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</front><body><![CDATA[ <p><i>Manuela Ivone Cunha </i>(org .), <b>Aquém e além da prisão. Cruzamentos    e perspectivas</b>, Lisboa, 90 g raus, 2008, 256 páginas. </p>            <p>Na continuidade de um percurso de investigação sobre a prisão,      a criminalidade feminina e as transformações nos dispositivos de controlo      social, Manuela Ivone Cunha organizou esta colectânea de textos que se propõem      reflectir sobre a prisão e o seu devir, enfatizando a sua relação com o contexto      social mais vasto.   </p>        <p>A chave para a leitura deste livro é, desde logo, oferecida      pela própria autora no excelente capítulo que abre esta obra: a prisão como      reveladora da sociedade, neste caso das transformações que as últimas décadas      têm operado nas condições sociais do crime e no seu controlo. Cabe, pois,      interrogar: o que existe aquém da prisão?   </p>        <p>Aquém da prisão está o bairro e os seus actores, os gunas  de que nos fala o capítulo elaborado por Luís Fernandes      e a Marta Pinto. Mas o que está aquém do bairro? O que o converte em território      produtor de ameaça endurece as vidas dos que lá nascem e os olhares que se      lhes dirigem? A resposta tem sido avançada por muitos dos que estudam a delinquência      juvenil em contexto urbano, desde Jock  Young  a Philippe  Bourgois . No limiar das várias explicações possíveis, esbarramos      sempre com a dimensão estrutural: a retracção do emprego operário (e do que      esse emprego significava: um projecto de vida, uma ideia de futuro, solidariedades      de grupo, uma identidade, uma certa construção da masculinidade), a fragilização      cada vez mais acentuada do pouco trabalho disponível e o distanciamento da      população destes bairros de um mercado de trabalho dito “moderno”, “ágil”,      “flexível” e “tecnológico”. Para o qual, obviamente, a população em causa      não tem o necessário capital cultural.   </p>        <p>Os autores não nos propõem, contudo, reduzir a delinquência      urbana às suas causas estruturais, regressando a Merton .      O crime não é só estrutura, é também agência e significação. Já há alguns      anos, Young  enunciava a díade       exclusão estrutural-inclusão  cultural como aceleradora      do crime. E a inclusão cultural é, hoje em dia, essencialmente a inclusão      pelo consumo, pelo ter, pela imagem: as calças de ganga, os ténis de mola,      o telemóvel e o carro <i>tunning ,</i> de      que nos fala também o texto do Luís Fernandes e da Marta Pinto. Ter é ser      e o consumo é definidor de uma identidade que já não é — nem pode ser, nos      dias de hoje, especialmente para esta população — definida pelo trabalho.      Somos aquilo que consumimos e o nosso consumo define o nosso lugar no mundo.      Assim, a pequena criminalidade, de tipo aquisitivo ou ligada ao comércio retalhista      das drogas, é a resposta económica viável a esta necessidade identitária de      ter para ser.  </p>        <p>Mas não é apenas entre as populações mais precarizadas       que a crise estrutural gera ansiedades identitárias. O <i>fear       from  falling </i> das classes      médias-baixas tem sido exaustivamente descrito e a crescente ansiedade deste      grupo, também cada vez mais precarizado , mas que      tenta manter a sua respeitabilidade, é responsável, em larga medida, pelo      que costuma chamar-se o sentimento de insegurança. Sentimento       este  que, segundo alguns autores, traduz um outro      mais geral de desconforto, receio e medo que se cristaliza nas figuras óbvias      da desordem simbolizadas por quem está um patamar mais abaixo na hierarquia      social.  </p>            <p>O sentimento de insegurança tende a associar-se à punitividade . Como anuncia o texto de Lois       Wacquant , neste cenário falharam as previsões dos      que vaticinavam há umas décadas atrás o declínio irreversível da prisão e      a sua substituição pelo controlo de face <i>soft</i>  das tecnologias de vigilância. Essas proliferam, é certo. Mas, como Wacquant  mostra, ainda que o crime não tenha aumentado significativamente      nos EUA nas últimas três décadas, a prisão floresce: nos EUA 1 em cada 20      homens está sob vigilância policial e esse número aumenta para 1 em cada 9      se falarmos de homens negros. Tal deve-se, essencialmente, à decisão política      feita em torno do policiamento das drogas, acompanhada (nos EUA) da preferência      pela prisão como resposta punitiva e pelo endurecimento das penas, nomeadamente      a imposição de penas mínimas fixas para um certo número de crimes. A prisão      converte-se, como diz Wacquant , no principal dispositivo      regulador da pobreza, expandindo-se à medida que o investimento político e      económico nas políticas sociais se retrai. A prisão gere as respostas delinquenciais       produzidas como resposta à crise estrutural.   </p>        <p>Existindo, seguramente, diferenças entre o contexto descrito      por Wacquant  e o que se vive em Portugal, o texto      da Manuela Ivone Cunha sobre as relações entre o bairro e a prisão mostra      claramente que também entre nós a guerra às drogas, especialmente as acções      policiais de policiamento pró-activo, se traduz num fluxo constante de população      do bairro para a prisão. Desta forma, na prisão encontram-se vizinhos, familiares      e conhecidos, mais agregados pela lógica policial e judicial do que frequentemente      alguma vez estiveram na sua actividade criminosa.    </p>        <p>Tal muda, necessariamente, a própria prisão, reconfigurando      o seu significado e a sua vivência, desde logo alterando a sua força enquanto      produtora de estigma. Como nos diz Manuela Ivone Cunha, se há décadas atrás      ser preso era vivido como uma interrupção na vida normal e algo que desafiava      uma identidade anterior, hoje ser preso é, para os habitantes de certos bairros,      uma etapa a mais na vida. Uma etapa partilhada com tantos dos que são próximos      que já não é percebida como estigmatizante, sendo que a real estigmatização,      decorrente da sua condição social e espacial, é simultaneamente prévia e mais      profunda. Voltando ao texto do Luís Fernandes e da Marta Pinto: “Nem imaginas      o que é procurar emprego e dizer que se é daqui… eles tiram-te logo da lista.      Vêem-nos como ladrões ou traficantes!” (p. 191).   </p>        <p>A prisão inscreve-se, portanto, como local de passagem provável      em alguns trajectos de vida, ao mesmo tempo que a retracção do investimento      público nas zonas degradadas desvanece a presença nessas áreas de outras estruturas      sociais. Esta dupla modificação leva a que se modifiquem também as utilizações      da prisão pela população que gravita em seu torno. O texto de Megan       Comfort  evidencia claramente esta transformação,      revelando a forma como, na ausência de outros mecanismos sociais e estatais      que controlem a violência masculina, a prisão pode ser, em certa medida, entendida      positivamente pelas companheiras dos homens presos. Contidos pela prisão,      estes voltam a poder ser percebidos como homens bons e o romance pode continuar…      entre as grades. Cá fora, sem grades que as protejam, a violência regressa.      A prisão surge, portanto, como uma forma peculiar de apoio social para estas      mulheres, protegendo-as da violência e legitimando um conjunto de comportamentos      prévios à prisão (falta de apoio económico, distanciamento), mas que podem      agora ser justificados pela reclusão do companheiro. Permite-lhes ainda construir      uma imagem do companheiro como alguém regenerado, facto para o qual contribui      a própria dependência dos reclusos em relação às suas mulheres, traduzida      nas visitas, nas cartas e nas chamadas telefónicas.   </p>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p>De forma análoga, também o capítulo de Cláudia Resende explica      que os próprios reclusos podem hoje encontrar na prisão um acesso muito mais      facilitado a um conjunto de dispositivos, sejam eles de formação ou de tratamento,      do que teriam no meio livre.    </p>        <p>Significa isto então que a prisão se tornou menos instituição      total? Sim e não ao mesmo tempo, dizem-nos os autores. Como alerta Resende,      a face benévola da prisão não significa que se tenham anulado os seus efeitos      de mortificação do eu, nem (como enfatiza Comfort )      as suas consequências desintegradoras : precarização  económica da família, monoparentalidade, redução      da coesão social. Aliás, Comfort  salienta claramente      que a função de apoio social da prisão apenas existe porque os programas terapêuticos      do emprego e do apoio à população mais fragilizada não cumprem o seu papel      ou têm visto os seus orçamentos reduzidos. Por outro lado, no plano interno,      a prisão também vê a sua função ressocializadora       desafiada pela sua própria expansão, sobrelotação e reconceptualização ,      correspondendo mais a um mecanismo de contenção do crime do que a um dispositivo      de normalização e regeneração. A própria expansão da população prisional de      estrangeiros, abordada no último capítulo do livro por Hostettler  e Achermann , compromete      o projecto de ressocialização .   </p>         <p>É, portanto, uma imagem de uma prisão em mudança que o livro organizado por    Manuela Ivone Cunha nos oferece, transformada por forças que agem a seu montante    e jusante e que alteram a sua função, significado e vivência. Com esta excelente    colecção de ensaios ficamos a conhecer melhor a encruzilhada que atravessa a    prisão, hoje, afinal, um retrato claro da encruzilhada social que se reflecte    no actual perfil da criminalidade e do seu controlo. </p>     <p>&nbsp; </p>             <p>Carla Machado  </p>      <p>Escola de Psicologia, Universidade      do Minho   </p>          ]]></body>
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