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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Demografia, mercado de trabalho e imigração de substituição: tendências, políticas e prospectiva no caso português]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Demography, labour market and replacement migration: trends, policies, and prospects in the Portuguese case]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,UTL - Universidade Técnica de Lisboa ISEG - Instituto Superior de Economia e Gestão SOCIUS - Centro de Investigação em Sociologia Económica e das Organizações]]></institution>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This article seeks to contribute to the debate on the issues of the socioeconomic consequences of demographic ageing in Portugal, the available policy responses to this problem, and replacement migration as a partial solution. It begins by presenting and discussing the demographic ageing dynamics currently in place, as well as their potential consequences; it then lists the available instrumental alternatives and their respective advantages, disadvantages, and structural limitations; and, finally, it analyses the recent Portuguese experience in terms of migration dynamics and policies, under the light of the potential contribution of immigration to mitigating the consequences of demographic ageing.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p><b>Demografia, mercado de trabalho e imigração de substituição: tendências,    políticas e prospectiva no caso português<a name="top3"></a><a href="#3">***</a></b></p>      <p>&nbsp;</p>     <p><b>Alexandre Abreu*,  João Peixoto** </b></b></p>     <p>* Centro de Estudos Geográficos, Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras,    Alameda da Universidade, 1600-214 Lisboa, Portugal. e-mail: <a href="mailto:alexabreu@soas.ac.uk.">alexabreu@soas.ac.uk.</a></p>      <p>** SOCIUS, Instituto Superior de Economia e Gestão, Universidade Técnica de    Lisboa, Rua Miguel Lupi, 20, 1249-078 Lisboa, Portugal. e-mail: <a href="mailto:jpeixoto@iseg.utl.pt.">jpeixoto@iseg.utl.pt.</a></p>      <p>&nbsp;</p>        <p>Este artigo visa contribuir para o debate sobre as consequências socioeconómicas    do envelhecimento demográfico em Portugal, discutindo as respostas políticas    disponíveis para fazer face a este problema, entre as quais a imigração de substituição.    Para tal, apresentam-se e discutem-se as dinâmicas de envelhecimento actualmente    em curso, bem como as suas potenciais consequências; enunciam-se as alternativas    instrumentais disponíveis, assim como as suas vantagens, desvantagens e limitações,    e analisa-se a experiência recente ao nível das tendências e políticas migratórias,    à luz do potencial contributo da imigração para a mitigação das consequências    do envelhecimento demográfico.</p>      <p><b>Palavras-chave:</b> envelhecimento demográfico; mercado de trabalho; migrações    de substituição; imigração.</p>     <p>&nbsp;</p>      <p><b>Demography, labour market and replacement migration: trends, policies, and prospects in the Portuguese case </b></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>This article seeks to contribute to the debate on the issues of the socioeconomic consequences of demographic ageing in Portugal, the available policy responses to this problem, and replacement migration as a partial solution. It begins by presenting and discussing the demographic ageing dynamics currently in place, as well as their potential consequences; it then lists the available instrumental alternatives and their respective advantages, disadvantages, and structural limitations; and, finally, it analyses the recent Portuguese experience in terms of migration dynamics and policies, under the light of the potential contribution of immigration to mitigating the consequences of demographic ageing.</p>      <p><b>Keywords: </b>demographic ageing; labour market; replacement migration; immigration.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Introdução</b></p>      <p>A generalidade dos países europeus encontra-se actualmente perante um acentuado    processo de envelhecimento demográfico. Na sua origem encontra-se a conjugação,    ao longo das últimas décadas, do aumento sustentado da esperança média de vida    com o declínio da fecundidade para mínimos históricos. Em termos estritamente    demográficos, estas duas últimas tendências têm-se traduzido, e continuarão    a traduzir-se, no aumento dos índices de dependência total e de idosos, sendo    ainda provável que, num horizonte temporal mais ou menos distante, conforme    os casos, conduzam também a uma diminuição em termos absolutos da população    autóctone da generalidade dos países europeus. No que se refere aos efeitos    sobre o bem-estar económico e social das populações, as potenciais consequências    nefastas destes processos prefiguram-se de uma forma acentuada como realidades    inevitáveis. No cenário correspondente à manutenção da trajectória recente das    diversas variáveis relevantes, serão cada vez mais fortes as pressões sobre    as despesas pública e privada (nomeadamente ao nível dos sistemas de segurança    social) e, de uma forma mais geral, impor-se-á uma transformação radical dos    mecanismos sociais de participação nas esferas da produção e do consumo. </p>      <p>Em face destas perspectivas, impõe-se naturalmente a procura e discussão de soluções — se não com vista à eliminação do problema (objectivo irrealista face à dimensão e inércia dos processos), pelo menos no sentido da mitigação das suas consequências. Porém, as possíveis respostas à disposição das sociedades europeias não são muitas, sendo ainda mais reduzidas as que se apresentam como susceptíveis de mobilização eficaz. </p>      <p>Neste contexto, o recurso à chamada “imigração de substituição”, mediante a qual contingentes crescentes de imigrantes com uma estrutura etária e níveis de actividade mais favoráveis compensariam o envelhecimento da população autóctone, tem sido sugerida como uma das componentes possíveis da resposta ao problema. Porém, está longe de ser pacífica: para além da inevitável reacção xenófoba que inevitavelmente suscita, essa possível solução é também posta em causa em virtude tanto dos custos que acarreta como da sua insuficiência face à magnitude dos processos demográficos em causa (United Nations, 2000). </p>      <p>É certo que quaisquer decisões em relação às possíveis soluções a adoptar assumem fundamentalmente um carácter não técnico, mas político. Estão em causa as preferências colectivas das populações europeias em relação às características futuras das suas sociedades. Assim, tais escolhas deverão caber democraticamente a essas mesmas populações e não a quaisquer especialistas que, de forma tecnocrática, procurem revestir as suas preferências de uma aura de inevitabilidade. Porém, tais decisões não poderão ser tomadas de forma verdadeiramente consciente e democrática se não assentarem num conhecimento tão rigoroso e alargado quanto possível dos processos em causa. Qual é a actual e previsível magnitude do problema? Quais as suas consequências? Quais as possíveis soluções? Quais as vantagens e desvantagens de cada uma dessas soluções? De que forma é que as características dos <i>stocks</i> e fluxos migratórios no passado recente permitem perspectivar a imigração de substituição como solução parcial? Finalmente, que lições podem ser retiradas da experiência passada em matéria de imigração e integração, de modo a maximizar as vantagens e minimizar as desvantagens da imigração de substituição como possível solução para o problema do envelhecimento demográfico?</p>      <p>Este artigo pretende ser um contributo para a discussão e esclarecimento das    questões acima enunciadas. Na primeira secção passa em revista de forma sumária    as tendências demográficas que estão na origem do envelhecimento demográfico    em Portugal, apresenta e discute os resultados de dois conjuntos de projecções    demográficas para as próximas décadas e refere algumas das previsíveis consequências    sociais e económicas associadas aos resultados dessas projecções. Na secção    seguinte procura identificar de forma exaustiva as soluções possíveis para os    problemas associados ao envelhecimento demográfico e discutir as limitações,    vantagens e desvantagens de cada uma dessas soluções. Dadas as limitações e/ou    desvantagens associadas a cada uma das soluções apresentadas, a secção que se    segue incide em particular sobre a imigração de substituição como solução parcial.    Referem-se e discutem-se as principais tendências e características do regime    migratório português, as políticas de imigração e integração adoptadas no passado    recente, bem como os seus sucessos e insucessos, e as implicações que daí advêm    para a eventual adopção de uma política de resposta ao envelhecimento assente    na imigração de substituição. Finalmente, enunciam-se as principais conclusões.</p>     <p>&nbsp;</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Tendências e projecções demográficas e suas principais consequências</b></p>      <p>Na origem dos processos de envelhecimento demográfico por que passa actualmente    a sociedade portuguesa encontram-se dois processos distintos (ainda que relacionados    entre si), análogos aos verificados em muitos outros países industrializados:    o declínio das taxas de mortalidade específicas, que se reflectem no aumento    da esperança média de vida à nascença (EVN), e a diminuição da fecundidade,    expressa no declínio do índice sintético de fecundidade (ISF). Tanto num caso    como no outro, a mudança verificada ao longo do último meio século pode ser    considerada impressionante: entre 1960 e 2005, a EVN<sub> </sub>aumentou cerca    de quinze anos tanto para os homens como para as mulheres e o ISF, que (ainda    que de forma menos exacta) pode ser interpretado como o número médio de filhos    por mulher, registou um decréscimo de 3,1 para 1,4, tendo descido abaixo do    valor habitualmente considerado o limiar de substituição de gerações (2,1 em    1983). Os gráficos n.<sup>os</sup> 1 e 2 ilustram as trajectórias destes dois    indicadores em Portugal entre 1960 e 2005.</p>     <p>&nbsp;</p>      <p><b>Esperança média de vida à nascença, homens e mulheres (Portugal, 1960-2005)</b></p>      <p>[gráfico n.º 1]</p>      <p><img src="/img/revistas/aso/n193/n193a04g1.jpg" width="523" height="420"></p>      
<p>&nbsp;</p>      <p><b>Índice sintético de fecundidade (Portugal, 1960-2005)</b></p>      <p>[gráfico n.º 2]</p>      <p><img src="/img/revistas/aso/n193/n193a04g2.jpg" width="523" height="420"></p>      
]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>Este tipo de regime demográfico resulta quase inevitavelmente em processos    de envelhecimento demográfico — de forma mais ou menos imediata — e de declínio    populacional — habitualmente num horizonte temporal mais alargado, em virtude    da chamada inércia demográfica. Na verdade, enquanto o declínio da fecundidade    e o aumento da esperança de vida concorrem no sentido da intensificação do envelhecimento    (pela base e pelo topo), estes dois processos actuam em sentido contrário no    que se refere ao declínio populacional. Num contexto de aumento significativo    da esperança média de vida, o declínio demográfico decorrente de níveis de fecundidade    abaixo do limiar de substituição de gerações<a href="#_edn1" name="_ednref1" title=""><sup>[1]</sup></a>    apenas se faz sentir com algumas décadas de desfasamento em relação ao início    do processo de envelhecimento. No caso português, este declínio demográfico    pode ser considerado praticamente inevitável, embora seja ainda incerto o horizonte    temporal no qual se fará sentir.</p>      <p>A quantificação prospectiva destas tendências pode ser efectuada com recurso    a projecções demográficas, habitualmente assentes na elaboração de diferentes    cenários em matéria de fecundidade, mortalidade e saldos migratórios futuros.    Neste artigo recorremos a dois conjuntos distintos de projecções que entre si    abarcam um conjunto bastante alargado de cenários: as elaboradas pelo INE para    o período de 2000-2050 (INE, 2004a) e as elaboradas pelo Central European Forum    for Migration Research (CEFMR) para o período de 2004-2054 (Bijak e Kupiszewski,    2007). Os gráficos n.<sup>os</sup> 3 e 4 apresentam os resultados desses dois    conjuntos de projecções no que se refere à evolução da população residente total    de Portugal. Como é possível verificar, os resultados das projecções do INE    implicam um declínio acentuado da população residente mesmo no cenário “elevado”    (que corresponde a uma forte, e decerto improvável, recuperação da fecundidade).    No cenário “baixo”, correspondente a saldos migratórios modestos e à continuação    do declínio da fecundidade, a população total residente em Portugal situar-se-á    em 2050 em cerca de 7 500 000 habitantes (por contraste com os mais de 10 500    000 da actualidade). Já as projecções do CEFMR permitem esperar um menor decréscimo    — ou até um aumento — da população residente durante o período em análise: em    dois dos cenários considerados (<i>status quo</i> e “fecundidade elevada”),    a população residente em 2054 é superior à registada na actualidade. Como é    evidente, as diferenças entre os resultados dos dois conjuntos de projecções    resultam necessariamente de diferenças ao nível das hipóteses colocadas quanto    à evolução futura das componentes demográficas fundamentais (fecundidade, mortalidade    e saldo migratório). O leitor é remetido para INE (2004a) e Bijak e Kupiszewski    (2007) para uma apresentação detalhada das hipóteses consideradas em cada cenário,    mas bastará aqui referir que os cenários mais populosos das projecções do CEFMR    resultam no essencial da assunção de hipóteses francamente mais “optimistas”    em matéria de saldos migratórios futuros — as quais, dentro do período em análise,    permitem compensar a (ainda assim inevitável no longo prazo) tendência “natural”    para o declínio demográfico.</p>     <p>&nbsp;</p>      <p><b>População residente, Portugal, projecções INE 2010-2050, cenários “base”,    “baixo” e “elevado”</b></p>      <p>[gráfico n.º 3]</p>      <p><img src="/img/revistas/aso/n193/n193a04g3.jpg" width="507" height="420"></p>      
<p>&nbsp;</p>     <p><b>População residente, Portugal, projecções CEFMR 2004-2054, cenários “desenvolvimento”,    “fecundidade elevada”, “estagnação” e<i> status quo</i></b></p>      <p>[gráfico n.º 4]</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><img src="/img/revistas/aso/n193/n193a04g4.jpg" width="507" height="464"></p>      
<p>&nbsp;</p>     <p>Se estes dois conjuntos de projecções se apresentam como algo contrastantes    no que diz respeito à evolução futura da população residente (pelo menos no    período em análise), isso já não sucede no que se refere ao envelhecimento demográfico    (quadro n.º 1). Mesmo no mais “optimista” dos cenários em análise (cenário “elevado”    do INE), o índice de dependência de idosos<a href="#_edn2" name="_ednref2" title=""><sup>[2]</sup></a>    (IDI) regista um aumento de 24,2% em 2001 para 53,7% em 2050. Em qualquer dos    cenários alternativos considerados por qualquer dos dois conjuntos de projecções,    esse aumento é ainda maior. Tendo em conta que estes sete cenários cobrem um    conjunto muito alargado de possibilidades alternativas de evolução futura em    termos de fecundidade, mortalidade e saldo migratório, a constatação da inevitabilidade    de um muito acentuado processo de envelhecimento demográfico em Portugal torna-se    bastante consensual.</p>     <p>&nbsp;</p>      <p><b>Índice de dependência de idosos em 2001 e projecções 2050/2054, segundo os cenários elaborados pelo INE/CEFMR</b></p>      <p><i>(em percentagem)</i></p>      <p>[quadro n.º 1]</p>      <p><img src="/img/revistas/aso/n193/n193a04q1.jpg" width="561" height="192"></p>      
<p>&nbsp;</p>     <p>Tal como a própria designação do indicador indica, o aumento previsível do    IDI reveste-se de especial importância na medida em que traduz um agravamento    do “peso relativo” dos idosos dependentes e está tipicamente associado a problemas    de sustentabilidade dos sistemas de segurança social. Porém, o envelhecimento    demográfico apresenta ainda outras dimensões (Ribeiro, 2000), ilustradas nos    quadros n.<sup>os</sup> 2 e 3. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p> </p>     <p><b><a name="q2"></a>Rácio (40-64)/(15-64)*100 em 2001 (INE) e projecções 2050/2054,    segundo os cenários elaborados pelo INE/CEFMR</b></p>      <p><i>(em percentagem)</i></p>      <p>[<a href="#topq2">quadro n.º 2</a>]</p>      <p><img src="/img/revistas/aso/n193/n193a04q2.jpg" width="561" height="185"></p>      
<p>&nbsp;</p>      <p><b>Rácio (80+)/(65+)*100 em 2001 (INE) e 2050/2054, segundo os cenários elaborados    pelo INE/CEFMR</b></p>      <p><i>(em percentagem)</b></i></p>      <p>[quadro n.º 3]</p>      <p><img src="/img/revistas/aso/n193/n193a04q3.jpg" width="561" height="188"></p>      
]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>O quadro n.º 2 ilustra o aumento do peso relativo dos “adultos mais velhos”    (40-64) dentro do grupo dos indivíduos (15-64) em cada um dos cenários em análise.    Por sua vez, o quadro n.º 3 revela, em cada um desses cenários, a evolução do    peso relativo dos indivíduos com 80 ou mais anos de idade dentro do grupo dos    indivíduos com mais de 65 anos. Como pode ser observado, ambos os indicadores    registam um forte aumento ao longo do próximo meio século em qualquer dos cenários    considerados. Consequentemente, também o envelhecimento da população activa    e o envelhecimento da população idosa podem ser considerados altamente prováveis    em Portugal.<i> </i></p>     <p>As consequências destes três tipos de envelhecimento, para mais tendo em conta    as suas previsíveis ordens de grandeza, podem agora ser enunciadas. O aumento    do índice de dependência de idosos está tipicamente associado a um aumento da    pressão colocada sobre a população activa no sentido de assegurar o sustento    dos idosos dependentes através de mecanismos de solidariedade públicos ou privados.    No caso dos mecanismos públicos de redistribuição, estão em causa tanto a sustentabilidade    do sistema de segurança social como a necessidade de reafectação da despesa    pública (no sentido do aumento das despesas mais associadas às pessoas idosas);    no que diz respeito aos mecanismos privados, estão em causa os “contratos” implícitos    de solidariedade intergeracional, nomeadamente no seio das famílias. Num caso    como no outro, a amplitude das mudanças que se avizinham permite prever a necessidade    de transformações profundas, que certamente não estarão isentas de conflitualidade.    Por sua vez, o envelhecimento da população activa (quadro n.º 2) é tipicamente    problemático na medida em que pode estar associado a uma menor capacidade média    para a aquisição de novas competências — situação especialmente grave num contexto    em que todos os aumentos de produtividade serão poucos para acomodar o aumento    dos níveis de dependência. Finalmente, o envelhecimento da população idosa (quadro    n.º 3) assume-se como particularmente problemático na medida em que põe em causa    a possibilidade de fomento do envelhecimento activo e permite antever um aumento    da prevalência das situações mais graves (e onerosas) de dependência.</p>     <p>&nbsp;</p>      <p><b>As “soluções” teoricamente possíveis: limitações, vantagens e desvantagens</b></p>      <p>Para identificar as possíveis formas de mitigar as consequências futuras do processo de envelhecimento populacional atrás analisado importa começar por assinalar que esta é uma questão não só demográfica como económica, social e política. Ainda que na raiz do problema estejam processos demográficos, as suas consequências dependerão sobretudo da forma como a sociedade portuguesa se vier a organizar para assegurar níveis de produção e mecanismos de distribuição capazes de prover à população empregada e aos diversos grupos de dependentes.</p>      <p>Neste sentido, é útil começar por enunciar a seguinte identidade, que traduz uma forma de entender o valor total criado na nossa sociedade:</p>      <blockquote>       <p>Produto total = (produto total/n.º total de horas de trabalho realizadas)      * (n.º total de horas de trabalho realizadas/n.º total de trabalhadores empregados)      * (n.º total de trabalhadores empregados/população activa) * (população activa/população      residente) * população residente</p> </blockquote>     <p>Ou, o que é equivalente:</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>       <p>Produto total = produtividade do trabalho * tempo médio de trabalho * (1      — taxa de desemprego) * taxa de actividade<a href="#_edn3" name="_ednref3" title=""><sup>[3]</sup></a>      * população residente</p> </blockquote>     <p>O que esta expressão indica é que o produto <i>per capita</i> (que tem um significado económico muito mais relevante do que o valor absoluto do produto total) é uma função multiplicativa de quatro variáveis: taxa de actividade, taxa de desemprego, número médio de horas de trabalho realizadas por trabalhador e produtividade do trabalho. </p>      <p>O problema do envelhecimento pode agora ser analisado nestes novos termos (que, note-se, ainda não têm em conta a questão distributiva), na medida em que corresponde ao risco de uma redução do produto <i>per capita </i>como resultado directo (<i>i</i>) da forte probabilidade de um acentuado declínio da taxa de actividade por causas demográficas e (<i>ii</i>) da possível deterioração da produtividade do trabalho em resultado do envelhecimento da população activa.</p>      <p>Porém, mais do que concebermos o problema do envelhecimento desta forma, a    proposta deste artigo consiste em recorrer às quatro variáveis constantes da    identidade atrás referida para entre elas procurarmos as possíveis variáveis    instrumentais a mobilizar para dar resposta a esse mesmo problema. Olhemos então    cada uma delas mais de perto, de modo a identificarmos as suas possíveis vantagens,    desvantagens e limitações.</p>     <p>&nbsp;</p>      <p><b>Taxa de actividade</b></p>      <p>De uma forma geral, a taxa de actividade exprime a relação entre o número de    pessoas disponíveis para trabalhar (isto é, empregadas ou desempregadas à procura    de emprego) e a população total. Como é evidente, esta relação quantitativa    é fortemente condicionada pela estrutura demográfica: é raro (e, em princípio,    ilegal) que jovens com menos de 15 anos de idade se contem entre os activos,    como é também relativamente comum que os indivíduos com mais de 65 anos de idade    se encontrem aposentados. É exactamente por estas duas idades corresponderem    de alguma forma à entrada e saída do mercado de trabalho que os índices de dependência    (de jovens, de idosos e total) as consideram na definição dos diversos grupos    de dependentes e activos potenciais. No entanto, esta correspondência está longe    de ser perfeita. Como é visível no quadro n.º 4, é no grupo com idades entre    os 25 e os 54 anos que as taxas de actividade são mais elevadas, verificando-se    “fugas” muito consideráveis para a inactividade tanto entre os adultos jovens    (15-24, fundamentalmente devido à continuação do percurso escolar) como entre    os adultos mais velhos (55-64, no essencial devido à aposentação “precoce”).    Quer isto dizer que eventuais aumentos da taxa de actividade com recurso às    “franjas” da idade tipicamente activa se encontram constrangidas por outros    mecanismos e estruturas sociais. Se atentarmos na comparação, em 2005, entre    a situação em Portugal e na UE25 como um todo, verificamos que as taxas de actividade    em Portugal são já bastante elevadas, nomeadamente (<i>i</i>) entre as mulheres,    em especial com mais de 25 anos (em parte reflexo da pressão no sentido da entrada    da mulher no mercado de trabalho aquando do período de emigração massiva e guerra    colonial) e (<i>ii</i>) entre os adultos mais velhos (55-64), reflexo de uma    idade média de aposentação bastante superior à média europeia (63,1 anos em    2005, contra 60,9 na UE25). É apenas entre os adultos mais jovens (15-24) que    Portugal se encontra aquém da média europeia.</p>     <p>&nbsp;</p>      <p><b>Taxas de actividade por grupos etários, homens, mulheres e total (Portugal    e UE-25, 2005)</b></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>[quadro n.º 4]</p>      <p><img src="/img/revistas/aso/n193/n193a04q4.jpg" width="523" height="420"></p>      
<p>&nbsp;</p>     <p>Se olharmos para estes dados numa perspectiva instrumental — isto é, com o    objectivo de identificar quais os grupos etários nos quais se poderá “apostar”    de modo a aumentar a taxa de actividade global — e utilizarmos os valores europeus    como referência, chegamos às seguintes conclusões: (<i>i</i>) a margem de aumento    da taxa de actividade entre os adultos mais velhos e os idosos é desde já francamente    mais reduzida do que na UE25 como um todo, dada a idade de reforma mais tardia.    Ainda que as medidas conducentes ao fomento do envelhecimento activo sejam sempre    recomendáveis num contexto de envelhecimento, será difícil esperar resultados    espectaculares, uma vez que, no caso português, a actividade já é muitas vezes    prolongada para além dos 65 anos (certamente mais do que na Europa em geral);    (<i>ii</i>) as taxas de actividade entre as mulheres (entre outros aspectos,    fortemente relacionadas com o calendário reprodutivo) são também mais elevadas    do que na UE25, o que poderá ser surpreendente, tendo em conta a relativa insuficiência    das infra-estruturas de apoio à maternidade e paternidade. Assim, por mais que    as medidas de apoio à conciliação entre a vida pessoal, familiar e profissional    sejam meritórias em si mesmas, também aqui será difícil esperar uma evolução    muito significativa, ainda que possamos considerar que o diferencial existente    entre os homens e as mulheres dos diversos grupos etários tem condições para    ser colmatado através de medidas adequadas; (<i>iii</i>) entre os adultos jovens    (15-24) de ambos os sexos parece haver bastante margem de progressão, sobretudo    tendo como referência os valores europeus. Para tal, é necessário o desenvolvimento    de estruturas e incentivos de apoio à conciliação entre o início da vida profissional    e a continuação da aquisição de conhecimentos e competências, sob pena de o    efeito sobre a taxa de actividade ser compensado negativamente pelo efeito sobre    a produtividade do trabalho.</p>      <p>Para além da actuação sobre as variáveis que determinam a taxa de actividade de cada sexo ou grupo etário específico, a mobilização da taxa de actividade como estratégia de combate ao envelhecimento pode também assentar na tentativa de actuação sobre a própria estrutura etária da população. Nesse sentido, são essencialmente duas as estratégias possíveis: políticas de incentivo à natalidade e a chamada “imigração de substituição”. A primeira estratégia pode assentar numa variedade de instrumentos, de que os mais conhecidos serão os incentivos financeiros directos e a criação ou reforço das infra-estruturas de apoio à maternidade e paternidade. Porém, a experiência europeia sugere que é extremamente difícil, e extremamente oneroso, influenciar os padrões de fecundidade de forma sensível. De entre os instrumentos à disposição, sugere também que o reforço das infra-estruturas de apoio (creches próximas e gratuitas, serviços de pediatria gratuitos e acessíveis, etc.) é, provavelmente, mais eficaz do que a atribuição de incentivos monetários directos. </p>      <p>No longo prazo, a retoma da fecundidade para níveis acima do limiar de substituição de gerações constitui a principal forma de evitar um processo crónico de envelhecimento demográfico, pelo que não podem deixar de ser saudadas quaisquer medidas bem estudadas e dirigidas de incentivo à natalidade (particularmente quando visem atenuar as restrições materiais com que os possíveis pais se defrontem nas suas opções livres, mais do que influenciar a sua estrutura de preferências). Porém, não podemos deixar de considerar que: (<i>i</i>) a consolidação de padrões de fecundidade “pós-modernos” na generalidade dos países europeus (e não só) é tão forte e disseminada que, pelo menos à luz da perspectiva actual, parece fortemente irrealista pensar que a solução para o envelhecimento poderá passar pelo regresso da fecundidade aos níveis de algumas décadas atrás; (<i>ii</i>) por outro lado, mesmo que bem sucedidos, os esforços no sentido da retoma da fecundidade possuem uma desvantagem e limitação transitórias, que estão associadas ao desfasamento que lhes está associado: durante os primeiros quinze anos após os seus efeitos se fazerem sentir, as crianças adicionalmente nascidas são elas próprias dependentes, contribuindo para aumentar os índices de dependência de jovens e total (só após pelo menos quinze anos — em média, mais — é que esse jovens se juntam à força de trabalho).</p>      <p>O recurso à imigração de substituição é também uma política de resposta ao envelhecimento demográfico assente na mobilização da taxa de actividade: os fluxos migratórios apresentam tipicamente uma estrutura etária mais “favorável” à actividade do que a das populações de acolhimento, para além de também se caracterizarem normalmente por taxas de actividade específicas (por sexo e grupo etário) mais elevadas. Para além disso, os próprios níveis de fecundidade das populações imigrantes são muitas vezes mais elevados do que os das populações autóctones: no caso português, por exemplo, o ISF em 2001 entre as mulheres de nacionalidade estrangeira era de 2,4, contra os 1,5 então verificados entre as mulheres portuguesas (Rosa, Seabra e Santos, 2004)<a href="#_edn4" name="_ednref4" title=""><sup>[4]</sup></a>. Por esse motivo, pode considerar-se que a imigração de substituição tem um impacto tanto directo quanto indirecto sobre a taxa de actividade através da estrutura etária, pelo que não pode deixar de ser considerada uma das mais importantes estratégias de combate ao envelhecimento demográfico. </p>      <p>Ainda assim, os mais cépticos defendem que a imigração não pode resolver os problemas demográficos (Coleman, 1992 e 2002; Lutz e Scherbov, 2006), alegando habitualmente três argumentos. O primeiro é que os próprios imigrantes acabam por envelhecer, pelo que a prazo se juntarão também ao contingente de dependentes. Ora, sendo certo que em muitos casos assim é, é também certo que muitos imigrantes acabam por regressar aos seus países de origem, como sucedeu, em Portugal, com a recente vaga de imigração da Europa de Leste. Pelo menos para já, não há dúvida de que as estruturas etárias das comunidades estrangeiras residentes em Portugal são muito mais jovens e menos dependentes do que a da população autóctone (Rosa, Seabra e Santos, 2004). </p>      <p>O segundo argumento tem a ver com os custos envolvidos: para além dos custos e/ou vantagens (consoante a perspectiva seja mais conservadora ou mais cosmopolita) associados à mudança e miscigenação cultural, é certo que a adopção de uma estratégia de imigração de substituição em grande escala envolve necessariamente encargos relativamente onerosos com medidas de apoio à integração (de modo a maximizar as vantagens da imigração e a reduzir a conflitualidade social). Porém, não deve  assumir-se que estes custos reduzem necessariamente a atractividade desta estratégia. Almeida (2003), por exemplo, demonstrou que os imigrantes têm proporcionado uma receita <i>líquida positiva</i> ao Estado português. Ora, a este efeito positivo sobre o sector <i>público </i>da economia há ainda que adicionar o efeito económico expansivo sobre o sector privado. Há, por isso, decerto margem para acomodar uma política de incremento da imigração, acompanhada por um maior investimento em medidas que minimizem não só o risco de integração problemática, como também o alastramento de sentimentos xenófobos. </p>      <p>Finalmente, o terceiro inconveniente associado à imigração de substituição tem a ver com a dimensão dos fluxos migratórios que se estima serem necessários para contrabalançar a magnitude do processo de envelhecimento demográfico em curso. Este argumento foi avançado de forma seminal no mesmo estudo das Nações Unidas em que a noção de imigração de substituição foi divulgada (United Nations, 2000), no qual se estimou que apenas fluxos migratórios acumulados próximos dos 700 milhões de imigrantes permitiriam manter constante o índice de dependência de idosos na Europa ao longo do período de 1995-2050 (número que contrasta com os 400 milhões de habitantes da Europa no início desse período). Num exercício semelhante para o caso português, Rosa, Seabra e Santos (2004) estimaram que seria necessário um saldo migratório positivo <i>anual </i>na ordem dos 188 000 indivíduos entre 2001 e 2021 para que o índice de dependência de idosos no final desse período fosse idêntico ao verificado no início do período — valor certamente impensável em vista da experiência histórica. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Este raciocínio é, porém, algo falacioso: a magnitude que necessariamente teria    de assumir uma resposta assente no recurso exclusivo a esta “solução” decorre    directamente da extensão do processo de envelhecimento em curso, sendo igualmente    verdade no caso de qualquer outra solução alternativa. O facto de uma estratégia    não ser <i>suficiente</i> como resposta única não implica que essa mesma estratégia    não seja <i>eficaz</i> como resposta parcial — e certamente a imigração de substituição    não se encontra constrangida por limitações estruturais análogas à da maioria    das “soluções” alternativas (como o envelhecimento activo ou as discutidas nas    próximas páginas).</p>     <p>&nbsp;</p>      <p><b>Taxa de desemprego</b></p>      <p>Uma vez que a população activa é igual à soma do número total de trabalhadores    empregados com o número total de desempregados, o nível de produção total alcançado    será, para uma mesma população activa e<i> ceteris paribus,</i> tanto maior    quanto menor for a taxa de desemprego. Nesse sentido, o combate ao desemprego,    para além de ser um objectivo político fundamental em si mesmo, assume uma importância    reforçada num contexto de envelhecimento e agravamento dos índices de dependência.    No caso português, é curioso verificar que tanto a taxa de emprego (de 67,5%    para 67,9%) como<i> </i>a taxa de desemprego (de 4,5% para 6,7%) registaram    aumentos entre 1999 e 2004, o que se deve ao aumento verificado ao nível da    taxa de actividade. Num contexto de forte reestruturação produtiva, existem    sempre fortes pressões estruturais no sentido do aumento do desemprego — tal    como ilustrado pela sobrerrepresentação, entre os desempregados, dos trabalhadores    anteriormente empregados nos sectores da indústria e construção (OEFP, 2006).    Naturalmente, tal constatação não implica que o desemprego não deva ser activamente    combatido quer nas suas consequências económicas (através do apoio à reconversão    e requalificação dos trabalhadores), quer nas suas consequências sociais (através    de uma “rede de protecção” solidária, eficaz e abrangente). Porém, o facto de    a taxa de desemprego em Portugal ao longo da última década (para uma taxa de    actividade superior, note-se) ser sistematicamente inferior e mais volátil do    que a sua congénere europeia (gráfico n.º 5) sugere que o mercado de trabalho    português pode ser já considerado muito flexível em termos relativos — pelo    que, ainda que deva constituir parte da “solução” para o problema do envelhecimento    (e um objectivo prioritário em si mesmo), o combate ao desemprego dificilmente    poderá produzir resultados minimamente comparáveis à dimensão do problema.</p>     <p>&nbsp;</p>      <p><b>Taxa de desemprego em Portugal e na UE-25 (1999-2005)</b></p>      <p>[gráfico n.º 5]</p>      <p><img src="/img/revistas/aso/n193/n193a04g5.jpg" width="523" height="420"></p>      
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Tempo médio de trabalho</b></p>      <p>Para uma mesma taxa de actividade e uma mesma taxa de desemprego, o produto    total será, <i>ceteris</i><i> paribus</i>, tanto maior quanto maior for o número    médio de horas de trabalho anuais realizadas por trabalhador. O valor deste    indicador em Portugal, em 2005, correspondeu a 1685 horas de trabalho, acima    (por exemplo) da França (1535), Reino Unido (1672) e Alemanha (1435) e abaixo    da Itália (1791), Espanha (1769), Estados Unidos (1804) e Coreia do Sul (2053).    Assumindo que o valor deste último país possa ser encarado como um valor de    referência teórico, haveria certamente margem para o incentivo ao aumento do    tempo médio de trabalho como parte de uma estratégia de resposta ao envelhecimento    demográfico em Portugal. Porém, há que ter em conta que: (<i>i</i>) tal “solução”    implica, obviamente, custos em termos de bem-estar, na medida em que reduz o    tempo disponível para o lazer e para a vida pessoal e familiar; (<i>ii</i>)    as horas “marginalmente” adicionadas ao tempo médio de trabalho caracterizam-se    habitualmente por uma menor produtividade média; (<i>iii</i>) a redução do tempo    disponível para a vida pessoal e familiar tende a ter um efeito negativo sobre    a fecundidade, por um lado, e sobre a aquisição de competências, por outro.    Por todos estes motivos, é necessário salientar que esta “solução” se caracteriza    pela ocorrência de efeitos compensatórios negativos que, até certo ponto, põem    em causa a sua eficácia. Isso não quer dizer que, num contexto de envelhecimento,    a adopção de medidas tendentes a incentivar a opção “livre” por parte dos trabalhadores,    no sentido de trabalharem mais horas caso essa seja a sua preferência, não deva    ser activamente prosseguida. Na verdade, num contexto de decréscimo da população    empregada (logo, de aumento do rácio capital/trabalho), é de esperar que o aumento    “automático” da produtividade do trabalho se traduza até certo ponto num aumento    dos salários, pelo que um tal aumento do tempo médio de trabalho terá até tendência    a acontecer espontaneamente. Ainda assim, mesmo um aumento deste indicador para    níveis semelhantes aos actualmente registados nos Estados Unidos (+7%) implicaria    consequências sociais bastante profundas, pelo que parece inevitável concluir    que também esta possível “solução” se encontra estruturalmente constrangida.</p>     <p>&nbsp;</p>      <p><b>Produtividade do trabalho</b></p>      <p>O aumento da produtividade do trabalho é, naturalmente, um objectivo político    importante em si mesmo. Depende não só das competências e conhecimentos dos    trabalhadores, como também das competências e conhecimentos dos gestores intermédios    e de topo, do rácio capital/trabalho (intensidade capitalística) e do padrão    de especialização produtiva. Não há dúvida de que, nesta matéria, é muita a    margem de progressão da economia portuguesa (<a name="topq2"></a><a href="#q2">quadro    n.º 2</a>). Porém, como será quase desnecessário assinalar, esta opção não é    facilmente mobilizável. Com ou sem envelhecimento, presume-se ser este um objectivo    sempre prosseguido, mas raramente alcançado nos parâmetros pretendidos. Ainda    assim, de uma forma algo simplista, é possível considerar que o aumento da produtividade    do trabalho pode ser levado a cabo através do fomento da aquisição de competências    por parte de trabalhadores e gestores, de incentivos estratégicos à reconversão    do padrão de especialização produtiva e de apoios ao investimento. </p>      <p>Naturalmente, partilhamos a visão segundo a qual tais medidas, aliás classicamente adoptadas pela generalidade dos países industrializados, devem ser prosseguidas e melhoradas tanto em quantidade como em qualidade. Esta conclusão sai apenas reforçada pelo espectro do processo de envelhecimento demográfico em curso. Porém, há que ter em conta as limitações estruturais que caracterizam a actuação do Estado nesta matéria, sendo raros e bastante idiossincráticos (particularmente num contexto de reestruturação produtiva mundial) os exemplos europeus de crescimento excepcionalmente acelerado da produtividade. Por outro lado, a afectação dos ganhos de produtividade à mitigação das consequências nefastas do envelhecimento demográfico tem necessariamente de operar por via de mecanismos de redistribuição. Nesse sentido, podemos considerar provável que, a traduzir-se num aumento significativo da carga fiscal média, esta solução depare com fortes resistências políticas.</p>      <p>Em suma, a magnitude do processo de envelhecimento demográfico em curso é tal que é impossível identificar uma única solução “mágica” para os problemas que lhe estão associados. Através da identidade apresentada no início desta secção, é possível constatar que as “soluções” possíveis podem ser enunciadas em termos de quatro variáveis: taxa de actividade, taxa de desemprego, tempo médio de trabalho e produtividade do trabalho. Cada uma destas possibilidades instrumentais apresenta as suas limitações específicas: as taxas de actividade “específicas” em Portugal são já relativamente elevadas face à média europeia, com excepção dos adultos jovens; a retoma da fecundidade só produz efeitos a longo prazo e é pouco sensível à actuação política; a imigração de substituição envolve encargos com políticas e medidas de integração; a taxa de desemprego tem apresentado valores relativamente baixos face à média europeia, pelo que, particularmente num contexto de reestruturação, dificilmente poderá ser muito mais reduzida; o número médio de horas de trabalho é já relativamente elevado em termos europeus, sendo que o seu aumento para níveis norte-americanos ou coreanos implicaria profundas mudanças sociais e culturais, para além de um considerável impacto negativo sobre o bem-estar dos trabalhadores; por fim, o recurso aos avanços em termos de produtividade do trabalho, para além de constituir um desafio em si mesmo, comporta riscos consideráveis de tensão política e conflitualidade social.</p>      <p>Como referimos no início desta comunicação, qualquer decisão quanto à combinação    de respostas a adoptar é uma questão <i>política</i>: cabe aos portugueses avaliar    de forma informada os custos e benefícios associados a cada uma das opções e    decidir democraticamente qual o pacote de políticas que melhor traduz as suas    preferências. Porém, é certo que essa opção se encontra constrangida por limitações    que nem sempre são suficientemente assinaladas. Nesse sentido, parece-nos inevitável    que o conjunto de soluções a adoptar terá de prever, em proporções a decidir    democraticamente, o recurso a três linhas de acção fundamentais (dado que as    restantes se encontram muito limitadas por diversos factores estruturais): (<i>i</i>)    medidas de incentivo à fecundidade, fundamentalmente assentes no reforço das    infra-estruturas de apoio à conciliação entre a vida pessoal, familiar e profissional,    na medida em que a retoma da fecundidade para níveis mais próximos do limiar    de substituição de gerações é, no longo prazo, a principal forma de evitar o    risco de um processo de envelhecimento crónico (ainda que as expectativas em    relação à eficácia de tais medidas devam ser modestas); (<i>ii</i>) medidas    de incentivo ao aumento da taxa de actividade específica entre os adultos jovens,    nomeadamente através de incentivos à conciliação entre o percurso escolar e    o início da vida profissional, uma vez que este é o único grupo no qual Portugal    apresenta valores abaixo da média europeia (logo, mais margem de progressão);    (<i>iii</i>) o recurso à imigração de substituição, uma vez que esta é a única    variável instrumental que não se encontra constrangida por limitações estruturais,    pois os custos sociais que lhe estão associados não constituem uma restrição    activa, na medida em que os imigrantes têm representado uma receita líquida    positiva para o Estado português e, por maioria de razão, um contributo positivo    para a economia portuguesa como um todo.</p>      <p>Tendo em conta a especificidade da imigração de substituição como solução parcial    — o seu carácter não <i>suficiente</i>, mas <i>singularmente isento de restrições    estruturais</i> <i>activas</i> —, importa olhar mais de perto para as tendências    recentes dos fluxos migratórios de e para Portugal, bem como para as políticas    adoptadas nessa matéria, de modo a retirar algumas ilações sobre a possível    futura adopção desta estratégia no contexto do processo de envelhecimento demográfico    actual e futuramente em curso.</p>     <p>&nbsp;</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Tendências migratórias e políticas de imigração e integração em Portugal:    a experiência recente</b></p>      <p>Esta secção visa apresentar e discutir as tendências e políticas migratórias    em Portugal no contexto do problema demográfico atrás apresentado. Sendo certo    que qualquer resposta política baseada, ainda que parcialmente, na imigração    de substituição deverá assentar na promoção de <i>saldos</i> migratórios positivos    e sustentados, e considerando que Portugal continua a apresentar um regime migratório    misto (em que coexistem fluxos de imigração e emigração substanciais), importa    ter em conta as tendências verificadas ao nível da imigração e da emigração.    Para concluir esta secção passar-se-ão em revista as principais fases e momentos    fundamentais das políticas de imigração e integração adoptadas no passado recente,    à luz dos seus objectivos declarados e da sua eficácia. </p>     <p>&nbsp;</p>      <p><b>Imigração</b></p>      <p>A afirmação de Portugal como destino significativo de fluxos migratórios está, no essencial, associada a dois momentos fundamentais da sua trajectória histórica: o processo de democratização e descolonização resultante da revolução de 25 de Abril de 1974 e a adesão à União Europeia (então CEE) em 1986. Na sequência do primeiro, acolheu centenas de milhares de “retornados” oriundos das ex-colónias (um processo marcante e muito significativo, mas historicamente circunscrito) e, mais significativamente, tornou-se um importante pólo de atracção no contexto de um sistema migratório pós-colonial. Na sequência do segundo, a modernização e internacionalização da economia portuguesa criaram as condições para a progressiva reconversão do mercado de trabalho em moldes mais próximos dos das economias capitalistas mais avançadas — nomeadamente no que se refere à estruturação do mercado de trabalho por segmentos, em que o chamado mercado de trabalho secundário se assume como repulsivo da população autóctone e especialmente atractivo para trabalhadores estrangeiros (Berger e Piore, 1980). As principais vagas migratórias para Portugal podem, assim, ser analisadas nesta perspectiva histórica — dos fluxos de imigrantes menos qualificados oriundos das ex-colónias africanas aos (quantitativamente menos significativos) fluxos de imigrantes altamente qualificados oriundos de outros países europeus no contexto da internacionalização da economia portuguesa. </p>      <p>Mais recentemente, num contexto de crescente globalização do mercado de trabalho,    de desenvolvimento das redes transnacionais de auxílio à imigração e de diminuição    das restrições à mobilidade no seio da União Europeia, o padrão geográfico da    imigração complexificou-se. Em particular, isso concretizou-se aquando das duas    principais vagas de imigração brasileira (a primeira, a partir de 1980, mais    qualificada e menos numerosa; a segunda, a partir da viragem do milénio, menos    qualificada e mais numerosa), da vaga de imigração a partir da Europa de Leste    (ao longo da última década e caracterizada por elevados níveis de desperdício    de competências, bem como por uma notável capacidade de ajustamento pró-cíclico    à conjuntura económica) e, de uma forma geral, da diversificação generalizada    das origens geográficas (com uma presença crescente de imigrantes oriundos da    China e da Ásia do Sul). No quadro n.º 5 apresenta-se a distribuição por nacionalidades    da população estrangeira <i>legalmente </i>residente em Portugal em 2005, a    qual ilustra bem o efeito acumulado das dinâmicas referidas neste parágrafo.</p>     <p>&nbsp;</p>      <p><b>Estimativa da população estrangeira legalmente residente em Portugal em    2005 (ARs + APs + VLDs<a href="#_edn5" name="_ednref5" title=""><sup>[5]</sup></a>)</b></p>      <p>[quadro n.º 5]</p>      <p> <img src="/img/revistas/aso/n193/n193a04q5.jpg" width="523" height="420"> </p>      
]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>A participação dos estrangeiros no mercado de trabalho português é significativamente    mais polarizada do que a dos trabalhadores autóctones: os primeiros encontram-se    sobrerrepresentados tanto nos segmentos mais qualificados quanto nos menos qualificados    do mercado de trabalho (Baganha, Ferrão e Malheiros, 2002; Baganha, Góis e Pereira,    2005; Peixoto, 2002). Essa sobrerrepresentação é, porém, geograficamente diferenciada:    enquanto os imigrantes africanos, da Europa de Leste e a segunda vaga de imigrantes    brasileiros se encontram principalmente no mercado de trabalho “secundário”,    os imigrantes europeus, norte-americanos e a primeira vaga de imigrantes brasileiros    estão fundamentalmente presentes no mercado de trabalho “primário”, enquanto    empresários, em cargos de gestão e direcção ou em profissões técnicas ou científicas    liberais.</p>      <p>Em vista de realidade da inserção dos trabalhadores estrangeiros na economia    portuguesa ao longo dos últimos anos, é possível argumentar que os principais    problemas que se têm colocado a um mais pleno e harmonioso aproveitamento do    potencial contributo dos imigrantes para a economia portuguesa são: (<i>i</i>)    o problema da exploração a que são sujeitos muitos desses trabalhadores em virtude    da sua maior vulnerabilidade; (<i>ii</i>) a questão do trabalho informal, que    implica uma perda de receita fiscal para o Estado português, direitos laborais    inferiores para os trabalhadores em causa e a percepção por parte dos trabalhadores    nativos de que os imigrantes constituem uma fonte de concorrência desigual;    (<i>iii</i>) o desperdício de competências associado aos obstáculos e “telhados    de vidro” formais e informais que se colocam aos trabalhadores estrangeiros,    designadamente devido a situações de discriminação e às dificuldades que continuam    a existir em termos do reconhecimento e validação de competências. A ideia de    uma concorrência significativa entre os trabalhadores imigrantes e os trabalhadores    nacionais nos segmentos menos qualificados do mercado de trabalho não é, na    verdade, sustentada pela evidência empírica: de uma forma geral, as profissões    e sectores mais procurados pelos imigrantes têm sido aqueles que os trabalhadores    portugueses nativos têm vindo a rejeitar cada vez mais. Assim, parece-nos lógico    concluir que a experiência recente da inserção dos trabalhadores imigrantes    no mercado de trabalho português permite advogar, como principal medida política,    o prosseguimento determinado de uma política mais eficaz de igualdade de oportunidades    — tanto no combate ao trabalho informal como na remoção das barreiras formais    (por exemplo, o reconhecimento de qualificações) e informais (como o combate    à discriminação) a essa mesma igualdade.</p>     <p>&nbsp; </p>      <p><b>Emigração</b></p>      <p>Portugal é desde há muito um país de emigração. Nos últimos anos, infelizmente, as fontes estatísticas não têm permitido captar com rigor todos os movimentos e a produção científica tem-lhe concedido uma atenção muito inferior à atribuída à imigração. Por isso, existem lacunas na avaliação da sua importância actual. Apesar disso, sabe-se que os fluxos de saída têm mantido um volume considerável e que as suas características fundamentais sofreram uma alteração significativa (Peixoto, 2007). Ao longo da maior parte do século xx, a vasta maioria dos emigrantes portugueses eram emigrantes <i>permanentes </i>e tinham como destinos principais o continente americano, a França, a Suíça e a Alemanha. A partir da década de 80, porém, a emigração <i>temporária </i>ultrapassou gradualmente a emigração permanente em termos quantitativos, representando em 2002 cerca de 75% dos fluxos de saída (INE, 2004b). Nos últimos anos para os quais existem dados disponíveis (no início da presente década), o número anual de emigrantes temporários oscilou em torno dos 20 000. Os principais destinos continuaram a incluir a França, a Suíça e a Alemanha (entre outros motivos, devido ao efeito da inércia associada à constituição de redes migratórias), mas a Espanha e o Reino Unido emergiram também como destinos significativos. É certo que muitos dos fluxos de emigração temporária são, na verdade, emigração permanente “disfarçada” (Baganha e Peixoto, 1997); é a existência de regras mais estritas para a entrada que leva a que muitos dos emigrantes tenham de adoptar uma estratégia inicial daquele tipo. Mas existe evidência, por vezes apenas documental, de que uma fracção significativa dos movimentos é genuinamente temporária. Alguns dos percursos concluem-se com um regresso definitivo a Portugal, enquanto outros apresentam ciclos de saídas renovadas. </p>      <p>A análise do que sabemos acerca destes fluxos permite-nos afirmar que este novo regime da emigração portuguesa reflecte, no fundo, a sua assunção de um carácter mais contemporâneo, em que a mobilidade internacional é encarada como uma estratégia de mobilidade social, económica e profissional ascendente, em alguns casos envolvendo um período relativamente curto do ciclo de vida. A facilidade de circulação no espaço da UE pode também reforçar este tipo de movimentos. Ainda que tanto a emigração temporária, no caso de ser prolongada, quanto a permanente contribuam negativamente para o saldo migratório — logo, podendo ser consideradas contrárias ao objectivo subjacente à adopção de uma estratégia assente na imigração de substituição —, o carácter crescentemente temporário da emigração portuguesa permite rejeitar alguns dos receios que lhe poderiam estar associados. Apesar de ser necessário desenvolver mais investigação sobre os contornos dos fluxos de saída actuais, é possível admitir que, em termos líquidos e de médio-longo prazo, a perda de população é, provavelmente, pouco significativa e que, no curto prazo, a emigração temporária pode até funcionar como um mecanismo bastante eficaz de ajustamento à conjuntura económica.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Políticas de imigração e integração</b></p>      <p>Tal como assinalado por Baganha, Marques e Fonseca (2000), Baganha e Marques    (2001) e Baganha (2005), as primeiras medidas sistemáticas tomadas por governos    portugueses com vista à regulação da imigração remontam ao início da década    de 90 do século xx. Isso não será surpreendente, se tivermos em conta a trajectória    histórica da implantação do regime migratório português atrás referida. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Assim, foi no contexto da crescente atractividade de Portugal como destino migratório que o governo PSD (no poder em 1992-1993) levou a cabo uma campanha de regularização extraordinária (no âmbito da qual foram concedidas 39 166 autorizações de residência), acompanhada por um discurso no sentido da restrição da imigração futura. Porém, se o proteccionismo declarado era um dos objectivos dessa mudança de orientação política, tal não veio a verificar-se <i>de facto</i>. Na verdade, o que se seguiu foi um aumento dos fluxos, particularmente com origem nos PALOP e para ocupar empregos no sector florescente da construção civil. A constatação deste resultado levou à realização de uma segunda campanha de regularização extraordinária em 1996 (no âmbito da qual foram concedidas cerca de 31 500 novas autorizações de residência) por parte do novo governo PS. Mais uma vez, porém, esta campanha de regularização não impediu a subsequente formação de um numeroso contingente de imigrantes irregulares, a que o governo respondeu, por sua vez, com uma nova campanha de regularização extraordinária “disfarçada”: a criação do mecanismo legal das autorizações de permanência, ao abrigo do qual foram concedidos títulos legais de permanência a 183 333 cidadãos estrangeiros entre 2001 e 2004. </p>      <p>2001 foi também o ano em que a política de imigração deixou de ser completamente passiva para passar a procurar regular activamente os fluxos, nomeadamente através da determinação anual do número de vagas a preencher por trabalhadores estrangeiros em cada sector do mercado de trabalho, com base num relatório anual elaborado pelo Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP). Esta tentativa de regulação burocrática dos fluxos revelou-se mal sucedida: em 2004, por exemplo, este relatório determinou a abertura de 8500 vagas, mas, ao mesmo tempo que apenas 899 vistos de trabalho eram concedidos nesse âmbito<a href="#_edn6" name="_ednref6" title=""><sup>[6]</sup></a>, milhares de trabalhadores irregulares continuaram a entrar no país para oferecer o seu trabalho. Entretanto, o governo de centro-direita que subiu ao poder em 2003 voltou a assumir uma postura mais proteccionista através da abolição das autorizações de permanência. Porém, a pressão do mercado de trabalho continuou a revelar-se mais forte do que os mecanismos de regulação dos fluxos, pelo que, mais uma vez, o resultado foi não tanto a redução da imigração quanto um novo aumento da imigração irregular. Finalmente, a última grande mudança em termos das políticas de regulação da imigração aconteceu com a subida ao poder do novo governo PS, em 2005, o qual aboliu o mecanismo de quotas sectoriais (instituindo um contingente global no seu lugar) e facilitou a entrada física no país por parte dos candidatos à imigração detentores de uma declaração de interesse por parte de um potencial empregador. Até certo ponto, a nova lei continua a ser proteccionista (veja-se o contingente global e a cláusula de preferência nacional e comunitária), mas é certamente mais liberal do que as políticas anteriores.</p>      <p>Naturalmente, a história das políticas de regulação da imigração é bastante mais complexa do que é aqui possível dar conta. No entanto, esta panorâmica geral basta para enunciar a conclusão fundamental, segundo a qual quinze anos de tentativas governamentais de regulação da imigração têm produzido efeitos muito insatisfatórios. Do ponto de vista dos defensores de políticas mais pró-imigração, esta insatisfação relaciona-se com o facto de a concessão do estatuto regular ter sido sistematicamente efectuada <i>a posteriori, </i>o que tem impedido que cada vaga migratória seja adequadamente “recebida” com medidas eficazes de integração, em vez de tender para engrossar as fileiras do trabalho informal; do ponto de vista dos defensores de políticas mais proteccionistas, o problema advém da necessária assunção de que cada uma das sucessivas campanhas de regularização tem constituído um reconhecimento <i>de facto </i>da incapacidade de controlar os fluxos. </p>      <p>Ao mesmo tempo, e algo paradoxalmente, as políticas de integração em Portugal têm sido marcadas pela existência de diversas boas práticas de nível internacional, particularmente a partir de 1995. São disso exemplos a criação e o trabalho do Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas (actual ACIDI), a criação de uma rede de centros nacionais e locais de apoio ao imigrante (CNAIs e CLAIs), iniciativas como o “Programa Escolhas”, as recentes mudanças em termos da lei da nacionalidade, a extensão dos direitos à saúde e à educação aos imigrantes irregulares e aos seus filhos, ou ainda o Plano Nacional para a Integração dos Imigrantes de 2007. Neste campo, Portugal tem vindo efectivamente a assumir-se como um exemplo de referência no contexto europeu, ainda que se possa argumentar que os bons esforços prosseguidos no sentido do apoio à integração são em grande medida postos em causa pela enormidade da tarefa, por sua vez decorrente de políticas migratórias conducentes à irregularidade. Tendo em conta a incapacidade estrutural de controlo eficaz do acesso ao território português no contexto do Acordo Schengen (incapacidade essa que afecta igualmente a generalidade dos restantes estados membros), parece-nos que quaisquer tentativas de regulação burocrática dos fluxos tenderão sempre a ser contraproducentes, na medida em que não produzem os resultados proclamados (a redução desses mesmos fluxos) e tendem a fomentar situações de irregularidade, trabalho informal, discriminação e xenofobia que apenas dificultam enormemente a tarefa das instituições que têm a seu cargo a integração dos imigrantes. </p>      <p>As lições que podemos retirar da experiência recente das políticas de imigração    em Portugal sugerem por isso que: (<i>i</i>) a regulação dos fluxos pelo mercado    de trabalho tem habitualmente uma força muito superior à tentativa de regulação    pelo Estado; (<i>ii</i>) consequentemente, os esforços do Estado português deverão    concentrar-se antes na garantia da igualdade de oportunidades, no combate ao    trabalho informal e no acompanhamento estratégico e atempado das vagas migratórias    (aos níveis central e local) de modo a maximizar as vantagens e minimizar os    custos de cada uma dessas vagas; (<i>iii</i>) os próximos passos a dar no que    se refere às muito positivas políticas e práticas de integração adoptadas na    última década em Portugal deverão consistir na sua <i>extensão e integração</i>:    por um lado, através da adopção de políticas de regulação dos fluxos que, em    vez de porem em causa, verdadeiramente contribuam para o objectivo de uma integração    harmoniosa e vantajosa tanto para os imigrantes como para os autóctones; por    outro, através da sua extensão transversal a domínios em que a questão da integração    da população imigrante não é ainda suficientemente central, tais como o planeamento    urbano ou os <i>curricula</i> escolares.</p>     <p>&nbsp;</p>      <p><b>Conclusões</b></p>      <p>Portugal, à semelhança da generalidade dos países europeus, encontra-se confrontado com um acentuado processo de envelhecimento demográfico. Embora as suas consequências já tenham começado a fazer-se sentir, será ao longo das próximas décadas que este processo assumirá uma magnitude verdadeiramente avassaladora. Em particular, são inevitáveis (de acordo com a informação disponível) processos muito significativos de aumento dos níveis de dependência de idosos, de envelhecimento da população idosa e de envelhecimento da população activa. Estes processos terão, com grande probabilidade, consequências nefastas ao nível do bem-estar dos dependentes, da conflitualidade social, da produtividade do trabalho e da sustentabilidade dos mecanismos estatais e intrafamiliares de solidariedade inter-geracional.</p>      <p>Urge identificar e implementar medidas que visem responder o mais eficaz e atempadamente possível a este problema, mas as soluções disponíveis são, como vimos, poucas e limitadas. Tendo em conta as especificidades do caso português, é possível concluir, com quase toda a certeza, que: (<i>i</i>) não existe uma estratégia única de resolução do problema, dada a amplitude do mesmo; (<i>ii</i>) a combinação de políticas mais realistas e provavelmente eficazes (ainda que possivelmente insuficientes) terá de assentar no incentivo ao aumento da taxa de actividade dos adultos jovens, em medidas pró-natalistas (a prazo e com expectativas modestas) e no recurso à imigração de substituição. Esta última componente, na medida em que pode ser considerada a única que não se encontra constrangida por limitações estruturais análogas às de todas as outras variáveis instrumentais relevantes, assumirá certamente um lugar cada vez mais central nas discussões em torno deste problema, sobretudo a partir do momento em que as suas consequências começarem a fazer-se sentir com mais intensidade. </p>      <p>Portugal apresenta um regime migratório misto, em que coexistem fluxos migratórios de entrada e saída bastante significativos. Uma vez que os fluxos de saída contribuem para reduzir os saldos migratórios, poder-se-ia considerar que a emigração portuguesa constitui um obstáculo à adopção de uma política eficaz de imigração de substituição. Porém, o facto de uma fracção crescente da emigração actual ser temporária permite rejeitar, pelo menos em parte, essa consideração: alguns dos fluxos de saída constituem um mecanismo de ajustamento pró-cíclico à conjuntura, não um mecanismo de perda substancial de população. Por sua vez, as características dos <i>stocks </i>e fluxos da imigração para Portugal são um reflexo da trajectória histórica do nosso país ao longo das últimas três décadas. Traduzem também um considerável desequilíbrio de forças entre o mercado de trabalho e as tentativas de regulação burocrática por parte do Estado. Com vista à futura maximização dos benefícios e minimização dos custos económicos e sociais associados à imigração, particularmente num contexto de mobilização desta estratégia como resposta ao problema do envelhecimento, parece por isso de recomendar a adopção de políticas de regulação dos fluxos mais liberais, a par de uma maior ênfase na garantia da igualdade de oportunidades, no combate ao trabalho informal e na extensão transversal<i> </i>dos princípios e mecanismos de actuação já consagrados em diversas boas práticas no domínio da integração.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>&nbsp;</b></p>      <p><b>Bibliografia</b></b></p>      <p>Abreu, A., e Peixoto, J. (2008), “Portugal”. <i>In </i>E. Honekopp e H. Mattila (eds.), <i>Permanent or Circular Migration?</i><i> Policy Choices to Address Demographic Decline and Labour Shortages in Europe, Budapeste, International Organization for Migration, pp. 183-214.</i></p>      <p>Almeida, A. (2003), <i>Impacto da Imigração em Portugal nas Contas do Estado</i>. Colecção “Estudos e Documentos do Observatório da Imigração”, n.º 1, Lisboa, Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas.</p>      <!-- ref --><p>Baganha, M. (2005), “Política de imigração: a regulação dos fluxos”. <i>Revista Crítica de Ciências Sociais,</i> 73, pp. 29-44.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000147&pid=S0003-2573200900040000400001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>Baganha, M., e Peixoto, J. (1997), “Trends in the 90’s: the Portuguese migratory experience”. <i>In</i> M. Baganha (ed.), <i>Immigration in Southern Europe,</i> Oeiras, Celta Editora, pp. 15-40.</p>      <p>Baganha, M., Marques, J., e Fonseca, G. (2000), <i>Is an EthClass Emerging in Europe? — The Portuguese Case,</i> Lisboa, Luso-American Foundation.</p>      <p>Baganha, M., e Marques, J. (2001), <i>Imigração e Política: o Caso Português,</i> Lisboa, Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento.</p>      <p>Baganha, M., Ferrão, J., e Malheiros, J. (orgs.) (2002), <i>Os Movimentos Migratórios Externos e a sua Incidência no Mercado de Trabalho em Portugal,</i> Lisboa, Observatório do Emprego e Formação Profissional.</p>      <p>Baganha, M., Góis, P., e Pereira, P. (2005), “International migration from and to Portugal: what do we know and where are we going?”. <i>In</i> K. Zimmermann (ed.), <i>European Migration: What do We Know?, </i>Oxford, Oxford University Press, pp. 415-458.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Berger, S., e Piore, M. (1980) <i>Dualism and Discontinuity in Industrial Societies,</i> Cambridge, Cambridge University Press.</p>      <p>Bijak, J., e Kupiszewski, M. (2007), «ARGO 2005 population and labour force    forecast: background and assumptions», Central European Forum for Migration    Research, disponível em <a href="http://www.cefmr.pan.pl/docs/forecast_argo.pdf." target=" blank">http://www.cefmr.pan.pl/docs/forecast_argo.pdf.</a></p>      <p>Coleman, D. (1992), “Does Europe need immigrants? Population and work force projections”. <i>International Migration Review,</i> 26 (2), pp. 413-461.</p>      <p>Coleman, D. (2002), “Replacement migration, or why everyone is going to have to live in Korea: a fable for our times from the United Nations”. <i>Philosophical</i><i> Transactions of the Royal Society B,</i> 357, pp. 583-598.</p>      <p>INE (2004a), “Projecções de população residente, Portugal e NUTS II”, 2000–2050,    <i>Destaque INE,</i> 31-3-2004, disponível em<a href="http://www.ine.pt">    http://www.ine.pt</a>.</p>      <p>INE (2004b), “Emigração em Portugal (2003): maioritariamente temporária”, <i>Destaque INE,</i> 11-6-2004, disponível em <a href="http://www.ine.pt">    http://www.ine.pt</a>.</p>      <p>Lutz, W., e Scherbov, S. (2006), “Future demographic change in Europe: the contribution of migration”. <i>In</i> D. G. Papademetriou (ed.), <i>Europe and Its Immigrants in the 21st Century — A New Deal or a Continuing Dialogue of the Deaf?,</i> Washington/Lisboa, Migration Policy Institute/FLAD, pp. 207-222.</p>      <p>OEFP (2006), <i>Aspectos Estruturais do Mercado de Trabalho, </i>Lisboa, Observatório do Emprego e da Formação Profissional.</p>      <p>Peixoto, J. (2002), “Os mercados da imigração: modos de incorporação laboral e problemas de regulação dos imigrantes estrangeiros em Portugal”. In <i>Imigração e Mercado de Trabalho,</i> cadernos «Sociedade e Trabalho» II, Lisboa, MSST/DEEP.</p>      <!-- ref --><p>Peixoto, J. (2007), “Dinâmicas e regimes migratórios: o caso das migrações internacionais em Portugal”. <i>Análise Social,</i> 42 (183), pp. 445-469.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000162&pid=S0003-2573200900040000400002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Ribeiro, J. (2000), “Impacte das tendências demográficas na oferta de trabalho e no modelo de desenvolvimento económico da Europa”. <i>Economia e Prospectiva, </i>11, pp. 69-89.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000163&pid=S0003-2573200900040000400003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>Rosa, M., Seabra, H., e Santos, T. (2004), <i>Contributos dos Imigrantes na Demografia Portuguesa: o Papel das Populações de Nacionalidade Estrangeira,</i> Lisboa, Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas (ACIME).</p>      <p>United Nations (2000), <i>Replacement Migration: Is It a Solution to Declining and Ageing Populations?, </i>Nova Iorque, United Nations — Population Division, Department of Economic and Social Affairs. </p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Notas</b></p>      <p><a href="#_ednref1" name="_edn1" title=""><sup>[1]</sup></a> Excepto, naturalmente, no caso de os saldos migratórios mais do que compensarem a dinâmica demográfica “natural”.</p>      <p><a href="#_ednref2" name="_edn2" title=""><sup>[2]</sup></a> Indicador correspondente ao rácio entre o número de indivíduos com 65 ou mais anos de idade e o número de indivíduos com idades compreendidas entre os 15 e os 64 anos de idade multiplicado por 100.</p>      <p><a href="#_ednref3" name="_edn3" title=""><sup>[3]</sup></a> Note-se que para que esta identidade se verifique é necessário que a taxa de actividade considerada corresponda ao rácio entre a população activa e a população residente totais — e não, como é habitualmente o caso, ao rácio entre a população activa com 15-64 anos de idade e a população residente com 15-64 anos de idade.</p>      <p><a href="#_ednref4" name="_edn4" title=""><sup>[4]</sup></a> É sabido que os padrões de fecundidade das comunidades imigrantes apresentam a prazo uma tendência de convergência em relação aos das populações autóctones. Porém, os valores acima indicados ilustram bem que essa tendência de convergência no longo prazo não impede que os imigrantes tenham um impacto muito sensível sobre a natalidade dos países de acolhimento.</p>      <p><a href="#_ednref5" name="_edn5" title=""><sup>[5]</sup></a> ARs = autorizações de residência; APs = prorrogação de autorizações de permanência; VLDs = vistos de longa duração.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#_ednref6" name="_edn6" title=""><sup>[6]</sup></a> <i>Diário de Notícias</i>,    “Visto de longa duração ao fim de cinco anos de permanência legal”, 7 de Março    de 2006.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="3"></a><a href="#top3">***</a><sup> </sup>Este artigo resulta do trabalho    desenvolvido no âmbito do projecto “ARGO 2005 — European Cooperation in Labour    Migration: Search for Best Practices”, coordenado pela OIM-Budapeste. Uma primeira    versão em inglês encontra-se publicada em Abreu e Peixoto (2008). A presente    versão foi primeiramente apresentada ao III Congresso Português de Demografia,    Lisboa, 29/09-01/10, 2008. Os autores desejam agradecer o apoio científico e    administrativo do SOCIUS-ISEG/UTL e CEG/UL, as críticas e sugestões de Joana    Figueiredo, Elmar Hönekopp e Heikki Mattila e o auxílio dos escritórios de Lisboa    da OIM e OIT para a boa prossecução do projecto acima referido. Finalmente,    os autores agradecem ao <i>referee</i><i> </i>do presente artigo os comentários    e sugestões muito pertinentes e úteis. </p>      ]]></body><back>
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