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</front><body><![CDATA[ <p><I>H&eacute;lio R. S</I>.<I> Silva, </I><B>Travesti, a Inven&ccedil;&atilde;o    do Feminino, </B>Rio de Janeiro, Relume-Dumar&aacute;, ISER, 1993, 176 p&aacute;ginas.      <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Esta obra &eacute; o resultado da disserta&ccedil;&atilde;o de mestrado defendida    no programa de p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o em Antropologia Social do    Museu Nacional da UFRJ por H&eacute;lio Silva (professor da UFSC) com o t&iacute;tulo    &quot;Lapa dos travestis&quot;. Silva realiza sua pesquisa na Lapa &#151; bairro    do Rio de Janeiro conhecido como o ber&ccedil;o da bo&eacute;mia e famoso pela    sua arquitectura &#151; durante o ano de 1991, da qual decorre este estudo etnogr&aacute;fico    sobre o transvestitismo na sociedade brasileira. O autor advoga que n&atilde;o    teve uma preocupa&ccedil;&atilde;o particular com a isen&ccedil;&atilde;o e    neutralidade, pois estava mergulhado na subjectividade dos nativos. &Eacute;    este contexto que o leva a abordar quest&otilde;es como a identidade, o g&eacute;nero,    a promiscuidade sexual, a marginalidade e o sado-masoquismo.      <p>Com o objectivo de se aproximar dos travestis, este investigador transformou    a sua vestimenta, usando uma indument&aacute;ria com uma conota&ccedil;&atilde;o    &quot;mais <I>gay</I>&quot;<I>,</I> embora o universo estudado seja complexo    e heterog&eacute;neo. Mudou tamb&eacute;m a sua atitude, n&atilde;o usou a pr&aacute;tica    corrente de entrevistas e recolha de informa&ccedil;&otilde;es, com um aspecto    de autoridade etnogr&aacute;fica, mas passou a ser um simples consumidor de    cerveja, adquirindo um lugar parcial naquela cultura. Ou seja, enquadrou-se    no que constatou Gilberto Velho (<I>O Desafio da Cidade &#151; Novas perspectivas    da Antropologia Brasileira, </I>Rio de Janeiro, Editora Campus, 1980): que os    investigadores modificam as suas opini&otilde;es em fun&ccedil;&atilde;o das    suas traject&oacute;rias, fases da carreira e v&aacute;rias mudan&ccedil;as    existenciais. Dessa forma, foram criadas certas fantasias quanto &agrave; identidade    do pesquisador; por&eacute;m, ele jamais mentiu, omitindo sim v&aacute;rias    informa&ccedil;&otilde;es sobre si mesmo. Para conseguir uma aproxima&ccedil;&atilde;o    a esse p&uacute;blico procedeu tamb&eacute;m &agrave; afirma&ccedil;&atilde;o    de que tinha uma <I>&quot;</I>tara<I>&quot;</I> diferente e gostava de conversar.    Neste sentido, o trabalho do antrop&oacute;logo consistiu em problematizar as    ideias, e n&atilde;o em descobrir uma nova cultura.      <p>H&eacute;lio Silva permaneceu onze meses no seu campo de pesquisa, acabando    por desenvolver um certo envolvimento com os sujeitos da mesma. Assim, mesmo    sabendo da frieza dos procedimentos da opera&ccedil;&atilde;o transexual, ao    rever um v&iacute;deo sobre o tema, acompanhado da travesti Lucr&eacute;cia,    a qual participou intensivamente no estudo, o pesquisador ficou imobilizado,    dado o afecto que nutria por ela. Mariza Peirano (<I>A favor da Etnografia,</I>    Rio de Janeiro, Editora Relume Dumar&aacute;, 1995) j&aacute; dizia que nas    pesquisas antropol&oacute;gicas a personalidade e a subjectividade do antrop&oacute;logo    est&atilde;o intimamente ligadas ao seu trabalho. Nesse sentido, Franz Boas    (<I>Antropologia Cultural, </I>organiza&ccedil;&atilde;o de Celso Castro, Rio    de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2004) afirma que a atitude subjectiva do investigador    influencia os resultados da sua interpreta&ccedil;&atilde;o.      <p>A obra encontra-se dividida em tarde, noite e manh&atilde;, pois &eacute; dessa    forma que funciona o quotidiano dos travestis. No per&iacute;odo vespertino    preocupam--se com a sua apar&ecirc;ncia f&iacute;sica: retirar os p&ecirc;los    faciais com uma pin&ccedil;a torna--se uma compuls&atilde;o, fazem depila&ccedil;&atilde;o    e cuidam das suas madeixas. O in&iacute;cio da jornada de trabalho ocorre no    per&iacute;odo nocturno nas esquinas e cal&ccedil;adas. Esta pr&aacute;tica    do <I>trottoir</I> &eacute; um dos factos que levam &agrave; decad&ecirc;ncia    dos travestis, que se exp&otilde;em quer a humilha&ccedil;&otilde;es psicol&oacute;gicas,    quer f&iacute;sicas, como o v&iacute;rus HIV. Trabalhando de madrugada, os travestis    dormem de manh&atilde;. Trata-se de indiv&iacute;duos socializados, pois vivem    e relacionam-se com as pessoas no contexto onde est&atilde;o inseridos.      <p>Em torno do travesti forma-se uma dupla identidade. Por um lado, uma identidade    pr&oacute;pria, voltada para a constante procura da beleza, dos vestidos mais    bonitos, da maquilhagem mais conveniente, num forte movimento exibicionista.    Por outro, a identidade criada pela sociedade, que, a cada demonstra&ccedil;&atilde;o    e apari&ccedil;&atilde;o destes indiv&iacute;duos, ri, diz piadas e assume um    tom ir&oacute;nico que os envolve em n&iacute;veis sensoriais. Ou seja, como    afirma o autor: &quot;O travesti tem dupla pele: a de purpurina e a de humilha&ccedil;&atilde;o.    Em que ordem n&atilde;o se sabe. Ou talvez numa pele s&oacute; tecida pelos    dois ingredientes&quot; (p. 41). A partir dessa frase, H&eacute;lio Silva descreve    a realidade do travesti, o seu local de trabalho, a forma como &agrave; noite    se exp&otilde;e na cal&ccedil;ada sem saber quem ir&aacute; passar por ali.    As ruas s&atilde;o, assim, marcadas pelo imprevisto de todo o dia, onde exp&otilde;em    a &quot;bunda&quot;, a coxa e os seios. &Eacute; importante ressaltar que os    travestis apresentam um sintoma paran&oacute;ico em fun&ccedil;&atilde;o da    amea&ccedil;a que vivem no quotidiano; portanto, a constru&ccedil;&atilde;o    da sua identidade consolida-se numa direc&ccedil;&atilde;o social. Esta autoconstru&ccedil;&atilde;o    decorre, por isso, da sua inten&ccedil;&atilde;o de se mostrar, de aparecer,    de ter uma exist&ecirc;ncia plena.      <p>Este ser humano, alvo da n&atilde;o aceita&ccedil;&atilde;o da sociedade, revela    que a maioria dos seus clientes &eacute; passiva. Ao fazerem tal afirma&ccedil;&atilde;o    declaram uma luta aberta contra os ditos &quot;mach&otilde;es&quot;, os casados,    os pais de fam&iacute;lia, os &quot;caret&otilde;es&quot;, que os criticam,    mas ao mesmo tempo os procuram nas esquinas. Enfim, ao proferirem tal declara&ccedil;&atilde;o,    mais do que desmoralizar o &quot;mach&atilde;o&quot;, os travestis est&atilde;o    a protestar contra todos aqueles que vestem uma m&aacute;scara, que se afirmam    como um modelo do bom comportamento, mas que podem deslizar para pr&aacute;ticas    n&atilde;o condizentes com as suas imagens p&uacute;blicas. Conforme o autor    refere, &eacute; compreens&iacute;vel o quanto este facto deve irritar quem    se exp&otilde;e com tanta ousadia, quem luta contra todos os preconceitos e    passa por tantas humilha&ccedil;&otilde;es em nome da fidelidade a si mesmo.      <p>A ambiguidade &eacute; um tra&ccedil;o forte no <I>ethos </I>do travesti, pois    ele &eacute; visto como um desviante, embora o facto de ele ir para a rua constitua    uma contradi&ccedil;&atilde;o se considerarmos que a no&ccedil;&atilde;o de    proibido sempre remete para a no&ccedil;&atilde;o de escondido e o desvio deve    ser realizado em &acirc;mbitos sociais perif&eacute;ricos e pouco frequentados.    Por&eacute;m, este indiv&iacute;duo j&aacute; est&aacute; vinculado &agrave;    paisagem urbana do mundo contempor&acirc;neo, ocupando um espa&ccedil;o na nossa    sociedade e dispondo de uma rede que opera e trabalha em torno dele. Rede essa    que engloba diversos servi&ccedil;os, envolvendo heterossexuais com fam&iacute;lia    que, atrav&eacute;s desse contacto di&aacute;rio, acabam por naturalizar o travesti.    Neste contexto, percebe-se a emerg&ecirc;ncia de um processo hist&oacute;rico    de mudan&ccedil;a, um movimento de incorpora&ccedil;&atilde;o social do travesti,    no qual os desviantes s&atilde;o aqueles que n&atilde;o os aceitam. Assim, como    o coloca Eunice Durham Durham [<I>A Din&acirc;mica da Cultura &#151; Ensaios    de Antropologia,</I> S&atilde;o Paulo, Editora CosacNaify, 2004], a vida social,    seja qual for o agrupamento humano, n&atilde;o pode ser considerada um caos    incompreens&iacute;vel.      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Com esta sua etnografia o antrop&oacute;logo H&eacute;lio Silva conquistou    um espa&ccedil;o essencial. Mesmo com os obst&aacute;culos &eacute;tico-morais    que se p&otilde;em quanto ao seu envolvimento ou n&atilde;o com os travestis,    &eacute; preciso considerar o qu&atilde;o vinculado est&aacute; &agrave; subjectividade    o antrop&oacute;logo no seu trabalho, sendo que ele teve uma vis&atilde;o e    interpreta&ccedil;&atilde;o do grupo a partir dos seus olhos, por mais neutro    e imparcial que tenha sido na sua investiga&ccedil;&atilde;o. Vimos ent&atilde;o    que os travestis, indiv&iacute;duos que fazem parte da sociedade brasileira,    s&atilde;o alvo de pol&eacute;mica e contradi&ccedil;&atilde;o, pois s&atilde;o    ousados, exagerados e mesmo biologicamente masculinos, mas apresentam uma consci&ecirc;ncia    de mulher. A sua trans-condi&ccedil;&atilde;o leva-os &agrave; procura da est&eacute;tica    feminina. Para a sociedade tal atitude &eacute; inconceb&iacute;vel, pois o    &quot;diferente&quot; sempre &eacute; patol&oacute;gico e precisa de ser isolado    e obscurecido. Por&eacute;m, &eacute; fundamental a abertura da sociedade a    este novo estilo de pessoa, como afirma Silva, ao citar Stoller (1982), que    advoga que esse &quot;feminino&quot; n&atilde;o &eacute; somente uma ilus&atilde;o,    mas sim &quot;um outro FEMININO, uma outra possibilidade do FEMININO&quot;.      <p>&nbsp;</p>      <p>Miriam Furlan Brighente      <p>Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil       ]]></body>
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