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<journal-title><![CDATA[Análise Social]]></journal-title>
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<publisher-name><![CDATA[Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa]]></publisher-name>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA["Fazer o santo": dom, iniciação e historicidade nas religiões afro-brasileiras]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[`Making the saint': gift, initiation and historicity in Afro-Brazilian religions]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[In the Afro-Brazilianist tradition, the description of initiation into candomblé is a crucial plank in the argument for the authenticity of the African religious tradition in Brazil. Critics of this literature have questioned the discourse of authenticity, but few have sought to go beyond that critique. This article sets out to examine the way Afro-Brazilian religions incorporate history in their rituals. In order to grasp the historicity of these rituals, one needs to understand how Afro-Brazilian religions are the product of a dialectical relationship between initiation and gift, the reproduction of tradition and the ability of mediums to incorporate new spirits.cand]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p><b>&quot;Fazer o santo&quot;: dom, inicia&ccedil;&atilde;o e historicidade    nas religi&otilde;es afro-brasileiras</b><a href="#15">**</a><a name="top15"></a>  </p>     <p><b>Roger Sansi</b><a href="#14">*</a><a name="top14"></a><a href="#14">    </a></p>     <P ALIGN="JUSTIFY">Na tradi&ccedil;&atilde;o afro-brasilianista, a descri&ccedil;&atilde;o    da inicia&ccedil;&atilde;o no candombl&eacute; &eacute; central para o argumento    da autenticidade da tradi&ccedil;&atilde;o religiosa africana no Brasil. Os    cr&iacute;ticos desta literatura questionaram o discurso da autenticidade. Por&eacute;m,    poucos tentaram ir mais longe nessa cr&iacute;tica. Neste artigo, o nosso interesse    &eacute; ver como as religi&otilde;es afro-brasileiras incorporam a hist&oacute;ria    atrav&eacute;s das suas pr&aacute;ticas rituais. Para entender a historicidade    destas pr&aacute;ticas rituais &eacute; preciso entender de que forma as religi&otilde;es    afro-brasileiras resultam de uma rela&ccedil;&atilde;o dial&eacute;ctica entre    a inicia&ccedil;&atilde;o e o dom, a reprodu&ccedil;&atilde;o da tradi&ccedil;&atilde;o    e&#160;a capacidade dos <I>m&eacute;diuns</I> de incorporarem novos esp&iacute;ritos.      <P ALIGN="JUSTIFY"><B>Palavras-chave: </B>candombl&eacute;; inicia&ccedil;&atilde;o;    dom; historicidade.      <p>&nbsp;</p>     <P ALIGN="JUSTIFY"><B>`Making the saint': gift, initiation and historicity in    Afro-Brazilian religions </B>      <P ALIGN="JUSTIFY">In the Afro-Brazilianist tradition, the description of initiation    into candombl&eacute; is a crucial plank in the argument for the authenticity    of the African religious tradition in Brazil. Critics of this literature have    questioned the discourse of authenticity, but few have sought to go beyond that    critique. This article sets out to examine the way Afro-Brazilian religions    incorporate history in their rituals. In order to grasp the historicity of these    rituals, one needs to understand how Afro-Brazilian religions are the product    of a dialectical relationship between initiation and gift, the reproduction    of tradition and the ability of mediums to incorporate new spirits.cand      <P ALIGN="JUSTIFY"><B>Keywords:</B> candombl&eacute;; initiation; gift; historicity.      <P ALIGN="JUSTIFY">&nbsp;      <P><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b>      ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY">Bruno Latour fez v&aacute;rias vezes refer&ecirc;ncia (1996,    pp. 103-104, e 2001, p. 291) &agrave; express&atilde;o do candombl&eacute; &quot;fazer    o santo&quot;, como exemplo da naturalidade com que outras culturas constroem    os seus agentes sociais. Diz ele que esta express&atilde;o o ajudou a repensar    a forma como a ci&ecirc;ncia tamb&eacute;m &quot;faz&quot; os seus agentes e    como essas constru&ccedil;&otilde;es n&atilde;o s&atilde;o meros artif&iacute;cios    ou fetiches, tornando-se realidades aut&oacute;nomas. O argumento &eacute; dirigido    contra os limites de um construtivismo que, como diz Taussig (1993), come&ccedil;a    e acaba na afirma&ccedil;&atilde;o de que a realidade &eacute; uma constru&ccedil;&atilde;o    social &#151; mas n&atilde;o reconhece que as constru&ccedil;&otilde;es sociais    podem tornar-se seres aut&oacute;nomos. Contra o imobilismo deste construtivismo    &#151; para o qual, em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, tudo &eacute; ideologia,    fic&ccedil;&atilde;o, discurso &#151;, Latour prop&otilde;e que se olhe para    a historicidade de determinados eventos, que geram novos valores que n&atilde;o    podem ser reduzidos &agrave; lista de elementos que os constitu&iacute;ram:    no evento, estes elementos <I>gagnent en definition</I> (Latour, 2001, p. 131),    modificam-se e ficam mais definidos na sua rela&ccedil;&atilde;o: por exemplo,    eventos como a revela&ccedil;&atilde;o que ele teve quando ouviu falar sobre    &quot;fazer o santo&quot;.      <P ALIGN="JUSTIFY">Latour n&atilde;o sabia muito sobre candombl&eacute;, mas a    observa&ccedil;&atilde;o que ele fez sobre &quot;fazer o santo&quot; &eacute;    interessante. De facto, no candombl&eacute; os &quot;santos&quot; s&atilde;o    constru&iacute;dos como agentes aut&oacute;nomos, enquanto os filhos-de-santo    se constroem a si mesmos como pessoas. &quot;Fazer o santo&quot; &eacute; um    processo de constru&ccedil;&atilde;o da pessoa em rela&ccedil;&atilde;o com    os esp&iacute;ritos que incorpora, como mostrou Goldman (1985), e o &quot;outro    corpo&quot; destes esp&iacute;ritos, os altares <I>(assentos)</I> (Sansi, 2005).      <P ALIGN="JUSTIFY">Ainda assim, esta narrativa da &quot;feitura do santo&quot;    n&atilde;o corresponde exactamente &agrave;quilo que Latour procurava. O discurso    da feitura do santo &eacute; um discurso das origens &#151; de um processo inici&aacute;tico    e ritualizado que volta sempre ao mesmo ponto, mas n&atilde;o d&aacute; conta    da capacidade transformativa dos eventos: a sua historicidade.      <P ALIGN="JUSTIFY">De facto, n&atilde;o &eacute; s&oacute; ao falar da &quot;feitura    do santo&quot; que podemos entender a rela&ccedil;&atilde;o entre esp&iacute;ritos    e pessoas no candombl&eacute;, ou a constru&ccedil;&atilde;o de pessoas no candombl&eacute;    em geral. Isto porque existe sempre uma s&eacute;rie de elementos nessas rela&ccedil;&otilde;es    e processos que escapam ao discurso c&iacute;clico da inicia&ccedil;&atilde;o:    elementos imprevistos, novos, com uma historicidade particular.      <P ALIGN="JUSTIFY">Na tradi&ccedil;&atilde;o da antropologia afro-brasilianista,    as descri&ccedil;&otilde;es etnogr&aacute;ficas da inicia&ccedil;&atilde;o no    candombl&eacute; s&atilde;o centrais para o argumento da autenticidade da tradi&ccedil;&atilde;o    religiosa africana no Brasil<SUP><a href="#1">1</a></SUP><a name="top1"></a>.    Os cr&iacute;ticos dessa literatura afro-brasilianista questionaram essa &quot;tradi&ccedil;&atilde;o    inventada&quot; e o discurso das origens<SUP><a href="#2">2</a><a name="top2"></a></SUP>.      <P ALIGN="JUSTIFY">Por&eacute;m, poucos tentaram ir mais longe nessa cr&iacute;tica    e na afirma&ccedil;&atilde;o de que as tradi&ccedil;&otilde;es afro-brasileiras    n&atilde;o s&atilde;o fixas, mas din&acirc;micas<SUP><a href="#3">3</a><a name="top3"></a></SUP>.    Mas como dar conta desse dinamismo?      <P ALIGN="JUSTIFY">Os cr&iacute;ticos da tradi&ccedil;&atilde;o afro-brasilianista    raramente confrontaram a quest&atilde;o do sincretismo de forma directa: eles    s&oacute; atacaram a procura da &quot;autenticidade&quot; ou a &quot;inven&ccedil;&atilde;o    da tradi&ccedil;&atilde;o&quot;. Mas ser&aacute; esta cr&iacute;tica realmente    suficiente? Ser&aacute; suficiente dizer simplesmente que a autenticidade ou    a tradi&ccedil;&atilde;o s&atilde;o instrumentos do poder, uma constru&ccedil;&atilde;o?    Mas por que toma a constru&ccedil;&atilde;o essa forma? E como &eacute; poss&iacute;vel    que essa constru&ccedil;&atilde;o adquira autonomia, nos termos de Latour, isto    &eacute;, uma historicidade pr&oacute;pria?      <P ALIGN="JUSTIFY">Se, por um lado, o discurso da inicia&ccedil;&atilde;o nega    a rela&ccedil;&atilde;o das religi&otilde;es afro-brasileiras com a hist&oacute;ria,    sugerindo que elas vivem de costas viradas para a mesma [o famoso <I>principe    de coupure</I> de Bastide (1978)], os cr&iacute;ticos do discurso afro-brasilianista    tentam situar as religi&otilde;es afro-brasileiras num contexto hist&oacute;rico.    Mas at&eacute; agora eles n&atilde;o tiveram muito interesse em analisar como    &eacute; que essas religi&otilde;es se relacionam com a hist&oacute;ria, isto    &eacute;, como &eacute; que elas incorporam os factos hist&oacute;ricos dentro    de um discurso ritual pr&oacute;prio. O fantasma do &quot;sincretismo&quot;    est&aacute;, provavelmente, por detr&aacute;s dessa nega&ccedil;&atilde;o.      <P ALIGN="JUSTIFY">O problema fundamental, no fundo, &eacute; que a quest&atilde;o    do sincretismo (e do anti-sincretismo) e a quest&atilde;o da hist&oacute;ria    s&atilde;o a mesma quest&atilde;o. Neste artigo propomos dar uma resposta em    rela&ccedil;&atilde;o &agrave; forma como as religi&otilde;es afro-brasileiras    lidam com a hist&oacute;ria. A nossa proposta tenta sintetizar as duas posi&ccedil;&otilde;es    &#151; o discurso afro-brasilianista sobre a inicia&ccedil;&atilde;o com a cr&iacute;tica    do afro-brasilianismo, que se prop&otilde;e descrever essas religi&otilde;es    no seu contexto social. Para atingir este objectivo &eacute; necess&aacute;rio    manter uma perspectiva mais abrangente, entendendo primeiro que a inicia&ccedil;&atilde;o    n&atilde;o &eacute; a &uacute;nica forma atrav&eacute;s da qual se produz e    reproduz o povo-de-santo. Existem outras possibilidades: por exemplo, o &quot;dom&quot;    de certas pessoas para fazer &quot;santos&quot;.      <P ALIGN="JUSTIFY">H&aacute; duas formas de fazer &quot;santos&quot;, como Boyer    j&aacute; referiu (1996). Uma seria a capacidade inata, o &quot;dom&quot; para    encontrar e incorporar esp&iacute;ritos &#151; a mediunidade dos esp&iacute;ritas.    A outra seria a &quot;inicia&ccedil;&atilde;o&quot;, o processo ritual atrav&eacute;s    do qual a m&atilde;e-de-santo, como iniciadora, &quot;p&otilde;e a m&atilde;o    na cabe&ccedil;a&quot;, mostra os segredos do culto e d&aacute; os elementos    necess&aacute;rios para que a pessoa &quot;assente&quot; os santos. O &quot;dom&quot;    dos m&eacute;diuns, por outro lado, permite produzir inova&ccedil;&otilde;es    rituais, produzir novos esp&iacute;ritos e novos elementos nos altares.      ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY">Estas inova&ccedil;&otilde;es, interpretadas como &quot;sincretismo&quot;,    t&ecirc;m sido objecto da suspeita de muitos antrop&oacute;logos da tradi&ccedil;&atilde;o    afro-brasilianista, que sempre valorizaram as &quot;tradi&ccedil;&otilde;es&quot;    baseadas na inicia&ccedil;&atilde;o, essencialmente a tradi&ccedil;&atilde;o    <I>ketu,</I> das grandes casas de candombl&eacute; de Salvador da Bahia. Como    descreveu Boyer (1996), nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas o prest&iacute;gio    destas casas e a sua ortodoxia t&ecirc;m vindo a impor-se &agrave; diversidade    das pr&aacute;ticas baseadas no &quot;dom&quot; dos m&eacute;diuns. De facto,    este movimento anti-sincretismo est&aacute; a gerar transforma&ccedil;&otilde;es    hist&oacute;ricas na pr&aacute;tica das religi&otilde;es afro-brasileiras. Liderado    pela m&atilde;e-de-santo do <I>Il&eacute; Ax&eacute; Op&ocirc; Afonja,</I> M&atilde;e    Stella, este movimento promoveu uma reforma nas pr&aacute;ticas do culto baseada    na ren&uacute;ncia ao culto dos esp&iacute;ritos n&atilde;o considerados africanos    (como os caboclos) nas casas de candombl&eacute; <I>ketu,</I> al&eacute;m da    restri&ccedil;&atilde;o do culto cat&oacute;lico nos terreiros e da retirada    das imagens cat&oacute;licas das casas dos santos (Bacelar e Caroso, 1999; Santos,    M. S., 1995; Santos, 1987). Noutro lugar (Sansi, 2007) tento explicar como esse    anti-sincretismo &eacute; outra estrat&eacute;gia de lidar com a hist&oacute;ria.    Tal como o chamado &quot;sincretismo&quot;, o anti-sincretismo &eacute; um processo    de reinven&ccedil;&atilde;o do culto baseado no &quot;dom&quot; que algumas    m&atilde;es-de-santo possuem para definir as inova&ccedil;&otilde;es rituais    como um retorno &agrave;s origens.      <P ALIGN="JUSTIFY">No entanto, n&atilde;o &eacute; objectivo deste artigo discutir    o anti-sincretismo. Aqui iremos focar-nos na problem&aacute;tica mais tradicional    do sincretismo para podermos definir de forma mais clara os termos da quest&atilde;o.    Come&ccedil;amos por propor ir mais longe na distin&ccedil;&atilde;o estabelecida    por Boyer: n&atilde;o podemos simplesmente dizer que a inicia&ccedil;&atilde;o    se imp&otilde;e ao dom, mas o facto &eacute; que eles est&atilde;o mutuamente    implicados. O &quot;dom&quot; pode ser t&atilde;o imprescind&iacute;vel nas    religi&otilde;es afro-brasileiras como a inicia&ccedil;&atilde;o. O conhecimento    que a inicia&ccedil;&atilde;o perde por esquecimento, desist&ecirc;ncia e conflitos    interpessoais &eacute; substitu&iacute;do pela inspira&ccedil;&atilde;o dos    m&eacute;diuns, que estabelecem atrav&eacute;s do seu &quot;dom&quot; um contacto    directo com os esp&iacute;ritos. Nesses termos, o dom e a inicia&ccedil;&atilde;o    geram uma dial&eacute;ctica hist&oacute;rica da produ&ccedil;&atilde;o de conhecimento,    no qual novos esp&iacute;ritos, objectos e valores s&atilde;o incorporados.      <P ALIGN="JUSTIFY">Esta dial&eacute;ctica hist&oacute;rica transcende as oposi&ccedil;&otilde;es    est&aacute;ticas entre a tradi&ccedil;&atilde;o e o sincretismo que dominaram    o estudo das religi&otilde;es afro-brasileiras. O objectivo deste artigo &eacute;    mostrar como as pr&aacute;ticas, objectos e esp&iacute;ritos supostamente &quot;sincr&eacute;ticos&quot;    s&atilde;o transposi&ccedil;&otilde;es de hist&oacute;rias pessoais e colectivas    incorporadas nas pr&aacute;ticas do candombl&eacute;. O sincretismo n&atilde;o    &eacute; outra coisa sen&atilde;o hist&oacute;ria.      <P ALIGN="JUSTIFY"> Nas p&aacute;ginas seguintes come&ccedil;arei por apresentar    uma narra&ccedil;&atilde;o &quot;tradicional&quot; da inicia&ccedil;&atilde;o,    seguindo o modelo <I>ketu,</I> para me concentrar depois num caso espec&iacute;fico    que n&atilde;o se ajusta a este modelo tradicional. &Eacute; o caso de Madalena,    uma m&atilde;e-de-santo que trabalha muito a partir do pr&oacute;prio &quot;dom&quot;.      <P>&nbsp;     <P><b>Corpos e altares</b>      <P ALIGN="JUSTIFY">Muitas filhas-de-santo afirmam que n&atilde;o se iniciaram    por vontade pr&oacute;pria, mas porque um orix&aacute;, caboclo ou entidade    as obrigou a oferecer a sua devo&ccedil;&atilde;o (a no&ccedil;&atilde;o de    &quot;obriga&ccedil;&atilde;o&quot; &eacute; central no candombl&eacute;, muito    mais do que a ideia abstracta de &quot;f&eacute;&quot;). Essas entidades podem    causar afli&ccedil;&otilde;es f&iacute;sicas, mentais e sociais se as pessoas    que eles querem &quot;para si&quot; n&atilde;o cumprirem as suas obriga&ccedil;&otilde;es    para com eles.<B> </B>Quando algu&eacute;m vai a uma casa de candombl&eacute;    e se queixa de uma afli&ccedil;&atilde;o, seguindo o modelo oficial do <I>ketu,</I>    aquilo que uma m&atilde;e-de-santo faz em primeiro lugar &eacute; <I>jogar os    b&uacute;zios</I>. Este or&aacute;culo dir&aacute; ao paciente quem s&atilde;o    os seus orix&aacute;s e quais as causas dos seus males. Para os acalmar pode    oferecer-se inicialmente um <I>bori</I>, um ritual de &quot;dar de comer a cabe&ccedil;a&quot;<SUP><a href="#4">4</a><a name="top4"></a></SUP>.    A cabe&ccedil;a &eacute; um receptor de poder e &quot;dar de comer a cabe&ccedil;a&quot;    &eacute;, de facto, &quot;fechar o corpo&quot;, protegendo-o dos feiti&ccedil;os.    Este ritual sup&otilde;e a celebra&ccedil;&atilde;o de uma alian&ccedil;a com    o orix&aacute; porque &eacute; em cima da cabe&ccedil;a, no <I>ori,</I> que    os orix&aacute;s se apoderam do seu devoto. No <I>bori,</I> a m&atilde;e-de-santo    faz ofertas &agrave; cabe&ccedil;a da pessoa e ao orix&aacute; &quot;dono&quot;    da cabe&ccedil;a. Distribuem-se diversos tipos de comidas, depositadas e esculpidas    na cabe&ccedil;a da paciente e no altar do &quot;santo&quot;, chamado <I>assento</I>.    Sacrifica-se um galo no <I>bori</I> e a paciente deve beber o sangue, que &eacute;    tamb&eacute;m derramado no <I>assento</I>. Depois disso, a paciente tem de ficar    a dormir na casa do santo, e inclusive ficar a&iacute; mais alguns dias, para    que o seu <I>ori </I>tenha tempo de comer.<B> </B>      <P ALIGN="JUSTIFY">O <I>bori </I>cria uma rela&ccedil;&atilde;o entre a casa de    candombl&eacute; e a paciente: a m&atilde;e-de-santo imp&otilde;e a &quot;m&atilde;o    na cabe&ccedil;a&quot; da nova iniciada e alimenta-a; a vasilha onde ficam depositados    os restos do ritual ficar&aacute; no altar do orix&aacute;, transformada em    <I>assento; </I>o santo fica <I>assentado </I>na vasilha. Depois disso, a paciente    pertence &agrave; casa, tem uma &quot;obriga&ccedil;&atilde;o&quot; para com    o orix&aacute; e com a casa: ela fica na base de uma hierarquia que culmina    na m&atilde;e-de-santo. Agora ela tem de acudir com periodicidade &agrave; lavagem    ritual <I>(oss&eacute;)</I> do <I>assento </I>(Binnon-Crossard, 1970, p. 123).      <P ALIGN="JUSTIFY">Al&eacute;m dos restos dos rituais, os <I>assentos</I> cont&ecirc;m    os <I>fundamentos</I> dos orix&aacute;s, os elementos onde eles moram: pedras,    ferramentas de metal ou madeira, ou conchas, dependendo do &quot;santo&quot;.    O altar de candombl&eacute; &eacute; composto essencialmente por um <I>assento    </I>central, o <I>assento</I> da casa, no qual est&atilde;o enterrados os <I>fundamentos</I>    com o <I>ax&eacute;,</I> ou for&ccedil;a vital da casa, rodeados das vasilhas    das iniciadas. Assim, os <I>assentos</I> reproduzem materialmente a hierarquia    dos membros da casa. Os altares de <I>assentos</I> ficam ocultos nos quartos    do santo, envoltos em tecidos, fechados em quartos escuros, onde s&atilde;o    fixados, assentados permanentemente, idealmente para toda a vida da iniciada.    Ningu&eacute;m, excepto a m&atilde;e-de-santo,<I> </I>pode v&ecirc;-los. O<I>    assento</I> &eacute; um mist&eacute;rio latente. A sua invisibilidade tem como    consequ&ecirc;ncia multiplicar os poderes da sua presen&ccedil;a, tornando-a    percept&iacute;vel apenas indirectamente. Estes poderes revelar-se-&atilde;o    publicamente no corpo humano apenas nos rituais de possess&atilde;o. S&oacute;    as iniciadas &quot;caem no santo&quot; &#151; s&atilde;o possu&iacute;das. Estas    inicia das chamam-se filhas-de-santo. A maioria das pessoas com <I>santo assentado</I>    nunca se inicia porque n&atilde;o tem o dom da mediunidade.      <P ALIGN="JUSTIFY">Nos rituais de possess&atilde;o, o santo &eacute; chamado em    primeiro lugar nos <I>assentos,</I> com sacrif&iacute;cios e/ ou oferendas.    As oferendas, juntamente com a m&uacute;sica dos atabaques, &quot;abrem o caminho&quot;    do <I>ax&eacute;,</I> a for&ccedil;a vital do santo, do assento &agrave; cabe&ccedil;a    <I>(ori),</I> efectuando uma transfer&ecirc;ncia do objecto para o corpo possu&iacute;do.      ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY">O corpo e o <I>assento</I> s&atilde;o os dois estados atrav&eacute;s    dos quais o &quot;santo&quot; se faz presente. O <I>assento</I> &eacute; fixo,    enquanto o corpo humano dan&ccedil;a. No <I>assento,</I> o &quot;santo&quot;    &eacute; alimentado; nas festas, o &quot;santo&quot; incorporado &eacute; o    anfitri&atilde;o. No <I>assento,</I> o &quot;santo&quot; fica escondido e, no    corpo da iniciada, ele torna-se p&uacute;blico, vibrante, triunfante.      <P ALIGN="JUSTIFY">Poder&iacute;amos dizer que o objectivo principal da inicia&ccedil;&atilde;o    &eacute; &quot;domesticar&quot; o corpo, preparando-o para incorporar o orix&aacute;.    Nas suas primeiras manifesta&ccedil;&otilde;es, o &quot;santo&quot; pode entrar    no corpo do seu &quot;cavalo&quot; com muita viol&ecirc;ncia. Com a inicia&ccedil;&atilde;o,    o corpo fica preparado para incorporar e aprende a controlar e a focalizar o    &quot;santo&quot;. Depois de uma longa reclus&atilde;o na intimidade dos <I>assentos</I>    no quarto do santo para aprender os segredos do culto, as cantigas, o uso das    folhas, os sacrif&iacute;cios, a iniciada sai do quarto no <I>ab&aacute; bax&eacute;</I>.    A cabe&ccedil;a da iniciada &eacute; rapada pela m&atilde;e-de-santo<I>,</I>    que faz um pequeno corte no cimo da cabe&ccedil;a, onde &eacute; derramado o    sangue dos sacrif&iacute;cios e outros elementos do <I>ax&eacute;</I>. Depois    disso, a cabe&ccedil;a da iniciada &eacute; pintada com os motivos do orix&aacute;    e ela sai para o ritual p&uacute;blico <I>(sa&iacute;da de santo)</I>. Cai possu&iacute;da    e o &quot;santo&quot; grita o seu nome. O &quot;santo&quot; est&aacute; feito.      <P ALIGN="JUSTIFY">&quot;Fazer o santo&quot; &eacute; um processo muito concreto    e material: n&atilde;o &eacute; s&oacute; uma educa&ccedil;&atilde;o sobre mitos,    cantigas e rezas, &eacute; tamb&eacute;m um <I>habitus</I> corporal do santo.    Para tal, a iniciada deve aprender as t&eacute;cnicas do corpo essenciais para    a inicia&ccedil;&atilde;o, fazer oferendas e construir altares. &Eacute; um    processo dial&eacute;ctico de objectiva&ccedil;&atilde;o e apropria&ccedil;&atilde;o,    no qual o &quot;santo&quot; &eacute; constru&iacute;do, concretizado no altar    e no corpo. Neste sentido, o santo n&atilde;o &eacute; simplesmente o orix&aacute;,    mas o orix&aacute; daquela pessoa &#151; com umas caracter&iacute;sticas particulares.      <P ALIGN="JUSTIFY">Poder-se-&aacute; dizer que, atrav&eacute;s da inicia&ccedil;&atilde;o,    tamb&eacute;m se constr&oacute;i a pessoa da filha-de-santo. A inicia&ccedil;&atilde;o    dura muitos anos, num interc&acirc;mbio em que a &quot;pessoa&quot; e o &quot;santo&quot;    se constroem mutuamente, porque fazer o santo &eacute;, de facto, fazer-se a    si mesmo. Quando a iniciada tem sete anos de inicia&ccedil;&atilde;o e cumpriu    com as suas obriga&ccedil;&otilde;es rituais, j&aacute; pode abrir a sua casa    de candombl&eacute; (se a sua m&atilde;e-de-santo o permitir), no ritual da    <I>deca,</I> ou &quot;dar a navalha&quot;, com o qual se pode &quot;raspar cabe&ccedil;a&quot;,    iniciar. Por&eacute;m o <I>ax&eacute;,</I> a for&ccedil;a vital da nova casa,    vai permanecer sempre ligado ao <I>ax&eacute;</I> da casa original onde a nova    m&atilde;e-de-santo foi feita; na realidade, &eacute; o mesmo <I>ax&eacute;.</I>      <P ALIGN="JUSTIFY">De certa forma, poder&iacute;amos descrever o processo de inicia&ccedil;&atilde;o    como uma transfer&ecirc;ncia de ag&ecirc;ncia ou poder do santo para a iniciada    desde o momento inicial, no qual ela &eacute; apenas uma paciente sob o controlo    do orix&aacute;, material de possess&atilde;o, at&eacute; ao momento em que    consegue controlar a sua rela&ccedil;&atilde;o com o santo e ajudar os outros    a faz&ecirc;-lo, tornando-se assim m&atilde;e-de-santo.      <P ALIGN="JUSTIFY">Quando a filha-de-santo morre, realiza-se um ritual especial    <I>(o axex&eacute;)</I> n&atilde;o s&oacute; para enterrar o corpo, mas tamb&eacute;m    para ver o que acontece com o <I>assento</I>. A maior parte das vezes o `santo'    aceita deixar o corpo e as vasilhas s&atilde;o quebradas: por&eacute;m, &agrave;s    vezes ele n&atilde;o se quer ir embora e o <I>assento</I> fica na casa, pedindo    o servi&ccedil;o das iniciadas. Nesses casos, as imagens encantadas do santo    e da pessoa podem confundir-se<SUP><a href="#5">5</a><a name="top5"></a></SUP>.      <P ALIGN="JUSTIFY">Esta narra&ccedil;&atilde;o &eacute; perfeitamente c&iacute;clica:    um longo processo hierarquizado de aquisi&ccedil;&atilde;o de conhecimento ritual    mediado pelo poder absoluto da m&atilde;e-de-santo. &quot;A hierarquia &eacute;    tudo: princ&iacute;pio, meios, fim. Sem ela, s&oacute; h&aacute; caos [&#133;]&quot;,    diz M&atilde;e Stella (1995), m&atilde;e-de-santo de um dos mais antigos candombl&eacute;s    da Bahia e grande l&iacute;der do movimento contra o sincretismo. O <I>ax&eacute;,</I>    a for&ccedil;a vital, reproduz-se, mas fica sempre igual a si mesmo.      <P ALIGN="JUSTIFY">Mas a hierarquia n&atilde;o &eacute; tudo. Da mesma maneira    que nem todos s&atilde;o chamados a &quot;fazer o santo&quot;, nem todas as    iniciadas ser&atilde;o m&atilde;es-de-santo. N&atilde;o &eacute; precisa apenas    uma inicia&ccedil;&atilde;o, mas tamb&eacute;m um dom, uma capacidade inata    de reconhecer e comunicar com o santo. O candombl&eacute; n&atilde;o &eacute;    s&oacute; t&eacute;cnica, &eacute; tamb&eacute;m arte, e as pessoas com um dom    particular podem desfrutar desde o in&iacute;cio de uma rela&ccedil;&atilde;o    privilegiada com o seu santo e isso pode gerar conflitos com as suas m&atilde;es-de-santo.      <P ALIGN="JUSTIFY">Os conflitos entre <I>m&atilde;es</I> e <I>filhas</I> s&atilde;o    bastante frequentes. De facto, s&atilde;o t&atilde;o frequentes que s&atilde;o    praticamente uma regra<SUP><a href="#6">6</a><a name="top6"></a></SUP>. Quando    as filhas-de-santo tentam abandonar a casa de candombl&eacute;<SUP><a href="#7">7</a><a name="top7"></a></SUP>,    uma das suas maiores dificuldades ser&aacute; a de conseguir levar os seus <I>assentos,</I>    que ficam em poder da m&atilde;e-de-santo, como zeladora dos quartos dos santos<I>.</I>    Para a m&atilde;e-de-santo,<I> </I>perder um <I>assento </I>&eacute; como perder    uma parte do seu <I>assento,</I> j&aacute; que o seu pr&oacute;prio <I>ax&eacute;</I>    fora vertido nos outros. Isto &eacute;, &eacute; como se uma parte de si mesma    fosse roubada. Estas disputas podem ser interpretadas como lutas pelo &quot;capital    simb&oacute;lico&quot;, mas considero que essa express&atilde;o n&atilde;o faz    justi&ccedil;a &agrave;quilo que est&aacute; em jogo nestes casos. N&atilde;o    estamos a falar s&oacute; da luta por um valor instrumental objectivo (um capital),    mas de lutas sobre a pr&oacute;pria identidade, a pr&oacute;pria vida. &Eacute;    uma luta sobre aquilo que se<I> &eacute;,</I> e n&atilde;o s&oacute; sobre aquilo    que se <I>tem.</I> Vamos voltar a este ponto mais tarde; por enquanto basta    dizer que a m&atilde;e v&ecirc; a filha e os <I>assentos</I> como parte do seu    <I>ax&eacute;</I>, da sua for&ccedil;a vital, dela mesma. Assim, n&atilde;o    &eacute; de estranhar que apenas atrav&eacute;s da viol&ecirc;ncia e do roubo    &eacute; que o cord&atilde;o umbilical entre m&atilde;e e filha pode ser cortado.      <P ALIGN="JUSTIFY">Quando conseguem sair da casa da m&atilde;e, as filhas-de-santo    podem reconstruir um altar na sua pr&oacute;pria casa. Se porventura possu&iacute;rem    o dom necess&aacute;rio e conseguirem que as pessoas as reconhe&ccedil;am como    tal, podem tornar-se, elas mesmas,<I> </I>m&atilde;es-de-santo. Na sec&ccedil;&atilde;o    seguinte apresentarei o caso de Madalena, uma m&atilde;e-de-santo que deve menos    &agrave; sua inicia&ccedil;&atilde;o do que ao seu dom.      ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY">&nbsp;      <P><b>Os &quot;santos&quot; de Madalena</b>      <P ALIGN="JUSTIFY">Madalena &eacute; uma mulher negra de 40 e poucos anos. Ela    mora num bairro pobre de Cachoeira, uma cidade perto de Salvador da Bahia, conhecida    pelas suas tradi&ccedil;&otilde;es africanas. Quando conheci Madalena, ela estava    a come&ccedil;ar a construir a sua casa de candombl&eacute;. A primeira festa    a que assisti na casa foi o <I>deca</I> de Madalena &#151; o ritual que a institu&iacute;a    como m&atilde;e-de-santo.      <P ALIGN="JUSTIFY">Madalena j&aacute; era uma m&atilde;e-de-santo. No entanto,    algumas pessoas questionavam o facto de ela n&atilde;o ter passado pelo ritual    <I>ketu</I> da <I>deca</I> e de que as suas pr&aacute;ticas n&atilde;o eram    ortodoxas. Originalmente, o ritual <I>ketu</I> vem das grandes casas de Salvador    &#151; Casa Branca e Op&ocirc; Afonja. Na altura (ano 2000), a Federa&ccedil;&atilde;o    de Cultos Afro-Brasileiros (FEBACAB), dominada por filhos-de-santo <I>ketu,</I>    apresentava-se como a &uacute;nica fonte poss&iacute;vel de legitima&ccedil;&atilde;o    do candombl&eacute; em Cachoeira, exigindo que as casas de candombl&eacute;    adaptassem o ritual <I>ketu</I>. Para legitimar a sua posi&ccedil;&atilde;o    e receber o &quot;certificado&quot; da FEBACAB, Madalena tomou a <I>deca</I>    da outra m&atilde;e-de-santo iniciada no <I>ketu</I>. Com este ritual, a sua    casa tornou-se <I>ketu</I>. Mas Madalena n&atilde;o estava completamente satisfeita    com essa transforma&ccedil;&atilde;o: disse-me que antes da <I>deca </I>tinha    ido procurar &aacute;gua do <I>ax&eacute;</I> de uma casa <I>ketu</I> e que    o alguidar com a &aacute;gua se partira. Apesar do mau press&aacute;gio, o ritual    seguiu em frente.      <P ALIGN="JUSTIFY">Para Madalena, o &quot;dono&quot; da casa n&atilde;o &eacute;    nenhum orix&aacute; do <I>ketu,</I> mas um &iacute;ndio do Amazonas: o caboclo    Oxossi. Quando tinha 7 anos, Madalena viu a m&atilde;e matar uma cobra no mato,    debaixo de uma cachoeira. Naquele momento, ela entrou em transe pela primeira    vez. Madalena n&atilde;o o sabia ainda, mas pela primeira vez tinha incorporado    o caboclo Oxossi. Sem saber porqu&ecirc;, dirigiu-se ao ninho da cobra e levou    os ovos para casa, escondendo-os debaixo da cama. Quando a m&atilde;e viu as    cobrinhas, assustou-se muito e decidiu que ela tinha de ir para uma casa de    candombl&eacute;. Ela foi iniciada a tr&ecirc;s orix&aacute;s: Ians&atilde;,    Oxum e Omulu. Madalena nunca teve uma boa rela&ccedil;&atilde;o com o pai-de-santo    porque ele era feiticeiro e abusava dos filhos-de-santo<I>. </I>Hoje ela acha    que o caboclo Oxossi resistia &agrave; inicia&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o queria    que o pai-de-santo pusesse a &quot;m&atilde;o na cabe&ccedil;a&quot; de Madalena.      <P ALIGN="JUSTIFY">Depois da inicia&ccedil;&atilde;o, Madalena perdeu o interesse    pelo candombl&eacute;. Foi s&oacute; alguns anos mais tarde que o caboclo come&ccedil;ou    a provocar crises frequentes, vis&otilde;es e sono. Assustada, tornou-se crente    da Igreja Universal do Reino de Deus. Mas n&atilde;o resultou. Uma amiga levou-a    a uma casa de candombl&eacute;, e foi a&iacute; que o caboclo Oxossi, incorporado    num homem, lhe disse que, se ela ficasse ao seu servi&ccedil;o, ficaria curada.    Madalena resistiu durante muito tempo, at&eacute; que o caboclo amea&ccedil;ou    matar a sua fam&iacute;lia. Pouco tempo depois o marido morreu de repente.      <P ALIGN="JUSTIFY">Madalena decidiu tomar conta do caboclo: construiu um <I>assento</I>    em sua casa e come&ccedil;ou a dar uma festa anual de <I>obriga&ccedil;&atilde;o</I>.    Os caboclos s&atilde;o esp&iacute;ritos nativos, &quot;donos da terra&quot;,    s&iacute;mbolos nacionais historicamente vinculados &agrave; independ&ecirc;ncia    do Brasil e &agrave; Bahia (Santos, J. T., 1995). As festas do caboclo na casa    de Madalena come&ccedil;am sempre com os hinos do Brasil e da Cachoeira e as    cores do caboclo s&atilde;o as da bandeira brasileira. Nas primeiras vezes que    Madalena o incorporou, ele era &quot;muito bravo&quot;: n&atilde;o dan&ccedil;ava,    &quot;falava grego&quot;, era um &iacute;ndio selvagem. Mas outros caboclos    de outras casas, que vinham &agrave;s festas, ensinaram-no a cantar, a dan&ccedil;ar    e a falar.      <P ALIGN="JUSTIFY">O caboclo come&ccedil;ou a fazer trabalhos e a realizar milagres.    Com o trabalho do caboclo, Madalena come&ccedil;ou a transformar a sua casa    numa casa de candombl&eacute;. Inicialmente, ela fazia festas s&oacute; para    familiares e amigos, mas depois a festa come&ccedil;ou a crescer: o seu caboclo    tornou-se famoso na Cachoeira. Muitos vinham pedir ajuda, fazer limpezas, trabalhos    (feiti&ccedil;os) e <I>ebos</I> (oferendas). Madalena aprendeu a fazer essas    coisas com o caboclo, j&aacute; que o seu pai-de-santo n&atilde;o lhe tinha    ensinado muito. Nas palavras de Madalena, &quot;ningu&eacute;m me ensinou nada,    tudo vem do dom que eu tenho&quot;<SUP><a href="#8">8</a><a name="top8"></a></SUP>.    O dom de ver, encontrar e incorporar esp&iacute;ritos.      <P ALIGN="JUSTIFY">Madalena incorpora outros esp&iacute;ritos para al&eacute;m    do caboclo Oxossi e dos seus tr&ecirc;s orix&aacute;s, Ians&atilde;, Oxum e    Obaluaiy&eacute;. Incorpora tamb&eacute;m o &quot;escravo&quot;, o <I>er&ecirc;    </I>Flor Branca e a cigana Sara. O &quot;escravo&quot;, um<I> </I>exu, &eacute;    assim chamado porque fica ao servi&ccedil;o da m&atilde;e-de-santo, contrariamente    aos orix&aacute;s. Mas a subordina&ccedil;&atilde;o do &quot;escravo&quot; &eacute;    amb&iacute;gua. Ele trabalha por dinheiro e por dinheiro se vende a outro; o    feiti&ccedil;o pode virar-se contra o feiticeiro. O exu &eacute; associado ao    diabo, um diabo brincalh&atilde;o, imprevis&iacute;vel. Muitas vezes o &quot;escravo&quot;    toma a imagem do malandro de rua, ou da prostituta, na sua vers&atilde;o feminina.    O malandro, no imagin&aacute;rio racial brasileiro, &eacute; muitas vezes associado    ao escravo libertino, vadio, que n&atilde;o quer trabalhar. Foi essa a forma    que o &quot;escravo&quot; de Madalena tomou quando apareceu uma vez &agrave;    janela da sua casa. Era um homem negro, alto, elegantemente vestido de fato    de linho branco e com dentes de ouro. Ele procurou que ela acreditasse nele    e para mostrar o seu poder disse, sorrindo, que nessa mesma noite ela veria    o marido chegar tarde, montado numa bicicleta: ele tinha passado a noite com    outra mulher. De facto, o marido chegou de bicicleta: nesse momento, o exu<I>    </I>possuiu Madalena e partiu a bicicleta em duas com as pr&oacute;prias m&atilde;os.      <P ALIGN="JUSTIFY">O <I>er&ecirc;</I> Flor Branca &eacute; filho do caboclo Oxossi.    Os <I>er&ecirc;s</I> s&atilde;o esp&iacute;ritos infantis que acompanham os    orix&aacute;s. Eles s&atilde;o generosos, mas teimosos e temperamentais, como    as crian&ccedil;as. Flor Branca, em vida, era um <I>menino de rua</I> &#151;    uma figura ic&oacute;nica do Brasil urbano actual. Ele gosta de brincar como    os meninos de rua <I>maconheiro</I>s e da m&uacute;sica <I>reggae</I>. Tal como    o pai, Flor Branca &eacute; hospitaleiro e organiza grandes festas ao longo    de todo o ano, festas cheias de comida, doces, m&uacute;sica e brincadeiras.      ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY">Sara, a cigana, tamb&eacute;m tem a sua hist&oacute;ria especial.    As ciganas, como as <I>pombas giras</I> (os exus<I> </I>femininos), s&atilde;o    &quot;mulheres do mundo&quot; que ajudam outras mulheres nas quest&otilde;es    sentimentais. A cigana Sara aparecia a Madalena desde adolescente, quando ela    tinha problemas de amor: quando o primeiro marido a abandonou, a cigana apareceu-lhe,    prometendo-lhe que em breve iria encontrar outro. Madalena tamb&eacute;m d&aacute;    festas regulares &agrave; cigana, onde l&ecirc; o <I>tarot</I>. As festas de    Sara s&atilde;o muito elegantes: ela fuma cigarros com boquilha e bebe champanhe.    Tal como o <I>er&ecirc;</I>, ela n&atilde;o gosta dos atabaques do candombl&eacute;:    s&oacute; ouve m&uacute;sica cigana.      <P ALIGN="JUSTIFY">Os esp&iacute;ritos s&atilde;o todos muito diferentes. O caboclo    Oxossi &eacute; um &iacute;ndio selvagem, o <I>er&ecirc; </I>&eacute; um menino    de rua, Sara uma cigana sofisticada. Al&eacute;m de serem diferentes, eles mudam    com o tempo, crescem espiritualmente com Madalena e tornam-se personalidades    complexas. A sua hist&oacute;ria e caracter&iacute;sticas tornam-se familiares    &agrave; comunidade. A rela&ccedil;&atilde;o entre esp&iacute;ritos e pessoas    intensifica-se com o tempo, torna-se &iacute;ntima e subtil.      <P ALIGN="JUSTIFY">O filho-de-santo e os santos crescem juntos. A identidade de    Madalena como m&atilde;e-de-santo est&aacute; presa a estes esp&iacute;ritos,    que d&atilde;o complexidade e plasticidade &agrave; sua pessoa social.      <P ALIGN="JUSTIFY">Por outro lado, a diversidade dos esp&iacute;ritos n&atilde;o    pode ser identificada como degeneresc&ecirc;ncia da religi&atilde;o africana.    Em &Aacute;frica, como conta Stoller (1995), tamb&eacute;m s&atilde;o constantemente    criados novos esp&iacute;ritos, integrando diversos elementos da imagina&ccedil;&atilde;o    hist&oacute;rica popular. Atrav&eacute;s do seu &quot;dom&quot;, os m&eacute;diuns    s&atilde;o capazes n&atilde;o s&oacute; de contactar com antigos deuses africanos,    mas tamb&eacute;m com esp&iacute;ritos ind&iacute;genas e modernos, esp&iacute;ritos    urbanos, malandros, prostitutas e meninos da rua, todos eles elementos ao mesmo    tempo ic&oacute;nicos e marginais da hist&oacute;ria do Brasil. Estes &quot;santos&quot;    populares s&atilde;o imagens da dureza de uma vida quotidiana submetida a viol&ecirc;ncias    muito para l&aacute; do seu controlo. Os &quot;santos&quot; de Madalena n&atilde;o    s&oacute; fazem parte da sua hist&oacute;ria pessoal, mas tamb&eacute;m da hist&oacute;ria    do seu povo e do seu pa&iacute;s.      <P ALIGN="JUSTIFY">&nbsp;      <P><b>O quarto dos santos</b>      <P ALIGN="JUSTIFY">As hist&oacute;rias dos &quot;santos&quot; n&atilde;o se concretizam    apenas nas festas e rituais de possess&atilde;o. Eles tamb&eacute;m se tornam    vis&iacute;veis atrav&eacute;s de objectos e altares. O <I>assento</I> acumula    ao longo do tempo os restos de uma vida de trocas rituais: oferendas, presentes    de flores, perfumes, imagens, fotografias, roupas usadas nas festas, incorporando    uma biografia espiritual e pessoal (Brown, 1996). O povo-de-santo diz que as    pedras dos altares crescem. O constante tratamento ritual estabelece uma rela&ccedil;&atilde;o    altamente determinada e determinante entre o <I>assento</I> e o devoto, at&eacute;    ao ponto em que o altar se torna quase um &oacute;rg&atilde;o externo ao seu    corpo, uma parte da sua <I>persona </I>alargada, nos termos usados por Gell    (1998). Gell toma esta no&ccedil;&atilde;o de Strathern (1986), que, por sua    vez, parte de Mauss, quando afirma que na d&aacute;diva <I>on</I> <I>se donne    en donnant:</I> as pessoas, para criarem uma identidade com o objecto da d&aacute;diva,    d&atilde;o uma parte de si. Para Gell, os objectos que &quot;saem&quot; da pessoa    nas trocas de d&aacute;divas tornam-se &iacute;ndices da pessoa, inst&acirc;ncias    da pessoa extensiva ou distribu&iacute;da.      <P ALIGN="JUSTIFY">Os quartos do santo de Madalena s&atilde;o exuberantes cataratas    de coisas diversas, desde emblemas e imagens a restos de oferendas e sacrif&iacute;cios.    Por exemplo, no altar de Oxum, deusa do amor, da riqueza e da &aacute;gua doce,    vemos vasilhas cheias de objectos: imagens da sereia, perfumes, flores. Tudo    coisas do &quot;agrado&quot; de Oxum. A parede est&aacute; coberta de conchas,    <I>oj&aacute;s</I> dourados, panos usados nas festas para amarrar o orix&aacute;.    &Agrave; frente do altar h&aacute; flores, restos de comida, candeias, dinheiro,    brinquedos.      <P ALIGN="JUSTIFY">Os <I>assentos</I> dos <I>er&ecirc;s</I> est&atilde;o cheios    de brinquedos e bonecas. O <I>assento</I> do caboclo &eacute; uma aldeia, de    facto uma cabana de taipa circular com um tecto c&oacute;nico &#151; a suposta    imagem da cabana &iacute;ndia. Para al&eacute;m das vasilhas, neste caso de    madeira, cont&eacute;m plumas, frutas, arcos e flechas, imagens. Uma vez uma    cobra entrou na aldeia e a&iacute; ficou: o caboclo pegava nela com as m&atilde;os    nas festas. Al&eacute;m disso, existem dois falc&otilde;es, que participam com    o caboclo na festa tamb&eacute;m.      <P ALIGN="JUSTIFY">O <I>assento</I> do &quot;escravo&quot; est&aacute; por detr&aacute;s    da porta da casa, protegendo a entrada &#151; o exu &eacute; o orix&aacute;    das passagens. Coberto com um v&eacute;u, com uma imagem do exu como diabo vermelho    e com bigode e uma <I>pomba gira,</I> &agrave; frente do <I>assento</I> est&atilde;o    algumas candeias e uma oferenda de licor. Debaixo do v&eacute;u est&aacute;    a resid&ecirc;ncia do exu, uma pedra em forma de cabe&ccedil;a de bode que Madalena    encontrou por acaso: a casa da sua irm&atilde; tinha desabado por causa da chuva.    Madalena passou &agrave; frente e ouviu uma voz que vinha debaixo das ru&iacute;nas.    Mais ningu&eacute;m ouviu. Ela come&ccedil;ou a procurar entre as ru&iacute;nas    e ouviu uma voz que lhe pedia para ela a apanhar. Finalmente, encontrou a pedra    e percebeu que era a cabe&ccedil;a do exu.      ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY">Uma vez Madalena contou-me, na brincadeira, que uma m&atilde;e-de-santo    de S&atilde;o Paulo lhe perguntou onde &eacute; que ela tinha comprado as pedras    dos seus altares. Madalena respondeu, a rir, que os orix&aacute;s n&atilde;o    se compram, descobrem-se. Podemos dizer que os elementos dos <I>assentos</I>    devem ser encontrados. Isso n&atilde;o &eacute; necessariamente contradit&oacute;rio    com o facto de alguns dos seus elementos serem mercadorias. Mesmo que sejam    comprados, o que importa &eacute; que tem de existir um elemento de coincid&ecirc;ncia,    um imponder&aacute;vel. As pessoas n&atilde;o fazem um quarto do santo com instru&ccedil;&otilde;es,    como se fosse um arm&aacute;rio do <I>Ikea</I>. N&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida    de que os <I>assentos</I> seguem modelos prescritivos, mas n&atilde;o existe    uma receita para o quarto do santo: ele &eacute; um presente. Os presentes s&atilde;o    mais dif&iacute;ceis de encontrar do que seguir as instru&ccedil;&otilde;es:    t&ecirc;m de corresponder naturalmente &agrave; pessoa para quem o presente    &eacute; feito e nem sempre s&atilde;o f&aacute;ceis de encontrar. De facto,    muitas vezes descobrimos bons presentes por coincid&ecirc;ncia, mais do que    por obriga&ccedil;&atilde;o, quando por acaso encontramos alguma coisa que evoca    algu&eacute;m. Os melhores presentes s&atilde;o sempre o resultado do acaso:    s&atilde;o <I>objets trouv&eacute;s,</I> para usar uma express&atilde;o surrealista,    que transmitem alguma coisa verdadeira da pessoa, alguma coisa que t&iacute;nhamos    eventualmente esquecido.      <P ALIGN="JUSTIFY">Este ponto &eacute; importante para perceber o car&aacute;cter    aparentemente aleat&oacute;rio e desordenado dos objectos acumulados sobre os    altares. Estes elementos n&atilde;o representam separadamente qualidades espec&iacute;ficas    que formem um conjunto l&oacute;gico e ordenado. N&atilde;o h&aacute; um elemento    que represente a &aacute;gua, outro a riqueza, outro o amor, no altar de Oxum.    Pelo contr&aacute;rio, s&atilde;o acumula&ccedil;&otilde;es de presentes, objectos    que as pessoas acham que s&atilde;o do santo. Os altares s&atilde;o o resultado    de uma hist&oacute;ria pessoal e social cont&iacute;nua, acumulada, em processo.    Nos termos usados por Brown, em refer&ecirc;ncia aos altares da Santeria:      <P ALIGN="JUSTIFY">It is possible to see [&#133;] created <I>orich&aacute;</I>    objects as an associated/associatable, mimetic or indexical series, without    the assumption that conceptual blueprints of extended abstract reflection upon    &quot;meanings&quot; intervene in their production. Some practitioners &quot;associate&quot;    more concretely, and others more abstractly [Brown, 1996, p. 99].      <P ALIGN="JUSTIFY">Neste sentido, os elementos que comp&otilde;em o altar s&atilde;o    mais &iacute;ndices da rela&ccedil;&atilde;o entre santo e devoto do que s&iacute;mbolos    do orix&aacute;. Enquanto &iacute;ndices, o valor deles &eacute; a consequ&ecirc;ncia    material de um evento: s&atilde;o o tra&ccedil;o desse evento no qual o santo    foi encontrado e em refer&ecirc;ncia ao qual ele pode fazer-se presente de novo.    Eles s&atilde;o parte da &quot;pessoa alargada&quot; do santo, para citar de    novo Gell (1998). N&atilde;o representam nem simbolizam tanto como fazem presente    o santo. De facto, o duplo significado da palavra &quot;presente&quot; &#151;    &quot;estar no lugar&quot; e &quot;d&aacute;diva&quot; &#151; expressa na perfei&ccedil;&atilde;o    a ambival&ecirc;ncia desses objectos.      <P ALIGN="JUSTIFY">&nbsp;      <P><b>Imagens como &iacute;ndices </b>     <P ALIGN="JUSTIFY">As imagens s&atilde;o um dos tipos de objectos que podem fazer    parte do quarto do santo, ainda que n&atilde;o sejam particularmente centrais.    Originalmente, muitas dessas imagens eram de santos cat&oacute;licos, identificados    com os orix&aacute;s, mas o lugar das imagens &eacute; muito diferente no altar    de candombl&eacute;. Os altares cat&oacute;licos populares no Brasil, que seguem    a tradi&ccedil;&atilde;o barroca, s&atilde;o feitos para serem vistos, para    deslumbrar o devoto numa vis&atilde;o sublime. Mas o poder dos altares no candombl&eacute;    n&atilde;o &eacute; resultado da sua visibilidade, mas da invisibilidade. Assim,    as imagens cat&oacute;licas no quarto do santo n&atilde;o s&atilde;o um objecto    de contempla&ccedil;&atilde;o est&aacute;tica, mas mais um elemento no enriquecimento    da parafern&aacute;lia do &quot;santo&quot;, da &quot;s&eacute;rie indexical&quot;,    como diz Brown (1996), juntamente com os tecidos, flores, oferendas, etc.      <P ALIGN="JUSTIFY">A diversidade das imagens nos altares &eacute; enorme. Al&eacute;m    de imagens estritamente cat&oacute;licas, existem imagens de gesso que nascem    das iconografias populares. As imagens do caboclo, por exemplo, nascem dos monumentos    ao caboclo como s&iacute;mbolo da independ&ecirc;ncia (Kraay, 2006). Outras    iconografias dos caboclos s&atilde;o claramente inspiradas nos filmes de Hollywood    &#151; demonstrando como at&eacute; h&aacute; pouco tempo a imagem dos nativos    era desconhecida no pr&oacute;prio Brasil. Exus e escravos, associados com o    diabo e com a marginalidade, tomam a forma de malvados malhados ou malandros    de fato branco. As <I>pombas giras</I> s&atilde;o dan&ccedil;arinas ou prostitutas    que mostram os seios, &agrave;s vezes com express&otilde;es de malandragem sinistra.    Existem at&eacute; imagens retiradas de obras de arte, como a escrava Anast&aacute;cia,    retirada de pinturas e desenhos do s&eacute;culo xix. As imagens, como os esp&iacute;ritos,    s&atilde;o incont&aacute;veis. Nos mercados populares, nas lojas de objectos    religiosos, podemos seguir a variedade e constante inova&ccedil;&atilde;o na    produ&ccedil;&atilde;o de imagens.      <P ALIGN="JUSTIFY">As imagens, como os santos, tornam vis&iacute;veis, ao mesmo    tempo, hist&oacute;rias privadas e colectivas das religi&otilde;es afro-brasileiras.    As suas iconografias s&atilde;o, por vezes, completamente alheias. Mas o povo-de-santo    reconhece em &iacute;ndios, malandros e prostitutas os esp&iacute;ritos que    eles incorporam. As hist&oacute;rias incorporadas da possess&atilde;o s&atilde;o    assim objectivadas em imagens, apropriando iconografias das mais diversas origens,    reconhecendo o alheio como pr&oacute;prio, o ex&oacute;tico como familiar.      <P ALIGN="JUSTIFY">&nbsp;      ]]></body>
<body><![CDATA[<P><b>Conclus&otilde;es: coisas, pessoas e historicidade</b>      <P ALIGN="JUSTIFY">Para Deoscredes dos Santos, Mestre Didi, alto sacerdote da    tradi&ccedil;&atilde;o ketu, os objectos dos altares      <P ALIGN="JUSTIFY">in themselves are merely material substance. In order to acquire    their symbolic representation they must be consecrated. An object which possesses    all the aesthetic conditions required by the cult, but which was not &quot;prepared&quot;    for it, lacks value [Santos, 1967].      <P ALIGN="JUSTIFY">Como vimos, muitas vezes estes objectos s&atilde;o mais do    que apenas s&iacute;mbolos dos orix&aacute;s. As pessoas n&atilde;o se prostram    perante um peda&ccedil;o de madeira, mas diante de uma certa madeira que n&atilde;o    s&oacute; &eacute; o s&iacute;mbolo de alguma coisa sagrada, como tamb&eacute;m    foi o lugar onde o sagrado se manifestou num evento especial. N&atilde;o &eacute;    qualquer madeira, &eacute; <I>aquela</I> madeira. H&aacute; muito que n&oacute;s,    os antrop&oacute;logos, temos tido medo de falar do poder dos objectos, dos    chamados &quot;fetiches&quot;, tendo passado esse medo aos nossos informantes,    que se tornaram mais fi&eacute;is &agrave; filosofia da linguagem do que os    pr&oacute;prios antrop&oacute;logos. Ainda temos medo da den&uacute;ncia dos    iluministas quando acusavam os africanos de m&aacute; f&eacute; e ignor&acirc;ncia    por adorarem objectos inanimados ou cobras<SUP><a href="#9">9</a></SUP><a name="top9"></a>.    Por&eacute;m, a hist&oacute;ria de Madalena &eacute; f&aacute;cil de entender.    Quando a cobra morreu, ela caiu no santo. Nessa altura teve in&iacute;cio a    rela&ccedil;&atilde;o de Madalena com o caboclo: h&aacute; uma l&oacute;gica    nessa hist&oacute;ria, embora seja uma l&oacute;gica po&eacute;tica, das correspond&ecirc;ncias    simb&oacute;licas; mas n&atilde;o &eacute; imposs&iacute;vel de entender para    os &quot;modernos&quot;. Ningu&eacute;m diz que todos os que matam uma cobra    ficam possu&iacute;dos, pelo contr&aacute;rio: esse evento &eacute; extraordin&aacute;rio,    &uacute;nico, gerando uma conex&atilde;o particular na qual a s&eacute;rie da    causalidade natural e social se sobrep&otilde;e, como diria Breton (1937), para    descrever o &quot;acaso objectivo&quot; <I>(hasard objetif).</I> O &quot;acaso    objectivo&quot; n&atilde;o contradiz a regularidade das leis da natureza, apenas    as ultrapassa e lhes atribui um significado. Como diria Evans-Pritchard, referindo-se    &agrave; bruxaria <I>zande, </I>a cren&ccedil;a nas causas naturais e nos significados    sociais dos eventos n&atilde;o &eacute; contradit&oacute;ria, mas complementar    (Evans-Pritchard, 1976, p. 91).      <P ALIGN="JUSTIFY">N&atilde;o estamos a falar, penso eu, do sagrado-abstracto,    como diz Mestre Didi, mas do concreto-sagrado. Existem condicionalismos contextuais    fundamentais para escolher os objectos. Isto &eacute;, os objectos s&atilde;o    menos escolhidos do que encontrados: eles querem ser encontrados, como vimos    no caso do exu de Madalena. Em Cachoeira h&aacute; muitos altares &quot;naturais&quot;    ou &quot;encontrados&quot;: &aacute;rvores, matos, morros, rios, cachoeiras,    que s&atilde;o reconhecidos como lugares sagrados, santu&aacute;rios. Este facto    pode ser interpretado como um culto da natureza (Landes, 1947), mas, na verdade,    n&atilde;o s&atilde;o muito diferentes de certos santu&aacute;rios cat&oacute;licos:    s&atilde;o locais onde t&ecirc;m acontecido, e podem acontecer de novo, milagres    e onde as pessoas podem entrar em contacto directo com os santos e oferecer    presentes. Em resumo, existem elementos contextuais, coisas, lugares e eventos    particulares que revelam o sagrado por si mesmo, n&atilde;o porque um sacerdote,    ou pai-de-santo, os tenha consagrado.      <P ALIGN="JUSTIFY">O altar &eacute; mais do que uma representa&ccedil;&atilde;o    ou s&iacute;mbolo do sagrado. Os altares s&atilde;o o resultado de hist&oacute;rias    particulares e por isso t&ecirc;m um valor particular, al&eacute;m da sua condi&ccedil;&atilde;o    de s&iacute;mbolos reconhec&iacute;veis. Os objectos dos altares n&atilde;o    s&atilde;o s&iacute;mbolos abstractos, mas &iacute;ndices concretos da mem&oacute;ria    de uma rela&ccedil;&atilde;o pessoal entre &quot;santo&quot; e devoto.      <P ALIGN="JUSTIFY">Os <I>assentos</I> s&atilde;o o resultado de um processo cont&iacute;nuo    de transforma&ccedil;&atilde;o e crescimento, um processo de vida. Os limites    dos altares s&atilde;o os limites da imagina&ccedil;&atilde;o. A insist&ecirc;ncia    de alguns pesquisadores do candombl&eacute; (que frequentemente tamb&eacute;m    s&atilde;o sacerdotes) no car&aacute;cter &quot;simb&oacute;lico&quot; dos altares    lembra o discurso oficial da c&uacute;ria cat&oacute;lica quando reprime os    excessos id&oacute;latras da religiosidade popular. Mas, como diz Brown (1996,    p. 120), h&aacute; uma dimens&atilde;o do culto que n&atilde;o se reduz a actos    puramente t&eacute;cnicos ou rituais. Eu diria que, em geral, o conhecimento    gerado pelas religi&otilde;es afro-brasileiras n&atilde;o se reduz &agrave;    inicia&ccedil;&atilde;o, nascendo tamb&eacute;m do sentido inato das m&atilde;es-de-santo,    o dom para reconhecer o sagrado nos eventos e apropri&aacute;-lo. Eu diria mesmo    que o dom e a inicia&ccedil;&atilde;o s&atilde;o imprescind&iacute;veis um ao    outro para manter viva a religi&atilde;o.      <P ALIGN="JUSTIFY">&Eacute; muito importante insistir em que a for&ccedil;a do    candombl&eacute;, o <I>ax&eacute;,</I> &eacute; descrita como uma for&ccedil;a    viva, acumulada nos fundamentos da casa, nos <I>assentos</I> e nos corpos das    pessoas que a integram. Deve tomar-se conta dela como de uma vida: o seu crescimento    &eacute; org&acirc;nico e n&atilde;o pode ser dividido, separado ou quantificado.    O <I>ax&eacute;</I> fica sempre igual a si, mesmo se &quot;for distribu&iacute;do&quot;    ou &quot;estendido&quot; a outras casas. Certamente que as ideias de Strathern    e Gell sobre a &quot;pessoa alargada&quot;, afirmando que, no interc&acirc;mbio    de d&aacute;divas, as pessoas se d&atilde;o a si mesmas, s&atilde;o centrais    para compreender a vida do <I>ax&eacute;</I>. Nestes casos, como diz Strathern,    &quot;objects are created not in contradistinction to persons but out of persons&quot;    (Strathern, 1986, p. 172). Eles n&atilde;o s&atilde;o coisas que os representam,    ou s&iacute;mbolos, mas &iacute;ndices, &quot;extracted from one and absorbed    by another&quot; (Strathern, 1986, p. 178). Isto &eacute; aquilo a que Starthern    chama uma &quot;troca mediada&quot;, em oposi&ccedil;&atilde;o &agrave; troca    n&atilde;o mediada da mercadoria, que estabelece uma descontinuidade fundamental    entre pessoas e coisas.      <P ALIGN="JUSTIFY">Por esta raz&atilde;o, o <I>ax&eacute;</I> n&atilde;o pode    ser analisado em termos de capital simb&oacute;lico. O <I>ax&eacute;</I> n&atilde;o    &eacute; objectivado, isto &eacute;, n&atilde;o &eacute; fundamentalmente diferente    do sujeito estrat&eacute;gico que o acumula, como no modelo do capital de Bourdieu    (1972). Pelo contr&aacute;rio, ele &eacute; personalizado, &eacute; um valor    que circula e qualifica pessoas, objectos e lugares dentro do mesmo plano, sem    distin&ccedil;&atilde;o entre o valor objectivado e o sujeito valorizador. M&atilde;es    e filhas-de-santo n&atilde;o podem instrumentalizar o <I>ax&eacute; </I>porque    ele &eacute; parte constituinte da sua pr&oacute;pria vida: o <I>ax&eacute;</I>    s&atilde;o elas mesmas.      <P ALIGN="JUSTIFY">N&atilde;o obstante, o modelo proposto por Strathern n&atilde;o    antecipa a possibilidade de haver falhas neste curso da vida. O tempo, a dist&acirc;ncia,    os conflitos, podem gerar situa&ccedil;&otilde;es em que os valores transmitidos    atrav&eacute;s de interc&acirc;mbios mediados desapare&ccedil;am simplesmente.    No exemplo do candombl&eacute;, &eacute; evidente que o conhecimento ritual    da inicia&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; suficiente para reproduzir um    <I>ax&eacute;</I> de uma m&atilde;e-de-santo. Frequentemente, a avareza, a pervers&atilde;o    ou o ci&uacute;me das m&atilde;es ou das filhas-de-santo geram mesmo a rejei&ccedil;&atilde;o    dos iniciados ou mesmo dos orix&aacute;s. Os conflitos e as contradi&ccedil;&otilde;es    podem fazer as casas morrer e o conhecimento ritual desaparecer. Em contraste    com este processo da deteriora&ccedil;&atilde;o, o &quot;dom&quot; aparece como    meio para contactar directamente com o &quot;santo&quot; e renovar o candombl&eacute;.      ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY">Mas dificilmente as m&atilde;es-de-santo ir&atilde;o reconhecer    as inova&ccedil;&otilde;es como tais: apareceram sempre como um recurso ao conhecimento    mais antigo, que foi perdido. Al&eacute;m disso, o recurso ao dom n&atilde;o    se pode tornar convencional ou dogm&aacute;tico. Deve ser uma coisa excepcional,    uma revela&ccedil;&atilde;o em que o filho encontra o &quot;santo&quot; &#151;    ou talvez o inverso. Esta revela&ccedil;&atilde;o &eacute; constitu&iacute;da    por um evento original de descoberta, ou melhor, de redescoberta, j&aacute;    conhecido, mas que ficava escondido, para usar a terminologia surrealista do    <I>hasard objectif.</I>      <P ALIGN="JUSTIFY">Certamente &eacute; isto o que Latour (2001) defende quando    discute a historicidade de determinados eventos que geram novos valores que    n&atilde;o podem ser reduzidos &agrave; lista dos elementos que os constituem.    Ou o que Sahlins chama &quot;estrutura da conjuntura&quot;, eventos em que os    valores contextuais podem transformar os valores convencionais, implicando objectiva&ccedil;&otilde;es    de categorias sem precedente (Sahlins, 1981, p. 35). Estas estruturas da conjuntura    n&atilde;o aparecem apenas em grandes eventos hist&oacute;ricos, mas tamb&eacute;m    em pequenos eventos com as suas historicidades particulares. Da mesma maneira    que os havaianos encontraram Lono no capit&atilde;o Cook, Madalena encontrou    o seu &quot;escravo&quot; numa pedra. Estes <I>objets trouv&eacute;s,</I> nascidos    da conjuntura, ajudam a transformar as orat&oacute;rias quotidianas em hist&oacute;ria.      <P ALIGN="JUSTIFY">Por isso, o sincretismo n&atilde;o &eacute; outra coisa sen&atilde;o    hist&oacute;ria. Negar o sincretismo, como fizeram muitos afro-brasilianistas    de Bastide em diante, afirmando que o catolicismo era s&oacute; uma m&aacute;scara    da cultura africana, &eacute; negar a hist&oacute;ria. Al&eacute;m disso, ver    o sincretismo como um problema estranho, que acontece apenas em casos peculiares,    como as religi&otilde;es afro-americanas, n&atilde;o deixa espa&ccedil;o para    reconhecer que o tipo de pr&aacute;ticas percebidas como sincr&eacute;ticas    responde a um padr&atilde;o da apropria&ccedil;&atilde;o cultural, da &quot;estrutura    da conjuntura&quot;, que &eacute; absolutamente comum em qualquer lugar ou tempo    hist&oacute;rico.      <P ALIGN="JUSTIFY">&Eacute; certo, por&eacute;m, que para os sujeitos hist&oacute;ricos    nem sempre &eacute; f&aacute;cil perceber a historicidade dos acontecimentos.    No caso do candombl&eacute;, vimos que os milagres ou as revela&ccedil;&otilde;es    n&atilde;o s&atilde;o percebidos como inova&ccedil;&otilde;es, mas como redescobertas    de algo esquecido ou n&atilde;o reconhecido. Revela&ccedil;&otilde;es que permitem    entender o passado noutros termos &#151; mais profundos, talvez mais aut&ecirc;nticos.    Talvez isto se deva &agrave; ideologia das trocas mediadas, do dom, que predomina    em institui&ccedil;&otilde;es como o candombl&eacute; e que prefere ver a inova&ccedil;&atilde;o    como reprodu&ccedil;&atilde;o. Neste caso, a fun&ccedil;&atilde;o dos antrop&oacute;logos    seria <I>reconhecer</I> a historicidade dessas revela&ccedil;&otilde;es, ver    como s&atilde;o, efectivamente, objectiva&ccedil;&otilde;es de categorias sem    precedentes: ver como, ao querer reproduzir os valores tradicionais do candombl&eacute;,    este se transforma, incorporando a hist&oacute;ria do seu pa&iacute;s e da sua    gente.      <P ALIGN="JUSTIFY">Marcio Goldman, no artigo publicado nesta mesma revista, nota    que neste &uacute;ltimo par&aacute;grafo eu caio de novo na cr&iacute;tica do    fetichismo, da ilus&atilde;o nativa (Goldman, 2009). Poderia dizer que estou    apenas a usar a no&ccedil;&atilde;o l&eacute;vi-straussiana das &quot;sociedades    contra a hist&oacute;ria&quot;, como o pr&oacute;prio Goldman a define<SUP><a href="#10">10</a></SUP><a name="top10"></a>.    Provavelmente, a minha leitura da hist&oacute;ria &eacute; de facto herdeira    de L&eacute;vi-Strauss, atrav&eacute;s do estruturalismo hist&oacute;rico de    Sahlins, que define a historicidade dos povos polin&eacute;sios nesses mesmos    termos: ao seguirem uma ideologia do retorno &agrave;s origens, os povos polin&eacute;sios    produzem a pr&oacute;pria hist&oacute;ria; &quot;plus c'est la meme chose, plus    &ccedil;a change&quot;, como Sahlins (1981) gosta de dizer (em franc&ecirc;s!).    Mas aceito que isso implica uma certa contradi&ccedil;&atilde;o no meu argumento:    por um lado, queremos reconhecer a capacidade dos agentes sociais de lidar com    a hist&oacute;ria, mas, por outro, questionamos at&eacute; que ponto eles s&atilde;o    capazes de reconhecer a historicidade (isto &eacute;, a novidade) dos seus actos,    ou melhor, dizemos que eles n&atilde;o querem reconhecer, ou des-reconhecem    (no sentido em que Bourdieu utiliza a express&atilde;o <I>m&eacute;conaissance</I>),    essa historicidade: &agrave; semelhan&ccedil;a dos intelectuais cr&iacute;ticos,    ficamos na posi&ccedil;&atilde;o de revelar esse des-reconhecimento, essa &quot;m&aacute;    f&eacute;&quot; em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; hist&oacute;ria.      <P ALIGN="JUSTIFY">Mas, se negamos a possibilidade dessa cr&iacute;tica, qual    seria a miss&atilde;o do antrop&oacute;logo ent&atilde;o? Reproduzir o discurso    &quot;nativo&quot; apenas? Entender a &quot;cosmologia&quot; apenas nos seus    pr&oacute;prios termos? Acho que n&atilde;o. A proposta de Latour, por exemplo,    quando critica o construtivismo, n&atilde;o &eacute; a de reproduzir o discurso    nativo, &eacute; antes tomar a s&eacute;rio o discurso nativo, que n&atilde;o    &eacute; a mesma coisa. &Eacute; isso que ele quer dizer quando refere que as    diferen&ccedil;as n&atilde;o podem ser s&oacute; &quot;respeitadas, ignoradas    ou subsumidas&quot; (Latour, 1996, 102-103), elas devem ser reconhecidas como    capazes de gerar novas realidades: a fun&ccedil;&atilde;o do antrop&oacute;logo    n&atilde;o seria s&oacute; descrever outros discursos, outras cosmologias, mas    entender como a partir desses discursos somos capazes de incorporar os eventos    da hist&oacute;ria &#151; que s&atilde;o exteriores a esse discurso. Claro que    ent&atilde;o n&atilde;o podemos falar em termos de &quot;ontologia&quot;, mas    de &quot;epistemologia&quot;, uma teoria do conhecimento, n&atilde;o uma teoria    do ser. Isto ser&aacute;, provavelmente, resultado do nosso ponto de vista ocidental.    A (minha) antropologia, como a sociologia para Latour, &eacute; uma disciplina    que vem da tradi&ccedil;&atilde;o ocidental, sim, e, como tal, entende que existem    culturas/hist&oacute;rias diferentes, mas todas partilham &quot;um mundo comum&quot;    (Latour, 1996, p. 259). E esse mundo &eacute; um mundo hist&oacute;rico, no    qual essas culturas se encontram e transformam umas &agrave;s outras, se constroem    em rela&ccedil;&atilde;o umas &agrave;s outras. &Eacute; por isso que somos    capazes de transformar a nossa cultura/construir a nossa hist&oacute;ria: porque    ela &eacute; confrontada com uma realidade exterior a ela, uma alteridade. Nesse    sentido, a (minha) antropologia &eacute; materialista, se vem de um certo materialismo,    o &quot;materialismo aleat&oacute;rio&quot;, de que Althusser falava. N&atilde;o    &eacute; verdade que a hist&oacute;ria &quot;apenas traduz em sucess&atilde;o    uma coexist&ecirc;ncia de devires&quot; (Deleuze e Guattari, 1980, p. 428);    a hist&oacute;ria &eacute; feita de <I>encontros,</I> como dizia Althusser (1982)<SUP><a href="#11">11</a><a name="top11"></a></SUP>,    imprevistos, imprevis&iacute;veis, eventos que a transformam, irredut&iacute;veis    aos elementos que os produziram (Latour, 2001, p. 131). Esses encontros ou eventos    n&atilde;o produzem apenas &quot;h&iacute;bridos&quot; est&eacute;reis<SUP><a href="#12">12</a><a name="top12"></a></SUP>,    ou criaturas &quot;sincr&eacute;ticas&quot;: eles produzem novas realidades    hist&oacute;ricas, capazes de se reproduzirem autonomamente. Isto &eacute; assim    porque os nossos discursos n&atilde;o s&atilde;o s&oacute; constru&ccedil;&otilde;es    artificiais, feitas de costas para a realidade, mas s&atilde;o feitos para confrontar    essa realidade e gerar novos objectos e novos sujeitos <I>reais</I>. Nesse sentido,    quando falo da &quot;ideologia das trocas mediadas&quot; falo do &quot;dom&quot;,    n&atilde;o de ideologia em termos de falsa consci&ecirc;ncia, mas de um discurso    que &eacute; capaz de produzir novas entidades &#151; novas <I>verdades</I>.    Dizer que, no candombl&eacute;, o discurso do retorno &agrave;s origens produz    novas realidades hist&oacute;ricas n&atilde;o implica necessariamente uma cr&iacute;tica    desse processo de produ&ccedil;&atilde;o. &Eacute; verdade que muitas vezes    o discurso cr&iacute;tico da &quot;inven&ccedil;&atilde;o da tradi&ccedil;&atilde;o&quot;    no candombl&eacute; se manteve nesse n&iacute;vel de cr&iacute;tica da ideologia    da autenticidade como constru&ccedil;&atilde;o artificial, no sentido de falsa    consci&ecirc;ncia; o meu argumento, acredito, vai um pouco mais al&eacute;m:    penso que essas constru&ccedil;&otilde;es n&atilde;o s&atilde;o falsas, mas    geram novas verdades hist&oacute;ricas. A quest&atilde;o n&atilde;o &eacute;    negar a constru&ccedil;&atilde;o, mas ver como, no processo hist&oacute;rico,    as constru&ccedil;&otilde;es s&atilde;o bem sucedidas ou n&atilde;o, como diz    Latour.      <P ALIGN="JUSTIFY">Assim, por exemplo, os &quot;caboclos&quot; do candombl&eacute;    n&atilde;o s&atilde;o s&oacute; &quot;h&iacute;bridos&quot; est&eacute;reis:    tornaram-se parte integrante das religi&otilde;es afro-brasileiras nos &uacute;ltimos    cem anos. Questionar a sua autenticidade seria questionar a hist&oacute;ria.    O que &eacute; interessante, por&eacute;m, &eacute; que s&atilde;o as pr&oacute;prias    elites do candombl&eacute; que questionam, por exemplo, a &quot;autenticidade&quot;    dos caboclos. Ali&aacute;s, elas fazem isso usando um discurso claramente &quot;ocidental&quot;    sobre a cultura e a autenticidade. Essa nega&ccedil;&atilde;o da autenticidade    do caboclo &eacute;, sem d&uacute;vida, um discurso do poder e da hierarquia:    um discurso que deslegitima as casas-de-santo que cultuam o caboclo. O antrop&oacute;logo    (neste caso eu) dificilmente pode ficar fora do discurso do poder: ele acaba    por tomar parte, volunt&aacute;ria ou involuntariamente, numa disputa sobre    a legitimidade. Neste caso, &eacute; claro, eu tor&ccedil;o pelo caboclo. Neste    sentido, o meu trabalho n&atilde;o fica, e n&atilde;o pode ficar, muito longe    do discurso cr&iacute;tico. Apenas tenta ir um pouco mais al&eacute;m da cr&iacute;tica    e falar da constru&ccedil;&atilde;o.      <P ALIGN="JUSTIFY">No fim de contas, o facto &eacute; que o povo-de-santo n&atilde;o    &eacute;, nem nunca foi, o &quot;outro&quot; ideal do antrop&oacute;logo, apesar    de gera&ccedil;&otilde;es de excelentes etn&oacute;logos que insistiram em separ&aacute;-lo    da sociedade brasileira &#151; desde Nina Rodrigues, passando pelo famoso <I>principe    de coupure</I> de Bastide (1958), at&eacute; Juana Elbein dos Santos (1977),    Mestre Didi (Santos, 1967 e 1992), M&atilde;e Stella (Santos, M. S., 1995),    etc. O facto &eacute; que o povo-de-santo &eacute; brasileiro. O povo-de-santo    n&atilde;o pode ser apenas visto a partir da ideologia da sociedade contra a    hist&oacute;ria, porque faz parte do Brasil. &Eacute;, portanto, &quot;ocidental&quot;,    ou &quot;moderno&quot;, at&eacute; certo ponto<SUP><a href="#13">13</a><a name="top13"></a></SUP>.    O candombl&eacute; faz parte do Brasil, da mesma forma que o Brasil faz parte    do candombl&eacute;. Sei que isto, provavelmente, &eacute; mais f&aacute;cil    de dizer para um antrop&oacute;logo estrangeiro do que para um brasileiro, por    raz&otilde;es que agora n&atilde;o &eacute; oportuno discutir. Mas para demonstrar    esse ponto posso dar um exemplo. Quando voltei a casa de Madalena muito tempo    depois, em 2002, achei que a casa tinha crescido muito. Madalena tinha tipo    muito sucesso no tempo que eu tinha passado fora da Cachoeira, tinha ganho muitos    filhos-de-santo e uma boa reputa&ccedil;&atilde;o &#151; apesar de n&atilde;o    ser <I>ketu</I>. Ela tinha comprado a casa do lado e aberto o barrac&atilde;o    e &agrave; frente da casa havia uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, padroeira    do Brasil. Quando lhe perguntei o porqu&ecirc; da imagem de Aparecida, ela disse-me:    porque a nossa na&ccedil;&atilde;o &eacute; brasileira. O caboclo Oxossi &eacute;    brasileiro, ele &eacute; o dono da casa; portanto, a na&ccedil;&atilde;o da    casa &eacute; brasileira. Al&eacute;m disso, acredito que tamb&eacute;m seja    uma reac&ccedil;&atilde;o contra os pentecostais: no Brasil, toda a gente se    lembra do pastor da IURD que bateu numa imagem de Aparecida perante as c&acirc;maras    de televis&atilde;o. Madalena, que tinha sido obreira da IURD para depois voltar    para o candombl&eacute;, afirma assim a sua posi&ccedil;&atilde;o contra a iconoclastia    pentecostal.      <P ALIGN="JUSTIFY">O facto &eacute; que Madalena n&atilde;o vive de costas viradas    para a hist&oacute;ria nem para o mundo ao seu redor. N&atilde;o sei at&eacute;    que ponto eu possa ter influ&iacute;do na revaloriza&ccedil;&atilde;o do &quot;brasileirismo&quot;    da sua casa, mas penso que n&atilde;o devo sobrestimar a minha influ&ecirc;ncia.    Nesse mesmo dia, ela disse-me que por vezes queria frequentar cursos de l&iacute;nguas    africanas para conhecer melhor os &quot;fundamentos&quot; da sua religi&atilde;o.    Sempre lhe facultei informa&ccedil;&atilde;o e contactos com outros terreiros    da na&ccedil;&atilde;o Angola &#151; a na&ccedil;&atilde;o do pai-de-santo com    quem ela tinha feito o santo em crian&ccedil;a. Mas a m&atilde;e pequena de    Madalena, Dona Dete, disse que ela n&atilde;o precisava. Dona Dete, uma mulher    muito mais velha do que Madalena, tinha feito o santo h&aacute; muitos anos    num terreiro <I>ketu,</I> mas tinha-se tornado m&atilde;e pequena de Madalena    por vizinhan&ccedil;a e pelo afecto que sente por ela e por cansa&ccedil;o das    intrigas e feiti&ccedil;os no seu terreiro de origem. Dona Dete disse a Madalena    que ela tinha o dom de fazer o bem e n&atilde;o precisava de mais nada. Concordei    com Dete.      <P ALIGN="JUSTIFY">&nbsp;      ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY">&nbsp;     <P  ALIGN="CENTER"><B>BIBLIOGRAFIA</B>      <P ALIGN="JUSTIFY">Althusser, L. (1982), &quot;Le courant souterrain du mat&eacute;rialisme    du rencontre&#160;&quot;. In <I>&Eacute;crits philosophiques et politiques,</I>    Paris, ed. F. Matheron (vers&atilde;o online: <a href="http://homepage.mac.com/emmapeel/althusser/rencontre.html" target="_blank">http://homepage.mac.com/emmapeel/althusser/rencontre.html</a>).      <P ALIGN="JUSTIFY">Bacelar, J., e Caroso, C. (eds.) (1999), <I>Faces da Tradi&ccedil;&atilde;o    Afro-Brasilieira,</I> Rio de Janeiro, Pallas.<I> </I>      <P ALIGN="JUSTIFY">Bastide, R. (1978 [1958]), <I>O candombl&eacute; da Bahia,    </I>S&atilde;o Paulo,<I> </I>Ed. Nacional.      <P ALIGN="JUSTIFY">Bastide, R. (1995 [1960]),<I> Les religions afro-br&eacute;siliennes,    </I>Paris, PUF.      <P ALIGN="JUSTIFY">Binnon-Crossard, G. (1970), <I>Contribution &agrave; l&#180;&eacute;tude    des candombl&eacute;s au Br&eacute;sil. Le candombl&eacute; Angola</I>. Tese    de doutoramento, FLSH, Universit&eacute; de Paris.      <P ALIGN="JUSTIFY">Bosman, W. (1705), <I>A New and Accurate Description of the    Coast of Guinea...,</I> Londres, James Knapton.      <P ALIGN="JUSTIFY">Bourdieu, P. (1972), <I>Esquisse d`une th&eacute;orie de la    pratique, </I>Paris, &Eacute;ditions du Minuit.      <P ALIGN="JUSTIFY">Boyer, V. (1996), &quot;Le don et l'initiation&quot;.&#160;<B><I>    </I></B><I>L'Homme</I> (138), pp. 7-24.      ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY">Breton, A. (1937), <I>L'amour fou</I>, Paris, &Eacute;ditions    Gallimard.      <P ALIGN="JUSTIFY">Brown, D. (1996), &quot;Altar making and gift exchange&quot;.    <I>In</I> A. Lindsay (ed.), <I>Santer&iacute;a Esthetics in Contemporary Latin    American Art,</I> Washington, Smithsonian Institution Press, pp. 242-278.      <P ALIGN="JUSTIFY">Capone, S. (1999), <I>La qu&ecirc;te de l'Afrique dans le candombl&eacute;:    pouvoir et tradition au Br&eacute;sil,</I> Paris, Karthala.      <P ALIGN="JUSTIFY">Dantas, B. G. (1989), <I>Vov&oacute; Nag&ocirc; e Papai Branco.    Usos e Abusos da &Aacute;frica no Brasil,</I> Rio de Janeiro, Graal.      <P ALIGN="JUSTIFY">Deleuze, G., e Guattari, F. (1980), <I>Mille plateaux,</I>    Paris, Minuit.      <P ALIGN="JUSTIFY">Evans-Pritchard, Sir E. E. (1976), <I>Brujer&iacute;a, Magia    y Or&aacute;culos entre los Azande, </I>Barcelona, Anagrama.      <P ALIGN="JUSTIFY">Ferretti, S. (1995), <I>Repensando o Sincretismo: Estudo das    Casa das Minas,</I> S&atilde;o Paulo, EDUSP/FAPEMA.      <P ALIGN="JUSTIFY">Fry, P. (1982), <I>Para Ingl&ecirc;s Ver,</I> Rio de Janeiro,    Zahar Editores.      <P ALIGN="JUSTIFY">Gell, A. (1998), <I>Art and Agency, </I>Londres,<I> </I>Clarendon    Press.      <P ALIGN="JUSTIFY">Goldman, M. (1985), &quot;A constru&ccedil;&atilde;o ritual    da pessoa: a possess&atilde;o no candombl&eacute;&quot;. <I>Religi&atilde;o    e Sociedade,</I> 12 (1), pp. 22-54.      ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><P ALIGN="JUSTIFY">Goldman, M. (1999), &quot;L&eacute;vi-Strauss e os sentidos    da hist&oacute;ria&quot;. <I>Revista de Antropologia,</I> 42&#160;(1--2),&#160;    pp. 223-238.      &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000113&pid=S0003-2573200900010000600001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><P ALIGN="JUSTIFY">Goldman, M. (2009), &quot;Hist&oacute;rias, devires e fetiches    das religi&otilde;es afro-brasileiras. Ensaio de simetriza&ccedil;&atilde;o    antropol&oacute;gica&quot;. <I>An&aacute;lise Social, </I>XLIV (1), pp. 105-137.      &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000114&pid=S0003-2573200900010000600002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><P ALIGN="JUSTIFY">Kraay, H. (2006), &quot;`Cold as the stone of which it must    be made': caboclos, monuments and the memory of independence in Bahia, Brazil    1870-1900&quot;.<I> In</I> J. Andermann e W. Rowe, <I>Images of Power: Iconography,    Culture and the State in Latin America, </I>Oxford<I>,</I> Berghahn Books, pp.    165-194.      <P ALIGN="JUSTIFY">Landes, R. (1947),<I> City of Women, </I>Nova Iorque, Macmillan    Press.      <P ALIGN="JUSTIFY">Latour, B. (1996), <I>Petite r&eacute;flexion sur le culte    moderne des dieux faitiches,</I> Paris, Synth&eacute;labo.      <P ALIGN="JUSTIFY">Latour, B. (2001), <I>L'Espoir de Pandore,</I> Paris, &Eacute;ditions    de La D&eacute;couverte.      <P ALIGN="JUSTIFY">L&eacute;vi-Strauss, (1962), <I>La pens&eacute;e sauvage,</I>    Paris, Plon.      <P ALIGN="JUSTIFY">Maggie, Y. (1975), <I>Guerra de orix&aacute;, </I>Rio de Janeiro,    Zahar.      <P ALIGN="JUSTIFY">Sahlins, M. (1981), <I>Historical Metaphors and Mythical Realities,</I>    Ann Arbor, The University of Michigan Press.      <P ALIGN="JUSTIFY">Sansi, R. (2003), <I>Fetishes, Images, Commodities, Art Works:    Afro-brazilian Art and Culture in Bahia.</I> Tese de doutoramento, Departamento    de Antropologia, University of Chicago.      ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY">Sansi, R. (2005) &quot;The hidden life of stones: historicity,    materiality and the value of candombl&eacute; objects in Bahia&quot;. <I>Journal    of Material Culture,</I> 10 (2), pp. 139-156.      <P ALIGN="JUSTIFY">Sansi, R. (2007), <I>Fetishes and Monuments: Afro-brazilian    Art and Culture in Bahia,</I> Nova Iorque, Berghahn Books.      <P ALIGN="JUSTIFY">Santos, D. M. dos (Mestre Didi) (1967), <I>West African Sacred    Art and Ritual in Brazil. A Comparative Study, </I>Ibadan, Nig&eacute;ria, texto    manuscrito.      <P ALIGN="JUSTIFY">Santos, D. M. dos (Mestre Didi) (1992),<I> Hist&oacute;ria    de um terreiro Nag&ocirc;,</I> S&atilde;o Paulo, Carthago &amp; Forte.      <P ALIGN="JUSTIFY">Santos, J. E. dos (1977), <I>Os Nag&ocirc; e a Morte,</I> Petr&oacute;polis,    Vozes.      <P ALIGN="JUSTIFY">Santos, J. T. dos (1987), &quot;As imagens est&atilde;o guardadas:    reafricaniza&ccedil;&atilde;o&quot;. <I>Comunica&ccedil;&otilde;es do ISER,</I>    n.&#186; 4, Rio de Janeiro, ISER, pp. 50-58.      <P ALIGN="JUSTIFY">Santos, J. T. dos (1995), <I>O Dono da Terra. O caboclo nos    candombl&eacute;s da Bahia,</I> Salvador da Ba&iacute;a, Sarah Letras.      <P ALIGN="JUSTIFY">Santos, M. S. de A. (M&atilde;e Stella) (1995), <I>Meu Tempo    &eacute; Agora, </I>Curitiba, CENTHRU.      <P ALIGN="JUSTIFY">Serra, O. (1995), <I>&Aacute;guas do Rei,</I> Petr&oacute;polis,    Vozes.      <P ALIGN="JUSTIFY">Stoller, P. (1995), <I>Embodying Colonial Memories,</I> Nova    Iorque, Routledge.      ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY">Strathern, M. (1986), <I>The Gender of the Gift,</I> Cambridge,    Cambridge University Press.      <P ALIGN="JUSTIFY">Taussig, M. (1993), <I>Mimesis and Alterity: a Particular history    of the Senses, </I>Nova Iorque, Routledge.      <P ALIGN="JUSTIFY">&nbsp;     <P ALIGN="JUSTIFY">&nbsp;     <P ALIGN="JUSTIFY"><b>Notas</b>      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top1">1</a><a name="1"></a></SUP> V., por exemplo,    Bastide (1978 [1958]), Binnon-Crossard (1970) e Santos (1977).      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top2">2</a></SUP><a name="2"></a> Entre outros,    Dantas (1989), Fry (1982) e Capone (1999).      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top3">3</a><a name="3"></a></SUP> Na d&eacute;cada    de 90, alguns antrop&oacute;logos, como Ordep Serra (1995) e Sergio Ferreti    (1995), come&ccedil;aram a reivindicar o sincretismo como um facto hist&oacute;rico    e ineg&aacute;vel. Mas eu diria que nenhum dos dois aprofundou a reflex&atilde;o    sobre a rela&ccedil;&atilde;o entre sincretismo e hist&oacute;ria nos termos    em que a pretendo discutir aqui.      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top4">4</a></SUP><a name="4" id="4"></a> V.    Bastide (1978, pp. 29-35), Binnon-Crossard (1970, pp. 68-81) e Santos, M. S.    (1995).      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top5">5</a></SUP><a name="5"></a> Isto aconteceu    a uma das minhas informantes, Dona Lita, que morreu h&aacute; aproximadamente    dois anos. O &quot;santo&quot; dela, Omulu, rejeitou deixar o seu <I>assento</I>    e as outras iniciadas tiveram de tratar dele e aliment&aacute;-lo. Se n&atilde;o    lhe dedicarem muito tempo, Omulu aparece-lhes nos sonhos, queixando-se da sua    pregui&ccedil;a. E quando fazem as oferendas alguns v&ecirc;em o Omulu de Lita    a dan&ccedil;ar.      ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top6">6</a></SUP><a name="6"></a> O conflito    ritual no candombl&eacute; foi estudado na excelente etnografia de Yvonne Maggie    (1975).      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top7">7</a><a name="7"></a> </SUP>As filhas-de-santo    n&atilde;o moram necessariamente na casa de candombl&eacute;, mas devem l&aacute;    passar algum tempo durante a inicia&ccedil;&atilde;o. A literatura do candombl&eacute;    tem idealizado a imagem do terreiro como um &quot;compartilhado na comunidade    comum&quot; (Bastide, 1978). A realidade &eacute; mais complexa se considerarmos    os modelos de habita&ccedil;&atilde;o das classes populares na Bahia, em que    a alta mobilidade dos homens e a cria&ccedil;&atilde;o de &quot;fam&iacute;lias&quot;    de mulheres baseadas na casa n&atilde;o se restringem ao candombl&eacute;. Estas    &quot;fam&iacute;lias&quot; s&atilde;o efectivamente muito provis&oacute;rias.      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top8">8</a></SUP><a name="8"></a> Comunica&ccedil;&atilde;o    pessoal, Cachoeira, 2 de Mar&ccedil;o de 2000.      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top9">9</a><a name="9"></a></SUP> Willem Bosman,    refer&ecirc;ncia central das teorias do fetichismo pelas suas cr&oacute;nicas    da Guin&eacute;, fala do culto da serpente (<I>Dan</I>) em Ouidah (Bosman, 1705,    p. 367), que est&aacute;, provavelmente, na origem do fasc&iacute;nio pelas    serpentes no candombl&eacute; da Bahia (v. Sansi, 2007).      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top10">10</a></SUP><a name="10"></a> A hist&oacute;ria,    como forma de saber e/ou autoconsci&ecirc;ncia, &eacute; ent&atilde;o caracter&iacute;stica    dessas sociedades que &quot;interiorizam resolutamente o movimento progressivo    hist&oacute;rico para dele fazerem o motor do seu desenvolvimento&quot; (L&eacute;vi-Strauss,    1962, p. 268). Poder&iacute;amos dizer, pois, que fazemos parte de uma sociedade    que &eacute;, acima de tudo, &quot;a favor da hist&oacute;ria&quot;, ainda que    aqui ou ali possa a ela reagir. Se isso for verdadeiro, n&atilde;o seria de    mais considerar que tamb&eacute;m existem sociedades &quot;contra a hist&oacute;ria&quot;,    aquelas que buscam, &quot;gra&ccedil;as &agrave;s institui&ccedil;&otilde;es    que se d&atilde;o, anular, de forma quase autom&aacute;tica, o efeito que os    factores hist&oacute;ricos poderiam ter sobre o seu equil&iacute;brio e a sua    continuidade&quot; (L&eacute;vi-Strauss, 1962, p. 268; Goldman, 1999).      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top11">11</a><a name="11"></a> </SUP>&quot;C'est-&agrave;-dire    qu'au lieu de penser la contingence comme modalit&eacute; ou exception de la    n&eacute;cessit&eacute;, il faut penser la n&eacute;cessit&eacute; comme le    devenir-n&eacute;cessaire de la rencontre de contingents. C'est ainsi qu'on    voit non seulement le monde de la vie (les biologistes r&eacute;cemment s'en    sont avis&eacute;s, eux qui eussent d&ucirc; conna&icirc;tre Darwin), mais le    monde de l'histoire <I>se figer</I> &agrave; certains moments heureux dans la    prise d'&eacute;l&eacute;ments que conjoint une rencontre propre &agrave; dessiner    telle figure: telle esp&egrave;ce, tel individu, tel peuple. C'est ainsi qu'il    y a des hommes et des &lt;`vies'&gt; al&eacute;atoires, soumis &agrave; l'accident    de la mort donn&eacute;e ou re&ccedil;ue, et leurs &lt;`&#156;uvres'&gt;, et    les grandes figures du monde auquel le &lt;`jeu de d&eacute;s'&gt; originel    de l'al&eacute;atoire a donn&eacute; leur forme, les grandes figures dans lesquelles    le monde de l'histoire a &lt;`pris forme'&gt; (l'Antiquit&eacute;, le Moyen    Age, la Renaissance, l'Aufkl&auml;rung, etc.). Il est alors trop clair que celui    qui s'aviserait de consid&eacute;rer ces figures, individus, conjonctures ou    &Eacute;tats du monde, soit comme le r&eacute;sultat n&eacute;cessaire de pr&eacute;misses    donn&eacute;es, soit comme l'anticipation provisoire d'une Fin, errerait, puisqu'il    n&eacute;gligerait ce fait (ce <I>Faktum</I>) que ces r&eacute;sultats provisoires    le sont doublement, non seulement en ce qu'ils vont &ecirc;tre d&eacute;pass&eacute;s,    mais en ce qu'ils auraient pu ne jamais advenir, ou ne seraient advenus que    comme l'effet d'une `br&egrave;ve rencontre', s'ils n'avaient surgi sur le fond    heureux d'une bonne Fortune donnant leur `<I>chance</I>' de `dur&eacute;e' aux    &eacute;l&eacute;ments &agrave; la conjonction desquels cette forme se trouve    (par hasard) devoir pr&eacute;sider. Par l&agrave; on voit que nous ne sommes    pas, nous ne vivons pas dans le N&eacute;ant, mais que, s'il n'est pas de Sens    de l'histoire (une Fin qui la transcende, de ses origines &agrave; son terme),    il puisse y avoir du sens <I>dans</I> l'histoire, puisque ce sens na&icirc;t    d'une rencontre effective et effectivement heureuse, ou catastrophique, qui    est aussi du <I>sens</I>&quot; (&quot;Le courant souterrain de le materialisme    de le rancontre&quot;, <a href="http://homepage.mac.com/emmapeel/althusser/rencontre.html" target="_blank">http://homepage.mac.com/emmapeel/althusser/rencontre.html</a>).      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top12">12</a><a name="12"></a></SUP> Nesse sentido,    discordo do uso que Latour faz do termo &quot;h&iacute;brido&quot;: se ele quer    dizer que o resultado desses processos de encontro &eacute; produtivo, a ideia    de h&iacute;brido &eacute; muito amb&iacute;gua.      <P ALIGN="JUSTIFY"><SUP><a href="#top13">13</a></SUP><a name="13"></a> Claro que    a modernidade do Brasil &eacute; um objecto cl&aacute;ssico de discuss&atilde;o    antropol&oacute;gica, mas a minha posi&ccedil;&atilde;o &eacute; a de que o    Brasil &eacute;, e sempre foi, moderno (Sansi, 2007) at&eacute; onde faz sentido    falar de modernidade (de novo Latour).      <P ALIGN="JUSTIFY">&nbsp;      <P ALIGN="JUSTIFY"><a href="#top14">*</a><a name="14"></a> Goldsmiths College,    Department of Anthropology, University of London, New Cross London SE14 6NW,    UK. e-mail: <a href="mailto:ans01rsr@gold.ac.uk">ans01rsr@gold.ac.uk</a>      ]]></body>
<body><![CDATA[<P ALIGN="JUSTIFY"><a href="#top15">**</a><a name="15"></a> Este artigo &eacute;    o resultado de uma circunst&acirc;ncia interessante: inicialmente, o argumento    pode ser encontrado no segundo cap&iacute;tulo da minha disserta&ccedil;&atilde;o    de doutoramento (Sansi, 2003) &#151; e agora faz parte do primeiro cap&iacute;tulo    do meu novo livro (Sansi, 2007). No contexto deste n&uacute;mero tem&aacute;tico,    fiquei a saber que o artigo vai ser publicado juntamente com um texto de M&aacute;rcio    Goldman, que teve a gentileza de me enviar uma c&oacute;pia. Tive uma grande    (boa) surpresa quando vi que o argumento de Goldman era muito parecido com o    meu e que partilhamos muitas refer&ecirc;ncias. Acho que essa coincid&ecirc;ncia    n&atilde;o &eacute; sintoma da monotonia acad&eacute;mica de dois autores que    repetem o mesmo argumento, mas o resultado de uma nova forma de olhar o campo    e os novos interesses em jogo. Por&eacute;m, &eacute; interessante observar    as diferen&ccedil;as na aproxima&ccedil;&atilde;o a essas quest&otilde;es: elas    s&atilde;o importantes, como esclare&ccedil;o nas conclus&otilde;es. O di&aacute;logo    com Goldman obrigou-me a esclarecer posi&ccedil;&otilde;es e a ser mais reflexivo    sobre o meu trabalho. Por isso, gostaria de lhe dedicar este artigo.      <P ALIGN="JUSTIFY">&nbsp;      <P ALIGN="JUSTIFY">&nbsp;      <P ALIGN="JUSTIFY">&nbsp;      <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>      ]]></body><back>
<ref-list>
<ref id="B1">
<nlm-citation citation-type="journal">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Goldman]]></surname>
<given-names><![CDATA[M.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Lévi-Strauss e os sentidos da história]]></article-title>
<source><![CDATA[Revista de Antropologia]]></source>
<year>1999</year>
<volume>42</volume>
<numero>1--2</numero>
<issue>1--2</issue>
<page-range>223-238</page-range></nlm-citation>
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<ref id="B2">
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