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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Risco e incerteza no pensamento biomédico: notas teóricas sobre o advento da quantificação e da prova experimental na medicina moderna]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Biomedicine is a field where the concept of risk has shown an impressive increase in its importance. This fact demonstrates a concern with a systematic problem control through an instrumental rationalizing model, expressing eloquently the investment being made in interpreting uncertainty as risk and the consequent statistical dimension as an ever-more quintessential feature of its scientific profile.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p><b>Risco e incerteza no pensamento biomédico: notas teóricas sobre o advento    da quantificação e da prova experimental na medicina moderna<a name="topa2"></a><a href="#a2">**</a>    </b></p>        <p>&nbsp;</p>     <p><b>Hélder Raposo* </b></p>     <p>* ICS, Universidade de Lisboa, Av. Professor Aníbal de Bettencourt, 9, 1600-189    Lisboa, Portugal. e-mail: <a href="mailto:helder.raposo@ics.ul.pt">helder.raposo@ics.ul.pt</a>.  </p>      <p>&nbsp; </p>      <p> A biomedicina é um domínio do saber no qual a proliferação do conceito de risco se tem evidenciado de forma expressiva, o que revela uma preocupação em proceder ao controlo sistemático dos problemas através de um modelo de racionalização instrumental. Tal procedimento é elucidativo do investimento que é feito na interpretação das incertezas como riscos. Consequentemente, a dimensão estatística que lhe está associada é cada vez mais um dos principais traços do seu perfil científico.  </p>          <p><b> Palavras-chave: </b> risco; incerteza; quantificação; biomedicina. </p>     <p>&nbsp; </p>          <p><b>Risk and uncertainty in biomedical thought: theoretical notes about the rising of quantification and experimental proof in modern medicine  </b></p>            <p>Biomedicine is a field where the concept of risk has shown an impressive      increase in its importance. This fact demonstrates a concern with a systematic      problem control through an instrumental rationalizing model, expressing eloquently      the investment being made in interpreting uncertainty as risk and the consequent      statistical dimension as an ever-more quintessential feature of its scientific      profile.   </p>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Keywords:      </b>risk; uncertainty; quantification; biomedicine.        </p>      <p>&nbsp;  </p>      <p><b>Introdução</b> </p>      <p>A crescente ênfase na padronização,      e o empenho na racionalização da medicina constituem alguns dos traços essenciais      que nos permitem pensar o tipo de dinâmicas e transformações que, no decorrer      das últimas décadas, têm reconfigurado a epistemologia científica da medicina      contemporânea. Com este artigo, pretende-se contribuir para a discussão sobre      o significado dessas mutações, apresentando-se alguns dos principais elementos      que permitem caracterizar e contextualizar a natureza desta nova abordagem      “paradigmática”.    </p>        <p>Neste sentido, um exercício fundamental      será o de se tentar identificar e compreender de que forma, a montante das      actuais estratégias de normalização da prática clínica promovidas pelos defensores      da medicina baseada na prova <i>(evidence-based medicine), </i>como forma      de conferir maior objectividade a esta prática, estão já inscritas algumas      das condições que viabilizaram a consolidação das metodologias científicas      de base estatística. Em rigor, estamos a falar de um processo muito gradual,      descontínuo e fracturante. Porém, a proeminência da actual abordagem biomédica      apresenta um lastro histórico suficientemente rico para que possamos dar conta      das principais dinâmicas de desenvolvimento da sua racionalidade científica.        </p>        <p>Na reflexão que aqui se apresenta, mais      do que nos limitarmos a fazer um mapeamento deste processo, importa equacionar      de que modo a indispensabilidade da prova estatística corresponde a uma estratégia      para gerir a incerteza (Timmermans e Angell, 2001) num contexto fortemente      marcado por imperativos de racionalização e de padronização científica (Cambrosio      <i>et al., </i>2006; Timmermans e Berg, 2003). A abordagem que aqui se empreende      é fundamentalmente teórica e o seu horizonte de indagação sociológica visa      identificar alguns eixos de problematização que permitam esclarecer melhor      a questão da incerteza médica (Fox, 1998 [1959] e 2003). Esta funciona, afinal,      como o grande pretexto que justifica o desenvolvimento e a promoção de metodologias      científicas que procuram ultrapassar a efectiva variação e contingência da      prática médica.   </p>         <p>&nbsp;</p>     <p><b>Risco e quantificação: breve panorama </b></p>        <p>A moderna noção de risco alicerça-se      numa abordagem e num entendimento racionalista da realidade que pressupõe      o controlo da incerteza através do desenvolvimento de procedimentos estatísticos      e de probabilidades matemáticas. Efectivamente, é possível considerar que      esta categoria assume uma grande centralidade no contexto da modernidade,      pois a crescente industrialização e criação de instituições de controlo e      regulação social tornaram imperativa a necessidade de conhecimentos objectivos      e o desenvolvimento do pensamento racional. Nestas circunstâncias, é frequente      argumentar-se que o risco se cientificizou através de uma abordagem probabilística      e estatística e que adquiriu um perfil técnico associado ao cálculo matemático      (Lupton, 1999, pp. 5-6).   </p>        <p>Assim, se até à emergência da época      moderna a noção de risco tinha um sentido neutro, dizendo apenas respeito      às probabilidades de ocorrerem ganhos ou perdas (Gabe, 2004), a verdade é      que com o advento de um discurso e de um entendimento determinista da realidade      social e natural ganha preponderância uma nova acepção deste conceito, o qual      passa a estar vinculado à ideia de que o mundo é regido por leis causais e      universais que podem ser determinadas e previstas através de dispositivos      de probabilidade matemática (Gabe, 2004; Green, 1997). Desta forma, não só      se verificou a transformação do conceito de risco em termos do seu significado      — estando agora vinculado a uma conotação negativa que decorre da ideia de      perigo (Gabe, 2004) —, como também se revelou assinalável a crescente capacidade      técnica de “domesticação do acaso”, fortemente ancorada na expansão dos desenvolvimentos      do cálculo probabilístico.    </p>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Num contexto em que a arquitectura institucional      e a racionalidade técnico-científica das sociedades modernas exigem lógicas      de previsão, cálculo e controlo, operou-se a consolidação da abordagem científica,      principalmente através da obsessão com a prevenção do <i>risco</i><a href="#_edn1" name="_ednref1" title=""><sup>[1]</sup></a>,      dando origem ao que alguns autores designam como “mito da calculabilidade”      (Lupton, 1999, p. 7) ou da prevenção do acidente<a href="#_edn2" name="_ednref2" title=""><sup>[2]</sup></a>.   </p>        <p>Tendo em conta esta afinidade electiva      entre “risco” e “modernidade”, pode-se considerar, portanto, que a profusa      utilização e aplicação das estatísticas em vastos domínios da vida social,      bem como um intenso entusiasmo pelos números e a respectiva multiplicação      de classificações, parecem traduzir a ideia de que na modernidade o acaso      passa a ser desvalorizado em benefício da ideia de controlo e de regularidade.      Todo o investimento intelectual que então se produz (nomeadamente nos estudos      matemáticos que estiveram na base do desenvolvimento da ideia de probabilidade)      é uma expressão nítida dessa tendência, na medida em que o acaso passa a ser      enquadrado como um horizonte disruptivo que importa dominar. Aliás, a obsessão      em controlar essa dimensão acabou por permitir que se consolidasse uma espécie      de imperialismo da probabilidade, uma vez que o mundo se tornou cada vez mais      numérico e submetido a modos gradualmente mais sofisticados de mensurabilidade      e de categorização estatística.    </p>        <p>Um domínio do saber em que a tendência      para a proliferação do conceito de risco se tem evidenciado são as ciências      da saúde e, em particular, a biomedicina, o que representa, desde logo, um      indicador da própria cientifização que tem vindo a caracterizar este campo.      De facto, olhando para a forma como esta categoria foi incorporada nos discursos      e nas práticas biomédicas, podemos considerar que os procedimentos de avaliação      e gestão do risco que se têm desenvolvido traduzem uma forma de apropriação      da incerteza através de um conhecimento pericial caracterizado por procedimentos      de cálculo baseados na ideia de probabilidade. De acordo com Nunes (2002,      p. 290), a biomedicina adoptou o conceito de risco num sentido muito próximo      do que propõe a <i>Royal Society</i> britânica, segundo a qual o risco é “a      probabilidade de que um acontecimento adverso particular ocorra durante um      dado período de tempo ou em resultado de um desafio particular. Enquanto probabilidade      no sentido em que a entende a teoria estatística, o risco obedece a todas      as leis formais da combinação de probabilidades”.   </p>        <p>Por essa razão, a preocupação em proceder      ao controlo sistemático dos problemas através de um modelo de racionalização      instrumental é elucidativa acerca do investimento que é feito na interpretação      das incertezas como riscos (na sua conversão em probabilidades), dado que      este processo permite estabelecer fronteiras que delimitam e controlam o acaso<a href="#_edn3" name="_ednref3" title=""><sup>[3]</sup></a>.        </p>         <p>Deste modo, a quantificação na biomedicina representa actualmente um processo    ambivalente: para além das potencialidades e dos benefícios que confere, há    um imenso conjunto de dúvidas e interrogações que fazem com que esta reconfiguração    seja olhada sob uma perspectiva crítica e simultaneamente prudente. Autores    como Marques (2002, pp. 15-16) desenvolvem a este respeito reflexões de grande    pertinência, problematizando os impactos que a tendência de crescente quantificação    tem na medicina. De facto, como lembra este autor, a medicina é, desde as suas    remotas fundações, uma ciência do indivíduo que sempre procurou privilegiar    e valorizar a singularidade e a determinação do contingente na arte de cuidar    do doente, o que significa que, não obstante ter sido um saber carecido de critérios    objectivos de verdade, procurou sempre proceder com acribia em relação ao doente    e não só à doença. Assim, perante os progressos exponenciais das ciências biomédicas,    torna-se relevante perceber que estão em causa inversões fundamentais na própria    medicina clínica e na sua relação privilegiada com o doente individual, pois    são cada vez mais voláteis as tensões entre o critério clínico e o critério    estatístico decorrente da assinalada tendência da quantificação. Neste sentido,    e como refere o autor, “a estatística tira o seu poder da medição de tudo pela    mesma bitola, exactamente o revés da determinação da diferença e da procura    da singularidade que toda a clínica desde sempre exigiu e exige” (Marques, 2002,    p. 32). </p>     <p>&nbsp; </p>         <p><b>Acerca da genealogia da medicina experimental </b></p>        <p>Esta dimensão estatística, que parece      ser hoje um dos principais traços que caracterizam a biomedicina, não deixa,      todavia, de ser o resultado de transformações teóricas e cognitivas relativamente      recentes operadas no campo da clínica médica. A obra de Michel Foucault (1994      [1980]) sobre o nascimento da clínica oferece, precisamente, algumas pistas      importantes relativamente ao conjunto das transformações referidas. Segundo      este autor, é fundamentalmente a partir do século xix que se assiste a uma reorganização      profunda do saber médico e da sua prática, em particular ao nível dos seus      objectos, conceitos e métodos, que passam a configurar um novo tipo de medicina      (científica) fundada na objectividade e em medições instrumentais da quantidade.      A emergência de um novo olhar médico, que já não se detém apenas nas qualidades      dos objectos, mas que passa a ser um olhar empírico alicerçado numa linguagem      racional, levanta a velha proibição aristotélica de submeter o indivíduo a      um discurso de estrutura científica (Foucault, 1994 [1980], p. 13). Tal abertura      do indivíduo à experiência clínica — a primeira na história ocidental — significou,      deste modo, o início da observação positiva do doente no seu leito, ou seja,      num “espaço” que se passará a assumir como campo de investigação, no qual      são observadas, de modo preciso e sistemático, todas as informações respeitantes      ao indivíduo.    </p>        <p>Essa nova linguagem, que é parte constitutiva      do método anátomo-clínico que caracteriza a então emergente medicina experimental,      passa a deslocar a sua atenção do indivíduo doente para o seu corpo, sobretudo      para o seu interior, ou seja, para os seus órgãos, procedendo assim a um reducionismo      metodológico centrado no órgão e nos elementos infinitamente pequenos, afastando-se      progressivamente da preocupação com a singularidade dos indivíduos tomados      na sua unidade somatopsíquica.   </p>        <p>Um dos corolários importantes que decorrem      deste conjunto de transformações da ciência médica é a mudança conceptual      relativamente ao tratamento da incerteza, nomeadamente a partir do final do      século xviii. Nessa altura assiste-se      à importação do saber probabilístico e à consequente reconfiguração da medicina,      que, a partir de então, “não tem mais que ver o verdadeiro essencial sob a      individualidade sensível; está diante da tarefa de perceber, e infinitamente,      os acontecimentos de um domínio aberto” (Foucault, 1994 [1980], pp. 110-111).         </p>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p>De facto, esta mudança nos saberes constitui      um elemento de fulcral importância. Com a instauração do tratamento analítico      da incerteza em medicina — sob forte influência do trabalho de figuras como      Laplace —, a noção de incerteza passa a ser tratada como a soma de um certo      número de graus de certeza isoláveis e susceptíveis de um cálculo rigoroso.      No fundo, é através da incorporação do cálculo probabilístico no saber médico      e nos valores perceptivos da experiência clínica que podem ser assinaladas      as mudanças mais significativas no campo da clínica na medida em que os factos      observados no âmbito desta nova lógica de investigação passam a ser isolados      e postos em confronto com uma série de acontecimentos que podem ser mensuráveis,      o que significa que a nova estrutura do campo clínico, tal como refere Foucault      (1994 [1980], p. 110), passa a ter outros contornos: “o indivíduo posto em      questão é menos a pessoa doente do que o facto patológico indefinidamente      reprodutível em todos os doentes igualmente afectados”.   </p>         <p>Neste sentido, a crescente importância concedida à ideia de certeza médica    acabou por ter implicações consequentes no modo de entender o indivíduo, em    particular porque a determinação da individualidade se desloca da identificação    da singularidade do indivíduo para a ordenação, em série, das multiplicidades    dos factos individuais que suprimem, espontaneamente, as variações individuais.    Neste novo quadro da experiência clínica, as variações passam a ser integradas    no domínio da probabilidade, o que significa que, se por um lado, estas não    são afastadas, por outro, elas anulam-se na configuração geral, isto é, ocultam-se    sob as médias e os limites das regularidades estatísticas. Como refere Foucault,    “na sombra, e sob um vocabulário aproximado, circulam noções em que se pode    reconhecer o cálculo de erro, o desvio, os limites, o valor da média. Todas    elas indicam que a visibilidade do campo médico adquire uma estrutura estatística    e que a medicina se dá como campo perceptivo, não mais um jardim de espécies,    mas um domínio de acontecimentos” (Foucault, 1994 [1980], p. 116). </p>     <p>&nbsp; </p>         <p><b>Os novos imperativos científicos e o (lento) triunfo das estatísticas na    medicina </b></p>         <p>Mas será que, no contexto da sua emergência, estas transformações alteraram    radicalmente a medicina? Será que as rupturas introduzidas no pensamento médico    anterior foram imediatas e inelutáveis? Terá o pensamento probabilístico penetrado    na medicina de uma forma linear, num processo isento de resistências e contradições?    Tomando estas interrogações como fonte de indagação relativamente à emergência    da medicina experimental caracterizada pela racionalidade científica, é relevante    convocar, ainda que de modo breve e algo panorâmico, alguns elementos de natureza    histórica quanto à introdução dos métodos quantitativos e de inferência estatística    na medicina. Tal abordagem poderá proporcionar alguma elucidação sobre a crescente    tendência para a quantificação na medicina, processo não só pouco linear, mas    sobretudo marcado por profundos debates que dividiram as principais academias    médicas entre o início do século xix e meados do século xx. </p>        <p>Uma característica que deve ser salientada      prende-se com o facto de as diferenças que separavam os clínicos, os fisiologistas      e os bacteriologistas não obstarem a que a grande maioria partilhasse uma      postura de antipatia e de recusa em relação aos métodos estatísticos, dado      que o julgamento médico era visto como uma forma de “conhecimento tácito”      que não se coadunava com as inferências quantitativas dos métodos estatísticos      que foram sendo gradualmente introduzidos na medicina.   </p>        <p>Tomando como referência o estudo de      Matthews (1995) acerca da quantificação na medicina, é possível considerar      que as várias tentativas de tornar este saber mais “científico” e “objectivo”      por via da incorporação das metodologias estatísticas colidiram com profundas      resistências que consideravam que essa perspectiva de transformação da medicina      a desvirtuava e afastava da sua especificidade, isto é, da experiência clínica      centrada no indivíduo e baseada em avaliações qualitativas, que a aproximavam      mais de uma “arte” do que de uma ciência.    </p>        <p>Aliás, os exemplos apresentados pelo      autor são a esse nível bastante paradigmáticos, mostrando com detalhe quais      os principais argumentos em confronto, fruto da emergência de um novo clima      intelectual a partir do qual se prefiguram transformações na ciência ocidental,      em geral, e na medicina, em particular. Um dos primeiros contributos para      a emergência de uma medicina científica foi levado a cabo pelo clínico francês      Pierre-Charles-Alexandre Louis, através dos seus trabalhos sobre a comparação      numérica em medicina. O método numérico que defendia, embora não fosse metodologicamente      muito inovador, dado que consistia na comparação directa entre valores médios      de terapias concorrentes, representa um dos esforços mais sistemáticos, no      contexto da comunidade médica parisiense, no sentido de (re)fundar a medicina numa base científica. O investimento intelectual      que dedicou à enumeração, entendida como sinónimo da razão científica, era      fortemente inspirado nos trabalhos de Laplace sobre probabilidade e neles      encontrou justificação para o seu método. Considerava que a observação cuidadosa,      a recolha sistemática de dados, a análise rigorosa de múltiplos casos, a prudência      nas generalizações e a verificação através de autópsias eram procedimentos      fundamentais para dotar a medicina de um método empírico que assegurasse que      os factos decorrentes das observações apontavam para resultados exactos e      isentos de incerteza (Matthews, 1995, pp. 15-16).   </p>        <p>De facto, esta posição colidia com o      <i>ethos</i> humanitário da medicina e por essa razão deu origem a um debate      que punha em confronto posições irredutíveis acerca do entendimento sobre      a função da tradição profissional da medicina. Se, para os críticos da quantificação,      a ênfase era colocada na habilidade única do clínico para diagnosticar a doença      e para aliviar o sofrimento individual, para os indivíduos com alguma formação      matemática, a ênfase deslocava-se para a necessidade de tornar a medicina      uma ciência empírica, dotando-a, para isso, de métodos de análise numérica.        </p>        <p>Uma das oposições mais consistentes      ao método de Louis partiu dos fisiologistas. Desde a sua emergência em meados      do século xix, estes haviam      sustentado que o modo de conferir uma base científica à medicina passava pela      experimentação em laboratório de organismos vivos, e não pela compilação de      estatísticas.   </p>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Um dos principais expoentes da fisiologia      experimental foi Claude Bernard, para quem a experimentação era indispensável      para obter factos comparáveis e isentos de causa de erro. Para este pensador,      a medicina não se devia basear nas estatísticas, uma vez que isso pressupunha      que se tratava de uma ciência de observação passiva, em vez de uma ciência      experimental e intervencionista. Somente pela experimentação em laboratório      (os locais por excelência onde poderiam ser desenvolvidas as investigações)      seria possível garantir o domínio de todas as condições vitais que influenciam      determinado evento fisiológico (Matthews, 1995, p. 71).    </p>        <p>Assim, para a fisiologia<a href="#_edn4" name="_ednref4" title=""><sup>[4]</sup></a>      era de grande importância a valorização dos organismos vivos individuais,      pois, ao contrário daquilo que decorre do uso de médias em medicina — que      ocultam as relações complexas e variáveis entre os fenómenos —, a experimentação      permite estudar as várias circunstâncias dos fenómenos e, a partir dos dados      experimentais, interpretar o que os fisiologistas designavam por “lógica dos      factos”. Esta oposição às estatísticas não significava, contudo, que os fisiologistas      considerassem que a medicina devia ser entendida como uma “arte”. Também eles      estavam profundamente empenhados em conferir-lhe cientificidade. Aquilo que      aproximava a posição dos fisiologistas relativamente aos críticos do uso das      estatísticas em medicina prendia-se com o facto de estes considerarem que      qualquer conclusão baseada num pensamento populacional deveria ser recusada;      tais resultados não seriam mais do que conhecimento probabilístico, desprovidos      da objectividade determinística fornecida pela investigação experimental dos      organismos vivos individuais.   </p>        <p>De uma forma mais específica, era preconizada      a ideia de que as médias introduzem uma falsa precisão aos resultados, ocultando      a complexidade dos fenómenos fisiológicos. A estatística, tal como era vista      por Claude Bernard, só poderia gerar ciências conjecturais (probabilidades)      e nunca ciências activas e experimentais, as únicas que, segundo o próprio,      poderiam ser entendidas como tal. É por essa razão que defende de forma empenhada      que a medicina se deveria converter numa ciência exacta baseada no determinismo      experimental, e não numa ciência conjectural caracterizada pelo indeterminismo      e pela ausência de leis absolutas. Tornar a medicina uma ciência através do      método experimental era, em síntese, o que ambicionava:    </p>         <blockquote>       <p> O estado científico levará mais tempo a organizar-se e será mais difícil      consegui-lo em medicina, por causa da complexidade dos fenómenos; mas o objectivo      do médico sério é reduzir, tanto na sua ciência como nas outras, o indeterminado      ao determinado. A estatística só se aplica, portanto, em casos em que existe      ainda indeterminação na causa do fenómeno observado. Em tais circunstâncias,      só pode servir, na minha opinião, para dirigir o observador na pesquisa desta      causa indeterminada, mas nunca pode conduzi-lo a nenhuma lei real” [Bernard,      1978 (1865), p. 171]. </p> </blockquote>     <p>No entanto, e não obstante as críticas      e as reservas relativamente às generalizações estatísticas, o que se irá verificar      a partir do último terço do século xix é a gradual consolidação do prestígio da quantificação,      nomeadamente com a emergência da escola biométrica na Grã-Bretanha. Efectivamente,      a partir deste período assistiu-se a um importante conjunto de inovações no      papel dos métodos estatísticos na medicina, sobretudo porque a estatística      deixou de ser uma ciência social empírica, essencialmente preocupada com a      recolha e descrição dos fenómenos sociais, para passar a ser uma ciência matemática      aplicada (Matthews, 1995, p. 86). Esta transformação derivou em grande medida      da tradição biométrica britânica, na qual se destacaram nomes como Francis      Galton e Karl Pearson, os quais exerceram grande influência junto de vários      membros da profissão médica, empenhados em dotar a medicina de métodos científicos      tanto no diagnóstico como na terapêutica. Gradualmente, começaram a aparecer      profissionais médicos que, em complemento à sua formação médica, também se      interessavam e dominavam as estatísticas matemáticas.   </p>        <p>Um aspecto importante que se destaca      neste novo clima intelectual prende-se com o facto de emergirem nesse período      várias especialidades profissionais que formam uma espécie de rede de cientistas      interessados na formação de um novo campo, algo que se faz sentir com particular      acuidade na comunidade médica e estatística (Matthews, 1995, pp. 86-87).         </p>        <p>É neste contexto específico que ocorrem      as principais inovações teóricas, sobretudo as introduzidas por Galton, considerado      um dos principais responsáveis pela fundação da moderna teoria estatística      ao estabelecer, nomeadamente, a “autonomia da lei estatística”. Também Pearson,      enquanto leal colaborador de Galton, desempenhou um papel importante na consolidação      da “nova” visão estatística, dado que durante praticamente toda a sua carreira      universitária, enquanto professor de matemáticas aplicadas no <i>University      College</i> de Londres, utilizou a sua posição institucional para tentar garantir      a ampla difusão dos modernos métodos estatísticos. A fundação em 1901 do jornal      <i>Biometrika</i>, em conjunto com Galton e Weldon, é um dos exemplos das      tentativas por si empreendidas no sentido de persuadir a comunidade científica      do valor e da importância das estatísticas matemáticas, sobretudo quando aplicadas      aos problemas das ciências da vida (Matthews, 1995, pp. 90-91).   </p>        <p>A receptividade da profissão médica      aos métodos estatísticos biométricos não foi, todavia, uniforme. A posição      dos médicos que se consideravam representantes de uma ciência clínica baseada      nas suas fundações clássicas (a defesa da arte da medicina), em que a perícia      técnica tinha uma importância muito diminuta, coexistia com a daqueles que,      pelo contrário, enfatizavam a importância dos métodos e técnicas da fisiologia      (diagnósticos baseados em observações mais objectivas) como algo de indispensável      e que deveria figurar no <i>curriculum </i>médico. Em contraste com estas      abordagens mais clínicas, estava a posição dos bacteriologistas, cujos métodos      maioritariamente laboratoriais se assemelhavam aos dos fisiologistas e para      os quais a estatística providenciava uma escassa evidência científica.        </p>        <p>No entanto, o verdadeiro impacto dos      métodos estatísticos na medicina só acontece no início do século xx por via do trabalho de um dos colaboradores      de Pearson, Major Greenwood. Este será o primeiro indivíduo a desenvolver      uma carreira profissional (em virtude da sua formação médica e matemática)      em que aplica com sucesso e eficácia os métodos estatísticos matemáticos aos      problemas médicos. De facto, o trabalho de Greenwood constitui a primeira      tentativa consequente na formação de médicos estatísticos com treino matemático:      consegue que a estatística médica passe a ter um novo papel profissional no      âmbito da investigação médica e é bem sucedido ao tentar ligar os métodos      estatísticos matemáticos ao domínio da investigação laboratorial<a href="#_edn5" name="_ednref5" title=""><sup>[5]</sup></a>.        </p>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Todavia, a expressão mais clara destes      esforços ocorrerá na década de 40 do século xx, quando um dos estudantes de Greenwood, Austin Bradford      Hill, se destaca pelo seu trabalho em estatística médica, criando as bases      do primeiro ensaio clínico —sobre o efeito da estreptomicina<a href="#_edn6" name="_ednref6" title=""><sup>[6]</sup></a>      na tuberculose —, usando o princípio da aleatorização para seleccionar os      doentes que ficavam no grupo experimental e os que ficavam no grupo de controlo,      ou seja, incorporando elementos do “acaso” numa experiência científica baseada      na ideia de probabilidade. Por conseguinte, a sua importância não só se prende      com o facto de ter sido o precursor dos ensaios clínicos, mas também, e sobretudo,      por ter definido a estrutura básica dos que foram posteriormente realizados.         </p>        <p>Assim, nas décadas de 50 e 60, Bradford      Hill conseguiria convencer a comunidade médica acerca da enorme utilidade      de introduzirem os ensaios clínicos aleatorizados duplamente cegos<a href="#_edn7" name="_ednref7" title=""><sup>[7]</sup></a>      como procedimento normal para determinar a eficácia e a segurança de novas      drogas. No decorrer das décadas subsequentes, estes procedimentos revelar-se-iam      decisivos na emergência e consolidação de novas formas de racionalização da      medicina, em que os princípios da epidemiologia clínica instauram a prova      estatística como um dos requisitos fundamentais para a validação da nova base      científica do conhecimento médico.    </p>         <p>Com efeito, esta importância concedida aos ensaios clínicos aleatórios <i>(randomised    controlled trials) </i>como a melhor forma <i>(gold standard)</i> para medir    a eficácia das acções médicas com base na investigação será activa e enfaticamente    preconizada a partir da década de 70. Neste contexto, destaca-se o trabalho,    hoje clássico e seminal, do epidemiologista Archie Cochrane (1972)<a href="#_edn8" name="_ednref8" title=""><sup>[8]</sup></a>,    que apresenta os princípios subjacentes à medicina baseada na prova (MBP) <i>(evidence-based    medicine).</i> Aqui a ênfase é posta na importância das revisões sistemáticas    dos referidos ensaios clínicos aleatórios para que os profissionais possam ter    acesso a informação de qualidade sobre as provas que justificam ou refutam as    opções terapêuticas, evitando assim o mau uso das técnicas e dos recursos disponíveis.    Nesse mesmo sentido, um outro momento-chave é o trabalho de David Sacket e dos    seus colaboradores. Numa conhecida obra, que constitui hoje também uma referência    (Sackett <i>et al., </i>1991 [1985]), sustentam o desenvolvimento de métodos    para testar as inovações médicas, sob o imperativo de reunir a melhor evidência    científica através da investigação. É também este grupo que promove e difunde    activamente o termo <i>evidence-based medicine, </i>juntamente com os seus princípios.    De uma forma relativamente rápida e bem concertada, embora não isenta de controvérsia,    esta estratégia revelar-se-á bem sucedida e em pouco tempo a noção de MBP torna-se,    de facto, praticamente ubíqua no campo da medicina contemporânea. </p>     <p>&nbsp; </p>         <p><b>A <i>medicina baseada na prova:</i> consagração de uma nova epistemologia    científica </b></p>        <p>Esta recente reconfiguração da medicina,      traduzida na tendência para o desenvolvimento de perspectivas orientadas para      o colectivo e alicerçadas na quantificação estatística (e já não exclusivamente      centradas no indivíduo), é indicativa de um novo perfil que veio transformar      profundamente os conceitos de individuação e subjectividade, centrais na experiência      clínica. Nessa medida, o foco privilegiado da medicina tem-se deslocado para      as análises populacionais baseadas na experimentação biomédica e estatística,      permitindo mensurar e comparar os fenómenos clínicos, com vista à determinação      de regras universais (Cronje e Fullan, 2003, pp. 256-357).    </p>        <p>De facto, a MBP<a href="#_edn9" name="_ednref9" title=""><sup>[9]</sup></a>, enquanto      tentativa de aplicar de forma mais uniforme e padronizada as provas científicas      decorrentes da utilização das análises populacionais a certos aspectos da      prática médica — como a validação das terapêuticas ou as recomendações clínicas      —, corresponde a um processo que visa diminuir a importância da intuição e      da experiência clínica não sistematizada, bem como do raciocínio fisiopatológico,      enquanto a única (ou a principal) base para a prática clínica. Entendida pelos      seus promotores como uma nova metodologia que permite conferir maior objectividade      e validade aos processos de decisão clínica, tem vindo a ganhar terreno como      um dos principais critérios de intervenção clínica e também como requisito      indispensável na promoção da eficiência e eficácia dos investimentos em saúde,      na avaliação de tecnologias, e na própria alocação dos recursos, sempre com      base em estimativas probabilísticas de custo/benefício, que constituem hoje,      e cada vez mais, uma ferramenta indispensável para a implementação de políticas      baseadas nos princípios da nova gestão pública<i>.</i>   </p>        <p>Apesar de a epidemiologia clínica não      ter sido inicialmente bem vista e de se ter confrontado com uma recepção não      consensual na comunidade médica, foi-se gradualmente consolidando o que Pope      designa por “espírito de corpo” (Pope, 2003, pp. 270-271) em alguns segmentos      profissionais descontentes com a prática clínica, convictos que estavam de      que esta poderia ser melhorada com a incorporação de princípios epidemiológicos.      Rapidamente se assistiu à multiplicação de estratégias com vista à prossecução      dos intentos da MBP, nomeadamente a garantia de que esta passaria a ser incorporada      na educação formal da medicina, bem como o incentivo à divulgação em revistas      e publicações médicas dos resultados baseados nesta nova metodologia. Outra      das estratégias consistiu na generalização dos protocolos de investigação      clínica <i>(guidelines),</i> com vista à produção de recomendações para a      boa prática clínica, baseadas na prova (Pope, 2003, p. 272).    </p>        <p>Para todos os efeitos, e sendo verdade      que não há um padrão homogéneo na forma como estas metodologias vão sendo      disseminadas e aplicadas aos vários campos de intervenção, o que se pode destacar      como um dado particularmente relevante e estruturador no panorama da medicina      contemporânea prende-se com a ideia da emergência de uma nova forma de objectividade      marcada pela produção colectiva da prova. Esta análise, condensada na noção      de <i>regulatory objectivity </i>(Cambrosio <i>et al., </i>2006<i>)</i>,<i>      </i>mostra-nos como a circunstância histórica de a medicina moderna do pós-guerra      se ter tornado biomédica — ou seja, em mais estreita articulação e interdependência      com as novas áreas da biologia —, nos permite falar hoje em modos de produção      de convenções, normas e protocolos que tornam possível a objectividade na      prática clínica. Esse carácter colectivo da prova, baseado em sistemas de      convenções tornados possíveis pelos estudos inter-laboratoriais, pelos ensaios      clínicos multicêntricos, pelos consórcios internacionais de investigação,      é fundamental para procedimentos de controlo de qualidade, recomendações e      normas de orientação clínicas. Como referem os autores, “para a biomedicina,      é menos importante alcançar a verdade (analítica ou outra) do que assegurar      a compatibilidade entre diferentes laboratórios e hospitais [...] A objectividade      regulatória também reflecte os valores da globalização e dos fluxos da livre      informação que têm conduzido à padronização internacional desde a Segunda      Guerra Mundial”<a href="#_edn10" name="_ednref10" title=""><sup>[10]</sup></a> (Cambrosio <i>et al., </i>2006, p. 195).        </p>         <p>Deste ponto de vista, e uma vez que a análise sugere que as lógicas de regulação    têm marcado, e viabilizado, o desenvolvimento da biomedicina contemporânea,    ao ponto de não serem apenas o resultado de intervenções externas, mas também    de práticas endógenas que reflectem a necessidade de existirem convenções e    critérios padronizados, é agora possível compreender melhor em que medida o    panorama actual reflecte o sucesso da estratégia de gradual consolidação da    MBP. Indicadores claros deste argumento são, por exemplo, o crescimento exponencial    de artigos médicos (num total de 1255) sobre MBP verificado entre 1992<a href="#_edn11" name="_ednref11" title=""><sup>[11]</sup></a>    e 2002 (Weisz <i>et al.,</i> 2007); a intensa proliferação de normas de orientação    clínica (as chamadas <i>guidelines</i>)<a href="#_edn12" name="_ednref12" title=""><sup>[12]</sup></a>;<i> </i>o aparecimento    de novas instituições e estruturas, com especial destaque para as revistas e    publicações (Timmermans e Berg, 2003), e o crescente interesse de outros actores    pela MBP, como os governos, as seguradoras, a indústria farmacêutica, o que    parece ser coerente com os pressupostos da importância estratégica da padronização    e racionalização da prática científica. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp; </p>         <p><b>Prova estatística e individualidade: mutações na clínica moderna </b></p>        <p>Embora se possa considerar que esta      perspectiva se difundiu com grande sucesso, não têm deixado de surgir críticas      e resistências por parte de alguns clínicos. Em termos genéricos, os argumentos      dos críticos da MBP vão no sentido de considerar que a natureza do trabalho      médico diário, nomeadamente a especificidade do julgamento clínico baseado      em casos individuais, contrasta com a lógica hegemónica dos ensaios clínicos      aleatórios duplamente cegos. Sobretudo porque as provas em que estes se baseiam      apenas conferem uma validade externa, isto é, somente descrevem os benefícios      de uma intervenção clínica aplicada a um grupo de indivíduos, enquanto um      clínico tem de decidir se essas medidas podem beneficiar o indivíduo doente      que o consulta. Tal facto constitui, portanto, uma diferença substancial no      que diz respeito ao tipo de conhecimento usado e privilegiado em cada uma      destas perspectivas, pois os clínicos não baseiam o seu conhecimento em provas      de natureza técnica que permitem a formulação de recomendações ou <i>guidelines</i>,      mas sim em julgamentos que valorizam as variações e as singularidades.         </p>        <p>Enquanto ciência da predição do estado      futuro do doente individual, baseada na comparação quantitativa de eventos      clínicos, a epidemiologia clínica tem merecido críticas contundentes. Estas      enfatizam que a decisão médica racional, fundada exclusivamente em estatística      aplicada e na teoria das probabilidades, faz desaparecer o indivíduo na amostra,      subvertendo, consequentemente, o próprio saber clínico, marcado desde as suas      remotas origens pelo respeito da singularidade e valorização das diferenças.      Ao ser entendido como subjectivo, impreciso, não replicável nem mecanizável      (Marques, 2003, p. 8), o saber clínico é visto como uma experiência que carece      de rigor científico. Em simultâneo, são desvalorizados os aspectos que lhe      conferem identidade, nomeadamente a clínica como ciência prudencial, como      exercício da faculdade de julgar, em que, mais do que a existência de sistemáticas      e exaustivas recomendações terapêuticas, o que importa é o julgamento das      necessidades particulares de cada indivíduo doente.    </p>        <p>Estas considerações remetem para a questão      relativa às limitações da prova estatística e à consequente confusão dos vários      regimes de prova. De facto, a vontade de basear todas as decisões médicas      na prova experimental e na manipulação estatística pode revelar-se problemática.      A natureza deste tipo de prova não é adequada à contingência do acto médico-cirúrgico,      pelo que as estimativas muito dificilmente têm poder demonstrativo relativamente      à complexidade e indeterminação de casos raros que só <i>a posteriori</i>      podem ser verificados. Deste modo, no entender de Marques (2003, p. 9), são      quatro os pontos fracos da prova estatística médica: a elisão da causalidade      e da fisiopatologia; o enfraquecimento do esteio da prova; a falta de atenção      aos casos singulares; por fim, a não consideração das diferenças.   </p>        <p>Nesta acepção, não obstante a crescente      valorização do método experimental — que, de resto, é fundador da ciência      moderna — e a consequente procura de leis universais (método nomotético) através      de pesquisas quantitativas<a href="#_edn13" name="_ednref13" title=""><sup>[13]</sup></a> e populacionais (Wilson, 2000, pp.      204-205), é importante notar que as decisões clínicas lidam e confrontam-se      efectivamente com zonas de indeterminação e contingência próprias da singularidade      e da individualidade. Isto significa que, apesar de o enfoque da moderna biomedicina      privilegiar o geral e o universal em detrimento do particular e do existencial      — em que os indivíduos tendem a ser vistos como casos ilustrativos das patologias      —, o objectivo original da medicina é o de lidar com doentes individuais através      de faculdades de julgamento prudenciais que valorizam a diferença e a singularidade.         </p>        <p>Esta gradual secundarização da clínica      reflecte, portanto, o impacto dos rápidos e profundos avanços da técnica moderna      sobre o perfil da medicina e acaba por ser um indicador expressivo da tendência      cientificizante que pretende conferir objectividade à clínica, negligenciando,      para usar uma expressão de Marques, a sua “espessura antropológica”. Neste      sentido, o perfil estatístico e os cada vez mais amplos recursos informacionais      à disposição dos médicos parecem destacar-se como uma das expressões mais      visíveis de uma nova cosmologia médica que passa a estar no centro de “rivalidades      epistemológicas” (Harrison, 2004, pp. 335-336) entre um modelo clínico “tradicional”,      em que predomina a decisão médica baseada numa epistemologia realista/naturalista,      e um modelo epidemiológico que se alicerça em formas de inferência estatística,      decorrentes de modelos probabilísticos.    </p>         <p>Os diferentes pressupostos que estão subjacentes a cada um dos modelos remetem    para entendimentos dicotómicos e são, por consequência, produtores de novos    paradoxos que complexificam o campo da medicina contemporânea através de mutações    compósitas que, de facto, obrigam a repensar qual o seu lugar e quais as suas    especificidades no contexto actual. No âmago desse “confronto” parece jogar-se    o gradual abandono de um modelo enformado por um <i>ethos</i> humanitário e    por uma ética individualista construída a partir da experiência dos casos individuais    e dos exemplos decorrentes da prática clínica (do próprio ou dos colegas), em    benefício da consolidação de um outro modelo baseado num conhecimento científico    de novo tipo em que o recurso à informação disponível surge ampliado por novas    possibilidades tecnológicas que valorizam a procura das normas de orientação    clínica e informação para a resolução concreta e padronizada dos problemas<a href="#_edn14" name="_ednref14" title=""><sup>[14]</sup></a>.  </p>     <p>&nbsp; </p>         <p><b>Conclusão</b> </p>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p>No decurso da trajectória histórica      aqui sumariamente assinalada, um dado que ressalta é o que se prende com a      gradual importância atribuída à quantificação e à objectividade enquanto estratégias      para a consolidação de uma concepção empírica e racional do conhecimento médico.      Todavia, embora essa concepção corresponda à visão epistémica dominante (Malterud,      1995), acaba por ser forçoso constatar que a incerteza é uma dimensão constitutiva      da medicina. Apesar de o desenvolvimento médico ser responsável pela resolução      eficaz de vários problemas, não deixa, contudo, de desocultar incertezas não      formalmente reconhecidas, ou até de criar novas áreas de incerteza através      da sua acção.    </p>        <p>Assim, e conforme é salientado por Fox      (1998 [1959]), os dois tipos de incerteza mais comuns com que os médicos se      confrontam são os que derivam das limitações do conhecimento médico e os que      resultam da incapacidade de dominar completamente o conhecimento disponível,      nomeadamente quanto aos benefícios, perigos e limitações de novas técnicas      ou drogas. Deste modo, a circunstância de o bem-estar dos doentes depender      estreitamente das decisões clínicas dos médicos confere, de acordo com a autora,      uma maior visibilidade às consequências humanas que decorrem da incerteza,      das limitações e da falibilidade médica.    </p>        <p>Acresce a isto um outro nível de incerteza,      que resulta do facto de as estratégias de padronização poderem ser, paradoxalmente,      geradoras de novos problemas no contexto da socialização profissional dos      médicos (Timmermans e Angell, 2001, pp. 348-349), dado que implicam novas      formas de pesquisa e recolha de informação que exigem competências técnicas      de natureza estatística. Isto significa, portanto, que as recomendações terapêuticas      e as revisões sistemáticas da literatura nem sempre são acessíveis, suficientes      ou adequadas para lidar com a complexidade de muitas situações concretas,      circunstância que pode justificar o recurso complementar à experiência clínica      e, deste modo, conduzir à reapreciação do julgamento clínico e à valorização      de preocupações de teor humanista (Timmermans e Angell, 2001, pp. 352-356).        </p>        <p>Neste sentido, face à constatação da      impossibilidade de controlar e remover a incerteza por via da racionalidade      científica, tem sido discutida e problematizada por alguns autores a importância      de se promover uma relação dialéctica entre a prática clínica e o conhecimento      científico (Malterud, 1995). Ao fazê-lo, procura-se mostrar que o tipo de      conhecimento tácito que é característico da clínica repousa sobre dimensões      interpretativas e interaccionais que devem exigir o desenvolvimento de rigorosas      investigações qualitativas que integrem, de forma validada, os “particulares      nos universais” (Malterud, 2001), ou seja, que mostrem que, em absoluto, a      <i>arte</i> não é o oposto da <i>ciência</i>.   </p>        <p>Do ponto de vista das considerações      e das indagações que aqui foram articuladas a propósito do significado e do      alcance das transformações científicas da biomedicina, é importante considerar,      em suma, que a complexidade e a vastidão do tema oferecem um terreno fértil      que, em rigor, transcende as críticas do humanismo médico (Malterud, 2006)      face aos perigos da elisão do sujeito individual<a href="#_edn15" name="_ednref15" title=""><sup>[15]</sup></a> na actual abordagem      epidemiológica. Embora a discussão tenha pertinência, torna-se importante      delimitar outros questiona-mentos que não estejam reféns da retórica e das      ideologias profissionais e que, pelo contrário, consigam identificar e contextualizar      as condições que estão subjacentes a uma cultura de racionalização e a um      discurso da prova científica. Aí poderão radicar os fundamentos que sustentam      e alimentam os imperativos da padronização no contexto da medicina baseada      na prova.   </p>      <p><b> &nbsp; </b></p>         <p><b>Bibliografia</b> </p>      <p> Bernard, C. (1978 [1865]), <i>Introdução      à Medicina Experimental, </i>Lisboa, Guimarães Editores.    </p>        <p>Cambrosio, A., <i>et al. </i>(2006), “Regulatory objectivity      and the generation and management of evidence in medicine”.      <i>Social Science &amp; Medicine, </i>63, pp. 189-199.   </p>        <p>Cochrane, A. (1972), <i>Effectiveness and Efficiency.      Random Reflections on Health Services,      RSM Press.</i>   </p>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Cronje,      R., e Fullan, A., (2003), “Evidence-based      medicine: toward a new definition of ‘rational’ medicine”. <i>Health: An Interdisciplinary      Journal for the Social Study of Health, Illness and Medicine, </i>vol. 7,      n.º 3, pp. 353-369. </p>      <p> Foucault, M. (1994 [1980]), <i>O Nascimento      da Clínica</i>, 4.ª ed., Rio de Janeiro, Editora Forense Universitária.         </p>        <p>Fox, R. (1998 [1959]), <i>Experiment Perilous.      Physicians and Patients Facing the Unknown, New Brunswick, Transaction Publishers.</i>   </p>        <p>Fox,      R. (2003), “Medical uncertainty revisited”. <i>In</i> G. Albrecht <i>et al.      </i>(eds.), <i>The Handbook of Social Studies in Health &amp; Medicine,</i>      Londres, Sage Publications, pp. 409-425. </p>      <p>Gabe,      J. (2004), “Risk”. <i>In</i> J. Gabe, M. Bury e M. A. Elston (eds.), <i>Key      Concepts in Medical Sociology</i>, Londres, Sage Publications, pp. 87-91.        </p>        <p>Green,      J. (1997), “Risk and high modernity”. In <i>Risk and Misfortune.      The Social Construction of Accidents, </i>Londres, UCL Press, pp. 119-155.        </p>        <p>Harrison, S. (2004), “The politics of evidence-based      medicine in the United Kingdom”. <i>In</i> M.      Bury e J. Gabe (eds.), <i>The Sociology of Health and Illness</i>: <i>A Reader</i>,      Londres, Routledge, pp. 329-340.   </p>        <p>Lupton,      D. (1999), <i>Risk,</i> Londres, Routledge.   </p>        <p>Malterud,      K. (1995), “The legitimacy of clinical knowledge: towards a medical epistemology      embrancing the art of medicine”. <i>Theoretical Medicine, </i>16, pp. 183-198.        </p>        <p>Malterud,      K. (2001), “The art and science of clinical knowledge: evidence beyond measures      and numbers”. <i> The      Lancet,</i>  358, pp.      397-400.    </p>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Malterud, K. (2006), “The social construction of clinical      knowledge — the context of culture and discourse.      Commentary on Tonelli (2006), integrating evidence into clinical practice:      an alternative to evidence-based approaches”. <i>Journal of Evaluation in Clinical Practice, </i> 12 (3), pp. 292-295.    </p>        <p> Marques, M. S. (2002), <i>A Medicina      enquanto Ciência do Indivíduo</i>. Dissertação de doutoramento em medicina, Lisboa, Faculdade de Medicina      da Universidade de Lisboa.    </p>        <p> Marques, M. S. (2003), “A medicina como      ciência do indivíduo: Sísifo, entre o aberto e o fechado”. <i>In</i> A. Cardoso      e J. M. Justo (eds.), <i>Sujeito e Passividade,</i> Lisboa, Colibri.         </p>        <!-- ref --><p> Martins, H. (1998), “Risco, incerteza      e escatologia — reflexões sobre o <i>experimentum mundi</i> em curso”. <i>Episteme.      Revista da Universidade Técnica de Lisboa, </i>1 (1), pp. 99-121, e 1 (2),      pp. 41-75.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000096&pid=S0003-2573200900040000500001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>Matthews,      J. R. (1995), <i>Quantification and the Quest for Medical Certainty,</i> New      Jersey, Princeton University Press.   </p>        <p>Nettleton, S. (2004), “The emergence of e-scaped medicine?” <i>Sociology, </i>38 (4), pp. 661-679.    </p>        <!-- ref --><p> Nunes, J. A. (2002), “Risco, incerteza      e regimes de verdade. A patologia tumoral e a biologia do cancro”. <i>Revista      de História das Ideias, 23,</i> pp. 285-315.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000099&pid=S0003-2573200900040000500002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p> Pope, C. (2003), “Resisting evidence:      the study of evidence-based medicine as a contemporary social movement”. <i>Health:      An Interdisciplinary Journal for the Social Study of Health, Illness and Medicine,</i> 7 (3), pp. 267-282.   </p>        <p> Raposo, H. (2006), <i>Dominar o Aleatório?      Risco e Incerteza no Pensamento Biomédico: o Caso do Risco Genético no Cancro      do Cólon e Recto</i>. Dissertação de mestrado, Lisboa, ISCTE.    </p>        <p> Sackett, D. L., <i>et al. </i>(1991 [1985]),      <i>Clinical Epidemiology. A Basic Science for Clinical Medicine,      2.ª ed., Boston, Little, Brown and Company.</i>        </p>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Timmermans,      S., e Angell, A. (2001), “Evidence-based medicine, clinical uncertainty, and      learning to doctor”. <i>Journal of Health and Social Behaviour,</i> 42, pp.      342-359.   </p>        <p>Timmermans,      S., e Berg, M. (2003), <i>The Gold Standard.      The Challenge of Evidence-Based Medicine and Standardization in Health      Care, Filadélfia, Temple University Press.</i>        </p>        <p>Weisz, G., <i>et al.</i> (2007), “The emergence of clinical      practice guidelines”. <i>The Milbank Quarterly, </i>85      (4), pp. 691-727.   </p>         <p>Wilson, H. (2000), “The myth of objectivity: is medicine moving towards a social    constructivist medical paradigm?” <i>Family Practice,</i> 17 (2), pp. 203-209.  </p>     <p>&nbsp; </p>        <p><b> Notas</b>   </p>          <p><a href="#_ednref1" name="_edn1" title=""><sup>[1]</sup></a> No entanto, e como mostram Lupton (1999, p. 7) e Martins (1998, pp. 42-45) através do exemplo da teoria económica clássica, a “incerteza<i>”</i> corresponde a uma noção que contrasta claramente com este entendimento moderno do risco, dado que se refere ao que não é previsível nem passível de se conhecer pelo cálculo racional.  </p>      <p><a href="#_ednref2" name="_edn2" title=""><sup>[2]</sup></a> Como refere Green (1997, p. 143), “such a possibility is a myth in that techniques of calculation based on statistical probabilities can never predict specific individual events […] Accidents no longer demonstrate the proper limits of rational explanatory systems, but rather individual failure”.  </p>      <p><a href="#_ednref3" name="_edn3" title=""><sup>[3]</sup></a> Relativamente às diferentes consequências de lidar com o risco ou com a incerteza, Nunes (2002, p. 291) argumenta que cada um deles aponta para modos diferentes de actuação. Segundo este autor, a distinção entre estas categorias constitui um desafio sério, dado que numa situação de risco é possível desenvolver acções preventivas, ao passo que numa situação caracterizada pela incerteza se deve remeter para uma acção de tipo cautelar, de forma a evitar abordagens simplificadas com efeitos potencialmente contraproducentes.  </p>      <p><a href="#_ednref4" name="_edn4" title=""><sup>[4]</sup></a> Segundo a definição de Claude Bernard (1978 [1865], p. 9), a fisiologia deve ser entendida como “o conhecimento das causas dos fenómenos da vida no estado normal, ou seja, a <i>fisiologia</i> ensinar-nos-á a manter as condições normais da vida e a <i>conservar a saúde</i>”.  </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#_ednref5" name="_edn5" title=""><sup>[5]</sup></a> Com efeito, este empreendimento científico de Greenwood é algo a que este autor se dedicará intensamente, juntamente com um colaborador americano, Raymond Pearl, o que os leva a desencadearem várias estratégias no sentido de estabelecerem as estatísticas na investigação médica, nomeadamente através da produção de manuais, publicação em vários jornais científicos e formação de estudantes.   </p>      <p><a href="#_ednref6" name="_edn6" title=""><sup>[6]</sup></a> A estreptomicina foi o primeiro fármaco a surgir em 1942 com eficácia clínica no tratamento da tuberculose.   </p>      <p><a href="#_ednref7" name="_edn7" title=""><sup>[7]</sup></a> Esta expressão designa um procedimento utilizado na condução das experiências médicas, sobretudo em sujeitos humanos, com o objectivo de evitar enviesamentos e de assegurar um maior rigor científico. Na prática, significa que na maioria dos ensaios clínicos nem os investigadores nem os próprios sujeitos que participam nas experiências sabem se pertencem ao grupo de controlo ou ao grupo experimental, dado que foram determinados aleatoriamente. Só quando o estudo termina e os resultados são analisados é que a entidade promotora identifica os respectivos grupos e apresenta as suas conclusões.  </p>      <p><a href="#_ednref8" name="_edn8" title=""><sup>[8]</sup></a> A importância do texto    de Cochrane foi tão lapidar que hoje o seu nome surge associado a um dos mais    vastos empreendimentos científicos internacionais no campo da biomedicina: a    Cochrane Collaboration. Esta é uma organização internacional que produz e reúne    as revisões sistemáticas dos resultados decorrentes dos ensaios clínicos aleatórios    (<a href="http://www.cochrane.org" target="_blank">www.cochrane.org</a>). </p>      <p><a href="#_ednref9" name="_edn9" title=""><sup>[9]</sup></a> “The practice of evidence-based medicine means integrating individual clinical expertise with the best available external clinical evidence derived from the basic sciences of medicine, and from patient centred clinical research conducted via large, randomized, controlled clinical trials, or from the systematic review (including meta-analysis) of a number of smaller, more disparate published clinical studies” (cit. <i>in</i> Fox, 2003, pp. 417-418).  </p>      <p><a href="#_ednref10" name="_edn10" title=""><sup>[10]</sup></a> Trad. do autor.   </p>      <p><a href="#_ednref11" name="_edn11" title=""><sup>[11]</sup></a> Ano em que pela primeira vez apareceu a referência ao termo <i>evidence-based medicine  na</i> literatura médica.  </p>      <p><a href="#_ednref12" name="_edn12" title=""><sup>[12]</sup></a> Até 2006 estavam listados no sítio electrónico da <i>National Guideline Clearinghouse</i> — estrutura criada pela <i>U. S. Agency for Healthcare Research and Quality</i> — mais de 2000 <i>guidelines</i> (Weisz <i>et. al</i> 2007).  </p>      <p><a href="#_ednref13" name="_edn13" title=""><sup>[13]</sup></a> Sobre as razões da valorização da medida e do quantitativo, Marques refere que “qualquer realidade material ou espiritual ganha com a visibilidade e a exteriorização, isto é, com a expressão. Sobretudo quando se consegue traduzir numa língua universal numérica ou lógica. A medida tende a ignorar as singularidades, instala-se sobre uma métrica […] e oferece-nos do que era inapreensível, ou menos incompreensível, uma imagem quantitativa” (Marques, 2002, p. 336).  </p>      <p><a href="#_ednref14" name="_edn14" title=""><sup>[14]</sup></a> Num artigo em que procura discutir a existência de afinidades electivas entre a cosmologia da medicina contemporânea (“informacional”) e as mudanças sociotécnicas, Nettleton mostra como a crescente multiplicidade de recursos técnicos, característica de um perfil informacional da medicina, de facto reconfigura o modelo clínico, sobretudo ao nível da erosão da autoridade da arte médica e da secundarização da experiência clínica, que é ameaçada por novos fenómenos, como a perda da presença física do corpo e a resolução de problemas com base em formas de acesso sofisticadas à informação clínica <i>(problem-based learning)</i> (Nettleton, 2004, pp. 670-672).  </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#_ednref15" name="_edn15" title=""><sup>[15]</sup></a> Curiosamente, no    âmbito das novas inovações tecnológicas no campo da genética, o discurso orienta-se    hoje para uma inversão desta lógica, sobretudo quando é apresentado como um    dos horizontes “revolucionários” da farmacogenética o retorno ao indivíduo,    por via do <i>design </i>de fármacos em função das características genéticas    individuais. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="a2"></a><a href="#topa2">**</a> Este artigo tem como ponto de partida    algumas das questões trabalhadas no enquadramento teórico da minha dissertação    de mestrado em Sociologia (Raposo, 2006). Apresenta agora uma reflexão mais    sistematizada e alterações substanciais resultantes de sugestões dos <i>referees    </i>da revista, a quem estou grato pelos comentários críticos. Naturalmente    que qualquer insuficiência ou imprecisão só a mim poderá ser imputada. </p>      ]]></body><back>
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<surname><![CDATA[Martins]]></surname>
<given-names><![CDATA[H.]]></given-names>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Risco, incerteza e escatologia: reflexões sobre o experimentum mundi em curso]]></article-title>
<source><![CDATA[Episteme. Revista da Universidade Técnica de Lisboa]]></source>
<year>1998</year>
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<surname><![CDATA[Nunes]]></surname>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Risco, incerteza e regimes de verdade: A patologia tumoral e a biologia do cancro]]></article-title>
<source><![CDATA[Revista de História das Ideias]]></source>
<year>2002</year>
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