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</front><body><![CDATA[ <p>Luísa Oliveira, <b>Sociologia da Inovação — A Construção Social das Técnicas    e dos Mercados, </b>Oeiras, Celta Editora, 2008, 177 páginas</p>     <p>&nbsp;</p> 	     <p>     <p><b>Hugo Pinto </b></p>      <p>Centro de Estudos Sociais — Universidade de Coimbra </p>     <p>&nbsp;</p>        <p>A inovação, tradicionalmente estudada pela economia enquanto fenómeno complexo    e multidimensional, confronta-se com a necessidade de uma abordagem que ultrapasse    limitações disciplinares onde a sociologia poderá ter um contributo relevante.    Este é o ponto de partida de Luísa Oliveira (ISCTE e CIES) em <i>Sociologia    da Inovação — A Construção Social das Técnicas e dos Mercados. </i> </p>     <p>No primeiro capítulo, “Para uma definição de inovação: a trajectória de um    conceito”, procura-se encontrar um conceito útil de inovação para uma abordagem    sociológica que possa ser operacionalizada de forma robusta no estudo de casos    concretos. Schumpeter continua a ser, neste quadro, uma referência fundamental,    ao mostrar que a inovação está menos associada a novos saberes e a avanços científicos    do que à criatividade e à iniciativa. O carácter distinto da inovação não depende    da qualidade do artefacto em si, mas de um conjunto de atributos que lhe são    conferidos pelo exterior, nos quais o critério da rendibilidade económica é    uma componente intrínseca (p.21). No quadro de um sistema de inovação, as fronteiras    conceptuais são difíceis de definir porque se baseiam numa negociação permanente    entre actores – daí a emergência de noções híbridas, como tecnociência. A utilização    das patentes enquanto indicadores de inovação deverá ser efectuada com especial    cautela, uma vez que nem todas as invenções se concretizam em patentes e nem    todas as patentes estão na base de inovações. O patenteamento depende das lógicas    institucionais de cada país, o que origina a grande diversidade de sistemas    de inovação na Europa e condiciona fortemente a competitividade dos territórios.  </p>        <p>O segundo capítulo, “Um sociólogo no      mundo da economia: leituras, perplexidades e interrogações”, tenta, a partir      de teorias económicas estabilizadas, encontrar ligações à sociologia para      o estudo da inovação. Para esse fim, o regresso a Schumpeter      é importante para compreender que existem actores sociais da inovação, recuperando      a noção do «empresário-empreendedor». A relevância      que a ciência tem é sublinhada pelos primeiros modelos explicativos da inovação,      nos quais esta é entendida como um processo linear puxado pela ciência. Posteriormente,      estas visões têm sido alargadas a modelos como o <i>chain-linked</i> ou o modelo de turbilhão, que acrescentam      novas dinâmicas, mas também novos actores à análise. A autora mostra como      a aprendizagem tem um lugar central na inovação, criando um impasse teórico,      já que a economia, ao colocar o conhecimento como aspecto central, ignora      largamente o papel do «sujeito que conhece». Esta insuficiência explicita      o contributo que a sociologia poderá ter no estudo da inovação: perceber quem      são esses actores sociais no contexto actual. </p>        <p>“A teoria do actor-rede      como metáfora da inovação” (capítulo 3) é essencial para abordar sociologicamente      a inovação. A grande novidade da TAR é permitir perceber que uma inovação      se concretiza apenas com o envolvimento de um leque alargado de actores que      transpõem os seus interesses para chegarem a objectivos partilhados e a benefícios      comuns. A transferência de conhecimento assume-se, deste modo, como um complexo      processo social de tradução de interesses e de saberes. As redes são constituídas      por colectivos de elementos humanos e não humanos. Apesar de a TAR atribuir      o mesmo valor ontológico a estes dois tipos de actores, Luísa Oliveira entende      que procurar compreender a realidade apenas com recurso à análise da acção      humana é redutor, mas que também é difícil aplicar o conceito de simetria      (p. 76), uma vez que existem grandes dificuldades em atribuir a acção a elementos      não humanos <i>(non-human agency).      </i></p>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p>No capítulo 4, “Para uma sociologia      da inovação”, tenta-se estruturar os alicerces para uma teoria sociológica      da inovação que, por um lado, compatibilize elementos das perspectivas económicas,      recuperando o papel do empresário schumpeteriano      (o fazedor de redes na TAR) e elevando os indivíduos à categoria de actores,      e, por outro, entenda que o sucesso da inovação está subordinado, quer à tradução      dos interesses dos actores na construção do novo artefacto técnico-científico,      quer aos mercados. O espaço de inovação é, neste contexto, uma noção central      distinta de outras, como os sistemas nacionais de inovação, porque aponta      directamente para o espaço profissional e de aprendizagem que é construído      pela interacção entre os actores, uma construção social dependente das organizações      e das instituições (p. 89). Esta construção é socialmente condicionada e não      resulta apenas do conhecimento científico e técnico ligado às ciências duras,      mas inclui também aquelas que se associam à construção de mercados e estruturação      das redes. A adaptação da TAR surge, assim, como um método interessante para      obter informação adicional sobre a inovação com vista a aumentar a inteligibilidade      do fenómeno em estudo. Esta vertente permite adicionar às mais tradicionais      correntes da economia (usualmente caracterizadas por informação de tipo extensivo)      uma informação do tipo intensivo.</p>        <p>Nos dois últimos capítulos, “A construção      social das técnicas e dos mercados”, é efectuada uma análise ao nível micro      das redes de inovação em duas empresas distintas: a E1, que faz parte de um      grupo industrial português que trabalha na concepção e montagem de equipamento      para telecomunicações, e a E2, subsidiária portuguesa de uma multinacional      europeia de <i>software</i>. A autora dá aqui atenção a      dois passos essenciais para uma mais adequada aplicação empírica. O      primeiro é compreender a empresa como um dos nós da rede que contêm conhecimento      e saberes que condicionam o processo inovador. Na empresa existem os empreendedores/fazedores      de redes e ela própria pode ser um “observatório” que permite olhar as interacções      sociais com os outros actores. O segundo passo consiste em perceber a própria      rede, as relações que se estabelecem e as tensões e proximidades que se geram,      em particular o desenvolvimento da tradução de interesses (muitas vezes lida      como um processo de transferência de conhecimento).  </p>        <p>Os dois casos analisados de construções      de artefactos técnico-científicos em empresas de base de conhecimento são      muito distintos (na sua dimensão, relação com os mercados e interligação com      actores essenciais, como sejam os ligados à produção de conhecimento). No      primeiro caso, a empresa nasce associada ao desenvolvimento de um artefacto      a partir da universidade que foi apropriado pela indústria. Foi possível seguir      o caminho da construção inicial do artefacto e do próprio mercado. Nesta avaliação      tornou-se evidente que o principal mecanismo de transferência de conhecimento      entre a universidade e a indústria é a contratação de pessoal qualificado,      não emergindo interesses divergentes entre estes dois mundos (p. 125) nem      tão-pouco grande necessidade de tradução de interesses. Oliveira aponta duas      razões essenciais para este afastamento: (<i>i</i>) o dinheiro para a investigação      é dinheiro público para os dois mundos; (<i>ii</i>) porque não existe nada para trocar — a universidade      forma e a empresa recruta, a relação mais tradicional. No caso de E2, a rede      de inovação está consolidada e a empresa tem poucas relações com a academia      portuguesa, sendo estas, na sua maioria, de prestação de serviços. A empresa      multinacional é activa na investigação, mesmo ao nível fundamental, mas estes      investimentos acontecem principalmente em países desenvolvidos que beneficiam      de economias significativas de escala e de aglomeração. Adicionalmente, a      E2 assume um papel de vigilância tecnológica do que acontece no meio científico      português, detectando e apontando oportunidades de negócio para a empresa-mãe.      Para ambos os casos, os incentivos públicos à investigação em consórcio aparecem      como principal motivo para a cooperação universidade-empresa. Os laços das empresas com a universidade      têm um carácter essencialmente informal, onde os principais responsáveis compatibilizam      normalmente papéis nos dois mundos, enquanto gestores de topo e professores      universitários. A iniciativa da colaboração parte maioritariamente do mundo      da ciência, que tenta aproximar-se da indústria, numa racionalidade que subverte      o valor económico do conhecimento que a academia tende a “oferecer”. Continua      a ser ao Estado que cabe pagar a maior fatia das despesas em I&amp;D, e, por      este motivo, muitas vezes esses projectos acabam por não ir ao encontro dos      interesses da própria empresa, que apenas participa neles enquanto não incorre      em custos. Do ponto de vista dos actores, Luísa Oliveira retira uma ilação      principal (p. 161): a co-presença do espírito empreendedor e do fazedor de      redes com a autonomia da empresa consolida as redes e a concretização da inovação.      Outra conclusão relevante é que os problemas de tradução podem ser disfarçados      pela rendibilidade económica no curto prazo; no entanto, podem emergir deficiências      fortes com a existência de padrões de conhecimento, de cultura e institucional      diversos. Oliveira termina com uma defesa do papel das ciências sociais neste      mundo tecnocrático: uma vez que a construção das inovações e dos mercados      é um processo social que resulta da interacção de múltiplos actores, os cientistas      sociais são cruciais na estruturação de redes e na tradução de interesses.       </p>       <p><i>Sociologia da Inovação,</i>      vista por um economista, é, assim, um livro que merece atenção. Ao tentar      compatibilizar as bases do estudo económico com uma abordagem profundamente      qualitativa e com grande capacidade explicativa das relações sociais da TAR,      permite uma explicação mais satisfatória sobre o modo como se concretizam      as inovações. Esta perspectiva permite dotar as análises económicas de natureza      mais macroscópica, mesmo aquelas de natureza heterodoxa na economia, como      as escolas evolucionista ou institucionalista, com      um grande enfoque que facilita o entendimento à microescala      do que condiciona e potencia o processo inovador. Por outro lado, a abordagem      sugerida tem uma grande capacidade operacional. Ao escolher uma definição      restrita de inovação enquanto novo artefacto técnico-científico que é valorizado      pelo mercado, permite uma análise consistente com as noções tradicionais da      economia e focar a atenção num dos elementos não humanos centrais do processo      de formação do actor-rede. A visão da transferência      de conhecimento enquanto processo de tradução onde é necessário engajar os      actores em objectivos e compromissos partilhados é também muito relevante      e está de acordo com aquilo que se sente que é a prática dos organismos de      interface entre a universidade-empresa que se vão      multiplicando pelo país. As dificuldades de tradução, de contacto entre os      dois mundos, são uma realidade para a qual é necessário criar pontes. </p>      ]]></body>
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