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</front><body><![CDATA[ <p><i>Frances      Pine </i>e<i> João de Pina Cabral      </i>(eds.), <b>On the Margins of Religion</b>, Oxford, Berghahn, 2007, 296 páginas.      </p>         <p><i>David Berliner e Ramon Sarró </i>(eds.)<i>,</i> <b>Learning Religion: Anthropological    Approaches</b>, Oxford, Berghahn, 2007, 240 páginas.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Ruy Llera Blanes </b></p>     <p>Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa </p>     <p>&nbsp;</p>            <p>Nos últimos anos, a prestigiada editora de ciências sociais      de Oxford, Berghahn Books,      lançou-se na edição contínua de volumes sobre estudos religiosos. Este facto      não foi um acto espontâneo, mas sim mais um exemplo do momento produtivo que      se vive nesta área temática. Apesar das “profecias” avançadas pelas teses      secularistas nas últimas décadas do século xx      — que pareciam condenar ao ostracismo o estudo do fenómeno religioso      por via do “esgotamento” do seu assunto —, assiste-se, no virar do milénio,      a um reavivamento da produção dos estudos religiosos (nas várias disciplinas)      e do seu impacto nos <i>media</i>. Esta série da Berghahn      é disso um bom exemplo, mas poderia citar outros: desde o recente lançamento      do <i>Journal of      Religion in Europe</i>      (como que a contrapor ao “velhinho” <i>Journal      of Religion in Africa</i>, também editado pela      prestigiada editora holandesa Brill) à igualmente      recente inauguração da Associação Portuguesa de Estudos Religiosos (APERLG),      passando pelo multitudinário encontro da International Association for the History of      Religions, que levou milhares de académicos, especialistas      da religião e religiosos a Tóquio em 2005. </p>        <p>O facto de dois desses volumes recentemente lançados      pela Berghahn Books terem      sido editados por dois antropólogos da academia portuguesa (João de Pina Cabral      e Ramon Sarró), investigadores      no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, é, por si só,      digno de relevo e ilustrador do envolvimento e colaboração internacional da      antropologia portuguesa, num momento em que desde as mais altas instâncias      da política científica portuguesa se começa a apregoar a mobilidade internacional,      o uso do inglês como língua franca, etc. Por outro lado, mostra também uma      liderança que se está a construir desde Portugal para a temática da religião      na contemporaneidade. </p>        <p>Os dois títulos a que aqui me refiro têm um mesmo ponto      de partida, embora sigam caminhos diferentes para responder à pergunta inicial.      Esse ponto comum é a transcendência de uma hegemonia teórica que, até à viragem      do milénio, marcava os estudos sobre religião: a sua excessiva focagem em      aspectos de história política a partir do debate sobre o suposto «desencantamento      do mundo» (Gauchet, 1997). Neste sentido, ambos      os trabalhos resultam de uma necessidade de questionar os paradigmas vigentes      no estudo — nomeadamente antropológico — da religião. </p>        <p>Os livros em causa, <i>On      the Margins of Religion</i>, editado por João      de Pina Cabral e Frances Pine,      e <i>Learning Religion</i>,      editado por David Berliner e Ramon      Sarró, procuram empreender essa transcendência ao      recuperar e debater aspectos epistemológicos e cognitivos da experiência religiosa      <i>de facto</i>. Ou seja, mais do que coleccionar retratos dispersos de expressões      religiosas, partem à procura de instâncias concretas de experiência, aprendizagem      e interacção religiosa. </p>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p>No primeiro caso, <i>On      the Margins of Religion</i>, a proposta passava      por um desafio: o de apresentar e discutir contextos onde esta problemática      estivesse de alguma forma relacionada com sentidos de marginalidade. Partindo      de uma perspectiva epistemológica “turneriana” onde      se analisam interacções entre centros e margens como formas de compreensão      de dinâmicas sociais, os editores desafiaram os autores a discutir contextos      onde a noção de “religião” é levada a limites epistemológicos. Como consequência,      o conceito de “marginalidade” é instrumentalizado em função do debate sobre      os limites conceptuais da noção de “religião” nos distintos contextos abordados.      O que está em causa, em suma, são os limites das teorias do conhecimento,      as “franjas” do significado. </p>        <p>São, portanto, diversas as formas de responder a este      desafio: através de dinâmicas de contestação e reivindicação de lugares, conhecimento,      recursos, etc. É através destas dinâmicas que os autores discutem temas como      a relação entre religião e violência, religião e ciência, religião e estado,      crença e poder, entre outros. Assim, por exemplo, João Vasconcelos demonstra,      através do desenvolvimento histórico do movimento espírita, como a “naturalidade”      da oposição histórica entre ciência e religião é posta em causa quando percorremos      as biografias de cientistas sociais da época positivista. Simon      Coleman, por sua vez, aborda outro tipo de “marginalidade”:      aquela a que é votada frequentemente a própria antropologia quando é confrontada      com “etnografias” produzidas por agentes religiosos — muitas vezes com maior      eficácia e impacto na sociedade do que o próprio discurso antropológico. Neste      contexto, ambos os autores mostram como, tanto na história das ciências sociais      como nos dias de hoje, a relação entre “saber científico” e “saber religioso”      manteve a sua pertinência e revela dinâmicas de produção de hegemonia e marginalidade      no que se refere a uma prevalência de “verdade”. </p>        <p>Um segundo núcleo de textos aborda a problemática da      marginalidade através da perspectiva espácio-temporal, apresentando contextos      onde os lugares e a memória são objecto de disputa. É o caso, por exemplo,      da análise efectuada por Ursula Rao      às dinâmicas contemporâneas de construção urbana em Bhopal      (Índia), mediadas pelo facto de aí coabitarem pessoas de diversos credos,      o que, por sua vez, leva a processos de contestação e definição de fronteiras      espaciais no seu seio. Obviamente, quando se fala em contestação, fala-se      em poder; e quando se fala em poder, fala-se em centralidades e marginalidades.      Mas, como se mostra neste livro, toda a centralidade é relativa e o espaço      marginal também pode ser constituído como central em si mesmo. Será, portanto,      também uma questão de perspectiva e escala, como afirma Stephan      Feuchtwang (p. 135) a propósito das “festividades      territoriais” na China. </p>        <p>Ao longo do livro apercebemo-nos de que o “operador”      fulcral deste exercício reflexivo é, efectivamente, o da “negociação” — isto      se entendermos à contestação e à criatividade (capítulos 9 e 10) como propostas      de negociação de condições de marginalidade e centralidade. No entanto, um      último grupo de textos introduz um vector temporal a esta problemática, ao      reportar para a questão da modernidade e do seu “acesso” por parte de grupos      ou colectivos religiosos. É o caso, por exemplo, dos Baga, da Guiné--Conakry (estudados por Ramon Sarró), onde a conversão ao islão por toda uma geração na      década de 1950 também implicava uma tentativa de quebra com um passado recente      e de adesão à condição de modernidade. Nesse sentido, a ideologia do progresso      também pode ser uma forma de crença. É o que nos mostra igualmente Jonathan Parry quando descreve como      o processo de construção de uma fábrica em Bhilai      (Índia) foi instrumentalizado através de discursos sobre o sacrifício.       </p>        <p>Esta última vertente de temporalidade também está presente      na segunda obra aqui apresentada: <i>Learning      Religion</i>. Nesta, o que está fundamentalmente      em causa é a análise de contextos concretos de transmissão e aprendizagem      religiosa. No entanto, a esta proposta prática subjaz ainda um debate teórico      que está a marcar a antropologia da religião contemporânea, o da pertinência      (ou falta dela) de recentes abordagens cognitivistas      à problemática da experiência religiosa — <i>Religion      Explained</i>, de Pascal Boyer      (2001, Basic Books) ou <i>Modes      of Religiosity,</i> de      Harvey Whitehouse (2004, Altamira      Press), por exemplo — a partir da perspectiva da      transmissão e aprendizagem cultural. Se, para uns, os cognitivistas      sobreenfatizam a dimensão psicológica da experiência      religiosa, para estes os modelos interpretativistas      não cumprem uma premissa fundamental de todo o acto científico: a explicação      dos factos (p. 8). Neste contexto, o livro de Berliner      e Sarró propõe-se discutir modelos explicativos      ou interpretações sobre a transmissão religiosa, tendo como pano de fundo      este conflito heurístico, sem, no entanto, se filiar em qualquer das tendências      em causa — cognitivista, ontológica, hermenêutica,      fenomenológica, epistemológica.            </p>        <p>Uma das “soluções” para esta aparente contradição será      olhar para o ritual. Por exemplo, Michael Houseman,      na análise de dois contextos de ritualização da menstruação (a “chapada menstrual”      e a celebração <i>new age</i> “menarche”) (capítulo 3), argumenta que, em vez de olhar para      a aquisição e acumulação de conceitos, devemos procurar perceber o tipo de      relações que são produzidas entre os participantes no contexto da sua aprendizagem      ritual. Por outro lado, Aurora Donzelli foca os      processos de “disciplinação” da oratória ritual      em Toraja (Indonésia) como forma de explicar a economia      local de inserção da religião nos domínios financeiros e políticos (capítulo      9).  </p>        <p>É claro que uma dessas relações será, necessariamente,      a relação entre o crente e o divino (o deus ou o supernatural).      É por isso que alguns dos autores aqui presentes também questionam o que significa      aprender a “acreditar” (Severi, capítulo 2), “falar      com Deus” (Luhrmann, capítulo 6), “ser possuído”      (Lambek, capítulo 5; Goldman,      capítulo 7) ou “intermediar” a relação (“mediunizar”      — Vasconcelos, capítulo 8; Goldman, capítulo 7).      Aqui também está em causa a questão da “convicção”, ou seja, a condição inerente      a toda a experiência religiosa e, portanto, a predisposição indispensável      para os mecanismos de transmissão religiosa e, finalmente, conhecimento. Porque,      em última instância, é de conhecimento que falamos quando discutimos transmissão      e aprendizagem. Porém, como afirma Michael Lambek,      o conhecimento, para perdurar, necessita de ser associado à convicção, convicção      de que aquilo que se faz e em que se acredita é “sério” e “sincero” (pp. 69      e segs.). </p>        <p>No entanto, o livro não se esgota neste ponto. Como bem      nos recordam Stafford (capítulo 11) e Rowlands (capítulo 12), há igualmente dimensões pragmáticas      e materiais envolvidas nos processos de aprendizagem, condicionantes que poderão      ou não facilitar a transmissão de conhecimento. Charles Stafford, por exemplo, argumenta (a partir dos processos de      “socialização” de crianças       na China) que uma condição essencial para a aprendizagem é a      capacidade que as religiões e os rituais têm de se apresentar como algo “interessante”      para os que com elas se deparam. Num diálogo entre a antropologia e a psicologia,      Stafford associa “interesse” e “atenção” enquanto      mecanismos cognitivos-chave para a aprendizagem      religiosa. Sem partilhar a opção cognitivista, Michael      Rowlands também se preocupa com a “socialidade”      do processo ao abordar a forma como a música (ou, consoante a perspectiva,      o ruído) conforma “envelopes sonoros” para os crentes, envelopes capazes de      determinar quem está ou não integrado, social e espacialmente, no seio de      um determinado movimento religioso. Para Rowlands,      a aprendizagem religiosa é também a transformação do “ruído” em “música”.      </p>         <p>Não é possível fazer justiça aos dois livros recenseados em tão curto espaço    tanto no que se refere ao valor individual de cada uma das suas contribuições    como nas suas implicações no conjunto das obras existentes no panorama da antropologia    da religião contemporânea. Tão-pouco é possível atentar numa leitura crítica    suficientemente sustentada. Assim, direi apenas que os dois livros, ao proporem    uma reflexão sobre o conceito de “religião”, não só operam uma análise crítica    dos principais debates vigentes na antropologia da religião contemporânea, como    também propõem uma reflexão sobre o lugar da religião na sociedade — numa “modernidade”    que já não se seculariza, mas que procura entender outra vez o lugar do religioso    no seu seio. Neste sentido, estas obras têm o mérito de contribuir para esse    conhecimento. No primeiro caso, através do desafio epistemológico de pensar    a religião num complexo político de operatividade do conceito de marginalidade.    No segundo, através da discussão dos fundamentos (os actos, os raciocínios,    as relações) que produzem o conhecimento religioso. Porque é de conhecimento    que se trata: de conhecimento gerado por pessoas num mundo em constante mobilidade    e transformação, no qual o religioso (embora possa, em determinados momentos    históricos, parecer “marginal”) continua a ser aprendido e reaprendido, negociado    e entendido.</p>      ]]></body>
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