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</front><body><![CDATA[ <p><b>Obituário</b></p>        <p><b>Claude Lévi-Strauss (1908-2009) O profeta      da antropologia arcaica</b></p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Frederico Delgado Rosa<sup>*</sup></b></p>      <p><sup>*</sup> Departamento de Antropologia, FCSH, Universidade Nova de Lisboa,    Av. de Berna, 26-C, 1069-061 Lisboa, Portugal. e-mail: <a href="mailto:fdelgadorosa@hotmail.com.">fdelgadorosa@hotmail.com</a>     <p>&nbsp;     <p>Claude Lévi-Strauss      morreu fora do seu tempo. Coberto em vida de todas as honras que o sistema      francês é exímio a dispensar às grandes figuras da pátria, levou para o túmulo      um certo amargo de boca: a percepção clara de que a maioria dos antropólogos      da contemporaneidade não se revê na sua obra. Foi exactamente há um quarto      de século, no ano do adeus à academia, que o monstro sagrado reconheceu que      o estruturalismo estava fora de moda, já sem contar com os violentos ataques      de que fora alvo nas décadas anteriores, sobretudo oriundos da ala marxista.      A verdade é que manteve até ao fim, qual James Frazer gaulês, o seu inabalável solipsismo      científico; com uma diferença porém acentuada em relação ao comparatista      universal escocês. Enquanto este dizia que do <i>ramo dourado</i> só ficaria      para a posteridade a compilação bruta de relatos etnográficos, e não a teoria      nem o método, Lévi-Strauss estava profundamente      convencido do valor perene dos seus próprios princípios. Sucede que a dimensão      colossal da sua obra é indissociável do imenso oceano das etnografias de terceiros,      em especial das duas Américas, no qual navegava com      uma erudição sobre-humana. Muito simplesmente, Lévi-Strauss      foi, de todos os grandes antropólogos do século xx, o que maior uso deu à própria história da disciplina enquanto      arquivo de registos passados. Poucos foram aqueles que no seu tempo, e certamente      ninguém depois dele, reconheceram de forma tão enfática a importância da etnografia      de salvação como legado imorredoiro para a humanidade. Ora a sorte da sua      empresa comparativa vai justamente agarrada a esse destino,      não tanto por ser um veículo de compilação e, por conseguinte, de transmissão      das fontes etnográficas, mas porque forma com elas uma <i>Weltanschauung</i>.       </p>        <p>O mundo de Lévi-Strauss não podia ser mais contrário, numa série de pontos      cruciais, à sensibilidade dominante na cena antropológica das últimas três      décadas, marcada por uma deriva historicizante em      torno das variações internas e dos poderes coloniais e pós-coloniais, quer      a nível local, quer no plano macroscópico. Só mesmo na aparência é que a fractura      dos conceitos de cultura e de sociedade dialoga com o investimento de Lévi-Strauss na comparação transversal de instituições mais      ou menos subtraídas aos seus contextos de origem. O mesmo se pode dizer da      sua manipulação das discrepâncias empíricas numa mesma sociedade, seja o incumprimento      de uma regra de casamento ou a versão empobrecida de um mito. Para usarmos      uma fórmula dramática, a globalização não representava para ele um novo mundo      de oportunidades a explorar, mas uma condenação da etnografia a refugiar-se      cada vez mais nos últimos confins selvagens do planeta. Sem dúvida que uma      grande parte dos antropólogos do século xxi teria dificuldade em fazer com inteira convicção o elogio      póstumo de um homem que depositou toda a sua energia na perpetuação dos povos      “ditos primitivos” como objecto privilegiado da disciplina — inclusive se      viesse a acontecer a derradeira extinção dos mesmos. Este cenário não era      apenas hipotético para Lévi-Strauss, mas uma ameaça      bem real. Nesse dia, a antropologia passaria a explorar, durante séculos,      a enorme massa de materiais acumulados enquanto foi tempo. A ciência não perderia      o seu objecto, mas perderia o trabalho de campo. </p>        <p>Como é que uma      antropologia de propósito universalista, como era a sua, apostada em compreender      os meandros da unidade psíquica do homem, veiculava ao mesmo tempo uma dicotomia      tão flagrante entre a pureza exótica e a contaminação ocidental? Isto só poderá      soar contraditório para quem persista em confundir a universalidade formal      das relações com a recorrência de alguns termos, sobretudo mitológicos, em      vastas áreas que Lévi-Strauss considerava pré-historicamente      ligadas entre si, o que constitui, aliás, um erro frequente na leitura da      sua obra. Ele próprio teve ocasião de precaver os incautos contra a ideia      de que haveria, por exemplo, qualquer correspondência necessária entre a mulher      e a natureza, ou entre o homem e a cultura. Se assim fosse, a crítica que      dirigiu ao funcionalismo de Malinowski, de extraordinária      pobreza nas conclusões, virar-se-ia contra si mesmo: para quê tantos milhares      de páginas de colorida profusão etnográfica se culminavam numa <i>boutade</i>generalizadora? De facto, o estruturalismo      valoriza tanto as formas como a variedade dos conteúdos, ou nunca teria gozado      das audiências de que gozou fora do meio académico. É uma antropologia de      mel e de cinzas, como símbolos profundos da ancestralidade do Novo Mundo.      </p>        <p>Em 1952, convidado pela UNESCO a proferir a sua célebre conferência      “Raça e história”, Lévi-Strauss enfureceu muita      gente no momento em que afirmou a superioridade da civilização ocidental,      uma superioridade constatada subjectivamente pelo afã de tantos povos em se      lhe assemelharem, ou mesmo objectivamente através da desigualdade de forças,      nos casos de falta de adesão espontânea ao processo de ocidentalização. Com      um ímpeto iconoclasta que não se lhe conhecia, abalou o dogma do relativismo      cultural ao evocar a rejeição moral da antropologia por parte das elites das      jovens nações independentes, que desejavam encerrar no passado as tradições      bárbaras dos seus avós para melhor abraçarem a modernidade. Com o passar do      tempo, o escândalo amenizou-se e sobressaiu como cerne da mensagem de Lévi-Strauss a ideia de que a expansão cultural do Ocidente      a uma escala planetária era um acontecimento perfeitamente inédito na história      da humanidade. A intensificação do fenómeno parecia irreversível e tinha consequências      muito graves para a diversidade de longa duração dos seis continentes. Da      mesma forma que não lhe interessavam como objecto antropológico os fenómenos      de aculturação ocidental do século xx — ou, nas suas palavras, a transformação dos <i>indígenas</i>      em <i>indigentes </i>—, também os descurava nas fontes mais antigas. Embora      pudesse identificar empréstimos europeus em tradições registadas pela etnografia      de salvação oitocentista e das primeiras décadas do século xx, ou até por viajantes e missionários      de outras eras, raramente eram de molde a prejudicar em bloco a validade da      empresa de busca da autenticidade estrutural nativa. </p>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p>É por de mais sabido      que esta perspectiva levanta problemas especiais em relação a contextos de      trepidante desintegração cultural, e é claro que os havia há muito nas duas      Américas, para não falar da Austrália dos Kariera      e dos Aranda. O facto é que na obra de Lévi-Strauss são raríssimas as ocasiões em que se consegue      perceber a diferença ou em que procurou explicitamente demonstrar o prévio      criticismo das fontes. O que impera de um livro para outro, chocando os leitores      mais sensíveis, é sempre a majestática intemporalidade do presente etnográfico.      Os sioux setentrionais <i>vivem</i>      da caça ao bisonte, e não importa para o caso a dizimação da espécie no século      xix nem o acantonamento dos      índios em reservas. Clark Wissler, o simplório de Indiana, ao menos elegeu o cavalo      de introdução espanhola como principal marca distintiva dos índios das planícies      do período histórico até 1880. E conjugava todos os verbos no passado...</p>        <p>Devemos entretanto relembrar que, para Lévi-Strauss,      o contacto com o ocidente não      representou a entrada desses povos na história. Muito pelo contrário, sempre      rejeitou com o maior vigor a ideia de que os “ditos primitivos” estivessem      parados no tempo ou tivessem algo que ver com os genuínos arcaísmos descobertos      pela arqueologia pré-histórica. Para os objectivos da sua antropologia, contudo,      era muito diferente a história de um continente essencialmente fechado sobre      si e a assimilação do mesmo por uma vaga crescente de colonizadores oriundos      de uma civilização mecânica. A demonstração de que havia um fundo cultural      comum aos diferentes povos autóctones das Américas não será a mais falada,      mas é uma das mais espantosas do estruturalismo. Recordemos a imagem vibrante      de uma Idade Média ameríndia que não tivera a sua Roma. As concordâncias entre      as terras altas do Peru e do México e as terras baixas da Amazónia não se      deviam à efectividade hegemónica dos impérios, mas a uma situação inicial      que não era espelhada por nenhuma das partes conhecidas. Os seus nambikwara      não eram arcaicos, mas sim pseudo-arcaicos, conservando      vestígios da velha filigrana civilizacional, como o famoso veneno <i>curare</i>.      Foi precisamente nas <i>Mythologiques,</i>      com o objectivo, aliás, de rebater as acusações de idealismo, que Lévi-Strauss assumiu esses resultados concretos da análise      comparativa. Não acalentava, note-se bem, quaisquer pretensões de reconstituição      histórica exacta, ou simplesmente plausível, dos movimentos e das guerras      e das trocas entre as gentes do mesmo substrato original; e, pelo contrário,      considerava que os difusionismos se propunham alcançar      o impossível. Até os resultados de Franz Boas lhe      pareciam demasiado mitigados para justificarem tamanho esforço. Não restem      porém quaisquer dúvidas de que Lévi-Strauss tinha      uma <i>Weltanschauung</i> difusionista      e em certa medida degeneracionista. Aos especialistas      de outras regiões do mundo, igualmente vastas, lançava o repto de ousarem      trazer à superfície as respectivas simbologias antigas. </p>        <p>É na relação peculiar entre a antropologia estrutural e a história      que reside a chave do mistério do presente etnográfico de Lévi-Strauss e do estonteante à vontade com que nele se movia.      A metáfora que utilizou foi a de Jano, o deus das      duas faces. Se a história avançava na direcção do inconsciente, fazia-o de      costas, recuando com os olhos sempre fixados no concreto que era o seu verdadeiro      interesse, enquanto a antropologia marchava incauta e bem de frente para as      estruturas, levando às costas a recheada bagagem das etnografias. Ao afirmar      que a antropologia tinha justamente por tarefa eliminar dos fenómenos sociais      tudo aquilo que deviam à reflexão e ao acontecimento, Lévi-Strauss estava a contribuir para o fosso que existe entre      o seu pensamento e as práticas prevalecentes na comunidade antropológica da      viragem do século xxi. Do seu      ponto de vista, e admitindo que é possível uma perspectiva global das tendências      em cena, aquilo que se faz hoje é basicamente história, e não antropologia.      Ou, quando muito, é etnografia, o que vai dar ao mesmo, pois, no seu entender,      esta constitui uma forma de história. É que, para Lévi-Strauss, que se dizia, afinal, um grande amigo de Heródoto,      <i>o que foi dito ontem é história e o que foi dito há um minuto também é      história</i>.  </p>        <p>Neste ponto, a sua antropologia      arcaica dá uma bofetada de luva branca a quem dela desdenha. Foi mergulhado      em bibliotecas e arquivos que o ilustre e introvertido visitante francês passou      a maior parte do seu tempo nas duas Américas e daí lhe ficou uma compreensão      muito profunda da grandeza dos esforços etnográficos passados, de um Richard      Mayne ou de um Marius Barbeau, de um Archie Phinney ou de um Thomas McIlwraith, de um George      Dorsey ou de um William Hoffman      e de tantos milhares de outros nomes e referências — quantas em português      do Brasil! —, que não entram nos manuais ou sequer      nos dicionários. Apesar de não pretender reconstituir o passado dos índios      num sentido literal, exumou estoicamente toda essa bibliografia, num hino      implícito à magnitude da mesma, sem a qual a sua própria obra não existiria.      Porém, muitas das pessoas que hoje se dizem preocupadas com a história são      capazes de ignorar impavidamente a etnografia de salvação, a pretexto de estudarem      variações e mudanças contemporâneas, em detrimento de continuidades culturais      — ou estruturais — julgadas demasiado abstractas. Lévi-Strauss      suspeitava, e bem, que este procedimento de avestruz, além de ser paradoxal,      tinha muito a ver com a tremenda dificuldade e a forçosa erudição do trabalho      de sapa. De uma coisa ele estava seguro: os sioux      nunca deixariam de caçar bisontes. Porque um dia os caçaram, mas sobretudo      porque alguém os observou e descreveu nesse dia, continuariam para sempre      a ser objecto de estudo — independentemente do reduzido lugar que ocupam no      capítulo pós-moderno da história da antropologia. Do alto da sua grandeza,      Claude Lévi-Strauss folheia-o de      sorriso na boca, já sem o amargo da morte, pois sabe que partilha o mesmo      destino que os “ditos primitivos”. </p>      ]]></body>
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