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</front><body><![CDATA[ <p><i>José Machado Pais,      Clara Carvalho </i>e<i> Neusa Mendes de Gusmão </i>(orgs.),<b>      O visual e o quotidiano,</b> Lisboa, Imprensa de Ciências      Sociais, 2008, 233 páginas.</p>       <p></p>        <p>Publicado em 2008 pela Imprensa de Ciências      Sociais, o livro organizado por José Machado Pais, Clara Carvalho e Neusa      Mendes de Gusmão e intitulado <i>O visual      e o quotidiano</i> surge como      consequência de um seminário realizado no Instituto de Ciências Sociais sob      a mesma denominação. Esta publicação reúne textos da autoria dos participantes      neste encontro científico, revelando-se um importante contributo para repensarmos      o papel da visualidade nos processos sociais. Olhares múltiplos, provenientes      da sociologia, antropologia, história, filosofia ou museologia, insinuam a      necessidade de uma reflexão interdisciplinar dedicada a esta dimensão da vida      colectiva. Distintas perspectivas, tributárias de diversos patrimónios metodológicos      e conceptuais, permitem enriquecer o debate, desvelando a forma como o <i>olho</i>      e o <i>olhar, </i>a <i>imagem</i> e o <i>imaginado, o observador</i> e o <i>observado</i>      podem ser apreendidos pelas ciências sociais e humanas. O caminho comum proposto      aos autores foi o de conceberem o <i>visual</i> em articulação com o <i>quotidiano</i>.      Neste desígnio expressa-se um desejo de descoberta das matérias subtis presentes      no horizonte do perceptível, através das quais se forjam e exibem identidades,      representações e projectos. José Machado Pais, na introdução à obra, justifica      o propósito científico do desafio lançado: “a      vida quotidiana é um terreno onde se vive a experiência antropológica      do olhar, de uma vadiagem de olhar — teoricamente sensível — […] na realidade      quotidiana, o visual torna-se um ‘centro polimórfico’      que deve ser interpretado, mas também pode ser meio de interpretação: ‘objecto      e método’ de pesquisa.” </p>        <p>Esta é uma obra que merece elogios não      apenas pela qualidade das intervenções que acolhe, mas igualmente pela actualidade      e pertinência da temática tratada. Diga-se, em abono da verdade, que as ciências      sociais parecem ainda pouca atentas à especificidade da visualidade na constituição      dos processos sociais. Se exceptuarmos a antropologia visual, uma subdisciplina      com uma história centenária e um riquíssimo património teórico-metodológico,      a utilização das denominadas metodologias visuais na pesquisa e na construção      de representações científicas é perfeitamente residual. Com efeito, e esse      parece ser um diagnóstico que merece consenso, a academia sempre manifestou      alguma relutância em trabalhar com a imagem, esconjurando o visual como obscura      tentação de um mundo em progressiva mediatização e deslumbramento imagético.      Esta é, contudo, uma situação que tende a inverter-se. O logocentrismo da      academia tem sido desafiado por uma nova geração científica mais predisposta      a acolher aparatos heurísticos e tecnológicos renovados (Marcus Banks, <i>Visual methods in social research,</i> Londres, Sage Publications, 2001). Esta tendência      não é seguramente estranha à progressiva centralidade que os complexos circuitos      imagéticos e as tecnologias audiovisuais assumem no mundo globalizado, compondo      novas realidades empíricas que exigem estudo detalhado e uma agenda científica      reconciliada com este domínio da vida social. Na verdade, a importância desta      dimensão parece particularmente patente no mundo contemporâneo, justificando      uma congregação de esforços disciplinares variados em torno de espaços de      investigação emergentes, de que são exemplos os <i>Estudos Visuais</i> ou      a área disciplinar da <i>Cultura Visual</i> (Nicholas      Mirzoeff,  <i>An</i><i>      introduction      to visual culture</i>, Londres e Nova Iorque,      Routledge, 1999; John Walker      e Sarah Chaplin, <i>Visual      culture: an introduction,</i>      Manchester e Nova Iorque, Manchester University      Press, 1997). Esta obra, de certo modo pioneira no contexto      nacional, pode ser enquadrada no âmbito destas dinâmicas. </p>        <p>O volume encontra-se dividido em duas      partes. A primeira parte, intitulada «A fotografia, o quotidiano e a cidade»,      é dedicada a esta tecnologia, tida quer enquanto mecanismo de mediação, de      captura e representação do visível, quer enquanto objecto de imaginação, habitáculo      de imaginários e alegorias várias. O destaque oferecido neste livro à fotografia      é compreensível. Desde a sua invenção, em 1827, esta foi sendo apropriada      por diferentes agentes e instâncias sociais com propósitos dissemelhantes      (científicos, artísticos, políticos, etc.). A fotografia, entretanto, generalizou-se,      banalizou-se, fendendo territórios de práticas especializadas, convertendo-se      em objecto de comunhão social, de produção de memórias e dizeres sobre o quotidiano.      Teorizar o <i>observador</i> e o <i>observado</i> é compreender a epistemologia      do olhar tecnologicamente assistido. Como sugerem os autores, a câmara determina      os lugares possíveis da relação óptica, destinando diferentes papéis e poderes      às entidades que se dispõem diante ou detrás da objectiva fotográfica. Ao      retratarmos prenunciamos um desejo de captura da realidade, de suspensão do      espaço-tempo, perpetuamos memórias que são denunciadoras de um estado ontológico      e de uma condição histórica.  </p>       <p></p>        <p>Nos textos que inauguram esta primeira      parte somos convidados a reflectir sobre a relevância da fotografia enquanto      recurso científico ao serviço das ciências sociais. Os argumentos expressos      resgatam um debate epistemológico fundamental sobre a natureza heurística      da imagem, que tende a oscilar entre duas concepções divergentes: a <i>reflexiva-colaborativa</i> e a <i>naturalista-realista</i>.      Ambas ponderam as qualidades e limites da imagem polissémica, retirando daí      consequências epistemológicas díspares. Mais próximo da primeira concepção,      José de Souza Martins questiona as propriedades      objectivas da fotografia inspiradas pelo paradigma positivista, sugerindo,      ao invés, uma imagem repleta de sentidos imaginários e estéticos sociologicamente      densos. Por seu turno, Carlos Feixa e Laura Porzio desvendam-nos o potencial de uma etnografia auxiliada      pela objectiva da câmara, poderosa ferramenta de averiguação da expressividade      colectiva das culturas juvenis urbanas. Situando-se noutras latitudes teóricas      e anunciando outras preocupações, os textos de Maria do Carmo Serén      e de Margarida Medeiros exploram a fotografia enquanto dispositivo situado,      reflexo de tempos e espaços sociais. Ambas deambulam por entre <i>retratos</i>      de pessoas ou paisagens citadinas, figurações que incorporam o <i>espírito      do tempo,</i> uma condição histórica assinalada por movimentos psicológicos,      sociais e ideológicos que concorrem para uma mundividência.       </p>        <p>Se a primeira parte é basicamente organizada      em torno da desconstrução de uma tecnologia e dos seus usos sociais, a segunda      parte orienta-nos para uma questão fundamental longamente debatida no contexto      das ciências sociais: os mecanismos de representação. Em comum, os autores      partilham o património disciplinar e os sujeitos e objectos da etnografia      como actores de uma narrativa histórica. Sob a temática «Tradições, representações      e experiências», examinam-se diferentes usos e vivências da imagem etnográfica,      contributos inestimáveis para uma compreensão mais fiel dos roteiros antropológicos.      Apesar de permanecer ainda uma <i>disciplina de palavras,</i> como sugeriu      Margaret Mead há mais de três décadas [Margaret      Mead, «Visual anthropology      in a discipline of words», <i>in</i> Paul Hockings (ed.), <i>Principles</i><i>      of Visual Anthropology,</i>      Berlim e Nova Iorque, Mouton de Gruyter,      1995 (1975), 3-12], parece-nos um facto inquestionável que a imagem e a visualidade      têm desempenhado um papel basilar na configuração da antropologia. O terreno      é, desde longa data, alvo do escrutínio do olhar. A fotografia, o cinema e      o vídeo, mais recentemente o multimédia, têm sido companheiros de explorações      etnográficas, testemunhando e eventualmente concorrendo para as graduais mutações      do modelo antropológico. Os textos contidos nesta secção sugerem uma navegação      por uma cartografia do visível que muito nos diz sobre a forma como se foram      forjando as identidades colectivas, os imaginários de nação e de alteridade.      </p>        <p>A primeira contribuição cabe a João      Leal, que procede a um breve inventário da utilização das imagens (desenho,      fotografia, filme) na etnografia portuguesa, demonstrando como estas foram      usadas em função de práticas e paradigmas disciplinares particulares, servindo      para a edificação de <i>retratos do povo</i> e da cultura popular portuguesa.      Por seu turno, Clara Carvalho recolhe dos registos fotográficos coloniais      indícios da forma como o <i>outro</i> exótico foi produzido enquanto representação      imagética. Debruçando-se sobre retratos de mulheres elaborados entre 1945      e 1974 na Guiné-Bissau, a autora desvenda a dimensão política do acto fotográfico,      o olhar como mecanismo de dominação (simultaneamente masculina e colonial).      Os percursos em torno da tradição e da memória etnográfica são também examinados      à luz de experiências e linguagens inovadoras, cabendo a José da Silva Ribeiro      e a Nuno Porto o papel de revelação de novos exercícios na representação das      culturas. O primeiro, partindo de uma experiência etnográfica multissituada      e também multissensorial e multivocal (ritual da      coroação de Reis Congo), defende a enorme relevância das tecnologias e linguagens      digitais para a promoção de uma prática mais consentânea com as contemporâneas      exigências epistemológicas, éticas e políticas do acto antropológico. O segundo      encerra esta publicação debruçando-se sobre o campo museológico, repensando      o museu enquanto espaço ritualizado de usufruto estético, lugar de experiências      transformativas do sujeito.  </p>         <p>De acordo com uma epistemologia do olhar, <i>ver</i> é <i>conhecer,</i> fabricar    paisagens visíveis é designar coordenadas para uma particular orientação no    mundo. Uma sociedade imersa na imagem e no audiovisual, altamente globalizada    e tecnologicamente dependente exige que se pense, de modo integrado, o lugar    do olhar e do perceptível no quotidiano, as formas emergentes de visualidade    e as novas imagens como elementos fundamentais à construção dos mitos colectivos.    Este é um desafio lançado às ciências sociais, que, tradicionalmente, têm privilegiado    uma abordagem dual da imagem, tida ora como <i>ferramenta metodológica</i>,    ora como <i>objecto de estudo</i>. Um encontro entre estes dois horizontes programáticos    parece-nos essencial, em benefício de uma conceptualização e operacionalização    mais sólida e coerente da visualidade. O conjunto de textos acolhidos nesta    obra convida-nos, precisamente, a traçar novas linhas para um exercício de reflexão    sobre o olhar e as extensões tecnológicas que o amparam.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>        <p>Ricardo Campos </p>        <p>CEMRI, Universidade Aberta</p>         ]]></body>
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