<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0003-2573</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Análise Social]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Anál. Social]]></abbrev-journal-title>
<issn>0003-2573</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0003-25732009000400008</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A terra dos heróis: espaço urbano e vida comercial em Manjacaze (Moçambique)]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Land of heroes: urban space and commercial life in Manjacaze (Mozambique)]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Ribeiro]]></surname>
<given-names><![CDATA[Fernando Bessa]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
</contrib>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Portela]]></surname>
<given-names><![CDATA[José F. G.]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
</contrib>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Gerry]]></surname>
<given-names><![CDATA[Chris]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,UTAD - Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro CETRAD - Centro de Estudos Transdisciplinares para o Desenvolvimento ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[Vila Real ]]></addr-line>
<country>Portugal</country>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>10</month>
<year>2009</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>10</month>
<year>2009</year>
</pub-date>
<numero>193</numero>
<fpage>825</fpage>
<lpage>847</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0003-25732009000400008&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0003-25732009000400008&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0003-25732009000400008&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><abstract abstract-type="short" xml:lang="pt"><p><![CDATA[Escorado nos contributos teóricos de diversas ciências sociais, com destaque para a antropologia social, a sociologia, a geografia e a história, o artigo procura examinar as dinâmicas sociais relacionadas com as actividades comerciais num espaço urbano localizado no sul de Moçambique. Partindo da problematização teórica do conceito de espaço, o texto avança para a caracterização espacial, política, social e histórica de Manjacaze, terminando com a análise do uso do espaço em contexto pós-colonial. Não sendo possível pensar as dinâmicas sociais fora do espaço, procura-se mostrar que o modo como este é usado é profundamente histórico e que nele se faz sentir quer a acção do Estado e seus agentes, quer os interesses e conflitos que opõem as diferentes classes e grupos sociais.]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Drawing on contributions from social anthropology, sociology, geography, and history, the article examines the social dynamics that have shaped urban space in Southern Mozambique. The authors first problematise the question of space, then provide a spatial, political, social, and historical characterisation of the town of Manjacaze, ending with an analysis of the postcolonial use of urban space. The authors show that the use of space is profoundly historical, and that in it can be discerned both actions taken by the state and its agents, and the interests that bring different classes and social groups into mutual contact and conflict.]]></p></abstract>
<kwd-group>
<kwd lng="pt"><![CDATA[Manjacaze]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[Moçambique]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[espaço]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[comércio]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[dinâmicas sociais]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[Manjacaze]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[Mozambique]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[space]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[trade]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[social dynamics and interactions]]></kwd>
</kwd-group>
</article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p><b>A terra dos heróis: espaço urbano e vida comercial em Manjacaze (Moçambique)</b></p>     <p>&nbsp;</p>      <p><b>Fernando Bessa Ribeiro*,José F. G. Portela*, Chris Gerry*</b></p>     <p><b>*</b>Centro de Estudos Transdisciplinares para o Desenvolvimento, Universidade    de Trás-os-Montes e Alto Douro, Av. Almeida Lucena, 1, 5000-660 Vila Real, Portugal.    e-mail:<a href="mailto:fbessa@utad.pt"> fbessa@utad.pt</a>;<a href="mailto:jportela@utad.pt">    jportela@utad.pt</a>; <a href="mailto:cgerry@utad.pt">cgerry@utad.pt</a>. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Escorado nos contributos teóricos de diversas ciências sociais, com destaque    para a antropologia social, a sociologia, a geografia e a história, o artigo    procura examinar as dinâmicas sociais relacionadas com as actividades comerciais    num espaço urbano localizado no sul de Moçambique. Partindo da problematização    teórica do conceito de espaço, o texto avança para a caracterização espacial,    política, social e histórica de Manjacaze, terminando com a análise do uso do    espaço em contexto pós-colonial. Não sendo possível pensar as dinâmicas sociais    fora do espaço, procura-se mostrar que o modo como este é usado é profundamente    histórico e que nele se faz sentir quer a acção do Estado e seus agentes, quer    os interesses e conflitos que opõem as diferentes classes e grupos sociais.  </p>     <p><b>Palavras-chave: </b>Manjacaze; Moçambique; espaço; comércio; dinâmicas sociais.  </p>     <p>&nbsp;</p>          <p><b>Land of heroes: urban space and commercial life in Manjacaze (Mozambique)</b></p>            <p>Drawing on contributions      from social anthropology, sociology, geography, and history, the article examines      the social dynamics that have shaped urban space in Southern Mozambique. The      authors first problematise the question of space,      then provide a spatial, political, social, and historical      characterisation of the town of Manjacaze, ending      with an analysis of the postcolonial use of urban space. The authors show      that the use of space is profoundly historical, and that in it can be discerned      both actions taken by the state and its agents, and the interests that bring      different classes and social groups into mutual contact and conflict.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Keywords: </b>Manjacaze; Mozambique; space; trade; social dynamics and interactions.  </p>      <p>&nbsp;</p>     <p><b>Introdução</b></p>     <p>A reflexão sobre o espaço tem sido realizada por várias      disciplinas, com destaque para a geografia, a sociologia, a antropologia e      a história. Este campo constitui uma expressão forte da crescente porosidade      disciplinar, directamente relacionada com a cada vez mais frequente organização      do trabalho científico, tendo por base temas ou áreas geográficas, como justamente      foi assinalado por Wallerstein <i>et al.</i> (1996, pp. 102-103). É de salientar também      que na antropologia, na sociologia e na história os procedimentos interpretativos,      as problemáticas teóricas, os paradigmas e as modalidades de construção do      objecto são, basicamente, comuns e transversais, apesar de cada uma privilegiar,      em regra, diferentes formas de investigação empírica: as fontes documentais      para a história, o inquérito por questionário para a sociologia e a observação      participante para a antropologia (Olivier de Sardan,      1995, p. 71). A compreensão do modo como o espaço é apropriado e usado implica      a mobilização de diversas ciências sociais. Silva (2006), entre outros, dá      especial destaque à relação entre a geografia e a sociologia, sem obnubilar,      entre outras, a antropologia e a história: </p>        <p>Conceitos territoriais tais como casa, aldeia ou cidade,      região ou país são simultaneamente geográficos e sociológicos […] Com as perspectivas      geográfica e sociológica entrecruzam-se também outras, tais como a antropológica,      a histórica e mesmo a psicológica e arquitectural. A casa, por exemplo, é      também o lugar arquitectónico da personalidade íntima, o que implica ter presente      a dimensão sociopsicológica [Silva, 2006, p. 186].      </p>         <p>A partir dos dados recolhidos para uma tese de doutoramento de um dos autores    (Ribeiro, 2004) sobre modernização e mudança social em Moçambique, pretende-se    reflectir sobre as dinâmicas sociais relacionadas com a vida comercial na vila    de Manjacaze (v. mapa n.º 1). Localizada na província de Gaza, é um lugar expressivo    na ocupação portuguesa do interior moçambicano a partir do final do século xix.    Nele, o colonialismo estabeleceu e consolidou um espaço urbano, simultaneamente    centro de poder político e económico e instrumento de afirmação simbólica da    “superioridade” do colonizador, marcado pela presença de indivíduos de origem    indiana, que aí se fixaram para comerciar. Mas não só. Manjacaze é também um    lugar primordial para a construção da nação moçambicana, e daí poder ser considerado    a “terra dos heróis”. Em Manjacaze ocorreu a derradeira batalha entre o exército    colonial português e as forças do império de Gaza; aí nasceu Eduardo Mondlane,    fundador e primeiro presidente da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo)    (Ribeiro, 2005). Tal concorre para a produção de uma condição híbrida, marcada    por caldeamentos, encontros e conflitos entre pessoas e grupos com origens étnicas,    sociais e geográficas muito diversas, os quais, como veremos, ainda hoje continuam    a fazer-se sentir.<a href="#_edn1" name="_ednref1" title=""><sup>[1]</sup></a></p>      <p>&nbsp;</p>     <p><b>Localização de Manjacaze</b></p>        <p>[Mapa n.º 1]</p>  <img src="/img/revistas/aso/n193/n193a08m1.jpg">         
<p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Após a discussão sobre a noção conceptual do espaço, far-se-á uma análise da    fundação e expansão colonial de Manjacaze e a descrição etnográfica sobre a    sua evolução pós-colonial. Como se disse, o enfoque recairá sobre a vida comercial    deste espaço urbano, em concreto sobre as suas origens, o trajecto histórico,    os actores e grupos sociais e ainda as suas estratégias e práticas. Procurar-se-á    mostrar que as rupturas e uma certa continuidade fazem a história deste lugar,    constituindo um par inseparável. Se, por um lado, em determinados aspectos encontramos    uma relativa estabilidade (v. g., nos usos do espaço, ainda que com alterações    simbólicas relevantes), por outro lado, as rupturas são igualmente evidentes    nos campos político e social. Enfim, o modo como o espaço é apropriado, utilizado    e valorizado é indissociável das dinâmicas económicas, das lutas sociais e da    intervenção deliberada do poder estatal. </p>     <p>&nbsp;</p>         <p><b>O espa&ccedil;o: usos e din&acirc;micas </b></p>      <p>A vida social desenrola-se em lugares concretos, em relação      com os objectos e todos os demais elementos que compõem o espaço físico. Segundo      Bourdieu (1999, p. 160) “o <i>lugar</i> pode ser      definido absolutamente como o ponto do <i>espaço físico</i> onde um agente      ou uma coisa se encontra situado, tem lugar, existe”. Os lugares são espaços      onde as relações sociais se produzem, organizam e se transformam no curso      do tempo; são espaços “afeiçoados” pelos actores e grupos sociais que neles      residem e trabalham (Portela, 2001). Giddens (1984,      p. 118), por seu turno, propõe o conceito de <i>locale</i>,      que caracteriza o uso do espaço para definir <i>settings      </i>de interacção essenciais à especificação da sua contextualidade.<a href="#_edn2" name="_ednref2" title=""><sup>[2]</sup></a>      Pode aplicar-se a um quarto de uma casa, a um cruzamento de ruas, a uma fábrica,      a cidades, a territórios dos Estados-nações. A vantagem      deste conceito face ao do <i>lugar</i> é, no entender de Giddens, a de permitir examinar as relações sociais através      do espaço e do tempo. Isto é, este conceito articula o lugar, dimensão basicamente      geográfica, com as dimensões social e temporal, permitindo “conceptualizar      quadros sistémicos de interacção e relações sociais — em que se incluem as      suas dimensões físicas — assentes na coordenação espácio-temporal de actividades”      (Sobral, 1999, p. 46). Em suma, as actividades humanas são sempre situadas,      quer dizer, estão social e fisicamente ancoradas aos lugares onde se vive      e aos que se visitam. Os ruídos da cidade, os sons do campo, os objectos e      as pessoas que nos rodeiam ou que nos podem contactar fisicamente acentuam      a relação humana com o lugar. </p>        <p>São inúmeros os debates sobre esta temática. Procurando      elaborar uma visão sintética sobre eles, Silva (2006, pp. 191-192) refere      que, enquanto os teóricos da escola de Chicago, como Park      (1987), Wirth (1987 [1938]) e Burgess      (1967 [1925]), argumentam que o espaço é uma variável independente, já os      marxistas, com destaque para Lefebvre (1968), Castells (1975 e 1982) e Harvey      (1992), consideram-no inseparável das dinâmicas sociais, económicas e políticas.      Nesta óptica, os usos e as mudanças que se verificam no espaço devem ser compreendidos      em função da própria sociedade nela implementada, das suas rupturas e vicissitudes      históricas. Por seu lado, os teóricos de filiação weberiana, como Ledrut (1968) e      Freund (1975), sublinham a importância do factor político,      designadamente da acção deliberada do Estado e seus agentes na configuração      do espaço. Escrutinando estas posições em confronto, Silva (2006, pp. 194-195)      argumenta que “o facto de se sustentar que o espaço tem uma relativa autonomia      e produz efeitos próprios não significa que não seja socialmente condicionado.      O espaço, para ser explicativo, tem de ser articulado com outros factores      de carácter social, político e cultural”. Trata-se, pois, de subscrever uma      posição analítica sobre o espaço que o entende como um produto da acção social:</p>         <blockquote>       <p>O espaço em si pode ser primordialmente dado, mas a organização e o sentido      do espaço são produto da translação, da transformação e da experiência sociais.      O espaço socialmente produzido é uma estrutura criada, comparável a outras      construções sociais resultantes da transformação de determinadas condições      inerentes ao estar vivo, exactamente da mesma maneira que a história humana      representa uma transformação social do tempo [Soja, 1993, pp. 101-102].</p> </blockquote>     <p>A forma como o espaço é usado, ou, mais concretamente,      os processos de intervenção humana no território, são inseparáveis das dinâmicas      sociais e políticas ocorridas ao longo do tempo histórico e da própria acção      dos actores. No campo da antropologia social, os trabalhos de Long (1989, 1992 e 2001), de Arce      e Long (1999), de Ong      (1999) e de Olivier de Sardan      (1995 e 2001) revelam o papel decisivo da acção individual dos actores sociais      na estruturação dos quadros político-sociais, ainda que tal não permita subalternizar      a força das estruturas sistémicas que os condicionam. Os actores sociais possuem      uma margem relativa de agência, variável em função dos contextos histórico-espaciais      e sempre sujeita aos constrangimentos impostos pelas estruturas onde a acção      se inscreve, como justamente assinala Bourdieu (1997,      2000a e 2000b). Ou seja, as estruturas espaciais existentes influenciam a      vida social nas suas dimensões mais diversas, incluindo o modo como os actores      intervêm nelas. Na perspectiva de Bourdieu (1997,      p. 31), “a noção de espaço contém, por si própria, o princípio de uma apreensão      <i>relacional </i>do mundo social”. O espaço social, melhor dito, os espaços      sociais são campos de força e de luta que se impõem aos actores sociais neles      envolvidos, são </p>         <blockquote>       <p>estruturas de diferenças que só podemos compreender deveras na condição de      construirmos o princípio gerador que funda essas diferenças no plano da objectividade.      Princípio que não é senão a estrutura da distribuição das formas de poder      ou das espécies de capital que são eficientes no universo social considerado      — e que variam, portanto, segundo os lugares e os momentos [Bourdieu, 1997,      p. 32]. </p> </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Os actores sociais percebem que o espaço em que se movem      não é homogéneo. É no espaço que se inscrevem as condições materiais de existência      (Hall, 1986), é nele que se constroem e se exprimem as distinções que, segundo      o sentido dado por Bourdieu (1979), marcam muitos      outros aspectos da vida social, como o local e tipo de habitação, as actividades      e os lugares de lazer. A organização das aldeias, das vilas e das cidades      não é fruto do acaso, mas produto da história, quer dizer, da acção dos actores      sociais, das instituições e do Estado. Estamos perante realidades dinâmicas      que não se apresentam jamais em “estado puro”, como assinala Baptista (2006,      p. 55), na esteira de Remy e Voyé (1974). A cada “espaço dado”, entendido como as formas      já existentes (habitações, ruas, etc.), a acção social vai acrescentando e      modificando as estruturas físicas, por outras palavras, vai elaborando a todo      o instante o seu espaço “produzido”, através das intervenções e interpretações      definidas pelas dinâmicas sociais, pelas tensões, pelos sonhos e pelas expectativas      dos actores sociais (Bromberger e Ravis-Giordani, 1976). Assim, conhecer todos os elementos      e aspectos que compõem o espaço, como as habitações, os lugares públicos,      as ruas e caminhos e a própria toponímia, como fez Martinelli      (1982), é fundamental, pois todos os grupos humanos inscrevem e produzem a      sua existência no espaço, ainda que, parafraseando Marx, não sob as condições      e os modos por eles escolhidos.  </p>      <p>É precisamente esta pluralidade de aspectos, hibridismos, relações e conflitos    relacionados com o espaço que a observação etnográfica em Manjacaze revela.    Procurando seguir a discussão teórica acima enunciada, a análise sobre este    espaço concreto começará pela história do lugar para mergulhar seguidamente    na discussão sobre a vida comercial urbana. </p>     <p>&nbsp;</p>          <p><b>Manjacaze, a “Terra dos Heróis”</b></p>            <p>A história de Manjacaze está      estreitamente ligada ao processo de penetração do colonialismo português em      Moçambique. Última capital de Ngungunhane<a href="#_edn3" name="_ednref3" title=""><sup>[3]</sup></a>,      foi saqueada pelo exército português em Novembro de 1895. Apesar da destruição      provocada, a zona continuou a manter atracção suficiente para nela se estabelecer      um aglomerado populacional moderno, assente no pequeno comércio colonial dos      cantineiros indianos e, mais tarde, portugueses.      A palavra Mandlakazi é de origem zulu, tendo sido      traduzida por Liengme — descendente do missionário      médico suíço que viveu em Gaza de 1892 a 1895 — por <i>grande força </i>ou      <i>cidade forte e bela</i> (Liesegang, 1986, p.      32). Tal termo teria como função designar a aldeia real. No entender de Vilhena      (1996, p. 105), “onde quer que Gungunhana se fixasse,      sempre a sua povoação se chamaria Manjacaze”. Outros      dão-lhe uma interpretação diferente, considerando que resulta da palavra “Va      lhakazi” — <i>a quem golpearam com as lanças e mataram      </i>(<i>Tempo,</i> n.º 600, de 11-4-1982, suplemento). Este significado parece      ter-se perdido, substituído por um outro que acentua a sua condição de terra      de lutas e de heróis, de mortes e sangue vertido. Assim, temos “mãos de sangue”      — <i>mandla ya      gázi</i> —, expressão do forte derramamento de sangue      que se verificou aquando da instalação de Ngungunhane nestes territórios do sul de Gaza, cuja versão corrente é “comer sangue”, isto nas      vozes de informantes locais. Segundo um deles, à sombra da árvore onde, diz      a tradição, dava as ordens aos seus guerreiros, Ngungunhane,      confrontado com as enormes baixas causadas pelos muchopes,      interrogou-se:<a href="#_edn4" name="_ednref4" title=""><sup>[4]</sup></a> “porquê este sofrimento,      porque é que estou a comer sangue?” No dizer de um outro informante, muito      idoso, conhecedor da história pelas narrativas do seu pai, um dos primeiros      intérpretes dos portugueses, “os muchopes estavam      a chegar-lhe bem”. Subsistem algumas dúvidas em relação ao local efectivo      da capital do império de Gaza. De acordo com os elementos reunidos por Liengme (Vilhena, 1996; Liesegang,      1986), quando Ngungunhane veio do Norte e se instalou      por volta de 1889, fê-lo efectivamente junto à lagoa Sulé,      numa zona localizada a sudoeste desta, onde permaneceu até 1891. Posteriormente      mudaria para um local mais próximo da actual Manjacaze,      onde terá ficado pouco tempo. Acabaria por se afastar da lagoa, fixando-se      na planície de Manguanhane, alguns quilómetros a      norte da actual vila, hoje parte do distrito do Chibuto.      Segundo diversas estimativas, a povoação possuía entre 600 e 1600 palhotas,      sendo para a época de grande dimensão, embora muito inferior a Lourenço Marques      ou Inhambane (Liesegang,      1986, pp. 33-34). Teria sido este o aglomerado populacional atacado e queimado      pelas tropas portuguesas em 1895 (Liesegang, 1986,      pp. 9-10). </p>        <p>A Manjacaze moderna é obra do      esforço colonial na sua tentativa de ocupação do interior moçambicano. Se      é inquestionável o interesse do Estado colonial em apoderar-se do vasto território      do sul de Moçambique, disseminando      para isso estruturas político-administrativas em novos centros urbanos — com      destaque para os lugares ligados à luta contra a ocupação colonial —, a escolha      deste espaço estará também relacionada com a posição geográfica e a abundância      de recursos populacionais e naturais. Note-se que, aquando da definição do      traçado da linha do caminho-de-ferro do Xai-Xai (capital provincial) para o interior da província      de Gaza, João Bello — comandante de esquadrilha      em Gaza, mais tarde ministro das Colónias — escreveu que, em virtude de a      reforma administrativa ter extinguido o distrito de Gaza, o traçado inicialmente      pensado deixava de fazer sentido, desvalorizando assim a importância do Chibuto, lugar vizinho localizado a menos de meia centena      de quilómetros de distância. Na sequência das viagens empreendidas pelo extinto      distrito, Bello chegou à conclusão de que a circunscrição      dos muchopes era a melhor, com uma população trabalhadora,      pelo que propunha que a linha se dirigisse para Manjacaze. Discutindo o apego ao trabalho por parte das populações      nativas, Bello <i>et al.</i> (1911, p. 7) escreveram: </p>         <blockquote>       <p>Nesta parte do país, que é a região dos M’chopes, notámos que os indígenas      se dedicavam com o maior interesse à agricultura, e conseguintemente estavam      as suas culturas em melhores condições do que outras culturas indígenas que      anteriormente havíamos visto [...] a gente dos M’chopes se mostra em geral      ansiosa por obter melhores variedades de sementes para as suas culturas e      mostra bem assim o desejo de experimentar novos processos de cultivação. </p> </blockquote>     <p>Estava, pois, plenamente justificada a passagem do caminho-de-ferro      por Manjacaze: um lugar e uma população com características      adequadas às necessidades do projecto colonial. Na perspectiva de Bello:      </p>         <blockquote>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O terreno é todo repartido entre machambas de mandioca e milho, alternadas      com extensos tractos de mattas. Por toda a parte abundam cursos d’água, as      lagoas e os pantanos. Nas grandes planícies, frescas e húmidas, vestidas d’uma      relva verde e macia, pastam rebanhos de carneiros, cabras e bois; nas machambas,      as mulheres com pequenitos às costas, cavam a terra [...] Estava, pois, a      meu ver, indicado qual o ramal do caminho de ferro de penetração Inhambane-Inharrime-Lourenço      Marques, que primeiro se construísse em Gaza deveria ter por objectivo ligar      a Circumscripção dos M’chopes ao Chai-Chai, como terminus da navegação, que      frequenta o porto de Inhampura [Lima, 1971, pp. 27-28]. </p> </blockquote>     <p>O objectivo principal era ligar Lourenço Marques a Inhambane, passando pelo distrito de Manjacaze.      Finalmente, em 1909 deu-se início à obra de construção do caminho-de-ferro,      em via estreita de 0,75m, numa extensão de quase 52 km entre Xai-Xai      e Manjacaze, entrando em funcionamento no ano seguinte.      Em 1915 iniciou-se a construção do ramal para Chicomo.      Além do grande propósito da ligação das duas grandes cidades do sul de Moçambique, a linha propiciaria      uma outra finalidade, como refere Bello (Lima, 1971,      p. 29): assegurar o escoamento fácil dos produtos agrícolas da região, então      considerada de grande produção. Esta função seria desempenhada, com inegável      sucesso, durante quase todo o século xx.      Juntamente com a implementação do aparelho político-administrativo, a linha      permitiu consolidar a presença portuguesa nesta parte de Moçambique, bem como      projectar a força do poder colonial sobre as populações locais. Em suma, foi      a articulação de diversos recursos e singularidades, nomeadamente de carácter      político-simbólico e económico, que acabaria por dar a Manjacaze a sua configuração moderna. </p>         <p>Na estruturação político-administrativa actual, o centro urbano, os bairros    adjacentes e as suas áreas limítrofes constituem o município de Manjacaze, estabelecido    pela lei n.º 2/97, de 18 de Fevereiro, vulgarmente designada por “lei das autarquias”.    A sua instituição é directamente decorrente das profundas alterações políticas    verificadas em Moçambique com o ajustamento estrutural imposto, em boa medida,    pelas instituições do Consenso de Washington. Em 1996 foram constitucionalmente    (artigo 190º) estabelecidos dois tipos de “autarquias locais”: município, para    as cidades e vilas; povoação (sede do posto administrativo), para os pequenos    aglomerados, directamente dependentes do primeiro. Com base naquilo que se designou    por gradualismo (Hanlon, 1998), foram definidos como municípios somente as 23    cidades e 10 das 68 vilas do país. Manjacaze foi uma delas. O município é composto    pela assembleia municipal e pelo conselho municipal. A primeira tem poderes    deliberativos e de fiscalização, o segundo é o órgão executivo. </p>         <p>No distrito habitam 161 147 pessoas, das quais somente 14,5% vivem na vila    de Manjacaze (<i>II Recenseamento geral da população e habitação 1997 — Resultados    definitivos,</i> 1999). Trata-se de um dos distritos com maior peso demográfico    em Gaza, a província a que pertence administrativamente. Os dados estatísticos    mais recentes para Manjacaze e Gaza apontam para o perfil demográfico dominante    nos países periféricos, em particular na África subsariana, marcado por reduzida    esperança de vida, predomínio da população jovem e elevadas taxas de fecundidade    e mortalidade. A população distribui-se por 38 495 agregados familiares, dos    quais cerca de 40% são alargados. A evolução demográfica reflecte os efeitos    da guerra no distrito de Manjacaze e, em especial, o terror exercido pela Renamo    sobre a população civil (v. gráfico n.º 1). </p>     <p>&nbsp;</p>         <p><b>Evolução demográfica no distrito de Manjacaze </b></p>        <p>[gráfico n.º 1] </p> <img src="/img/revistas/aso/n193/n193a08g1.jpg">      
<p>&nbsp;</p>     <p>A partir do recenseamento de 1950, constata-se que o crescimento populacional    foi contínuo até 1980. Com mais de 180 000 habitantes nesse ano, ao longo da    década a população iria diminuir para quase metade. Como aconteceu em muitos    outros distritos rurais, a população procurou refúgio seguro nas grandes cidades,    sobretudo na capital, abandonando as suas casas e machambas. Com a paz, estabelecida    em 1992, a população começa a regressar às suas terras, dando origem a uma recuperação    demográfica que, porém, ainda não permitiu que se atingissem os valores populacionais    de 1980. </p>     <p>&nbsp;</p>          ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Espaço urbano e vida comercial em Manjacaze </b></p>         <p>Manjacaze organiza-se em torno do seu centro político e administrativo, sito    em redor da avenida principal, e das suas duas zonas comerciais (v. figura n.º    1 e <a name="topa1"></a><a href="#a1">anexo n.º 1</a>). O eixo principal do    centro urbano é definido por uma grande avenida. No topo sudeste encontramos    o edifício da administração distrital. O outro topo é rematado pela Praça dos    Heróis. Neste espaço destaca-se a pira da união nacional — monumento evocativo    da luta pela independência —, onde se realizam algumas das manifestações mais    solenes promovidas pelo Estado. No seu interior temos o jardim dos Heróis Moçambicanos.    A faixa central da avenida é ladeada, em ambos os lados, por edifícios em alvenaria    que formam o melhor conjunto arquitectónico da vila. No lado leste, a maioria    dos edifícios tem funções político-administrativas. Já do lado oposto predomina    o uso habitacional. Com a excepção de quatro edifícios, as construções remontam    todas ao tempo colonial. Os seus usos denunciam o modo como o espaço é socialmente    apropriado e usado ao longo da história. Apesar das grandes mudanças institucionais    relacionadas com a substituição do aparelho político-administrativo colonial    pelo Estado moçambicano, há uma certa continuidade na ocupação dos espaços construídos,    com 22 edifícios (cerca de dois terços do total) a manterem a função habitacional    no período pós-independência. </p>     <p>&nbsp; </p>         <p><b>Representação esquemática do centro administrativo de Manjacaze<a href="#_edn5" name="_ednref5" title=""><sup>[5]</sup></a>    </b></p>        <p>[figura n.º 1] </p>         <p><img src="/img/revistas/aso/n193/n193a08f1.jpg" width="628" height="391"></p>          
<p>&nbsp;</p>     <p>Desde o período colonial que este espaço central constitui a zona “nobre” de    Manjacaze, nele se situando os principais órgãos de soberania do Estado moçambicano    e as residências de função da elite político-administrativa local. Na cabeceira    superior da avenida situa-se o edifício da administração, cujas traseiras dão    para a praça acima referida. Junto a este temos o canhoeiro onde, segundo a    memória colectiva, Ngungunhane se reunia para conversar com o seu povo e dar    as ordens aos seus chefes militares<a href="#_edn6" name="_ednref6" title=""><sup>[6]</sup></a>.    Eis como Eduardo e Janet Mondlane viram o local quando visitaram Manjacaze em    1961: </p>         <p>A administração estava situada num local maravilhoso com vista para um grande    lago. À frente, os portugueses tinham construído um bonito parque com estatuetas    no interior de um pequeno lago, como acontece em muitas outras pequenas cidades.    Mas o que era extraordinário aqui é que perto da porta de entrada havia uma    grande árvore, o Eduardo reconheceu-a como uma <i>Ndsondso</i>, com uma pequena    placa dizendo que ali era o lugar onde Ngungunyana se costumava sentar com os    seus conselheiros quando tinha de tomar decisões [Manghezi, 2001, p. 203]. </p>        <p>É em volta deste núcleo urbano — o chamado bairro do Cimento      — que se organizam os restantes bairros residenciais de Manjacaze: Liberdade, Eduardo Mondlane,      Josina Machel, Alto e      Macave<a href="#_edn7" name="_ednref7" title=""><sup>[7]</sup></a>. São compostos, na sua esmagadora maioria,      por habitações em caniço e telhado de chapa, muitas delas com chão de cimento      e energia eléctrica (INE, 1999). As casas de alvenaria vão já ponteando a      paisagem urbana com alguma regularidade. Para além das famílias de comerciantes,      possuem habitações deste tipo os assalariados mais bem remunerados: trabalhadores      de algumas empresas de grande dimensão com instalações no Xai-Xai      e a operar no distrito<a href="#_edn8" name="_ednref8" title=""><sup>[8]</sup></a>, profissionais técnicos, membros dos corpos      intermédios da administração pública e outros que, não o sendo, têm acesso      a ganhos provenientes da prestações de pequenos favores.  </p>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Quanto às zonas comerciais, a formada pelo mercado Xikanhanine está localizada no cruzamento da avenida principal      acima referida com as estradas para o Xai-Xai e      para Macuácua. Esta enorme área de comércio e serviços      ditos informais foi criada em 1992<a href="#_edn9" name="_ednref9" title=""><sup>[9]</sup></a>, contando com quase 400 barracas 	<a href="#_edn10" name="_ednref10" title=""><sup>[10]</sup></a>,      na sua maioria exploradas por mulheres (v. fotografia n.º 1)<a href="#_edn11" name="_ednref11" title=""><sup>[11]</sup></a>.      Inicialmente organizado em torno do mercado central<a href="#_edn12" name="_ednref12" title=""><sup>[12]</sup></a>, velha construção      colonial destinada a abastecer a vila de produtos frutícolas, hortícolas e      de outros bens alimentares, situado no extremo da zona do comércio formal,      a exiguidade do espaço não permitiu acolher todos os que desejavam tentar      a sua sorte no comércio, pelo que daria origem ao Xikanhanine.      Como acontece nas demais cidades e vilas de Moçambique, os mercados informais      de Manjacaze são consequência directa das mudanças económicas      verificadas a partir de meados dos anos 80 do século xx<a href="#_edn13" name="_ednref13" title=""><sup>[13]</sup></a>. Considerado 	inicialmente um sector marginal,      o crescimento e enraizamento deste tipo de actividade tornou-o central na      economia. A liquidação de empresas e o desemprego em massa empurraram muitos      indivíduos para os pequenos negócios informais. Apesar das dificuldades da      sua medição, devido às actividades muito fluidas e heterogéneas nele compreendidas      — produção artesanal, vendas ambulantes, comércio em barracas e outras construções      precárias —, o comércio informal tornou-se o principal “empregador” no sector      terciário da economia, como é hoje notório em Manjacaze.      Em termos sociais, funciona como um amortecedor, absorvendo parte significativa      da força de trabalho excedentária que, sem esta alternativa, poderia constituir-se      num perigoso factor de desestabilização e agitação, perturbando fortemente      a já baixa legitimidade do Estado. Por outras palavras:  </p>         <p>&nbsp;</p>     <p><b>Placa de boas-vindas na entrada principal do mercado Xikanhanine</b></p>        <p>[fotografia      n.º 1] </p>         <p><img src="/img/revistas/aso/n193/n193a08ft1.jpg" width="634" height="425"></p>        
<p>&nbsp;</p>     <p>O sector informal acaba, assim, por espelhar a crise geral que afecta o país,    representando por um lado a fraqueza do Estado na produção de respostas para    os problemas económicos e sociais e, ao mesmo tempo, as formas alternativas    (e seus constrangimentos) que visam compensar quer os impactos económicos, quer    os impactos sociais produzidos pela crise, através das redes de solidariedade    [T. C. e Silva, 2002, p. 86]. </p>     <p>A outra zona comercial fica na parte baixa da cidade, onde se situam as lojas    do chamado comércio formal, quase todas de famílias muçulmanas de origem indiana,    há várias gerações implantadas na vila. Nas traseiras das lojas ou, mais raramente,    por cima, quando o edifício é nobre, situam-se as residências dos comerciantes.    Este pólo comercial é também zona habitacional privilegiada, nela residindo,    entre outros, os “velhos” comerciantes e suas famílias. Trata-se de um pequeno    quarteirão constituído por duas longas artérias paralelas, cortadas por quatro    ruas perpendiculares (v. fotografia n.º 2). A última, que leva à estação do    caminho-de-ferro, é a linha terminal do comércio no lado sudoeste. Quase no    entroncamento desta artéria com a rua principal localiza-se a estação de camionagem    dos Transportes Oliveiras, presente em Manjacaze desde o tempo colonial, com    carreiras regulares para as principais cidades do sul e centro de Moçambique<a href="#_edn14" name="_ednref14" title=""><sup>[14]</sup></a>.    Ao longo das ruas da vila, traçadas na época colonial a “régua e esquadro”,    os estabelecimentos vão hoje alternando de diversos modos: a maioria está em    acentuada decadência e todos acusam os efeitos exercidos pelo processo histórico    e pelas trajectórias de vida dos seus proprietários. </p>            <p>&nbsp;</p>      <p><b>Manjacaze: rua principal do comércio formal</b></p>         ]]></body>
<body><![CDATA[<p>[fotografia n.º 2]</p> <img src="/img/revistas/aso/n193/n193a08ft2.jpg">         
<p>&nbsp;</p>     <p>Tendo sido quase todos construídos no período colonial, os edifícios comerciais    causaram, na época, a mais viva impressão na população indígena. Eduardo Mondlane    oferece-nos uma descrição encantada desse encontro, recordando o seu tempo de    meninice: </p>         <blockquote>       <p>Pela primeira vez, vejo “casas com esquinas”, tão diferentes das nossas cabanas      circulares. Admiro estas construções de alvenaria, cobertas de chapa ondulada.      Há tantas que formam uma rua orientada de leste para oeste. Entre duas filas      de lojas passa uma estrada que vem de muito longe e vai para muito longe.      Fazendo companhia à estrada, uns postes carregam fios a que chamam “linha      telefónica”. De tempos a tempos, um fio separa-se para entrar dentro de uma      casa de alvenaria. Algumas construções são feitas inteiramente de chapa, paredes      e tecto. Estas são pintadas de amarelo, enquanto os edifícios de pedra ostentam      uma brancura de cal [Khambane e Clerc, 1990, p. 43]<a href="#_edn15" name="_ednref15" title=""><sup>[15]</sup></a>.    </p> </blockquote>     <p>As famílias de origem indiana e religião muçulmana ainda      detêm o grosso dos estabelecimentos comerciais. A sua presença é bem antiga,      anterior ao avanço da colonização portuguesa e à presença de comerciantes      europeus por estas paragens, permanecendo bem viva na memória de muitos dos      descendentes. Honwana (1989, p. 39) refere que os      mercadores indianos do sul de      Gaza já frequentavam a zona de Manjacaze em finais      do século xix, aonde se deslocavam      para comerciar com Ngungunhane e a sua corte. Por      outro lado, alguns membros das famílias com presença mais antiga colocam a      chegada dos seus pioneiros por volta do final da primeira década do século      xx. Segundo o relato de um destes informantes      indianos mais velhos: </p>         <blockquote>       <p>O meu avô chega a Lourenço Marques, vindo de barco de Damão, por causas das      condições de vida, aí por volta de 1907. Como isto tudo era território português,      havia a necessidade de explorar isto. Sabendo das potencialidades comerciais      desta zona, já do tempo de Vasco da Gama, e sabendo das particularidades dos      indianos no ramo dos negócios, havia todo o interesse em não serem só os portugueses      a fazerem negócio. E como o próprio indiano tem uma característica natural      de interacção com os africanos... Este meu avô, em Lourenço Marques, junta-se      com uma senhora mista a quem faz um filho e uma filha. Ele misto, indiano,      maometano. [Poucos anos depois] ele emigra para Gaza [Manjacaze], conhece      a minha avó, Maria Antónia de Deus, uma negra de Inhambane. Com esta minha      avó faz uma série de filhos. </p> </blockquote>     <p>A maioria das famílias de origem indiana que se instalou      na primeira metade do século xx      permanece em Manjacaze. Com a excepção dos de origem      hindu, atingidos pelas retaliações levadas a cabo pelas autoridades coloniais      na sequência da anexação de Goa, Damão e Diu, os restantes comerciantes indianos      atravessaram todo o período colonial sem problemas de maior, não obstante      a presença crescente e muito influente dos colonos portugueses, com destaque      para Joaquim José da Cruz, Manuel Rodrigues Neto e Manuel da Silva Santos.      Com a independência, os comerciantes brancos de Manjacaze      regressaram a Portugal, onde tinham as suas raízes e vínculos familiares.      Por falta de alternativa, ficaram os indianos, não obstante as suas manifestas      reservas em relação ao programa político da Frelimo.      Conquanto a maioria do património imobiliário dos comerciantes portugueses,      por via do abandono, tenha caído nas mãos do Estado moçambicano, alguns indianos      aproveitaram oportunidades, entretanto surgidas, de exploração desses negócios.      Mais tarde, aquando das privatizações, assumiram a posse jurídica da propriedade.      Foi precisamente o caso de um dos nossos informantes: </p>         <blockquote>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Ele [o antigo colono] trespassou aquilo para mim, e depois o governo nacionalizou      aquilo. Ao princípio o administrador que estava lá queria aquilo para dar      a uns familiares seus. Mas não conseguiu tirar. Eu peguei nos documentos,      fui mostrar, viram que eu tinha razão. Depois, com a alienação, eu fiquei      com aquilo. </p> </blockquote>     <p>Ao mesmo tempo que diversas famílias indianas aproveitam para consolidar os    seus negócios, adquirindo ao Estado a propriedade das cantinas abandonadas pelos    antigos colonos portugueses, transformadas pelo poder revolucionário em “lojas    do povo”, alguns africanos negros vão tornar-se negociantes e, posteriormente,    proprietários dos seus espaços comerciais, com a alienação do património imobiliário    nacionalizado pelo Estado. A distribuição da propriedade é muito diferente daquela    que existia aquando da independência. Os comerciantes brancos praticamente desapareceram,    enquanto os indianos souberam perdurar, sobrevivendo ao processo político pós-independência    e aceitando, não sem alguma acrimónia, a presença forte dos africanos. Como    mostra a figura n.º 2, mais de três quartos dos estabelecimentos mudaram de    dono, com a propriedade a passar das mãos de colonos brancos para indianos e,    em menor grau, para africanos. </p>     <p>&nbsp;</p>      <p><b>Mudança da propriedade comercial após a independência</b></p>        <p>[figura      n.º 2] </p>      <p><img src="/img/revistas/aso/n193/n193a08f2.jpg" width="608" height="335"></p>      
<p>&nbsp;</p>     <p>De referir ainda que os três estabelecimentos que não existiam no período colonial    são propriedade de dois africanos negros e de um indiano. A situação descrita    revela uma das mais importantes alterações sociais na Manjacaze pós-colonial:    a saída dos colonos brancos dá origem a uma pequena burguesia negra. Repetindo,    de certo modo, a situação vivida no período colonial com os portugueses, os    moçambicanos contam com o apoio do Estado, no qual ocupam agora a grande maioria    dos lugares político-administrativos. A sua força reside não apenas no número,    mas também (e sobretudo) no sucesso comercial de alguns e, obviamente, na valia    proporcionada pelos seus avantajados recursos políticos. Note-se ainda que esta    classe social, beneficiária directa das mudanças políticas e das vantagens do    que se pode designar por <i>blackempowerment</i>, é composta por empresários    com ligações à Frelimo, muitos com experiência no exercício de cargos públicos,    outros ainda com responsabilidades na vida político-partidária. </p>     <p>&nbsp;</p>      <p><b>Conclusões</b> </p>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Os usos do espaço em Manjacaze      são indissociáveis das dinâmicas políticas e sociais que se desenvolvem ao      longo do tempo. As estruturas que definem a matriz urbana e, em particular,      o modo como elas se distribuem nela dependem largamente da acção política      do Estado e das estratégias colocadas em prática pelos actores sociais. A      Manjacaze moderna é consequência, em boa medida, de um acto      de vontade do poder colonial, como aconteceu com muitos outros lugares gerados      a partir da ocupação portuguesa. Neste caso concreto, é de relevar a sua força      simbólica, palco da derradeira batalha que opôs o império de Gaza ao exército      português. Símbolo da oposição ao colonialismo, a sua ocupação por parte do      Estado colonial, através da implementação de um centro urbano moderno, dotado      de estruturas político-administrativas e comerciais, era fundamental para      a afirmação do novo poder estatal. Se este factor foi certamente decisivo,      o sucesso urbano deste espaço é inseparável da abundância de recursos populacionais      e agrícolas. Por último, mas não menos significativo, temos a posição geográfica      deste lugar no interior sul de Moçambique, que acabaria por justificar, entre      outros aspectos, a passagem da linha de caminho-de-ferro da capital moçambicana      em direcção ao centro do território. Espaço dominado pela construção de edifícios      modernos destinados a utilização comercial e que foram eloquentemente descritos      por Eduardo Mondlane, Manjacaze é um arquétipo vigoroso, qualquer que seja o ponto      de observação do modo como a modernização se constrói em Moçambique.      </p>        <p>O factor político foi também importante enquanto mecanismo      de apoio a determinados grupos em detrimento de outros. Através da mobilização      de diferentes recursos, nomeadamente relacionais, os actores sociais tentam      explorar em seu proveito as oportunidades existentes. Estas variam com o tempo      histórico, como ficou especialmente evidente em relação à evolução dos tipos      e propriedade dos negócios de comércio em Manjacaze. No caso dos mercados informais, que deram origem      a dois novos espaços urbanos vincados por usos sociais específicos, eles são      consequência directa das alterações políticas e económicas produzidas pela      implantação do neoliberalismo em Moçambique. Nele      trabalham e procuram sobreviver mulheres e homens negros, animados pela crença,      profundamente individualista, da responsabilidade própria nos seus destinos      de vida e na concomitante expectativa de enriquecimento económico e ascensão      social, de certa forma comprovada pelos raros exemplos que conhecem, transformados      pelos discursos dominantes em paradigmas do trabalho esforçado, ao alcance      de qualquer um que possua iniciativa e força de vontade, ou seja, que possua      o tão proclamado “empreendedorismo”. Quanto ao mercado      formal, os comerciantes negros detêm já uma projecção económica e política      que lhes garante uma posição quase hegemónica. Tal exprime uma mudança socialmente      relevante que implicou a transferência de património imobiliário (incluindo      lojas e residências) entre pessoas sem ligações de parentesco.  </p>        <p>A estas rupturas contrapõem-se algumas continuidades, mormente      no uso dos espaços. Apesar das mudanças políticas e sociais ocorridas e que      não deixaram de se repercutir nos edifícios e noutras estruturas urbanas que      organizam o espaço urbano, o modo como são usados não se alterou de modo significativo.      Na velha zona de comércio formal os edifícios continuam a ser utilizados como      espaços comerciais, permanecendo os comerciantes e suas famílias “agarrados”,      como sempre, às suas lojas, confundindo-se estas com as suas residências.      O mesmo pode ser dito para os edifícios públicos, ainda que tal deva ser articulado      com outros aspectos que acentuam a ruptura no quadro da aparente continuidade.      Apesar de manterem as mesmas funções, o contexto político é radicalmente diferente      e os protagonistas são também outros. À frente das instituições estatais que      funcionam nos edifícios referidos estão hoje os representantes do Estado moçambicano,      e já não os agentes do poder colonial português, facto que implica a produção      de olhares bem diferentes sobre estes edifícios: em lugar de símbolos da ocupação      colonial, constituem símbolos do Estado saído da luta armada contra a presença      portuguesa. Tal convoca a nossa atenção para o papel do poder político-estatal      na estruturação dos espaços urbanos e nas mudanças sociais e simbólicas. Se      este foi decisivo para tornar possível, pós-independência, novos olhares vinculados      a narrativas e símbolos distintos do passado colonial, o poder político-estatal jogou também uma acção fundamental, como      vimos, na formação de uma pequena burguesia negra em Manjacaze.      Aqui há que considerar também, com a prudência que a perspectiva teórica assumida      exige, a acção dos actores sociais. Procurando a todo o tempo tirar partido      da margem de manobra proporcionada pelo campo político-institucional      e suas orientações, mormente em termos económicos, é manifesto que alguns      africanos negros souberam utilizar em seu proveito as oportunidades abertas      pelas transformações verificadas no país. Por sua vez, os comerciantes de      origem indiana souberam perdurar na actividade comercial, superando com razoável      perícia os escolhos colocados pelo trajecto histórico do país, em especial      durante o período revolucionário.</b></p>         <p>Em suma, este espaço urbano mostra que a mudança social, mormente a que se    relaciona directamente com a vida comercial, objecto central do texto, é feita    de rupturas e de continuidades. Lugar híbrido, tingido por lutas encarniçadas    e pelo cruzamento de povos e culturas muito diferentes, a acção do Estado assume    um papel decisivo na configuração das estruturas, incluindo as que se relacionam    com a organização dos espaços urbanos. Ela faz-se num quadro político-social    complexo no qual se opõem diferentes grupos sociais e étnicos, em que sobressai    a relativa, mas apesar de tudo importante, margem de manobra dos actores sociais    e institucionais para agirem sobre as estruturas, transformando-as de acordo    com os seus interesses e projectos. Ou seja, Manjacaze revela que o modo como    o espaço é apropriado, utilizado e transformado depende das dinâmicas sociais,    económicas e políticas, como defendem os teóricos marxistas, assumindo o factor    político, conforme sustentam os teóricos weberianos, um papel assinalável, ainda    que em grau variável, cuja intensidade e influência dependem do contexto histórico.  </p>     <p>&nbsp;</p>        <p><b>Bibliografia</b> </p>      <!-- ref --><p> Aboim, S. (2008), “Masculinidades na encruzilhada:      hegemonia, dominação e hibridismo em Maputo”. <i>Análise Social, </i>xliii (2), pp. 273-295. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000099&pid=S0003-2573200900040000800001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>Arce, A., e Long,      N. (eds.) (1999), <i>Anthropology, Development      and Modernities: Exploring Discourses, Counter-tendencies      and Violence, </i>Londres, Routledge. </p>        <p>Baptista, L. V. (2006), “Urbanização, ruralidade e suburbanidade: conceitos e realidades”. <i>In      </i>C. Balsa (org.), <i>Relações Sociais de Espaço:      Homenagem a Jean Remy,</i>      Lisboa, Colibri/Ceos, pp. 55-66. </p>        <p>Bello, J., <i>et      al.</i> (1911), <i>Caminho-de-Ferro de Gaza: Troço Chai-Chai-Manjacaze</i>,      Lourenço Marques, Imprensa Nacional. </p>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Bromberger, C., e Ravis-Giordani,      G. (1976), “Introduction: espace donné,      espace production - esquisse d’une approche ethnologique du concept d’espace”.      In <i>Pratiques et représentations de l’espace dans les communautés      méditerranéennes, </i>Paris, Éditions      du CNRS. </p>        <p>Bourdieu, P. (1979), <i>La      distinction: critique sociale      do jugement, </i>Paris, Minuit.      </p>        <p>Bourdieu, P. (1997), <i>Razões Práticas: Sobre      a Teoria da Acção, </i>Oeiras, Celta Editora.<i> </i></p>        <p>Bourdieu, Pierre (1999), “Efeitos de lugar”.      <i>in      </i>Pierre Bourdieu <i>et      al.,A miséria do mundo,</i> Petrópolis, Vozes, 159-166.      </p>        <p>Bourdieu, P. (2000a), <i>Les      structures sociales de      l’économie, </i>Paris, Seuil.      </p>        <p>Bourdieu, P. (2000b), <i>Esboço de uma Teoria da Prática, Precedido de Três      Estudos de Etnologia Cabila</i>, Oeiras, Celta Editora.      </p>        <p>Burgess,      E. (1967 [1925]), “The growth of the city”. <i>In </i>R.      Park <i>et al.,The City,</i> Chicago,      Chicago University Press. </p>        <p>Castells, M. (1975), <i>Problemas de Investigação      em Sociologia Urbana,</i> Lisboa, Presença. </p>        <p>Castells, M. (1982), <i>La      Cuéstion Urbana,</i> Madrid, Siglo      XXI. </p>        <p>Christie, I. (1986), <i>Samora: Uma Biografia,</i>      Maputo, Ndjira. </p>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Colorado-Mansfeld, R. (2002), “An ethnography      of neoliberalism”. <i>Current Anthopology,</i>      43 (1), pp. 113-137. </p>        <p>Freund, J. (1975),      “La ville selon Max Weber”.      <i>Espaces et sociétés,</i>      16, pp. 47-61. </p>        <p>Gerry, C., e      Birkbeck, C. (1981), “The petty commodity producer in Third      World cities: petit-bourgeois or ‘disguised’ proletarian?”.      <i>In</i> F. Bechhofer e B. Elliott (eds.), <i>The      Petite Bourgeoisie: Comparative Studies of the Uneasy Stratum, </i>Londres, MacMillan, pp. 121-154. </p>        <p>Gerry, C., e      Birkbeck C. (1985), “Les petits      producteurs urbains du Tiers-Monde sont-ils de petits bourgeois?”. <i>Tiers Monde,</i> 101, pp. 31-40.  </p>        <p>Giddens,      A. (1984), <i>The Constitution of Society:      Outline of the Theory of Structuration, </i>Londres, Polity Press. </p>        <p>Hall, E. (1986), <i>A Dimensão Oculta,</i> Lisboa, Relógio      d’Água. </p>        <p>Hanlon, J. (1998), <i>Guia Básico sobre as      Autarquias Locais,</i> Maputo, Ministério de Administração Estatal e AWEPA      (Associação de Parlamentares Europeus para a África). </p>        <p>Hannerz,      U. (1987), “The world in creolization”, <i>África, </i>57 (4), pp. 546-559. </p>        <p>Hannerz,      U. (1992), <i>Cultural Complexity: Studies in the Social Organization of Meaning,</i>      Nova Iorque, Columbia University Press. <u></u></p>        <p>Harvey, D. (1992), <i>Condição Pós-Moderna,</i>      São Paulo, Loyola. </p>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Honwana, R. B. (1989), <i>Memórias, </i>Porto,      Asa. </p>        <p>INE (1999), <i>II Recenseamento geral da população e habitação      1997 — Resultados definitivos</i> Maputo, Instituto Nacional de Estatística.      </p>        <p>Jameson, F. (2001), <i>A Cultura do Dinheiro,</i>      Petrópolis, Vozes. </p>        <p>Khambane, C., e Clerc,      A.-D. (1990), <i>Chitlango:      Filho de Chefe,</i> Maputo, Cadernos Tempo.  </p>        <p>Ledrut,      R. (1968), <i>Sociologie urbaine,</i>      Paris, PUF. </p>        <p>Lefebvre, H. (1968), <i>Le      droit à la ville,</i> Paris, Anthropos.       </p>        <p>Liesegang, G. J. (1986), <i>Ngungunyane:      a Figura de Ngungunyane Nqumayo,      Rei de Gaza (1884-1895) e o Desaparecimento do seu Estado, </i>Maputo, Arpac — Arquivo do Património Cultural.</p>        <p>Lima, A. P. de      (1971), <i>História dos Caminhos-de-Ferro de Moçambique,</i> Lourenço Marques,      Administração dos Portos, Caminhos-de-Ferro e Transportes de Moçambique, vol. ii. </p>        <p>Long, N. (ed.)      (1989), <i>Encounters at the Interface: a Perspective      on Social Discontinuities in Rural Development,</i> Wageningen, Agricultural University. </p>        <p>Long, N. (eds.),      (1992), <i>Battlefields of Knowledge: the Interlocking of Theory and Practice      in Social Research and Development,</i> Londres,      Routledge. </p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Long, N. (2001),      <i>Development Sociology: Actor Perspectives, </i>Londres,      Routledge. </p>        <p>Manghezi, N. (2001), <i>O Meu Coração Está nas      Mãos de um Negro: Uma História      da Vida de Janet Mondlane,      </i>Maputo, CEA/UEM.  </p>        <p>Martinelli, B. (1982), “Toponymie      et société: contribution à l’étude de l’espace communautaire en Basse-Provence”. <i>Études rurales,</i> 85,      pp. 9-31.<i> </i>       </p>        <p>Olivier de Sardan,      J.-P. (1995), “La politique      du terrain: sur      la production des donnés en      anthropologie”. <i>Ênquete,</i>      1, pp. 71-109. </p>        <p>Olivier      de Sardan, J.-P. (2001), “Les trois approches      en anthropologie du développement”.      <i>Tiers Monde,</i> xlii      (168), pp. 729-754.  <i></i></p>        <p>Ong, A. (1999), <i>Flexible Citizenship:      the Cultural Logics of Transnationality, </i>Durham,      Duke University Press. </p>        <p>Park, R. (1987), “A cidade: sugestões para      a investigação do comportamento humano no meio urbano”. <i>In</i> O. G. Velho (org.), <i>O      Fenómeno Urbano,</i> Rio de Janeiro, Guanabara,      pp. 26-67.  </p>        <p>Portela, J. (2001), “Artesãos, microempresas e desenvolvimento:      a centralidade do local e a periferia do centro”. In <i>Livro de Actas,</i> Ponta Delgada, Centro Regional de      Apoio ao Artesanato, pp. 79-84. </p>        <p>Remy, J., e Voyé,      L. (1974), <i>La ville      et l’urbanisation,</i>      Bruxelas, Duculot. </p>        <p>Revista <i>Tempo,</i>      n.º 600 de 11-4-1982 (suplemento). </p>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Ribeiro, F. B. (2004), <i>Sistema Mundial, Manjacaze e Fábricas de Caju: uma Etnografia das Dinâmicas do Capitalismo em Moçambique</i>.      Tese de doutoramento, Vila Real, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.    </p>      <!-- ref --><p>Ribeiro, F. B. (2005), “A invenção dos heróis: nação,      história e discursos de identidade em Moçambique”. <i>Etnográfica,</i> ix (2), pp. 257-275. <i></i>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000144&pid=S0003-2573200900040000800002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>Santos, B. de S. (2001), “Os processos da globalização”.      <i>In </i>B. de S. Santos (org.), <i>Globalização, Fatalidade ou Utopia?,</i>      Porto, Afrontamento, pp. 31-106. </p>        <p>Santos, B. de S., e Rodríguez,      C. (2003), “Introdução: para ampliar o cânone da produção”. <i>In      </i>B. de S. Santos (org.), <i>Produzir para Viver:      os Caminhos da Produção não Capitalista, </i>Porto, Afrontamento, pp. 21-63.      </p>        <p>Silva, M. C. (2006), “Espaço e sociedade: alguns elementos      de reflexão”. <i>In </i>C. Balsa (org.), <i>Relações Sociais de Espaço: Homenagem a Jean Remy,</i> Lisboa, Colibri/Ceos, pp. 185-197. </p>        <!-- ref --><p>Silva, T. C. e (2002), “Determinantes globais e locais      na emergência de solidariedades sociais: o caso do sector informal nas áreas      periurbanas da cidade de Maputo”. <i>Revista Crítica de Ciências      Sociais,</i> 63, pp. 75-89. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000148&pid=S0003-2573200900040000800003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>Sobral, J. M. (1999), <i>Trajectos: o Presente e o Passado      na Vida de uma Freguesia da      Beira,</i> Lisboa, Instituto de Ciências Sociais. </p>        <p>Soja, E. W. (1993), <i>Geografias Pós-Modernas</i>: <i>A      Reafirmação do Espaço na Teoria Social Crítica,</i> Rio de Janeiro, Jorge      Zahar Editor. </p>        <p>Steger, M. B. (2006), <i>Globalização, </i>Vila      Nova de Famalicão, Quasi. </p>       <p>Vilhena, M. da      C. (1996), <i>Gungunhana no seu Reino,</i> Lisboa, Colibri.      </p>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Wallerstein, I., <i>et      al. </i>(1996), <i>Para Abrir as Ciências Sociais (Relatório da Comissão Gulbenkian      sobre a Reestruturação das Ciências Sociais)</i>, Mem Martins, Europa-América.      </p>      <p>Wirth, L. (1987 [1938]), “O urbanismo como modo de vida”. <i>In</i> O. G. Velho    (org.), <i>O Fenómeno Urbano,</i> Rio de Janeiro, Guanabara, pp. 90-113.</p>     <p>&nbsp;</p>      <p><b style='mso-bidi-font-weight: normal'>Notas</b></p>      <p><a href="#_ednref1" name="_edn1" title=""><sup>[1]</sup></a> Em termos conceptuais, e como justamente argumenta Aboim (2008, p. 275), “o hibridismo constitui afinal uma ferramenta conceptual útil que nos leva […] a repensar os processos de modernização no mundo contemporâneo”, incluindo os que atingem a África subsariana. Falar de modernização no mundo contemporâneo implica discutir, ainda que de forma muito breve, a globalização e suas tendências. Conceito multifacetado, envolvendo dimensões económicas, sociais, políticas, religiosas, culturais e jurídicas, entre outras, a globalização produziu uma compressão geográfica radical e a intensificação da consciência do mundo como um todo (Robertson <i>in</i>Steger, 2006, p. 19). Porém, ela não levou à homogeneização nem à uniformização imaginada por Marx, antes parece combinar, como sustenta Santos (2001, pp. 32 e segs.), universalismo — dissolução de fronteiras nacionais, cosmopolitismo – com particularismo – diversidade local, pertença étnica, comunitarismo. Se é certo que o centro exerce uma influência colonizadora sobre as periferias, estas não deixam de pôr em prática outros modos de lidar com a sua própria cultura, mormente através do uso criativo de recursos tecnológicos e simbólicos (Hannerz, 1987 e 1992). Ou seja, da globalização emerge uma tensão essencial e estruturante entre homogeneização e diferenciação marcada por tendências e dinâmicas contraditórias que, em caso algum, podem ser relacionadas com o encontro simpático de diferentes culturas. E isto porque nesta tensão parece ser dominante, como defende Jameson (2001), a tendência para a transformação de uma cultura e de um modo de vida particular na cultura e modo de vida hegemónico que tem no consumismo a sua força suprema.</p>      <p><a href="#_ednref2" name="_edn2" title=""><sup>[2]</sup></a> <i>Settings</i>podem ser definidos como “cenários” que condicionam e de certa forma organizam a produção de relações sociais através do espaço e do tempo.</p>      <p><a href="#_ednref3" name="_edn3" title=""><sup>[3]</sup></a> Como o leitor notará, existem diferentes grafias para o nome do último imperador de Gaza. Sempre que a referência não apareça dentro de um excerto citado, optar-se-á pela expressão Ngungunhane, em vez de Gungunhana, termo este traduzido para o português pelo poder colonial.</p>      <p><a href="#_ednref4" name="_edn4" title=""><sup>[4]</sup></a> Os muchopes constituíam uma das etnias que viviam no território no período pré-colonial. Mantiveram sempre uma oposição tenaz aos nguni, nomeadamente durante a dominação exercida por Ngungunhane.</p>      <p><a href="#_ednref5" name="_edn5" title=""><sup>[5]</sup></a> V. <a href="#a1">anexo    n.º 1</a> — lista de correspondência dos edifícios.</p>      <p><a href="#_ednref6" name="_edn6" title=""><sup>[6]</sup></a>As árvores têm uma presença constante na mitologia da resistência ao colonialismo. Tal como acontece em Manjacaze, em Chilembene, aldeia natal de Samora Machel, também existe uma velha árvore onde Maguiguane — chefe guerreiro do império de Gaza, capturado e morto pelo exército colonial português a 10 de Agosto de 1897 — dava as suas ordens (Christie, 1986, pp. 27-28).</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#_ednref7" name="_edn7" title=""><sup>[7]</sup></a> Nascidos ainda durante a fase final do período colonial, é com a independência que se dá a sua organização administrativa, e daí a utilização de nomes com fortes ligações à luta armada.</p>      <p><a href="#_ednref8" name="_edn8" title=""><sup>[8]</sup></a> É o caso da empresa que comercializa os refrigerantes da <i>Coca-Cola</i>.</p>      <p><a href="#_ednref9" name="_edn9" title=""><sup>[9]</sup></a> A expansão da pequena produção mercantil e das actividades informais atinge as mais diversas zonas do globo, fazendo-se sentir com especial intensidade em África e na América Latina. Como observou Colorado-Mansfeld (2002, pp. 124-125), este tipo de actividades constitui uma janela de oportunidade para todos aqueles que foram colocados na margem pelos novos cenários induzidos pela penetração das políticas neoliberais. Trata-se de um sector que não é exterior ao modo de produção dominante nem à economia-mundo capitalista, antes os integra, embora de uma forma subordinada e dependente (Santos e Rodríguez, 2003, p. 44). Como notaram há mais de duas décadas Gerry e Birkbeck (1981 e 1985), é formado por indivíduos que desenvolvem actividade por conta própria, como vendedores ambulantes dos mais variados bens por conta de uma empresa ou indivíduo, e por <i>lumpen-capitalistas</i>, proprietários de pequenas oficinas, estabelecimentos comerciais e de serviços que põem a funcionar a partir de um pequeno capital. </p>      <p><a href="#_ednref10" name="_edn10" title=""><sup>[10]</sup></a> A barraca é um pequeno estabelecimento comercial de aldeia ou vila, construído com materiais precários, nomeadamente caniço. Os proprietários mais afortunados podem recorrer ao cimento e à chapa. Nelas vende-se todo o tipo de mercadorias, podendo algumas servir refeições e bebidas.</p>      <p><a href="#_ednref11" name="_edn11" title=""><sup>[11]</sup></a> Aqui há que distinguir a exploração da propriedade. Como foi possível apurar pelo levantamento efectuado, existem negócios cuja propriedade não pertence às mulheres que os exploram, mas antes a homens, por vezes sem qualquer relação de parentesco. Mais sujeitas do que os homens a formas extremas de privação material, sobretudo quando associadas ao divórcio, viuvez, abandono do marido e filhos numerosos para sustentar, o comércio é a possibilidade derradeira de muitas mulheres para continuarem a lutar pela sobrevivência.</p>      <p><a href="#_ednref12" name="_edn12" title=""><sup>[12]</sup></a> Paredes-meias com o mercado central está o estádio de futebol, com piso de terra e uma bancada em cimento. Mais à frente, cerca de 400 metros, temos a mesquita. Um pouco depois, já fora do centro urbano, situam-se as instalações abandonadas da Wenela (<i>Witwatersrand Native Labour Association</i>), a mais importante organização de recrutamento de mão-de-obra moçambicana para as minas sul-africanas, e a fábrica de processamento de castanha de caju.</p>      <p><a href="#_ednref13" name="_edn13" title=""><sup>[13]</sup></a> Desafiando a história algo esquiva desta actividade, T. C. e Silva (2002, pp. 82-83) coloca as origens dos mercados informais em 1987, com o pequeno negócio de esquina feito normalmente por mulheres, nas ruas das cidades e vilas, ou nas estradas mais frequentadas. Embora se possa encontrar na guerra civil uma causa remota para o aparecimento dos “dumbanengues”, ao provocar o êxodo de população das zonas rurais para as grandes cidades, em particular para Maputo, e a desorganização e perturbação da economia, este fenómeno acentua-se precisamente com a paz. É nas opções económicas tomadas, quer dizer, na adesão às políticas de ajustamento estrutural que em Moçambique tomaram o nome de programas de reabilitação económica, cujo impacto concreto se mede em destruição do tecido produtivo e desemprego em massa, que reside o quadro explicativo para a expansão e consolidação dos dumbanengues. Expansão e consolidação, e não origem, importa sublinhar, pois o sector informal tem as suas raízes na pequena produção mercantil, que, como justamente salientam Gerry e Birkbeck (1985), constitui uma forma económica concreta que pode existir em diferentes modos de produção, nomeadamente capitalista e socialista. Como parece atinente considerar, a sua importância varia conforme a evolução e as reconfigurações do modo principal de produção ao qual está subordinado, neste caso o capitalismo, que na sua fase actual favorece a expansão do sector informal.</p>      <p><a href="#_ednref14" name="_edn14" title=""><sup>[14]</sup></a>A concorrência provocada pelos transportadores alternativos, conhecidos por “chapas”, levou esta empresa à falência em 2006.</p>      <p><a href="#_ednref15" name="_edn15" title=""><sup>[15]</sup></a> Esta obra contém    as memórias de infância escritas por Mondlane a pedido de Clerc, da Missão Suíça,    cuja primeira edição foi publicada em 1947 na Suíça, em língua francesa.   </p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> <b><a name="a1"></a><a href="#topa1">Anexo</a></b> </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Lista de correspondência dos principais edifícios do centro administrativo    </b></p>     <p><img src="/img/revistas/aso/n193/n193a08a1.jpg" width="634" height="908"></p>     
 ]]></body><back>
<ref-list>
<ref id="B1">
<nlm-citation citation-type="journal">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Aboim]]></surname>
<given-names><![CDATA[S.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Masculinidades na encruzilhada: hegemonia, dominação e hibridismo em Maputo]]></article-title>
<source><![CDATA[Análise Social]]></source>
<year>2008</year>
<volume>xliii</volume>
<numero>2</numero>
<issue>2</issue>
<page-range>273-295</page-range></nlm-citation>
</ref>
<ref id="B2">
<nlm-citation citation-type="journal">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Ribeiro]]></surname>
<given-names><![CDATA[F. B.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A invenção dos heróis: nação, história e discursos de identidade em Moçambique]]></article-title>
<source><![CDATA[Etnográfica]]></source>
<year>2005</year>
<volume>ix</volume>
<numero>2</numero>
<issue>2</issue>
<page-range>257-275</page-range></nlm-citation>
</ref>
<ref id="B3">
<nlm-citation citation-type="journal">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Silva]]></surname>
<given-names><![CDATA[T. C. e]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Determinantes globais e locais na emergência de solidariedades sociais: o caso do sector informal nas áreas periurbanas da cidade de Maputo]]></article-title>
<source><![CDATA[Revista Crítica de Ciências Sociais]]></source>
<year>2002</year>
<volume>63</volume>
<page-range>75-89</page-range></nlm-citation>
</ref>
</ref-list>
</back>
</article>
