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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Hip-hop e graffiti: uma abordagem comparativa entre o Rio de Janeiro e São Paulo]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Hip-hop and graffiti in Rio de Janeiro and São Paulo: a comparative approach]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This paper proposes a comparative analysis of the struggles for recognition through the hip-hop and graffiti cultures in Rio de Janeiro and São Paulo. It focuses on the tensions created by the search for social inclusion, the criticism toward segregationist social relationships and the appeal of market-driven visibility. It also analyzes how subcultures construct an order of recognition and how they are appropriated and interpreted in the public sphere.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p><I><b>Hip-hop </b></I><b>e<I> graffiti:</I> uma abordagem comparativa entre    o Rio de Janeiro e S&atilde;o Paulo </b>     <p><b>Tereza Ventura<a href="#a1">*</a> <a name="topa1"></a> </b>     <p>&nbsp;      <p>O artigo prop&otilde;e uma abordagem comparativa sobre as lutas    pelo reconhecimento atrav&eacute;s da cultura <I>hip-hop</I> e particularmente    do movimento <I>graffiti</I> no Rio de Janeiro e em S&atilde;o Paulo. Mostra-se    a tens&atilde;o entre a busca da inclus&atilde;o social, a cr&iacute;tica das    rela&ccedil;&otilde;es sociais segregadoras e o entusiasmo pela visibilidade    oferecida pelo mercado. Destacam-se as formas pelas quais as subculturas constroem    uma ordem de reconhecimento e como s&atilde;o apropriadas e interpretadas no    espa&ccedil;o p&uacute;blico.      <p><B>Palavras-chave:</B> reconhecimento; cultura; <I>graffiti</I>; espa&ccedil;o    p&uacute;blico; inclus&atilde;o social.      <p>&nbsp;      <p><B><I>Hip-hop</I> and <I>graffiti</I> in Rio de Janeiro and    S&atilde;o Paulo: a comparative approach</B>      <p>This paper proposes a comparative analysis of the struggles    for recognition through the <I>hip-hop</I> and <I>graffiti </I>cultures in Rio    de Janeiro and S&atilde;o Paulo. It focuses on the tensions created by the search    for social inclusion, the criticism toward segregationist social relationships    and the appeal of market-driven visibility. It also analyzes how subcultures    construct an order of recognition and how they are appropriated and interpreted    in the public sphere.      <p><B>Keywords:</B> recognition; culture; <I>graffiti</I>; public space; social    inclusion.      <p>&nbsp;      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A cultura que veio a ser conhecida como <I>hip-hop</I> propagava-se    a partir de festas de rua e festivais que estimulavam o desenvolvimento e a    aprendizagem de pr&aacute;ticas relacionadas com a m&uacute;sica, a dan&ccedil;a    <I>break,</I> o <I>rhythm andpoetry</I> e a arte gr&aacute;fica. Tais    pr&aacute;ticas e experi&ecirc;ncias, que se realizavam de forma desagregada    e privada, passaram a ser hist&oacute;rica e socialmente associadas &agrave;    sem&acirc;ntica subcultural <I>hip-hop</I> e integradas num horizonte interpretativo    comum a partir do qual se configuram como fonte de motiva&ccedil;&atilde;o para    ac&ccedil;&otilde;es de resist&ecirc;ncia est&eacute;tica e pol&iacute;tica.      <p>No Brasil, o movimento <I>hip-hop</I> ganhou visibilidade com o apoio das lideran&ccedil;as    comunit&aacute;rias e do movimento negro. O ideal de auto-realiza&ccedil;&atilde;o    e de contesta&ccedil;&atilde;o presente nesse movimento pretende afirmar uma    pot&ecirc;ncia criativa e, ao mesmo tempo, reconciliar os agentes numa pr&aacute;tica    intersubjectiva dotada de uma moldura normativa com vista ao estabelecimento    de novas condi&ccedil;&otilde;es sociais de auto-realiza&ccedil;&atilde;o e    integra&ccedil;&atilde;o.      <p>&nbsp;     <P><b>Contexto social e organiza&ccedil;&atilde;o do Movimento <I>Hip-hop</I>    no Rio de Janeiro e S&atilde;o Paulo </b>     <p>O movimento <I>hip-hop</I> organiza-se, tanto na cidade do    Rio de Janeiro como em S&atilde;o Paulo, como um movimento social que utiliza    as pr&aacute;ticas est&eacute;ticas enquanto instrumento na luta pelo reconhecimento.    Atrav&eacute;s das pr&aacute;ticas culturais, este movimento veicula a tem&aacute;tica    da desigualdade, da viol&ecirc;ncia, do quotidiano, do orgulho da heran&ccedil;a    afrodescendente e da politiza&ccedil;&atilde;o de um discurso est&eacute;tico.    Em 1993, no Rio de Janeiro, o <I>rapper </I>MVBill e o <I>DJ</I> Sergio Tr realizavam    na comunidade Cidade de Deus o primeiro programa de r&aacute;dio comunit&aacute;ria    ligado ao <I>hip-hop:</I> o SOS Consci&ecirc;ncia. O Complexo da Mar&eacute;    e o bairro de Realengo destacavam-se, respectivamente, pela actua&ccedil;&atilde;o    da Associa&ccedil;&atilde;o Voz Activa e dos grupos de <I>rap</I> Filhos do    Gueto e Artigo 288. Naquele contexto, pequenas redes semi-industriais foram    conformando um mercado de circula&ccedil;&atilde;o e produ&ccedil;&atilde;o    de festas, eventos e bailes que ofereciam formas de lazer e pr&aacute;ticas    colectivas que ganhariam visibilidade e influ&ecirc;ncia nas suas comunidades.    No Rio de Janeiro, o movimento negro, interessado na diversidade de manifesta&ccedil;&otilde;es    da identidade negra, passa a colaborar com a express&atilde;o p&uacute;blica    do <I>hip-hop</I>. Em 1993, por interm&eacute;dio do Centro de Articula&ccedil;&atilde;o    das Popula&ccedil;&otilde;es Marginalizadas (CEAP), surge o primeiro CD de grupos    e bandas de <I>rap</I> do Rio de Janeiro, intitulado <I>Tiro Inicial</I> (Gon&ccedil;alves,    1997)<sup><a href="#1">1</a></sup><a name="top1"></a>.O <I>rapper </I>Gabriel o Pensador tamb&eacute;m    lan&ccedil;ava o seu primeiro CD produzido pela prestigiada Sony,do    qual fazia parte a m&uacute;sica &quot;Estou feliz matei o presidente&quot;,    em alus&atilde;o ao presidente rec&eacute;m-deposto Collor de Mello. No mesmo    ano, os racionais Mcs lan&ccedil;avam em S&atilde;o Paulo a colet&acirc;nea    <I>Raio X do Brasil</I> com o selo independente da editora Zimbawe. A comunidade    Cidade de Deus marcava o cen&aacute;rio carioca com o primeiro festival <I>hip-hop</I>    realizado no modesto Centro Integrado de Educa&ccedil;&atilde;o P&uacute;blica    (CIEP) localizado na comunidade.      <p>Ao contr&aacute;rio do Rio de Janeiro, no cen&aacute;rio paulista,    a gest&atilde;o da prefeita do Partido dos Trabalhadores, Lu&iacute;sa Erundina,    e da fil&oacute;sofa Marilena Chau&iacute; na secretaria de cultura viria a    introduzir a cultura <I>hip-hop</I> nas institui&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas:    escolas, associa&ccedil;&otilde;es <I>hip-hop</I> e projectos de murais p&uacute;blicos    obtinham o apoio e o reconhecimento das pol&iacute;ticas p&uacute;blicas<sup><a href="#2">2</a></sup><a name="top2"></a>    e alguns grafiteiros eram remunerados pelos pain&eacute;is que pintavam. Tamb&eacute;m    em S&atilde;o Paulo, a editora MTV lan&ccedil;ava no ano de 1994 um programa    semanal dedicado ao <I>hip-hop</I>.      <p>Al&eacute;m do suporte p&uacute;blico da prefeitura, o Instituto    da Mulher Negra de S&atilde;o Paulo (Geled&eacute;s) instituiu o projecto <I>Rappers    </I>(1994), que produzia v&iacute;deos, cursos e semin&aacute;rios, lan&ccedil;ou    a primeira publica&ccedil;&atilde;o <I>hip-hop</I> de circula&ccedil;&atilde;o    nacional, a <I>Pode Cr&ecirc;!</I> (Silva, 1999), e realizou a primeira mostra    nacional <I>hip-hop</I>. Em S&atilde;o Paulo, como tamb&eacute;m no Rio de Janeiro,    as organiza&ccedil;&otilde;es do movimento negro disponibilizavam espa&ccedil;os    e meios de auto-organiza&ccedil;&atilde;o dos grupos das mais diversas comunidades.    Atrav&eacute;s de encontros frequentes dentro e fora das comunidades, as redes    de actua&ccedil;&atilde;o <I>hip-hop</I> promoviam a auto-estima, a solidariedade    e a coopera&ccedil;&atilde;o entre grupos culturais perif&eacute;ricos, visando    a negocia&ccedil;&atilde;o, o di&aacute;logo e o confronto com as autoridades    p&uacute;blicas e os agentes institucionais. Embora articulado numa pr&aacute;tica    interligada com o movimento negro e com a pr&oacute;pria inser&ccedil;&atilde;o    numa ind&uacute;stria cultural, o <I>hip-hop</I> constitui-se a partir de pr&aacute;ticas    colectivas locais, ou seja, inscritas nas suas bases quotidianas. A refer&ecirc;ncia    ao local est&aacute; presente nas letras das m&uacute;sicas, no nome de certos    grupos e nos eventos sempre vinculados &agrave;s comunidades, que, por sua vez,    passam a dispor cada vez mais de r&aacute;dios e de canais de televis&atilde;o    comunit&aacute;rios. Essas pr&aacute;ticas, que contavam com formas de express&atilde;o    art&iacute;stica e debates, permitiam que o mundo da vida sociocultural local    estabelecesse no indiv&iacute;duo um contacto com as suas aptid&otilde;es e    individualidades. Atrav&eacute;s do <I>hip-hop</I> forjavam-se formas comunicativas    espec&iacute;ficas que fortaleciam rela&ccedil;&otilde;es intersubjectivas de    reconhecimento e v&iacute;nculos normativos que confirmam valores comuns inscritos    em horizontes colectivos de interpreta&ccedil;&atilde;o:      <blockquote>       <p>Na verdade a associa&ccedil;&atilde;o era uma maneira de a gente ter um encontro      semanal trocar id&eacute;ias&#133; a gente cantava nos <I>shows</I> do movimento      negro, do movimento estudantil, a gente era muito novo, alguns tavam desenvolvendo      mais a postura e aprendendo a lidar uns com os outros [Leal, 2007, p. 191].    </p> </blockquote>     <p>Para Honneth, os sujeitos trazem para a sociedade a expectativa    psicol&oacute;gica e moral de que as suas realiza&ccedil;&otilde;es e atribui&ccedil;&otilde;es    individuais adquiram reconhecimento. As rela&ccedil;&otilde;es sociais quotidianas    s&atilde;o capazes de activar rela&ccedil;&otilde;es intersubjetivas de reconhecimento    m&uacute;tuo, potencialmente capazes de articular processos de transforma&ccedil;&atilde;o    em direc&ccedil;&atilde;o a um maior grau de universalidade, de igualdade e    de realiza&ccedil;&atilde;o individual. Os princ&iacute;pios normativos de reconhecimento    m&uacute;tuo perpassam as esferas de reconhecimento afectivo, legal e solid&aacute;rio,    que ancoram, respectivamente, a base afectiva, a socializa&ccedil;&atilde;o    moral e a forma&ccedil;&atilde;o identit&aacute;ria dos indiv&iacute;duos. As    esferas de reconhecimento reflectem formas de auto-rela&ccedil;&atilde;o com    o pr&oacute;prio <I>self</I> nas suas rela&ccedil;&otilde;es intersubjectivas    de reconhecimento no n&iacute;vel prim&aacute;rio de amor e amizade, no n&iacute;vel    legal do direito e nas suas rela&ccedil;&otilde;es de solidariedade. As formas    de reconhecimento indicam, portanto, processos de desenvolvimentos normativos    de auto-realiza&ccedil;&atilde;o, reflectem transforma&ccedil;&otilde;es da    ordem do reconhecimento intersubjetivo por meio das quais os indiv&iacute;duos    aprendem a se auto-reconhecerem-se e individualizarem-se atrav&eacute;s de    uma maior flexibilidade e reflexividade nas suas pr&aacute;ticas afectivas e    nas rela&ccedil;&otilde;es legais e impessoais em que se autocompreendem como    sujeitos aut&oacute;nomos e respons&aacute;veis, partilhando em igualdade deveres    e direitos com todos os membros da sociedade. Atrav&eacute;s das lutas intersubjectivas,    os sujeitos pretendem ganhar aceita&ccedil;&atilde;o n&atilde;o apenas em rela&ccedil;&atilde;o    &agrave;s suas reivindica&ccedil;&otilde;es identit&aacute;rias, mas tamb&eacute;m    no que toca a um conjunto de direitos que assegurem a sua autonomia. As lutas    pelo reconhecimento constituem-se nos seus contextos hist&oacute;ricos e culturais    particulares, mas postulam um reconhecimento social e normativo das respectivas    orienta&ccedil;&otilde;es de valor e modos de vida, ou seja, a gram&aacute;tica    dessas lutas tem um car&aacute;ter moral (Honneth, 2003). A luta pelo reconhecimento,    a defesa da identidade cultural e da autonomia, podem assumir a forma de luta    pela igualdade de acesso ao direito de justi&ccedil;a e ao uso equitativo dos    recursos p&uacute;blicos. Nesse sentido, a vis&atilde;o de Honneth &eacute;    &uacute;til na compara&ccedil;&atilde;o com vis&otilde;es culturalmente orientadas    dos grupos subalternos que passaram a inscrever o debate da diversidade e do    pluralismo. Como os partid&aacute;rios da pol&iacute;tica da diferen&ccedil;a,    Honneth defende a estima como uma das dimens&otilde;es centrais nas lutas pelo    reconhecimento e na estrutura&ccedil;&atilde;o de novas formas de distin&ccedil;&atilde;o    identit&aacute;rias. A estima &eacute; a base da contribui&ccedil;&atilde;o    individual para o projecto colectivo e n&atilde;o est&aacute; ligada apenas    ao grupo e &agrave; subcultura da qual faz parte, estabelecendo tamb&eacute;m    uma rela&ccedil;&atilde;o com as demais comunidades (Honneth, 1995a, p. 128).    Os processos culturais adquirem um conte&uacute;do pol&iacute;tico e tamb&eacute;m    econ&oacute;mico na medida em que se apresentam como projectos contra-hegem&oacute;nicos.    As estrat&eacute;gias de diferencia&ccedil;&atilde;o que organizam os movimentos    sociais s&atilde;o dispositivos de constru&ccedil;&atilde;o de novos campos    de classifica&ccedil;&atilde;o e regula&ccedil;&atilde;o das diferen&ccedil;as.    Neste sentido, a procura de reconhecimento instrumentaliza-se a partir de um    processo de autodefini&ccedil;&atilde;o das minorias sociais, capacitando-as    a mobilizar criativamente e moralmente argumentos pol&iacute;ticos a favor da    sua inclus&atilde;o. Na medida em que este reconhecimento cont&eacute;m tamb&eacute;m    uma base emocional constru&iacute;da em torno das rela&ccedil;&otilde;es intersubjetivas    de reconhecimento m&uacute;tuo, as formas de desrespeito, como a viol&ecirc;ncia,    o abuso, a deprecia&ccedil;&atilde;o e os insultos, podem motivar, quando canalizadas    colectivamente, condi&ccedil;&otilde;es culturais para a luta e resist&ecirc;ncia.      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>As regras que organizam a distribui&ccedil;&atilde;o dos bens    materiais derivam do grau de estima social de que os grupos desfrutam, de acordo    com a hierarquia de valores institucionalizada; os conflitos pela distribui&ccedil;&atilde;o    n&atilde;o buscam a aplica&ccedil;&atilde;o de regras j&aacute; institucionalizadas,    mas s&atilde;o lutas simb&oacute;licas pela legitimidade de dispositivos culturais    que valorizam as suas pr&aacute;ticas, atributos e contribui&ccedil;&otilde;es    (Honneth, 2003, p. 174).      <p>As lutas pelo reconhecimento pretendem dar visibilidade, n&atilde;o    expressam conflitos de interesse ou a mera defesa de formas de vida, mas orientam-se    antes pelo ideal normativo de uma sociedade justa que acolha a pluraliza&ccedil;&atilde;o    e as diferentes formas de vida individuais.      <p>&Eacute; necess&aacute;rio ressaltar que a cultura <I>hip-hop</I>    n&atilde;o &eacute; homog&eacute;nea e que se tem materializado em diversas    organiza&ccedil;&otilde;es<sup><a href="#3">3</a></sup><a name="top3"></a>. As diversas ramifica&ccedil;&otilde;es    desta cultura entram em conflito entre si e com a sociedade e nem todos os seus    membros realizam uma arte de protesto social ou participam no movimento <I>hip-hop</I>    na sua express&atilde;o est&eacute;tica e pol&iacute;tica. As principais correntes    do <I>hip-hop</I> s&atilde;o a <I>gangsta</I>, que corresponde a um apelo <I>neo-underground</I>    e usa o estigma, o &oacute;dio, a viol&ecirc;ncia e o crime como mat&eacute;ria    de express&atilde;o e propaganda &quot;moral&quot;. As pr&aacute;ticas de gangues    rivais que competem entre si, interferindo com pichagens nas zonas p&uacute;blicas    das cidades, podem tamb&eacute;m associar-se a essa corrente (Carvalho, 2007).      <p>A dimens&atilde;o est&eacute;tica e pol&iacute;tica denuncia    a desigualdade e a injusti&ccedil;a e simultaneamente aspira a uma posi&ccedil;&atilde;o    aut&oacute;noma como linguagem est&eacute;tica e como organiza&ccedil;&atilde;o    pol&iacute;tica em parceria com organiza&ccedil;&otilde;es n&atilde;o governamentais,    institui&ccedil;&otilde;es culturais, um partido pol&iacute;tico, o PPPOMAR    (Partido Popular Poder para a Maioria), e, mais recentemente, uma coliga&ccedil;&atilde;o    com o MST (Movimento de Trabalhadores sem Terra). Esses grupos assumem uma posi&ccedil;&atilde;o    est&eacute;tica que negoceia com os meios convencionais da est&eacute;tica urbana    e expressam a sua ades&atilde;o a dispositivos art&iacute;sticos semelhantes    ao gosto p&uacute;blico. Esses grupos praticam a pichagem como uma forma de    protesto social. Parte dos seus membros realiza com frequ&ecirc;ncia oficinas    de rima, de <I>graffiti</I> e de dan&ccedil;a <I>break</I> nos principais pres&iacute;dios    e centros de reabilita&ccedil;&atilde;o de jovens do Brasil. Para estes agentes,    o <I>graffiti</I> &eacute; encarado como um instrumento de luta social e de    afirma&ccedil;&atilde;o de uma pot&ecirc;ncia transformadora que legitima simultaneamente    a inclus&atilde;o social, a cr&iacute;tica moral e a recria&ccedil;&atilde;o    da personalidade individual (recria&ccedil;&atilde;o do <I>self</I>).      <p>A dimens&atilde;o que atribui &agrave; arte um potencial de reden&ccedil;&atilde;o    e de redefini&ccedil;&atilde;o da pr&oacute;pria biografia tamb&eacute;m se    encontra aqui presente. &Eacute; o caso de ex-presidi&aacute;rios, reclusos    e moradores de rua que se envolvem em projectos socioculturais atrav&eacute;s    dos quais buscam reconstruir uma identidade p&uacute;blica a partir de uma transforma&ccedil;&atilde;o    de conduta e de valores reciprocamente orientados<sup><a href="#4">4</a></sup><a name="top4"></a>.      <p>A nossa an&aacute;lise concentra-se na dimens&atilde;o est&eacute;tica e pol&iacute;tica<sup><a href="#5">5</a></sup><a name="top5"></a>,    uma vez que este estudo tem por objecto as pr&aacute;ticas e os grupos que actuam    regularmente no movimento <I>graffiti</I> como agentes reprodutores de uma vis&atilde;o    de mundo e de uma pr&aacute;tica social, est&eacute;tica, cultural e pol&iacute;tica.    Todas as correntes aqui citadas desenvolvem din&acirc;micas espec&iacute;ficas    de reconhecimento m&uacute;tuo que s&atilde;o pass&iacute;veis de progresso    normativo de acordo com as concep&ccedil;&otilde;es &eacute;tico-pol&iacute;ticas    que as potenciam a manifestar publicamente o desrespeito e a reivindicar reconhecimento.    A subjectividade moral do ser humano e do agente social constitui-se dentro    de rela&ccedil;&otilde;es rec&iacute;procas de reconhecimento atrav&eacute;s    do cuidado afectivo, do respeito e da estima social. Essas rela&ccedil;&otilde;es    s&atilde;o localizadas historicamente e inscrevem-se nos seus contextos particulares,    em constela&ccedil;&otilde;es espec&iacute;ficas que n&atilde;o se referem a    classes, actores colectivos e ideologias, mas &agrave; identidade, &agrave;    auto-realiza&ccedil;&atilde;o e &agrave; singularidade, cujos resultados n&atilde;o    s&atilde;o suscept&iacute;veis de serem integrados num princ&iacute;pio gen&eacute;rico    de igualdade.      <p>&nbsp;      <P><b>Visibilidade social e difus&atilde;o do <I>Hip-hop</I> </b>     <p>A reciprocidade de expectativas e experi&ecirc;ncias comuns de desrespeito    entre os grupos ligados ao movimento <I>hip-hop</I> e aqueles ligados &agrave;s    lutas anti-racistas tornou poss&iacute;vel um trabalho comum que impulsionou    a visibilidade do <I>hip-hop</I> na cena p&uacute;blica e trouxe para as bases    do movimento negro um p&uacute;blico jovem (Gon&ccedil;alves, 1997). Foi no    bairro da Lapa, no Rio de Janeiro, nos anos 90, que o movimento negro instalou    a ONG como a Federa&ccedil;&atilde;o dos Blocos-Afro, o Movimento Negro Unificado    (MNU) e o Centro de Articula&ccedil;&atilde;o de Popula&ccedil;&otilde;es Marginalizadas    (CEAP).      <p>O CEAP, al&eacute;m de ajudar as comunidades, acompanhar os    processos judiciais e apoiar grupos culturais, possu&iacute;a um programa na    r&aacute;dio, Imprensa FM &#151; <I>Vibra&ccedil;&otilde;es Positivas </I>&#151;,    que divulgava a cultura negra e organizava actividades com os grupos musicais.    Por ser um bairro central, a Lapa tornou-se o ponto de encontro dos grupos provenientes    das mais diversas favelas cariocas. Os grupos culturais reuniam-se na Lapa,    a despeito das fac&ccedil;&otilde;es de poder e rivalidades existentes nas suas    comunidades locais. Na fundi&ccedil;&atilde;o Progresso (antiga f&aacute;brica    no centro da Lapa, que se tornou um espa&ccedil;o cultural), a produtora Elza    Cohen organizava em 1993 as primeiras festas <I>hip-hop</I> onde os jovens faziam    <I>performances</I> de <I>graffiti,break</I> e <I>rap</I>. Nestes eventos    realizados na Lapa em 1994 viriam a apresentar-se pela primeira vez ao p&uacute;blico    os grafiteiros de S&atilde;o Gon&ccedil;alo Fabio Ema, Marcelo Eco e Akuma (Ara&uacute;jo,    2003) e as bandas Gera&ccedil;&atilde;o Futuro do <I>rapper</I> Alexandre Barbosa    (hoje MVBill), a banda Afro-Reagge e a banda o Rappa. Segundo Jos&eacute; J&uacute;nior:      ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>       <p>N&atilde;o se pode negar que o CEAP foi um dos principais articuladores e      estimuladores do cen&aacute;rio reggae, samba reggae e <I>rap</I> naquele      in&iacute;cio dos anos 90 na cidade do Rio de Janeiro [Junior, 2003, p. 37].    </p> </blockquote>     <p>Em S&atilde;o Paulo os grupos de <I>rap</I> e as chamadas &quot;posses&quot;    floresciam em v&aacute;rias &aacute;reas do centro e da periferia. As posses    &quot;constituem espa&ccedil;os de organiza&ccedil;&atilde;o art&iacute;stico-pol&iacute;tica    caracter&iacute;sticos do movimento <I>hip-hop</I> [&#133;] s&atilde;o o local    de agrega&ccedil;&atilde;o dos manos, &eacute; a partir das posses que a rede    de rela&ccedil;&otilde;es entre os grupos &eacute; estabelecida e a pol&iacute;tica    de interven&ccedil;&atilde;o nos espa&ccedil;os das ruas &eacute; concretizada&quot;    (Silva, 1999, p. 23). Para al&eacute;m das posses, eventos p&uacute;blicos coordenados    pelo chamado movimento hip-hop organizado (MH2O) circulavam em diversos bairros    da periferia e da capital paulista com o apoio da rec&eacute;m-eleita prefeita    Lu&iacute;sa Erundina, do Partido dos trabalhadores (PT), cujo mandato seria    exercido entre 1988 e 1992. Desde 1989 que a esta&ccedil;&atilde;o do metro    de S&atilde;o Bento e a pra&ccedil;a Rooselvelt reuniam grupos de dan&ccedil;a    <I>break</I> e m&uacute;sicos de <I>rap</I> (Rocha, DomenicheCasseano,    2001). O vinil<I> Hip-hop</I>: <I>Cultura de Rua</I>, gravado pela Eldorado,    foi lan&ccedil;ado em S&atilde;o Paulo em 1988. Trata-se do primeiro documento    <I>hip-hop</I> do Brasil. A primeira apresenta&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica    de <I>hip-hop</I> ocorreu no <I>show </I>que celebrava o anivers&aacute;rio    da cidade de S&atilde;o Paulo em 1990 no parque do Ibirapuera.      <p>O processo de democratiza&ccedil;&atilde;o dos anos 90 viria a ser fundamental    para o desenvolvimento das lutas sociais pelo reconhecimento a partir de ac&ccedil;&otilde;es    culturais organizadas em torno do movimento <I>hip-hop</I> tanto em S&atilde;o    Paulo como nas favelas cariocas. O epis&oacute;dio das &quot;brigas entre galeras&quot;    que ocorreram no dia 18 de Outubro de 1992 na praia de Ipanema, no Rio de Janeiro,    mostrou o confronto entre jovens pertencentes a grupos rivais das comunidades    de Parada de Lucas e de Vig&aacute;rio Geral, respectivamente, dominadas por    diferentes fac&ccedil;&otilde;es do tr&aacute;fico de drogas. O confronto entre    os jovens foi interpretado pela imprensa como amea&ccedil;a &agrave; ordem p&uacute;blica    e ao bem-estar social, sendo, portanto, objecto de discrimina&ccedil;&atilde;o    e alvo de aten&ccedil;&atilde;o por parte da agenda policial, pol&iacute;tica    e social. Contudo, o epis&oacute;dio conhecido como &quot;arrast&atilde;o&quot;    tornou p&uacute;blica uma pr&aacute;tica cultural muito comum nas comunidades:    os bailes <I>funk</I> de briga, em que os grupos rivais lutavam entre si ao    ritmo da m&uacute;sica (Zaluar, 1994, p. 17). O &quot;arrast&atilde;o&quot;    detonou uma poderosa campanha da sociedade e de todos os &oacute;rg&atilde;os    de comunica&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s contra o <I>funk</I>. A imprensa    afirmou que os bailes, al&eacute;m de actuarem como pontos de com&eacute;rcio    de drogas, eram o espa&ccedil;o onde os grupos rivais defendiam e mostravam    a sua identifica&ccedil;&atilde;o com as suas diferentes fac&ccedil;&otilde;es    criminosas (Herschmann, 1997).      <p>No entanto, mostrou-se tamb&eacute;m na agenda p&uacute;blica    como os processos identit&aacute;rios que ent&atilde;o se constitu&iacute;am    em torno da rede quotidiana de atitudes morais, emotivas e est&eacute;ticas    da cultura <I>funk</I> se traduziam em conflitos sociais (Honneth, 1995a). A    propaga&ccedil;&atilde;o da cultura <I>funk</I> nas favelas materializava as    rela&ccedil;&otilde;es de disputa pelo reconhecimento entre grupos presentes    na vida quotidiana da favela. Os valores que definem essa disputa n&atilde;o    eram aqueles associados &agrave;s fac&ccedil;&otilde;es dominantes do com&eacute;rcio    de drogas das suas comunidades de origem, mas sim os que apontavam para a necessidade    de reconhecimento de uma identidade.      <p>A mesma comunidade de Vig&aacute;rio Geral voltaria a ocupar    os jornais no dia 30 de Agosto de 1993, quando 21 pessoas (oito das quais de    uma mesma fam&iacute;lia, trabalhadores, estudantes e crian&ccedil;as) foram    executadas por agentes da pol&iacute;cia na favela. O epis&oacute;dio, conhecido    como a &quot;chacina de Vig&aacute;rio Geral&quot;, chamou a aten&ccedil;&atilde;o    dos movimentos sociais e da imprensa internacional (Novaes, 1997, p. 119). A    viol&ecirc;ncia policial ganha destaque no debate p&uacute;blico pelo assassinato    brutal de 111 reclusos do pres&iacute;dio Carandir&uacute;, em S&atilde;o Paulo,    no dia 2 de Outubro de 1992, pelo assassinato frequente de menores das favelas    e periferias, considerados &quot;desaparecidos&quot;, e pelo assassinato da    l&iacute;der do movimento &quot;M&atilde;es de Acari&quot;, Edm&eacute;ia Eus&eacute;bia,    a 16 de Agosto de 1993. O movimento M&atilde;es de Acari &#151; favela da zona    norte do Rio de Janeiro &#151; surgiu a partir da den&uacute;ncia por parte    das m&atilde;es do desaparecimento de 11 crian&ccedil;as e da luta judicial    e social com vista ao apuramento das causas dos desaparecimentos. Naquele mesmo    m&ecirc;s de Agosto de 1993, oito crian&ccedil;as de rua foram assassinadas    pela pol&iacute;cia num epis&oacute;dio que ficou conhecido como &quot;massacre    da candel&aacute;ria&quot;.      <p>Em S&atilde;o Paulo, as chacinas policiais tornam-se objecto    frequente nas letras faladas do <I>rap</I>. No Rio de Janeiro, a m&uacute;sica    &quot;021&quot;, do grupo Planeta Hemp, descreve a chacina de Vig&aacute;rio    Geral, enunciando o nome de todas as v&iacute;timas. Nesse contexto, experi&ecirc;ncias    de injusti&ccedil;a e desrespeito ganham a forma de uma luta social pelo reconhecimento,    de modo que a viol&ecirc;ncia silenciosa e invis&iacute;vel do aparato policial    e jur&iacute;dico passa a ser objecto p&uacute;blico de cr&iacute;tica, sendo    considerado uma viola&ccedil;&atilde;o ao direito.      <p>No ano de 1994, um grande concerto de  <I>hip-hop</I> reuniu m&uacute;sicos do Brasil inteiro para a celebra&ccedil;&atilde;o dos &quot;300 anos de Zumbi&quot; no Vale  do Anhangaba&uacute;, no centro de S&atilde;o Paulo. O concerto, que reuniu cerca  de 30 000 pessoas, foi interrompido pelo confronto entre a pol&iacute;cia e o  p&uacute;blico, que apedrejou os equipamentos policiais.     <p>O epis&oacute;dio serviu para abrir um grande debate p&uacute;blico sobre as  pr&aacute;ticas de viol&ecirc;ncia e de exterm&iacute;nio da pol&iacute;cia em rela&ccedil;&atilde;o aos jovens. O  debate reuniu pela primeira vez o Comando da Pol&iacute;cia Militar do Estado, a  Organiza&ccedil;&atilde;o dos Advogados do Brasil de S&atilde;o Paulo e representantes do  movimento <I>hip-hop</I> e da sociedade. A partir de 1994 desencadeiam-se v&aacute;rios  projectos sociais e culturais voltados para as comunidades das favelas  cariocas. A ampla coliga&ccedil;&atilde;o entre o poder p&uacute;blico, lideran&ccedil;as locais,  organiza&ccedil;&otilde;es internacionais e ONGs vai engendrar uma nova visibilidade &agrave;s formas de  luta pela amplia&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es de reconhecimento social das  comunidades (Novaes, 1997, p. 119). As ONGs IBASE, ISER,  IBISS<sup><a href="#6">6</a></sup><a name="top6"></a> e principalmente o CEAP desempenharam um papel importante junto dos movimentos  comunit&aacute;rios na den&uacute;ncia de injusti&ccedil;as e no apoio &agrave;s reivindica&ccedil;&otilde;es da  comunidade negra atrav&eacute;s de v&aacute;rias formas de media&ccedil;&atilde;o, como publica&ccedil;&otilde;es,  programas de r&aacute;dio, grava&ccedil;&atilde;o de CDs, apresenta&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas, acompanhamento  jur&iacute;dico e parcerias entre associa&ccedil;&otilde;es locais, internacionais e o poder p&uacute;blico.      <p>A agenda p&uacute;blica dos anos 90 reconheceu as chacinas policiais, a estigmatiza&ccedil;&atilde;o    dos pobres, negros e favelados, a viol&ecirc;ncia f&iacute;sica e moral a que    eram submetidos os jovens das favelas (Benhabib, 1993, p. 79). Reconheciam-se    tamb&eacute;m as diferentes manifesta&ccedil;&otilde;es de lutas culturais e    redes de solidariedade local presentes na vida quotidiana e nas atitudes morais    e emotivas das comunidades que cresciam isoladas da esfera p&uacute;blica. O    movimento <I>hip-hop</I> consolida-se como um canal de articula&ccedil;&atilde;o    dos poss&iacute;veis potenciais cognitivos das manifesta&ccedil;&otilde;es locais,    sejam elas sociais, morais, afectivas ou de ressentimento, enfim, como fontes    de motiva&ccedil;&atilde;o, de interpela&ccedil;&atilde;o e de resist&ecirc;ncia    pol&iacute;tica. Atrav&eacute;s do <I>hip-hop,</I> as reivindica&ccedil;&otilde;es    est&eacute;ticas e pol&iacute;ticas das comunidades passariam a inscrever um    conjunto mais amplo de formas de luta e perten&ccedil;a simb&oacute;lica que    veiculam pretens&otilde;es de reconhecimento &eacute;tnico, cultural, sexual    e afectivo que, em conjunto com as potencialidades criativas, preenchem individualidades,    canalizam talentos e capacidades. Para al&eacute;m do reconhecimento da personalidade,    que se opera a um n&iacute;vel estritamente pessoal, a pr&aacute;tica <I>hip-hop</I>    oferece espa&ccedil;os de actua&ccedil;&atilde;o e reivindica&ccedil;&atilde;o    pol&iacute;tica em que os jovens articulam e tematizam repert&oacute;rios, l&oacute;gicas    e c&oacute;digos de conduta que n&atilde;o coincidem com os do Estado e com    os do mercado.      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Os anos de 1993 e de 1994 foram  paradigm&aacute;ticos no que diz respeito &agrave; visibilidade p&uacute;blica da desigualdade, da pobreza extrema e da  humilha&ccedil;&atilde;o moral e f&iacute;sica sofrida pelas popula&ccedil;&otilde;es da periferia e das favelas.  Nesse sentido, conceitos como desigualdade e exclus&atilde;o ganharam significados  mais amplos associados &agrave;s dimens&otilde;es morais e identit&aacute;rias, o mesmo  acontecendo com o tipo de rela&ccedil;&atilde;o e formas de express&atilde;o que os grupos constroem  com a cidade e com o espa&ccedil;o p&uacute;blico.           <p>N&atilde;o se trata ainda de um reconhecimento legal, mas de um  procedimento de luta pelo reconhecimento &eacute;tico p&uacute;blico de processos distintos de  auto-realiza&ccedil;&atilde;o. O movimento  <I>hip-hop</I> torna-se uma for&ccedil;a mobilizadora da  participa&ccedil;&atilde;o de jovens nas pr&aacute;ticas culturais e na den&uacute;ncia das  desigualdades sociais e raciais, como prova a sua participa&ccedil;&atilde;o no F&oacute;rum Social Global.  Ao mesmo tempo em que os grupos culturais conquistam os seus  pr&oacute;prios espa&ccedil;os de actua&ccedil;&atilde;o e sociabilidade eles procuram construir carreiras  espec&iacute;ficas no mercado, o que implica a produ&ccedil;&atilde;o de eventos,  apresenta&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas, grava&ccedil;&atilde;o de CD,  <I>marketing</I> e publicidade. Os grupos de  <I>graffiti</I>, <I>rap</I> e dan&ccedil;a  <I>break</I> organizam-se atrav&eacute;s de associa&ccedil;&otilde;es, ac&ccedil;&otilde;es  comunit&aacute;rias, oficinas, interven&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas de natureza est&eacute;tica e pol&iacute;tica que  os legitimam como protagonistas de um movimento ao mesmo tempo  est&eacute;tico e social que denuncia a marginalidade e o racismo e luta em prol da  inclus&atilde;o das minorias. Segundo o  <I>rapper</I> e militante MV Bill, o  <I>hip-hop</I> n&atilde;o se restringe &agrave;s pr&aacute;ticas culturais. Pelo contr&aacute;rio, &eacute; tamb&eacute;m di&aacute;logo,  encontros, festivais de rua, entretenimento, constru&ccedil;&atilde;o de bibliotecas comunit&aacute;rias,  ou seja: &quot;A gente busca nossos lugares. Busca alcan&ccedil;ar outros lugares  que dizem que n&atilde;o &eacute; nosso. Isso pra mim j&aacute; &eacute; muito revolucion&aacute;rio.&quot; Ao  mesmo tempo, as apresenta&ccedil;&otilde;es  p&uacute;blicas devem ser concebidas tamb&eacute;m como  espa&ccedil;os de entretenimento:      <blockquote>       <p>A gente amadureceu muito e aprendeu a equilibrar entretenimento e informa&ccedil;&atilde;o.      E dessa forma a gente conseguiu conquistar adeptos pro <I>hip-hop,</I> parceiros      para as nossas a&ccedil;&otilde;es [Bill, 2005, p. 35]. </p> </blockquote>     <p>A difus&atilde;o de canais comunit&aacute;rios de r&aacute;dio e de televis&atilde;o,    entre os quais devemos contar com as r&aacute;dios e grava&ccedil;&otilde;es    piratas que se disseminaram em v&aacute;rias comunidades ao longo dos anos 90,    forjava rela&ccedil;&otilde;es comunicativas que evocavam simultaneamente o    entretenimento e a informa&ccedil;&atilde;o. Os membros do <I>hip-hop</I> e    do <I>graffiti</I> passaram a adoptar medidas de publicita&ccedil;&atilde;o    e registo das suas pr&aacute;ticas por meio de grava&ccedil;&otilde;es piratas,    fotografias, <I>fanzines, sites,</I> v&iacute;deos, jornais e filmes. A dissemina&ccedil;&atilde;o    das redes de internet proporcionou a internacionaliza&ccedil;&atilde;o do mercado    cultural, o acesso f&aacute;cil e descentralizado &agrave; informa&ccedil;&atilde;o,    como tamb&eacute;m a milit&acirc;ncia cultural e pol&iacute;tica entre comunidades    (Castells, 1996). A partir do ano 2000 o <I>graffiti,</I> associado ao movimento    <I>hip-hop,</I> propagou-se com muita rapidez nas principais cidades brasileiras:    S&atilde;o Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Florian&oacute;polis, Bras&iacute;lia,    Curitiba, Salvador, Belo Horizonte e Recife, S&atilde;o Lu&iacute;s e Fortaleza    re&uacute;nem um conjunto de actividades, congressos e associa&ccedil;&otilde;es    locais que conformam uma rede de interc&acirc;mbio e reciprocidade entre os    praticantes. Podemos afirmar que o movimento <I>graffiti</I> se fortaleceu nacionalmente    a partir de uma sociabilidade de rede que inclui diversos <I>sites </I>de imagens,    <I>blogs</I> e <I>fotologs,</I> como tamb&eacute;m f&oacute;runs de debate entre    os membros deste movimento cultural. As novas tecnologias de produ&ccedil;&atilde;o    foram imediatamente incorporadas pelos sectores da comunica&ccedil;&atilde;o,    proporcionando o avan&ccedil;o de redes locais de comunica&ccedil;&atilde;o    nas comunidades perif&eacute;ricas, al&eacute;m das r&aacute;dios e tvs comunit&aacute;rias.    As formas locais articulam-se com redes globais de interc&acirc;mbio, de express&atilde;o    e de solidariedade, processo que permite a partilha de um capital simb&oacute;lico    comum atrav&eacute;s do qual se autoconcebem e se sustentam referenciais identit&aacute;rios    comuns. A ampla disponibilidade de recursos electr&oacute;nicos de comunica&ccedil;&atilde;o    e express&atilde;o permite aos grupos sociais o dom&iacute;nio sobre os processos    de auto-representa&ccedil;&atilde;o e constru&ccedil;&atilde;o de uma imagem    p&uacute;blica, pela qual passam a reivindicar a sua particularidade cultural    e identit&aacute;ria, contrastantes com as ordens do discurso do poder p&uacute;blico    e dos <I>media</I>. Tal reivindica&ccedil;&atilde;o identit&aacute;ria &eacute;    constru&iacute;da no universo de uma cultura globalizada que se identifica como    uma particularidade cultural nos seus referenciais comunit&aacute;rios ausentes    no discurso nacional euroc&ecirc;ntrico.      <p>As ac&ccedil;&otilde;es de rua e das periferias passavam a conformar uma esfera    p&uacute;blica de reconhecimento que atrav&eacute;s do uso da tecnologia digital    de rede acabou por transcender as suas fronteiras locais, contribuindo para    dar ao <I>hip-hop</I> os contornos de um movimento de alcance nacional e global.      <p>&nbsp;      <P><b>Reconhecimento Social: dilemas e impasses entre a autonomia e a resigna&ccedil;&atilde;o    </b>     <p>Diferentemente das lutas sociais articuladas com o quotidiano, as  quais actuam no campo &eacute;tico-pol&iacute;tico, o  <I>graffiti</I> e o movimento <I>hip-hop</I> constroem uma est&eacute;tica que usa os dispositivos da ind&uacute;stria cultural e do  mercado, podendo ser entendidos como um estilo de vida pr&eacute;-fabricado  pelos pr&oacute;prios <I>media</I> (Shusterman, 1998, p. 154). As reivindica&ccedil;&otilde;es est&eacute;ticas  e pol&iacute;ticas das popula&ccedil;&otilde;es perif&eacute;ricas ganham  sentido no &acirc;mbito de formas e aspira&ccedil;&otilde;es de reconhecimento e justi&ccedil;a social, mas ao mesmo tempo  est&atilde;o associadas ao universo da cultura de massa globalizada.       <p>Inscritas no universo electr&oacute;nico e na expans&atilde;o transnacional da  cultura do entretenimento, as pr&aacute;ticas quotidianas e as formas locais de  express&atilde;o e comunica&ccedil;&atilde;o oscilam entre o enraizamento no mundo da vida e o  seu contexto comunicativo e a ades&atilde;o aos processos distributivos  controlados pelo mercado (Honneth, 1995a, p. 220). Os grupos culturais aceitam  uma imagem dos <I>media</I>, a qual passa a veicular com muita frequ&ecirc;ncia, e de  forma positiva, os projectos culturais das favelas e periferias. Trata-se de  grupos sociais cujas localidades n&atilde;o t&ecirc;m assist&ecirc;ncia por parte das pol&iacute;ticas  p&uacute;blicas e que ganham notoriedade e visibilidade atrav&eacute;s dos  <I>media</I>. O <I>rap,</I> por sua vez, torna p&uacute;blico o relato sobre o quotidiano na favela, que se  encontra exposto &agrave; viol&ecirc;ncia da pol&iacute;cia e do tr&aacute;fico. Permanece a tens&atilde;o entre a  busca da inclus&atilde;o social, a cr&iacute;tica das rela&ccedil;&otilde;es sociais excludentes e o  entusiasmo pelas gratifica&ccedil;&otilde;es e visibilidades imediatas oferecidas pelo mercado,  pelos meios de comunica&ccedil;&atilde;o de massas e pela tecnologia digital. A pr&aacute;tica  cultural <I>hip-hop</I> est&aacute; associada aos dispositivos da tecnologia de massa, ao  <I>sampler</I><sup><a href="#6">6</a></sup><a name="top6"></a>, &agrave;s r&aacute;dios comunit&aacute;rias e &agrave;s grava&ccedil;&otilde;es independentes, ao fasc&iacute;nio pelas  grandes marcas de vestu&aacute;rio desportivo, como a  <I>Nike</I> e a <I>Adidas,</I> e ao pr&oacute;prio uso do  <I>spray</I>.      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Trata-se de uma gera&ccedil;&atilde;o que cresceu num contexto de  avan&ccedil;o tecnol&oacute;gico da cultura de consumo e de massa, dos jogos de v&iacute;deo,  dos computadores, dos aparelhos de mistura e dos jogos electr&oacute;nicos. O  avan&ccedil;o das tecnologias digitais de informa&ccedil;&atilde;o representou uma crise na estrutura  do reconhecimento, cuja base normativa deve integrar aspectos da  personalidade individual e garantir espa&ccedil;o e meio de express&atilde;o e comunica&ccedil;&atilde;o  das diferen&ccedil;as individuais. O  <I>hip-hop</I> promete tanto um processo de aumento  da auto-estima e do auto-respeito quanto de visibilidade p&uacute;blica, estando  ambos relacionados com o reconhecimento social de capacidades e de grupos  espec&iacute;ficos. Tal reconhecimento deve inscrever-se numa comunidade  social espec&iacute;fica que permite ao agente individual a inser&ccedil;&atilde;o no  contexto intersubjectivo de comunica&ccedil;&atilde;o e interpreta&ccedil;&atilde;o colectiva de  valores (Honneth, 1995a, p. 227).     <p>O <I>graffiti</I> &eacute; uma manifesta&ccedil;&atilde;o de luta social pelo    reconhecimento de um estilo de vida e de uma express&atilde;o individual simb&oacute;lica.    As assinaturas e pinturas com <I>spray</I> realizadas nas ruas e fachadas p&uacute;blicas    s&atilde;o ao mesmo tempo um produto simb&oacute;lico e um produto art&iacute;stico    que possui uma materialidade. Trata-se de um objecto art&iacute;stico que representa    uma personalidade individual e simultaneamente uma comunidade local de comunica&ccedil;&atilde;o    que se expressa de forma serializada como o mercado. Esta express&atilde;o opera    como um fragmento material da busca de prest&iacute;gio e reconhecimento p&uacute;blico,    pois o seu autor est&aacute; ciente de que a comunica&ccedil;&atilde;o se estabelece    n&atilde;o apenas na for&ccedil;a simb&oacute;lica, mas na materialidade do    seu gesto. Ao mesmo tempo que lutam contra a desigualdade aproximam-se da l&oacute;gica    distributiva que conhecem: o mercado. Acme, conhecido grafiteiro do Rio de Janeiro,    afirma:      <blockquote>       <p>J&aacute; levei muito soco de pol&iacute;cia, mas a picha&ccedil;&atilde;o      deu sentido a minha vida, voce icomoda a sociedade, voce divulga o seu nome,      hoje eu sei que eu sou um artista, eu tenho a minha arte. </p> </blockquote>     <p>A pichagem &eacute; aqui entendida como a repeti&ccedil;&atilde;o serializada da assinatura  nas ruas, a qual atribui ao artista fama e reconhecimento, mas tamb&eacute;m a  sensa&ccedil;&atilde;o de &quot;incomodar&quot; a sociedade. O confronto entre os grafiteiros e os agentes  do espa&ccedil;o p&uacute;blico faz-se atrav&eacute;s da contesta&ccedil;&atilde;o e da criminaliza&ccedil;&atilde;o. Os  grafiteiros sabem que est&atilde;o sujeitos &agrave; puni&ccedil;&atilde;o e &agrave; tortura f&iacute;sica quando s&atilde;o  surpreendidos pela pol&iacute;cia ou sofrem acidentes graves e alguns perdem a vida durante  manobras arriscadas em lugares como fachadas de edif&iacute;cios, pontes e  comboios em movimento. A sua condena&ccedil;&atilde;o jur&iacute;dica como detractores do espa&ccedil;o  p&uacute;blico restringe a ac&ccedil;&atilde;o (interesses, aspira&ccedil;&otilde;es, auto-representa&ccedil;&atilde;o e  identidades) ao crime, impedindo-os de participar no debate p&uacute;blico.      <p>Ao disponibilizar os corpos como signos de poder, como objectos  e sujeitos da transgress&atilde;o, afirmam a livre disposi&ccedil;&atilde;o sobre o pr&oacute;prio  corpo e o confronto com a ordem legal, pol&iacute;tica e institucional que regula a  propriedade. A ordem p&uacute;blica criminaliza uma pr&aacute;tica social comum aos  membros da cultura do <I>graffiti,</I> os quais buscam simultaneamente o  reconhecimento dos seus talentos e capacidades e o confronto com a ordem  de valores que regula o uso do espa&ccedil;o p&uacute;blico urbano. A dor f&iacute;sica  provocada por um acidente &eacute; particularmente diferente da dor sofrida pelas torturas  e pela viol&ecirc;ncia social e policial, que tamb&eacute;m comporta o sentimento moral  do desrespeito e da injusti&ccedil;a social:     <blockquote>       <p>Eu particularmente sou contra o governo e contra a discrimina&ccedil;&atilde;o      que a sociedade me dispensa no dia-a-dia, ent&atilde;o eu dou esse troco pra      eles. A picha&ccedil;&atilde;o &eacute; o grau mais alto o que a sociedade      mais odeia, pois eles falam que a gente est&aacute; estragando a cidade [Z,      depoimento feito &agrave; autora]. </p> </blockquote>     <p>Na rela&ccedil;&atilde;o quotidiana com a pol&iacute;cia predominam os maus    tratos f&iacute;sicos, a priva&ccedil;&atilde;o de direitos e a submiss&atilde;o    do corpo ao poder e ao arb&iacute;trio do outro, enquanto na rua o que predomina    &eacute; a disposi&ccedil;&atilde;o aut&oacute;noma sobre o pr&oacute;prio corpo,    cuja qualidade corporal e ps&iacute;quica n&atilde;o exclui rela&ccedil;&otilde;es    e gestos adquiridos e constru&iacute;dos no processo de uma socializa&ccedil;&atilde;o    segregadora. A multiplicidade das assinaturas nas ruas e nos lugares mais inacess&iacute;veis    segue o ritmo da reprodutibilidade infinita da ind&uacute;stria: quanto maior    o n&uacute;mero de assinaturas maior o combate social e maior o prest&iacute;gio    para o escritor. Acontece que esta pr&aacute;tica se faz em nome da valentia,    da coragem e do potencial transgressor do escritor, enfrentando desafios tanto    em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s autoridades como &agrave; altura dos edif&iacute;cios    e equipamentos urbanos. Esta pr&aacute;tica envolve uma comunidade de comunica&ccedil;&atilde;o    que traz rela&ccedil;&otilde;es sociais intersubjectivas quotidianas de solidariedade    e tamb&eacute;m de disputas que se estabelecem em batalhas est&eacute;ticas.    Grande parte dos grafiteiros actua em grupos, todos se conhecem de forma pessoal    ou p&uacute;blica.      <p>Como se disse, trata-se de uma comunidade que usa os dispositivos  do mercado e da tecnologia digital para comunicar internamente e  conquistar fama e prest&iacute;gio social. Contudo, a absor&ccedil;&atilde;o pelo mercado acaba por  inverter os valores que permearam a pr&aacute;tica na sua origem. As assinaturas,  que representavam ousadia e desprezo pelo sistema, s&atilde;o hoje chamadas  <I>grifes</I> por parte de alguns agentes. Este &eacute; um aspecto que divide os escritores  de <I>graffiti</I> entre aqueles que lutam pela legaliza&ccedil;&atilde;o e aqueles que a ela se  op&otilde;em. Os grafiteiros aceitam a concep&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica de pichagem como algo  que transgride as regras que regulam o espa&ccedil;o e a conviv&ecirc;ncia p&uacute;blica. A  maioria dos grafiteiros brasileiros distingue a pichagem do trabalho art&iacute;stico, o  que n&atilde;o os impede de lan&ccedil;ar m&atilde;o da  pr&aacute;tica das assinaturas. Por&eacute;m, todos  s&atilde;o un&acirc;nimes em afirmar que o envolvimento com o trabalho art&iacute;stico reduz  o impulso para a pichagem:     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>        <p>A gente aprende a falar com os policiais, mostrar os nossos cadernos, enfim    </p>       <p>A gente desenrola com os caras e consegue fazer grandes trabalhos na rua      [Acme, depoimento de 2004]. </p> </blockquote>     <p>O est&iacute;mulo para o desenvolvimento formal de um estilo atrav&eacute;s  do movimento <I>hip-hop</I> e das oficinas tem reduzido a prolifera&ccedil;&atilde;o das  assinaturas nas ruas. Resta considerar de que forma as rela&ccedil;&otilde;es com o mercado  e com o poder p&uacute;blico permitem estabelecer fronteiras entre a  autonomia art&iacute;stica, a legitimidade e o controlo do processo distributivo dos bens  culturais pelos pr&oacute;prios agentes da cultura. Ainda que tenha surgido nos  anos 90, a regularidade das suas pr&aacute;ticas assegura-lhe uma postura de luta  pelo reconhecimento da sua legimidade art&iacute;stica e social.     <p>Segundo Honneth, o reconhecimento social passa por uma cr&iacute;tica  &agrave;s rela&ccedil;&otilde;es sociais capitalistas na medida em que estas impedem a  auto-realiza&ccedil;&atilde;o e a plena express&atilde;o da identidade na pr&aacute;tica humana, pela qual  ela adquire significado. &Eacute; na esfera do trabalho enquanto  <I>praxis</I> que Honneth, com base em Marx, vai defender uma esfera cr&iacute;tica:     <blockquote>       <p>Marx n&atilde;o concebe a luta de classe como uma aquisi&ccedil;&atilde;o      de bens ou poder mas como uma luta que representa um conflito moral no qual      a classe oprimida luta para adquirir condi&ccedil;&otilde;es sociais de auto-respeito      [Honneth, 2003, p. 232]. </p> </blockquote>     <p>A concep&ccedil;&atilde;o do trabalho &eacute; percebida sob um ponto de vista  moral. O processo de reconhecimento m&uacute;tuo &eacute; interrompido na medida em que  um grupo social &eacute; destitu&iacute;do, precisamente, das condi&ccedil;&otilde;es sociais necess&aacute;rias  ao auto-respeito. Honneth chama a aten&ccedil;&atilde;o para o facto de o modelo  marxista predominante restringir o conceito de identidade humana &agrave; descri&ccedil;&atilde;o  das rela&ccedil;&otilde;es econ&oacute;micas de produ&ccedil;&atilde;o. Como se nas rela&ccedil;&otilde;es materiais n&atilde;o  coubessem interac&ccedil;&otilde;es intersubjectivas. &Eacute; no &acirc;mbito de uma teoria  da intersubjectividade sublimada da an&aacute;lise marxista que Honneth se  prop&otilde;e reformular de forma abstracta a premissa que, na sua opini&atilde;o, subjaz  ao conceito marxista de trabalho, ou seja, aquilo que atribui express&atilde;o  material &agrave;s capacidades e talentos do homem. Segundo Honneth, &quot;Marx se  aproxima em detrimento de suas inclina&ccedil;&otilde;es utilitaristas, do modelo hegeliano de  uma luta por reconhecimento&quot; (Honneth, 2003, p. 238).     <p>Retomando na sua an&aacute;lise o di&aacute;logo de Marx com Hegel e  Feuerbach, Honneth traz para o debate o modelo de conflito que concebe o  pr&oacute;prio processo produtivo como um processo de reconhecimento  intersubjectivo no qual a experi&ecirc;ncia da capacidade se entrela&ccedil;a n&atilde;o s&oacute; com a afirma&ccedil;&atilde;o  do pr&oacute;prio valor, mas com a possibilidade de ter &quot;propiciado a car&ecirc;ncia de  um outro ser humano seu objeto correspondente&quot; (Honneth, 2003, p. 231).      <p>Neste sentido, h&aacute; uma intersubjectividade potencial que se expressa  nas formas emp&iacute;ricas de trabalho social, as quais pressup&otilde;em um processo  de aprendizagem que consciencializa os sujeitos em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s suas  capacidades. Honneth identifica nesta tens&atilde;o te&oacute;rico-conceptual elementos que  apontam tanto para um potencial emancipat&oacute;rio (uma forma de conflito  moralmente motivada), ou seja, para um processo de objectiva&ccedil;&atilde;o das  capacidades humanas, como para a domina&ccedil;&atilde;o em que o trabalho &eacute; um acto  instrumental com vista &agrave; sobreviv&ecirc;ncia econ&oacute;mica (Honneth, 1995b, p. 15)     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Ser&aacute; poss&iacute;vel enquadrar a luta social dos grafiteiros nesta l&oacute;gica,  considerando-a uma forma de exterioriza&ccedil;&atilde;o da tens&atilde;o moral impl&iacute;cita nas  rela&ccedil;&otilde;es com o mercado? Para a maioria dos grafiteiros de S&atilde;o Paulo, o  mercado publicit&aacute;rio &eacute; a &uacute;nica fonte de sobreviv&ecirc;ncia econ&oacute;mica, o qual,  no entanto, n&atilde;o permite a manifesta&ccedil;&atilde;o das capacidades e talentos individuais.      <p>O mercado para o  <I>graffiti</I> cresce cada vez mais em S&atilde;o Paulo e a  gente precisa comer, pagar aluguel. A publicidade permite para muitos de n&oacute;s  a sobreviv&ecirc;ncia. Actualmente eu posso escolher os trabalhos que eu fa&ccedil;o, eu  tenho o meu pre&ccedil;o. Mas eu foco o meu trabalho nas artes pl&aacute;sticas, pretendo um  dia me sustentar das artes pl&aacute;sticas e deixar de vez a publicidade [Zez&atilde;o  SP]:      <blockquote>       <p>J&aacute; fui muito radical&#133; a&iacute; pensei: sou explorado, ganho      uma mis&eacute;ria como motoboy, por que vou ter ideologia a ponto de me negar      a fazer o que eu gosto para ser motoboy? [Carvalho, 2007]. </p> </blockquote>     <p>A ang&uacute;stia de Zez&atilde;o &eacute; compartilhada por v&aacute;rios companheiros, que  justificam os seus trabalhos comerciais com a necessidade de  sobreviv&ecirc;ncia, mas lutam para ter uma carreira art&iacute;stica.     <p>Na opini&atilde;o de Binho Ribeiro, um dos pioneiros do movimento  <I>graffiti</I> e organizador de v&aacute;rios eventos no Brasil:     <blockquote>       <p>O <I>graffiti</I> &eacute; a liberdade de poder se expressar; a arte &eacute;      livre e cada um faz o que quer!! Eu trabalho como artista visual&#133; voc&ecirc;      pode vender a sua arte. Todo mundo, de uma forma ou de outra, precisa da arte,      seja numa decora&ccedil;&atilde;o ou numa propaganda. J&aacute; o <I>graffiti</I>      &eacute; espont&acirc;neo est&aacute; dentro de voc&ecirc;, voc&ecirc; faz,      ningu&eacute;m est&aacute; te pagando nada, voc&ecirc; n&atilde;o busca um      resultado financeiro. </p> </blockquote>     <p>Para Binho Ribeiro, todo o trabalho art&iacute;stico que n&atilde;o &eacute; uma  express&atilde;o livre e espont&acirc;nea do artista n&atilde;o &eacute;  <I>graffiti,</I> embora possa ser considerado arte. Contudo, Binho admite que a ambi&ccedil;&atilde;o do grafiteiro &eacute; &quot;conquistar  admira&ccedil;&atilde;o e reconhecimento social&quot;:      <blockquote>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Talvez a maioria dos escritores de <I>graffiti</I> tenha o mesmo ideal: encontrar      seu espa&ccedil;o e respeito nas ruas, muros e onde mais for poss&iacute;vel.      Achar seu pr&oacute;prio estilo, conquistar seu nome, e ter sua arte ou protesto      admirado e reconhecido pela sociedade [Ribeiro, 2006]. </p> </blockquote>     <p>Tanto os grafiteiros de S&atilde;o Paulo como os do Rio de Janeiro &#151;  que defendem publicamente uma postura de luta social, est&eacute;tica e pol&iacute;tica &#151;  t&ecirc;m em comum a ambi&ccedil;&atilde;o de construir uma carreira art&iacute;stica ou profissional  e o seu comportamento revela uma mesma sem&acirc;ntica colectiva pela qual  se auto-representam e interpretam as suas ac&ccedil;&otilde;es como fazendo parte de  uma comunidade social. &Eacute; atrav&eacute;s do bem simb&oacute;lico que produzem, pelo  qual exercitam a subjectividade e expressividade, que reivindicam a inser&ccedil;&atilde;o  social e o reconhecimento &#151; &quot;espa&ccedil;o e respeito&quot; &#151;, reinventando-se  como indiv&iacute;duos e membros de uma cultura.     <p>&Eacute; ineg&aacute;vel o sucesso comercial que a est&eacute;tica do  <I>graffiti</I> trouxe a algumas marcas, como a  <I>Adidas</I>, <I>Ellus</I>, <I>Louis Vuitton</I>,  <I>Nike</I> e <I>Skol</I>. Contudo, n&atilde;o h&aacute; nada que comprove a participa&ccedil;&atilde;o dos grafiteiros na cria&ccedil;&atilde;o  de produtos ou de campanhas dessas marcas. Um bom exemplo de  apropria&ccedil;&atilde;o comercial &eacute;-nos fornecido pela marca  <I>Louis Vuitton,</I> a qual utilizou a  est&eacute;tica do <I>graffiti</I> para construir uma rela&ccedil;&atilde;o com o p&uacute;blico jovem. A  bolsa grafitada da <I>Louis Vuitton</I> foi desenhada pelo famoso  <I>designer </I>e artista pl&aacute;stico americano Stephen Sprouse, vendia-se por 300 euros e  bateu <I>records</I> de vendas, trazendo o  <I>graffiti</I> para v&aacute;rias outras marcas de moda.      <p>Os agentes que representam a cultura <I>hip-hop</I> lutam para manter a autoridade    face ao mercado, na tentativa de regular e assegurar o usufruto dos ganhos econ&oacute;micos    para os membros da cultura, a exemplo das reac&ccedil;&otilde;es ao festival    Skol <I>Hip-hop</I> Manifesta, que ocorreu no Rio de Janeiro em 2004. A iniciativa    deste festival partiu de poderosos empres&aacute;rios da ind&uacute;stria de    entretenimento brasileira, como Luciano Huck, Andr&eacute; Calainho, Pedro Paulo    Diniz e Alexandre Accioly, e provocou a reac&ccedil;&atilde;o de m&uacute;sicos    e militantes da cultura <I>hip-hop</I> contra a forma pela qual os empres&aacute;rios    estariam a utilizar a produ&ccedil;&atilde;o cultural <I>hip-hop</I> para obter    vantagens comerciais sem nenhuma consulta aos representantes desta cultura.    A pol&eacute;mica instaurou-se em torno do valor do ingresso &#151; 50 reais    (20 euros), quantia que inviabilizava o acesso do p&uacute;blico da cultura    <I>hip-hop</I> &#151;, bem como do montante dos diferentes <I>cachets</I> oferecidos    aos m&uacute;sicos brasileiros e internacionais e tamb&eacute;m da transforma&ccedil;&atilde;o    da cultura <I>hip-hop</I> numa op&ccedil;&atilde;o de consumo para as elites.      <p>Entre os principais representantes do protesto destacou-se o grupo Na&ccedil;&atilde;o    <I>Hip-Hop</I>, o <I>rapper</I> MVBILL, fundador da Central &Uacute;nica das    Favelas (CUFA), e os racionais Mcs, todos membros da lideran&ccedil;a organizada    do movimento <I>hip-hop</I> no Brasil. O evento realizou-se, mas, em contrapartida,    o debate sobre a apropria&ccedil;&atilde;o da cultura <I>hip-hop</I> tornou-se    p&uacute;blico. Os m&uacute;sicos e grafiteiros brasileiros de menor notoriedade    p&uacute;blica que participaram no festival n&atilde;o tiveram acesso &agrave;    ala VIP, nem mesmo a um crach&aacute; que os credenciasse a circular em &aacute;reas    restritas: </p>     <blockquote>       <p>Enquanto as pessoas conhecidas ficavam no ar condicionado com direito a comida      e bebidas n&oacute;s passamos o dia inteiro pintando o painel n&atilde;o tivemos      direito ao crach&aacute; e n&atilde;o nos ofereceram &aacute;gua sequer! [Marcelo      Ment, depoimento feito em 2005]. </p> </blockquote>     <p>Se, por um lado, o reconhecimento da sua habilidade lhes d&aacute; acesso  ao evento como artistas, por outro lado, a perten&ccedil;a a um grupo  minorit&aacute;rio impede-os de serem reconhecidos, no princ&iacute;pio da igualdade legal, formal  e impessoal, como os demais artistas. No entanto, o conflito torna-se  p&uacute;blico e a partir de uma pr&aacute;tica est&eacute;tica torna-se poss&iacute;vel instrumentalizar o  sentimento de desrespeito, a reinvindica&ccedil;&atilde;o de direitos e a den&uacute;ncia social  da desigualdade.      <p>Poder&iacute;amos responder, como Honneth, que a luta social pela paridade  da estima e do reconhecimento do potencial art&iacute;stico e profissional dos  agentes da cultura deve ser acompanhada da constru&ccedil;&atilde;o social de valores pelos  quais os bens culturais e os seus autores passam a integrar hierarquias  valorativas que permitem ampliar a escala das posi&ccedil;&otilde;es sociais, bem como o respeito  e reconhecimento do mercado e do poder p&uacute;blico.      <p>Na busca da autonomia face ao mercado, os grafiteiros t&ecirc;m-se mobilizado    na constru&ccedil;&atilde;o dos seus pr&oacute;prios arranjos produtivos e das    suas carreiras profissionais, como mostra a cria&ccedil;&atilde;o de <I>ateliers    </I>colectivos. Ao desenvolver uma vida art&iacute;stica e profissional baseada    na pr&aacute;tica da cultura de rua, os agentes constroem junto das institui&ccedil;&otilde;es,    da sociedade e do mercado mecanismos de legitima&ccedil;&atilde;o e inclus&atilde;o    social.      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Trata-se de pr&aacute;ticas ainda muito recentes, mas que indiciam um  processo singular de luta pelo reconhecimento e inclus&atilde;o social dos artistas de rua.  Os princ&iacute;pios que orientam a legitimidade das suas reivindica&ccedil;&otilde;es ainda  n&atilde;o constitu&iacute;ram uma ordem de reconhecimento que inscreva a igualdade  de participa&ccedil;&atilde;o nas diversas esferas do mercado, do direito e da cultura.  As lutas proporcionaram a constru&ccedil;&atilde;o de uma ordem de reconhecimento  em que as pr&aacute;ticas anteriormente criminalizadas passam a incorporar uma  ordem de valor social e est&eacute;tico. No entanto, os agentes sociais dessas  pr&aacute;ticas art&iacute;stico-culturais reivindicam a inclus&atilde;o numa ordem de  reconhecimento legal que confirme o seu direito &agrave; igualdade. Segundo Honneth, as  probabilidades de universaliza&ccedil;&atilde;o inscritas nas rela&ccedil;&otilde;es jur&iacute;dicas e de equaliza&ccedil;&atilde;o  de uma comunidade de valores respondem a certos potenciais evolutivos  espec&iacute;ficos, directamente associados &agrave;s lutas sociais, que ampliam os  valores existentes atrav&eacute;s da exig&ecirc;ncia do reconhecimento (Honneth, 2003, p. 267).      <p>A cidade de S&atilde;o Paulo foi pioneira e singular na constitui&ccedil;&atilde;o    de mecanismos de reconhecimento inexistentes noutros lugares do mundo. No entanto,    &eacute; necess&aacute;rio questionar que tipo de sem&acirc;ntica se tenta imprimir    a essas pr&aacute;ticas de rua. De que maneira as subculturas s&atilde;o apropriadas    e interpretadas no espa&ccedil;o p&uacute;blico e no mercado como formas de    reconhecimento? Na segunda parte deste artigo mostram-se as diferentes ordens    de reconhecimento constru&iacute;das em torno da pr&aacute;tica do <I>graffiti</I>    nas cidades do Rio de Janeiro e S&atilde;o Paulo, a sua interac&ccedil;&atilde;o    com a ordem do mercado e do poder p&uacute;blico.      <p>&nbsp;      <P><b>Movimento <I>Graffiti:</I> em S&atilde;o Paulo e no Rio de Janeiro </b>     <p>O <I>graffiti</I> brasileiro tem origem em S&atilde;o Paulo como uma arte urbana    de protesto e interfer&ecirc;ncia e como reivindica&ccedil;&atilde;o de reconhecimento    est&eacute;tico e pol&iacute;tico. Desde os anos 80 que alguns artistas paulistas    utilizavam o <I>graffiti</I> como uma linguagem de interven&ccedil;&atilde;o    est&eacute;tica na cidade. Nomes como Alex Vallauri, que viveu em Nova Iorque    nos anos 70, Jaime Prades, Carlos Delfino, Carlos Matuck, Maur&iacute;cio Villa&ccedil;a    e Rui Amaral, amigo de Keith Haring, contribu&iacute;ram para a constru&ccedil;&atilde;o    de uma vis&atilde;o est&eacute;tica e para a inclus&atilde;o urbana das imagens    do <I>graffiti</I> (Ramos, 1994).Em S&atilde;o Paulo, a pr&aacute;tica do <I>graffiti</I>    e da pichagem n&atilde;o estaria apenas norteada pelo movimento <I>hip-hop,</I>    mas por uma gera&ccedil;&atilde;o de artistas urbanos e intelectuais provenientes    da Escola de Arquitectura e urbanismo da Universidade de S&atilde;o Paulo (Ramos,    1994 e Lara, 2001)      <p>A cidade de S&atilde;o Paulo &eacute; aquela que denota uma maior populariza&ccedil;&atilde;o  e reconhecimento da cultura do <I>graffiti</I> no Brasil e no mundo. Nessa  medida, a literatura internacional tem considerado o  <I>graffiti</I> paulista a refer&ecirc;ncia pl&aacute;stica e cultural do movimento  <I>graffiti</I> (Manco, 2005; Chastanet, 2008). O  <I>graffiti</I> que emerge no contexto cultural dos anos 90, embora  tamb&eacute;m possua entre os seus praticantes jovens de classe m&eacute;dia e estudantes  de Belas-Artes, apoia-se maioritariamente no movimento  <I>hip-hop</I> e nos movimentos de reivindica&ccedil;&atilde;o social. Neste ambiente, que &eacute; aquele que  constitui o objecto deste estudo, a arte do  <I>graffiti</I> tem como seus principais agentes sociais os jovens da periferia, que, na sua maioria, n&atilde;o possuem  forma&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica e, em alguns casos, nem mesmo a forma&ccedil;&atilde;o escolar b&aacute;sica.  Bairros como Cap&atilde;o Redondo, S&atilde;o Miguel Paulista e outros s&atilde;o alguns exemplos  do avan&ccedil;o do movimento <I>graffiti</I> e localidades como Santo Andr&eacute; e  Diadema disp&otilde;em, desde os anos 90, de um conjunto de institui&ccedil;&otilde;es, pr&eacute;mios,  festivais internacionais, escolas e diversas actividades relacionadas com  o <I>graffiti</I>. A gera&ccedil;&atilde;o de artistas de rua dos anos 90 cresceu apoiada  pelos movimentos sociais e pelas organiza&ccedil;&otilde;es n&atilde;o governamentais. S&atilde;o  esses agentes que medeiam a rela&ccedil;&atilde;o dos artistas de rua com o espa&ccedil;o p&uacute;blico  e com o mercado. As empresas estabelecem parcerias com as  ONG<sup><a href="#8">8</a></sup><a name="top8"></a>atrav&eacute;s das quais s&atilde;o recrutados os grafiteiros. S&atilde;o Paulo tamb&eacute;m se destaca  pela cria&ccedil;&atilde;o de estilos e letras tamb&eacute;m conhecidos como &quot;pichagem&quot;. As  letras g&oacute;ticas pintadas com tinta em rolinhos, as assinaturas deixadas nas  mais diversas constru&ccedil;&otilde;es e equipamentos urbanos, evidenciam uma t&eacute;cnica  e umatipografia particular (Boleta, 2007). Embora os seus agentes  estejam mais envolvidos no confronto e invas&atilde;o do espa&ccedil;o p&uacute;blico do que com  o m&eacute;rito est&eacute;tico, tais interven&ccedil;&otilde;es urbanas s&atilde;o reconhecidas nos meios e  nas publica&ccedil;&otilde;es sobre o  <I>graffiti</I> e a arte de rua (Manco, 2005).      <p>A carreira do grafiteiro inicia-se com a pr&aacute;tica das assinaturas, ou    seja, com as pichagens, e adquire, em muitos casos, qualidade est&eacute;tica    atrav&eacute;s do engajamento em oficinas. As oficinas de <I>graffiti</I> em    S&atilde;o Paulo acabaram por gerar uma verdadeira cultura do <I>graffiti,</I>    que ocupa ruas e murais nos diversos bairros da cidade. As oficinas tamb&eacute;m    produzem materiais did&aacute;cticos que circulam em v&aacute;rios espa&ccedil;os    e diferentes cidades do Brasil. Entre os v&aacute;rios projectos destacam-se    dois na cidade de S&atilde;o Paulo, na medida em que agregam grafiteiros de    diversas localidades da periferia e realizam os principais eventos no espa&ccedil;o    p&uacute;blico da cidade, o projecto <I>Aprendizes do Beco</I> e o projecto    <I>Quixote</I>. a ONG <I>Cidade Escola Aprendiz</I> conta com o patroc&iacute;nio    da Funda&ccedil;&atilde;o Banco Boston e re&uacute;ne um n&uacute;mero consider&aacute;vel    de grafiteiros e uma escola de <I>graffiti</I> que acabou por consolidar v&aacute;rios    grupos de <I>graffiti</I> que t&ecirc;m actividade constante na cidade de S&atilde;o    Paulo a partir de 1998. O projecto <I>Quixote</I> foi criado em 1996 atrav&eacute;s    de um conv&eacute;nio entre a Universidade Federal de S&atilde;o Paulo e a secretaria    municipal de desenvolvimento social. No ano de 2000 o projecto instituiu a ag&ecirc;ncia    Quixote Spray Arte, destinada a criar uma linha de produtos e um campo de profissionaliza&ccedil;&atilde;o    para os grafiteiros. A ag&ecirc;ncia foi contemplada com o primeiro lugar do    pr&eacute;mio &#171;Empreendedor Social da Ashoka&#187;. Os alunos ganharam    uma bolsade estudos, frequentaram oficinas de <I>graffiti</I> e trabalharam    na produ&ccedil;&atilde;o de pain&eacute;is, roupas, fachadas de edif&iacute;cios,    decora&ccedil;&otilde;es e outros produtos que proporcionavam algum dinheiro    aos profissionais e sustentavam a ag&ecirc;ncia. Durante a gest&atilde;o de    Marta Suplicy, a prefeitura de S&atilde;o Paulo criou em 2004 o projecto <I>S&atilde;o    Paulo Capital do Graffiti</I>, no qual v&aacute;rios espa&ccedil;os p&uacute;blicos,    equipamentos urbanos, t&uacute;neis e pain&eacute;is da cidade foram grafitados    por artistas locais e de outras cidades. O projecto estava inclu&iacute;do na    agenda municipal de celebra&ccedil;&atilde;o dos 450 anos da cidade de S. Paulo    e teve o apoio da Funda&ccedil;&atilde;o Banco Boston e da comunidade organizada    de grafiteiros. A prefeitura tamb&eacute;m instituiu a Coordenadoria Especial    da Juventude para atrair a participa&ccedil;&atilde;o dos jovens na formula&ccedil;&atilde;o    e cria&ccedil;&atilde;o de projectos e pol&iacute;ticas que viessem ao encontro    dos seus problemas. Atrav&eacute;s do programa <I>Valoriza&ccedil;&atilde;o    de Iniciativas Culturais</I> (VAI), um grupo de grafiteiros do Cap&atilde;o    Redondo criou uma escola de <I>graffiti</I> que ajuda as crian&ccedil;as da    comunidade. No contexto da celebra&ccedil;&atilde;o dos 450 anos da cidade foi    sancionada a lei que institu&iacute;a o dia 27 de Mar&ccedil;o como o dia do    <I>graffiti</I>. A data j&aacute; vinha sendo celebrada pelos grafiteiros desde    a morte do artista urbano Alex Vallauri, ocorrida em 1988. Mas a partir de 2004    a data passa a integrar a agenda de eventos oficiais da cidade. S&atilde;o Paulo    &eacute; um importante estudo de caso para mostrar as diferentes din&acirc;micas    na luta pelo reconhecimento e as complexas articula&ccedil;&otilde;es entre    ONG, agentes do mercado e do espa&ccedil;o p&uacute;blico. A Funda&ccedil;&atilde;o    Banco Boston patrocinou em 2003 a grafitagem do pr&oacute;prio Banco Boston    na Avenida Paulista, principal centro financeiro da Am&eacute;rica Latina. O    banco tamb&eacute;m incluiu imagens de <I>graffitis</I> nos seus materiais publicit&aacute;rios,    para al&eacute;m de ser falado nos jornais, revistas e televis&atilde;o. A funda&ccedil;&atilde;o    Banco Boston patrocinou dois livros que registam as imagens do <I>graffiti</I>    em S&atilde;o Paulo. O primeiro resulta da parceria com o projecto <I>Aprendizes    </I>(2003) e o segundo foi publicado em conjunto com a prefeitura (2005).      <p>Embora os grafiteiros tenham sido credenciados em 2004 para realizar as suas    obras na cidade, a autoriza&ccedil;&atilde;o dada pela prefeitura restringe-se    a determinados territ&oacute;rios pr&oacute;ximos do bairro de origem, situados    na sua maioria na zona norte da cidade. A autoriza&ccedil;&atilde;o sublinha    a segrega&ccedil;&atilde;o espacial (Caldeira, 2001, p. 339), t&atilde;o combatida    pelo <I>graffiti,</I> e traduz-se no uso de um crach&aacute;, que n&atilde;o    serve como elemento identificador, uma vez que n&atilde;o traz sequer o nome    do grafiteiro. Cumpre apenas um papel simb&oacute;lico que ajuda e ameniza o    confronto com a pol&iacute;cia. Embora assegurado pela lei, o <I>graffiti</I>    n&atilde;o viria a ocupar a agenda p&uacute;blica da cidade e a lei foi ignorada    pela prefeitura seguinte e acabou por ser retirada em 2007 pelo prefeito Gilberto    Kassab.      <p>O facto de o repert&oacute;rio cultural do  <I>graffiti</I> ter sido integrado em campanhas publicit&aacute;rias, galerias de arte, escrit&oacute;rios de  <I>design,</I> esculturas p&uacute;blicas, cen&aacute;rios, desfiles de moda, materiais gr&aacute;ficos e at&eacute; campanhas  pol&iacute;ticas n&atilde;o significa que os agentes dessa cultura tenham criado um mercado  ou uma esfera de reconhecimento do m&eacute;rito social ou est&eacute;tico das suas  pr&aacute;ticas. Grande parte dos grafiteiros de rua permanece isolada dos meios de  propaga&ccedil;&atilde;o da sua cultura. As empresas privadas, como a Motorola, Louis  Vuiton, Ellus, F&oacute;rum, Adidas, Calvin Klein, Skol, Gradiente, Nestl&eacute;,  Coca-Cola e Nike, recrutam o trabalho gr&aacute;fico de grafiteiros, mas fazem-no na qualidade  de <I>designers </I>ou programadores visuais, e n&atilde;o fica claro qual a fun&ccedil;&atilde;o  atribu&iacute;da ao grafiteiro no trabalho de cria&ccedil;&atilde;o de produtos ou campanhas.      <p>Ao inv&eacute;s do que se passava na gera&ccedil;&atilde;o dos anos 70, os    grafiteiros dos anos 90 prov&ecirc;m, na sua maioria, de bairros perif&eacute;ricos,    onde a pol&iacute;cia tem um papel muito mais intolerante do que nos bairros    da classe m&eacute;dia. O bairro da Vila Madalena, ocupado pela alta classe    m&eacute;dia, concentra o maior n&uacute;mero de pain&eacute;is de <I>graffiti</I>    da cidade de S&atilde;o Paulo. Desde os anos 70 que os artistas pl&aacute;sticos    estabeleciam os seus <I>ateliers </I>e realizavam v&aacute;rias interfer&ecirc;ncias    urbanas de <I>graffiti</I> e <I>spray</I> nas ruas e nos muros do bairro da    Vila Madalena. As lutas pelo reconhecimento em S&atilde;o Paulo articulam as    suas reivindica&ccedil;&otilde;es com as din&acirc;micas dopoder privado e do    poder p&uacute;blico a partir do encaminhamento feito pelas ONGs. No caso de    S&atilde;o Paulo, as lutas t&ecirc;m envolvido diferentes estrat&eacute;gias    de inclus&atilde;o em segmentos diferenciados do mercado e da sociedade. S&atilde;o    eles os sectores de <I>marketing,</I> o mercado publicit&aacute;rio, a moda,    os museus e galerias de arte e as institui&ccedil;&otilde;es sociais. O crescimento    do <I>graffiti</I> em S&atilde;o Paulo reflecte tamb&eacute;m as oportunidades    de desempenho p&uacute;blico e a visibilidade das obras no espa&ccedil;o urbano.    Contudo, as lutas pelo reconhecimento implicam a necessidade de redefini&ccedil;&atilde;o    do sistema de m&eacute;rito ou de aceita&ccedil;&atilde;o de valores est&eacute;ticos    e culturais por parte de diferentes grupos e subculturas. As tentativas de reconhecimento    destas subculturas t&ecirc;m confrontado e, em parte, ampliado as oportunidades    de inclus&atilde;o social dos seus agentes. No entanto, ainda n&atilde;o se    constituiu uma esfera p&uacute;blica pluralista no sentido normativo. Como j&aacute;    foi dito, a lei que permitia a pr&aacute;tica do <I>graffiti</I> em eventos    comemorativos da cidade foi revogada e as licen&ccedil;as foram suspensas no    final do mandato da prefeita Marta Suplicy. O uso do potencial art&iacute;stico    e profissional dos agentes da cultura n&atilde;o se traduz necessariamente na    constru&ccedil;&atilde;o social de valores que identifiquem os bens produzidos    com os seus autores. O <I>graffiti</I> n&atilde;o &eacute; integrado no espa&ccedil;o    urbano e social pelo seu car&aacute;cter de bem p&uacute;blico, arte, ou cultura    urbana, mas como parte de uma luta social que traduz um movimento pol&iacute;tico    que defende o direito &agrave; igualdade por parte das popula&ccedil;&otilde;es    marginalizadas. Trata-se de uma ordem de reconhecimento que valoriza distintamente    determinadas pr&aacute;ticas com o objectivo de conter o potencial de descontentamento    e viol&ecirc;ncia social presentes nesses grupos, os quais, por sua vez, o fazem    notar na expectativa de que as suas pretens&otilde;es de inclus&atilde;o sejam    atendidas. O projecto <I>S&atilde;o Paulo Capital Graffiti</I> realizou pain&eacute;is    em in&uacute;meros espa&ccedil;os da cidade, mas estes foram em alguns casos    retirados ap&oacute;s uma semana. As obras s&atilde;o apagadas pelo pr&oacute;prio    poder p&uacute;blico que as contratou. Uma das frases mais recorrentes no relato    dos grafiteiros &eacute; a de que &quot;o poder p&uacute;blico n&atilde;o entende    o nosso trabalho&quot;.      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O que &eacute; significativo no caso do movimento  <I>graffiti</I> &eacute; a tentativa de manter a sua linguagem viva noutros contextos institucionais e sociais  de inclus&atilde;o, que se manifesta na tentativa de resistir &agrave; assimila&ccedil;&atilde;o e na  expans&atilde;o dos princ&iacute;pios reguladores dessas pr&aacute;ticas. Exemplos de resist&ecirc;ncia s&atilde;o  a cria&ccedil;&atilde;o de <I>ateliers </I>pr&oacute;prios e de galerias e o protesto por mais de dois  anos contra a pintura modernista do chamado &quot;buraco da paulista&quot;, t&uacute;nel que  liga a Rua Dr. Arnaldo e a Avenida Paulista. Os grafiteiros protestaram  contra as reprodu&ccedil;&otilde;es de obras modernistas em  <I>spray </I>encomendadas em 2004 por uma ONG em parceria com a prefeitura. A ONG  <I>Revolucionarte</I> recrutou jovens grafiteiros para realizar as pinturas, vendo nesse procedimento  uma forma de educa&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica e de profissionaliza&ccedil;&atilde;o dos artistas de  rua. Foram precisos dois anos de protesto e de negocia&ccedil;&atilde;o com a prefeitura  para que a realiza&ccedil;&atilde;o de um novo projecto incorporasse a linguagem do  <I>graffiti,</I> a qual sempre ocupara em diversos momentos hist&oacute;ricos o espa&ccedil;o  urbano entre a Rua Dr. Arnaldo e a Avenida Paulista. A pintura de 2200  m<SUP>2</SUP> de muro foi coordenada por Binho Ribeiro e foi integrada nas ac&ccedil;&otilde;es de  celebra&ccedil;&atilde;o dos cem anos da imigra&ccedil;&atilde;o japonesa. A prefeitura acabou por reconhecer  a legitimidade da reivindica&ccedil;&atilde;o dos grupos de  <I>graffiti</I> que n&atilde;o se viam representados naquelas imagens de estilo modernista.      <p>A an&aacute;lise de Bourdieu (1984) deixa claro que as esferas est&eacute;tica, da  alta cultura e do gosto est&atilde;o plenamente informadas s&atilde;o constitu&iacute;das por  valores sociais vinculados &agrave;s posi&ccedil;&otilde;es de classe e &agrave; educa&ccedil;&atilde;o, por meio das  quais se integram no mercado com um valor espec&iacute;fico. As lutas pelo  reconhecimento inscrevem novas din&acirc;micas que visam a constru&ccedil;&atilde;o de valores  que desestabilizem o car&aacute;cter de classe e educa&ccedil;&atilde;o reproduzido pelas elites  formadas no modelo de modernidade euroc&ecirc;ntrico. Os desdobramentos  do movimento <I>graffiti</I> em S&atilde;o Paulo exemplificam din&acirc;micas sociais,  est&eacute;ticas e pol&iacute;ticas que confrontam mas tamb&eacute;m operam em conjunto com o  mercado, a publicidade, as institui&ccedil;&otilde;es culturais, a sociedade e o poder p&uacute;blico.     <p>Muitos agentes reclamam o facto de que as empresas recrutam o seu trabalho    devido &agrave; atrac&ccedil;&atilde;o que o estilo <I>hip-hop</I> exerce sobre    o p&uacute;blico jovem e n&atilde;o por causa dos seus talentos particulares.    As suas pr&aacute;ticas profissionais s&atilde;o usadas para vender valores    e ideias que n&atilde;o correspondem &agrave; sua pr&aacute;tica no momento    em que &eacute; oficializada junto do mercado. O mesmo se passa com o poder    p&uacute;blico que os convida a participar em eventos urbanos mas n&atilde;o    oficializa a pr&aacute;tica como parte de um projecto ou de uma pol&iacute;tica    de revitaliza&ccedil;&atilde;o urbana que leve em conta a representa&ccedil;&atilde;o    das suas culturas. A cada mudan&ccedil;a de governo surgem novas regras que    afectam as suas interven&ccedil;&otilde;es urbanas. Como trabalhadores, os grafiteiros    querem imprimir uma &eacute;tica profissional &agrave; sua pr&aacute;tica, buscam    o reconhecimento da potencialidade pl&aacute;stica da linguagem que os habilita    a exercer diversas fun&ccedil;&otilde;es na sociedade atrav&eacute;s da express&atilde;o    material das suas capacidades e talentos individuais.      <p>A ocupa&ccedil;&atilde;o de espa&ccedil;os urbanos degradados e a participa&ccedil;&atilde;o    em campanhas publicit&aacute;rias, seja para o poder p&uacute;blico ou para    o mercado, n&atilde;o se traduzem na auto-realiza&ccedil;&atilde;o dos agentes    que lutam pelo respeito social e pela institucionaliza&ccedil;&atilde;o das    suas pr&aacute;ticas. Entretanto, tais procedimentos indiciam um processo de    transforma&ccedil;&atilde;o criativa das representa&ccedil;&otilde;es morais    anteriormente negativas e criminalizadas. O interesse do mercado acabou por    fortalecer o<I> graffiti </I>como uma estrat&eacute;gia de <I>marketing </I>por    parte das empresas mais variadas que procuram obter visibilidade junto de um    p&uacute;blico jovem. &Eacute; o caso da campanha realizada pela empresa de    pneus <I>Good Year, </I>que, sob o titulo &#171;Exposi&ccedil;&atilde;o arte    urbana&#187;, realizou um concurso de <I>graffitis </I>durante dois dias de    <I>performances </I>que tiveram lugar na Avenida Paulista. A empresa visava    o reconhecimento pelos <I>media </I>e pelo p&uacute;blico, bem como o uso das    imagens criadas durante o evento, na campanha publicit&aacute;ria da marca para    a Am&eacute;rica Latina<sup><a href="#7">7</a></sup><a name="top7"></a>. Al&eacute;m    de campanhas publicit&aacute;rias, S&atilde;o Paulo oferece um mercado de trabalho    para os grafiteiros. Marcas como a <I>Street Wear</I> contratam grafiteiros    para desenhar colec&ccedil;&otilde;es e estampas, as feiras de moda ou de desporto    contratam servi&ccedil;os de decora&ccedil;&atilde;o de stands e mesmo de <I>performances    </I>ao vivo durante os mais variados eventos. A cultura do<I> graffiti</I> &eacute;    tamb&eacute;m um meio de cria&ccedil;&atilde;o, por parte de alguns grafiteiros,    de arranjos produtivos independentes destinados aos produtos <I>street. </I>Tanto    S&atilde;o Paulo como o Rio de Janeiro possuem galerias destinadas a esse mercado,    como a Graffitiria e a Choque Cultural, em S&atilde;o Paulo, e a Augusto Severo,    que ocupa uma garagem no Rio de Janeiro, na Lapa. Resta considerar como os agentes    defendem os princ&iacute;pios de uma liguagem est&eacute;tica do <I>graffiti    </I>noutros suportes e em distintos contextos institucionais. A atrac&ccedil;&atilde;o    que o <I>graffiti </I>brasileiro provoca em coleccionadores estrangeiros e brasileiros    adv&eacute;m justamente da novidade de uma linguagem popular associada &agrave;s    ruas. Ou seja, uma linguagem que expressa uma tens&atilde;o entre aquilo que    n&atilde;o &eacute; arte, n&atilde;o &eacute; produto e n&atilde;o &eacute;    <I>design,</I> mas que se constitui como um<I> interface </I>entre todas essas    linguagens e como express&atilde;o de uma viv&ecirc;ncia quotidiana. O desafio    que enfrenta &eacute; o de combinar o potencial de enraizamento no mundo da    vida popular e no seu circuito comunicativo com a impessoalidade e racionalidade    econ&oacute;mica do mercado. Tanto este &uacute;ltimo como as institui&ccedil;&otilde;es    art&iacute;sticas e p&uacute;blicas reconhecem neste tipo de arte um potencial    de comunica&ccedil;&atilde;o e express&atilde;o de uma cultura popular de rua,    uma identidade constru&iacute;da intersubjectivamente em torno de valores associados    &agrave; opress&atilde;o das popula&ccedil;&otilde;es perif&eacute;ricas e &agrave;    busca da igualdade social.      <p>A arte do<I> graffiti</I> no Rio de  Janeiro, embora esteja associada &agrave; esfera  do quotidiano, ainda n&atilde;o alcan&ccedil;ou um patamar de ac&ccedil;&atilde;o colectiva capaz  de ampliar as suas possibilidades comunicativas ao conjunto da  sociedade. A aus&ecirc;ncia de uma base associativa que actue regularmente junto dos  movimentos sociais ou de projectos que viabilizem a conquista de  visibilidade p&uacute;blica faz com que o movimento  <I>graffiti </I>permane&ccedil;a adstrito &agrave; sua  esfera comunit&aacute;ria.      <p>O que destaca o Rio de Janeiro em rela&ccedil;&atilde;o a outras cidades &eacute; o facto  de, aqui, o graffiti alcan&ccedil;ar o seu maior desenvolvimento nas favelas. As  favelas concentram os pain&eacute;is e grande parte das oficinas e eventos. Na cidade  do Rio de Janeiro, as favelas do morro da Mangueira e do morro Dona  Marta foram pioneiras na realiza&ccedil;&atilde;o de eventos e festas  com<I> graffiti. </I>No bairro da Penha o armaz&eacute;m de uma f&aacute;brica desactivada reuniu a primeira oficina  de graffiti dirigida pelo professor Cl&aacute;udio Vaz Coelho. A iniciativa de ocupar  o chamado galp&atilde;o do Curcume Carioca, em 1998, deu origem aos  grupos Na&ccedil;&atilde;o e Artistas Urbanos, que t&ecirc;m estado presentes no movimento  <I>graffiti</I> carioca ao longo dos &uacute;ltimos dez anos. Mario Bandes, do grupo  Artistas Urbanos, criou uma oficina de<I> graffiti  </I>no Complexo do Alem&atilde;o, que &eacute; uma refer&ecirc;ncia para o movimento, e o grupo Na&ccedil;&atilde;o realiza oficinas e  ac&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas nas mais diversas comunidades. No morro Dona Marta, a Casa  da Cidadania, criada em 1997, foi decorada com os desenhos de  <I>graffiti </I>de F&aacute;bio Ema, jovem da comunidade do Jardim Catarina, em S&atilde;o Gon&ccedil;alo,  e l&iacute;der do movimento <I>graffiti </I>no Rio de Janeiro. Ema fazia  <I>performances </I>de <I>graffiti </I>em festas no bar Zoeira, na Lapa, e nos bailes  <I>funk </I>das favelas cariocas. Ema &eacute; um dos mais reconhecidos artistas de  <I>graffiti </I>do Rio de Janeiro e j&aacute; realizou exposi&ccedil;&otilde;es em galerias, al&eacute;m de criar pain&eacute;is  art&iacute;sticos e de realizar<I> performances  </I>de<I> graffiti </I>nos <I>shows </I>do grupo O  Rappa.Na comunidade do morro Dona Marta vivia o traficante Marcinho VP. O  chefe do tr&aacute;fico estava associado &agrave; Casa da Cidadania e tentou, de diversas  formas, estabelecer um di&aacute;logo com a sociedade e com os governantes.      <p>Marcinho VP convidava intelectuais e artistas para dar palestras na Casa  da Cidadania. O m&uacute;sico Marcelo Yuca, o escritor Paulo Lins e o cineasta  Jo&atilde;o Sales s&atilde;o algumas das figuras publicamente mais pr&oacute;ximas de M&aacute;rcio VP  e que tinham participa&ccedil;&atilde;o nos projectos culturais que envolviam aulas de  hist&oacute;ria de arte leccionadas por Jo&atilde;o Sales, palestras sobre o cinema  proferidas por Walter Sales, aulas de <I>graffiti  </I>com Ema e Binho Ribeiro de S&atilde;o Paulo, aulas de m&uacute;sica e festas com  <I>performances </I>de grafiteiros, <I>djs</I> e  dan&ccedil;arinos. O morro Dona Marta possui<I> graffiti  </I>lend&aacute;rios realizados por grafiteiros paulistas, como Binho Ribeiro, Ciro Schuman e o alem&atilde;o Stone, entre  outros. Ribeiro realizou v&aacute;rias oficinas e  <I>performances </I>de <I>graffiti </I>no Rio e  foi convidado por Marcinho VP para grafitar e organizar oficinas no  morro Dona Marta. h&aacute; depoimentos que indicam que o traficante Marcinho  VP, ligado &agrave; cultura <I>hip-hop</I> e compositor de  <I>rap,</I> queria ampliar o interc&acirc;mbio da favela com o asfalto, reduzir o estigma e a imagem do jovem  favelado ligado ao tr&aacute;fico de drogas, como indica tamb&eacute;m a sua participa&ccedil;&atilde;o  no<I> video-clip They don't care about us, </I>de Michael Jackson, realizado por  Spike Lee em 1996 (Barcelos, 2003).Embora pioneira, essa posi&ccedil;&atilde;o n&atilde;o  estava isolada de um contexto de avan&ccedil;o dos movimentos sociais nas favelas  cariocas. Muito pelo contr&aacute;rio, traduz a conflu&ecirc;ncia entre duas for&ccedil;as: a  dos movimentos sociais e a do chamado poder  paralelo<sup><a href="#8">8</a></sup><a name="top8"></a>. A desconfian&ccedil;a de ambas em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; ac&ccedil;&atilde;o do poder p&uacute;blico, representada pelas pr&aacute;ticas  de viol&ecirc;ncia das for&ccedil;as policiais, iria engendrar o suporte social e, em  alguns casos, a toler&acirc;ncia em rela&ccedil;&atilde;o aos projectos culturais nas favelas do Rio  de Janeiro (Zaluar, 1994). Desde o in&iacute;cio dos anos 90 j&aacute; estariam em  curso investimentos associativos de car&aacute;ter cultural nas favelas. Na sua  maioria eram iniciativas de organiza&ccedil;&otilde;es n&atilde;o governamentais e de n&uacute;cleos  comunit&aacute;rios, dirigidas &agrave; popula&ccedil;&atilde;o negra, sobre tem&aacute;ticas relacionadas com o  racismo e com a identidade cultural.      <p>Embora as favelas do Rio n&atilde;o sejam enclaves murados, a segrega&ccedil;&atilde;o  e a fragmenta&ccedil;&atilde;o fazem-se no mesmo espa&ccedil;o territorial, no qual  coabitam ricos e pobres, sem que partilhem refer&ecirc;ncias comuns de espa&ccedil;o  p&uacute;blico (Caldeira, 2001). Desprovidos dos meios materiais, sociais e c&iacute;vicos  de acesso &agrave; igualdade de participa&ccedil;&atilde;o e usufruto dos servi&ccedil;os p&uacute;blicos,  os grupos sociais das comunidades constru&iacute;ram espa&ccedil;os contrap&uacute;blicos com  o aux&iacute;lio dos movimentos sociais (Fraser,  1995).      <p>A comunidade da Mangueira abriga uma escola de <I>graffiti</I> criada por F&aacute;bio    Ema, o qual, com a ajuda de Marcelo Yuca, fundou em 1998 a ONG Associa&ccedil;&atilde;o    Sobrados Arte e Cultura (Ara&uacute;jo, 2003), que mant&eacute;m uma oficina    de desenho em S&atilde;o Gon&ccedil;alo, mais particularmente no Jardim Catarina,    comunidade que possui in&uacute;meros pain&eacute;is de <I>graffiti</I>. Ema    &eacute; repons&aacute;vel pela populariza&ccedil;&atilde;o da aprendizagem    do <I>graffiti</I> nas principais favelas do Rio de Janeiro. Os Artistas Urbanos,    grupo do bairro da Penha, leccionam no Complexo do Alem&atilde;o para um grupo    de mais de cinquenta alunos. No Rio de Janeiro, ao contr&aacute;rio de S&atilde;o    Paulo, a participa&ccedil;&atilde;o do poder p&uacute;blico e privado nos projectos    de <I>graffiti</I> &eacute; pouco significativa, sendo os recursos escassos    e dirigidos para outros projectos. O grafiteiros cariocas desenvolveram habilidade    t&eacute;cnica para o desenho e realizam grandes pain&eacute;is com representa&ccedil;&atilde;o    das cenas do quotidiano na favela. A &ecirc;nfase no desenho resulta em parte    da aus&ecirc;ncia de recursos para as latas de <I>spray</I>. As favelas cariocas    concentram a express&atilde;o pl&aacute;stica do <I>graffiti</I> como um meio    de revitaliza&ccedil;&atilde;o urbana. Os grupos de toda a cidade s&atilde;o    convocados a participar em encontros p&uacute;blicos nas comunidades onde realizam    pain&eacute;is e oficinas p&uacute;blicas de <I>graffiti</I>. No Rio de Janeiro    a identidade do <I>graffiti</I> est&aacute; plenamente articulada com o quotidiano    da favela.      <p>A dist&acirc;ncia do poder p&uacute;blico e dos &oacute;rg&atilde;os de cultura, o quotidiano  na favela, a aus&ecirc;ncia de um mercado publicit&aacute;rio e de uma tradi&ccedil;&atilde;o de  artistas urbanos, moldaram o campo de produ&ccedil;&atilde;o est&eacute;tica e pol&iacute;tica do  <I>graffiti</I> do Rio de Janeiro. &Eacute; na esfera das lutas pelo reconhecimento que o  <I>graffiti</I> carioca se inscreve. Por um lado, a maioria dos seus membros n&atilde;o  desfruta de benef&iacute;cios sociais, sejam eles de classe ou de educa&ccedil;&atilde;o est&eacute;tica. Por  outro lado, a articula&ccedil;&atilde;o com os movimentos socias n&atilde;o preenche a sua  voca&ccedil;&atilde;o est&eacute;tica e pol&iacute;tica. Ao contr&aacute;rio de S&atilde;o Paulo, as ONG que operam  no quotidiano local n&atilde;o disp&otilde;em de projectos que viabilizem o  <I>graffiti</I> como prioridade das suas pol&iacute;ticas. As iniciativas, normalmente, partem dos  pr&oacute;prios grupos e est&atilde;o maioritariamente circunscritas &agrave;s esferas  comunit&aacute;rias nas quais eles alcan&ccedil;am padr&otilde;es ainda n&atilde;o satisfat&oacute;rios de  reconhecimento. No entanto, &eacute; no Rio de Janeiro que uma organiza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o  governamental &#151; a Central &Uacute;nica das Favelas (CUFA) &#151; realiza o maior festival  <I>hip-hop</I> da Am&eacute;rica Latina, o festival Hutuz. A CUFA surgiu no ano de 2000  como uma pequena organiza&ccedil;&atilde;o criada pelo  <I>rapper</I> MVBill e pelo seu empres&aacute;rio Celso Atha&iacute;de, fundadores, simultaneamente, de um partido pol&iacute;tico: o  Partido Popular Poder para a Maioria (PPPomar). O PPPomar assume-se  como um defensor da causa negra e defende uma pol&iacute;tica afirmativa para  os negros. Segundo MVBill, o reconhecimento do poder p&uacute;blico &eacute; limitado e  o apoio oferecido &agrave; CUFA ou &agrave;s demais organiza&ccedil;&otilde;es n&atilde;o se traduz  numa partilha de poder: &quot;o apoio n&atilde;o existe quando uma dessas organiza&ccedil;&otilde;es  quer fazer um prefeito. A&iacute; come&ccedil;a a virar problema. Voc&ecirc; pode exigir  direito, respeito, poder n&atilde;o. Eu acho que chegou a hora da gente brigar pelo  poder&#133;&quot; (Bill, 2005, p. 33). O seu projecto passa por &quot;fortificar nosso  trabalho nas favelas, nas comunidades e a partir disso retomar o partido pol&iacute;tico.      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Hoje eu diria que a CUFA est&aacute; para o PPPOMAR como a CUT (Central  &Uacute;nica dos trabalhadores) j&aacute; esteve para o PT no passado&quot; (Bill, 2005, p. 33).     <p>Os meios de luta social e pol&iacute;tica da Central &Uacute;nica das Favelas s&atilde;o  as pr&aacute;ticas culturais, o quotidiano das comunidades e a identifica&ccedil;&atilde;o cultural  com o <I>hip-hop</I>, ao passo que no passado eram as lutas sindicais de  trabalhadores formais que ocupavam a agenda da Central &Uacute;nica dos Trabalhadores.      <p>A CUFA, ainda que utilizando diversos recursos e patroc&iacute;nios p&uacute;blicos  e privados, apresenta-se como uma entidade independente e realiza uma  pol&iacute;tica de promo&ccedil;&atilde;o da cultura  <I>hip-hop</I> junto das popula&ccedil;&otilde;es das favelas  e possui filiais em v&aacute;rios estados do pa&iacute;s. O  pr&eacute;mio Hutuz &eacute; disputado pelos membros da cultura do  <I>hip-hop</I> e garante prest&iacute;gio e legitimidade na  carreira art&iacute;stica, sendo o j&uacute;ri composto por nomes consagrados do movimento  <I>hip-hop</I> mundial. A atribui&ccedil;&atilde;o de pr&eacute;mios Hutuz passou a ocupar espa&ccedil;os  privilegiados pelas elites culturais brasileiras, como o teatro do Canec&atilde;o,  as salas de cinema Odeon, o CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), e  tem o patroc&iacute;nio da Petrobr&aacute;s. A CUFA organizou, com os principais l&iacute;deres  do Brasil, uma agenda nacional <I>hip-hop</I> e j&aacute; se reuniu duas vezes com o  presidente Lula para a debater.      <p>Recentemente, o document&aacute;rio <I>Falc&atilde;o, os Meninos do Tr&aacute;fico</I>,    produzido e criado pela CUFA, mostrou ao p&uacute;blico, pela primeira vez,    o quotidiano e o testemunho das crian&ccedil;as envolvidas com o tr&aacute;fico,    com o uso de drogas e com a viol&ecirc;ncia nas favelas. O document&aacute;rio    foi exibido em 2006 no programa de maior visibilidade e audi&ecirc;ncia do pa&iacute;s:    <I>O Fant&aacute;stico</I>. Falc&atilde;o &eacute; a denomina&ccedil;&atilde;o    dada &agrave;s crian&ccedil;as armadas que vigiam o morro e alertam para a presen&ccedil;a    de estranhos. O trabalho foi igualmente lan&ccedil;ado em livro. &Eacute; necess&aacute;rio    ressaltar que, embora a CUFA lute para conquistar representatividade e controlo    das manifesta&ccedil;&otilde;es culturais do <I>hip-hop,</I> tal disputa trava-se    num contexto intersubjectivamente produzido no qual operam processos contingentes    e cr&iacute;ticos. De um lado, o combate ao monop&oacute;lio leg&iacute;timo    da distribui&ccedil;&atilde;o de recursos; do outro, o embate cr&iacute;tico    e a busca do consenso. Como partido pol&iacute;tico, os grupos ainda n&atilde;o    encontraram legitimidade e poder econ&oacute;mico suficiente para disputar mandatos.    Parte significativa do movimento <I>hip-hop</I> tem-se aproximado do MST, ampliando    a correla&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as no interior do pa&iacute;s e forjando    uma coliga&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica. A CUFA, atrav&eacute;s do festival    Hutuz, dos eventos <I>hip-hop</I> da Lapa, da Fundi&ccedil;&atilde;o Progresso,    com a escola de <I>graffiti</I> coordenada por Fabio Ema na Lapa, s&atilde;o    os principais centros de difus&atilde;o e produ&ccedil;&atilde;o da cultura    do <I>graffiti</I> e <I>hip-hop</I> no Rio de Janeiro. Artistas de <I>graffiti</I>    provenientes de comunidades carenciadas j&aacute; participaram em exposi&ccedil;&otilde;es    internacionais em galerias de arte da Holanda e da Fran&ccedil;a atrav&eacute;s    do apoio de entidades internacionais. Est&atilde;o em curso processos que nos    permitem observar possibilidades de avan&ccedil;o normativo no que diz respeito    &agrave; amplia&ccedil;&atilde;o dos dispositivos culturais de m&eacute;rito,    bem como de constru&ccedil;&atilde;o de um espa&ccedil;o p&uacute;blico cr&iacute;tico,    confrontando posi&ccedil;&otilde;es oficiais e c&acirc;nones est&eacute;ticos.    Os pr&eacute;mios da FUNARTE e o sal&atilde;o de arte contempor&acirc;nea da    FIAT inclu&iacute;ram pela primeira vez o <I>graffiti</I> como arte contempor&acirc;nea.    Formas de vida e pr&aacute;ticas est&eacute;ticas, ainda que n&atilde;o encontrem    plena legitimidade face aos padr&otilde;es culturais e institucionais existentes,    introduzem temas que a agenda p&uacute;blica n&atilde;o pode silenciar e com    os quais se tem for&ccedil;osamente de confrontar (Benhabib, 1993, p. 73).      <p>O Rio de Janeiro concentra grande parte das elites culturais com  poder decis&oacute;rio sobre as pol&iacute;ticas culturais do pa&iacute;s. Produtores, distribuidores  e artistas mant&ecirc;m os seus escrit&oacute;rios e resid&ecirc;ncias no Rio de Janeiro e  lutam para manter as suas posi&ccedil;&otilde;es na partilha dos recursos distributivos e  no controlo da reprodu&ccedil;&atilde;o de bens culturais. O Minist&eacute;rio da Cultura lan&ccedil;ou  o programa &quot;cultura viva&quot;, que visa financiar e apoiar as iniciativas  culturais das comunidades, os pontos de cultura. A implanta&ccedil;&atilde;o deste projecto  dependeu de um longo processo decis&oacute;rio e aconteceu devido &agrave; parceria com  o Programa das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), ou  seja, utilizando os dispositivos culturais do conceito de desenvolvimento  comunit&aacute;rio, e n&atilde;o o de pol&iacute;tica cultural (Ventura, 2005). O projecto favoreceu  o desenvolvimento de v&aacute;rias ac&ccedil;&otilde;es ligadas &agrave; cultura  <I>hip-hop</I> e foi um passo importante na introdu&ccedil;&atilde;o do  <I>hip-hop</I> na agenda das pol&iacute;ticas culturais.  As elites esfor&ccedil;am-se para manter a cultura restrita no terreno espec&iacute;fico  da produ&ccedil;&atilde;o e reprodu&ccedil;&atilde;o de bens art&iacute;sticos definidos por classe e  educa&ccedil;&atilde;o. Embora as minorias estejam isoladas do processo decis&oacute;rio das  pol&iacute;ticas culturais e do mercado, organiza&ccedil;&otilde;es como a CUFA e outros grupos  ligados ao movimento <I>hip-hop</I> t&ecirc;m confrontado, por meio de posicionamentos  cr&iacute;ticos, est&eacute;ticos, morais e pol&iacute;ticos, as pol&iacute;ticas sociais e culturais.      <p>Procura-se criar um regime de autoridade, de ordem cultural e pol&iacute;tica,    no sentido de integrar dispositivos e valores que desestabilizem a hierarquia    dos valores e ju&iacute;zos culturais que refor&ccedil;am a desigualdade vigente    no modelo de pol&iacute;tica e de produ&ccedil;&atilde;o cultural contempor&acirc;nea.    Neste sentido, o <I>graffiti</I> do Rio de Janeiro, por ter uma comunidade de    comunica&ccedil;&atilde;o presente no interior das favelas, funciona como um    ve&iacute;culo de cr&iacute;tica &agrave; desigualdade social e &agrave; opress&atilde;o    do capitalismo.      <p>&nbsp;      <P><b>Conclus&atilde;o</b>      <p>As lutas pelo reconhecimento no Rio de Janeiro configuram  din&acirc;micas diferentes das de S&atilde;o Paulo. O  <I>graffiti</I> do Rio de Janeiro n&atilde;o disp&otilde;e de  um suporte institucional e n&atilde;o sofre a abordagem do mercado n&atilde;o apenas  por n&atilde;o dispor de ampla visibilidade p&uacute;blica nas ruas, mas tamb&eacute;m porque  o mercado publicit&aacute;rio do Brasil est&aacute; concentrado em S&atilde;o Paulo.      <p>Podemos afirmar que, no caso do Rio de Janeiro, o facto de as lutas serem protagonizadas    por minorias em associa&ccedil;&atilde;o com as suas esferas comunit&aacute;rias    pode ser vantajoso na mobiliza&ccedil;&atilde;o moral da resist&ecirc;ncia pol&iacute;tica    e na legitima&ccedil;&atilde;o do seu valor cultural, desestabilizando a hierarquia    que os exclui e contribuindo para fortalecer a sua autonomia art&iacute;stica.    Nesse sentido, &eacute; poss&iacute;vel que as lutas no Rio de Janeiro acabem    por favorecer a preserva&ccedil;&atilde;o da linguagem popular e da est&eacute;tica    do <I>graffiti</I> identificada e praticada nas comunidades e, simultaneamente,    a sua inser&ccedil;&atilde;o no conjunto das pol&iacute;ticas e institui&ccedil;&otilde;es    de cultura e de arte. Embora em S&atilde;o Paulo as lutas tenham ampliado as    rela&ccedil;&otilde;es de reconhecimento, essas defrontam-se com o desafio da    presen&ccedil;a do mercado e de um campo de profissionaliza&ccedil;&atilde;o    ainda difuso em que as probabilidades de igualdade, de prest&iacute;gio social    e de inclus&atilde;o socioecon&oacute;mica sublimam as reais hierarquias valorativas    e as classifica&ccedil;&otilde;es do Estado, das ag&ecirc;ncias p&uacute;blicas    e do mercado.      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;     <P ALIGN="CENTER"><B>Bibliografia</B>     <!-- ref --><p>Andrade, E. (org.) (1999), <I>Rap e Educa&ccedil;&atilde;o Rap &Eacute;  Educa&ccedil;&atilde;o,</I> S&atilde;o Paulo, Summus.      &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000125&pid=S0003-2573200900030000700001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>Araujo, M. da S. (2003), <I>Vitrines de Concreto na Cidade: Juventude e Graffiti em  S&atilde;o Gon&ccedil;alo. </I>Disserta&ccedil;&atilde;o de mestrado, Rio de Janeiro, Escola de Belas-Artes da  Universidade Federal do Rio de Janeiro.     <p>Barcelos, C. (2003), <I>Abusado. O Dono do Morro Dona  Marta</I>, Rio de Janeiro, Record.     <p>Benhabib, S. (1993), &quot;Models of public space: Hanna Arent, the liberal tradition  and Habermas&quot;. <I>In</I> C. Calhoun (org.),  <I>Habermas and Public Space</I>, Massachusetts,  MITPress, pp. 73-99.     <p>Bill, M. V. (2005), &quot;Entrevista&quot;.  <I>Revista Caros Amigos</I>, Ed. Casa Amarela, S&atilde;o  Paulo, pp. 99-103.      <p>Boleta, D. (org.) (2007), <I>A Grande Arte da  Pixa&ccedil;&atilde;o,</I> S&atilde;o Paulo, Ed. Casa do Bispo.     <p>Bourdieu, P. (1984), <I>Distinction: A Social Critique of the Judgment of the Taste,  </I>Cambridge, Harvard Press.     <p>Caldeira, T. (2001), <I>Cidade de Muros: Crime Segrega&ccedil;&atilde;o e Cidadania em S&atilde;o  Paulo</I>, S&atilde;o Paulo, Edusp/34.     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Carvalho, L. (2007), &quot;O bagulho do rap&quot;.  <I>Revista Piau&iacute;, </I>10, pp. 49-53.      <p>Castells, M. (1996), <I>Sociedade de Rede,  </I>Rio de Janeiro, Paz e Terra.     <p>Chastanet, F. (2008), <I>Pixa&ccedil;&atilde;o: S&atilde;o Paulo  signature,</I> Paris, Ginko Press.     <p>Fraser, N. (1995), &quot;From redistribution to recognition? Dilemas of justice in  post-socialist age&quot;. <I>New Left Review</I>, 212, pp. 68-93.     <p>Gon&ccedil;alves, T. (1997),  <I>O grito e a Poesia do gueto. Rappers e movimento  hip-hop no Rio de Janeiro</I>. Tese de mestrado, Rio de Janeiro, Instituto de Filosofia e Ci&ecirc;ncias  Humanas da Universidade Federal do Rio de Janeiro.     <p>Herschmann, M. (org.) (1997),  <I>Abalando os Anos 90: Funk e Hip-hop,</I> Rio de  Janeiro, Rocco.     <p>Honneth, A. (1995a), <I>The Struggle for Recognition: the Moral Grammar of Social  Conflicts, </I>Cambridge, Cambridge Polity Press.     <p>Honneth, A. (1995b),<I> The Fragmented World of the  Social</I>, Nova Iorque, State University of New York Suny Press.     <p>Honneth, A. (2003), <I>Luta por Reconhecimento: A Gram&aacute;tica Moral dos Conflitos  Sociais</I>, S&atilde;o Paulo, Edusp/34.     <p>Junior, J. (2003), <I>Da Favela para o  Mundo,</I> Rio de Janeiro, Aeroplano.      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Lara, A. (2001), <I>Arte urbana em  movimento</I>. Tese de doutoramento,S&atilde;o Paulo, Escola  de Comunica&ccedil;&atilde;o e artes da USP.     <p>Leal, S. (2007), <I>Acorda  Hip-hop,</I> Rio de Janeiro, Ed. Aeroplano.      <p>Manco, T. (2005), <I>Brazil  Graffitti,</I> Londres, Thames and Hudson.     <p>Novaes, R. (1997), &quot;Juventudes cariocas: media&ccedil;&otilde;es, conflitos e encontros culturais&quot;.  <I>In</I> H. Vianna (org.)<I>,Galeras  Cariocas,</I> Rio de Janeiro, Rocco, pp. 59-95.     <p>Projecto Aprendiz/Funda&ccedil;&atilde;o Banco de Boston (2003),  <I>100 Muros. Relatos de Uma Experi&ecirc;ncia,  </I>S&atilde;o Paulo, Projecto Aprendiz/Funda&ccedil;&atilde;o Banco de Boston.     <p>Ramos, M. (1994), <I>Graffiti, Picha&ccedil;&atilde;o e  Cia,</I> S&atilde;o Paulo, AnnaBlume.     <p>Ribeiro, B. (2006), <I>Revista  Graffiti,</I> 2, p. 3.     <p>Rocha, J., Domenich, M., e  Casseano, P. (2001), <I>Hip-Hop &#151; A Periferia  Grita,</I> S&atilde;o Paulo, Funda&ccedil;&atilde;o Perseu Abramo.     <p>Shusterman, R. (1998), <I>Vivendo a Arte: Pensamento Pragmatista e Est&eacute;tica  Popular</I>, S&atilde;o Paulo, edusp/34.     <p>Silva, M. A. (1999), &quot;Projecto rappers: uma iniciativa pioneira e vitoriosa de  interlocu&ccedil;&atilde;o entre uma organiza&ccedil;&atilde;o de mulheres negras e a juventude no Brasil&quot;.  <I>In</I> E. Andrade (org.), <I>Rap e Educa&ccedil;&atilde;o Rap &Eacute;  Educa&ccedil;&atilde;o,</I> S&atilde;o Paulo, Summus, pp. 93-103.     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Ventura, T. (2005), &quot;Notas sobre pol&iacute;tica cultural contempor&acirc;nea&quot;.  <I>Revista Rio de Janeiro,</I> 1, pp. 77-92.     <p>Zaluar, A. (1994), <I>A M&aacute;quina e a Revolta</I>, S&atilde;o    Paulo, Brasiliense.      <p>&nbsp;     <p><b>Notas</b>      <p><sup><a href="#top1">1</a></sup><a name="1"></a> Participaram no CD <I>Tiro Inicial</I>    as bandas Gera&ccedil;&atilde;o Futuro, as Damas do Rap, Consci&ecirc;ncia Urbana,    os Filhos do Gueto e o <I>rapper </I>Gabriel o Pensador.      <p><sup><a href="#top2">2</a></sup><a name="2" id="2"></a> Sobre a rela&ccedil;&atilde;o    do <I>hip-hop</I> com as actividades escolares, v. Andrade (org.) (1999, pp.    23-39 e 83-93).      <p><sup><a href="#top3">3</a></sup><a name="3" id="3"></a> As mais conhecidas    organiza&ccedil;&otilde;es do movimento <I>hip-hop</I> no Brasil s&atilde;o    o MH20 (Movimento hip-hop organizado, de S&atilde;o Paulo), a Frente Brasileira    de hip-hop (com representantes de todo o pa&iacute;s), o Na&ccedil;&atilde;o    hip-hop, de Santa Catarina, os Quilombos urbanos, do Maranh&atilde;o, o PPPOMAR    (Partido Popular Poder para a Maioria) e a CUFA (Central &Uacute;nica das Favelas),    do Rio de Janeiro.      <p><SUP><a href="#top4">4</a><a name="4"></a></SUP> Entre os principais grupos    e artistas <I>rap </I>encontram-se o 509-E (formado em 1997), os Detentos do    Rap (formado em 1996), Jos&eacute; Carlos do Reis Encina, o conhecido ex-traficante    Escadinha (1997), o Andr&eacute; du rap (1996). Todos gravaram e lan&ccedil;aram    CDs quando ainda cumpriam penas.      <p><SUP><a href="#top5">5</a><a name="5"></a></SUP> Esse artigo tem como base    depoimentos, documentos e trabalho de campo, que inclu&iacute;ram visitas &agrave;s    ONGS citadas e entrevistas com os agentes que se identificam com a perspectiva    est&eacute;tica e pol&iacute;tica da pr&aacute;tica do <I>graffti</I>. Entre    estes contam-se os seguintes informantes: Acme, Akuma, Boleta, Binho Ribeiro,    Zez&atilde;o, Mario Bandes, Ciro Schuman, Dinho, Fabio Ema, MarceloEco, Smael,    Braga, Ment, Chico, Air&aacute;, Bob e Style, entre outros que preferiram n&atilde;o    ser identificados. Todos esses agentes (10 do Rio de Janeiro e 10 de S&atilde;o    Paulo) participam na traject&oacute;ria hist&oacute;rica e social do movimento    <I>hip-hop</I> e <I>graffiti </I>dos anos 90, mantendo-se at&eacute; aos dias    de hoje vinculados ao movimento <I>graffiti</I>.      <p><SUP><a href="#top6">6</a><a name="6"></a></SUP> O <I>sampler</I> &eacute;    um equipamento de grava&ccedil;&atilde;o digital de som que permite a adapta&ccedil;&atilde;o    de teclado, bateria e computador. O <I>sampling</I> pode ser tamb&eacute;m considerado    uma t&eacute;cnica formal (Shusterman, 1998, p. 187)      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a href="#top7">7</a></sup><a name="7" id="7"></a> Os pr&eacute;mios atribu&iacute;dos    aos <I>graffitis </I>representaram um custo de, respectivamente, 1000 &#128;    (2500 reais) para o primeiro pr&eacute;mio, 600 &#128; (1500 reais) e 400 &#128;    (1000 reais) para o segundo e terceiro colocados, e garantiram um p&uacute;blico    de 30 000 pessoas. Com um custo baixo, a campanha foi ampliada a toda a Am&eacute;rica    Latina.      <p><sup><a href="#top8">8</a></sup><a name="8" id="8"></a> Designa-se por poder    paralelo o poder informal exercido sobre os moradores locais por grupos ligados    ao tr&aacute;fico de drogas e pelas mil&iacute;cias (grupos de repress&atilde;o    que se apropriam de pr&aacute;ticas de seguranca e cobran&ccedil;a por servi&ccedil;os).      <p>&nbsp;      <p><a name="a1"></a><a href="#topa1">*</a> Universidade do Estado do Rio de Janeiro,    Rua Evaristo da Veiga, 95, 2200031-040 Rio de Janeiro, Brasil. e-mail: <a href="mailto:mtventura@esdi.vuerj.br">Mtventura@esdi.vuerj.br</a>.       ]]></body><back>
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<surname><![CDATA[Andrade]]></surname>
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<year>1999</year>
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