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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Conceitos oitocentistas de cidadania: liberalismo e igualdade]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[In classical liberal thought, equalizing principles meant more than just "equality before the law"; they also included the idea of a socio-economic, educational, and even "civilizational" equalization. Nevertheless, the nineteenth century liberal legal order has not only preserved some of the old legal discriminations of the Ancient Regime societies, namely those related to the institution of slavery; it also invented new forms of political exclusion. The aim of this article is to explain how the idea of progress has been important in solving the tensions generated by the binary couple equality/inequality, by allowing the pre-vision of a more egalitarian society in the future. It is also my intention to explain how that promise gave way to the emergence of legal categories related to political and civil personal status, which conformed to the notion that some persons were in transition to full citizenship.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <P><b>Conceitos oitocentistas de cidadania: liberalismo e igualdade<a href="#a2">**</a>    <a name="topa2"></a> </b>      <p><b>Cristina Nogueira da Silva<a href="#a1">*</a> <a name="topa1"></a></b>      <p>&nbsp;      <p>O princ&iacute;pio da igualdade teve, no liberalismo cl&aacute;ssico, um significado que podia  estar para al&eacute;m da &quot;igualdade perante a lei&quot;, contendo tamb&eacute;m a ideia de uma  igualiza&ccedil;&atilde;o socioecon&oacute;mica, educacional e at&eacute; &quot;civilizacional&quot;. N&atilde;o obstante, o  ordenamento jur&iacute;dico liberal oitocentista, al&eacute;m de ter deixado quase intactas diversas situa&ccedil;&otilde;es  de desigualdade herdadas do Antigo Regime (nomeadamente a escravatura),  inventou formas novas de exclus&atilde;o pol&iacute;tica. Este artigo pretende mostrar como a ideia  de progresso, ao permitir antever um sociedade igualit&aacute;ria, ajudou a resolver as  tens&otilde;es geradas pelo bin&oacute;mio igualdade/desigualdade, e analisa a forma como essa  promessa de inclus&atilde;o futura se reflectiu na inven&ccedil;&atilde;o de categorias jur&iacute;dicas relacionadas com  o estatuto civil e pol&iacute;tico das pessoas &quot;em transi&ccedil;&atilde;o&quot; para a plena cidadania.      <p><B>Palavras-chave: </B>cidadania; igualdade; iluminismo; progresso; liberalismo;    escravatura.      <p>&nbsp;     <P><B>Nineteenth century concepts of citizenship: liberalism    and equality</B>     <p>In classical liberal thought, equalizing principles meant more than just &quot;equality  before the law&quot;; they also included the idea of a socio-economic, educational, and  even &quot;civilizational&quot; equalization. Nevertheless, the nineteenth century liberal legal  order has not only preserved some of the old legal discriminations of the Ancient  Regime societies, namely those related to the institution of slavery; it also invented  new forms of political exclusion. The aim of this article is to explain how the idea  of progress has been important in solving the tensions generated by the binary  couple equality/inequality, by allowing the pre-vision of a more egalitarian society in  the future. It is also my intention to explain how that promise gave way to the  emergence of legal categories related to political and civil personal status, which conformed  to the notion that some persons were in transition to full citizenship.     <p><B>Keywords: </B>citizenship; equality; enlightenment; progress; liberalism;    slavery.      <p>&nbsp;     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>     <p>     <p>O objectivo deste texto ser&aacute; o de identificar algumas dimens&otilde;es    do discurso sobre a cidadania produzido por intelectuais, juristas e pol&iacute;ticos    europeus que escreveram nos finais do s&eacute;culo xviii e na primeira metade    do s&eacute;culo xix, nomeadamente os fundamentos por eles evocados para reconhecer    direitos de cidadania a alguns indiv&iacute;duos e excluir outros do exerc&iacute;cio    desses direitos. Situa-se, por isso, mais no campo das representa&ccedil;&otilde;es    culturais do que no dom&iacute;nio da <I>praxis,</I> do modo como os indiv&iacute;duos    de sociedades concretas (as sociedades europeias de Oitocentos) se relacionaram    com a ordem pol&iacute;tico-jur&iacute;dica &agrave; qual pertenceram e dos    direitos que exerceram ou n&atilde;o nesses contextos sociais concretos<sup><a href="#1">1</a></sup><a name="top1"></a>.      <p>Para o fazer vou organizar a exposi&ccedil;&atilde;o em torno de um conceito    central na defini&ccedil;&atilde;o oitocentista de cidadania, o conceito de    igualdade. Um conceito central, em primeiro lugar, porque a igualdade de todos    os cidad&atilde;os na submiss&atilde;o &agrave; mesma lei foi um princ&iacute;pio    axiom&aacute;tico da cultura jur&iacute;dica liberal de Oitocentos. N&atilde;o    foi esse, contudo, o principal motivo que me levou a escolher esse princ&iacute;pio    para organizar o texto. A import&acirc;ncia que aqui concedo ao princ&iacute;pio    da igualdade relaciona-se tamb&eacute;m com as tens&otilde;es que ele veio gerar    no interior das doutrinas liberais sobre a cidadania, bem como com as solu&ccedil;&otilde;es    que foram pensadas para as resolver. Como tentarei mostrar, uma dessas solu&ccedil;&otilde;es,    na qual me concentrarei, articulou-se com uma narrativa sobre o futuro das sociedades    humanas que ajudou a justificar, embora nunca de forma definitiva, a preserva&ccedil;&atilde;o    de desigualdades pol&iacute;ticas e sociais, com as correspondentes desigualdades    formais no acesso aos direitos pol&iacute;ticos e civis. Apesar do primado da    liberdade individual no discurso oitocentista sobre os direitos, intimamente    ligada &agrave; protec&ccedil;&atilde;o da propriedade (desigual) desses indiv&iacute;duos,    a igualdade (dos estatutos jur&iacute;dicos, dos direitos pol&iacute;ticos e    at&eacute; uma maior igualiza&ccedil;&atilde;o das condi&ccedil;&otilde;es materiais)    foi tamb&eacute;m um princ&iacute;pio orientador desse discurso. A sua concretiza&ccedil;&atilde;o    envolvia, por&eacute;m, um processo pr&eacute;vio de igualiza&ccedil;&atilde;o    &quot;real&quot;, o acesso equitativo de todos &agrave; propriedade, &agrave;    &quot;racionalidade&quot; e &agrave; &quot;independ&ecirc;ncia&quot; pessoal    que delas se considerava resultar, todas elas condi&ccedil;&otilde;es ent&atilde;o    requeridas para o exerc&iacute;cio pleno da cidadania. Ao contr&aacute;rio do    que sucede nas teorias contempor&acirc;neas da cidadania, em que, uma vez questionada    a universalidade da raz&atilde;o, a quest&atilde;o central &eacute; cada vez    mais a de saber como fazer coexistir (e valorizar) a diferen&ccedil;a (cultural,    de formas de vida, de g&eacute;nero, de opini&otilde;es) na mesma comunidade    de cidad&atilde;os e, ainda assim, encontrar uma base sem&acirc;ntica comum    capaz de unir essa diversidade, no s&eacute;culo xix o grande problema foi mais    o de saber como &eacute; que os que divergiam do &quot;cidad&atilde;o-padr&atilde;o&quot;    (o escravo, o &quot;primitivo&quot;, o campon&ecirc;s, o criado, o oper&aacute;rio,    o pobre) podiam vir a transformar-se num &quot;igual&quot;, como reduzir as    diferen&ccedil;as (culturais, intelectuais, psicol&oacute;gicas, de condi&ccedil;&otilde;es    materiais) entre os homens, para depois os integrar na &quot;cidade&quot;. Isto    porque o debate racional do &quot;espa&ccedil;o p&uacute;blico&quot; burgu&ecirc;s    oitocentista requeria uma certa equival&ecirc;ncia de pontos de vista entre    os que nele participavam, ou um &quot;tipo moral e social homog&eacute;neo&quot;,    para utilizar as palavras de Rui Ramos (2004, p. 193) num artigo que escreveu    sobre a cidadania no Portugal de Oitocentos<sup><a href="#2">2</a></sup><a name="top2"></a>.    Essa homogeneidade foi uma exig&ecirc;ncia requerida por uma pretens&atilde;o    de universalidade que, na verdade, foi por ela contrariada, porque a cren&ccedil;a    impl&iacute;cita na exist&ecirc;ncia de um ponto de vista &quot;universal&quot;    (concordante com uma &quot;raz&atilde;o universal&quot;) implicou sempre a remiss&atilde;o    para a esfera do &quot;particular&quot; de formas de viver e pensar que n&atilde;o    se conformassem com esse ponto de vista<sup><a href="#3">3</a></sup><a name="top3"></a>.      <p>&nbsp;     <P><b>A igualdade no &quot;iluminismo radical&quot; </b>     <p>A ideia da igualdade universal dos homens no seu &quot;estado natural&quot;,    independentemente do tempo, do lugar e dos contextos hist&oacute;ricos concretos,    &eacute; uma ideia que pode encontrar-se na filosofia antiga, no direito romano    e tamb&eacute;m na filosofia pol&iacute;tica do humanismo renascentista. Contudo,    a mesma ideia n&atilde;o teve, nesses contextos, consequ&ecirc;ncias doutrinais    sobre o estatuto pol&iacute;tico e civil dos homens na &quot;cidade&quot; que    se idealizava. Esta dependia da virtude dos seus cidad&atilde;os, que ela potenciava,    e n&atilde;o da garantia dos seus direitos (naturais) (Brett, 2003, p. 99)<sup><a href="#4">4</a></sup><a name="top4"></a>.    Entre a ordem natural da igualdade e a ordem civil n&atilde;o havia comunica&ccedil;&atilde;o,    o que explica, por exemplo, o modo como a institui&ccedil;&atilde;o da escravatura    foi explicada pela doutrina romana. No <I>Digesto </I>podia ler-se que, por    direito natural, todos os homens nasciam livres<sup><a href="#5">5</a></sup><a name="top5"></a>    e que, portanto, a escravatura era &quot;uma institui&ccedil;&atilde;o do direito    das gentes, pela qual algu&eacute;m est&aacute;, <I>contra a natureza,</I> submetido    ao dom&iacute;nio de outrem&quot;<sup><a href="#6">6</a></sup><a name="top6"></a>.    Sendo assim, a primeira vez que se retiraram, na teoria pol&iacute;tica europeia,    consequ&ecirc;ncias normativas importantes do tema da igualdade natural entre    os seres humanos, na sua condi&ccedil;&atilde;o de sujeitos de direitos &quot;naturais&quot;,    foi nos textos dos te&oacute;logos peninsulares do s&eacute;culo xvi. O confronto    cultural com as comunidades de &iacute;ndios na Am&eacute;rica, juntamente com    a viol&ecirc;ncia gerada pela divis&atilde;o religiosa na Europa, dirigiu a    aten&ccedil;&atilde;o de te&oacute;logos das escolas de Salamanca e Coimbra    (Francisco Su&aacute;rez (1448-1617), Martin de Azpilcieta (1493-1586), Francisco    de Vit&oacute;ria (1492-1546), Domingo de Soto (1494-1560), Lu&iacute;s de Molina    (1535-1600), para a hip&oacute;tese do &quot;homem natural&quot;, anterior ao    &quot;homem crist&atilde;o&quot;, dotado de &quot;direitos naturais&quot;, que    todos os homens possu&iacute;am, mesmo antes do nascimento de Cristo, e que    a ordem civil devia observar (Brett, 2003, pp. 101-102; Skinner, 1978, p. 156;    Cabanillas, 1995).      <p>Poucos anos depois, em Inglaterra, tamb&eacute;m sob a forte influ&ecirc;ncia  das lutas religiosas que ent&atilde;o amea&ccedil;avam as sociedades europeias,  Thomas Hobbes (1588-1679) descreveu de modo in&eacute;dito, no seu  <I>Leviathan</I> (1651), a radical igualdade natural entre os homens, ao afirmar que &quot;a natureza  fez os homens t&atilde;o iguais quanto &agrave;s faculdades do corpo e do esp&iacute;rito  que, embora por vezes se encontre um homem manifestamente mais forte  de corpo, ou de esp&iacute;rito mais vivo do que outro, mesmo assim, quando  se considera tudo isto em conjunto, a diferen&ccedil;a entre um e outro homem  n&atilde;o &eacute; suficientemente consider&aacute;vel para que qualquer um possa com base  nela reclamar qualquer benef&iacute;cio a que outro n&atilde;o possa igualmente  aspirar<sup><a href="#7">7</a></sup><a name="top7"></a>.      <p>Diferen&ccedil;as essenciais separaram a teoria pol&iacute;tica neo-escol&aacute;stica    do s&eacute;culo xvi da doutrina hobbesiana. Herdeiros intelectuais do tomismo,    os te&oacute;logos das universidades peninsulares nunca deixaram de pensar a    integra&ccedil;&atilde;o do homem numa comunidade pol&iacute;tica como um facto    natural. O direito natural integrava o direito a uma &quot;vida moral numa comunidade    pol&iacute;tica&quot;, o que sugeria o direito da &quot;cidade&quot; a exigir    o sacrif&iacute;cio do bem individual em nome do bem colectivo, n&atilde;o obstante    alguns dos autores terem levado longe a identifica&ccedil;&atilde;o de um dom&iacute;nio    protegido pelos direitos naturais, em que a &quot;cidade&quot; n&atilde;o podia    legislar (Brett, 2003, pp. 102-103). Pelo contr&aacute;rio, em Hobbes, ao direito    natural que os indiv&iacute;duos tinham, no seu &quot;estado natureza&quot;,    a &quot;todas as coisas, incluindo os corpos uns dos outros&quot;, correspondia    a sua natureza anti-social, a guerra permanente com outros homens com igual    direito a todas as coisas<sup><a href="#8">8</a></sup><a name="top8"></a>. O    fundamento &uacute;ltimo da sociedade n&atilde;o era, por isso, o ideal colectivo    do bem comum ou a preserva&ccedil;&atilde;o dos direitos naturais dos indiv&iacute;duos,    mas antes a limita&ccedil;&atilde;o desses direitos. Uma limita&ccedil;&atilde;o    cuja finalidade era a de superar as desvantagens que resultavam, para cada indiv&iacute;duo,    do direito original (natural) que todos tinham a todas as coisas. Assim, a narrativa    hobbesiana, al&eacute;m de ser radicalmente individualista, terminava na neutraliza&ccedil;&atilde;o    da for&ccedil;a extrajur&iacute;dica dos direitos naturais, neutraliza&ccedil;&atilde;o    racionalmente acordada por cada um dos indiv&iacute;duos para melhor poder realizar    as suas vantagens. Em vez de estar limitado pelo direito da natureza, o soberano    hobbesiano decidia, de acordo com o seu crit&eacute;rio, que &quot;espa&ccedil;os    de liberdade natural&quot; ficavam livres da interfer&ecirc;ncia da sua lei    disciplinadora (Skinner, 2002,pp. 220-221).      <p>O que importa aqui sublinhar, por&eacute;m, &eacute; que, por motivos diversos,  em nenhuma destas vis&otilde;es a igualdade pol&iacute;tica ou uma maior igualdade  socio-econ&oacute;mica surgiu como uma exig&ecirc;ncia requerida pela &quot;igualdade natural&quot;,  o que fez com que as reflex&otilde;es a elas associadas tivessem impacto (de  sentido contr&aacute;rio) sobre o tema da constitui&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica das sociedades, mas  n&atilde;o sobre o tema da reforma social.      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>N&atilde;o obstante, foi ainda no s&eacute;culo xvii, e tamb&eacute;m no s&eacute;culo    seguinte, que a ideia de igualdade natural como princ&iacute;pio inspirador    da organiza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e social adquiriu, nos textos de    um grupo (minorit&aacute;rio) de autores, um potencial de reforma social at&eacute;    ent&atilde;o desconhecido no pensamento europeu. A marca distintiva desses textos    [de autores como Spinoza (1632-1677), Diderot (1713-1784), Pierre Bayle (1647-1706),    Jean Le Rond d'Alembert (1717-1783)], entre outros menos conhecidos, todos eles    associados, na obra de Johnathan Israel (2006), a uma forma radical de iluminismo<I>    (radical enlightenment),</I> foi que neles a igualdade pol&iacute;tica e moral    do homem em sociedade passou a ser requerida e justificada pela igualdade natural    do estado pr&eacute;-pol&iacute;tico. Na origem da sociedade pol&iacute;tica    n&atilde;o havia, na generalidade das suas narrativas nem raz&atilde;o nem contrato    social imposto por &quot;leis naturais&quot; da raz&atilde;o, mas antes uma    evolu&ccedil;&atilde;o, gradual, para o &quot;estado social&quot;, evolu&ccedil;&atilde;o    ao longo da qual a igualdade natural devia permanecer intacta e as paix&otilde;es    e instintos humanos t&atilde;o valorizados quanto a sua raz&atilde;o. Esse ponto    de partida, que envolveu novamente a teoriza&ccedil;&atilde;o de um passado    igualit&aacute;rio para a humanidade, deu origem a propostas radicais de reforma    social orientadas por perspectivas verdadeiramente universalistas do princ&iacute;pio    da igualdade. Contra as &quot;inven&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas&quot;    que fundavam as desigualdades denunciou-se o que se considerava ser a natureza    arbitr&aacute;ria e insustent&aacute;vel dos estatutos sociais especiais, de    origem aristocr&aacute;tica, eclesi&aacute;stica ou outra; publicaram-se escritos    em defesa da cria&ccedil;&atilde;o de situa&ccedil;&otilde;es sociais de igualdade    absoluta entre homens e mulheres [como nos <I>Discours physique et moral de    l'&eacute;galit&eacute; de deux sexes</I> (1673), de Fran&ccedil;ois Poulain    de La Barre (1643-1723)]; teceram-se reflex&otilde;es sobre a igualdade entre    homens &quot;primitivos&quot; e homens &quot;civilizados&quot;, que terminaram    numa vis&atilde;o cr&iacute;tica dos imp&eacute;rios coloniais europeus (v.    as <I>Histoires philosofique et politique des &eacute;tablissements et du commerce    des Europ&eacute;ens dans les deux Indes,</I> de Denis Diderot, publicadas em    10 volumes entre 1772-1780). Neste registo de discuss&atilde;o sobre a diferen&ccedil;a    entre os povos, Pierre Bayle subverteu mesmo as hierarquias civilizacionais    correntes na &eacute;poca ao afirmar, no seu <I>Commentaire philosophique,</I>    que as sociedades &quot;primitivas&quot; por serem mais igualit&aacute;rias    se caracterizavam por um n&iacute;vel &eacute;tico mais elevado do que as sociedades    europeias, com as suas velhas hierarquias sociais e jur&iacute;dicas. Invalidava,    assim, a presun&ccedil;&atilde;o de superioridade dos &quot;mais civilizados&quot;    sobre os &quot;menos civilizados&quot;<sup><a href="#9">9</a></sup><a name="top9"></a>.      <p>A rep&uacute;blica democr&aacute;tica foi, previsivelmente, a forma pol&iacute;tica    mais escolhida por estes autores, pois s&oacute; o legislador democraticamente    legitimado podia, com a sua lei, reconstruir a &quot;igualdade natural&quot;.    Neste projecto igualit&aacute;rio, a educa&ccedil;&atilde;o era o instrumento    fundamental de tal reconstru&ccedil;&atilde;o (Israel, 2006, pp. 566 e segs.).    Mas alguns autores foram ainda mais longe, defendendo formas de interven&ccedil;&atilde;o    pol&iacute;tica activa a favor de uma maior igualdade<sup><a href="#10">10</a></sup><a name="top10"></a>.      <p>&nbsp;     <P><b>A desigualdade no liberalismo oitocentista </b>     <p>O liberalismo oitocentista conheceu, atrav&eacute;s de processos de recep&ccedil;&atilde;o    que n&atilde;o s&atilde;o suscept&iacute;veis de ser aqui reconstitu&iacute;dos,    este patrim&oacute;nio de reflex&atilde;o intelectual e pol&iacute;tica sobre    o princ&iacute;pio da igualdade<sup><a href="#11">11</a></sup><a name="top11"></a>.    A ideia da igualdade original da esp&eacute;cie humana foi comum ao pensamento    das suas refer&ecirc;ncias mais importantes (John Locke, Montesquieu, Immanuel    Kant, Benjamin Constant, Alexis Tocqueville, John Stuart Mill). E, n&atilde;o    obstante, o ordenamento jur&iacute;dico liberal oitocentista, al&eacute;m de    ter deixado quase intactas muitas situa&ccedil;&otilde;es de desigualdade herdadas    das sociedades que os pol&iacute;ticos seus contempor&acirc;neos denominaram    de &quot;Antigo Regime&quot;, inventou formas novas de exclus&atilde;o pol&iacute;tica,    submetendo o acesso aos direitos pol&iacute;ticos ao crit&eacute;rio da autonomia    da vontade e do interesse que aquele ordenamento aferia atrav&eacute;s do acesso    &agrave; propriedade (pela imposi&ccedil;&atilde;o de esquemas censit&aacute;rios),    do grau de instru&ccedil;&atilde;o, da idade, do sexo e do &quot;est&aacute;dio    civilizacional&quot; dos povos e dos indiv&iacute;duos que os integravam<sup><a href="#12">12</a></sup><a name="top12"></a>.      <p> A justifica&ccedil;&atilde;o doutrinal da desigualdade foi, durante o s&eacute;culo    xix, facilitada pelo facto de o pensamento pol&iacute;tico oitocentista ter    sido mais modelado pelo &quot;iluminismo moderado&quot; de obras como as de    Locke ou de Montesquieu do que por um &quot;iluminismo radical&quot;. Este registo    mais moderado da fam&iacute;lia dos &quot;iluminismos&quot;<sup><a href="#13">13</a></sup><a name="top13"></a>    acomodou, em muitos aspectos, a ideia de desigualdade, oferecendo &agrave; doutrina    jur&iacute;dica argumentos para a sua preserva&ccedil;&atilde;o. Numa das obras    mais importantes da tradi&ccedil;&atilde;o do pensamento liberal cl&aacute;ssico    europeu, <I>Two Treatises of Government</I> (1698), John Locke, um exemplo que    aqui convoco pela sua matricialidade, descreveu o estado natural do homem como    um estado de absoluta igualdade<sup><a href="#14">14</a></sup><a name="top14"></a>,    mas enumerou tamb&eacute;m com pormenor as formas de desigualdade que essa afirma&ccedil;&atilde;o    n&atilde;o comprometia. Para o fil&oacute;sofo pol&iacute;tico seiscentista,    a &quot;igualdade natural&quot; n&atilde;o punha em quest&atilde;o as desigualdades    que decorriam da idade e da virtude, do m&eacute;rito, do nascimento, da natureza    ou de sentimentos pol&iacute;ticos, como a gratid&atilde;o<sup><a href="#15">15</a></sup><a name="top15"></a>.    Esses crit&eacute;rios permitiam a preserva&ccedil;&atilde;o das hierarquias    pr&eacute;-pol&iacute;ticas do mundo dom&eacute;stico (como a subordina&ccedil;&atilde;o    dos filhos aos pais, das mulheres aos maridos, dos escravos, libertos e criados    ao senhor<sup><a href="#16">16</a></sup><a name="top16"></a>), &agrave;s quais    Locke juntou as rela&ccedil;&otilde;es de subordina&ccedil;&atilde;o que deviam    existir entre os que eram dotados de raz&atilde;o<sup><a href="#17">17</a></sup><a name="top17"></a>    e os que a n&atilde;o sabiam (ainda) usar ou eram de todo incapazes de &quot;entendimento&quot;<sup><a href="#18">18</a></sup><a name="top18"></a>.    De hierarquia e subordina&ccedil;&atilde;o eram tamb&eacute;m as rela&ccedil;&otilde;es    entre povos mais &quot;primitivos&quot; e os povos que se considerava estarem    j&aacute; organizados em sociedades pol&iacute;ticas, ou as rela&ccedil;&otilde;es    humanas que se estabeleciam no &quot;estado de guerra&quot;. Estas &uacute;ltimas    hierarquias podiam fundamentar o poder ilimitado do senhor sobre os seus escravos,    fosse porque os escravos tivessem sido resgatados numa &quot;guerra justa<sup><a href="#19">19</a></sup><a name="top19"></a>,    fosse por ser a rela&ccedil;&atilde;o do escravo com o senhor assimil&aacute;vel    ao estado (super&aacute;vel) de guerra cont&iacute;nua entre o conquistador    e o cativo<sup><a href="#20">20</a></sup><a name="top20"></a>. Podiam tamb&eacute;m    fundamentar os direitos de propriedade dos povos europeus sobre as terras habitadas    pelos &iacute;ndios na Am&eacute;rica<sup><a href="#21">21</a></sup><a name="top21"></a>.    A preserva&ccedil;&atilde;o da propriedade, como primeiro fundamento do governo,    protegia, por fim, todas as desigualdades &quot;reais&quot;, e tamb&eacute;m    a maior delas, o estado de escravatura, pois o n&atilde;o poderem ser propriet&aacute;rios    era um dos motivos apontados para a exclus&atilde;o dos escravos. Os escravos    n&atilde;o podiam ser parte da sociedade civil porque o fim desta era a preserva&ccedil;&atilde;o    da propriedade que eles n&atilde;o podiam ter<sup><a href="#22">22</a></sup><a name="top22"></a>.    Finalmente, sendo a propriedade a prova da racionalidade do indiv&iacute;duo,    &quot;da sua capacidade de exercer o controlo e planificar racionalmente as    suas pr&oacute;prias ac&ccedil;&otilde;es&quot; (Costa, 2006, p. 61), e sendo    a racionalidade o crit&eacute;rio para distinguir quem devia governar-se e quem    devia ser governado, torna-se f&aacute;cil encontrar no pensamento lockeano    os fundamentos de exclus&atilde;o pol&iacute;tica que ir&atilde;o ser actuados    pela maioria dos regimes pol&iacute;ticos liberais de Oitocentos<sup><a href="#23">23</a></sup><a name="top23"></a>.      <p>A desigualdade no acesso aos direitos pol&iacute;ticos foi, j&aacute; no  s&eacute;culo xviii, normativamente descrita na obra pol&iacute;tica de I. Kant quando, delimitando  com rigor a fronteira que devia separar os cidad&atilde;os dos n&atilde;o cidad&atilde;os, o  fil&oacute;sofo alem&atilde;o explicou que, &quot;no respeitante &agrave; legisla&ccedil;&atilde;o, todos os que s&atilde;o livres  e iguais perante as leis p&uacute;blicas devem ser considerados iguais, mas n&atilde;o  no que diz respeito ao direito de fazer essas leis [&#133;] Todo aquele que tem  o direito a votar a legisla&ccedil;&atilde;o &eacute; um  <I>cidad&atilde;o</I> (<I>citoyen,</I> isto &eacute;, cidad&atilde;o de  um Estado, n&atilde;o um<I> bourgeois,</I> ou cidad&atilde;o de uma cidade). A &uacute;nica  qualifica&ccedil;&atilde;o requerida por um cidad&atilde;o (pondo de lado, evidentemente, a de ser  homem e adulto) &eacute; que ele deve ser o seu pr&oacute;prio senhor  <I>(sui iuris)</I> e deve ter alguma <I>propriedade  </I>[&#133;] para se manter a si mesmo. Nos casos em que o  seu sustento depende de outros, ele deve  consegui-lo<I> vendendo</I> aquilo que &eacute;  seu, e n&atilde;o permitindo aos outros que fa&ccedil;am uso de si. Porque o cidad&atilde;o n&atilde;o  deve servir ningu&eacute;m a n&atilde;o ser a  Rep&uacute;blica&quot;<sup><a href="#24">24</a></sup><a name="top24"></a>.     <p>Apesar desta permeabilidade original &agrave; ideia de hierarquia e subordina&ccedil;&atilde;o,    o pensamento liberal nunca abandonou definitivamente o &quot;princ&iacute;pio    da igualdade&quot; nas suas v&aacute;rias dimens&otilde;es. Sujeitou-o, em vez    disso, a uma reinterpreta&ccedil;&atilde;o, capaz de acomodar as desigualdades    juridicamente sancionadas do presente. Essa reinterpreta&ccedil;&atilde;o envolveu    a constru&ccedil;&atilde;o de uma nova narrativa, na qual a igualdade continuou    a localizar-se em dois tempos distintos, que j&aacute; n&atilde;o eram o passado    e o presente, mas, em vez disso, o passado e o futuro. Nos pr&oacute;ximos par&aacute;grafos    vai descrever-se os principais lugares dessa narrativa e mostrar-se a sua recupera&ccedil;&atilde;o    nos textos jur&iacute;dicos portugueses do s&eacute;culo xix. Posteriormente,    ser&atilde;o dados alguns exemplos de como esta narrativa ajudou a racionalizar    o desigual acesso &agrave; cidadania no pensamento pol&iacute;tico e na doutrina    jur&iacute;dica de Oitocentos.      <p>&nbsp;     <P><b>A Igualdade na filosofia da hist&oacute;ria do liberalismo </b>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Se a refer&ecirc;ncia aos indiv&iacute;duos e aos seus direitos, independentemente    do tempo e dos contextos hist&oacute;ricos, esteve sempre presente no pensamento    liberal oitocentista e se o contrato social esteve quase sempre no horizonte    da explica&ccedil;&atilde;o da origem da sociedade, tal n&atilde;o significou    um alheamento geral face &agrave; hist&oacute;ria da humanidade. Pelo contr&aacute;rio,    entre o indiv&iacute;duo no estado &quot;pr&eacute;-social&quot; (o &quot;primitivo&quot;    ou o &quot;selvagem&quot;) e o indiv&iacute;duo em sociedade existiu sempre    uma hist&oacute;ria. N&atilde;o a hist&oacute;ria org&acirc;nica e particular    de cada povo, na qual viriam a concentrar-se os autores rom&acirc;nticos, mas    a hist&oacute;ria universal do aperfei&ccedil;oamento do &quot;esp&iacute;rito    humano&quot;, que se realizava ao longo de um conjunto de etapas que todos os    seres humanos, individual ou colectivamente, acabariam por viver<sup><a href="#25">25</a></sup><a name="top25"></a>.    A aten&ccedil;&atilde;o a uma hist&oacute;ria universal da humanidade surgiu    logo na obra lockeana como factor de explica&ccedil;&atilde;o para a passagem    dos homens para a sociedade pol&iacute;tica (Waldron, 1994, pp. 51-70). Contudo,    esta hist&oacute;ria geral da humanidade adquiriu, nas obras dos autores liberais    oitocentistas, um sentido teleol&oacute;gico que n&atilde;o tinha na narrativa    lockenana, sentido esse que permitiu, ao mesmo tempo, anunciar o desaparecimento    (futuro) das desigualdades no acesso aos direitos e justificar, com a pr&oacute;pria    &quot;marcha&quot; da hist&oacute;ria, a perman&ecirc;ncia de muitas dessas    desigualdades no tempo presente. A &quot;marcha da hist&oacute;ria&quot; tinha    um sentido e, como se vai ver, o seu fim era conduzir, <I>progressivamente,</I>    os homens para a igualdade, independentemente da sua vontade. Foi esta, por    exemplo, a perspectiva de Benjamin Constant quando, dando continuidade &agrave;    percep&ccedil;&atilde;o setecentista da hist&oacute;ria como caminho de aperfei&ccedil;oamento    do &quot;esp&iacute;rito&quot; humano, publicou, em 1829, o ensaio intitulado    <I>De la perfectibilit&eacute; de l'esp&egrave;ce humaine</I><sup><a href="#26">26</a></sup><a name="top26"></a>.    Eram quatro, segundo descreveu Constant, as etapas hist&oacute;ricas j&aacute;    percorridas nesse caminho, ao longo do qual os homens seriam reconduzidos &agrave;    sua igualdade natural: da teocracia (que se fazia equivaler &agrave; escravatura    pol&iacute;tica) &agrave; escravatura civil, da escravatura ao feudalismo, dos    privil&eacute;gios da nobreza &agrave; igualdade perante a lei<sup><a href="#27">27</a></sup><a name="top27"></a>.    A hist&oacute;ria e a sua &quot;marcha&quot;, n&atilde;o os indiv&iacute;duos,    eram o elemento activo neste processo, ao criar as condi&ccedil;&otilde;es sociais    e econ&oacute;micas suscept&iacute;veis de promover o progresso. O resultado    seria a igualiza&ccedil;&atilde;o social, uma sociedade na qual &agrave; igualdade    de todos perante a lei se juntaria a igualiza&ccedil;&atilde;o socioecon&oacute;mica    (o crescimento da classe m&eacute;dia), encorajada pela circula&ccedil;&atilde;o    e redistribui&ccedil;&atilde;o da riqueza e, potenciado por esta, o alargamento    da participa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica. O aperfei&ccedil;oamento moral    dos homens acompanharia esse progresso porque, explicou ainda Benjamin Constant,    &quot;a perfectibilidade da esp&eacute;cie humana n&atilde;o &eacute; outra    coisa sen&atilde;o a tend&ecirc;ncia para a igualdade. Esta tend&ecirc;ncia    resulta do facto de somente a igualdade ser conforme &agrave; verdade, ou seja,    &agrave; rela&ccedil;&atilde;o das coisas entre elas e dos homens entre si.    Da desigualdade resulta sempre a injusti&ccedil;a&quot;<sup><a href="#28">28</a></sup><a name="top28"></a>.    Como sublinhou Lucien Jaume, esta capacidade interior de &quot;descobrir a igualdade    (em si mesmo)&quot; exigia a passagem por sucessivos est&aacute;dios hist&oacute;ricos,    o que significa que a autonomia da consci&ecirc;ncia individual, pedra-de-toque    do &quot;liberalismo do individuo&quot;, de que Benjamin Constant foi um representante,    foi aqui substitu&iacute;da por uma &quot;ordem hist&oacute;rica em que a consci&ecirc;ncia    se torna[va] o produto do seu tempo&quot; (Jaume, 1997, pp. 111-114). Por outro    lado, o processo de igualiza&ccedil;&atilde;o social n&atilde;o carecia sequer    de uma interven&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica significativa. Era o resultado    natural de uma &quot;inevitabilidade hist&oacute;ria&quot; e n&atilde;o de programas    de reforma legislativa<sup><a href="#29">29</a></sup><a name="top29"></a>.      <p>A no&ccedil;&atilde;o de que existia um &quot;princ&iacute;pio de igualdade&quot;    inscrito no processo hist&oacute;rico constituiu tamb&eacute;m o tema principal    da introdu&ccedil;&atilde;o de Alexis Tocqueville ao livro <I>De la d&eacute;mocratie    en Am&eacute;rique</I> (1835)<I>. </I>A&iacute; descobre-se, por detr&aacute;s    de factos como a decad&ecirc;ncia do poder econ&oacute;mico e pol&iacute;tico    da nobreza, a ascens&atilde;o econ&oacute;mica dos plebeus ocasionada pelo com&eacute;rcio,    a desvaloriza&ccedil;&atilde;o do crit&eacute;rio do nascimento ou o empobrecimento    dos ricos e o enriquecimento dos pobres (&quot;la division des fortunes a diminu&eacute;    la distance qui s&eacute;parait le pauvre du riche&quot;<sup><a href="#30">30</a></sup><a name="top30"></a>),    uma tend&ecirc;ncia irresist&iacute;vel da hist&oacute;ria para a cria&ccedil;&atilde;o    da igualdade de condi&ccedil;&otilde;es: &quot;o desenvolvimento gradual da    igualdade de condi&ccedil;&otilde;es &eacute;, portanto, um facto providencial    cujas caracter&iacute;sticas s&atilde;o as seguintes: &eacute; universal, duradouro,    escapa todos os dias ao poder dos homens &#151; todos os acontecimentos, como    todos os homens, contribuem para o seu desenvolvimento. Ser&aacute; sensato    acreditar que um movimento social que vem de t&atilde;o longe possa ser suspenso    pelos esfor&ccedil;os de uma gera&ccedil;&atilde;o? Depois de ter destru&iacute;do    a feudalidade e vencido os reis, a democracia recuar&aacute; perante os burgueses    e os ricos?&quot;<sup><a href="#31">31</a></sup><a name="top31"></a>. Tamb&eacute;m    em Tocqueville a afirma&ccedil;&atilde;o desse princ&iacute;pio surgiu ent&atilde;o    como o resultado de uma esp&eacute;cie de &quot;lei de necessidade&quot;. Embora    ele considerasse que tal princ&iacute;pio n&atilde;o devia actuar de forma arbitr&aacute;ria    (devendo, em vez disso, ser dirigido pelos governos para que dele se retirasse    o melhor e se evitasse o pior, o &quot;despotismo democr&aacute;tico&quot;),    o seu texto est&aacute; cheio de refer&ecirc;ncias positivas aos efeitos da    igualiza&ccedil;&atilde;o. Na Am&eacute;rica que Tocqueville observou e descreveu,    a igualdade de condi&ccedil;&otilde;es modificava a rela&ccedil;&atilde;o entre    os cidad&atilde;os, suavizando os costumes, introduzindo-se na regula&ccedil;&atilde;o    das rela&ccedil;&otilde;es familiares, econ&oacute;micas, de trabalho e favorecendo    a&iacute; a igualdade (entre marido e mulher, entre criados e senhores, entre    filhos e pais, entre assalariados e empregadores, entre rendeiros e arrendat&aacute;rios)<sup><a href="#32">32</a></sup><a name="top32"></a>.      <p>Outro exemplo eloquente, desta vez vindo do liberalismo utilitarista, cuja    vertente reformista foi muito mais forte, &eacute; o de John Stuart Mill nas    suas reflex&otilde;es sobre a protec&ccedil;&atilde;o jur&iacute;dica do que    designava como a &quot;tirania dom&eacute;stica&quot; exercida pelos homens    sobre as mulheres. A for&ccedil;a do princ&iacute;pio igualit&aacute;rio surge    a&iacute;, de novo, na sua &quot;irresistibilidade&quot;, como um princ&iacute;pio    moral (e crist&atilde;o) que se concretizava na hist&oacute;ria, gradualmente,    ainda que com avan&ccedil;os e recuos:      <blockquote>       <p>Sempre que, em &eacute;pocas recuadas, se ensaiou qualquer aproxima&ccedil;&atilde;o      &agrave; sociedade igualit&aacute;ria, a justi&ccedil;a afirmou os seus direitos      como alicerce da virtude. Foi assim nas Rep&uacute;blicas livres da Antiguidade.      Mas, mesmo nas melhores de entre elas, a igualdade abrangia apenas os cidad&atilde;os      masculinos livres: os escravos, as mulheres e os estrangeiros (que n&atilde;o      tinham direito de voto) estavam sob a lei da for&ccedil;a. A influ&ecirc;ncia      conjunta da civiliza&ccedil;&atilde;o romana e do Cristianismo obliterou estas      distin&ccedil;&otilde;es e, em teoria &#151; ainda que s&oacute; parcialmente      na pr&aacute;tica &#151;, declarou que os direitos do ser humano, enquanto      tal, se sobrepunham aos do sexo, classe ou posi&ccedil;&atilde;o social. Depois,      as barreiras que tinham come&ccedil;ado a tombar foram de novo erguidas pelas      conquistas do Norte. E, desde a&iacute;, toda a hist&oacute;ria moderna tem      sido o lento processo pelo qual essas barreiras se t&ecirc;m vindo progressivamente      a desmoronar. Estamos a entrar numa era em que a justi&ccedil;a ser&aacute;      de novo a virtude primordial, alicer&ccedil;ada, como antes, numa associa&ccedil;&atilde;o      igualit&aacute;ria, mas agora tamb&eacute;m emp&aacute;tica, entre os indiv&iacute;duos      [&#133;] e que n&atilde;o excluir&aacute; ningu&eacute;m, sendo, em id&ecirc;ntica      medida, extensiva a todos&quot; [Mill, 1975 (1869), p. 478]<sup><a href="#33">33</a></sup><a name="top33"></a>.    </p> </blockquote>     <p>Nem a in&eacute;rcia das institui&ccedil;&otilde;es ou dos costumes, nem o  conservadorismo do saber e da sociedade podiam evitar esse fim requerido pela  &quot;verdadeira virtude humana&quot;, porque esta exigia que &quot;os seres humanos vivam  juntos como iguais, sem reclamar nada para si pr&oacute;prios que n&atilde;o  estejam identicamente dispostos a conceder a todos os outros; encarando  qualquer esp&eacute;cie de dom&iacute;nio como uma necessidade excepcional e, em todos  os casos, tempor&aacute;ria (Mill, 1975 [1869], p. 479). Embora Stuart Mill  reconhecesse os efeitos moralmente positivos que resultariam de uma legisla&ccedil;&atilde;o  que promovesse a igualdade das pessoas  casadas<sup><a href="#34">34</a></sup><a name="top34"></a>, as fontes da desigualdade n&atilde;o dependiam, para ele, apenas do direito do casamento, mas tamb&eacute;m  de algo que definia como as &quot;condi&ccedil;&otilde;es gerais da sociedade humana&quot;  (Mill, 1975 [1869], p. 474)<sup><a href="#35">35</a></sup><a name="top35"></a>.      <p>A permeabilidade da doutrina jur&iacute;dica portuguesa a esta forma de pensar    o percurso da hist&oacute;ria e os seus fins pode encontrar-se em Jos&eacute;    Dias Ferreira (1837-1909) quando, nas suas <I>Anota&ccedil;&otilde;es aos Elementos    de Direito Natural do Exmo. Sr. Vicente Ferrer Neto Paiva </I>(1858), observou    que a humanidade progredia para uma &quot;igualdade completa e definitiva&quot;    (Ferreira, 1858, p. 66). O mesmo afirmou Bas&iacute;lio Alberto de Sousa e Pinto    (1777-1849) nas suas <I>Li&ccedil;&otilde;es de Direito Pol&iacute;tico</I>.    Os dois juristas identificavam quatro fases desse percurso, a divis&atilde;o    entre castas, a escravatura, o feudalismo, a divis&atilde;o entre nobres e plebeus    (Pinto, 2004 [<I>c</I>. 1840], p. 44) e o pauperismo (acrescentava Dias Ferreira).    Este progresso n&atilde;o era homog&eacute;neo, havia &quot;vest&iacute;gios&quot;    de todas aquelas divis&otilde;es &quot;em diversas partes da terra&quot;. Mas,    com a extens&atilde;o da &quot;civilidade&quot; antecipava-se tamb&eacute;m    o seu desaparecimento (Pinto, 2004 [1838], p. 278).      <p>Not&aacute;vel, na maioria dos textos que se citou at&eacute; aqui, &eacute;    a pouca aten&ccedil;&atilde;o que concediam &agrave; ac&ccedil;&atilde;o da    pol&iacute;tica no processo hist&oacute;rico de igualiza&ccedil;&atilde;o. Aparentemente,    o progresso n&atilde;o dependia tanto da interven&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica    quanto da actua&ccedil;&atilde;o das &quot;leis&quot; da hist&oacute;ria. Isso    explica a coexist&ecirc;ncia, em alguns dos seus autores, da cren&ccedil;a na    perfectibilidade do homem e das sociedades e, simultaneamente, nos efeitos ben&eacute;ficos    do liberalismo econ&oacute;mico e pol&iacute;tico, bem como a defesa de acep&ccedil;&otilde;es    negativas de liberdade, pouco compat&iacute;veis com programas legislativos    de sentido &quot;emancipador&quot; ou de combate &agrave;s causas da desigualdade.    Foi esse o caso de Benjamin Constant, para quem seria a liberdade &#151; que    para ele consistia, fundamentalmente, no livre exerc&iacute;cio dos direitos    civis<sup><a href="#36">36</a></sup><a name="top36"></a> &#151; a conduzir a    humanidade para uma maior igualdade. Tocqueville tinha uma perspectiva diferente,    acreditava nos efeitos educativos da participa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica    em inst&acirc;ncias pol&iacute;tico-administrativas descentralizadas, mas tamb&eacute;m    ele se empenhou mais em descrever o processo de intensifica&ccedil;&atilde;o    da &quot;igualdade de condi&ccedil;&otilde;es&quot; do que em pensar reformas    que conduzissem ou acelerassem esse processo, como se percebe ao ler as suas    obras mais importantes. Essa forma de perceber o processo hist&oacute;rico explica    o coment&aacute;rio de Ramon Aron (1965, p. 48) quando, confrontando Tocqueville    com Karl Marx, relacionou a confian&ccedil;a que o primeiro depositou na actua&ccedil;&atilde;o    das for&ccedil;as da hist&oacute;ria com alguma insensibilidade social: &quot;Tocqueville    permitia-se uma certa comodidade intelectual ao prever que o futuro seria dominado    pela classe m&eacute;dia. Essa espera apaziguadora e essa previs&atilde;o optimista    eximiam-no do esfor&ccedil;o de lutar contra as injusti&ccedil;as do presente.    Imaginava, atribu&iacute;a &agrave; Europa uma sociedade futura t&atilde;o m&oacute;vel    e din&acirc;mica como a sociedade americana e resignava-se facilmente &agrave;    sobreviv&ecirc;ncia, no velho continente, das discrimina&ccedil;&otilde;es de    classe e da impot&ecirc;ncia dos pobres&quot;<sup><a href="#37">37</a></sup><a name="top37"></a>.      <p>Outra perspectiva foi a do liberalismo utilitarista, mais vocacionado  para a elabora&ccedil;&atilde;o de programas pol&iacute;ticos reformistas, apesar de partilhar o  mesmo discurso filos&oacute;fico acerca do sentido da hist&oacute;ria. Sabemos tamb&eacute;m  que na Europa os governos liberais foram mais reformistas do que  n&atilde;o intervencionistas, muito mais orientados pela ideia de um Estado  racionalizador, capaz de educar os indiv&iacute;duos e melhorar as sociedades, do que por  um Estado como entidade apenas moderadora do livre exerc&iacute;cio das  liberdades econ&oacute;micas e civis<sup><a href="#38">38</a></sup><a name="top38"></a>. Em Portugal s&atilde;o expressivas, para o in&iacute;cio do  per&iacute;odo liberal, as observa&ccedil;&otilde;es de Ramon Salas, divulgadas atrav&eacute;s da  tradu&ccedil;&atilde;o portuguesa de uma das suas obras, porque nelas se exprime, de  forma exemplar, a oscila&ccedil;&atilde;o que por vezes se verificava quanto ao papel da  interven&ccedil;&atilde;o da lei a favor de uma maior igualiza&ccedil;&atilde;o social:     <blockquote>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Pelo que diz respeito &agrave; igualdade de riquezas, confesso, que &eacute;      imposs&iacute;vel estabelecer-se, se se fala de uma igualdade absoluta, e      permanente; porque nunca a lei poder&aacute; fazer com que um homem n&atilde;o      seja mais forte, do que outro, mais destro, mais laborioso, e mais econ&oacute;mico;      por&eacute;m as Leis podem ao menos minorar muito esta esp&eacute;cie de desigualdade,      estorvar a estagna&ccedil;&atilde;o das riquezas em poucas m&atilde;os, permitindo      que circulem livremente, protegendo a ind&uacute;stria e dando toda a latitude      poss&iacute;vel &agrave; ac&ccedil;&atilde;o do interesse individual, cuja      for&ccedil;a n&atilde;o tem sido bem apreciada pelos Legisladores em geral.      Convir&aacute; tamb&eacute;m muito abolir a faculdade de testar, ou pelo menos      reduzi-la a limites muito resumidos; e que todas as leis e todos os Actos      da administra&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica tenham uma tend&ecirc;ncia &agrave;      igualdade&quot; [Salas, 1822, p. 28] </p> </blockquote>     <p>Mas o que me interessa aqui salientar n&atilde;o &eacute; tanto o pendor mais    ou menos intervencionista dos governos e do pensamento dos autores oitocentistas,    mas a ideia, comum a quase todos, de que o que caracterizava o presente, no    respeitante &agrave; igualdade e aos direitos, era a sua natureza transit&oacute;ria.    Quer para os que afirmavam que a igualiza&ccedil;&atilde;o aconteceria de forma    independente da interven&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, quer para os (poucos)    que faziam depender o processo de um trabalho pol&iacute;tico pr&eacute;vio,    quer isso constitu&iacute;sse um exerc&iacute;cio ret&oacute;rico de justifica&ccedil;&atilde;o    ou uma convic&ccedil;&atilde;o, o presente surgia sempre como um <I>tempo de    transi&ccedil;&atilde;o em direc&ccedil;&atilde;o a um futuro mais &quot;inclusivo&quot;.</I>    Porque nem todos estavam preparados para a plenitude dos direitos, do mesmo    modo que nem todas as sociedades estavam civilizacionalmente capazes de os realizar,    era necess&aacute;rio esperar que o tempo, a natureza e as suas leis (ou, em    alguns casos, as reformas pol&iacute;ticas) actuassem num sentido favor&aacute;vel    &agrave; universaliza&ccedil;&atilde;o dos direitos. Essa promessa de inclus&atilde;o    futura reflectiu-se na inven&ccedil;&atilde;o de categorias jur&iacute;dicas    que se adequavam &agrave; ideia de &quot;espera&quot;, como as de cidadania    activa/passiva ou as da nacionalidade sem cidadania. Como se ver&aacute;, era    poss&iacute;vel sugerir, por meio destas categorias, que, sendo a cidadania    universal, algumas pessoas estavam, em rela&ccedil;&atilde;o a ela, numa situa&ccedil;&atilde;o    de &quot;transi&ccedil;&atilde;o&quot;, individual ou colectiva.      <p>&nbsp;     <P><b>Cidad&atilde;os activos/cidad&atilde;os passivos </b>     <p>A igualdade na submiss&atilde;o &agrave; lei n&atilde;o implicava, no pensamento    pol&iacute;tico de oitocentos, que todos participassem na sua elabora&ccedil;&atilde;o.    Pelo contr&aacute;rio, quase todos os textos constitucionais e doutrinais da    &eacute;poca diferenciaram os cidad&atilde;os em fun&ccedil;&atilde;o da participa&ccedil;&atilde;o    pol&iacute;tica. O direito p&uacute;blico de oitocentos distinguiu, para isso,    entre cidad&atilde;os <I>activos </I>e cidad&atilde;os <I>passivos</I> ou, alternativamente,    entre cidad&atilde;os e apenas nacionais. Cidad&atilde;os <I>activos </I>(ou    apenas cidad&atilde;os, quando a contraposi&ccedil;&atilde;o era entre nacionais    e cidad&atilde;os) eram todos os que, por reunirem condi&ccedil;&otilde;es psicol&oacute;gicas    para a forma&ccedil;&atilde;o de uma <I>vontade livre e aut&oacute;noma, </I>podiam    intervir na forma&ccedil;&atilde;o dos poderes p&uacute;blicos por meio do voto    e ser eleitos. Cidad&atilde;os <I>passivos</I> (ou apenas nacionais) eram todos    os que tinham direito &agrave; protec&ccedil;&atilde;o dos seus direitos naturais-civis    (a sua pessoa, liberdade e propriedade), mas n&atilde;o exerciam o direito de    voto e n&atilde;o podiam ser eleitos<sup><a href="#39">39</a></sup><a name="top39"></a>.    Os crit&eacute;rios com os quais se aferiu a <I>independ&ecirc;ncia da vontade</I>    foram o crit&eacute;rio censit&aacute;rio e/ou o grau de instru&ccedil;&atilde;o.    Por um lado, se a propriedade era sinal de racionalidade, da aus&ecirc;ncia    dela presumia-se a incapacidade (ou o &quot;desinteresse&quot;, j&aacute; que,    no horizonte, estava a ideia lockeana de que o fim da sociedade era a protec&ccedil;&atilde;o    da propriedade). Por outro, entendia-se, por vezes, que o homem instru&iacute;do/educado    tamb&eacute;m podia, ao lado do propriet&aacute;rio, participar no debate &quot;racional    e imparcial&quot; requerido pelo espa&ccedil;o p&uacute;blico oitocentista<sup><a href="#40">40</a></sup><a name="top40"></a>.    N&atilde;o obstante, estas exclus&otilde;es conviviam mal com a ideia, que permaneceu    no horizonte, segundo a qual os direitos pol&iacute;ticos, por serem direitos    naturais subjectivos, eram direitos de todos os homens, em cuja atribui&ccedil;&atilde;o    n&atilde;o deviam interferir vari&aacute;veis de natureza econ&oacute;mica,    social, cultural ou psicol&oacute;gica (como ser &quot;racional&quot;)<sup><a href="#41">41</a></sup><a name="top41"></a>.    &Eacute; certo que a cultura pol&iacute;tica e jur&iacute;dica oitocentista    produziu vis&otilde;es alternativas sobre a natureza do voto, nomeadamente atrav&eacute;s    de uma certa desvaloriza&ccedil;&atilde;o da participa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica    a favor do exerc&iacute;cio seguro dos direitos civis e da identifica&ccedil;&atilde;o    do voto, n&atilde;o como um direito, mas como uma fun&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica,    por meio da qual os eleitores designavam os &quot;mais capazes&quot; para o    governo da sociedade<sup><a href="#42">42</a></sup><a name="top42"></a>. Por    essa via, os indiv&iacute;duos delegavam noutros a direc&ccedil;&atilde;o dos    assuntos p&uacute;blicos para melhor se realizarem na esfera privada da sua    vida (Fioravanti, 1995, p. 67)<sup><a href="#43">43</a></sup><a name="top43"></a>.    Benjamin Constant descreveu de forma pedag&oacute;gica esta ideia, ao distinguir    entre a &quot;liberdade dos antigos&quot; e a &quot;liberdade dos modernos&quot;.    Se, para os &quot;antigos&quot;, a liberdade decorria mais &quot;da participa&ccedil;&atilde;o    activa no poder colectivo do que do gozo pac&iacute;fico da independ&ecirc;ncia    individual&quot;, para os modernos ela decorria, em primeiro lugar, do exerc&iacute;cio    dos direitos civis, da possibilidade de prosseguir em liberdade a &quot;felicidade    particular&quot; e as exig&ecirc;ncias profissionais da vida moderna, pouco    compat&iacute;veis com a &quot;virtude&quot; e os sacrif&iacute;cios que a liberdade    pol&iacute;tica dos antigos exigia<sup><a href="#44">44</a></sup><a name="top44"></a>.    Mas, apesar destas formas de entender os direitos pol&iacute;ticos, a tens&atilde;o    produzida pela percep&ccedil;&atilde;o do voto como um direito nunca deixou    de existir e, por isso, ao lado das doutrinas mais funcionais &agrave; realiza&ccedil;&atilde;o    dos projectos (de vida) privados dos cidad&atilde;os, e menos funcionais &agrave;    valoriza&ccedil;&atilde;o da participa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, a universaliza&ccedil;&atilde;o    futura dos direitos pol&iacute;ticos foi outra das formas encontradas para tornar    mais aceit&aacute;veis os limites impostos ao exerc&iacute;cio dos mesmos no    presente. Neste contexto, foram muitos os momentos em que o conceito de cidad&atilde;o    <I>passivo</I> serviu simultaneamente para excluir e, ao mesmo tempo, sugerir    uma futura inclus&atilde;o. Como notou Pierre Rosanvallon (1992) na sua obra    cl&aacute;ssica sobre o sufr&aacute;gio universal em Fran&ccedil;a, o conceito    de <I>cidad&atilde;o passivo</I> correspondeu a uma f&oacute;rmula encontrada    para <I>suspender temporariamente a participa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica</I>    activa de alguns cidad&atilde;os e, ao mesmo tempo, <I>preservar uma perspectiva    universalista de cidadania.</I> Isso era poss&iacute;vel porque se presumia    que o cidad&atilde;o passivo era algu&eacute;m que possu&iacute;a os direitos    pol&iacute;ticos mas que, temporariamente, n&atilde;o os podia exercer. Tratava-se,    portanto, de uma suspens&atilde;o que podia ser tempor&aacute;ria, mais do que    de uma exclus&atilde;o definitiva.      <p>O menor foi, naturalmente, o exemplo paradigm&aacute;tico do cidad&atilde;o    passivo, o &quot;indiv&iacute;duo inacabado&quot;, que, por meio da educa&ccedil;&atilde;o,    se transformaria no indiv&iacute;duo aut&oacute;nomo. O car&aacute;cter moment&acirc;neo    da suspens&atilde;o era, no seu caso, muito evidente, relacionando-se com o    processo educacional de cada indiv&iacute;duo. Mas existiam outros casos, como    o dos alienados ou interditos, cuja capacidade civil e direitos pol&iacute;ticos    seriam recuperados atrav&eacute;s da cura<sup><a href="#45">45</a></sup><a name="top45"></a>.    Outras vezes a mesma ideia surgiu relacionada n&atilde;o j&aacute; com o processo    de evolu&ccedil;&atilde;o individual mas colectivo<sup><a href="#46">46</a></sup><a name="top46"></a>.    A (necess&aacute;ria) evolu&ccedil;&atilde;o civilizacional das sociedades faria    desaparecer as diferencia&ccedil;&otilde;es e universalizaria a figura do cidad&atilde;o    activo<sup><a href="#47">47</a></sup><a name="top47"></a>. Essa ideia encontra-se    tamb&eacute;m na doutrina jur&iacute;dica portuguesa, a justificar as exclus&otilde;es    do presente com a ideia da imprepara&ccedil;&atilde;o da sociedade portuguesa.    Na perspectiva do publicista portugu&ecirc;s Jos&eacute; Joaquim Lopes Pra&ccedil;a    (1844-1920), por exemplo, a concess&atilde;o mais ou menos ampla dos direitos    pol&iacute;ticos variava (e devia variar) &quot;segundo o reg&iacute;men pol&iacute;tico,    e o grau de cultura e civiliza&ccedil;&atilde;o de cada povo&quot; (Pra&ccedil;a,    1878, p. 164)<sup><a href="#48">48</a></sup><a name="top48"></a>. Esta mesma    percep&ccedil;&atilde;o de que a extens&atilde;o do exerc&iacute;cio dos direitos    pol&iacute;ticos acompanharia a &quot;evolu&ccedil;&atilde;o civilizacional&quot;    surgiu, por exemplo, durante a discuss&atilde;o do primeiro Acto Adicional &agrave;    Carta Constitucional portuguesa de 1826, nos anos 50, quando um deputado (Moniz)    prop&ocirc;s que as condi&ccedil;&otilde;es de acesso aos direitos pol&iacute;ticos    ficassem reservadas &agrave; lei eleitoral, e n&atilde;o cristalizadas na lei    fundamental, para que amplia&ccedil;&otilde;es ou restri&ccedil;&otilde;es no    acesso aos direitos pol&iacute;ticos pudessem ser facilmente alteradas &quot;em    harmonia com o grau de civiliza&ccedil;&atilde;o que se fosse ganhando&quot;<sup><a href="#49">49</a></sup><a name="top49"></a>.      <p>&Eacute; certo que este registo optimista em rela&ccedil;&atilde;o a um futuro mais  igualit&aacute;rio n&atilde;o foi consensual. Alexandre Herculano, um dos mais  importantes teorizadores do liberalismo em Portugal, n&atilde;o s&oacute; n&atilde;o o partilhou, como  considerou serem os pol&iacute;ticos, juristas e intelectuais que nisso  acreditavam v&iacute;timas de uma ilus&atilde;o: &quot;diz-se e cr&ecirc;-se que as ideias democr&aacute;ticas  progridem neste s&eacute;culo pelas tend&ecirc;ncias para a igualdade. N&oacute;s ainda n&atilde;o  podemos convencer-nos disso. Figuram-se-nos os que assim pensam como  completamente iludidos&quot;<sup><a href="#50">50</a></sup><a name="top50"></a>. Mas o facto de Herculano chamar a aten&ccedil;&atilde;o para  a natureza ilus&oacute;ria desse registo &eacute; tamb&eacute;m um sinal da sua import&acirc;ncia  no pensamento da &eacute;poca em que ele escreveu.     <p>De acordo com o argumento &quot;civilizacional&quot; atr&aacute;s referido,    podiam ser t&atilde;o transit&oacute;rias as diferen&ccedil;as face &agrave;    cidadania que separavam o menor do maior de idade como as que separavam o criado    de servir do seu senhor ou o oper&aacute;rio pobre do propriet&aacute;rio, j&aacute;    que a liberdade civil, o progresso econ&oacute;mico e o avan&ccedil;o educacional    viriam esbater as diferen&ccedil;as, promover a independ&ecirc;ncia econ&oacute;mica/psicol&oacute;gica    e, com ela, a expans&atilde;o da participa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica<sup><a href="#51">51</a></sup><a name="top51"></a>.      <p>A pr&oacute;pria exclus&atilde;o pol&iacute;tica das mulheres, fundada na contraposi&ccedil;&atilde;o    entre feminilidade e racionalidade, e que a cultura pol&iacute;tica e jur&iacute;dica    oitocentista fez radicar maioritariamente na ordem da natureza, que a arrumava    na &quot;esfera dom&eacute;stica&quot;, foi tamb&eacute;m associada a circunst&acirc;ncias    particulares, como a subordina&ccedil;&atilde;o social e jur&iacute;dica ou    a pobreza da sua educa&ccedil;&atilde;o<sup><a href="#52">52</a></sup><a name="top52"></a>.    E, nesses casos, podia tamb&eacute;m ser encarada como o resultado da falta    de prepara&ccedil;&atilde;o das sociedades. Apesar de ter sido das &uacute;ltimas    restri&ccedil;&otilde;es no acesso aos direitos pol&iacute;ticos a ser eliminada    pela legisla&ccedil;&atilde;o eleitoral dos pa&iacute;ses europeus, e de essas    restri&ccedil;&otilde;es terem tido, tamb&eacute;m at&eacute; muito tarde, o    seu equivalente na codifica&ccedil;&atilde;o civil que protegeu as hierarquias    do mundo da fam&iacute;lia, mantendo as mulheres sob a tutela de pais e maridos,    o acesso desigual das mulheres aos direitos pol&iacute;ticos tamb&eacute;m foi    lido como um sinal de &quot;atraso&quot; que o avan&ccedil;o civilizacional    se encarregaria de eliminar. &Eacute; isso que pode deduzir-se das palavras    de Emmanuel-Joseph Siey&egrave;s (1748-1836) quando declarou, logo em 1789,    que a exclus&atilde;o pol&iacute;tica das mulheres decorria de um &quot;preconceito    extremamente radicado e <I>de momento</I> imposs&iacute;vel de modificar&quot;<sup><a href="#53">53</a></sup><a name="top53"></a>.    Foi esse tamb&eacute;m o racioc&iacute;nio impl&iacute;cito na posi&ccedil;&atilde;o    utilitarista de Jeremy Bentham. Nos seus projectos de reforma, Bentham admitiu    que o princ&iacute;pio da <I>maior felicidade </I>(e n&atilde;o os &quot;direitos    naturais&quot;, que considerava uma inven&ccedil;&atilde;o jur&iacute;dica mal    fundamentada) constitu&iacute;a um forte argumento a favor da extens&atilde;o    do voto &agrave;s mulheres, j&aacute; que a sua felicidade e interesse eram    equivalentes aos dos homens. N&atilde;o obstante, recusou-se a prop&ocirc;-la    nos seus projectos, por reconhecer que a for&ccedil;a do preconceito prejudicaria    a sua credibilidade (Twining, 2004, pp. 74 e 94-95). O facto, por&eacute;m,    de n&atilde;o ser &uacute;til promover altera&ccedil;&otilde;es repentinas n&atilde;o    invalidava a antecipa&ccedil;&atilde;o de um futuro de inclus&atilde;o: &quot;quanto    &agrave;s pessoas do sexo feminino, se for empregue o &uacute;nico meio adequado    de receber a sua declara&ccedil;&atilde;o de vontade, ou seja, <I>a do sufr&aacute;gio    secreto expresso&#160; livremente,</I> n&atilde;o h&aacute; qualquer raz&atilde;o    consistente com o princ&iacute;pio da utilidade geral, tal como acima exposto,    pela qual elas, desde que sejam de idade relativamente madura, devam (dele)    ser exclu&iacute;das. <I>Mas nenhum preconceito, por mais contr&aacute;rio que    seja ao princ&iacute;pio da utilidade</I> <I>geral, pode ser erradicado de um    golpe</I>: e seria ocioso propor a todos aquilo a que se sabe que ningu&eacute;m    daria o seu consentimento&quot;<sup><a href="#54">54</a></sup><a name="top54"></a>.      <p>Deste modo, tamb&eacute;m a justifica&ccedil;&atilde;o para a exclus&atilde;o    das mulheres radicava, por vezes, n&atilde;o na afirma&ccedil;&atilde;o da sua    inferioridade, mas num certo atraso da sociedade europeia do presente<sup><a href="#55">55</a></sup><a name="top55"></a>.    Kant, inesperadamente, tamb&eacute;m sugeriu isso quando comparou o estatuto    das mulheres na Europa e entre os povos nativos do Canad&aacute;: &quot;Entre    os selvagens, n&atilde;o existe nenhum que tenha pelo sexo feminino maior considera&ccedil;&atilde;o    do que os do Canad&aacute;. Nisso eles ultrapassam talvez at&eacute; a nossa    parte civilizada do mundo. N&atilde;o apenas pelo respeito com que tratam as    mulheres [&#133;] Na verdade, elas exercem ali, realmente, a autoridade. Re&uacute;nem-se    e deliberam sobre as leis mais importantes, inclusive em quest&otilde;es de    guerra e paz. Enviam deputados seus &agrave;s assembleias de homens e, geralmente,    &eacute; a sua voz que determina as decis&otilde;es&quot; (Kant, 1997 [1764],    p. 57).      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;     <P><b>Nacional/estrangeiro </b>     <p>A melhoria das condi&ccedil;&otilde;es econ&oacute;micas, educacionais e civilizacionais    permitia antecipar, mas num futuro indeterminado, o acesso de todos &agrave;    cidadania. Essa cidadania podia at&eacute; ser, no &quot;fim&quot;, uma cidadania    realmente universal, cosmopolita. At&eacute; l&aacute;, e apesar da refer&ecirc;ncia    ao homem, independentemente dos m&uacute;ltiplos contextos (pol&iacute;ticos    e outros) em que ele se movia, a atribui&ccedil;&atilde;o de direitos de cidadania    permaneceria intimamente relacionada com a perten&ccedil;a a uma comunidade    pol&iacute;tica concreta, a uma na&ccedil;&atilde;o. O cidad&atilde;o oitocentista    com plenos direitos era o cidad&atilde;o nacional, algu&eacute;m cujo amor e    lealdade em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; p&aacute;tria &quot;que o vira nascer&quot;    eram requisitos necess&aacute;rios para o exerc&iacute;cio da cidadania pol&iacute;tica.    O &quot;amor natural pela comunidade&quot; e a &quot;implica&ccedil;&atilde;o    moral&quot; dela decorrente foram outras condi&ccedil;&otilde;es requeridas    para o exerc&iacute;cio pleno da cidadania, justificando, neste caso, restri&ccedil;&otilde;es    ao exerc&iacute;cio dos direitos dos estrangeiros (Rosanvallon, 1992, pp. 70-91;    Brubaker, 1992, p. 35). Na Constitui&ccedil;&atilde;o portuguesa de 1822, por    exemplo, os estrangeiros naturalizados n&atilde;o podiam ser deputados, secret&aacute;rios    ou conselheiros de Estado por &quot;n&atilde;o poderem estar bem ao facto de    todos os nossos costumes, e tamb&eacute;m porque n&atilde;o podem (como n&oacute;s)    ter tanto amor &agrave; P&aacute;tria, e aos nossos concidad&atilde;os&quot;<sup><a href="#56">56</a></sup><a name="top56"></a>.    Outro ind&iacute;cio da operatividade destas categorias foi a associa&ccedil;&atilde;o,    no caso das naturaliza&ccedil;&otilde;es, entre cidadania e domic&iacute;lio,    ou a obriga&ccedil;&atilde;o, imposta a todos os cidad&atilde;os portugueses    pelas constitui&ccedil;&otilde;es e pela doutrina jur&iacute;dica, de &quot;amar    a p&aacute;tria&quot;<sup><a href="#57">57</a></sup><a name="top57"></a>. Os    direitos declarados em qualquer das constitui&ccedil;&otilde;es portuguesas    do s&eacute;culo xix n&atilde;o o foram, finalmente, como direitos do homem,    ou do indiv&iacute;duo, mas como direitos dos portugueses<sup><a href="#58">58</a></sup><a name="top58"></a>.    Em 1867, tamb&eacute;m o C&oacute;digo Civil portugu&ecirc;s sublinhou a import&acirc;ncia    da nacionalidade, ao declarar que &quot;somente os cidad&atilde;os portugueses    podem gozar em toda a plenitude dos direitos que a lei civil reconhece e garante&quot;    (artigo 17.&#186;).      <p>Os cidad&atilde;os eram, assim, em primeiro lugar, os cidad&atilde;os nacionais.    Isso n&atilde;o impediu, contudo, que surgisse no horizonte a ideia de uma futura    cidadania universal, no &acirc;mbito de uma rep&uacute;blica cosmopolita. Essa    ideia estava expressa em algumas obras de autores de refer&ecirc;ncia, como    o ensaio de Abb&eacute; de Saint Pierre (<I>Abr&eacute;g&eacute; du projet de    paix perp&eacute;tuelle, invent&eacute; par le roi Henri le Grand, approuv&eacute;    par la reine Elisabeth, par le roi Jacques son successeur, par les Republiques    et par divers autres potentats. Appropri&eacute; &agrave; l'&eacute;tat pr&eacute;sent    des affaires g&eacute;n&eacute;rales de l'Europe,</I> 1729), comentado por J.-J.    Rousseau em <I>Jugement sur le projet de paix perp&eacute;tuelle de l'Abb&eacute;    de Saint Pierre </I>(1782), o de Jeremy Bentham (&quot;A plan for an universal    and perpetual peace&quot;), texto inserido no ensaio que intitulou <I>Principles    of International Law</I>, 1786-1789 (Cazala, 2005, p. 367), ou os escritos de    Immanuel Kant sobre a paz perp&eacute;tua (<I>Ideia de uma Hist&oacute;ria Universal    com um Fim Cosmopolita</I> (<I>Idee zu einer allgemeinen Geschichte in weltburgerlicher    Absicht,</I> 1784; <I>Paz Perp&eacute;tua, um Projecto Filos&oacute;fico </I>(<I>Zum    ewigen Frieden. Ein philosophischer Entwurf,</I> 1795-1796). Nestes &uacute;ltimos,    uma vez mais, seria a natureza, por meio das leis naturais da hist&oacute;ria,    que encaminharia a esp&eacute;cie humana para um &quot;Estado federal universal&quot;,    regulado por um direito cosmopolita, do qual seriam cidad&atilde;os todos os    indiv&iacute;duos e na&ccedil;&otilde;es<sup><a href="#59">59</a></sup><a name="top59"></a>.    Nos textos de economia pol&iacute;tica tamb&eacute;m se antecipava uma futura    comunidade humana universal, baseada no com&eacute;rcio livre. Este seria, no    pensamento dos economistas e dos pol&iacute;ticos de finais do s&eacute;culo    xviii, um instrumento econ&oacute;mico capaz de fundar uma &quot;comunidade    global&quot; que teria por base uma &quot;alian&ccedil;a entre as na&ccedil;&otilde;es    comerciais&quot; (Padgen, 1995, pp. 80-83). Os efeitos normativos desta ideia    n&atilde;o foram grandes, mas podiam encontrar-se ecos dela nas discuss&otilde;es    parlamentares da &eacute;poca, nomeadamente em Fran&ccedil;a, em cujas assembleias    representativas tiveram assento, mas apenas durante os primeiros anos da revolu&ccedil;&atilde;o,    estrangeiros naturalizados, deputados que ali representavam a &quot;universalidade    do g&eacute;nero humano&quot; (Wahnich, 1997, pp. 171-200). Em Portugal, um    deputado vintista manifestou, a prop&oacute;sito da distin&ccedil;&atilde;o    que se fazia entre nacionais e estrangeiros, o desejo de ver abolida, no futuro,    &quot;essa quim&eacute;rica distin&ccedil;&atilde;o, que h&aacute; entre os    homens. Eu tomara que a ideia cosmopolita fosse geral; que os homens olhassem    para a sua origem; que olhassem a todos como seus semelhantes; as diferen&ccedil;as    que se tem estabelecido t&ecirc;m fundamento s&oacute; no despotismo, orgulho    e interesse de uma fam&iacute;lia&quot;<sup><a href="#60">60</a></sup><a name="top60"></a>.    E Jos&eacute; Dias Ferreira, na sua obra juvenil, descreveu um percurso civilizacional    que ia &quot;desde as hordas selvagens &agrave; federa&ccedil;&atilde;o das    na&ccedil;&otilde;es&quot; (Ferreira, 1858, p. 15).      <p>Com a &uacute;ltima frase citada, por&eacute;m, o jurista portugu&ecirc;s exprimia    uma nova exclus&atilde;o &quot;tempor&aacute;ria&quot;, a dos povos que se considerava    n&atilde;o estarem ainda organizados em Estados-na&ccedil;&otilde;es. O caminho    para a cidadania universal implicava a perten&ccedil;a pr&eacute;via a uma comunidade    nacional e essa condi&ccedil;&atilde;o deixava de fora, pelo menos no imediato,    todos os que integravam o que para a generalidade do pensamento da &eacute;poca    eram as &quot;hordas selvagens&quot;, os que se considerava n&atilde;o viverem    <I>ainda</I> politicamente organizados em Estados e em na&ccedil;&otilde;es.    Vivendo uma esp&eacute;cie de <I>estado natureza,</I> essas popula&ccedil;&otilde;es,    muitas delas origin&aacute;rias dos territ&oacute;rios colonizados, n&atilde;o    podiam tamb&eacute;m ser iguais em direitos aos cidad&atilde;os das metr&oacute;poles    europeias. Porque ocupavam o &uacute;ltimo lugar na hierarquia civilizacional    da humanidade, caracterizavam-se pela sua incapacidade de submiss&atilde;o a    qualquer forma de governo, muito menos a forma representativa. Eram, por defini&ccedil;&atilde;o,    popula&ccedil;&otilde;es <I>ainda</I> incapazes de aceder voluntariamente a    qualquer associa&ccedil;&atilde;o<sup><a href="#61">61</a></sup><a name="top61"></a>.    N&atilde;o obstante, esta exclus&atilde;o era tamb&eacute;m tempor&aacute;ria,    porque a doutrina colonial entendia que o acesso das popula&ccedil;&otilde;es    nativas &agrave; cidadania acabaria por acontecer, fazendo-se &agrave; medida    que se fossem civilizando e, em muitos casos, cristianizando<sup><a href="#62">62</a></sup><a name="top62"></a>.    &Eacute; este contexto que explica, por exemplo, a presen&ccedil;a, na primeira    Constitui&ccedil;&atilde;o portuguesa, de um artigo no qual as Cortes e o governo    se comprometeram a garantir a civiliza&ccedil;&atilde;o dos &iacute;ndios do    Brasil. Nesse artigo a &quot;miss&atilde;o civilizacional&quot; surgiu quase    como uma obriga&ccedil;&atilde;o assumida pelo Estado de proteger o &quot;direito    &agrave; civilidade&quot;, da mesma forma que protegia outros direitos de natureza    social, como a protec&ccedil;&atilde;o dos inv&aacute;lidos, dos pobres e dos    expostos (&quot;As Cortes e o Governo ter&atilde;o particular cuidado na funda&ccedil;&atilde;o,    conserva&ccedil;&atilde;o e aumento de Casas de Miseric&oacute;rdia, e de hospitais    civis e militares, especialmente daqueles que s&atilde;o destinados para os    soldados e marinheiros inv&aacute;lidos; e bem assim de rodas de expostos, montes    pios, civiliza&ccedil;&atilde;o dos &Iacute;ndios, e de quaisquer outros estabelecimentos    de caridade&quot;, artigo 270.&#186;). J&aacute; nos &quot;projectos de civiliza&ccedil;&atilde;o&quot;    apresentados &agrave;s Cortes vintistas (mas nunca discutidos) fazia-se depender    o acesso dos &iacute;ndios &agrave; cidadania da sua ascens&atilde;o &agrave;    condi&ccedil;&atilde;o de propriet&aacute;rios e da sua cristianiza&ccedil;&atilde;o.    Num desses projectos prop&ocirc;s-se como condi&ccedil;&otilde;es de acesso    &agrave; cidadania que &quot;Os &iacute;ndios, e ciganos, ou j&aacute; existentes    no Brasil, ou que para l&aacute; forem, <I>s&oacute; poder&atilde;o ser considerados    como cidad&atilde;os portugueses, quando sejam, ou forem lavradores de terras    pr&oacute;prias</I>, ou fabricantes, convenientemente estabelecidos&quot;<sup><a href="#63">63</a></sup><a name="top63"></a>.    O mesmo discurso foi feito para os povos nativos dos territ&oacute;rios portugueses    em &Aacute;frica durante quase todo o s&eacute;culo xix. A sua condi&ccedil;&atilde;o    era a de algu&eacute;m que estava em &quot;transi&ccedil;&atilde;o&quot; para    a cidadania, a qual s&oacute; se completaria quando a sua &quot;diferen&ccedil;a    civilizacional&quot; fosse superada. S&aacute; da Bandeira, o pol&iacute;tico    portugu&ecirc;s que mais reflectiu sobre os territ&oacute;rios ultramarinos    durante o s&eacute;culo xix, identificou como objectivo da coloniza&ccedil;&atilde;o    de Angola &quot;que os seus habitantes de ra&ccedil;a preta cheguem progressivamente    a um estado de civiliza&ccedil;&atilde;o igual &agrave; dos brancos que ali    residem&quot; (S&aacute; da Bandeira, 1873, p. 69)<sup><a href="#64">64</a></sup><a name="top64"></a>.      <p>Mais perto da integra&ccedil;&atilde;o, no que se refere &agrave;s popula&ccedil;&otilde;es    dos territ&oacute;rios colonizados, estavam os escravos. Talvez por se considerar    que tinham j&aacute; aprendido a primeira li&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria    para viver numa comunidade pol&iacute;tica, a obedi&ecirc;ncia, mas tamb&eacute;m    porque estavam inseridos, ainda que de forma subordinada, na comunidade pol&iacute;tica    dos senhores, o que lhes proporcionava maiores contactos com a &quot;civilidade&quot;.    Tocqueville, cuja defesa da aboli&ccedil;&atilde;o gradual da escravatura no    parlamento franc&ecirc;s &eacute; conhecida<sup><a href="#65">65</a></sup><a name="top65"></a>,    exprimiu em poucas palavras essa uni&atilde;o e as tens&otilde;es que envolvia,    ao distinguir o destino de isolamento dos &iacute;ndios na Am&eacute;rica do    &quot;destino dos negros [...] de certo modo, ligado ao dos Europeus&quot; (Tocqueville,    2001 [1835-1840], p. 391). Esta maior proximidade fez com que a quest&atilde;o    do futuro acesso dos escravos e seus descendentes &agrave; cidadania tivesse    sido muito mais discutida nos parlamentos e na doutrina jur&iacute;dica oitocentista,    tendo sido quase un&acirc;nime a opini&atilde;o de que estava pr&oacute;ximo    o momento em que os antigos escravos se transformariam em cidad&atilde;os. Essa    transforma&ccedil;&atilde;o seria o efeito de programas mais voluntaristas &#151;    como a promo&ccedil;&atilde;o da educa&ccedil;&atilde;o dos escravos e a produ&ccedil;&atilde;o    de legisla&ccedil;&atilde;o abolicionista &#151;, ou de factores mais objectivos,    como as leis da evolu&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica e o correspondente progresso    civilizacional. Jeremy Bentham conjugou as duas perspectivas, ao propor medidas    concretas de emancipa&ccedil;&atilde;o <I>gradual,</I> mas acreditando sempre    que com elas apenas se iria acelerar um processo que dependia mais da lei do    &quot;progresso civilizacional&quot; do que da vontade do legislador, que naturalmente    acompanhava aquela lei: &quot;[&#133;] as rela&ccedil;&otilde;es esclavagistas,    &agrave;s quais o legislador n&atilde;o pode por fim de um s&oacute; golpe,    v&atilde;o desaparecer, lentamente, dissolvidas pelo tempo, pela marcha da liberdade    que, sendo lenta, n&atilde;o &eacute; menos segura. Todos os progressos do esp&iacute;rito    humano, da civiliza&ccedil;&atilde;o, da moral, da riqueza p&uacute;blica, do    com&eacute;rcio envolvem, a pouco e pouco, a recupera&ccedil;&atilde;o da liberdade    individual&quot; (Dumond, ed., 1840, p. 104.). Tamb&eacute;m para Dias Ferreira,    como se viu atr&aacute;s, a divis&atilde;o entre escravos e livres corporizava    uma das etapas no progresso civilizacional das sociedades, destinada a desaparecer    &agrave; medida que a humanidade progredisse para &quot;uma igualdade completa    e definitiva&quot;&#160;(Ferreira, 1858, p. 66). Esta ideia da transitoriedade    individual e colectiva da condi&ccedil;&atilde;o de escravo e a certeza da sua    transforma&ccedil;&atilde;o num cidad&atilde;o &quot;igual&quot; estiveram presentes    quer nas pol&iacute;ticas abolicionistas pensadas nas metr&oacute;poles europeias,    quer nas respectivas constitui&ccedil;&otilde;es, quando a quest&atilde;o da    escravatura n&atilde;o foi a&iacute; totalmente silenciada, quer na doutrina    jur&iacute;dica. Era comum, nos programas gradualistas para a aboli&ccedil;&atilde;o    da escravatura, que a aboli&ccedil;&atilde;o definitiva fosse precedida pela    aboli&ccedil;&atilde;o do tr&aacute;fico, a qual propiciaria uma melhoria das    condi&ccedil;&otilde;es de trabalho e de vida do escravo, que o senhor propiciaria,    por interesse pr&oacute;prio, uma vez esgotada a fonte externa de recrutamento    de m&atilde;o-de-obra. Essa melhoria, por ser moralizadora e civilizadora, facilitaria    depois a aboli&ccedil;&atilde;o, gradual e pac&iacute;fica, da escravatura.    Esta &uacute;ltima, por sua vez, envolveria a aprova&ccedil;&atilde;o de leis    que a preparassem, nomeadamente atrav&eacute;s da convers&atilde;o dos escravos    em libertos, com a obriga&ccedil;&atilde;o de prestar servi&ccedil;os gratuitos    ao senhor durante um per&iacute;odo de tempo. Esta obriga&ccedil;&atilde;o,    finalmente, al&eacute;m de funcionar como forma de indemnizar os senhores de    escravos, era tamb&eacute;m uma oportunidade para proporcionar ao antigo escravo    um per&iacute;odo de &quot;aprendizagem civilizacional&quot;, durante o qual,    sob a tutela do antigo senhor ou de outra institui&ccedil;&atilde;o, se prepararia    para o exerc&iacute;cio pleno da liberdade e da cidadania. A condi&ccedil;&atilde;o    de liberto era, no regime jur&iacute;dico liberal, uma condi&ccedil;&atilde;o    transit&oacute;ria e, por isso, devia estar sempre estabelecido na lei um prazo    para a sua extin&ccedil;&atilde;o, como sucedeu efectivamente no decreto que,    a 25 de Fevereiro de 1869, converteu em libertos todos os escravos das prov&iacute;ncias    ultramarinas portuguesas. A data a&iacute; estabelecida para a extin&ccedil;&atilde;o    da condi&ccedil;&atilde;o de liberto era a de 29 de Abril de 1878. Nesse dia    os antigos escravos passariam a ser, formalmente, cidad&atilde;os portugueses<sup><a href="#66">66</a></sup><a name="top66"></a>.      <p>A condi&ccedil;&atilde;o excepcional e transit&oacute;ria da escravatura e    dos estados a ela associados foi, finalmente, afirmada por quase todos os juristas    portugueses da &eacute;poca que se pronunciaram sobre o problema da escravatura    nas col&oacute;nias. Todos salientaram que a escravatura j&aacute; n&atilde;o    existia no reino em virtude do princ&iacute;pio do &quot;solo livre&quot;, que    consideravam estar inscrito nos alvar&aacute;s pombalinos de 19 de Setembro    de 1761 e de 16 de Janeiro de 1773<sup><a href="#67">67</a></sup><a name="top67"></a>,    e que mesmo no ultramar, onde era ainda tolerada, se preparava a sua extin&ccedil;&atilde;o.    Manuel Maria da Silva Bruschy (1814-?), um dos mais importantes civilistas da    &eacute;poca, considerava adequada a condi&ccedil;&atilde;o de liberto e as    restri&ccedil;&otilde;es civis e pol&iacute;ticas que lhe estavam associadas,    porque entendia que &quot;[&#133;] transformar de repente em cidad&atilde;os    lib&eacute;rrimos os semibrutos habitantes dos sert&otilde;es de &Aacute;frica    &eacute; um absurdo jur&iacute;dico, porque as leis s&oacute; concedem direitos    em vista da capacidade dos indiv&iacute;duos [...]&quot;, mas achava igualmente    que essa transforma&ccedil;&atilde;o era poss&iacute;vel e desej&aacute;vel:    &quot;a educa&ccedil;&atilde;o moral e portanto religiosa, &eacute; unicamente    quem pode operar esta transforma&ccedil;&atilde;o [...]&quot;. Por isso, concluiu    as suas considera&ccedil;&otilde;es sobre o tema afirmando que a condi&ccedil;&atilde;o    de liberto era um &quot;caminho aberto para a emancipa&ccedil;&atilde;o&quot;    (Bruschy, 1868, pp. 31-32).      <p>&nbsp;     <P><b>Conclus&atilde;o</b>      <p>A conjuga&ccedil;&atilde;o de um discurso universalista sobre os direitos e    a preserva&ccedil;&atilde;o ou a cria&ccedil;&atilde;o de situa&ccedil;&otilde;es    de desigualdade civil e pol&iacute;tica no ordenamento jur&iacute;dico oitocentista    deu origem a uma tens&atilde;o interna &quot;constitutiva&quot; do discurso    liberal dessa &eacute;poca sobre a cidadania, com efeitos de sentido diverso.    Por um lado, o postulado igualit&aacute;rio e universalista, de matriz jusnaturalista    e <I>iluminista,</I> permitiu, pelo seu elevado grau de generalidade e neutralidade    (face &agrave; ra&ccedil;a, g&eacute;nero, estatuto socioecon&oacute;mico&#133;),    omitir situa&ccedil;&otilde;es de desigualdade e de subordina&ccedil;&atilde;o    que eram problem&aacute;ticas do ponto de vista daquele postulado. Por outro    lado, a necessidade de fundamentar as desigualdades do presente favoreceu a    multiplica&ccedil;&atilde;o de discursos em que a diferen&ccedil;a foi quantificada,    o que contribuiu para refor&ccedil;ar a legitimidade da sua concretiza&ccedil;&atilde;o    normativa e, com isso, a sua reprodu&ccedil;&atilde;o social. Mas, finalmente,    aquele postulado e a sua refer&ecirc;ncia &agrave; igualdade fizeram tamb&eacute;m    com que as diferen&ccedil;as no acesso aos direitos, pol&iacute;ticos ou civis,    fossem cada vez mais dif&iacute;ceis de legitimar (Costa, 2000, p. 77). Neste    &uacute;ltimo registo situa-se o que considero serem as potencialidades expansivas    do conceito oitocentista de cidadania<sup><a href="#68">68</a></sup><a name="top68"></a>.      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Como tentei mostrar neste texto, a ideia de progresso, ao garantir num futuro    indeterminado o acesso de todos &agrave; cidadania plena, ajudou a resolver    aquela tens&atilde;o. Todos seriam inclu&iacute;dos, embora apenas &agrave;    medida que as condi&ccedil;&otilde;es econ&oacute;micas, educacionais e/ou civilizacionais    o permitissem. Os direitos pol&iacute;ticos e civis n&atilde;o eram, nesta narrativa,    direitos &quot;anteriores&quot;, &quot;naturais&quot; ou &quot;universais&quot;    que se impusessem aos governos e aos quais todos os indiv&iacute;duos devessem    ter igual acesso. Eram direitos que os governos deviam conceder, sabiamente    guiados pelo conhecimento que tinham do &quot;est&aacute;dio&quot; de desenvolvimento    (econ&oacute;mico, educacional, civilizacional) das sociedades que governavam<sup><a href="#69">69</a></sup><a name="top69"></a>.    At&eacute; que, no fim desse processo, mais dependente de uma lei de &quot;necessidade    hist&oacute;rica&quot; do que de pol&iacute;ticas voluntaristas desses governos,    a cidadania se universalizasse.      <p>&nbsp;      <P ALIGN="CENTER"><B>Bibliografia</B>      <p>Aron, R. (1965), <I>Ensayo sobre las  Libertades,</I> Madrid, Alianza Editorial.     <p>Aur&eacute;lio, D. P. (1999a), &quot;Natureza e na&ccedil;&atilde;o segundo Espinosa&quot;.  <I>In</I> J. Blanco-Echauri (ed.), <I>Encontro Hispano-Portugu&ecirc;s de Filosofia  </I>(Espinosa: &eacute;tica e  pol&iacute;tica)<I>,</I> Santiago de Compostela, Universidade de Santiago de Compostela, pp. 279-299.     <p>Aur&eacute;lio, D. P. (1999b), &quot;O indiv&iacute;duo e o Estado na filosofia de Espinosa&quot;.  <I>In</I> L. M. de Abreu (coord.), <I>Sob o Olhar de Spinoza, Actas do Semin&aacute;rio Luso-Hisp&acirc;nico sobre  Spinoza,</I> Aveiro, Universidade de Aveiro, pp. 25-35.     <p>Bentham, J. (1990 [c.1822]), &quot;Constitutional code: matter occasioned by Greece&quot;.  <I>In</I> Philip Schofield (ed.), <I>The Collected Works of Jeremy Bentham. Securities against  misrule and other constitutional writings for Tripoli and  Greece,</I> Oxford, Clarendon Press, pp. 255-276.     <p>Bonif&aacute;cio, M. de F. (2007), &quot;Costa Cabral no contexto do liberalismo doutrin&aacute;rio&quot;.  In <I>Estudos de Hist&oacute;ria Contempor&acirc;nea de  Portugal,</I> Lisboa, ICS, pp. 29-91.     <p>Brett, A. S. (2003), &quot;The development of the idea of citizens' rights&quot;.  <I>In</I> Q. Skinner e B. Strath, <I>States &amp; Citizens, History, Theory,  Prospects,</I> Cambridge, Cambridge University Press, pp. 97-115.     <p>Brubaker, R. (1992), <I>Citizenship and Nationhood in France and Germany,</I>    Cambridge, Massachusetts, Harvard University Press.      ]]></body>
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<body><![CDATA[<p>S&aacute; da Bandeira, Marqu&ecirc;s  de (1873), <I>O Trabalho Rural Africano e a Administra&ccedil;&atilde;o  Colonial,</I> Lisboa, Imprensa Nacional.     <p>Salas, R. (1822), <I>Li&ccedil;&otilde;es de Direito P&uacute;blico Constitucional para as Escolas de  Hespanha</I>, Lisboa, Tip. Rolandiana.      <p>Salema, J. de S. M. (1841), <I>Princ&iacute;pios de Direito Pol&iacute;tico Applicados &agrave; Constitui&ccedil;&atilde;o  Pol&iacute;tica da Monarquia Portugueza de 1838 ou a Theoria Moderada dos Governos  Monarchicos Constitucionaes Representativos,</I> Coimbra, Imprensa de Trov&atilde;o &amp; C.&#170;     <p>Sarcey, M. R. (2003) &quot;Citizenship and equality of sexes&quot;.  <I>In </I>Q. Skinner e B. Strath, <I>States &amp; Citizens, History, Theory,  Prospects,</I> Cambridge, Cambridge University  Press, pp. 191-208.     <p>Silva, C. N. da (2004), <I>A Cidadania nos Tr&oacute;picos. O Ultramar no  Constitucionalismo Mon&aacute;rquico Portugu&ecirc;s (c.  1820-1880)</I>. Tese doutoramento, Lisboa, Faculdade de  Direito da Universidade Nova de Lisboa.     <p>Silva, C. N. da (2007), &quot;Liberdade e toler&acirc;ncia religiosa: `portugueses    n&atilde;o cat&oacute;licos' no ultramar do s&eacute;culo xix&quot;. <I>Historia    Constitucional,</I> revista electr&oacute;nica de historia constitucional (electronic    journal of constitutional history), 8. Dispon&iacute;vel em <a href="http://hc.rediris.es" target="_blank">http://hc.rediris.es</a>.      <p>Silva, F. C. da (2002), <I>Espa&ccedil;o P&uacute;blico em  Habermas,</I> Lisboa, Imprensa de Ci&ecirc;ncias Sociais.     <p>Skinner, Q. (1978), <I>The Foundations of Modern Political  Thought,</I> vol. 2, Cambridge, Cambridge University Press.     <p>Skinner, Q. (2002), <I>Visions of  Politics</I>, vol. 3, <I>Hobbes and Civil  Science,</I> Cambridge, Cambridge University Press.      <p>Skinner, Q. (2003), &quot;States and the freedom of citizens&quot;.  <I>In </I>Q. Skinner e B. Strath, <I>States &amp; Citizens, History, Theory,  Prospects,</I> Cambridge, Cambridge University Press, pp.  11-28.     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Teixeira, A. R. de L. (1845),  <I>Curso de Direito Civil Portuguez para o Ano Lectivo de  1843-44, ou Coment&aacute;rio &agrave;s  Institui&ccedil;&otilde;esdo Sr. Paschoal Jos&eacute; de Mello Freire sobre o  Mesmo Direito</I>, Coimbra, Imprensa da Universidade.     <p>Tibon-Cornillot M. (1997), &quot;Igualdade&quot;.  <I>Enciclop&eacute;dia Einaudi, </I>vol. 37, Lisboa,  INCM, pp. 345-379.     <p>Tocqueville, A. de (1996 [1835-1840]),  <I>De la d&eacute;mocratie</I> en  Am&eacute;rique,Paris, Robert Laffont.     <p>Tocqueville, A. de (2001 [1835-1840]),  <I>Da Democracia na Am&eacute;rica,</I> Cascais, Principia.      <p>Tocqueville, A. de (2001), <I>Writings on Empire and  Slavery,</I> Baltimore e Londres, The John Hopkins University Press, 2001.     <p>Tocqueville, A. de (2003 [1835]),  <I>Democracia y Pobreza (Memorias sobre el  pauperismo),</I> Madrid, Editorial Trotta.     <p>Tully, J. (1994), &quot;Rediscovering America: the two treatises and aboriginal rights&quot;.  <I>In </I>G. A. J. Rogers (ed.), <I>Locke's Philosophy, Content and Context,  </I>Oxford, Clarendon Press, pp. 165-196.     <p>Twining, W. (ed.) (2004), <I>Bentham Selected Writings of John  Dinwiddy,</I> Stanford, Stanford University Press.     <p>Vega, J. A. (2003), &quot;Enlightenment's differences, today's identities&quot;.  <I>In </I>Q. Skinner e B. Strath, <I>States &amp; Citizens, History, Theory,  Prospects,</I> Cambridge, Cambridge University Press, pp. 115-131.     <p>Wahnich, S. (1997), <I>L'impossible citoyen, l'&eacute;tranger dans le discours de la  R&eacute;volution fran&ccedil;aise,</I> Paris, Albin Michel.     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Waldron, J. (1994), &quot;John Locke, social contract versus political anthropology&quot;.    <I>In</I> D. Boucher e P. Kelly, <I>The Social Contract from Hobbes to Rawls,</I>    Londres e Nova Iorque, Routledge, pp. 51-73.      <p>&nbsp;     <p>&nbsp;     <p><b>Notas</b>     <p><sup><a href="#top1">1</a></sup><a name="1"></a> Seguimos aqui a defini&ccedil;&atilde;o    de cidadania de Costa (2006, p. 35) como &quot;a rela&ccedil;&atilde;o entre    o indiv&iacute;duo e a ordem jur&iacute;dico-pol&iacute;tica em que est&aacute;    inserido&quot;.      <p><sup><a href="#top2">2</a></sup><a name="2"></a> O &quot;tipo&quot; a que o    autor se refere &eacute; concretizado no &quot;cavalheiro educado e propriet&aacute;rio    com opini&otilde;es liberais&quot;. Rui Ramos preocupa-se em mostrar que, sendo    o cidad&atilde;o concebido, na cultura pol&iacute;tica de Oitocentos, como um    &quot;membro da na&ccedil;&atilde;o soberana&quot;, mais do que como um &quot;s&uacute;bdito    com direitos protegidos&quot;, o grande problema foi o de justificar a participa&ccedil;&atilde;o    dos &quot;n&atilde;o-livres&quot; na comunidade pol&iacute;tica Aqui pretende-se    acrescentar a esta perspectiva uma outra na qual, perante uma ideia universalista    acerca dos direitos, &agrave; qual a cultura pol&iacute;tica e jur&iacute;dica    de Oitocentos tamb&eacute;m foi perme&aacute;vel, surgiu o problema de justificar    a exclus&atilde;o pol&iacute;tica dos que eram classificados como &quot;n&atilde;o-livres&quot;    e at&eacute; os pr&oacute;prios fundamentos dessa classifica&ccedil;&atilde;o,    j&aacute; que nem uma nem a outra eram absolutamente pac&iacute;ficas.      <p><sup><a href="#top3">3</a></sup><a name="3"></a> Sobre este paradoxo, v. Silva    (2002). Sobre a sua ilustra&ccedil;&atilde;o com o caso das mulheres nos s&eacute;culos    xviii/xix, v. Landes (1988, pp. 40 e segs.).      <p><sup><a href="#top4">4</a></sup><a name="4"></a> Do patrim&oacute;nio hist&oacute;rico    da ideia de igualdade faz tamb&eacute;m parte integrante o pensamento crist&atilde;o,    nomeadamente, no s&eacute;culo xvi, as doutrinas luteranas, mas este teve como    referente principal a igualdade na &quot;cidade de Deus&quot;, e n&atilde;o    tanto as desigualdades, ou at&eacute; as tiranias, do mundo terreno (v. Tibon-Cornillot,    1997, vol. 37, pp. 357-362).      <p><sup><a href="#top5">5</a></sup><a name="5"></a> <I>Digesto,</I> livro i, t&iacute;t.    ii, &#167; 2. Consultada a tradu&ccedil;&atilde;o espanhola editada por Corral    (1988 [1889], p. 6).      <p><sup><a href="#top6">6</a></sup><a name="6"></a> <I>Digesto,</I> livro i, t&iacute;t.    iv, &#167; 2 (v. Corral, 1988 [1889], p. 8). Esta interpreta&ccedil;&atilde;o    do texto do <I>Digesto </I>foi-nos sugerida por Skinner (2003, p. 13) e op&otilde;e-se    a outra interpreta&ccedil;&atilde;o segundo a qual, para os juristas romanos,    o direito natural encontrava o seu fundamento na realidade &quot;objectiva&quot;    das coisas, numa &quot;raz&atilde;o de ser&quot; imanente, e n&atilde;o apenas    em exig&ecirc;ncias abstractas de justi&ccedil;a, fundadas numa raz&atilde;o    universal. Nesta outra interpreta&ccedil;&atilde;o, se a escravatura era uma    realidade observ&aacute;vel em todos os povos, isso ficava a dever-se ao facto    de essa institui&ccedil;&atilde;o se fundar na &quot;raz&atilde;o natural&quot;.      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a href="#top7">7</a></sup><a name="7"></a> V. Hobbes (1985 [1651], cap.    xiii, p. 183): &quot;Nature hath made men so equall, in the faculties of body,    and mind; as that thought there bee found one man sometimes manifestly stronger    in body, or of quicker mind then another; yet when all is reckoned together,    the difference between man, and man, is nor so considerable, as that one man    can thereupon claim to himselfe any benefit, to which another may not pretend,    as well as he.&quot; Adopt&aacute;mos a tradu&ccedil;&atilde;o de Monteiro e    Silva (s. d., p. 109).      <p><sup><a href="#top8">8</a></sup><a name="8"></a> V. Hobbes (1985 [1651], cap.    xiv, p. 190): &quot;Of the first and second naturall lawes, and of contracts&quot;:    &quot;[...] in such a condition, every Man has a Right to every thing: even    to one anothers body. And therefore, as long as this naturall Right of every    Man to everything endureth, there can be no security to any man [&#133;] of    living out the time, which Nature ordinarily alloweth men to live.&quot;      <p><sup><a href="#top9">9</a></sup><a name="9"></a> As obras e autores que aqui    refiro para ilustrar aspectos gerais do &quot;iluminismo radical&quot; dos s&eacute;culos    xvii e xviii foram identificados e conhecidos atrav&eacute;s da leitura de Israel    (2006, pp. 542-614). O exemplo singular da obra de Diderot, no que diz respeito    &agrave; igualdade entre &quot;primitivos&quot; e &quot;civilizados&quot;, est&aacute;    tamb&eacute;m descrito com pormenor em Muthu (2003, pp. 72-122). Sobre vis&otilde;es    correntes na &eacute;poca acerca da hierarquia entre o homem &quot;civilizado&quot;    e o homem &quot;primitivo&quot;, bem como acerca da inquestion&aacute;vel superioridade    do primeiro, v., entre muitos outros, Jahoda (1999) e os textos recolhidos em    Eze (ed.) (1997).      <p><sup><a href="#top10">10</a></sup><a name="10"></a> V. refer&ecirc;ncias a    esses autores (Condorcet, Thomas Paine) <I>in</I> Jackson (2005, pp. 356-373).    Agrade&ccedil;o aos <I>referees</I> an&oacute;nimos esta importante refer&ecirc;ncia.      <p><sup><a href="#top11">11</a></sup><a name="11"></a> Sobre o modo como foram    discutidas nos primeiros anos da Revolu&ccedil;&atilde;o Francesa, a primeira    das revolu&ccedil;&otilde;es liberais da Europa continental, perspectivas reformistas    radicalmente igualit&aacute;rias, v. Ozouf (1988).      <p><sup><a href="#top12">12</a></sup><a name="12"></a> Sobre estes crit&eacute;rios,    v. Rosanvallon (1992).      <p><sup><a href="#top13">13</a></sup><a name="13"></a> Sobre a &quot;pluraliza&ccedil;&atilde;o&quot;    do conceito de <I>iluminismo</I>, um conceito que n&atilde;o tem como referente    uma s&oacute; hist&oacute;ria nem um s&oacute; movimento, mas que engloba, em    vez disso, tend&ecirc;ncias muitas vezes conflituantes, v. Pocock (1999, pp.    7 e segs.).      <p><sup><a href="#top14">14</a></sup><a name="14"></a>V. Locke (1988 [1690], p.    269): &quot;A State also of Equality, wherein all the Power and Jurisdiction    is reciprocal, no one having more than another.&quot;      <p><sup><a href="#top15">15</a></sup><a name="15"></a> V. Locke (1988 [1690],    p. 304): &quot;Though I have said above [&#133;] <I>That all Men by Nature are    equal,</I> I cannot supposed to understand all sorts of <I>Equality:Age</I>    or <I>Virtue</I> may give Men a just Precedency; <I>Excellency of Parts and    </I>Merit may place others above the Common Level;<I> Birth</I> may subject    some, and <I>Alliance</I> and <I>Benefits</I> others, to pay an Observance to    those to Whom Nature, Gratitude or others Respects may have made it due [&#133;]&quot;      <p><sup><a href="#top16">16</a></sup><a name="16"></a> V. Locke (1988 [1690],    pp. 303-317), &quot;Of paternal power&quot;, e, sobre a &quot;sociedade conjugal&quot;,    id.,<I> ibid.,</I> pp. 321-23.      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a href="#top17">17</a></sup><a name="17"></a> V. Locke (1988 [1690],    p. 309): &quot;The <I>Freedom</I> then of Man and Liberty of acting according    to his own Will, is <I>grounded </I>on his having<I> Reason</I>, which is able    to instruct him in that Law he is to govern himself by, and make him know how    far he is left to the freedom of his own will.&quot;      <p><sup><a href="#top18">18</a></sup><a name="18"></a> As crian&ccedil;as, os    &quot;inocentes&quot; e os loucos deviam, por isso, ficar sob a tutela ou governo    dos outros (v. Locke, 1988 [1690], p. 308).      <p><sup><a href="#top19">19</a></sup><a name="19"></a> V. Locke (1988 [1690],    pp. 322-323): &quot;Captives taken in a just war are by the Right of Nature    subjected to the Absolute Dominion and Arbitrary Power of their Masters.&quot;      <p><sup><a href="#top20">20</a></sup><a name="20"></a> V. Locke (1988 [1690],    pp. 284-285): &quot;[&#133;] <I>The State of War continued, between a lawful    Conquerour, and a Captive</I>. For, if once <I>Compact</I> enters between them,    and make an agreement for a limited Power on the one side, and obedience on    the other, the State of war and <I>Slavery</I> ceases, as long as the Compact    endures.&quot;      <p><sup><a href="#top21">21</a></sup><a name="21"></a> V. Tully (1994). Mas esses    direitos podiam tamb&eacute;m fundamentar-se na no&ccedil;&atilde;o de igualdade    natural, no &quot;igual&quot; direito natural que todos os homens tinham &agrave;s    &quot;terras vagas&quot; <I>(terra nullius),</I> como se explica igualmente    em Pagden (2003, pp. 181 e segs.).      <p><sup><a href="#top22">22</a></sup><a name="22"></a>V. Locke (1988 [1690], p.    323): &quot;being in the <I>State of Slavery, </I>not capable of any property,    cannot in that state be considered as any part of <I>Civil Society;</I> the    chief end whereof is the preservation of property&quot;. Montesquieu tamb&eacute;m    enumerou entre as consequ&ecirc;ncias negativas do &quot;esp&iacute;rito de    igualdade extrema&quot;, quando as democracias se corrompiam, o desaparecimento    da submiss&atilde;o das mulheres, das crian&ccedil;as e dos escravos (v. Montesquieu,    1979 [1748], pp. 243-244, quadro n.&#186; 6).      <p><sup><a href="#top23">23</a></sup><a name="23"></a> &Eacute; interessante recordar    que o &quot;iluminismo radical&quot; tamb&eacute;m tinha problematizado esta    distin&ccedil;&atilde;o, fazendo equivaler a raz&atilde;o a todos os outros    elementos do &quot;esp&iacute;rito&quot; humano: as paix&otilde;es, o instinto,    o desejo ou a vontade. Esta equival&ecirc;ncia permitia, por exemplo, a defesa    da igualdade de direitos entre loucos e s&atilde;os na obra de P. Bayle. V.    Israel (2006, p. 554) e os estudos de Diogo Pires Aur&eacute;lio (1999a e 1999b)    sobre Espinosa.      <p><sup><a href="#top24">24</a></sup><a name="24"></a> V. Kant (1991 [1793], p.    78): &quot;In the question of actual legislation, all who are free and equal    under existing public laws may be considered equal, but nor as regards the right    to make these laws [&#133;] Anyone who has the right to vote on this legislation    is a <I>citizen</I> (<I>citoyen, </I>i.e. citizen of a state, not <I>bourgeois</I>    or citizen of a town). The only qualification required by a citizen (apart,    of course, from being an adult male) is that he must be his <I>own master(sui    iuris),</I> and must have some <I>property</I> (which can include any skill,    trade, fine art or science) to support himself. In cases where he must earn    his living from others, he must earn it only by <I>selling</I> that which is    his, and not by allowing others to make use of him; for he must in the true    sense of the word <I>serve</I> no-one but the Commonwealth&quot;, princ&iacute;pio    do qual o fil&oacute;sofo fez derivar a exclus&atilde;o dos criados, dos empregados    das lojas, dos oper&aacute;rios e, em geral, dos que trabalhavam por conta de    outrem. No plano dom&eacute;stico havia tamb&eacute;m outros espa&ccedil;os    de desigualdade civil que a filosofia kantiana podia justificar: &quot;This    uniform equality of human beings as subjects of a state is, however, perfectly    consistent with the utmost inequality of the mass in the degree of its possessions,    whether these take the form of physical or mental superiority over others, or    fortuitous external property or of particular rights (of which there may be    many) with respect to others. Thus the welfare of the one depends very much    on the will of the other (the poor depending on the rich), the one must obey    the other (as the child its parents or the wife her husband), the one serves    (the labourer) while the other pay, etc. Nevertheless, they are all equal as    subjects <I>before the law </I>[&#133;]&quot; (v. Kant, 1991 [1793], p. 75).      <p><sup><a href="#top25">25</a></sup><a name="25"></a> Sobre a ideia progressiva    da hist&oacute;ria no s&eacute;culo xviii v. Pocock (1999), sobretudo a prop&oacute;sito    do <I>Discours pr&eacute;liminaire &agrave; l'encyclop&eacute;die</I> de D'Alembert,    Israel (2006, pp. 496 e segs.) e O'Brien (1997).      <p><sup><a href="#top26">26</a></sup><a name="26"></a> O ensaio estava j&aacute;    conclu&iacute;do em 1805, mas seria publicado mais tarde, como parte da obra    <I>M&eacute;langes de litt&eacute;rature et de politique</I>, Paris, 1829. A    influ&ecirc;ncia intelectual mais directa &eacute; a de Condorcet no seu <I>Esquisse    d'un tableau historique des progr&egrave;s del'esprit humain</I>, em que se    previa o desaparecimento da desigualdade entre as na&ccedil;&otilde;es e a atenua&ccedil;&atilde;o    das desigualdades entre os homens atrav&eacute;s da supress&atilde;o do que    se consideravam ser as suas causas: os desn&iacute;veis na riqueza e na educa&ccedil;&atilde;o.      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a href="#top27">27</a></sup><a name="27"></a> V. Constant (1829, p. 404,    <a href="http://gallica2.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k1113078.zoom.f4.langFR" target="_blank">http://gallica2.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k1113078.zoom.f4.langFR</a>):    &quot;J'ai parlai dans un essai pr&eacute;c&eacute;dent, de quatre grandes revolutions    qui se ont remarquer jusq'&aacute; nos jours: la destruction de la th&eacute;ocratie,    celle del'esclavage, celle de la f&eacute;odalit&eacute;, celle de la noblesse    come privil&eacute;ge [...] Ces quatre r&eacute;volutions nous offrent une suite    d'ameliorations gradu&eacute;s&quot;. Sobre a origem da desigualdade que Benjamin    Constant associava a uma degenera&ccedil;&atilde;o do estado original de igualdade,    v. Fink (1972, pp. 308-309).      <p><sup><a href="#top28">28</a></sup><a name="28"></a> &quot;Ces quatre r&eacute;volutions,    la destruction de l'esclavage th&eacute;ocratique, de l'esclavage civil, de    la f&eacute;odalit&eacute;, de la noblesse privil&eacute;gi&eacute;e, sont autant    pas vers le r&eacute;tablissement de l'&eacute;galit&eacute; naturelle. La perfectibilit&eacute;    de l'esp&eacute;ce humaine n'est autre chose que la tendance vers l'&eacute;galit&eacute;.    Cette tendance vient de ce que l'&eacute;galit&eacute; seule est conforme &agrave;    la v&eacute;rit&eacute;, c'est-&agrave;-dire aux rapports des choses entre elles    et des hommes entre eux&quot;. L'in&eacute;galit&eacute; est ce qui seul constitue    l'injustice&quot; (Constant, 1829, p. 407).      <p><sup><a href="#top29">29</a></sup><a name="29"></a> Assim, por exemplo, se    a &quot;ordem natural das ideias&quot; e a &quot;ordem hist&oacute;rica&quot;    n&atilde;o fossem favor&aacute;veis, dificilmente a educa&ccedil;&atilde;o podia    promover, por si s&oacute;, o progresso e, por isso, Constant n&atilde;o acreditava    nos efeitos potenciadores da educa&ccedil;&atilde;o individual. Lucien Jaume    identificou, como factores do progresso nos textos de Constant, al&eacute;m    das &quot;causas materiais&quot;, que o historiador franc&ecirc;s fez equivaler    ao resultado das rela&ccedil;&otilde;es sociais de que Marx tamb&eacute;m falou,    o &quot;dinamismo das ideias&quot; (v. Jaume, 1997, p. 112).      <p><sup><a href="#top30">30</a></sup><a name="30"></a> V. Tocqueville (1996 [1835-1840],    p. 47) (trad. portuguesa: Tocqueville, 2001).      <p><sup><a href="#top31">31</a></sup><a name="31"></a> V. Tocqueville (1996 [1835-1840],    pp. 43-44)&#160;: &quot;Le d&eacute;veloppement graduel de l'&eacute;galit&eacute;    des conditions est donc un fait providentiel, il en a les principaux caract&egrave;res:    il est universel, il est durable, il &eacute;chappe chaque jour &agrave; la    puissance humaine; tous les &eacute;v&eacute;nements, comme tous les homes,    servent &agrave; son d&eacute;veloppement. Serait-il sage de croire qu'un mouvement    social qui vient de si loin pourra &ecirc;tre suspendu par les efforts d'une    g&eacute;n&eacute;ration? Pense-t-on qu'apr&egrave;s avoir d&eacute;truit la    f&eacute;odalit&eacute; et vaincu les rois, la d&eacute;mocratie reculera devant    les bourgeois et les riches? S'arr&ecirc;tera-t-elle maintenant qu'elle est    devenu si forte et ses adversaires si faibles?&quot;      <p><sup><a href="#top32">32</a></sup><a name="32"></a> V. Tocqueville (1996 [1835-1840],    pp. 493-536), &quot;Influence de la d&eacute;mocratie sur les sentiments des    Am&eacute;ricains&quot;, e pp. 539-621, &quot;Influence de la d&eacute;mocratie    sur les moeurs proprement dites&quot;. Adam Smith tamb&eacute;m tinha imaginado    um percurso hist&oacute;rico marcado pelo decr&eacute;scimo da coer&ccedil;&atilde;o    nas rela&ccedil;&otilde;es de trabalho e pela universaliza&ccedil;&atilde;o    do acesso &agrave; propriedade, proporcionada sobretudo pelo com&eacute;rcio    (v. Elosegui, 1990, pp. 431-453). Os est&aacute;dios hist&oacute;ricos que associou    a esse processo est&atilde;o descritos e explicados em Drescher(2002, pp. 22    e segs.).      <p><sup><a href="#top33">33</a></sup><a name="33"></a> Adoptamos a tradu&ccedil;&atilde;o    desta p&aacute;gina tal como est&aacute; em Mill (2006, pp. 114-115).      <p><sup><a href="#top34">34</a></sup><a name="34"></a> V. Mill (1975 [1869], p.    477): &quot;The equality of married persons before the law is not only the sole    mode in which that particular relation can be made consistent with justice to    both sides, and conducive to the happiness of both, but it is the only means    of rendering the daily life of mankind, in any high sense, a school of moral    cultivation.&quot;      <p><sup><a href="#top35">35</a></sup><a name="35"></a> Em par&aacute;grafos subsequentes,    Stuart Mill volta a afirmar a for&ccedil;a socialmente expansiva do princ&iacute;pio    igualit&aacute;rio: &quot;Already in modern life, and more and more as it progressively    improves, command and obedience become exceptional facts in life, equal association    its general rule&quot; (Mill, 1975 [1869], pp. 477-478).      <p><sup><a href="#top36">36</a></sup><a name="36"></a> V. a introdu&ccedil;&atilde;o    de Ant&oacute;nio de Ara&uacute;jo &agrave; sua tradu&ccedil;&atilde;o para    portugu&ecirc;s do ensaio de Benjamin Constant (s. d. [1819], pp. ix-xlix).      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a href="#top37">37</a></sup><a name="37"></a> De facto, nas suas mem&oacute;rias    sobre a pobreza, Tocqueville prop&ocirc;s algumas f&oacute;rmulas com as quais    acreditava poder minorar o problema, quer em rela&ccedil;&atilde;o aos oper&aacute;rios,    quer em rela&ccedil;&atilde;o aos trabalhadores rurais, mas o seu alcance era    muito limitado, imediato e motivado sobretudo pela vontade de minorar os efeitos    sociais associados &agrave; pobreza, e n&atilde;o por qualquer pol&iacute;tica    de tend&ecirc;ncia igualisadora (v. Tocqueville, 2003 [1835]). Boa parte do    texto foi mesmo dedicada &agrave; descri&ccedil;&atilde;o do que Tocqueville    considerava serem os efeitos nefastos das &quot;poor laws&quot; brit&acirc;nicas.      <p><sup><a href="#top38">38</a></sup><a name="38"></a> Para o caso portugu&ecirc;s,    v. Hespanha(2004, p.11), onde se concretiza a ideia, v&aacute;rias vezes sublinhada    pelo autor, de que a &quot;natureza&quot; de que os autores liberais do s&eacute;culo    xix falavam seria o resultado de um &quot;trabalhoso artif&iacute;cio&quot;.      <p><sup><a href="#top39">39</a></sup><a name="39"></a> Em Portugal a op&ccedil;&atilde;o    foi a de atribuir a todos os portugueses o estatuto de cidad&atilde;o e separar,    depois, os cidad&atilde;os activos dos cidad&atilde;os passivos (Carta Constitucional,    artigo 63), o que era considerado por alguns juristas uma &quot;liberalidade&quot;.    Para Liz Teixeira, por exemplo, a Carta Constitucional era mais liberal do que    a francesa exactamente por n&atilde;o distinguir entre cidad&atilde;o e portugu&ecirc;s:    &quot;[&#133;] e tanto basta para que n&oacute;s, respeitando ali&aacute;s a    opini&atilde;o contr&aacute;ria de alguns s&aacute;bios, mas respeitando mais    a Carta e os princ&iacute;pios da hermen&ecirc;utica, n&atilde;o ousemos distinguir,    para encurtar o favor, com que o imortal outorgador da nossa lei fundamental    contemplou os portugueses, fazendo-os todos cidad&atilde;os [&#133;] Em resultado,    todo o portugu&ecirc;s &eacute; cidad&atilde;o, mas dividem-se os cidad&atilde;os    em activos e n&atilde;o activos &#151; ou passivos &#151; sendo aqueles os que    se acham no exerc&iacute;cio dos seus direitos pol&iacute;ticos e estes os que    os t&ecirc;m suspensos&quot; (v. Teixeira, 1845, p. 147).      <p><sup><a href="#top40">40</a></sup><a name="40"></a> Sobre estes crit&eacute;rios,    v. Rosanvallon (1992) e Costa (2000).      <p><sup><a href="#top41">41</a></sup><a name="41"></a> &quot;A cr&iacute;tica    das ordens e dos corpos e a rejei&ccedil;&atilde;o da representa&ccedil;&atilde;o    dos interesses que dela resultam conduzem &agrave; exalta&ccedil;&atilde;o do    indiv&iacute;duo abstracto, livre de qualquer determina&ccedil;&atilde;o, simples    membro do todo social&quot; (Rosanvallon, 1992, p. 70).      <p><sup><a href="#top42">42</a></sup><a name="42"></a> Sobre a vers&atilde;o doutrin&aacute;ria    desta forma de pensar os direitos pol&iacute;ticos, v. Bonif&aacute;cio (2007,    pp. 52-54).      <p><sup><a href="#top43">43</a></sup><a name="43"></a> No parlamento portugu&ecirc;s    um deputado afirmava que &quot;[...] os homens vivem em sociedade para gozarem    dos direitos civis, isto &eacute;, o direito de liberdade individual, de seguran&ccedil;a    pessoal, e de propriedade real o mais amplamente que se possa, que os direitos    pol&iacute;ticos, isto &eacute;, o direito de legislar, de julgar, de administrar,    de fazer executar a lei, s&atilde;o precisos para assegurarem aos homens os    direitos civis, que estes nem sempre marcham a par daqueles; quero dizer, que    nem sempre crescem os direitos civis na mesma propor&ccedil;&atilde;o que os    pol&iacute;ticos, que ao contr&aacute;rio muitas vezes est&atilde;o numa raz&atilde;o    inversa [v. <I>Di&aacute;rio das Cortes Gerais Extraordin&aacute;rias e Constituintes    da Na&ccedil;&atilde;o Portuguesa (DCGECNP)</I>], sess&atilde;o de 13 de Outubro    de 1837, p. 255, deputado Xavier Monteiro.      <p><sup><a href="#top44">44</a></sup><a name="44"></a> V. Constant (1992 [1814],    pp. 125 e segs.).      <p><sup><a href="#top45">45</a></sup><a name="45"></a> A menoridade era entendida    como um momento na constitui&ccedil;&atilde;o do indiv&iacute;duo, e n&atilde;o    como uma posi&ccedil;&atilde;o sociol&oacute;gica, e por isso Rosanvallon conclui,    de novo, que &quot;o facto de se privar o menor do direito de voto n&atilde;o    contradiz ent&atilde;o o princ&iacute;pio da igualdade pol&iacute;tica. O menor    n&atilde;o &eacute; mais do que um indiv&iacute;duo em forma&ccedil;&atilde;o.    Do ponto de vista civil, ele n&atilde;o era propriamente privado de algum direito.    Os menores, juridicamente, gozam de todos os seus direitos civis, est&atilde;o    apenas momentaneamente suspensos do exerc&iacute;cio desses direitos, sendo    a sua pessoa civilmente representada pelo seu pai, que tem igualmente por tarefa    administrar provisoriamente os seus bens&quot; (Rosanvallon, 1992, p. 117).    Sobre os alienados ou interditos, id.,<I> ibid.,</I> p. 118.      <p><sup><a href="#top46">46</a></sup><a name="46"></a> Os dois elementos compreendidos    na no&ccedil;&atilde;o de civiliza&ccedil;&atilde;o &#151; o progresso das sociedades,    o progresso dos indiv&iacute;duos &#151; encontram-se, por exemplo, em Guizot    (1851, pp. 20 e segs.).      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a href="#top47">47</a></sup><a name="47"></a> V. Rosanvallon (1992, p.    89), referindo-se aos deputados da assembleia constituinte francesa: &quot;Mesmo    quando previam e justificavam as condi&ccedil;&otilde;es restritivas no acesso    ao exerc&iacute;cio do direito de voto, os constituintes inscreviam-se na perspectiva    de um verdadeiro universalismo da cidadania. Eles acreditavam que o novo per&iacute;odo    hist&oacute;rico que estavam a inaugurar realizasse de forma permanente e regular    aquilo que as circunst&acirc;ncias permitiam manifestar simbolicamente [&#133;]    Previam que o progresso e a civiliza&ccedil;&atilde;o permitiriam, no futuro,    baixar a idade exigida para a maioridade, suprimir a pobreza e a mendicidade    e, com isso, universalizar a figura do cidad&atilde;o activo&quot;.      <p><sup><a href="#top48">48</a></sup><a name="48"></a> Nas pp. 172-173, Lopes    Pra&ccedil;a sugere os mesmos crit&eacute;rios para a concess&atilde;o plena    dos direitos de peti&ccedil;&atilde;o, reuni&atilde;o e associa&ccedil;&atilde;o.    Como o sufr&aacute;gio, tamb&eacute;m eles sofriam restri&ccedil;&otilde;es    (decreto de 15 Junho de 1870), at&eacute; o povo portugu&ecirc;s &quot;se habituar    ao justo e leg&iacute;timo exerc&iacute;cio de t&atilde;o importantes direitos&quot;,    compreendendo &quot;o quanto importa &agrave; sua prosperidade o n&atilde;o    abusar de t&atilde;o preciosos elementos de prosperidade e progresso&quot;.      <p><sup><a href="#top49">49</a></sup><a name="49"></a> V. <I>Di&aacute;rio da    C&acirc;mara dos Deputados</I>, sess&atilde;o de 11 de Mar&ccedil;o de 1852,    p. 157. Outras vezes chamou-se a aten&ccedil;&atilde;o para a igualdade de todos    na possibilidade de acederem, pelo m&eacute;rito, &agrave; plenitude dos direitos    pol&iacute;ticos: &quot;&Eacute; certo que nem todo o Portugu&ecirc;s pode ser    Senador, mas s&oacute; aquele que estiver em certa classe, que tiver cinco mil    cruzados de renda como propriet&aacute;rio ou como artista &eacute; que pode    gozar desse direito. Ningu&eacute;m pode ser deputado sem ter quatrocentos cruzados    de renda, mas todo o homem que, atrav&eacute;s da sua ind&uacute;stria e trabalho,    pode adquirir um capital que lhe d&ecirc; este rendimento <I>est&aacute; em    circunst&acirc;ncias de poder aspirar a estes importantes cargos&quot;</I> (Pinto,    2004 [<I>c</I>. 1840], p. 111).      <p><sup><a href="#top50">50</a></sup><a name="50"></a> V. Herculano (1983, p.    212). Agrade&ccedil;o novamente aos <I>referees</I> an&oacute;nimos esta refer&ecirc;ncia,    que ilustra a vertente mais antidemocr&aacute;tica do liberalismo oitocentista    em Portugal, uma vertente que explorei menos neste texto por estar fundamentalmente    interessada em salientar a presen&ccedil;a da ideia de igualdade no pensamento    liberal oitocentista.      <p><sup><a href="#top51">51</a></sup><a name="51"></a> Adam Smith, como David    Hume, por exemplo, tamb&eacute;m acreditava que o progresso do com&eacute;rcio    viria proporcionar a auto-sufici&ecirc;ncia material e a independ&ecirc;ncia    econ&oacute;mica a todos os grupos sociais, o que permitiria universalizar a    sua capacidade moral e pol&iacute;tica. Assim, &quot;a solu&ccedil;&atilde;o    para chegar &agrave; igualdade [...] n&atilde;o &eacute; suprimir a propriedade    mas, pelo contr&aacute;rio, possibilitar que cada indiv&iacute;duo desfrute    de um m&iacute;nimo de propriedade [...] converter cada cidad&atilde;o num propriet&aacute;rio&quot;    (v. Elosegui, 1990, p. 435). Tamb&eacute;m Kant acreditava que, pela via do    mercado livre, todos viriam a ter acesso &agrave; propriedade e, portanto, &agrave;    cidadania.      <p><sup><a href="#top52">52</a></sup><a name="52"></a> Embora se fizesse mais    frequentemente radicar essa exclus&atilde;o na &quot;natureza&quot; do que nas    circunst&acirc;ncias particulares, segundo Sarcey (2003, p. 201), primazia que    o estudo de Joan Landes parece confirmar, pelo menos para os primeiros anos    da revolu&ccedil;&atilde;o francesa (v. Landes, 1988, pp. 46 e segs.). O que    se mostra neste livro &eacute; o processo pelo qual o liberalismo republicano    construiu a imagem da mulher como &quot;naturalmente dom&eacute;stica&quot;,    por oposi&ccedil;&atilde;o ao &quot;artificialismo&quot; do comportamento feminino    nos <I>salons</I> do Antigo Regime ou das mulheres revolucion&aacute;rias durante    a revolu&ccedil;&atilde;o francesa. Na imagina&ccedil;&atilde;o republicana    de oitocentos, o mundo ordenado (a &quot;rep&uacute;blica virtuosa&quot;) era    habitado por homens p&uacute;blicos e mulheres dom&eacute;sticas e virtuosas.      <p><sup><a href="#top53">53</a></sup><a name="53"></a> V. &quot;Observa&ccedil;&otilde;es    sobre o relat&oacute;rio da comiss&atilde;o da Constitui&ccedil;&atilde;o relativa    &agrave; nova organiza&ccedil;&atilde;o da Fran&ccedil;a&quot;, cit. <I>in</I>    Costa (2000, p. 29) (it&aacute;licos nossos).      <p><sup><a href="#top54">54</a></sup><a name="54"></a> V. Bentham (1990 [<I>c</I>.    1822], p. 260): &quot;As to person of the female sex, if the only proper mode    of receiving the declaration of a person's will, namely that of <I>secret suffrage    openly delivered,</I> be employed, no reason consistent with the principle of    general utility as above can be assigned why they or any of them, being of relatively    mature age, should stand [excluded]. But no prepossession, howsoever adverse    to the principle of general utility, <I>can on the sudden be eradicated:</I>    and it would be idle to propose to all that to which acceptance it is certain    would not be given by any one.&quot; J&aacute; tardiamente, Trindade Coelho    viria a fazer considera&ccedil;&otilde;es similares, mas relativas aos direitos    civis das mulheres, numa obra em que era de facto forte a rejei&ccedil;&atilde;o    da ideia de nivelamento social e da igualdade entre homens e mulheres: &quot;[&#133;]    se, em teoria, a igualdade civil da mulher &eacute; aceite pelos povos civilizados,    as institui&ccedil;&otilde;es e os costumes ainda est&atilde;o longe de a sancionar    de um modo completo [&#133;]&quot; (v. Trindade Coelho, 1906, p. 59). Agrade&ccedil;o    &agrave; Diana Vicente, aluna de Hist&oacute;ria das institui&ccedil;&otilde;es    da Faculdade de Direito da UNL (1008-2009) esta refer&ecirc;ncia.      <p><sup><a href="#top55">55</a></sup><a name="55"></a> &quot;Or, more precisely,    the accounts of women's inferiority hesitated between its either being inherent    in gender-identity and gender difference, or explained by the contingencies    of time and place. The nation's history could, subsequently, either be seen    as ready for implementing women's political equality, if only as marking a stage    towards a final homogenisation of Women into universal citizenship, or as being    excused from admitting them into the nation's new political identity&quot; (Vega,    2003, p. 124). O objectivo de Judith Vega era, neste artigo, o de problematizar    a ideia de que teriam sido de natureza puramente igualit&aacute;ria os direitos    reivindicados pelas mulheres ao longo dos s&eacute;culos xviii e xix.      <p><sup><a href="#top56">56</a></sup><a name="56"></a> V. <I>DCGECNP</I>, sess&atilde;o    de 12 de Outubro de 1821, p. 2625, deputado Guerreiro; no mesmo sentido, sess&atilde;o    de 3 de Abril de 1821, p. 713, deputado Borges Barros; sess&atilde;o de 14<SUP>    </SUP>de Janeiro de 1822, deputado Pinto de Fran&ccedil;a; sess&atilde;o de    12 de Outubro de 1821, p. 2627, deputado Castelo Branco Manoel; sess&atilde;o    de 12 de Outubro de 1821, p. 2638, deputado Sarmento. Estas solu&ccedil;&otilde;es    perduraram, com ainda maiores restri&ccedil;&otilde;es, no direito constitucional    portugu&ecirc;s. Direitos pol&iacute;ticos em Portugal eram, na doutrina constitucional,    &quot;o de votar, e ser votado deputado &agrave;s Cortes, nos termos do art.&#186;    64 e seg. da Carta Constitucional, o de poder ocupar os empregos p&uacute;blicos,    quer civis, quer eclesi&aacute;sticos e militares; o de receber doa&ccedil;&otilde;es    de bens nacionais; e o de ser escolhido para conselheiro do Estado&quot;, segundo    Liz Teixeira, que depois sintetizou a posi&ccedil;&atilde;o do estrangeiro e    dos naturalizados face a esses direitos: &quot;[&#133;] cidad&atilde;os, tornados    tais por carta de naturaliza&ccedil;&atilde;o, gozam, como os nacionais portugueses,    de todos os direitos, a menos o de votar e ser votados para deputados &agrave;s    nossas Cortes, e na mesma raz&atilde;o para membros da Junta Geral de distrito,    e o de serem conselheiros de Estado, enquanto os que se conservam estrangeiros,    nenhuns direitos pol&iacute;ticos adquirem entre n&oacute;s, nenhuma parte activa    t&ecirc;m na administra&ccedil;&atilde;o do distrito do concelho e da par&oacute;quia,    podendo unicamente adquirir com o tempo os direitos simplices de vizinhan&ccedil;a,    n&atilde;o obstante seus filhos, ainda de m&atilde;e estrangeira, nascendo dentro    em nosso territ&oacute;rio, serem naturais, ou cidad&atilde;os portugueses&quot;    (Teixeira, 1845, pp. 148 e 160-161). No cap&iacute;tulo que dedicou &agrave;    divis&atilde;o entre naturais e estrangeiros este autor relacionou tamb&eacute;m    as restri&ccedil;&otilde;es relativamente aos estrangeiros com o amor natural    que unia os homens ao local de nascimento. Considera&ccedil;&otilde;es semelhantes    podem encontrar-se em Salema (1841, pp. 432 e 480).      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a href="#top57">57</a></sup><a name="57"></a> V. Carneiro (1826, p. 76),    apoiando-se na Carta Constitucional e em Emerich Vattel (1714-1767), jusnaturalista    cat&oacute;lico muito lido pelos juristas portugueses desde o s&eacute;culo    xviii. Bas&iacute;lio Alberto enumerava, como condi&ccedil;&otilde;es de cidadania,    a capacidade e o amor &agrave; p&aacute;tria, conhecendo-se este &quot;primeiro    pelo sangue, segundo pelo lugar de nascimento&quot; (Pinto, 2004 [1838], p.    113).      <p><sup><a href="#top58">58</a></sup><a name="58"></a> Como &quot;direitos e deveres    individuais dos portugueses&quot;, na Constitui&ccedil;&atilde;o de 1822, como    &quot;garantias dos direitos civis, e pol&iacute;ticos dos cidad&atilde;os portugueses&quot;,    na Carta Constitucional, artigo 145, como &quot;direitos e garantias dos Portugueses&quot;,    na Constitui&ccedil;&atilde;o de 1838.      <p><sup><a href="#top59">59</a></sup><a name="59"></a> V. Immanuel Kant (1991    [1793], pp. 90-91): &quot;O objectivo do homem enquanto esp&eacute;cie, i. e.,    a realiza&ccedil;&atilde;o do seu destino &uacute;ltimo por meio do livre exerc&iacute;cio    dos seus pr&oacute;prios poderes, ser&aacute; conduzido ao sucesso pela Provid&ecirc;ncia,    mesmo que os objectivos dos homens considerados individualmente tomem uma direc&ccedil;&atilde;o    diametralmente oposta [&#133;]&quot; Sobre o cosmopolitismo kantiano v. Marini    (1998). E, em di&aacute;logo com outros, v. Habermas (2005) e Kumar (2007, p.    414).     <p><sup><a href="#top60">60</a></sup><a name="60"></a> V. <I>DCGECNP</I>, sess&atilde;o    de 14 de Janeiro de 1822, p. 3691, deputado Caldeira.      <p><sup><a href="#top61">61</a></sup><a name="61"></a> Sobre o conceito liberal    de na&ccedil;&atilde;o como um &quot;[&#133;] conceito b&aacute;sico por meio    do qual os povos nativos foram marginalizados pelas popula&ccedil;&otilde;es    de descend&ecirc;ncia europeia&quot; v. Connolly (2000, p. 183).      <p><sup><a href="#top62">62</a></sup><a name="62"></a> A cristianiza&ccedil;&atilde;o    foi parte integrante de muitos programas associados &agrave; &quot;miss&atilde;o    civilizacional&quot;, porque se acreditava que o cristianismo era uma religi&atilde;o    civilizadora e &quot;progressiva&quot;. J&aacute; em 1750 Turgot, confrontado    com o problema moral da viol&ecirc;ncia exercida sobre os povos nativos dos    imp&eacute;rios europeus, justificava o sofrimento dos amer&iacute;ndios e dos    escravos africanos com o &quot;dever que todos os povos do universo tinham de    submeter-se a [&#133;] uma f&eacute; de amor que `ilumina' o esp&iacute;rito    e ado&ccedil;a os costumes, que faz reinar todas as virtudes e felicidade&quot;    [v. <I>Discours sur les avantages que l'&eacute;tablissement du christianisme    a procur&eacute;s au genre humain </I>(1750),cit. <I>in </I>Israel, 2006, p.    592]. Essa ideia permaneceu no pensamento de Stuart Mill e de Guizot, para dar    dois exemplos de refer&ecirc;ncia, mas tamb&eacute;m na doutrina jur&iacute;dica    e pol&iacute;tica da &eacute;poca. Em Portugal, S&aacute; da Bandeira afirmou    mais do que uma vez que o cristianismo se propagaria em terras africanas &agrave;    medida que a civiliza&ccedil;&atilde;o ali se propagasse (S&aacute; da Bandeira,    1873, p. 136; Silva, 2007).      <p><sup><a href="#top63">63</a></sup><a name="63"></a> V. DCGECNP, sess&atilde;o    de 18 de Mar&ccedil;o de 1822, p. 541, it&aacute;licos nossos.      <p><sup><a href="#top64">64</a></sup><a name="64"></a> V. tamb&eacute;m Silva    (2004), em que se analisa o projecto relativo aos &iacute;ndios do Brasil, j&aacute;    aqui citado, e outros semelhantes, bem como o discurso equivalente para as popula&ccedil;&otilde;es    nativas do continente africano.      <p><sup><a href="#top65">65</a></sup><a name="65"></a> V. Tocqueville (2001 [1835-1840])    e ainda o texto que escreveu sobre a emancipa&ccedil;&atilde;o dos escravos    enquanto membro da comiss&atilde;o para o exame das quest&otilde;es relativas    &agrave; escravatura e &agrave; constitui&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica das    col&oacute;nias, institu&iacute;da pelo governo franc&ecirc;s a 26 de Maio de    1840 (Engerman, Drescher e Paquette, 2001, pp. 436-441).      <p><sup><a href="#top66">66</a></sup><a name="66"></a>Sobre todo este processo    e o seu significado jur&iacute;dico, v. Silva (2004) e a bibliografia a&iacute;    citada.      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a href="#top67">67</a></sup><a name="67"></a> Ao contr&aacute;rio do    que os juristas oitocentistas sugeriram, estes alvar&aacute;s n&atilde;o foram,    no entanto, leis com um sentido geral abolicionista. Sobre os limites das inten&ccedil;&otilde;es    emancipadoras do legislador josefino, v. Lahon (1999, p. 84, e 2003, p. 138).      <p><sup><a href="#top68">68</a></sup><a name="68"></a> Por outro lado, havia mais    do que um &quot;espa&ccedil;o p&uacute;blico&quot; na sociedade de Oitocentos.    N&atilde;o apenas o &quot;burgu&ecirc;s&quot;, mas tamb&eacute;m o &quot;oper&aacute;rio&quot;    ou o &quot;feminista&quot;. Como salientou Filipe Carreira da Silva, foi na    interinflu&ecirc;ncia entre estes &quot;espa&ccedil;os&quot; que Habermas situou    o &quot;potencial democr&aacute;tico inflacion&aacute;rio dos princ&iacute;pios    universalistas&quot; (Silva, 2002, p. 63). Mas, como salientei no in&iacute;cio    deste texto, situei-me sempre no campo das representa&ccedil;&otilde;es culturais,    e n&atilde;o no da <I>praxis</I>. A cultura pol&iacute;tica e jur&iacute;dica    de Oitocentos n&atilde;o deu visibilidade a esses outros espa&ccedil;os p&uacute;blicos.      <p><a name="69"></a><a href="#top69"><sup>69</sup></a> Essa forma de perceber    os direitos foi conduzida &agrave;s suas &uacute;ltimas consequ&ecirc;ncias    pela doutrina alem&atilde; do <I>Estado de direito</I> (v. Fioravanti, 1995,    pp. 129-130, e 2001, p. 134).      <p>&nbsp;      <P  ALIGN="JUSTIFY"><a name="a1"></a><a href="#topa1">*</a> Faculdade de Direito,    Universidade Nova de Lisboa, Campus de Campolide, 1099-032, Lisboa, Portugal.    e-mail: <a href="mailto:ancs@fd.unl.pt">ancs@fd.unl.pt</a>. Investiga&ccedil;&atilde;o    em Direito e Sociedade da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa.    Deixo aqui o meu agradecimento &agrave;s pessoas que organizaram o col&oacute;quio,    particularmente aos meus colegas Carlos Ferreira de Almeida e Cl&aacute;udia    Trabuco.      <P ALIGN="JUSTIFY"><a name="a2"></a><a href="#topa2">**</a> Este texto resultou    da minha participa&ccedil;&atilde;o no Semin&aacute;rio Internacional <I>Mundos    em Di&aacute;logo, Col&oacute;quio Internacional sobre Literatura e Direito</I>,    organizado pelos Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade    de Lisboa e pelo Centro de Investiga&ccedil;&atilde;o em Direito e Sociedade    da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa. Deixo aqui o meu agradecimento    &agrave;s pessoas que organizaram o col&oacute;quio, particularmente aos meus    colegas Carlos Ferreira de Almeida e Cl&aacute;udia Trabuco.      ]]></body><back>
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