I> a comunidade dos crentes.      <P ALIGN="JUSTIFY">Simultaneamente, revela a hierarquiza&ccedil;&atilde;o na sociedade    n&atilde;o apenas atrav&eacute;s do animal imolado &#151; matar uma vaca &eacute;    mais dispendioso do que matar uma cabra e representa, portanto, um sinal de    prosperidade (Ellickson, 1972) &#151;, mas tamb&eacute;m atrav&eacute;s das    <I>lillas, </I>as doa&ccedil;&otilde;es aos pobres. Estas representam algo que    se d&aacute; a algu&eacute;m que pouco ou nada possui, mas a forma como s&atilde;o    realizadas, bem como o facto de n&atilde;o se esperar reciprocidade, s&atilde;o    um evidente sinal de uma forte separa&ccedil;&atilde;o entre lugares sociais.      <P ALIGN="JUSTIFY">Mas o que acontece a esta cerim&oacute;nia quando praticada    num contexto migrat&oacute;rio transnacional, como aquele que envolve os meus    interlocutores?      <P ALIGN="JUSTIFY">Numa obra dirigida por Anne-Marie Brisebarre (1998) analisa-se    a realiza&ccedil;&atilde;o desta cerim&oacute;nia em v&aacute;rios pa&iacute;ses    da Europa, entre os quais se encontram a Fran&ccedil;a, a B&eacute;lgica e o    Reino Unido. No primeiro caso, Brisebarre debate as estrat&eacute;gias levadas    a cabo por v&aacute;rias popula&ccedil;&otilde;es mu&ccedil;ulmanas para realizarem    esta cerim&oacute;nia num contexto em que esta &eacute; contestada por v&aacute;rios    actores (organiza&ccedil;&otilde;es de defesa dos animais, agentes sanit&aacute;rios    e autoridades estatais e regionais). A ilegaliza&ccedil;&atilde;o das pr&aacute;ticas,    a &quot;invisibilidade&quot; e a sua institucionaliza&ccedil;&atilde;o numa    regi&atilde;o suburbana de Paris s&atilde;o alguns dos temas abordados. O estudo    de Brisebarre procura ver de que forma os v&aacute;rios mu&ccedil;ulmanos inquiridos    gerem este amb&iacute;guo contexto e as estrat&eacute;gias que desenvolvem para    poderem continuar a realizar esta cerim&oacute;nia em Fran&ccedil;a.      <P ALIGN="JUSTIFY">Outro exemplo chega-nos atrav&eacute;s do texto de Felice Dassetto    e Marie-No&euml;lle Hennart (1998). Neste caso, os autores preocupam-se em compreender    a posi&ccedil;&atilde;o do <I>qurbani</I> no quadro legal belga e quais as pr&aacute;ticas    desenvolvidas pelos sujeitos, real&ccedil;ando a exist&ecirc;ncia de tr&ecirc;s    situa&ccedil;&otilde;es distintas: (<I>i</I>) aqueles que se dirigem aos matadouros    legalmente preparados para esta ocasi&atilde;o &#151; uma minoria; (<I>ii</I>)    aqueles que praticam o sacrif&iacute;cio nas quintas localizadas nas imedia&ccedil;&otilde;es    de Bruxelas, que, nestas ocasi&otilde;es, se transformam em matadouros informais;    (<I>iii</I>) por fim, a larga maioria, que pratica o sacrif&iacute;cio nas pr&oacute;prias    habita&ccedil;&otilde;es.      <P ALIGN="JUSTIFY">Finalmente, na mesma obra, Maamar (1998) desenvolve um exerc&iacute;cio    semelhante ao realizado por Werner Schiffauer (1988) ao procurar comparar a    pr&aacute;tica da cerim&oacute;nia do <I>ayd al-Kabir</I> em dois contextos    distintos: o de uma fam&iacute;lia argelina a residir na aldeia de Ait-Benian    e o de outra fam&iacute;lia que se encontra nos arredores de Paris.      <P ALIGN="JUSTIFY">Nas tr&ecirc;s pesquisas anteriores a t&oacute;nica &eacute;    colocada naquilo que foi designado como o &quot;isl&atilde;o transplantado&quot;    (Dassetto e Bastenier, 1984), ou seja, nas manifesta&ccedil;&otilde;es do isl&atilde;o    depois de ter sido &quot;transportado&quot; pelos sujeitos aquando das suas    experi&ecirc;ncias migrat&oacute;rias. Estes exerc&iacute;cios est&atilde;o    intima mente associados &agrave;quilo a que se poderia chamar uma perspectiva    institucionalista do isl&atilde;o em contextos migrat&oacute;rios, a qual procura    ver de que forma os migrantes adaptam a sua religiosidade aos novos contextos    sociais, pol&iacute;ticos e culturais em que se encontram. Tais exerc&iacute;cios,    no entanto, subentendem uma ruptura com os lugares de origem. Ao n&atilde;o    atribu&iacute;rem visibilidade &agrave;s articula&ccedil;&otilde;es religiosas    com as v&aacute;rias redes de sociabilidade que mant&ecirc;m em diferentes lugares,    assumem que os rituais t&ecirc;m de ser transplantados. Mas ser&aacute; de facto    assim?      <P ALIGN="JUSTIFY">Assumindo, como John Beattie (1980) prop&ocirc;s, que os sacrif&iacute;cios    s&atilde;o uma linguagem e, nessa medida, uma forma de dizer e fazer algo, o    caso dos bangladeshis em Lisboa faz-me pensar que o <I>qurbani</I> pode igualmente    ser visto como uma met&aacute;fora ou um <I>tropo </I>para interpretar as concep&ccedil;&otilde;es    e ideologias acerca do lugar, mais concretamente acerca do territ&oacute;rio    de perten&ccedil;a no contexto das experi&ecirc;ncias migrat&oacute;rias.      <P ALIGN="JUSTIFY">Neste artigo proponho-me realizar um exerc&iacute;cio semelhante    &agrave;quele que Pnina Werbner (1990 e 1998) efectuou em Manchester sobre os    paquistaneses. Atrav&eacute;s de uma etnografia da recita&ccedil;&atilde;o colectiva    do Cor&atilde;o, Werbner revela como os seus interlocutores produzem dois espa&ccedil;os    morais de refer&ecirc;ncia _ o Reino Unido (com as suas novas redes de rela&ccedil;&otilde;es    sociais) e o Paquist&atilde;o (onde se encontra parte das redes familiares e    de amizade). No primeiro &quot;ritualizam-se&quot; os la&ccedil;os sociais constru&iacute;dos    na migra&ccedil;&atilde;o; no segundo &quot;naturaliza-se&quot; o ritual e outras    sociabilidades num outro lugar.      <P ALIGN="JUSTIFY">Inspirando-se nos argumentos de Werbner, este artigo pretende,    pois, perceber de que forma o <I>qurbani</I> se produz transnacionalmente, articulando    o Bangladesh e Portugal. E como essa articula&ccedil;&atilde;o, esta <I>divis&atilde;o    transnacional do espa&ccedil;o ritual,</I> para usar o conceito de Ruba Salih    (2002), revela que existem outras articula&ccedil;&otilde;es entre a &quot;origem&quot;    e o &quot;acolhimento&quot;, para al&eacute;m das remessas em capital e os constantes    contactos atrav&eacute;s do telefone e das viagens. O <I>qurbani</I> &eacute;    uma cerim&oacute;nia que permite pensar nos tr&acirc;nsitos religiosos e no    papel que estes desempenham na (re)produ&ccedil;&atilde;o de lugares de perten&ccedil;a.    Por lugares de perten&ccedil;a refiro-me a espa&ccedil;os cosmeticamente transformados    atrav&eacute;s de idiomas, como a linguagem, a religi&atilde;o, a etnicidade,    o nacionalismo, entre muitos outros, e que, como tal, se tornam social e simbolicamente    <I>pr&oacute;ximos</I> (Sarr&oacute;, 2008).      ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY">Com esta abordagem pretende-se acrescentar outra dimens&atilde;o    de an&aacute;lise &agrave; literatura existente sobre os mu&ccedil;ulmanos e    o isl&atilde;o em Portugal. Esta tem-se debru&ccedil;ado sobre v&aacute;rias    dimens&otilde;es, tais como &quot;o sentido dos &aacute;rabes no nosso sentido&quot;,    para usar as palavras de Cardeira da Silva (2005, p. 781), a (hist&oacute;rica)    islamiza&ccedil;&atilde;o de Beja (Macias, 2005), a institucionaliza&ccedil;&atilde;o    da nova presen&ccedil;a isl&acirc;mica em Portugal (Tiesler, 2000) ou a persist&ecirc;ncia    do imagin&aacute;rio colonial nas representa&ccedil;&otilde;es dos mu&ccedil;ulmanos    em Portugal (Vakil, 2003).      <P ALIGN="JUSTIFY">No conjunto, a literatura existente tem abordado diversas popula&ccedil;&otilde;es    &#151; guineenses, indianos de Mo&ccedil;ambique, bangladeshis, marroquinos,    jovens e mulheres &#151; e correntes religiosas, e os temas centrais incluem    a produ&ccedil;&atilde;o das identidades, a constru&ccedil;&atilde;o de &quot;comunidade&quot;,    as inter-rela&ccedil;&otilde;es entre mu&ccedil;ulmanos com diversas origens    e hist&oacute;rias coloniais, os valores dos jovens e a dial&eacute;ctica entre    diferentes gera&ccedil;&otilde;es migrat&oacute;rias (Keshavjee, 1994; Dias,    2007; Faria, 2007; Tiesler e Cairns, 2007; Abranches 2007; Mapril, 2007b; Bastos    e Bastos, 2007). No entanto, a rela&ccedil;&atilde;o que os migrantes estabelecem    com v&aacute;rios lugares de perten&ccedil;a (e sociabilidades que a&iacute;    se encontram), atrav&eacute;s de determinadas cerim&oacute;nias e rituais, parece    ser uma dimens&atilde;o que n&atilde;o tem merecido um olhar aprofundado. Nesse    sentido, conhecer estas din&acirc;micas e processos &eacute; tamb&eacute;m abordar    outras facetas da nova presen&ccedil;a isl&acirc;mica em Portugal.     <P ALIGN="JUSTIFY">Fa&ccedil;amos ent&atilde;o duas pequenas incurs&otilde;es    etnogr&aacute;ficas a Daca, e depois a Lisboa, para revelar esta rela&ccedil;&atilde;o.      <P ALIGN="JUSTIFY">&nbsp;      <P><I><b>Qurbani</b></I><b> em Daca... </b>     <P ALIGN="JUSTIFY">Entre Janeiro e Fevereiro de 2004 encontrava-me a fazer trabalho    de campo no Bangladesh. Estava a residir em casa de Anwar, em Daca, um dos interlocutores    que tinha conhecido em Lisboa havia mais de um ano. Anwar tinha chegado um m&ecirc;s    antes, no in&iacute;cio de Dezembro. Queria visitar a m&atilde;e e as irm&atilde;s,    que n&atilde;o via h&aacute; mais de cinco anos, a &uacute;ltima vez que tinha    estado no Bangladesh. De acordo com a vontade da m&atilde;e, a viagem deveria    ocorrer aquando do <I>id ul-Fitr, </I>a festa do fim do jejum, no final de Outubro    de 2003; por&eacute;m, Anwar n&atilde;o tinha tido essa possibilidade. Este    tinha sido um per&iacute;odo particularmente problem&aacute;tico, uma vez que    estava a ultimar os pormenores da mudan&ccedil;a de casa da irm&atilde; e dos    sobrinhos. Desde Agosto, altura em tinha comprado a casa, que andava a adiar    sucessivamente as datas da partida, apesar da crescente press&atilde;o da m&atilde;e    e das outras irm&atilde;s. Era preciso come&ccedil;ar a preparar o casamento    do irm&atilde;o mais velho, que estava em Londres, e, portanto, quanto mais    depressa ele fosse melhor.      <P ALIGN="JUSTIFY">A casa de Anwar fica em Mohammadpur, um pouco a sul do parlamento    nacional e, portanto, numa zona relativamente central da capital. Esta &eacute;    uma &aacute;rea residencial composta por estratos sociais interm&eacute;dios    de empres&aacute;rios, funcion&aacute;rios de organiza&ccedil;&otilde;es n&atilde;o    governamentais, funcion&aacute;rios p&uacute;blicos, entre outros.      <P ALIGN="JUSTIFY">O pr&eacute;dio onde a m&atilde;e reside tem tr&ecirc;s pisos    e &eacute; propriedade da fam&iacute;lia. Foi constru&iacute;do por Mansur,    o pai de Anwar (que faleceu em 1986), com o dinheiro que poupou em Inglaterra.    O pr&eacute;dio j&aacute; esteve totalmente ocupado pela fam&iacute;lia, mas    actualmente dois dos andares est&atilde;o arrendados. Desde a sua chegada &#151;    em meados de Dezembro &#151; que percebeu que teria de fazer alguns melhoramentos.    Tudo deveria estar arranjado n&atilde;o s&oacute; por causa do <I>qurbani id,</I>    mas tamb&eacute;m para o casamento do irm&atilde;o, Nazrul. Assim, mandou pintar    todo o pr&eacute;dio por dentro e por fora e comprou novos sof&aacute;s e electrodom&eacute;sticos.      <P ALIGN="JUSTIFY">Enquanto a renova&ccedil;&atilde;o da casa decorria, a festa    do sacrif&iacute;cio aproximava--se e, portanto, come&ccedil;ava a fazer planos    para as celebra&ccedil;&otilde;es. No que dependesse dele, Nazrul, o irm&atilde;o    mais velho, e Hasina, a irm&atilde; mais velha, deveriam estar presentes nas    celebra&ccedil;&otilde;es do <I>id</I>. Infelizmente, Nazrul estava com alguns    problemas no seu trabalho em Londres e era pouco prov&aacute;vel que pudesse    vir; Hasina, por seu turno, n&atilde;o deveria conseguir vir da aldeia de Mandargao,    em Comilla, uma vez que Azan, o marido, pol&iacute;tico local eleito pelas listas    do Bangladesh Nationalist Party, tinha de permanecer na aldeia durante esta    importante ocasi&atilde;o pol&iacute;tica. Para Azan, como, ali&aacute;s, para    os principais representantes pol&iacute;ticos do pa&iacute;s, este evento &eacute;    uma excelente ocasi&atilde;o para se dirigirem &agrave; popula&ccedil;&atilde;o    e transmitirem mensagens pol&iacute;ticas<SUP><a href="#7">5</a></SUP><a name="top7"></a>.    Embora reconhecendo as raz&otilde;es do seu <I>dulabhai</I><SUP></SUP><sup><a href="#8">6</a></sup><a name="top8"></a>,    Anwar n&atilde;o deixou de ficar irritado: se a sua irm&atilde; mais nova n&atilde;o    poderia estar presente porque estava &quot;indocumentada&quot; em Portugal,    os seus irm&atilde;os mais velhos podiam e deveriam estar juntos. A &uacute;ltima    vez que celebraram um <I>id</I> em conjunto tinha sido antes da morte do pai,    em 1986. Se Azan queria ficar na <I>gram</I> (aldeia), que ficasse, mas Hasina,    a irm&atilde; mais velha, poderia certamente passar uns dias em Daca. Quando    visit&aacute;mos a aldeia, uma semana antes, ainda se colocou a hip&oacute;tese    de Hasina vir para a capital, mas &agrave; &uacute;ltima hora os planos alteraram-se    e acab&aacute;mos por partir sem ela. Com Aisha, a irm&atilde; do meio, n&atilde;o    haveria problemas, pois esta vive na capital, em Shukrabad, tamb&eacute;m em    Mohammadpur.      <P ALIGN="JUSTIFY">No dia 2 de Fevereiro, na v&eacute;spera do dia do <I>id,</I>    Anwar quis acompanhar Anis, o seu outro <I>dulabhai</I>, marido de Aisha, na    compra do animal. Este pode ser adquirido em v&aacute;rios mercados existentes    na capital e os animais dispon&iacute;veis v&atilde;o desde a ovelha ou borrego,    passando por vacas ou por camelos importados do Rajast&atilde;o, na &Iacute;ndia.    Os valores envolvidos na compra aumentam na propor&ccedil;&atilde;o do porte    dos animais e, portanto, um camelo &eacute; muito mais caro do que uma ovelha.    O tipo de animal que se sacrifica &eacute; uma afirma&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica    de estatuto e uma demonstra&ccedil;&atilde;o da &quot;riqueza&quot; da casa.    Apesar disso, Anwar tinha como objectivo comprar uma vaca de tamanho m&eacute;dio,    pois n&atilde;o queria ser demasiado ostensivo na demonstra&ccedil;&atilde;o    de riqueza nem gastar muito dinheiro.      ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY">Tais preparativos estavam, no entanto, a deix&aacute;-lo um    pouco nervoso e ansioso. Era a primeira vez que tratava do assunto e precisava,    por isso, do aconselhamento de algu&eacute;m mais experiente. Recorrer a Anis,    o marido da irm&atilde; do meio, era certamente a solu&ccedil;&atilde;o mais    f&aacute;cil e mais &oacute;bvia. Afinal, tem sido com a sua ajuda que tem tratado    de v&aacute;rios assuntos relativos a esta viagem.      <P ALIGN="JUSTIFY">Ainda antes das 8 da manh&atilde;, Anwar, eu, Assan e Mukitur    (os primos paternos que tinham ido para casa de Anwar durante a sua estada)    fomos ter a casa de Anis. Anis, o seu filho mais novo, Bablou, Mutiur e o irm&atilde;o    mais velho (que tinha acabado de chegar do Dubai), sobrinhos paternos de Anis,    juntaram-se a n&oacute;s e fomos em dois minit&aacute;xis para um dos muitos    <I>goru-hut</I> (mercados de animais) espalhados pela cidade. Desde a sexta-feira    anterior que muitos dos habitantes de Daca tinham deixado a capital para se    juntarem &agrave;s fam&iacute;lias nas suas aldeias de origem e as ruas apresentavam,    assim, um calma rara para uma cidade com uma popula&ccedil;&atilde;o de 14 milh&otilde;es    de habitantes. As semanas que antecederam este &uacute;ltimo fim-de-semana foram    de absoluto frenesim consumista. Diz-se que no dia do <I>id</I> se deve usar    uma pe&ccedil;a de roupa nova e, como tal, as pessoas acorrem aos centros comerciais    e aos mercados para comprarem prendas. Depois desta az&aacute;fama, a cidade    respirava uma calma invulgar e foi por isso relativamente f&aacute;cil apanhar    dois t&aacute;xis para nos dirigirmos ao mercado a noroeste da capital.      <P ALIGN="JUSTIFY">Este ficava localizado num arrabalde nas imedia&ccedil;&otilde;es    de Mirpur Road, n&atilde;o muito longe de um aterro de lixos urbanos. A aflu&ecirc;ncia    era consider&aacute;vel, pois est&aacute;vamos na v&eacute;spera da celebra&ccedil;&atilde;o.    Era poss&iacute;vel comprar todo o tipo de animais: desde camelos a pequenas    cabras, passando por impressionantes bois brancos decorados com grinaldas e    flores coloridas feitas de papel brilhante. Havia pequenos vendedores com dois    ou tr&ecirc;s animais, mas tamb&eacute;m grandes comerciantes, com v&aacute;rias    dezenas de cabe&ccedil;as de gado instaladas em estruturas de madeira montadas    para o efeito. Uma vez feita a transac&ccedil;&atilde;o, os animais passavam    para as m&atilde;os dos compradores, que os levavam at&eacute; &agrave; porta    principal, onde pagavam uma autoriza&ccedil;&atilde;o de transporte atrav&eacute;s    da cidade. As pessoas tinham ent&atilde;o de abrir caminho pelo meio da multid&atilde;o,    transportando consigo o animal que haviam comprado.      <P ALIGN="JUSTIFY">Quando cheg&aacute;mos, os pre&ccedil;os estavam muito inflacionados    e Anwar e Anis quiseram esperar para ver se conseguiam fazer um neg&oacute;cio    melhor. Diz a experi&ecirc;ncia que, quanto mais pr&oacute;ximos nos encontramos    do fim do dia, mais baixos se tornam os pre&ccedil;os, porque, no dizer de Anwar,    &quot;ningu&eacute;m quer regressar a casa com os animais e ainda por cima de    m&atilde;os a abanar&quot;. S&oacute; perto das 2 horas da tarde, quando ele,    eu e Bablou j&aacute; est&aacute;vamos exaustos, &eacute; que Anwar decidiu    fazer o neg&oacute;cio. Depois de muito regatear l&aacute; chegou a um acordo    e comprou uma vaca por 16 000 <I>takas</I> (cerca de 220 euros) e, portanto,    decidimos regressar a casa, apesar de Anis querer esperar mais um pouco para    comprar mais barato.      <P ALIGN="JUSTIFY"> Depois de pagar a taxa de transporte &agrave; Dhaka City Corporation,    Mukitur e Assan encarregaram-se de trazer a vaca para casa, enquanto eu e Anwar    regress&aacute;mos a casa de CNG (<I>auto-rickshaws</I> que funcionam com <I>compressed    natural gaz, </I>e da&iacute; a designa&ccedil;&atilde;o, triciclos verdes cobertos    por uma lona com capacidade para tr&ecirc;s passageiros). No caminho perguntei-lhe    se estava contente com a compra. Respondeu-me que sim, mas que esta n&atilde;o    se comparava em nada &agrave;quela que o pai fizera a &uacute;ltima vez que    passaram esta festa todos juntos. &quot;A vaca era enorme e malhada, preta com    grandes manchas brancas. Havia pessoas sentadas &agrave; porta de casa s&oacute;    para a ver&quot;, relembrou. Quando, finalmente, chegaram, guardaram a vaca    na garagem e Anwar foi buscar a m&atilde;e para lhe mostrar o animal. Doente,    com problemas renais, foi a &uacute;nica vez que veio &agrave; rua durante a    minha estada.      <P ALIGN="JUSTIFY">Est&aacute;vamos exaustos e pass&aacute;mos o resto do dia    em frente &agrave; televis&atilde;o, enquanto um canal transmitia, em directo,    as imagens da <I>hajj,</I> a peregrina&ccedil;&atilde;o a Meca, intercaladas    pelas ora&ccedil;&otilde;es recitadas pelo im&atilde; da mesquita de Meca. A    certa altura aproveitei para perguntar a Anwar e aos sobrinhos, Mirza e Syed,    por que &eacute; que as pessoas faziam o <I>qurbani</I>. Quais eram as suas    inten&ccedil;&otilde;es? Depois de falarem entre eles, como se estivessem a    chegar a um acordo sobre a resposta a dar, explicaram-me que ao realizar o <I>qurbani</I>    as pessoas recebem uma <I>reward</I> &#151; referiam-se mais concretamente ao    termo <I>sowab</I>. &Eacute; uma pr&aacute;tica ritual que reverte em m&eacute;rito    para as pessoas que nela participam.      <P ALIGN="JUSTIFY">No dia seguinte, de manh&atilde;, Anwar, Mirza, Syed e Assan    foram &agrave; mesquita em Mohammadpur fazer as ora&ccedil;&otilde;es do <I>id</I>    juntamente com Anis e os restantes membros masculinos da fam&iacute;lia. Acabei    por ficar em casa porque estava exausto. No regresso, Anwar e Mirza passaram    em casa de Anis para assistir &agrave; morte das duas vacas que tinha comprado    na v&eacute;spera, enquanto Syed e Assan regressaram a casa para come&ccedil;ar    a preparar a cerim&oacute;nia. V&aacute;rias facas foram trazidas para o p&aacute;tio    de casa juntamente com uma t&aacute;bua, onde a carne viria a ser cortada mais    tarde, e uma <I>daripalla,</I> uma balan&ccedil;a. Assan, por sua vez, esteve    a lavar o ch&atilde;o da rua em frente &agrave; casa.      <P ALIGN="JUSTIFY">Entretanto, v&aacute;rios vizinhos estavam j&aacute; a realizar    os seus <I>qurbani</I>. Em frente dos v&aacute;rios pr&eacute;dios vizinhos,    na rua, faziam-se sacrif&iacute;cios, uns matando vacas e outros apenas carneiros    e cabras. S&oacute; um animal era morto em frente a cada edif&iacute;cio, o    que quer dizer que apenas os propriet&aacute;rios do edif&iacute;cio o fazem    naquele local. Os locat&aacute;rios realizam a cerim&oacute;nia um pouco ao    lado, ou v&atilde;o faz&ecirc;-la noutros recintos preparados para o efeito    ou em casa de familiares, trazendo a carne para casa j&aacute; ensacada. Um    dos vizinhos ia sacrificar dois bois, mas quase todos sacrificavam vacas, enquanto    apenas um sacrificou uma ovelha. Este &eacute; um espa&ccedil;o exclusivamente    masculino e todos envergam roupas adequadas para a ocasi&atilde;o &#151; <I>punjabis</I>    brancas, frequentemente bordadas a dourado, com um <I>tupi </I>(um chap&eacute;u    de ora&ccedil;&atilde;o).      <P ALIGN="JUSTIFY">Simultaneamente, grupos de pedintes, <I>gorib manusch,</I>    entre os quais mulheres, crian&ccedil;as e idosos, estavam j&aacute; encostados    aos muros dos v&aacute;rios edif&iacute;cios &agrave; espera que a carne fosse    distribu&iacute;da, as <I>lillas</I>.      <P ALIGN="JUSTIFY">Anwar e Mirza chegaram pouco depois e imediatamente come&ccedil;aram    os preparativos para o <I>qurbani</I>. Mais tarde, o sobrinho mais novo, Bablou,    juntou-se a n&oacute;s.      ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY">Para segurar e desossar a vaca contrataram um dos muitos grupos    de homens que nesta altura do ano percorrem as ruas de Daca oferecendo os seus    servi&ccedil;os<SUP><a href="#9">7</a><a name="top9"></a></SUP>. A vaca foi    levada para o meio da rua, mesmo em frente &agrave; porta de casa, deitada com    a cabe&ccedil;a na direc&ccedil;&atilde;o da <I>qibla,</I> Meca, e, depois de    absolutamente im&oacute;vel, Mutiur, que entretanto tinha chegado com Bablou,    imolou-a enquanto recitava a <I>basmallah</I> &#151; <I>bismillah ul rahman    ul rahim</I><SUP><a href="#10">8</a></SUP><a name="top10"></a>.      <P ALIGN="JUSTIFY">Uma vez sangrada, come&ccedil;ou-se por retirar a pele, que    foi guardada e posteriormente oferecida e recolhida pelas autoridades religiosas,    que a vendem aos produtores de artigos de pele &#151; a principal fonte de financiamento    destas institui&ccedil;&otilde;es.      <P ALIGN="JUSTIFY">Desfez-se a pe&ccedil;a e a carne foi disposta num monte &uacute;nico    no p&aacute;tio interior da casa. Syed encarregou-se de a dividir em sete por&ccedil;&otilde;es.    Com a <I>daripalla</I> e as m&atilde;os polvilhadas de farinha, pesou e dividiu    sete por&ccedil;&otilde;es de peso igual. A cada uma das seis frac&ccedil;&otilde;es    foi atribu&iacute;do o nome de um membro da unidade dom&eacute;stica (a m&atilde;e,    as tr&ecirc;s irm&atilde;s e os dois irm&atilde;os) &#151; &quot;assim, todos    recebem <I>sowab</I>&quot;, dizia-me Anwar &#151;, sendo em seguida transportadas    para casa.      <P ALIGN="JUSTIFY">A s&eacute;tima parte foi ent&atilde;o distribu&iacute;da aos    <I>gorib manuch,</I> que se acumulavam no exterior para receber as <I>lillas</I>.    Syed entregava, literalmente, uma m&atilde;o-cheia de carne a cada um dos presentes,    e, quando a carne estava a acabar, o pr&oacute;prio Anwar foi a casa buscar    mais uma travessa, que colocou no monte, que rapidamente diminu&iacute;a. Quando    o &uacute;ltimo <I>gorib</I> saiu, fecharam o port&atilde;o da casa e regressaram    ao interior.      <P ALIGN="JUSTIFY">No intervalo de tempo entre a imola&ccedil;&atilde;o da vaca    e o transporte de toda a carne para o interior da casa, o f&iacute;gado esteve    a ser cozinhado pela m&atilde;e de Anwar e pelo empregado, juntamente com uma    enorme quantidade de <I>rotis</I> (p&atilde;o &quot;indiano&quot;). Este foi    posteriormente consumido por todos n&oacute;s, incluindo os membros da fam&iacute;lia    e os empregados (foi a &uacute;nica vez que todos partilharam uma refei&ccedil;&atilde;o    sentados &agrave; mesma mesa). Entretanto, um dos empregados foi entregar uma    travessa da carne a casa da irm&atilde; de Anwar, em Shukrabad.      <P ALIGN="JUSTIFY">Descans&aacute;mos um pouco e sa&iacute;mos para ir visitar    a irm&atilde;. Mais uma vez estivemos tamb&eacute;m a comer o f&iacute;gado    das duas vacas sacrificadas no in&iacute;cio do dia e alguns doces preparados    para a ocasi&atilde;o.      <P ALIGN="JUSTIFY">Nos dias seguintes fomos comer a casa do irm&atilde;o de Anis    e, posteriormente, a casa dos pais do marido da sobrinha mais nova de Anwar.    A sobrinha e o marido estavam a ter alguns problemas, o que estava a causar    um enorme mal-estar, e, como tal, a irm&atilde; de Anwar pediu-lhe para realizar    uma visita conciliat&oacute;ria.      <P ALIGN="JUSTIFY">&nbsp;      <P><b>&#133; e em Lisboa </b>     <P ALIGN="JUSTIFY">Um ano depois, em Janeiro de 2005, tive o privil&eacute;gio    de acompanhar o <I>qurbani id</I> em Lisboa. Tinha combinado encontrar-me com    Mukitur &agrave; porta da mesquita Baitul Mukarram &#151; montada e gerida por    bangladeshis &#151; em pleno centro da cidade de Lisboa. No dia anterior tinha-me    dito que este ano, e pela primeira vez, iria fazer o <I>qurbani</I>.      ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY">Combin&aacute;mos ir &agrave; segunda ora&ccedil;&atilde;o    do <I>id</I>, a <I>salat-al-id,</I> que teria in&iacute;cio cerca das 10 horas    da manh&atilde; (a primeira tinha ocorrido &agrave;s 8 horas). Como sempre acontece    nesta ocasi&atilde;o, era de esperar uma grande aflu&ecirc;ncia e combin&aacute;mos,    por isso, o encontro &agrave;s 9 e meia para garantir um bom lugar no piso onde    estava o im&atilde; (o l&iacute;der das ora&ccedil;&otilde;es). Chegou ao p&eacute;    de mim acompanhado por Rafael, o filho, e entr&aacute;mos juntos na sala de    ora&ccedil;&otilde;es. Como &eacute; habitual, Mukitur ficou mesmo ao lado da    porta e, portanto, mesmo ao lado do im&atilde;. Este lugar &eacute; normalmente    ocupado pelos primeiros bangladeshis a chegar a Portugal ou por aqueles que    se consideram mais devotos. Separ&aacute;mo-nos para que eu filmasse o serm&atilde;o.    Acabei por ficar junto &agrave; entrada da sala de <I>wuzu,</I> as ablu&ccedil;&otilde;es,    pois n&atilde;o havia espa&ccedil;o em mais lado nenhum. Os tr&ecirc;s andares    da mesquita estavam lotados.      <P ALIGN="JUSTIFY">O serm&atilde;o descrevia a hist&oacute;ria de Ibrahim. Segundo    Kari, o im&atilde;<I>,</I> Ibrahim teria sonhado com Al&aacute; e este ter-lhe-ia    pedido para sacrificar o que mais amasse, em sinal de devo&ccedil;&atilde;o.    Durante dias teve o mesmo sonho, at&eacute; que, atormentado, falou com Ismael,    o seu filho, explicando-lhe a situa&ccedil;&atilde;o; afinal, era ele quem mais    amava. Ismael compreendeu e disp&ocirc;s-se a ser sacrificado em nome do pai.    Perante o sofrimento resignado da m&atilde;e, e no momento em que Ibrahim estava    prestes a imolar o filho, Al&aacute;<I> </I>substituiu-o por um cordeiro.      <P ALIGN="JUSTIFY">Esta hist&oacute;ria serviu de pretexto a Kari para relembrar    a import&acirc;ncia da realiza&ccedil;&atilde;o do <I>qurbani,</I> em particular    por todos aqueles com possibilidades financeiras, apesar de viverem em Portugal.    Seguiu-se a ora&ccedil;&atilde;o. Trinta minutos ap&oacute;s o in&iacute;cio    da cerim&oacute;nia toda a congrega&ccedil;&atilde;o estava na rua. Envergando    <I>punjabis,</I> <I>tupis</I> e outras roupas pr&oacute;prias para a ocasi&atilde;o,    as pessoas cumprimentavam-se e desejavam um dia feliz (<I>id mubarak</I>). A    confus&atilde;o era imensa, mas pouco depois as pessoas dispersaram para fazerem    as habituais visitas a casa de amigos e familiares.      <P ALIGN="JUSTIFY">Eu, Mukitur e o filho fomos a casa de um conhecido comum (Faisal),    na Rua das Olarias, onde, juntamente com a esposa e o irm&atilde;o, Faisal tinha    estado a preparar alguns pratos bengalis. T&iacute;nhamos sido convidados para    comer <I>chowtpuri,</I> uma salada de gr&atilde;o com cebola, malaguetas, ovo    cozido e molho de tamarindo, que raramente &eacute; confeccionada em Portugal    e que no Bangladesh &eacute; comummente vendida na rua. &quot;At&eacute; parece    o Bangladesh&quot;, dizia Mukitur.      <P ALIGN="JUSTIFY">Pouco depois encontr&aacute;mo-nos com outros pioneiros em    frente ao centro Comercial Martim Moniz para nos dirigirmos ao matadouro. No    meu carro veio Fazlur, que entretanto se tinha juntado a n&oacute;s, Mukitur,    Faisal e os filhos de ambos; nos outros dois carros seguiam os restantes. Nos    dias anteriores tinham encomendado uma vaca num matadouro nos arredores de Lisboa,    lugar onde se encontra tamb&eacute;m um ferro-velho. Quando cheg&aacute;mos,    outros mu&ccedil;ulmanos, alguns dos quais guineenses, estavam a terminar a    divis&atilde;o da carne de outro animal que tinha sido imolado. A carne era    colocada em sacos pretos de pl&aacute;stico (normalmente usados para recolher    lixo) para depois ser transportada. Enquanto esperavam, Rashid, Baboul e os    restantes foram ao curral ver o animal encomendado, aproveitando para o mostrar    aos filhos. Registava tudo isto com a ajuda da m&aacute;quina de filmar quando    Mukitur afirmou: &quot;Grava, grava, e depois faz-me um DVD! Quero mostrar &agrave;    minha m&atilde;e [no Bangladesh].&quot;      <P ALIGN="JUSTIFY">Pouco depois, o dono do matadouro/ferro-velho foi busc&aacute;-lo    e prendeu-o &agrave;s grades no interior do barrac&atilde;o. A vaca foi ent&atilde;o    deitada e devidamente atada para que ficasse im&oacute;vel. Nesta altura, Mukitur    e os restantes despiram os casacos, arrega&ccedil;aram as mangas das camisas    e foram para a zona onde a imola&ccedil;&atilde;o iria ter lugar. A principal    preocupa&ccedil;&atilde;o era impedir movimentos imprevistos. Naquela zona encontravam-se    apenas o filho do propriet&aacute;rio e os bangladeshis que estavam a fazer    a cerim&oacute;nia. Eu, Fazlur e os filhos fic&aacute;mos atr&aacute;s do balc&atilde;o    que separava as zonas, enquanto se iam juntando outras pessoas com o objectivo    de realizarem a mesma celebra&ccedil;&atilde;o.      <P ALIGN="JUSTIFY">Quando todos estavam a postos, Kamal, a quem tinha sido pedido    para imolar a v&iacute;tima sacrificial, porque h&aacute; dezassete anos que    estudava o isl&atilde;o &#151; primeiro numa madrassa, depois na universidade    em Chittagong e mais tarde na Ar&aacute;bia Saudita, onde viveu nove anos &#151;,    sussurrou os nomes das pessoas que faziam aquela &quot;oferta&quot; (anteriormente    escritos numa folha de papel), recitou uma <I>du'a,</I> uma s&uacute;plica,    seguida da <I>basmallah</I> &#151; <I>bismillah</I> <I>ul rahman ul rahim</I>    &#151;, e, por fim, imolou a v&iacute;tima. A cabe&ccedil;a foi colocada de    forma a salientar a veia jugular, que foi cortada atrav&eacute;s de um golpe    vigoroso. O sangue escorria abundantemente em direc&ccedil;&atilde;o ao ralo.      <P ALIGN="JUSTIFY">Inicialmente foi necess&aacute;rio segurar a v&iacute;tima,    pois esbo&ccedil;ava alguns movimentos bruscos, mas, passados poucos minutos,    os espasmos tornaram-se cada vez mais espa&ccedil;ados, at&eacute; cessarem    completamente. Estava sangrada.      <P ALIGN="JUSTIFY">O ambiente na audi&ecirc;ncia come&ccedil;ou por ser de excita&ccedil;&atilde;o    e entusiasmo para depois se tornar tenso e, &agrave; medida que a v&iacute;tima    ficava im&oacute;vel, se desanuviar. Nesta altura, os meus interlocutores largaram    a vaca e dirigiram-se para o exterior para serenar os &acirc;nimos e comentar    a ac&ccedil;&atilde;o.      <P ALIGN="JUSTIFY">No interior, a v&iacute;tima era erguida numa estrutura por    meio de correntes para se lhe retirar a pele e ser devidamente desossada. Em    seguida, Chowdury, Aktar e Faisal distribu&iacute;ram a carne por v&aacute;rios    sacos. A divis&atilde;o era criteriosa, pois queriam que a carne ficasse igualmente    repartida entre todos: nem muita carne gordurosa, nem muitos intestinos, mas    um pouco de tudo.      ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY">Aproveitei ent&atilde;o, num momento prop&iacute;cio, para    conversar com Rashid. Disse-me que estava a fazer o <I>qurbani</I> aqui, mas    que n&atilde;o tinha deixado de mandar dinheiro para o irm&atilde;o, em Daca,    e para o tio paterno (<I>chacha, </I>ou<I> kaka</I>), em Noakhali, a sua regi&atilde;o    de origem, para ajudar a pagar as despesas do <I>qurbani</I>. Este <I>qurbani</I>    era em nome da esposa porque ela n&atilde;o tinha ningu&eacute;m que o fizesse    por ela no Bangladesh, j&aacute; que, a seguir ao casamento, se tinha transferido    da unidade dom&eacute;stica dos pais, em Daca, para a do marido, em Lisboa.      <P ALIGN="JUSTIFY">Uma vez dividida entre todos, a carne crua foi parcialmente    distribu&iacute;da ao longo do dia entre as redes de rela&ccedil;&otilde;es    das v&aacute;rias fam&iacute;lias em v&aacute;rias partes de Lisboa (Pra&ccedil;a    do Chile, Mouraria, Martim Moniz, etc.). Em troca recebiam doces, <I>shinni,</I>    e pratos confeccionados. Seria uma humilha&ccedil;&atilde;o receber sem dar    algo em troca.      <P ALIGN="JUSTIFY">A parte destinada ao consumo pr&oacute;prio e &agrave; partilha    com convidados nas horas e nos dias seguintes foi imediatamente confeccionada    em caril para que fosse oferecida &agrave;s visitas. N&atilde;o houve lugar    &agrave; distribui&ccedil;&atilde;o de <I>lillas,</I> caridade, e portanto uma    ter&ccedil;a parte da carne n&atilde;o foi distribu&iacute;da pelos mais pobres    <I>(ghorib manuch).</I> As fam&iacute;lias no Bangladesh davam as <I>lillas</I>    por eles, argumentou Mukitur, e, al&eacute;m disso, &quot;n&atilde;o h&aacute;    pobres em Portugal&quot; <I>(ghorib manuch nai).</I>      <P ALIGN="JUSTIFY">&nbsp;      <P><b>O sacrif&iacute;cio e a (re)produ&ccedil;&atilde;o de lugares de perten&ccedil;a</b>      <P ALIGN="JUSTIFY">Os exemplos etnogr&aacute;ficos anteriores revelam a rela&ccedil;&atilde;o    intr&iacute;nseca entre lugares de perten&ccedil;a, migra&ccedil;&otilde;es    e o sacrif&iacute;cio, o <I>qurbani</I>. Este &eacute; um idioma atrav&eacute;s    do qual se reproduzem redes de rela&ccedil;&otilde;es sociais e sociabilidades    que se mant&ecirc;m no pa&iacute;s de origem e, como tal, onde a &quot;origem&quot;    continua a ser reproduzida enquanto espa&ccedil;o simb&oacute;lica, econ&oacute;mica    e politicamente relevante.      <P ALIGN="JUSTIFY">Simultaneamente, a celebra&ccedil;&atilde;o do <I>qurbani</I>    em Lisboa revela a produ&ccedil;&atilde;o de novos espa&ccedil;os de perten&ccedil;a,    especialmente no contexto de projectos e trajectos migrat&oacute;rios bem sucedidos.      <P ALIGN="JUSTIFY">No caso da realiza&ccedil;&atilde;o do sacrif&iacute;cio em    Daca, o que parece estar em causa &eacute; o elo emocional e identit&aacute;rio    que existe entre pessoas que partilham ou partilharam a mesma casa; &eacute;    uma celebra&ccedil;&atilde;o do passado e a reinven&ccedil;&atilde;o da unidade    dom&eacute;stica como uma fonte de identidade. &Eacute; a manifesta&ccedil;&atilde;o    simb&oacute;lica da rela&ccedil;&atilde;o continuamente mantida e fomentada    atrav&eacute;s de circuitos de bens tang&iacute;veis e intang&iacute;veis entre    Portugal e o Bangladesh. A maioria continua dependente do pa&iacute;s de origem    para ter &ecirc;xito em Portugal e, nessa medida, a manuten&ccedil;&atilde;o    destes la&ccedil;os &eacute; indispens&aacute;vel.      <P ALIGN="JUSTIFY">O contacto com o Bangladesh &eacute; permanente e faz-se de    v&aacute;rias formas. Os telefonemas, di&aacute;rios ou semanais, a Internet,    o fax e as viagens sazonais s&atilde;o os exemplos principais. Estas visitas    assumem uma tal import&acirc;ncia que exigem meses de prepara&ccedil;&atilde;o    e chegam a ser sucessivamente adiadas por ainda n&atilde;o se ter reunido o    capital suficiente para o efeito. Regressar ao Bangladesh &eacute; uma ocasi&atilde;o    que implica uma demonstra&ccedil;&atilde;o de &ecirc;xito e isso s&oacute; &eacute;    poss&iacute;vel atrav&eacute;s da poupan&ccedil;a ao longo de meses e anos.    Meses antes cobram-se e contraem-se d&iacute;vidas com o intuito de oferecer    presentes, gastar conspicuamente em compras para toda a fam&iacute;lia, emprestar    dinheiro a amigos e a familiares, viajar pelo pa&iacute;s, renovar as casas    ou comprar propriedades. N&atilde;o o fazer &eacute; <I>sharam,</I> algo vergonhoso,    pois demonstra que n&atilde;o se foi bem sucedido quando outros, em circunst&acirc;ncias    id&ecirc;nticas, o foram. Todos conhecem algu&eacute;m que emigrou e que enriqueceu,    o que, ali&aacute;s, &eacute; vis&iacute;vel no estere&oacute;tipo do pr&oacute;prio    <I>probashi</I> (emigrante, em bengali) como algu&eacute;m &quot;moderno&quot;,    sofisticado e rico (Mapril, 2008). Num tal contexto, regressar ao Bangladesh    &quot;sem dinheiro no bolso&quot; &eacute; um evidente sinal de fracasso. N&atilde;o    constitui, pois, motivo de espanto que alguns passem anos sem visitar as suas    fam&iacute;lias porque entre as quantias de dinheiro que enviam e as despesas    que t&ecirc;m em Lisboa n&atilde;o conseguem reunir o capital desej&aacute;vel.    De acordo com alguns dos meus interlocutores, s&atilde;o necess&aacute;rios,    no m&iacute;nimo, cinco a seis mil euros, para al&eacute;m do pr&oacute;prio    bilhete de avi&atilde;o (no m&iacute;nimo, 600 euros), para realizar esta viagem.      <P ALIGN="JUSTIFY">Estas viagens n&atilde;o beneficiam apenas aqueles que as realizam,    mas tamb&eacute;m todos aqueles que por diversos motivos n&atilde;o conseguem    ou n&atilde;o as podem fazer. Quando desenvolvi o trabalho de campo, nem todos    os bangladeshis estavam na mesma posi&ccedil;&atilde;o face &agrave;s viagens.    Quem j&aacute; tinha determinado tipo de documentos &#151; passaportes, vistos    de resid&ecirc;ncia, etc. &#151; viajava anualmente e por vezes em diversas    ocasi&otilde;es. Estas viagens eram amplamente publicitadas e quem n&atilde;o    informava os demais era acusado de falta de preocupa&ccedil;&atilde;o pelos    seus compatriotas e pelas circunst&acirc;ncias adversas que alguns atravessavam.    Tais acusa&ccedil;&otilde;es prendiam-se, obviamente, com o papel de intermedi&aacute;rios    que estes exerciam no estabelecimento de pontes mais tang&iacute;veis com os    membros das unidades dom&eacute;sticas daqueles que, por um motivo ou por outro,    n&atilde;o tinham essa possibilidade.      ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY">Estas redes de transporte de recursos t&ecirc;m por vezes uma    base regional e, assim, quando regressam ao Bangladesh, &eacute; muito frequente    que transportem consigo ofertas dos seus conterr&acirc;neos para os parentes.    Por vezes, a entrega de bens tem lugar no pr&oacute;prio aeroporto internacional.      <P ALIGN="JUSTIFY">Estas viagens s&atilde;o, portanto, e juntamente com a Western    Union, um meio atrav&eacute;s do qual &eacute; poss&iacute;vel enviar remessas    regularmente. Embora argumentem que, na realidade, os familiares n&atilde;o    necessitam deste dinheiro, os meus interlocutores enviam estas <I>bideshi</I>    <I>takas</I> (Garbin, 2004), literalmente dinheiro estrangeiro, porque consideram    que &eacute; sua obriga&ccedil;&atilde;o contribu&iacute;rem para a manuten&ccedil;&atilde;o    da casa donde s&atilde;o oriundos. Para al&eacute;m de um acto altru&iacute;sta,    procuram tamb&eacute;m corresponder &agrave; expectativa daqueles que ficam    no Bangladesh. Estes esperam, independentemente da necessidade, que aqueles    que est&atilde;o em <I>bidesh</I> partilhem a sua prosperidade com os restantes.    Relembrando as imagens do <I>eldorado,</I> a Europa &eacute; vista como um espa&ccedil;o    de abund&acirc;ncia, onde as ruas n&atilde;o t&ecirc;m lama e est&atilde;o cobertas    de dinheiro, um local de enriquecimento para os que para a&iacute; emigram.    Perante tal perspectiva, quem fica no Bangladesh espera que essa riqueza seja    partilhada. Na maior parte dos casos enviam-se pequenas quantias de dinheiro    (100 a 200 euros), frequentemente em euros, que s&atilde;o posteriormente trocados    nos mercados informais, onde as taxas cambiais s&atilde;o mais favor&aacute;veis    (o que desde logo constitui uma vantagem face aos meios formais de canaliza&ccedil;&atilde;o    de remessas, como a Western Union, por exemplo). Estas remessas em dinheiro    s&atilde;o frequentemente usadas para suportar as despesas com a educa&ccedil;&atilde;o    dos irm&atilde;os mais novos, para comprar novas propriedades, para montar neg&oacute;cios,    para comprar e arrendar novas casas ou para construir casas de raiz e fazem    parte, portanto, de um processo de manuten&ccedil;&atilde;o e/ou de ascens&atilde;o    social.      <P ALIGN="JUSTIFY">Mas estas remessas n&atilde;o incluem apenas capital econ&oacute;mico.    Rel&oacute;gios, cosm&eacute;ticos, perfumes, computadores port&aacute;teis,    consolas, pe&ccedil;as de roupa, brinquedos, s&atilde;o alguns dos bens enviados.    Muitos j&aacute; existem no Bangladesh; no entanto, acredita-se que esses mesmos    produtos, quando oriundos da Europa, s&atilde;o mais prestigiantes e de melhor    qualidade do que um bem igual comprado no centro comercial local ou nos mercados    centrais (situa&ccedil;&atilde;o, ali&aacute;s, que se verifica tamb&eacute;m    noutros contextos migrat&oacute;rios).      <P ALIGN="JUSTIFY">Outros bens enviados atrav&eacute;s destas viagens incluem    cartas pessoais, fotografias e DVD. Estes continham fotografias de muitos dos    meus interlocutores tiradas em passeios por zonas consideradas particularmente    bonitas ou &quot;modernas&quot;, nas casas compradas ou arrendadas e em ocasi&otilde;es    festivas.     <P ALIGN="JUSTIFY"><b>Mas qual a rela&ccedil;&atilde;o entre estas viagens    e o <I>qurbani?</I> </b>     <P ALIGN="JUSTIFY">Os bangladeshis viajam durante todo o ano para o Bangladesh.    Contudo, no per&iacute;odo em que fiz trabalho de campo, estas viagens ocorriam    com maior frequ&ecirc;ncia a seguir ao final do ano. Esta era uma altura de    rescaldo da &eacute;poca natal&iacute;cia e, como tal, um momento adequado para    passar, no m&iacute;nimo, um m&ecirc;s no Bangladesh. Simultaneamente, muitas    destas viagens coincidiam com a festa do sacrif&iacute;cio. Nessa medida, financiar    ou ajudar a financiar tal ocasi&atilde;o constitu&iacute;a mais um elemento    de afirma&ccedil;&atilde;o de &ecirc;xito, para al&eacute;m de ser tamb&eacute;m    um momento de consumo desregrado.      <P ALIGN="JUSTIFY">Assim, a realiza&ccedil;&atilde;o desta cerim&oacute;nia no    pa&iacute;s de origem parece remeter, juntamente com o envio de remessas, para    a (re)produ&ccedil;&atilde;o de um sentido de perten&ccedil;a a um espa&ccedil;o    considerado pr&oacute;ximo e familiar (James, 2003; Sarr&oacute;, 2008), mais    concretamente uma forma de (re)produzir sociabilidades ao n&iacute;vel da pr&oacute;pria    unidade dom&eacute;stica.      <P ALIGN="JUSTIFY">Recorde-se que a unidade dom&eacute;stica, a <I>bari</I><SUP><a href="#11">9</a></SUP><a name="top11"></a>,    surge em quase todos estes casos como o destinat&aacute;rio final da maior parte    destes bens tang&iacute;veis e intang&iacute;veis. &Eacute; que, em todo este    processo migrat&oacute;rio, a unidade dom&eacute;stica donde se parte tem um    papel essencial enquanto estrutura de suporte e apoio. Para al&eacute;m da organiza&ccedil;&atilde;o    dos matrim&oacute;nios, que abordaremos &agrave; frente, &eacute; junto dos    membros da unidade dom&eacute;stica, frequentemente dos pais, que se contraem    empr&eacute;stimos para conseguir chegar &agrave; Europa. Esta mobiliza&ccedil;&atilde;o    e investimento s&atilde;o igualmente vis&iacute;veis no pr&oacute;prio financiamento    de neg&oacute;cios na Europa atrav&eacute;s da venda de propriedades e empr&eacute;stimos    (Mapril, 2008).      <P ALIGN="JUSTIFY">Se concordarmos com Roger Ballard (1994) quando argumenta que    a emigra&ccedil;&atilde;o &eacute; antes de mais uma actividade empresarial,    ent&atilde;o certamente que se espera que ela tenha algum retorno face aos restantes    membros da unidade dom&eacute;stica. Estas visitas, as remessas e o patroc&iacute;nio    de rituais pelos <I>probashi</I> s&atilde;o exactamente esses retornos. Eles    expressam uma ideologia da casa como um conjunto de pessoas que partilham uma    unidade dom&eacute;stica, cujos membros partilham um sentido de co-responsabilidade    (Gardner, 1995; Khanum, 2001). Como um dos meus interlocutores dizia: &quot;[...]    estou constantemente a pensar naquilo que os meus irm&atilde;os e os meus pais    est&atilde;o a fazer, se est&atilde;o bem, se precisam de alguma coisa.&quot;    A isto acrescentaria a no&ccedil;&atilde;o da <I>bari</I> como um espa&ccedil;o,    f&iacute;sico e simb&oacute;lico, onde a identidade do grupo, a <I>identidade    prim&aacute;ria,</I> como definida por Pina Cabral (2003), &eacute; criada e    reproduzida n&atilde;o s&oacute; no quotidiano, mas tamb&eacute;m em momentos    cerimoniais espec&iacute;ficos, como o <I>qurbani</I> (Jansen, 1987; Mamoon,    1993; Gardner, 1995).      <P ALIGN="JUSTIFY">Como ocorre entre os sylhetis no Reino Unido (Gardner, 1995),    tamb&eacute;m entre os bangladeshis em Lisboa n&atilde;o existe uma ruptura    entre o pa&iacute;s de acolhimento e o pa&iacute;s de origem. Ambos s&atilde;o    percepcionados como um <I>continuum</I> que leva &agrave; manuten&ccedil;&atilde;o    de contactos econ&oacute;micos, pol&iacute;ticos e religiosos regulares. Neste    contexto migrat&oacute;rio, os la&ccedil;os sociais da <I>bari</I> parecem sair    refor&ccedil;ados e recriados atrav&eacute;s do fluxo de recursos materiais    e simb&oacute;licos entre Portugal e o Bangladesh, mas tamb&eacute;m em ocasi&otilde;es    como o <I>qurbani id</I>.      ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY">Mas ser&aacute; ent&atilde;o que o local de resid&ecirc;ncia    deixa de ser, em alguma ocasi&atilde;o, apenas isso e se aproxima de algo como    uma outra casa, entendida aqui num sentido filos&oacute;fico mais vasto? Como    Avtar Brah (1996) perguntava, quando &eacute; que o local de resid&ecirc;ncia    se torna <I>home?</I> Quando &eacute; que um lugar se torna familiar?      <P ALIGN="JUSTIFY">Para obter uma resposta sugiro que comecemos por fazer uma    pequena lista com apenas dois crit&eacute;rios &#151; a data de chegada a Portugal    e os familiares que aqui se encontram &#151;, relativos &agrave;s pessoas que    participaram no <I>qurbani</I> no segundo epis&oacute;dio etnogr&aacute;fico.    O resultado &eacute; o seguinte:      <P ALIGN="JUSTIFY">      <P ALIGN="JUSTIFY">Baboul &#151; 1996 &#151; esposa e tr&ecirc;s filhos;      <P ALIGN="JUSTIFY">Rashid &#151; 1991 &#151; esposa, um filho e o irm&atilde;o;      <P ALIGN="JUSTIFY">Aktar &#151; 1996 &#151; esposa, tr&ecirc;s filhos (dois rapazes    e uma rapariga) e o irm&atilde;o dela;      <P ALIGN="JUSTIFY">Faisal &#151; 1996 &#151; esposa, um filho e o irm&atilde;o;      <P ALIGN="JUSTIFY">Chowdury &#151; 1996 &#151; (n&atilde;o dispon&iacute;vel);      <P ALIGN="JUSTIFY">Kamal &#151; 2001 &#151; ningu&eacute;m.      <P ALIGN="JUSTIFY">      ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY">Esta lista revela dois aspectos a explorar para interpretar    a rela&ccedil;&atilde;o entre o sacrif&iacute;cio e a produ&ccedil;&atilde;o    de lugares. De todos os presentes, apenas Kamal chegou em 2001, enquanto os    restantes fazem parte dos dois primeiros fluxos de bangladeshis para Portugal,    na sequ&ecirc;ncia dos dois primeiros processos de regulariza&ccedil;&atilde;o    extraordin&aacute;ria. &Agrave; data desta cerim&oacute;nia, Kamal estava ainda    &quot;indocumentado&quot; e aguardava not&iacute;cias do seu processo de regulariza&ccedil;&atilde;o.    Dos restantes, todos tinham vistos de resid&ecirc;ncia, excepto Rashid, que    era j&aacute; portador de um passaporte portugu&ecirc;s.      <P ALIGN="JUSTIFY">Al&eacute;m disto, e &agrave; excep&ccedil;&atilde;o de Chowdury,    com quem nunca consegui chegar &agrave; fala, os restantes tinham todos &quot;constru&iacute;do&quot;    as suas unidades dom&eacute;sticas e j&aacute; tinham as esposas e os filhos    em Portugal. Em tr&ecirc;s dos casos, outros familiares, como os irm&atilde;os    e um cunhado, dos presentes estavam tamb&eacute;m em Portugal. Portanto, quatro    dos seis participantes nesta cerim&oacute;nia tinham constitu&iacute;do as suas    unidades dom&eacute;sticas em Lisboa.      <P ALIGN="JUSTIFY">Com base nas categorias &quot;tempo de chegada&quot; e &quot;constitui&ccedil;&atilde;o    de casa pr&oacute;pria&quot;, pode afirmar-se que a posi&ccedil;&atilde;o dos    sujeitos muda no que diz respeito &agrave; realiza&ccedil;&atilde;o do sacrif&iacute;cio    em Portugal. A maior parte dos que fazem esta cerim&oacute;nia no Bangladesh,    ou apenas enviam dinheiro para os familiares para ajudar no seu financiamento,    chegaram em 2001, no &uacute;ltimo processo de regulariza&ccedil;&atilde;o.    Nestes casos, o projecto migrat&oacute;rio encontra-se ainda numa fase de indecis&atilde;o    e incerteza, os indiv&iacute;duos t&ecirc;m empregos pouco privilegiados e estatutos    legais d&uacute;bios e, portanto, a n&atilde;o realiza&ccedil;&atilde;o do sacrif&iacute;cio    em Lisboa parece traduzir em parte a afirma&ccedil;&atilde;o dessa condi&ccedil;&atilde;o.      <P ALIGN="JUSTIFY">No caso daqueles que chegaram em 1996 e no in&iacute;cio dos    anos 90 continua-se a enviar dinheiro para a realiza&ccedil;&atilde;o desta    cerim&oacute;nia no Bangladesh, na casa ou nas casas donde se &eacute; oriundo,    mas, em vez de esta ficar a cargo dos parentes no Bangladesh, surge tamb&eacute;m    a necessidade de a fazer em Portugal. Fazer tal cerim&oacute;nia &eacute; um    fen&oacute;meno que se relaciona com o facto de muitos terem constitu&iacute;do    e fundado as suas unidades dom&eacute;sticas e nessa medida espera-se deles,    enquanto chefes de fam&iacute;lia, que organizem o <I>qurbani</I>. Importa ent&atilde;o    saber o que implica constituir uma unidade dom&eacute;stica neste contexto.      <P ALIGN="JUSTIFY">O processo de constitui&ccedil;&atilde;o de casas &eacute;    muito dispendioso e demorado e apenas quem j&aacute; tem um rendimento consider&aacute;vel    pode dar esse passo em Portugal.      <P ALIGN="JUSTIFY">Quando chegam a Portugal, muitos dos meus interlocutores s&atilde;o    ainda solteiros e s&oacute; regressam ao Bangladesh para se casarem depois da    obten&ccedil;&atilde;o de um documento &#151; passaporte, visto de resid&ecirc;ncia    e autoriza&ccedil;&atilde;o de perman&ecirc;ncia. Ter um documento de um pa&iacute;s    europeu &eacute; encarado de forma vantajosa pelos imigrantes; consideram que    este os torna mais &quot;atraentes&quot; para um matrim&oacute;nio, uma vez    que pressup&otilde;e a possibilidade de reunirem mais capital e riqueza, da    qual as pr&oacute;prias unidades dom&eacute;sticas, e consequentemente as esposas,    podem beneficiar. Em certo sentido, funciona como uma garantia, uma protec&ccedil;&atilde;o    para uma filha que se d&aacute; a casar.      <P ALIGN="JUSTIFY">Como os montantes envolvidos nos casamentos costumam ser elevados,    muitos bangladeshis em Lisboa preferiram organizar celebra&ccedil;&otilde;es    modestas, com um n&uacute;mero reduzido de convidados, deixando a realiza&ccedil;&atilde;o    de uma cerim&oacute;nia mais imponente e opulenta para uma fase de maiores possibilidades    financeiras. Al&eacute;m disso, muitos dos meus interlocutores que se casaram    durante o per&iacute;odo de trabalho de campo tinham autoriza&ccedil;&otilde;es    de perman&ecirc;ncia, que apenas permitem uma aus&ecirc;ncia do pa&iacute;s    por um per&iacute;odo nunca superior a sessenta dias, e, uma vez que uma cerim&oacute;nia    de casamento exige uma longa prepara&ccedil;&atilde;o, muitos optaram por fazer    cerim&oacute;nias menos exigentes.      <P ALIGN="JUSTIFY">Como noutros contextos, estes enlaces costumam ser arranjados    pelas fam&iacute;lias. Embora os casamentos por amor aconte&ccedil;am com mais    frequ&ecirc;ncia, como Kate Gavron demonstrou na sua pesquisa (1996 e 2005),    os casamentos s&atilde;o na maior parte arranjados pelos membros da unidade    dom&eacute;stica e pela patrilinhagem. Foi com a ajuda de v&aacute;rios contactos    entre casas e patrilinhagens e com a ajuda das <I>ghothuk,</I> as casamenteiras,    que se conseguiram organizar algumas destas cerim&oacute;nias. Depois do casamento,    o mais frequente &eacute; que as esposas continuem a residir patrilocalmente,    enquanto os maridos regressam a Portugal para prepararem a chegada das mesmas.      <P ALIGN="JUSTIFY">Esta prepara&ccedil;&atilde;o &eacute; um processo frequentemente    dispendioso e longo, demorando entre seis e oito meses, quando n&atilde;o mais.    Uma das primeiras ac&ccedil;&otilde;es a empreender &eacute; arrendar um apartamento,    cujo contrato tem de incluir o nome do marido. Este contrato &eacute; posteriormente    entregue &agrave;s autoridades portuguesas e constitui um comprovativo de que    a esposa disp&otilde;e de um local de resid&ecirc;ncia em Portugal. Frequentemente,    alguns celebram contratos de arrendamento em seu nome e posteriormente subarrendam    a outros bangladeshis enquanto o processo da esposa n&atilde;o est&aacute; resolvido    e a situa&ccedil;&atilde;o desbloqueada. Outra estrat&eacute;gia &eacute; dividir    a casa at&eacute; o processo de reunifica&ccedil;&atilde;o estar terminado,    altura em que os co-residentes t&ecirc;m de sair.      <P ALIGN="JUSTIFY">Al&eacute;m disso, arrendar uma casa para a chegada da esposa    &eacute; uma obrigatoriedade uma vez que seria impens&aacute;vel partilhar um    apartamento com outros homens e tamb&eacute;m com a esposa. Recorde-se que muitos    dos meus interlocutores, ao chegarem a Portugal, optaram por partilhar apartamentos    com outros bangladeshis, todos do sexo masculino. Um desses apartamentos localiza-se    na Costa da Caparica e h&aacute; mais de dez anos que est&aacute; nas m&atilde;os    de bangladeshis, tendo albergado alguns dos pioneiros. Estas casas hospedam    frequentemente um n&uacute;mero de pessoas superior ao n&uacute;mero de camas,    atendendo a que os moradores trabalham em turnos desencontrados e por isso a    mesma cama serve para duas pessoas nela dormirem. Estas casas s&atilde;o partilhadas    por homens com la&ccedil;os de parentesco entre si ou com as mesmas origens    regionais. Por exemplo, uma das casas que melhor conheci era dominada por pessoas    oriundas de Daca, enquanto outra albergava pessoas de Tangail. Esta &eacute;,    por vezes, a &uacute;nica forma de conseguirem arrendar uma casa, tendo em conta    os pequenos rendimentos que muitos auferem e a necessidade de pouparem dinheiro,    situa&ccedil;&atilde;o que se mant&eacute;m inalterada at&eacute; &agrave; reuni&atilde;o    familiar.      ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY">Outra das tarefas conducentes &agrave; reuni&atilde;o familiar    &eacute; mandar vir os certificados de casamento do Bangladesh. Estes s&atilde;o    enviados pelo correio ou atrav&eacute;s de algu&eacute;m que se saiba que vem    a Portugal. Estes certificados s&atilde;o posteriormente canalizados para o    Consulado-Geral do Bangladesh, no Porto, para serem traduzidos de bengali para    portugu&ecirc;s a troco de um pequena quantia. O consulado recorre a dois dos    pioneiros bangladeshis para fazer este trabalho, um na cidade do Porto e outro    em Lisboa.      <P ALIGN="JUSTIFY">Uma vez reunida, a documenta&ccedil;&atilde;o &eacute; enviada    para a Embaixada Portuguesa na &Iacute;ndia, em Nova Deli, e aguarda-se pela    marca&ccedil;&atilde;o de uma data para se realizar uma entrevista &agrave;    esposa. Marcada a data, t&ecirc;m de se enfrentar duas situa&ccedil;&otilde;es:    a primeira &eacute; que a esposa do <I>probashi</I> n&atilde;o pode ir sozinha    e, portanto, tem de haver algu&eacute;m para a acompanhar nessa viagem. Os membros    da unidade dom&eacute;stica de origem s&atilde;o os mais implicados neste processo,    sendo o pai, o irm&atilde;o ou mesmo a irm&atilde; e o marido dela que frequentemente    a acompanham; a segunda &eacute; que estas viagens acabam por ser extremamente    dispendiosas, uma vez que o mais frequente &eacute; a esposa ter de regressar    v&aacute;rias vezes ou mesmo permanecer algumas semanas na capital indiana por    causa dos sucessivos adiamentos e das v&aacute;rias entrevistas a que &eacute;    sujeita.      <P ALIGN="JUSTIFY">Globalmente, este processo &eacute; t&atilde;o dispendioso    que normalmente s&oacute; aqueles que j&aacute; t&ecirc;m neg&oacute;cios apresentam    capacidades financeiras para o suportar. Como tal, s&oacute; os pioneiros e    aqueles que chegaram em meados dos anos 90 &eacute; que t&ecirc;m vindo a trazer    as suas fam&iacute;lias para Portugal, numa fase em que j&aacute; montaram as    suas lojas e fazem neg&oacute;cios suficientes para mobilizar tais quantias    de capital.      <P ALIGN="JUSTIFY">Ao todo, desde 2001, reconstitu&iacute;ram-se em Portugal mais    de 162 <I>poribar</I> (fam&iacute;lias). Quem accionou estes processos chegou    entre 1992 e 2002, sendo que foi entre aqueles que chegaram em 1993 e 1996 que    se registou o maior n&uacute;mero de processos de reunifica&ccedil;&atilde;o    familiar.      <P ALIGN="JUSTIFY">&nbsp;      <P ALIGN="center"><img src="/img/revistas/aso/n190/n190a04g01.gif" width="432" height="374">      
<P ALIGN="center"><b>Fonte</b>: Consulado-Geral do Bangladesh     <P ALIGN="JUSTIFY">Estas s&atilde;o quase sempre fam&iacute;lias nucleares compostas    pelos pais, filhos e um irm&atilde;o do marido ou o cunhado, o que &eacute;    corroborado pelos dados constantes dos registos consulares. Estes mesmos dados    revelam igualmente que, em m&eacute;dia, o intervalo de tempo entre a chegada    destes <I>probashis</I> a Portugal e a constitui&ccedil;&atilde;o de novas casas    varia entre os cinco e os dez anos. Pelo meio, claro, temos o acesso e a constitui&ccedil;&atilde;o    de neg&oacute;cios, os casamentos e os seus preparativos e os processos de reunifica&ccedil;&atilde;o.      <P ALIGN="JUSTIFY">Um dos aspectos mais interessantes, e que come&ccedil;ou a    ocorrer durante o meu trabalho de campo, era a compra de propriedades. Pelo    menos 15 bangladeshis compraram casas em Lisboa, nomeadamente entre a Avenida    Almirante Reis, a Pra&ccedil;a do Chile e S&atilde;o Jorge de Arroios e nas    imedia&ccedil;&otilde;es do Martim Moniz (no Campo de Santana, por exemplo).    Estas compras originaram uma enorme competi&ccedil;&atilde;o entre fam&iacute;lias,    pois queria-se saber quem fazia os melhores neg&oacute;cios. As inaugura&ccedil;&otilde;es    das casas eram momentos reveladores, uma vez que todos queriam saber que casas    os membros &quot;not&aacute;veis&quot; da &quot;comunidade&quot; tinham comprado.      <P ALIGN="JUSTIFY">Com a constitui&ccedil;&atilde;o destas unidades dom&eacute;sticas    come&ccedil;aram a surgir novas sociabilidades, entre as quais se destacam os    circuitos de visita e apoio di&aacute;rio entre mulheres. A cria&ccedil;&atilde;o    de tais sociabilidades estava relacionada com redes de troca em que diversos    tipos de ofertas circulavam entre casas _ doces, carne, prendas. Nestas redes,    outros produtos circulam como bens alimentares previamente preparados e que    s&atilde;o oferecidos em ocasi&otilde;es festivas, como as festas anuais do    calend&aacute;rio isl&acirc;mico. Por exemplo, aquando do <I>id ul-Fitr</I>    e do <I>id ul-Adha</I> &eacute; muito comum os bangladeshis circularem entre    as casas e partilharem refei&ccedil;&otilde;es. Preparam-se v&aacute;rios pratos    salgados e doces, que est&atilde;o dispostos numa mesa, para oferecer &agrave;s    visitas. Mesmo no quotidiano, quando algu&eacute;m vai a casa de um bangladeshi,    &eacute;-lhe sempre oferecido algo para comer.      ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY">Noutros momentos organizam-se refei&ccedil;&otilde;es aos fins-de-semana,    sendo o domingo o dia mais comum para estas reuni&otilde;es. Mesmo que n&atilde;o    se tenha dispon&iacute;vel uma refei&ccedil;&atilde;o com arroz, carne ou outros    g&eacute;neros, oferece-se sempre um aperitivo de <I>muri </I>(arroz tufado),    <I>bombay mix, chotpuri,</I> entre outros.      <P ALIGN="JUSTIFY">Esta comensalidade e, finalmente, a circula&ccedil;&atilde;o    de bens alimentares previamente preparados s&atilde;o vistas pelos meus interlocutores    como uma forma de criar la&ccedil;os de reciprocidade atrav&eacute;s da hospitalidade    <I>(otithia)</I> e s&atilde;o ocasi&otilde;es centrais na constitui&ccedil;&atilde;o    de sociabilidades e de redes de rela&ccedil;&otilde;es (Kotalov&aacute;, 1993;    Khanum, 2000).      <P ALIGN="JUSTIFY">&Eacute; tamb&eacute;m desta forma que devemos interpretar    a realiza&ccedil;&atilde;o do <I>qurbani</I> em Lisboa por parte destes pioneiros.    Fazer o sacrif&iacute;cio aqui &eacute; uma afirma&ccedil;&atilde;o de &ecirc;xito,    e as ofertas da carne s&atilde;o um ve&iacute;culo de afirma&ccedil;&atilde;o    de sucesso, estatuto e domina&ccedil;&atilde;o. Estes foram os primeiros bangladeshis    a fazer um sacrif&iacute;cio de uma vaca em Portugal e isso, por si s&oacute;,    mostra a import&acirc;ncia pol&iacute;tica e econ&oacute;mica dos envolvidos.    Este &eacute; um grupo de bangladeshis que representa o &ecirc;xito na Europa,    que conseguiu constituir as suas <I>bari</I> fora do Bangladesh, e a realiza&ccedil;&atilde;o    desta cerim&oacute;nia &eacute; reveladora desse sucesso. Simultaneamente, estas    ofertas s&atilde;o uma forma de refor&ccedil;ar la&ccedil;os com conterr&acirc;neos    e uma estrat&eacute;gia de consolida&ccedil;&atilde;o de sociabilidades. A presen&ccedil;a    dos filhos revela bem a forma como esta cerim&oacute;nia foi apropriada para    ensinar a estes jovens o que &eacute; fazer o <I>qurbani</I> e o que &eacute;    faz&ecirc;-lo num pa&iacute;s como Portugal.      <P ALIGN="JUSTIFY">Por &uacute;ltimo, a realiza&ccedil;&atilde;o desta cerim&oacute;nia    por parte deste grupo de pioneiros, para al&eacute;m de uma afirma&ccedil;&atilde;o    de &ecirc;xito, representa tamb&eacute;m uma estrat&eacute;gia de produ&ccedil;&atilde;o    de Lisboa como um lugar, que &eacute; encarado aqui num sentido de espa&ccedil;o    de perten&ccedil;a, que &eacute; apropriado e constru&iacute;do como tal. Ali&aacute;s,    estas duas dimens&otilde;es s&atilde;o como as duas faces da mesma moeda. Ter    &ecirc;xito &eacute; construir uma unidade dom&eacute;stica, ser o seu pr&oacute;prio    patr&atilde;o, ter um neg&oacute;cio, comprar um apartamento, investir na educa&ccedil;&atilde;o    dos filhos e, como tal, reterritorializar-se. Em certa medida, poder-se-ia argumentar    que o sucesso passa tamb&eacute;m pelo acto de se produzir n&atilde;o s&oacute;    em rela&ccedil;&atilde;o ao Bangladesh e aos la&ccedil;os com a &quot;origem&quot;,    mas tamb&eacute;m em rela&ccedil;&atilde;o a outros lugares de perten&ccedil;a,    neste caso Lisboa e Portugal. Assim, estes parecem ter passado tamb&eacute;m    a fazer parte dos lugares aos quais muitos dos meus interlocutores consideram    pertencer.      <P ALIGN="JUSTIFY">&nbsp;      <P><b>Conclus&atilde;o</b>      <P ALIGN="JUSTIFY">Na literatura sobre as migra&ccedil;&otilde;es e as di&aacute;sporas    sul-asi&aacute;ticas espalhadas pelo mundo, um dos temas mais recorrentes prende-se    com as din&acirc;micas religiosas. A rela&ccedil;&atilde;o triangular entre    a religi&atilde;o, os pa&iacute;ses de origem e os pa&iacute;ses onde residem    tem sido um dos mais importantes temas de pesquisa (Hinnels, 2000; Brown, 2006;    Levitt, 2007). Um exemplo &eacute; um artigo de 1987 em que Ninian Smart procura    relacionar as din&acirc;micas e processos de (re)constru&ccedil;&atilde;o da    vida religiosa e os fen&oacute;menos diasp&oacute;ricos, argumentando, com base    no caso das popula&ccedil;&otilde;es hindus oriundas da &Iacute;ndia, que neste    processo existem elementos religiosos que parecem n&atilde;o viajar t&atilde;o    facilmente como outros<SUP><a href="#12">10</a><a name="top12"></a></SUP>. O    que o autor argumenta &eacute; precisamente que um dos aspectos mais interessantes    para pesquisar &eacute; ver como v&aacute;rios temas da tradi&ccedil;&atilde;o    hindu &#151; a casta, o ioga, as peregrina&ccedil;&otilde;es, os rituais no    templo, os rituais na unidade dom&eacute;stica, os <I>pundits</I>, entre outros    &#151; est&atilde;o presentes em contextos n&atilde;o indianos e que outros    elementos est&atilde;o ausentes. E o que nos diz acerca da rela&ccedil;&atilde;o    entre di&aacute;sporas e religi&atilde;o, o facto de existirem elementos que    n&atilde;o viajam?      <P ALIGN="JUSTIFY">No caso dos mu&ccedil;ulmanos bengalis em Lisboa, o problema    n&atilde;o se coloca nestes termos, mas sim em saber por que &eacute; que algumas    pessoas fazem viajar certos elementos da tradi&ccedil;&atilde;o isl&acirc;mica,    enquanto outras n&atilde;o. Para alguns, o <I>qurbani</I> parece ser uma pr&aacute;tica    que viaja, enquanto para outros essa quest&atilde;o n&atilde;o se coloca. Para    interpretar tal facto sugeri ao longo do presente texto que a realiza&ccedil;&atilde;o    do <I>qurbani</I> fosse pensada no contexto da experi&ecirc;ncia migrat&oacute;ria    transnacional dos meus interlocutores.      <P ALIGN="JUSTIFY">Como Grillo e Gardner argumentavam num artigo publicado em    2002, uma das dimens&otilde;es mais descuradas na literatura sobre o transnacionalismo    e as migra&ccedil;&otilde;es contempor&acirc;neas na sua rela&ccedil;&atilde;o    com a religi&atilde;o tem sido a dimens&atilde;o ritual das unidades dom&eacute;sticas    donde os migrantes s&atilde;o oriundos. A ritualiza&ccedil;&atilde;o dos espa&ccedil;os    transnacionais tem merecido uma aten&ccedil;&atilde;o relativamente reduzida,    pelo que o material aqui apresentado tenta ser um contributo para a compreens&atilde;o    desta dimens&atilde;o atrav&eacute;s de um estudo de caso. O que este material    parece revelar &eacute; que, de facto, e como Ruba Salih (2002) sugere, o espa&ccedil;o    ritual est&aacute; transnacionalmente dividido e, portanto, h&aacute; cerim&oacute;nias    que se dividem entre os espa&ccedil;os onde os &quot;imigrantes&quot; se encontram.    No caso da autora, a realiza&ccedil;&atilde;o dos matrim&oacute;nios &eacute;    certamente um exemplo bem pertinente para pensar tal divis&atilde;o e, at&eacute;    certo ponto, o sacrif&iacute;cio entre os bangladeshis em Lisboa tamb&eacute;m.    No entanto, a posi&ccedil;&atilde;o dos sujeitos face ao sacrif&iacute;cio e    &agrave; sua realiza&ccedil;&atilde;o varia consoante a posi&ccedil;&atilde;o    em que se encontram no processo migrat&oacute;rio. Para muitos, esta cerim&oacute;nia    continua a fazer parte da reprodu&ccedil;&atilde;o da unidade dom&eacute;stica    donde sa&iacute;ram para emigrar e continua, por isso, a ser realizada no Bangladesh.    &Eacute; aqui que se encontram os parentes e a maioria das rela&ccedil;&otilde;es    sociais relevantes para os sujeitos e, portanto, a sua rela&ccedil;&atilde;o    com o <I>qurbani</I> real&ccedil;a esse lugar como espa&ccedil;o de perten&ccedil;a.    Encontrando-se num contexto imigrat&oacute;rio em que as certezas s&atilde;o    escassas, esta cerim&oacute;nia continua a ser realizada onde os la&ccedil;os    do sujeito s&atilde;o mais perenes. Por&eacute;m, &agrave; medida que o processo    migrat&oacute;rio se desenrola e os sujeitos come&ccedil;am a conseguir abrir    os seus neg&oacute;cios e, principalmente, a constituir as suas unidades dom&eacute;sticas,    ou seja, &agrave; medida que conseguem atingir algum &ecirc;xito e seguran&ccedil;a    no processo migrat&oacute;rio, a sua posi&ccedil;&atilde;o face a esta cerim&oacute;nia    muda consideravelmente. Eles s&atilde;o agora respons&aacute;veis pela organiza&ccedil;&atilde;o    desta cerim&oacute;nia na sua unidade dom&eacute;stica. Ora, como esta se encontra    em Portugal, fazer o <I>qurbani</I> aqui pode ser visto como uma forma de mostrar    que este espa&ccedil;o passou tamb&eacute;m a ser um lugar de perten&ccedil;a.    Digo tamb&eacute;m porque, obviamente, as remessas de dinheiro para o Bangladesh    prosseguem, nomeadamente para a ajuda do financiamento desta mesma cerim&oacute;nia    na unidade dom&eacute;stica de origem. Assim, n&atilde;o s&oacute; o espa&ccedil;o    ritual est&aacute; dividido transnacionalmente, mas h&aacute; alguns rituais    que s&oacute; viajam consoante a posi&ccedil;&atilde;o dos sujeitos face ao    processo migrat&oacute;rio e, nessa medida, a posi&ccedil;&atilde;o dos sujeitos    face aos rituais revela as pr&oacute;prias posi&ccedil;&otilde;es destes face    ao processo migrat&oacute;rio.      <P ALIGN="JUSTIFY">Mais, o <I>qurbani</I> &eacute; uma cerim&oacute;nia que mostra    como os sujeitos se tornam transnacionais. Como eles passam de migrantes a sujeitos    transnacionais, processo este que a literatura existente tende a considerar    evidente. Os migrantes passaram actualmente a ser tratados como sujeitos transnacionais;    no entanto, transnacionalizar a migra&ccedil;&atilde;o &eacute; um processo    e n&atilde;o uma realidade est&aacute;tica e &quot;naturalmente&quot; resultante    da pr&oacute;pria migra&ccedil;&atilde;o. Como se tornou claro ao longo deste    artigo, nem todos os migrantes s&atilde;o igualmente transnacionais e, portanto,    h&aacute; alguns que conseguem mover-se mais facilmente do que outros. Existem    mesmo alguns que nem conseguem mover-se. Conseguir manter rela&ccedil;&otilde;es    entre dois pa&iacute;ses &eacute; algo que se encontra perpassado por hierarquias    sociais em virtude do capital que tais actividades exigem. Nessa medida apenas    alguns o conseguem fazer e um dos idiomas que melhor revelam esta segmenta&ccedil;&atilde;o    da mobilidade &eacute; certamente a realiza&ccedil;&atilde;o de rituais, neste    caso o <I>qurbani</I>. Poder-se-ia argumentar que tal parece ser verdade mesmo    para outros fen&oacute;menos migrat&oacute;rios, tais como a organiza&ccedil;&atilde;o    dos &quot;imp&eacute;rios&quot; pesquisada por Jo&atilde;o Leal (1996, 2005a    e 2005b). Tamb&eacute;m aqui, a prepara&ccedil;&atilde;o de tais eventos e cerim&oacute;nias    passou para as m&atilde;os dos emigrantes a&ccedil;orianos como uma clara demonstra&ccedil;&atilde;o    de &ecirc;xito e sucesso a que nem todos acedem.      ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY">Mas as implica&ccedil;&otilde;es do presente texto estendem-se    tamb&eacute;m &agrave; pr&oacute;pria rela&ccedil;&atilde;o entre rituais, lugares    e migra&ccedil;&otilde;es globais. Apesar da crescente desterritorializa&ccedil;&atilde;o    e diversifica&ccedil;&atilde;o de fluxos globais dos quais fazem parte, os migrantes    continuam a produzir lugares e &eacute; indispens&aacute;vel etnografar aquilo    que Gupta e Ferguson (1997) designaram por <I>place making,</I> isto &eacute;,    os processos sociais, hist&oacute;ricos e pol&iacute;ticos envolvidos na produ&ccedil;&atilde;o    de lugares. Estes n&atilde;o s&atilde;o naturais, <I>a priori,</I> mas sim algo    ordenado, vivido e nomeado, enfim, socialmente constru&iacute;do, sendo essa    constru&ccedil;&atilde;o n&atilde;o apenas hist&oacute;rica e pol&iacute;tica,    mas processando-se tamb&eacute;m quotidianamente (Olwig, 1997 e 2007) atrav&eacute;s    de pequenos gestos, como os telefonemas ou o patroc&iacute;nio e a organiza&ccedil;&atilde;o    de rituais. O ritual surge aqui como uma met&aacute;fora para identificar espa&ccedil;os    pr&oacute;ximos e familiares, mas tamb&eacute;m como uma forma de os produzir    enquanto tal. O sacrif&iacute;cio, que abord&aacute;mos ao longo deste texto,    actualiza e produz familiaridade com determinados espa&ccedil;os e, nesse sentido,    transforma-os em lugares de perten&ccedil;a e identidade num mundo de fluxos    globais e mobilidades m&uacute;ltiplas.      <P ALIGN="JUSTIFY">&nbsp;     <P ALIGN="JUSTIFY">&nbsp;      <P ALIGN="CENTER"><B>Bibliografia</B>      <!-- ref --><P ALIGN="JUSTIFY">Abranches, M. (2007), &quot;Muslim women in Portugal: strategies    of identity (re)construction&quot;. <I>Lusotopie,</I> 14, pp. 239-254.      &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000157&pid=S0003-2573200900010000400001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><P ALIGN="JUSTIFY">Ahmed, R. (1988), &quot;Conflict and contradiction in Bengali    islam: problems of change and adjustment&quot;. <I>In</I> K. Ewing (ed.), <I>Shari'at    and Ambiguity in South Asian Islam,</I> Berkeley, University of California Press,    pp. 114-142.      <P ALIGN="JUSTIFY">Ballard, R. (ed.) (1994), <I>Desh Pardesh: The South Asian    Presence in Britain,</I> Nova Deli, B. R. Publishing Corporation.      <P ALIGN="JUSTIFY">Bastos, C. (2004), &quot;Lisboa, s&eacute;culo xxi: uma p&oacute;s-metropole    nos tr&acirc;nsitos mundiais&quot;. <I>In</I> J. M. Pais e L. Blass (eds.),    <I>Tribos Urbanas: Produ&ccedil;&atilde;o Art&iacute;stica e Identidades,</I>    Lisboa, ICS, pp. 195-224.      <!-- ref --><P ALIGN="JUSTIFY">Bastos, S., e Bastos, J. (2007), &quot;`The blood of a muslim    is worthless, after all': identity debates between Portuguese and British Sunnis    in Leicester&quot;. <I>Lusotopie,</I> 14, pp. 271-285.      &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000161&pid=S0003-2573200900010000400002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><P ALIGN="JUSTIFY">Beattie, J. (1980), &quot;On understanding sacrifice&quot;.<I>    In </I>M.<I> </I>Bourdillon e M. Fortes (eds.),<I> Sacrifice, </I>Londres, Academic    Press, pp. 29-44.      ]]></body>
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<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY">Kanafani-Zahar, A. (1997), &quot;Le religieux sublim&eacute;    dans le sacrifice du mouton: un example de coexistence communautaire au Liban&quot;.    <I>L'Homme,</I> 37 (141), pp. 83-100.      <P ALIGN="JUSTIFY">Kanafani-Zahar, A. (2002), &quot;Du divin &agrave; l'humain,    du religieux au social: les repas sacrificiels au Liban&quot;. <I>In</I> P.    Bonte, A. Brisebarre e A. Gokalp (eds.), <I>Sacrifices en islam: espaces et    temps d'un rituel,</I> Paris, CNRS Edition,<I> </I>pp. 199-214.      <P ALIGN="JUSTIFY">Kearney, M. (1986), &quot;From the invisible hand to visible    feet: anthropological studies of migration and development&quot;. <I>Annual    Review of Anthropology, </I>15, pp. 331-361.      <P ALIGN="JUSTIFY">Keshavjee, F. (1994), &quot;Identidades e representa&ccedil;&otilde;es    sociais: para o estudo da mulher isl&acirc;mica em Portugal&quot;. <I>In </I>AA.VV.    (eds.), <I>Din&acirc;micas Multiculturais, Novas Faces, Novos Olhares,</I> Lisboa,    Edi&ccedil;&otilde;es do Instituto de Ci&ecirc;ncias Sociais, pp. 191-202.      <P ALIGN="JUSTIFY">Khanum, S. (2000), &quot;Habitus and its impl<I>ications in    constructing kinship ties: data from a Bangladeshi settlement in Britain&quot;.    In</I> M. B&ouml;ck e A. Rao (eds.), <I>Culture, Creation and Procreation: Concepts    of Kinship in South Asian Practice,</I> Londres, Berghahn Books, pp. 199-218.      <P ALIGN="JUSTIFY">Khanum, S. (2001), &quot;The household patterns of a `Bangladeshi    village' in England&quot;. <I>Journal of Ethnic and Migration Studies,</I> 27    (3), pp. 489-504.      <P ALIGN="JUSTIFY">Kotalov&aacute;, J. (1993), <I>Belonging to Other: Cultural    Construction of Womanhood in a Village in Bangladesh, </I>Dhaka, University    Press Limited.      <P ALIGN="JUSTIFY">Kyle, D. (1999), &quot;The Otavalo trade diaspora: social capital    and transnational entrepreneurship&quot;. <I>Ethnic and Racial Studies, </I>22    (2), pp. 422-446.      <P ALIGN="JUSTIFY">Leal, J. (1996), &quot;Festa e emigra&ccedil;&atilde;o numa    freguesia a&ccedil;oriana&quot;. <I>In</I> J. Pais de Brito (ed.), <I>O Voo    do Arado,</I> Lisboa, Museu de Etnologia, pp. 583-590.      <P ALIGN="JUSTIFY">Leal, J. (2005a), &quot;Travelling rituals: Azorean holy ghost    festivals in the United States&quot;. <I>Croatian Journal of Ethnology and Folklore    Research,</I> 42 (1), pp. 101-124.      ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><P ALIGN="JUSTIFY">Leal, J. (2005b), &quot;A festa&quot;. <I>Revista da Faculdade    de Ci&ecirc;ncias Sociais e Humanas,</I> 17, pp. 87-108.      &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000213&pid=S0003-2573200900010000400005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><P ALIGN="JUSTIFY">Levitt, P. (2001), <I>Transnational Villagers,</I> Berkeley,    University of California Press.      <P ALIGN="JUSTIFY">Levitt, P. (2007), <I>God Needs no Passport: Immigrants and    the Changing American Religious Landscape,</I> Nova Iorque, New Press.      <P ALIGN="JUSTIFY">Maamar, H. (1998), &quot;Alg&eacute;rie: bestiaires sacrificiels&quot;.    <I>In </I>A. Brisebarre (ed.), <I>La f&ecirc;te du mouton: un sacrifice musulman    dans l'espace urbain, </I>Paris, CNRS Editions, pp. 246--282.      <!-- ref --><P ALIGN="JUSTIFY">Macias, S. (2005), &quot;Islamiza&ccedil;&atilde;o no territ&oacute;rio    de Beja: reflex&otilde;es para um debate&quot;. <I>An&aacute;lise Social,</I>    173, pp. 807-826.      &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000217&pid=S0003-2573200900010000400006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><P ALIGN="JUSTIFY">Mahdi, M. (1998), &quot;Maroc: de sacrificier pour sacrifier&#160;:    prescription sociale et imperatifs religieux&quot;. <I>In </I>A. Brisebarre    (ed.), <I>La f&ecirc;te du mouton: un sacrifice musulman dans l'espace urbain,    </I>Paris, CNRS Editions, pp. 283-315.      <P ALIGN="JUSTIFY">Mamoon, M. (1993), <I>The Festivals of Bangladesh,</I> Dhaka,    University Press Limited.      <P ALIGN="JUSTIFY">Maniruzzaman, T. (2001), &quot;Bangladesh politics: secular    and Islamic trends&quot;. <I>In</I> R. Ahmed (ed.), <I>Religion, Identity and    Politics: Essays on Bangladesh,</I> Colorado Springs, International Academic    Publishers, pp. 63-93.      <!-- ref --><P ALIGN="JUSTIFY">Mapril, J. (2007a), &quot;Os `novos' sul-asi&aacute;ticos:    a economia pol&iacute;tica das migra&ccedil;&otilde;es entre o Bangladesh e    Portugal&quot;. <I>Oriente,</I> 17, pp. 81-99.      &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000221&pid=S0003-2573200900010000400007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><P ALIGN="JUSTIFY">Mapril, J. (2007b), &quot;`Maulana says the prophet is human,    not God': milads and hierarchies among Bengali muslims in Lisbon&quot;. <I>Lusotopie,</I>    14, pp. 255-270.      &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000222&pid=S0003-2573200900010000400008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><P ALIGN="JUSTIFY">Mapril, J. (2008), &quot;Os sonhos da `modernidade': migra&ccedil;&otilde;es    globais e consumos entre Lisboa e Dhaka&quot;. <I>In</I> R. do Carmo, D. Melo    e R. Blanes (eds.), <I>A Globaliza&ccedil;&atilde;o no Div&atilde;, </I>Lisboa,    Tinta da China, pp. 65-88.      <P ALIGN="JUSTIFY">Metha, D. (2000), &quot;Circumcision, body and masculinity:    the ritual wound and collective violence&quot;. <I>In</I> V. Das, A. Kleinman,    M. Ramphele e P. 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(2006), &quot;Cultures in travel&quot;. <I>Oriente,</I>    17, pp. 37-40.      &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000227&pid=S0003-2573200900010000400009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><P ALIGN="JUSTIFY">Portes, A., Guarnizo, L., e Landolt, P. (1999), &quot;The study    of transnationalism: pitfalls and promise of an emergent research field&quot;.    <I>Ethnic and Racial Studies,</I> 22 (2), pp. 217-237.      <P ALIGN="JUSTIFY">Quintino, M. (2004), <I>Migra&ccedil;&otilde;es e Etnicidade    em Terrenos Portugueses: Guineenses Estrat&eacute;gias de Inven&ccedil;&atilde;o    de uma Comunidade, </I>Lisboa, ISCSP.      <P ALIGN="JUSTIFY">Salih, R. (2002), &quot;Reformulating tradition and modernity:    Morrocan migrant women and the transnational division of ritual space&quot;.    <I>Global Networks,</I> 2 (3), pp. 219-231.      <P ALIGN="JUSTIFY">Sarr&oacute;, R. (2008), &quot;&#191;Qu&eacute; es un lugar?    Reflexiones antropol&oacute;gicas sobre lo cercano y lo remoto&quot;. <I>In</I>    R. Cabecinhas e L. Cunha (eds.), <I>Comunica&ccedil;&atilde;o Intercultural:    Perspectivas, Dilemas e Desafios,</I> Porto, Campo das Letras, pp. 151-162      <P ALIGN="JUSTIFY">Sarr&oacute;, R., Blanes, R., e Viegas, F. (2008), &quot;La    guerre dans la paix: ethnicit&eacute; et angolanit&eacute; dans l'&Eacute;glise    Kimbanguiste de Luanda&quot;. <I>Politique africaine, </I>110, pp.84-101      ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY">Sayyid, B. (2003), &quot;Displacing South Asia&quot;. <I>Contemporary    South Asia,</I> 12 (4), pp. 465-469.      <P ALIGN="JUSTIFY">Schiffauer, W. (1988),&quot;Migration and religiousness&quot;.    <I>In </I>T. Gerholm e Y. Lithman (eds.), <I>The New Islamic Presence in Western    Europe, </I>Londres e Nova Iorque, Mansell Publishing Limited, pp. 146-158.      <P ALIGN="JUSTIFY">Schiller, N. (1997), &quot;The situation of transnational studies&quot;.    <I>Identities, Global Studies in Culture and Power, </I>4 (2), pp. 155-167      <P ALIGN="JUSTIFY">Schiller, N., Caglar, A., e Guldbrandsen, T. (2006), &quot;Beyond    the ethnic lens: locality, globality and born again incorporation&quot;. <I>American    Ethnologist,</I> 33 (4), pp. 612-633.      <P ALIGN="JUSTIFY">Schiller, N. G., Basch, L., e Blanc-Szanton, C. (1992), &quot;Transnationalism:    a new analytic framework for understanding migration&quot;. <I>Annals of the    New York Academy of Sciences,</I> 645, pp. 1-24.      <P ALIGN="JUSTIFY">Schiller, N. G., Basch, L., e Blanc-Szanton, C. (1997), <I>Nations    Unbound: Transnational Projects, Postcolonial Predicaments and Deterritorialized    Nation-States,</I> Amesterd&atilde;o, Gordon and Breach Publishers.      <!-- ref --><P ALIGN="JUSTIFY">Silva, M. C. da (2005), &quot;O sentido dos &aacute;rabes no    nosso sentido: dos estudos sobre &aacute;rabes e sobre mu&ccedil;ulmanos em    Portugal&quot;. <I>An&aacute;lise Social,</I> 173, pp. 781-806.      &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000239&pid=S0003-2573200900010000400010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><P ALIGN="JUSTIFY">Smart, N. (1987), &quot;The importance of diasporas&quot;.    <I>In</I> S. Shaked, D. Shulman e G. Stroumsa (eds.), <I>Gilgul: Essays on Transformation,    Revolution and Permanence in the History of Religions, </I>Leiden, Brill, pp.    288-297.      <P ALIGN="JUSTIFY">Smith, R. (1894), <I>Lectures on the Religion of the Semites,    </I>Londres, Adam and Charles Black.      <P ALIGN="JUSTIFY">Thorp, J. (1978), <I>Masters of the Earth: Conceptions of Power    among Muslims of Rural Bangladesh</I>. Tese de doutoramento, Illinois, University    of Chicago press.      ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><P ALIGN="JUSTIFY">Tiesler, N. (2000), &quot;Mu&ccedil;ulmanos na margem: a nova    presen&ccedil;a isl&acirc;mica em Portugal&quot;. <I>Sociologia: Problemas e    Pr&aacute;ticas,</I> 34, pp. 117-144.      &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000243&pid=S0003-2573200900010000400011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><P ALIGN="JUSTIFY">Tiesler, N., e Cairns, D. (2007), &quot;Representing islam    and Lisbon youth: Portuguese muslims of Indian-Mozambican origin&quot;. <I>Lusotopie,</I>    14, pp. 223-238.      &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000244&pid=S0003-2573200900010000400012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><P ALIGN="JUSTIFY">Tour&eacute;, A., e Konat&eacute;, Y. (1990), <I>Sacrifices    dans la ville: le citadin chez le devin en C&ocirc;te d'Ivoire, </I>Abidjan,    Editions Douga.      <P ALIGN="JUSTIFY">Vakil, A. (2003), &quot;O `Portugal isl&acirc;mico', o `Portugal    multicultural' e os mu&ccedil;ulmanos portugueses: hist&oacute;ria, mem&oacute;ria    e cidadania na constru&ccedil;&atilde;o de novas identidades&quot;. <I>In </I>G.<I>    </I>Mota (ed.), <I>Minorias &Eacute;tnicas e Religiosas em Portugal: Hist&oacute;ria    e Actualidade, </I>Coimbra, IHES-FLUC, pp. 409-451.      <P ALIGN="JUSTIFY">Van der Veer, P. (1994), <I>Religious Nationalism: Hindus and    Muslims in India, </I>Berkeley, University of California Press.      <P ALIGN="JUSTIFY">Vertovec, S. (1999), &quot;Conceiving and researching transnationalism&quot;.    <I>Ethnic and Racial Studies, </I>22 (2), pp. 447-462.      <P ALIGN="JUSTIFY">Vertovec, S. (2000), <I>The Hindu Diaspora, </I>Londres, Routledge.      <P ALIGN="JUSTIFY">Wallerstein, I. (1990 [1978]), <I>O Sistema Mundial Moderno,</I>    Porto, Afrontamento.      <P ALIGN="JUSTIFY">Werbner, P. (1990), <I>The Migration Process: Capital, Gifts    and Offerings among British Pakistanis, </I>Londres, Berg Publishers.      <P ALIGN="JUSTIFY">Werbner, P. (1998), &quot;Grande-Bretagne: `sceller' le Coran.    Offrande et sacrifice chez les immigr&eacute;s pakistanais&quot;. <I>In</I>    A. Brisebarre (ed.), <I>La f&ecirc;te du mouton: un sacrifice musulman dans    l'espace urbain, </I>Paris, CNRS Editions, pp. 204-223.      ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY">Werbner, P. (2003), <I>Pilgrims of Love: An Ethnography of    a Global Sufi Cult, </I>Londres, Hurst &amp; Company.      <P ALIGN="JUSTIFY">Wolf, Eric (1982), <I>Europe and the People without History,</I>    Berkeley, University of California Press.      <P ALIGN="JUSTIFY">Yang, A. (1980), &quot;Sacred symbol and sacred space in rural    India: community mobilization in the `anti-cow killing' riot of 1893&quot;.    <I>Comparative Studies in Society and History,</I> 22 (4), pp. 576-596.      <P ALIGN="JUSTIFY">&nbsp;     <P ALIGN="JUSTIFY">&nbsp;     <P ALIGN="JUSTIFY"><b>Notas</b>      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top3">1</a><a name="3"></a> </SUP>No Bangladesh,    como noutros contextos, o sacrif&iacute;cio &eacute; tamb&eacute;m um ritual    de expia&ccedil;&atilde;o, de <I>dessacraliza&ccedil;&atilde;o,</I> para usar    as palavras de Hubert e Mauss (1899) e de Evans-Pritchard (1956). &Eacute; usado    para agradecer a Deus a sa&iacute;da de uma situa&ccedil;&atilde;o de grande    afli&ccedil;&atilde;o, como uma doen&ccedil;a na fam&iacute;lia ou de algu&eacute;m    querido. Kotalov&aacute; (1993) relata o exemplo de uma das suas interlocutoras    que, no contexto de uma grave doen&ccedil;a contra&iacute;da pelo filho mais    novo, fez uma promessa, um voto, a Al&aacute;, dizendo que, se o filho se salvasse,    ela mataria a sua melhor vaca.<I> </I>Uma terceira forma de sacrif&iacute;cio    que ocorre no Bangladesh, bem como noutros contextos etnogr&aacute;ficos, &eacute;    a <I>aqiqa,</I> o sacrif&iacute;cio de um animal por altura do nascimento de    um filho: uma vaca, no caso do nascimento de um rapaz; uma ovelha, se se tratar    de uma rapariga (Kotalov&aacute;, 1993; Mehta, 2000).      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top4">2</a></SUP><a name="4"></a> Conv&eacute;m    salientar que, embora a no&ccedil;&atilde;o adoptada esteja directamente relacionada    com o fen&oacute;meno migrat&oacute;rio, a verdade &eacute; que o transnacionalismo    n&atilde;o se esgota nele. As corpora&ccedil;&otilde;es multinacionais e os    seus actores institucionais s&atilde;o o outro lado do transnacionalismo, desta    feita de &quot;topo&quot;, por oposi&ccedil;&atilde;o ao transnacionalismo de    &quot;base&quot; desempenhado pelos migrantes (Cohen, 1997; Portes <I>et al.,</I>    1999). Todas as tradu&ccedil;&otilde;es s&atilde;o da responsabilidade do autor.      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top5">3</a></SUP><a name="5"></a> Para alguns,    esta transnacionaliza&ccedil;&atilde;o das migra&ccedil;&otilde;es estava relacionada    com a internacionaliza&ccedil;&atilde;o de capitais e a revolu&ccedil;&atilde;o    tecnol&oacute;gica ocorrida a partir do p&oacute;s-Segunda Guerra Mundial, nomeadamente    no &acirc;mbito dos transportes e das comunica&ccedil;&otilde;es. Estas <I>tecnologias    de compress&atilde;o de espa&ccedil;o-tempo</I> (Harvey, 1990) deixariam de    ser apenas acess&iacute;veis a uma elite, como o foram nos primeiros quarenta    anos do s&eacute;culo xx, para se tornarem globalizadas e acess&iacute;veis    a todos, permitindo contactos regulares entre os indiv&iacute;duos, mesmo que    separados por longas dist&acirc;ncias (Portes <I>et al.,</I> 1999; Vertovec,    1999; Schiller <I>et al.,</I> 1997). No entanto, este n&atilde;o &eacute; um    fen&oacute;meno apenas caracter&iacute;stico da p&oacute;s-modernidade. Bem    pelo contr&aacute;rio, os contactos atrav&eacute;s das fronteiras dos Estados    e sociedades sempre existiram, sendo que a grande diferen&ccedil;a com o momento    hist&oacute;rico recente reside, por um lado, na sua frequ&ecirc;ncia e consequ&ecirc;ncias    e, por outro, no enfoque que as ci&ecirc;ncias sociais atribuem a uma perspectiva    macro (Wallerstein, 1978; Wolf, 1982; Schiller, 1997).      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top6">4</a><a name="6"></a> </SUP><I>Samaj,    </I>tamb&eacute;m conhecida por <I>reyia,</I> &eacute; um termo cuja origem    reside na no&ccedil;&atilde;o de &quot;fazer em conjunto&quot;. No quotidiano    tem v&aacute;rios significados e pode ser traduzido como &quot;sociedade&quot;    ou &quot;associa&ccedil;&atilde;o&quot; e frequentemente significa a comunidade    a que se pertence e que est&aacute; para al&eacute;m da fam&iacute;lia e da    patrilinhagem. Os seus limites territoriais s&atilde;o normalmente cont&iacute;guos    aos limites de uma unidade administrativa. Num sentido estrito, a <I>samaj </I>&eacute;    uma assembleia de anci&atilde;os, para a qual todas as patrilinhagens da <I>para    </I>(bairro ou zona residencial) devem contribuir com um membro e cuja fun&ccedil;&atilde;o    &eacute; manter e estabelecer a ordem entre os membros (para um aprofundamento    deste conceito, v. Kotalov&aacute;, 1993, e Bertocci, 1996 e 2002).      ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top7">5</a></SUP><a name="7"></a> Ali&aacute;s,    a presen&ccedil;a de altos dignit&aacute;rios do Estado na principal congrega&ccedil;&atilde;o    do <I>id</I> no <I>eidgah</I> &#151; termo que designa o recinto onde se fazem    as ora&ccedil;&otilde;es colectivas do <I>id ul-Fitr</I> e <I>id ul--Adha</I>    &#151;, criado pela Dhaka City Corporation, &eacute; bem reveladora da import&acirc;ncia    pol&iacute;tica do evento e as preocupa&ccedil;&otilde;es de Azan n&atilde;o    constituem, a este n&iacute;vel, uma excep&ccedil;&atilde;o.      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top8">6</a></SUP><a name="8"></a> &Eacute; o    termo usado para classificar o marido da irm&atilde; de ego.      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top9">7</a><a name="9"></a></SUP> Estes grupos    s&atilde;o organizados pelos v&aacute;rios talhantes espalhados pela cidade,    que, perante a impossibilidade de responderem adequadamente &agrave; procura,    organizam grupos de pessoas, entre as quais se encontra algu&eacute;m com experi&ecirc;ncia    nas actividades de talhante que coordena as actividades. Os pr&oacute;prios    talhantes, nesta altura do ano, fazem os sacrif&iacute;cios e depois entregam    a carne aos clientes que os encomendaram.      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top10">8</a><a name="10"></a></SUP> Atrav&eacute;s    deste acto, o sangue, enquanto subst&acirc;ncia <I>halal,</I> portanto impr&oacute;pria    para consumo, abandona o corpo da v&iacute;tima.      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top11">9</a><a name="11"></a></SUP> Entre os    meus interlocutores, assim como no Bangladesh, a unidade dom&eacute;stica &eacute;    designada pelo termo <I>bari</I> e, embora na literatura sobre o tema se reconhe&ccedil;a    que <I>bari</I> n&atilde;o &eacute; o mesmo que fam&iacute;lia, limitarei as    minhas observa&ccedil;&otilde;es &agrave;s casas de fam&iacute;lia. A composi&ccedil;&atilde;o    destas varia, consoante as mudan&ccedil;as c&iacute;clicas, no tamanho e composi&ccedil;&atilde;o    de grupos dom&eacute;sticos vi&aacute;veis, baseados na fam&iacute;lia. Idealmente,    os membros da <I>bari</I> correspondem ao grupo de descend&ecirc;ncia at&eacute;    &agrave; morte do patriarca, podendo ir de uma fam&iacute;lia nuclear a uma    fam&iacute;lia extensa com v&aacute;rias gera&ccedil;&otilde;es &#151; os pais,    os filhos adultos com os respectivos filhos e esposas e as filhas solteiras.    Ap&oacute;s a morte do pai &eacute; frequente os irm&atilde;os permanecerem    na resid&ecirc;ncia conjunta, continuando a administrar colectivamente os bens    da unidade at&eacute; &agrave; morte da m&atilde;e, formando assim uma fam&iacute;lia    alargada ou indivisa. Depois disto, a m&eacute;dio prazo, a autonomiza&ccedil;&atilde;o    dos irm&atilde;os &eacute; frequente, fundando a sua pr&oacute;pria casa. A    <I>bari</I> &eacute;, para al&eacute;m de uma unidade de consumo, uma forma    de produ&ccedil;&atilde;o conjunta, &eacute; uma unidade corporativa. Todos    os bens s&atilde;o colectivamente administrados e est&atilde;o normalmente sob    a autoridade do pai. Depois da sua morte s&atilde;o divididos entre os filhos    e a m&atilde;e.      <P ALIGN="JUSTIFY">&nbsp;     <P ALIGN="JUSTIFY"><a href="#top2">*</a><a name="2" id="2"></a> CRIA, Instituto    Superior da Empresa e do Trabalho, Av. For&ccedil;as Armadas, s. n., ed. ISCTE,    salas 2N7 e 2N9/cacifo 237, 1600-083 Lisboa, Portugal. e-mail: <a href="mailto:jmapril@gmail.com">jmapril@gmail.com</a>.      <P ALIGN="JUSTIFY"><a href="#top1">**</a><a name="1"></a> Gostaria de agradecer    o apoio da Funda&ccedil;&atilde;o para a Ci&ecirc;ncia e a Tecnologia atrav&eacute;s    da bolsa SFRH/BD/13237/2003, sem a qual toda esta pesquisa teria sido imposs&iacute;vel.    Agrade&ccedil;o as leituras e sugest&otilde;es dos <I>referees</I> da revista    <I>An&aacute;lise Social,</I> que tiveram um papel imprescind&iacute;vel na    reformula&ccedil;&atilde;o do texto original. Gostaria ainda de agradecer a    Cristiana Bastos, Ramon Sarr&oacute;, Ruy Blanes, Lu&iacute;s Vasconcelos e    Joana Ramalho pelas suas inestim&aacute;veis sugest&otilde;es. Todas as incorrec&ccedil;&otilde;es    s&atilde;o, obviamente, da minha exclusiva responsabilidade.      <P ALIGN="JUSTIFY">&nbsp;     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
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