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</front><body><![CDATA[ <p><i>João Freire </i>(org.), <b>Associações profissionais em Portugal, </b>Oeiras,    Celta Editora, 2004, 336 páginas.</p>     <p>&nbsp;</p> 	 	     <p><b>Marta Pedro Varanda </b></p>     <p>Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa</p>     <p>&nbsp;</p>         <p>Foi com muito agrado que tivemos conhecimento      da publicação deste estudo sobre o associativismo profissional, visto tratar-se      de um tema insuficientemente estudado tanto em Portugal como a nível internacional.       </p>        <p>Esta investigação sobre “associações      profissionais” (APs) assume-se mais como sendo orientada      pela problemática da sociologia das profissões do que pela sociologia das      organizações, isto porque «o associativismo [...] oferece um campo interessante      de problematização teórica e conceptual [...] das profissões» (p. 3). Parece-nos,      no entanto, que o reforço da componente analítica da associação enquanto organização      traria valor acrescentado, na medida em que esta condiciona ou possibilita      as estratégias dos profissionais (um tema abordado por João Freire). </p>        <p>Os diferentes capítulos deste livro      caracterizam-se por dois tipos de abordagem: uma em que os autores, numa primeira      parte, desenvolvem um tema (saúde, formação, TICs…)      para, posteriormente, o analisarem empiricamente; outra onde é feita uma reflexão      mais alargada, capítulos de João Freire sobre as APs      enquanto organizações e de Maria de Lurdes Rodrigues sobre as profissões.      As excepções são os capítulos de Maria Alexandre Lousada e Raquel Rego, que,      em primeiro lugar, fazem, respectivamente, um enquadramento histórico e jurídico      para, de seguida, se debruçarem sobre a leitura dos dados relativos a temas      específicos. Para uma melhor organização do livro parece-nos que os quatro      capítulos acima mencionados deveriam estar situados no início, o que facilitaria      e tornaria mais produtiva a leitura dos capítulos relativos a questões mais      particulares.    </p>        <p>No primeiro capítulo é feita a apresentação      do estudo e abordam-se as suas grandes problemáticas: as profissões e a mudança      social; as profissões e o seu associativismo. Nesta introdução é também apresentada      a metodologia da investigação — um questionário presencial aplicado ao presidente      da associação ou a outro dirigente seu representante — e feita uma primeira      leitura global dos dados. Numa investigação com esta dimensão seria, sem dúvida,      muito oneroso questionar vários elementos da associação, órgãos dirigentes      e/ou funcionários, mas ter um só dirigente como principal fonte de informação      obriga a uma maior cautela na interpretação das respostas. Ou seja, não podemos      deixar de ter presente Robert Michels e a sua “lei de ferro      da oligarquia” ao interpretar estes dados. </p>        <p>No capítulo “Tradição e renovação nas      associações profissionais”, Maria Alexandre Lousada recua até ao final do      século xviii para nos apresentar      o enquadramento histórico e político-jurídico da      fundação e desenvolvimento das APs até 1974. A autora      dá conta da evolução do associativismo profissional desde as associações de      socorro mútuo até hoje, em que a prioridade parece ser «a construção/defesa      do prestígio e do mercado profissional». Esta tendência leva à proliferação      e especialização das APs, o que, a continuar, poderá      ser autodestrutivo por incentivar a competição e minar a capacidade de cooperação      na defesa da profissão. De notar, em particular, que os dados relativos à      criação de associações entre 1834 e 1974 dão conta de uma vivacidade associativa      que contraria as afirmações de uma tradição portuguesa de fraco associativismo      e também o que se verifica na actualidade. Como demonstra Raquel Rego no capítulo      7 desta obra,  comparativamente à média da UE (46%),      a participação associativa em Portugal  continua      a ser muito fraca (26%).</p>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Graça Carapinheiro      dá conta, no capítulo 3,       da realidade associativa na área da saúde. A autora chama a      atenção para a grande preocupação das APs, em geral,      e das APs do sector da saúde, especificamente, relativamente      ao reconhecimento do Estado, por trás da qual está a obtenção da exclusividade      da representação dos profissionais. </p>        <p>No capítulo 4, Carlos Gonçalves concentra-se      nas associações de carácter económico e aborda temas como o emprego e o nível      de rendimentos. Uma questão que nos pareceu ser interessante a este respeito      é a do preço dos actos profissionais e dos rendimentos auferidos pelos profissionais.      Da leitura dos dados ressalta o peso das não respostas e das respostas nas      categorias com rendimentos mais baixos. Dado o próprio autor reconhecer o      importante peso na amostra das associações fortes, de profissões bem estabelecidas,      parece haver aqui uma incongruência. Estes resultados levantam, assim, dois      tipos de questões. A primeira, sobre qual o papel das APs      na regulação das taxas impostas ao consumidor? Se os próprios dirigentes se      negam a responder às questões relativas aos rendimentos, esse papel deve ser,      no mínimo, reduzido (questão igualmente abordada por RR e MLR). A segunda      questão é de cariz metodológico: uma pergunta deste tipo colocada a um dirigente      associativo induz enviesamento na resposta. Não se pode esperar que os dirigentes      associativos respondam contra a norma e assumam que os profissionais do sector      (e eles próprios) estejam a cobrar preços altos pelos seus serviços. Outro      tema focado é o das taxas de filiação (p. 100), que andam na ordem dos 44%      no sector económico e empresarial e dos 46% na amostra no seu todo. Também      nos chamou a atenção o facto de nenhuma das principais razões apontadas para      a taxa de filiação ter a ver com o trabalho da associação, mas sim com a obrigatoriedade      de adesão e o aumento do número de profissionais. Estes dados deveriam servir      de base a uma reflexão no seio das associações.</p>        <p>António Pedro Dores, no capítulo 5,      faz a análise da utilização das tecnologias de informação e comunicação por      parte dos diferentes sectores profissionais, deparando desde logo com uma      grande heterogeneidade de comportamentos. </p>      <p>No capítulo 6, Lina Antunes aborda as      questões da formação profissional em geral e do papel das APs      na resposta às novas exigências de formação. Os resultados do inquérito permitem-lhe      concluir que há um importante envolvimento das APs      na formação, muitas vezes suprindo as carências da formação inicial dos seus      associados. </p>        <p>O capítulo da autoria de Raquel Rego      divide-se em duas partes: uma em que se debatem as questões do enquadramento      jurídico das APs e outra sobre as questões da participação      social, isto é, o papel das associações na esfera pública. A autora tem como      preocupação discernir a relação entre a natureza jurídica das associações      e o seu nível de participação social. Os resultados sobre a intervenção das      APs na formulação de políticas demonstram que o      papel desempenhado pelas associações públicas é mais importante do que o das      associações privadas. Mas ambos os tipos associativos afirmam que este processo      é «formal e esvaziado de sentido», pois, mesmo quando são ouvidas, não lhes      são dadas as condições suficientes para formular pareceres bem fundamentados,      que nunca chegam a ser considerados. </p>        <p>No capítulo 8, João Freire faz uma análise      sociopolítica das associações. Para expressar a sua ideia de estrutura organizacional      associativa apresenta uma dupla pirâmide, ilustradora da dupla vertente das      associações modernas, que, se, por um lado, mantêm o seu carácter associativo,      por outro, têm de se “transvestir” em empresas. A conflitualidade inerente      a esta duplicidade de papéis é depois debatida, levando-o a analisar a questão      da democracia no seio das associações. </p>        <p>Na secção em que se debate a disputa      pelo poder, ficamos a saber que em 80% dos casos havia uma lista única a sufrágio,      situação que é atenuada nas associações públicas, onde acontece, por vezes,      uma verdadeira disputa pelo poder. Ainda nesta secção é focada a questão da      duração dos mandatos e da baixa rotatividade dos dirigentes, o que nos recorda      mais uma vez a tese de Michels da “lei de ferro      da oligarquia”. Resta-nos saber, como diz João Freire, qual o impacto que      a baixa rotatividade terá no dinamismo, adaptabilidade ao meio e capacidade      de inovação das associações, aspectos que se relacionam, por seu turno, com      a repercussão das propostas das associações, por exemplo, na concepção de      políticas públicas para a sua área de intervenção. </p>        <p>O capítulo de Maria de Lurdes Rodrigues      tem uma secção teórica que começa por debater os <i>pros      and cons</i> da existência      das APs e do seu impacto junto do poder político:      a existência de APs torna a democracia mais participada      ou, pelo contrário, reduz a liberdade dos indivíduos não organizados e aumenta      o poder da corporação? Depois faz um breve excurso sobre a sociologia das      profissões, que nos leva a repensar alguns dados      apresentados noutros capítulos e que careceram de explicação teórica. Na segunda      parte desenvolve uma tipologia original das APs      em Portugal, que utilizará para identificar a ideologia do profissionalismo      e do modelo profissional, e aborda a ligação dos grupos ocupacionais ao sistema      formal de ensino e a sintonia existente entre ambos. Uma questão crítica para      a autora é a tendência de fechamento das profissões — regulação, controlo      do seu exercício e das condições de acesso a esse exercício —, que, se aliada      fortemente às instituições de ensino, leva a um círculo vicioso de fechamento.      Para a autora, «a subordinação das instituições que atribuem os diplomas às      lógicas das instituições que os comercializam cria uma tensão crítica no funcionamento      de um e outro sistema». Outra questão igualmente importante é a desvalorização      da experiência em prol da exclusividade da credenciação. Tudo temas que muito      deveriam preocupar as APs. </p>        <p>O capítulo final é uma síntese e termina      com uma preocupação que estimula a reflexão e potencial investigação futura:      «é questionável o modo como este modelo português do associativismo profissional      desempenha a sua função no quadro da prestação de serviços qualificados (por      vezes de grande impacto social), em termos de eficiência económica, de equidade      de responsabilidades partilhadas com os poderes públicos, de oportunidades      de realização dos profissionais e de qualidade do serviço prestado aos clientes,      cidadãos e populações do espaço nacional». </p>        <p>Este livro traz um enorme valor acrescentado      ao nosso conhecimento das APs em Portugal. Dá-nos      informação sobre a sua história, funcionamento, forma de organização e enquadramento      legal. Discute assuntos e levanta problemáticas que serão, sem dúvida, inspiradoras      para a continuação do estudo desta temática e, em particular, das questões      levantadas por Freidson, designadamente daquela      que é mais actual: a da «existência de tensões entre manter a protecção de      mercado, controlar e monitorar as competências, promover os valores profissionais      de autonomia e melhoria constante dos serviços prestados».</p>       ]]></body>
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