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</front><body><![CDATA[ <p><i>Marcos Cueto,</i><b> The      value of health: a history      of the Pan American Health Organization, </b>Washington, D. C., Pan American Health Organization, 2007, 239 páginas.      </p>        <p>Fazer a história de instituições é sempre      uma tarefa difícil. Perante a abundância de material surgem dilemas sobre      o que incluir ou relegar, que níveis de análise privilegiar e que ênfase dar      à documentação oficial, diários ou testemunhos orais. Esta tarefa agudiza-se      quando se trata de uma instituição como a Organização Pan-Americana de Saúde      (PAHO — no acrónimo inglês), a mais antiga agência de saúde pública internacional      activa que, como o nome indica, opera em todo o continente      americano. Como fizera em trabalhos anteriores (Cueto, 1995 e 2004a), Marcos Cueto      lida bem com estas dificuldades, apresentando, assim, em <i>Value      of Health</i> um trabalho      coeso (Cueto, 2004b).  </p>        <p>Metodologicamente, o autor utiliza trilhos      familiares da historiografia recente. Consulta fontes secundárias, mergulha      na imensidão do material de arquivo presente em inúmeros países e continentes      e recorre à história oral. O uso de material secundário — monografias e artigos      — permite um primeiro olhar sobre as acções da PAHO. O recurso às fontes primárias      — documentação institucional, diários e correspondência dos directores-gerais      — outorga um colorido ao desenvolvimento da instituição, dos seus programas      e acções, enquanto os testemunhos orais humanizam a imagem dos directores.      </p>        <p>A abrangência temporal do livro, desde      o século xix até à contemporaneidade,      permite apreender a génese e evolução de uma miríade de questões que ainda      hoje são objecto de análise e discussão, contribuindo assim para uma melhor      compreensão do conhecimento de programas e práticas de saúde actuais em diversos      contextos: ocidentais ou em desenvolvimento. </p>        <p>Cueto revela como as medidas      sanitárias adoptadas no século xix      e centradas nos portos foram importantes para a criação de instituições internacionais      de saúde pública; como as descobertas de Pasteur, Koch,      Leveran e Ross promoveram      a transição paradigmática das ideias legadas aos miasmas para a bacteriologia,      reforçando a crescente hegemonia dos médicos, precipitando a criação da PAHO      em 1902 e, posteriormente, a uniformização das regras de saúde marítima-portuária      no continente.  </p>        <p>De facto, com o intuito de proteger      o comércio, uniformizaram-se as medidas sanitárias, nomeadamente a regulação      das acções de quarentena e notificação de doenças como a cólera, a febre-amarela      e a peste bubónica, expandindo-se as regras de saúde      pública internacional para as cidades contíguas aos portos, bem como para      os mercados e os matadouros. </p>        <p>A consolidação da medicina social a      partir da segunda década do século xx,      que apontava para soluções ambientais e educacionais no quadro das problemáticas      de saúde, leva a uma crescente actuação de instituições públicas independentes      nas cidades, particularmente no período de entre guerras. </p>      <p>O contexto do pós-Segunda Guerra Mundial, moldado pelo aparecimento      de várias organizações internacionais, pela declaração de Truman de 1949 sobre o desenvolvimento, pela presença de novos      valores — universalidade da experiência humana; ênfase<i> no</i> profissionalismo      e na capacidade técnica em detrimento da improvisação e politização das acções      —, sublinhava a possibilidade de desenvolvimento      dos países “subdesenvolvidos”. É neste contexto que a PAHO desenvolve políticas      de formação na área da medicina, das ciências de saúde, da saúde pública e      administrativa; aumenta e diversifica a nacionalidade do seu pessoal; incrementa      a profissionalização das mulheres em áreas de saúde; descentraliza-se através      da criação de novos centros de pesquisas em vários países membros.       </p>        <p>Estas políticas intentavam transferir      a acção em saúde para fora dos ministérios de saúde nacionais e, paralelamente,      reforçando a PAHO, possibilitar, assim, a produção de informação com indicadores      quantitativos, a realização de pesquisa e a adequação de programas às condições      locais. No entanto, segundo o autor, esta política de construção de uma identidade      institucional, alimentada por elementos dos serviços nacionais de saúde, provocou      tensões com as instituições locais. </p>        <p>As acções no pós-guerra      reveladas por Marcos Cueto são importantes para      uma melhor percepção da genealogia de muitos dos actuais programas de saúde.      Esta foi a época em que as campanhas verticais e de erradicação ganharam mais      visibilidade. A fé na ciência e na técnica conduziu à ideia de erradicação      de doenças como a malária, a febre-amarela e a tuberculose. No entanto, uma      míriade de problemas afectou estes programas verticais,      transformando a natureza das próprias campanhas. A campanha de erradicação      da malária do início de 1950, por exemplo, debateu-se com a resistência de      certas espécies de <i>Anopheles;</i> com      a transmissão da doença em hospitais através da transfusão de sangue infectado;      com a criação de novos locais para a gestação de mosquitos, consequência da      desflorestação, operações mineiras e abertura de estradas; com o efeito nefasto      do DDT nos ecossistemas locais; com a persistência do contacto vector-homem      corolário das paupérrimas condições de vida das populações; com a tenacidade      de conceptualizações locais sobre o corpo, febres e sangue <i>vis-à-vis</i>      acções biomédicas. Estes factores fizeram com que a malária reemergisse mais      tarde como um problema de saúde pública e as campanhas para a sua erradicação      se transformassem, no início da década de 60, em campanhas de controlo.       </p>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Apesar destes reveses, são corolários      das campanhas verticais ideias como a incorporação dos programas de saúde      no desenvolvimento socioeconómico e a participação da comunidade nas actividades      de saúde. A campanha contra a <i>boubas      </i>no Haiti foi das mais prolíferas para a relevância da cultura e      práticas médico-sanitárias no terreno. Por exemplo, o sistema de identificação      de casas teve de ser modificado devido ao conflito com simbologias e significados      locais; a acção das equipas passou a ser pro-activa, procurando-se pacientes      de casa em casa. Ilações como a integração da comunidade e respeito pela cultura      local tiveram origem nesta campanha vertical, assim como metáforas como a      do Dr. Leviatan que afirmava que “a melhor propaganda      é feita pelos doentes”. Mais, estas campanhas tornaram visíveis os problemas      específicos de populações até então longe dos alvos das acções de saúde, caso      das populações rurais. Como consequência, nos anos 60 a PAHO recentrou a sua      atenção nas áreas rurais onde a maior parte da população da américa latina vivia e que até então tinham sido negligenciadas.      </p>        <p>Na década de 70 testemunhou-se em Alma      Ata o aparecimento dos cuidados de saúde primários. Esta abordagem enfatizava      o uso de tecnologias apropriadas a contextos em desenvolvimento, reforçando      o conceito de saúde como parte importante e ímpeto para o desenvolvimento      económico. No entanto, a posterior criação por parte de agências internacionais      de programas selectivos de saúde pública, como GOBI-FFF (estratégias selectivas      dos cuidados de saúde primários centrados na saúde materna e infantil) e GOBI,      a formação médica de pessoal de saúde, bem como o parco investimento estatal      na saúde primária, levaram a que surgissem inúmeras críticas, argumentando-se      que se criara uma medicina pobre para gente pobre. </p>        <p>Nas décadas de 80 e 90 foram criados      novos caminhos para os programas de reajustamento estruturais no campo da      saúde <i>vis-à-vis</i> as directrizes dos organismos      financeiros internacionais. Os programas de ajustamento estrutural aplicados      localmente eram corolários de directrizes globais. Dito isto, a centralidade      do interesse político das acções de saúde, presente desde o final da segunda guerra mundial,      e a importância da participação da comunidade para a sustentabilidade das      acções em saúde permaneceram como elementos centrais dos programas de saúde.      O relatório da Organização Mundial de Saúde de 2008 — <i>Cuidados de Saúde      Primários — Agora Mais Que Nunca — </i>parece dar razão aos defensores de      Alma-Ata quando estes afirmam que os seus princípios não foram      aplicados, falhando-se em factores específicos, como a perspectiva de género,      a falta de fundos para programas de saúde para todos e a aliança entre a saúde      e a sociedade civil.  </p>        <p>Apesar da sua relevância, este livro      apresenta alguns calcanhares de Aquiles. Ao utilizar os directores da PAHO      como guias para a história da instituição, Marcos Cueto      privilegia uma visão de topo, perdendo-se por vezes em detalhes da vida dos      directores e mesmo da arquitectura dos edifícios da PAHO, matéria com pouco      interesse para o argumento central do livro. Outro ponto negativo a considerar      é a parca ilustração das vozes dos diversos intervenientes em programas de      saúde — médicos, enfermeiros e outros técnicos — e das reacções das populações.      </p>        <p>Esta obra ganharia muito se aos dados      financeiros e estatísticos fornecidos estivesse subjacente um argumento. Ou      seja, para melhor compreender os investimentos, as ênfases dadas a certas      regiões, populações e programas de saúde pública, reais e/ou retóricas, ao      longo da existência da instituição, o leitor é forçado a saltar constantemente      de capítulo em capítulo e a fazer ele próprio as comparações, pois os dados      encontram-se dispersos em diversos capítulos e subcapítulos e em bruto. O      autor poderia ainda enfatizar as tensões, negociações ou diferentes soluções      aplicadas nas mais diversas regiões da PAHO; revelar qual o papel dos técnicos      e autoridades locais na aplicação e negociação de práticas higiénicas ou em      determinados planos verticais junto das populações; ilustrar como a PAHO lidou      com os diferentes conceitos de saúde presentes no continente; mostrar como      as várias populações respondiam às acções biomédicas; tornar visível a relevância      das redes existentes a diferentes níveis para a aplicação dos mais      diversos programas. </p>         <p>Apesar destas críticas, <i>Value of Health </i>é um livro que permite uma miríade    de leituras centradas no aparecimento, crescimento e hegemonia da saúde internacional,    ou na influência da transição de paradigmas nas políticas de saúde, ou ainda    na arqueologia da presente conceptualização e aplicação de programas de saúde,    revelando-se, assim, como uma importante contribuição para a melhor compreensão    de programas e práticas de saúde contemporâneos.</p>     <p>&nbsp;</p>        <p>Jorge Varanda</p>       <p>CRIA-ISCTE</p>         ]]></body>
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