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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[As fronteiras ibero-americanas na obra de Sérgio Buarque de Holanda]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This article discuss four senses of the frontier/border, extending the work of Sergio Buarque de Holanda: the “hybrid zone” conception or “territory-bridge” in the understanding of Iberian singularity; frontier/border as division marker between Portuguese and Hispanic colonization; the fronts of expansion or frontiers in movement in the process of colonization; and last, the boundary as a transition, going from the Iberian singularity to a modern and urban world.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p ><b >As fronteiras ibero-americanas na obra de Sérgio Buarque de Holanda<a name="topa1"></a><a href="#a1">**</a></b></p>      <p >&nbsp;</p>      <p ><b >José Lindomar Albuquerque*</b></p>      <p >* Universidade Federal de São Paulo, Estrada Caminho Velho, 333, Bairro dos    Pimentas 07272-000 &#8212; São Paulo, SP &#8212; Brasil. e-mail: <a href="mailto:joselindomar74@gmail.com">joselindomar74@gmail.com</a></p>      <p >&nbsp;</p>      <p >O texto aborda quatro sentidos da noção de fronteira construídos a partir da obra de Sérgio Buarque de Holanda: a concepção de &#8220;zona híbrida&#8221; ou &#8220;território-ponte&#8221; na compreensão da singularidade ibérica; as fronteiras enquanto marcos de diferenças entre as colonizações portuguesa e castelhana; as frentes de expansão ou fronteiras em movimento no processo de colonização; a fronteira como transição, travessia da singularidade ibérica para um mundo moderno e urbanizado. </p>      <p ><b >Palavras-chave:</b> fronteira; frentes de expansão; colonização; modernização.  </p>     <p >&nbsp; </p>      <p ><b>Ibero</b><b>-American boundaries in the work of Sergio Buarque de Holanda</b></p>        <p >This article discuss four senses of the frontier/border, extending the work    of Sergio Buarque de Holanda: the &#8220;hybrid zone&#8221; conception or &#8220;territory-bridge&#8221;    in the understanding of Iberian singularity; frontier/border as division marker    between Portuguese and Hispanic colonization; the fronts of expansion or frontiers    in movement in the process of colonization; and last, the boundary as a transition,    going from the Iberian singularity to a modern and urban world.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p ><b>Keywords:</b> boundary; fronts of expansion; colonization; modernization.</p>      <p >&nbsp; </p>      <p >INTRODU&Ccedil;&Atilde;O</p>     <p >A noção de fronteira adquire variados significados no mundo contemporâneo.    Fronteiras como delimitações de territórios ou como metáforas da vida social,    fronteiras porosas e rígidas, barreiras ou formas de travessias, diferenças    e sincretismos, limites e caminhos. A palavra passa a ser bastante utilizada    nos textos e discursos académicos sobre os limites entre as áreas de conhecimento    e as formas híbridas de percepção dos fenómenos sociais na actualidade. </p>      <p >A fronteira é, por definição, um termo    polissémico e que pode ser apreendido mediante diferentes metáforas. Recordo    um pequeno ensaio de Simmel (2001) intitulado &#8220;ponte e porta&#8221;,    para pensar algumas dimensões das fronteiras. As metáforas da ponte e da porta    são indicativas das fronteiras que delimitam e atravessam a experiência humana    e as vivências em determinados espaços sociais. A ponte como uma criação humana    que consegue unir o que a natureza havia separado. A construção do caminho e    a percepção dos trajectos e dos pontos de ligação. A porta como algo que estabelece    um limite, a edificação de barreiras entre o interno e o externo, uma separação    num espaço que antes era naturalmente unificado. Contudo, a porta simboliza    também a passagem, o cruzamento entre o fora e o dentro, entre a objectividade    e a subjectividade da vida dos indivíduos em sociedade. A ponte e a porta são    símbolos, metáforas da nossa experiência colectiva e individual.  </p>      <p >Essas metáforas podem ser associadas    ao próprio título de um dos livros de Sérgio Buarque de Holanda,    <i>Caminhos e Fronteiras. </i>Neste caso, as travessias e barreiras adquirem    significados históricos específicos em relação à experiência singular da expansão    paulista e brasileira, em comparação com outros processos de colonização no    continente americano<i>. </i> </p>      <p >Neste artigo distancio-me de algumas interpretações sobre o autor centradas    na &#8220;identidade nacional&#8221;, visto que estas, às vezes, acabam por cristalizar    ideias sobre a especificidade cultural brasileira<sup><a name="top1"></a><a href="#1">1</a></sup>.    Os conceitos de homem cordial, de patriarcado e de personalismo tornaram-se    expressões quotidianas que justificam o modo brasileiro de ser, em contraste    com outros comportamentos políticos nacionais. Acredito que o deslocamento de    algumas interpretações com características &#8220;essencialistas&#8221; para uma abordagem    centrada na dinâmica das fronteiras permite compreender o movimento permanente    destas configurações históricas.  </p>      <p >Realizei uma leitura de <i>Raízes do    Brasil</i> (edições de 1936, 1948 e 1956) na confluência de outros trabalhos    do autor produzidos nas décadas de 40 e 50, especialmente <i>Caminhos e Fronteiras</i>    (1994 [1957]) e <i>Visão do Paraíso </i>(2000 [1959]). As separações que geralmente    ocorrem entre a obra ensaísta do autor <i>(Raízes do Brasil)</i> e os seus trabalhos    historiográficos (<i>Monções, Caminhos e Fronteiras, O Extremo Oeste, Visão    do Paraíso, Do Império à República, </i>na colecção &#8220;História da Civilização    Brasileira&#8221; estão na origem de uma divisão do trabalho interpretativo verificada    entre sociólogos, cientistas políticos e historiadores. Os sociólogos e cientistas    políticos geralmente estudam <i>Raízes do Brasil</i> comparando este texto com    obras consagradas de outros autores brasileiros e, muitas vezes, os historiadores    dedicam-se aos livros do autor que foram construídos a partir de um trabalho    circunscrito e mais minucioso com as fontes.  </p>      <p >Não se trata de tentar preencher lacunas    de <i>Raízes do Brasil</i> com argumentos desenvolvidos nestas outras obras,    pois sabemos que o livro é datado, como muitas vezes afirmou o próprio autor.    O meu intuito é perceber o próprio percurso do pensamento do autor, as suas    reformulações, as descontinuidades e as continuidades em relação a este ensaio    inaugural.  </p>      <p >Procuro construir neste artigo a noção de fronteiras ibero-americanas a partir    de quatro sentidos de fronteira: (1) a Península Ibérica como &#8220;zona de transição&#8221;    e &#8220;território-ponte&#8221; entre a Europa, a África e a América; (2) as fronteiras    enquanto marcos de diferenças entre a colonização portuguesa e castelhana na    América; (3) as frentes de expansão e os processos de americanização; (4) a    ideia de transição das raízes ibéricas para um mundo moderno e urbanizado.   </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p >&nbsp;</p>        <p >FRONTEIRAS IB&Eacute;RICAS<b > </b></p>      <p > Uma das linhas mais comuns na interpretação de <i>Raízes do Brasil</i> é    perceber o primeiro capítulo como uma forma de explicação histórica sobre os    &#8220;males de origem&#8221; da sociedade brasileira. Se os brasileiros são tradicionalistas,    autoritários, patriarcais, contrários às associações espontâneas, são-no porque    &#8220;herdaram&#8221; estes comportamentos políticos principalmente de Portugal. Afinal    de contas, de lá vieram as formas de organização social e política, o &#8220;resto    foi matéria que se sujeitou bem ou mal a essa forma&#8221; (Holanda, 1948, p. 32).  </p>      <p >A maneira como Sérgio Buarque de Holanda principia e encerra o primeiro capítulo de <i>Raízes    do Brasil</i> abre margem para uma visão estática e que não valoriza a imensa    contribuição de outras matrizes culturais (africanas e ameríndias) na formação    da sociedade brasileira. Nesta matriz interpretativa, os brasileiros são uma    espécie de &#8220;neoportugueses&#8221; e adaptam alguns valores culturais    dos indígenas e africanos. A fronteira pode ser entendida aqui como limite intransponível,    as marcas permanentes de origem e as transposições culturais e políticas das    margens da Europa para o outro lado do oceano atlântico (Finazzi-Agrò,    2008, p. 415). </p>      <p >Nesta perspectiva, a reflexão do capítulo    fica centrada na discussão da cultura da personalidade e na ausência de uma    cultura do trabalho como maneira de explicação do atraso e da falta de modernidade    do Brasil. O mundo ibérico caracteriza-se pelo personalismo, pela aversão ao    trabalho manual e pela falta de espírito de cooperação por interesses. O personalismo    ibérico é fruto do prestígio pessoal, da &#8220;sobranceria&#8221; espanhola e da ruptura    com as hierarquias sociais naturalizadas de uma concepção escolástica do mundo.    </p>      <p >Acredito que as<i> &#8220;</i>fronteiras da Europa<i>&#8221;</i> não significam simplesmente    essa &#8220;transplantação&#8221; de instituições e valores políticos de Portugal para os    territórios coloniais transoceânicos. É importante pensar a Península Ibérica    como uma zona de transição cultural e, portanto, aberta aos influxos externos,    sendo os seus habitantes mais maleáveis às mudanças noutros contextos de vida.    A região ibérica é um lugar de fluxos de pessoas, ideias e técnicas, onde as    formas sociais não adquirem contornos definitivos. A organização política e    social neste território de transição ou &#8220;região indecisa&#8221; entre a Europa e a    África não adquire um carácter rígido e de imobilidade capaz de ser &#8220;transplantada&#8221;    sem sofrer alterações<a name="top2"></a><sup><a href="#2">2</a></sup>. </p>      <p >As misturas de povos e as influências    culturais de diferentes etnias e religiões na história da Península Ibérica    são pouco trabalhadas no primeiro capítulo de <i>Raízes do Brasil.</i> Entretanto,    em texto apresentado na Escola de Sociologia e Política em 1958, o autor detalha    as diversas misturas e diferenças entre &#8220;portugueses&#8221;, &#8220;escravos negros&#8221;, &#8220;mouros&#8221;,    &#8220;mouriscos&#8221;, &#8220;judeus&#8221; e &#8220;cristãos-novos&#8221;. De uma maneira geral, o historiador    enfatiza as misturas e hibridismos étnicos, mas, ao mesmo tempo, as profundas    barreiras religiosas que se erguem entre esses povos no contexto de Portugal    quinhentista, que &#8220;parece destoar do concerto europeu&#8221; (Holanda, 1958, p. 145).    </p>      <p >A sociedade de transição, movimentos    de povos, fusões culturais e de classes produz também uma complexa relação política    entre as concepções &#8220;arcaicas&#8221; e &#8220;modernas&#8221;. O que aparentemente é moderno torna-se    um obstáculo para a efectivação de processos mais universais da modernidade    ocidental. Por exemplo, o modo de vida dos povos ibéricos parece anteceder as    concepções modernas de liberdade individual, mas ao mesmo tempo o personalismo    é uma forma tradicional que bloqueia a concretização de outros valores modernos.    De uma maneira geral, há uma tensão permanente entre uma &#8220;modernidade precoce&#8221;    em alguns aspectos &#8212; como a liberdade pessoal, a falta de hierarquias, uma burguesia    mercantil e uma maior mobilidade e proximidade entre as classes &#8212; e as formas    ditas modernas, como as acções cooperativas e uma maior organização racional    do trabalho. Este tipo de relação não favorece a ruptura com as tradições. Pelo    contrário, essas características específicas dos ibéricos bloqueiam a realização    mais extensiva dos valores culturais novos.  </p>      <p >As<i> </i>&#8220;fronteiras da Europa&#8221; não    são somente barreiras intransponíveis, mas também &#8220;zonas de contacto&#8221;, &#8220;territórios-ponte&#8221;, que sinalizam aberturas e movimentos. Um olhar    mais atento ao fluir do texto e dos acontecimentos da colonização permite perceber    os contornos, formas e conteúdos diversos e as expressões políticas advindas    de outros territórios europeus. Embora se possa inferir essa dupla leitura deste    capítulo a partir de duas maneiras de entender a fronteira (&#8220;limite intransponível&#8221;    e &#8220;zona de transição&#8221; e &#8220;fluidez&#8221;), o facto é que estão presentes neste ensaio    de Sérgio Buarque os marcos de uma &#8220;herança&#8221; do mundo ibérico    que deixam as suas marcas no processo colonizador português nas regiões de além-mar.    Em trabalhos posteriores, especialmente os que produziu durante o período em    que esteve em Itália (1953-1954), ele relativiza esse peso da &#8220;mentalidade ibérica&#8221;    na explicação do Brasil. Numa conferência em Genebra (1954), o historiador afirma    que &#8220;supor a existência de uma misteriosa &#8216;mentalidade ibérica&#8217;, sempre igual    a si mesma e capaz de uma resistência obstinada a todas as influências externas    ou a todas as mudanças possíveis, seria sucumbir à sedução destes argumentos    idealistas que nada explicam&#8221; (Holanda, 1954, p. 5).  </p>      <p >Nesta fase, o autor já havia produzido vários artigos historiográficos sobre    a expansão paulista e tivera acesso a muitos arquivos sobre o contexto dos descobrimentos    em Itália. Souza, comentando o texto de Holanda (2002 [1954]) <i>A Contribuição    Italiana para a Formação do Brasil</i><sup><a name="top3"></a><a href="#3">3</a></sup>,    destaca a aproximação feita pelo historiador entre o carácter mercantil da experiência    colonizadora dos portugueses no tempo dos descobrimentos e as actividades comerciais    dos italianos no contexto medieval. Sérgio Buarque distancia-se da &#8220;singularidade    ibérica&#8221; e aponta outros elos de influência advindos de diversas regiões da    Europa. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p >Uma releitura de <i>Raízes do Brasil</i> em diálogo com estes outros textos possibilita uma crítica interna a essa interpretação, que enfatiza a herança ibérica, e permite uma maior aproximação a outras possibilidades de interpretação das &#8220;matrizes culturais&#8221; brasileiras. Neste sentido, as formas políticas e sociais que os brasileiros &#8220;herdaram&#8221; do mundo ibérico não foram somente a cultura da personalidade e a ausência da cultura do trabalho, mas também formas fronteiriças (mestiçagem, mobilidade, plasticidade do português, etc.) e influxos advindos de outros contextos europeus capazes de reconfigurar e adquirir conteúdos muito distintos no percurso colonial e nacional. </p>        <p >&nbsp;</p>     <p >FRONTEIRAS DA COLONIZA&Ccedil;&Atilde;O</p>      <p > A Península Ibérica aparece no capítulo &#8220;Fronteiras da Europa&#8221; como uma região    fronteiriça e unitária, sem diferenças substanciais entre Portugal e Espanha.    Os limites internos são explicitados quando o autor investiga as diferenças    nas colonizações americanas realizadas por estes dois países ibéricos. Neste    contexto, a fronteira ibero-americana pode ser vista como algo que demarca diferenças    no interior do processo de colonização das nações ibéricas no continente americano.    As fronteiras internas (como barreiras, limites) do mundo ibérico são construídas    mediante metáforas que representam as diferenças nos processos de exploração    e na organização política e urbana dos novos espaços conquistados. </p>      <p >Sérgio Buarque de Holanda interessou-se desde cedo pela literatura e história    dos países vizinhos ao Brasil e pelas comparações entre a experiência histórica    brasileira e dos povos hispano-americanos. No seu primeiro texto publicado em    1920 no <i>Correio Paulistano</i>, denominado &#8220;A originalidade literária&#8221;, já    demonstrava um conhecimento de vários autores dos países sul-americanos<sup><a name="top4"></a><a href="#4">4</a></sup>.    Neste artigo tece as suas primeiras comparações entre os portugueses e os espanhóis    que posteriormente serão retomadas em <i>Raízes do Brasil</i> e em <i>Visão    do Paraíso:</i> &#8220;o povo português, menos idealista e, se quiserem, mais prático    que o espanhol, não teve uma impressão tão sutil da natureza do Novo Mundo como    aquele&#8221; (Holanda, 1996 [1920], p. 37). </p>      <p >Provavelmente, uma das preocupações    principais da obra de Sérgio Buarque de Holanda terá sido    a de pensar o lugar da sociedade brasileira, com as suas especificidades regionais,    na vida americana e especialmente na latino-americana. Neste sentido, o autor    teceu diversas comparações sobre as diferenças dos processos de colonização    dos castelhanos e dos portugueses no continente americano em diferentes momentos    dos seus escritos.  </p>      <p >No quarto capítulo de <i>Raízes do Brasil</i>,    intitulado, na 2.ª edição, &#8220;O semeador e o ladrilhador&#8221;, o autor delimita as    diferenças entre essas duas formas de colonização. A diferença não diz respeito    ao carácter específico de cada povo nem às distinções psicológicas e culturais    entre as nações colonizadoras. O marco da diferença é principalmente de natureza    política, económica e militar. Castela havia reconquistado recentemente o seu    território do domínio árabe, conquistara um imenso território além-mar e dominava    outras regiões da Europa. As pressões para manter a unidade territorial diante    dos distintos reinos que formavam o &#8220;Estado espanhol&#8221; e o domínio dos territórios    conquistados na Europa e na América foram centrais para o desenvolvimento de    uma colonização centralizadora e ordenadora. Portugal, por sua vez, adquirira    a sua unidade territorial ainda no século xiii    sem enfrentar divergências internas com outros reinos. Além disso, já havia    reconquistado o seu território do domínio mouro antes da Espanha e constituía-se    como um reino de cunho comercial.  </p>      <p >A expressão dessas diferenças políticas    dos Estados ibéricos no processo de colonização americana pode ser vista, em    <i>Raízes do Brasil</i>, no próprio traçado das cidades no continente sul    americano. Enquanto as cidades hispano-americanas foram construídas com planeamento,    através da precisão da linha recta e em lugares estratégicos, conforme ao plano    e à legislação castelhana, as cidades na América portuguesa foram sendo implantadas    ao sabor dos fluxos comerciais e populacionais, obedecendo geralmente às curvas    sinuosas dos próprios acidentes geográficos. A observação do traçado e da localização    das cidades na América espanhola e portuguesa permite-lhe identificar outras    diferenças entre estas duas formas de colonização: interior e litoral, rural    e urbano, norma abstracta e realismo.  </p>      <p >Em <i>Visão do Paraíso,</i> uma década após a 2.ª edição de <i>Raízes do Brasil    </i>(1948),  há uma ampliação e revisão do contraponto político sobre o papel    da Espanha e de Portugal nos processos de conquista da América. Provavelmente    devido a novas leituras do autor sobre o capitalismo mediterrâneo e o império    espanhol<sup><a name="top5"></a><a href="#5">5</a></sup>, complementadas com    novas informações sobre a geopolítica da Coroa portuguesa na conquista do território    no continente americano. A singularidade da formação do império espanhol é retomada    no último capítulo deste livro, intitulado &#8220;América portuguesa e Índias de Castela&#8221;.    Os reinos que formavam a Espanha continuavam com legislações e soberanias específicas    e somente o reino de Castela<sup><a name="top6"></a><a href="#6">6</a></sup>    detinha o exclusivismo das terras do &#8220;ultramar&#8221;. O estatuto jurídico de &#8220;Índias    de Castela&#8221; estabelecia que estes territórios estavam submetidos às leis castelhanas    e os habitantes eram súbditos do rei de Castela, da mesma forma que os habitantes    da Península e das outras regiões europeias conquistadas pela &#8220;Espanha&#8221;<sup><a name="top7"></a><a href="#7">7</a></sup>.    Tudo isso no plano da legislação, mas é necessário relativizar a rigidez dos    documentos legais em terras do &#8220;l&#8217;obedezco pero no lo cumplo&#8221;. Na prática política    havia uma prioridade de controlo imperial do &#8220;coração&#8221; da Europa cristã, em    detrimento de um domínio mais efectivo das Índias de Castela.  </b></p>      <p >Esta organização política específica    possibilitou, segundo o autor, uma maior liberdade às iniciativas individuais    nas Índias de Castela e o próprio controlo da Coroa, tão destacado em <i>Raízes    do Brasil,</i> é relativizado. A extensão do império castelhano nas terras americanas    reflecte as contradições entre a rigidez do controlo centralizador de Castela    e as autonomias dos reinos que formam a Espanha e que também aparecem nos territórios    de além-mar.  </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p >Já a colonização portuguesa na América    é um prolongamento nas &#8220;rotas do Atlântico&#8221; das actividades de comércio que    outros povos já executavam desde a antiguidade,    especialmente os &#8220;mestres italianos&#8221; na Idade Média. Em <i>Visão do Paraíso,</i>    Sérgio Buarque destaca a influência dos navegantes italianos    para explicar o carácter mercantil e costeiro da experiência portuguesa na América.    Desta forma, a concessão de capitanias hereditárias e a implementação de um    sistema económico de &#8220;plantações&#8221; de açúcar e algodão não foram invenções portuguesas,    mas influências de experiências coloniais executadas por venezianos e genoveses    nas colónias do mar Negro, Crimeia, Chipre e Creta. Além disso, foram os navegantes genoveses    que guiaram as navegações portuguesas na origem da expansão lusitana. </p>      <p >Entretanto, refere uma diferença fundamental    entre a expansão portuguesa e as experiências italianas: &#8220;a expansão lusitana    é inseparável de uma hipertrofia do poder real&#8221;, enquanto as iniciativas particulares    predominam principalmente no caso genovês. Ao contrário do que defende em <i>Raízes    do Brasil</i>, o historiador destacará aqui o peso do controlo do Estado no    processo de colonização da América portuguesa: &#8220;nas possessões lusitanas, ainda    que pareça afrouxar-se, em dadas ocasiões e em certos lugares, como sucede com    a criação das capitanias hereditárias, a presença ativa da    Coroa, faz-se sentir desde que principie a colonização regular&#8221; (Holanda, 2000,    p. 395).  </p>      <p >Além destas diferenças políticas nos    processos coloniais, é possível também demarcar fronteiras internas nos movimentos    de colonização portuguesa na América. Em <i>Raízes do Brasil,</i> o autor apresenta    dois exemplos regionais no interior da América portuguesa que se diferenciam    do quadro geral: a expansão dos paulistas no planalto de Piratininga nos séculos xvii    e xviii e a extracção e o controlo do    ouro e diamantes em Minas no século xviii. No primeiro caso, a experiência de São Paulo é vista &#8220;como um    momento novo de nossa história nacional&#8221;, pois os &#8220;<i>pioneers</i>    paulistas não tinham suas raízes do outro lado do oceano, podiam dispensar o    estímulo da metrópole e faziam-se frequentemente contra os interesses imediatos    desta&#8221; (Holanda, 1948, p. 142). A acção autónoma dos bandeirantes, rompendo    com o controlo metropolitano, inauguraria um movimento singular da região paulista    na formação da sociedade brasileira.  </p>      <p >No período da escrita da 1.ª edição    do referido ensaio, Sérgio Buarque ainda estava preso a uma    abordagem que identificava as &#8220;raízes&#8221; da nação antes da existência da nacionalidade    e à ideia de que as bandeiras representavam um movimento completamente autónomo    em relação aos interesses da Coroa portuguesa. Perfilhava ainda uma concepção    apologética dos bandeirantes, vistos, nesse momento, como &#8220;figuras monumentaes&#8221;    no movimento de dilatação das fronteiras nacionais (Holanda, 1936, p. 72). Nos    textos historiográficos posteriores, especialmente as obras <i>Caminhos e Fronteiras    </i>(1957)<i> e O Extremo Oeste </i>(1986), tanto a ideia de &#8220;protonação&#8221;    como a &#8220;apologia&#8221; a determinados bandeirantes desfazem-se, mas a importância    da singularidade desta sociedade continua presente na maneira de explicar os    processos  materiais e geopolíticos de americanização    e de modernização dos territórios conquistados em direcção ao extremo Oeste.     </p>      <p >A exploração do &#8220;ouro das Gerais&#8221; no    século xviii, como desdobramento do movimento    dos bandeirantes, ocasiona novos movimentos de populações em direcção ao interior,    ultrapassando a faixa costeira. Em <i>Raízes do Brasil</i>, a especificidade    deste processo está relacionada com o controlo da Coroa sobre estes novos territórios    do ouro. No caso da &#8220;Demarcação diamantina&#8221; construiu-se    um &#8220;Estado dentro do Estado&#8221;, &#8220;com limites rígidos e definidos&#8221; que ninguém    podia ultrapassar sem sofrer as punições do &#8220;Estado repressor e policial&#8221;, que    tudo fiscaliza. A liberalidade da Coroa portuguesa em contraste com o Estado    espanhol, inclusive em relação à presença de estrangeiros, desaparece neste    momento do controlo destas riquezas minerais no interior do território colonial    português.  </p>      <p >Estas experiências regionais de interiorização    do domínio colonial português, das iniciativas privadas e dos controlos estatais    aproximam o <i>semeador</i> do <i>ladrilhador</i> e  diluem-se as fronteiras que marcavam    as diferenças entre a colonização espanhola e a portuguesa nestes territórios    regionais: &#8220;o tempo mudará tal situação, e no século xvii    é um pouco a imagem do império espanhol, das Índias de Castela, que irá empolgar    por sua vez os portugueses&#8221; (Holanda, 2000, p. 403). </p>      <p >A diferença entre estas duas colonizações está relacionada com a acção das    coroas portuguesa e castelhana no continente americano. Entretanto, as metrópoles    não controlam tudo e surgem movimentos relativamente autónomos que produzem    novas fronteiras (frentes de expansão), aumentando os limites territoriais da    colónia portuguesa. A partir de uma visão detalhada sobre a expansão colonial    dos bandeirantes em direcção ao interior, Sérgio Buarque perspectiva novos sentidos    de fronteira nesta sociedade movediça do planalto de Piratininga.  Neste movimento,    o autor ultrapassa qualquer concepção &#8220;genética&#8221; de &#8220;transplante cultural&#8221; entre    a Europa e a América e direcciona a investigação histórica para o contacto cultural    e os fluxos da cultura material do &#8220;Brasil em movimento&#8221;, a dinâmica entre índios    e mamelucos na expansão do interior do país. </p>     <p >&nbsp;</p>        <p >FRONTEIRAS EM MOVIMENTO</p>      <p > A aventura colonial produz novas fronteiras materiais e simbólicas. A aventura,    para Simmel, significa uma ruptura com a rotina da existência, uma aproximação    ao sonho, à arte e ao jogo. Ela contém a vantagem de superar limites, ultrapassar    obstáculos e deslocar horizontes. Mantém uma relação inorgânica com o mundo,    simboliza o &#8220;gesto do conquistador e o aproveitamento da oportunidade&#8221; (Simmel,    2004, p. 185). Para Sérgio Buarque, o aventureiro (português, espanhol e até    inglês) foi o tipo predominante na conquista e exploração europeia do novo continente.    O colonizador português não impôs &#8220;normas fixas e indeléveis&#8221; e caracterizou-se    pela &#8220;mobilidade e plasticidade social&#8221;<sup><a name="top8"></a><a href="#8">8</a></sup>    na adaptação às técnicas e alimentos locais, permitindo novas zonas de contactos    e assimilação de valores materiais e simbólicos de outros povos (Holanda, 1948,    p. 52). </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p >Em <i>Raízes do Brasil,</i> a maleabilidade    e a plasticidade dos portugueses possibilitaram a adopção de técnicas de cultivo    dos indígenas e de formas e conteúdos sentimentais e culturais dos negros, tais    como a expressão artística dos Setecentos e o Rococó, o &#8220;gosto pelo exótico&#8221;,    a &#8220;sensualidade brejeira&#8221;, os &#8220;caprichos sentimentais&#8221;, entre outros aspectos.    &#8220;Americanizava-se ou africanizava-se conforme fosse preciso&#8221; (Holanda, 1948,    p. 75). Neste ensaio inaugural, a descrição de algumas das zonas de contacto    entre culturas diferentes ainda estava centrada na perspectiva da plasticidade    do português no &#8220;Novo Mundo&#8221;. Entretanto, a visualização destas zonas de contacto    cultural e de absorção das experiências sentimentais e alimentares dos outros    povos talvez possa ser vista como um primeiro sinal para a necessidade de relativizar    o peso da matriz ibérica e, portanto, como um movimento interpretativo em direcção    a outras abordagens sociológicas e históricas que enfatizassem a dinâmica do    processo de americanização de técnicas, valores e crenças.   </p>      <p >Nos trabalhos historiográficos sobre    a expansão paulista para o Oeste, Sérgio Buarque retoma o    tema do contacto entre a cultura adventícia e a dos povos indígenas, esboçado    em <i>Raízes do Brasil, </i>destacando então a contribuição da experiência e    do conhecimento indígena assimilados pelos sertanistas na    conquista dos sertões brasileiros. O autor compara a forma sedentária e estável    da colonização do litoral, especialmente das regiões de plantio da cana-de-açúcar,    com o movimento e instabilidade dos caminhos, das veredas tortuosas dos bandeirantes.    </p>      <p >O historiador manifesta-se contrário à mitologia do bandeirante que vinha    sendo construída pela historiografia paulista e brasileira<a name="top9"></a><sup><a href="#9">9</a></sup>,    despindo-o das suas roupas e botas elegantes e mostrando-o a percorrer os &#8220;rudes    caminhos&#8221; e as veredas de &#8220;pés descalços&#8221;. Neste movimento    de desconstrução mitológica, o autor faz uma leitura singular dos saberes, formas    de orientação e de construção dos caminhos pelos indígenas e da maneira como    estes conhecimentos  dos &#8220;povos naturais da terra&#8221; foram apreendidos    e incorporados pelos sertanistas como forma de sobrevivência e de conquista    dos novos territórios. </p>      <p >Além disso, a expansão dos bandeirantes    deixa de ser interpretada somente a partir do ângulo da espontaneidade e autonomia    dos paulistas, em oposição aos projectos da Coroa portuguesa, e passa a ser    compreendida, particularmente <i>O Extremo Oeste, </i>a partir da combinação    dos interesses geopolíticos da Coroa portuguesa de ocupar o território do Oeste    em disputas com a Coroa de Castela e os interesses individuais e colectivos    dos mamelucos paulistas que impulsionam a passagem     de todos os limites em busca das fronteiras e das riquezas de Cuiabá (Vangelista, 2005).  </p>      <p >A fronteira em movimento dos bandeirantes    permite apreender diferentes tempos e espaços no estudo da singularidade da    expansão paulista. É importante destacar inicialmente o próprio tempo histórico    de produção dos trabalhos de Sérgio Buarque sobre a expansão    paulista (<i>Monções,</i> 1945; <i>Caminhos e Fronteiras,</i> 1957 &#8212; colectânea    de artigos publicados em anos anteriores; <i>O</i> <i>Extremo Oeste,</i> 1986    &#8212; texto inacabado publicado após a morte do autor. Trata-se do cenário da discussão    da &#8220;Campanha da marcha rumo Oeste&#8221; no período de Getúlio Vargas (1930-1945) e das estratégias geopolíticas de ocupação    dos &#8220;espaços vazios&#8221; do território nacional, especialmente os debates em torno    da construção de Brasília e de ocupação geopolítica da região Centro-Oeste do Brasil. Para Vangelista (2005),    a problemática da conquista e colonização do território nacional no contexto    da produção historiográfica ilumina, provavelmente, a importância que adquirem    as questões sobre a ocupação do território no período colonial na obra deste    historiador.  </p>      <p >A relação entre presente e passado está    sempre vincada na maneira como o historiador investiga esta fronteira em movimento.    Provavelmente, a própria influência modernista sobre a sua obra terá favorecido    a busca de processos de modernização e lugares de tradição e permanência, o    que se reflecte na singularidade das suas concepções sobre esta ocupação territorial    na longa duração.  </p>      <p >Neste sentido, as fronteiras em expansão, tal como são encaradas por Sérgio    Buarque, não se restringem à experiência colonial e ao movimento das bandeiras    paulistas. O autor está interessado em compreender processos de modernização    capitalista e o hibridismo da cultura material noutros ciclos de ocupação do    território. Sérgio Buarque centra-se nas mudanças que ocorreram ao longo dos    séculos nos caminhos dos bandeirantes, monçoeiros, tropeiros e fazendeiros nos    séculos xvii, xviii e xix e interpreta estas transformações económicas e sociais    a partir de diferentes ângulos<sup><a name="top10"></a><a href="#10">10</a></sup>.    Mas, ao mesmo tempo, o historiador recorda muitos vestígios, marcas e heranças    dos séculos anteriores na cultura dos camponeses, caboclos e caipiras do tempo    presente. Há um tempo que se conserva lentamente no mundo rural em contraste    com o mundo urbano que apaga as poeiras dos caminhos do passado. &#8220;Essa destreza    com que sabiam conduzir-se os naturais da terra, mesmo em sítios ínvios, herdaram-na    os velhos sertanistas e guardaram-na até hoje nossos roceiros&#8221;  (Holanda, 1994,    p. 20).</p>      <p >No sentido de perceber a especificidade    da ocupação do território paulista, Sérgio Buarque formula    diversas comparações com outros espaços de ocupação colonial. O movimento de    interpretação do autor ora destaca a singularidade paulista a partir de usos    e técnicas indígenas, em oposição ao &#8220;Nordeste&#8221; da colónia portuguesa e às &#8220;Índias    de Castela&#8221;, de que são exemplos a utilização em grande quantidade do couro    de anta, enquanto na América espanhola e no &#8220;Nordeste&#8221; da colónia portuguesa    este couro era desperdiçado, ou a &#8220;civilização do milho&#8221; no planalto paulista,    em contraste com o consumo da farinha de mandioca no &#8220;Nordeste&#8221; e no litoral    desta colónia.  Noutros casos, as semelhanças desta fronteira paulista    expandem-se para outros territórios do continente. &#8220;Cera e mel foram sempre    na América portuguesa, como na espanhola, produtos típicos de povoações nascentes    ou situadas nas fronteiras de um mundo agreste&#8221; (Holanda, 1994, p. 44).  </p>      <p >A singularidade da sociedade em movimento    do planalto paulista aparece em vários momentos como oposição ao &#8220;Nordeste&#8221;    da cana-de-açúcar. Para Vangelista (2005), trata-se de uma    crítica à interpretação de Gilberto Freyre (1996 [1933])    em <i>Casa Grande &amp; Senzala, </i>que constrói uma imagem do Brasil a partir     do mundo da cana-de-açúcar, situado no que viria a ser a região nordeste do    país. Entretanto, Gilberto Freyre, em <i>Interpretação do    Brasil</i> (2001 [1947]), já apresenta, no capítulo &#8220;Fronteiras e plantações&#8221;,    este contraste entre a sociedade fixa e hierarquizada do litoral brasileiro    e a sociedade móvel e horizontal dos territórios ocupados pelos bandeirantes.    </p>      <p >O que aparece de distintivo na interpretação    de Sérgio Buarque parece ser a comparação a partir do uso    diferenciado de técnicas e produtos de origem indígenas nestes territórios e    a compreensão do lugar geopolítico de São Paulo na relação com Cuiabá    e com Assunção, lugar geoestratégico do domínio espanhol na região platina,    especialmente no livro <i>O</i> <i>Extremo Oeste </i>(Vangelista,    2005). Se Gilberto Freyre constrói uma imagem do Brasil a partir de um determinado horizonte    de vivência e de compreensão do país, Sérgio Buarque também imagina um &#8220;Brasil em movimento&#8221; em busca dos caminhos    particulares da expansão paulista.  </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p >O que leva o autor a conceptualizar    tantas fronteiras para explicar os contactos culturais entre povos adventícios    e indígenas num cenário geográfico específico e em contextos históricos distintos?    Que influências historiográficas e antropológicas traduz o autor na sua maneira    singular de observar a expansão paulista?  </p>      <p >De acordo com Wegner    (2000), as viagens aos Estados Unidos na década de 40 do século xx e os contactos com historiadores norte-americanos    e com a teoria da fronteira de Frederik Turner    foram importantes para a construção de uma interpretação específica da expansão    dos paulistas a partir da fronteira em movimento. Embora a conferência de Turner    <i>The</i><i> Significance of the Frontier in     American History (1893)</i> esteja impregnada de uma visão evolucionista,    classificando os pioneiros como civilizados e os indígenas como selvagens, Wegner    realça o núcleo explicativo desta teoria e compara-a com a interpretação que    Sérgio Buarque faz da conquista do Oeste brasileiro. Claro    que há diferenças temporais, espaciais e técnicas entre a experiência norte-americana    de expansão da fronteira no século xix    e o movimento expansionista dos paulistas desde o século xvii, já enfatizadas pelo próprio Sérgio Buarque.    O que Wegner propõe é uma aproximação entre os momentos principais    da experiência da fronteira em Turner e Sérgio Buarque    de Holanda.    </p>      <p >Segundo esta perspectiva, a própria    organização dos capítulos do livro <i>Caminhos e Fronteiras</i> obedece a este    movimento da fronteira (entre populações, hábitos, instituições, técnicas e    idiomas heterogéneos), o qual, num primeiro momento, se caracteriza pela adopção    por parte dos colonizadores dos métodos de observação e das técnicas de sobrevivência    dos &#8220;naturais da terra&#8221;. Os bandeirantes rastrearam os caminhos dos indígenas,    utilizaram muitas das suas técnicas de caça e pesca, formas de alimentação,    maneiras de encontrar água nas plantas e extrair o mel das abelhas. Em seguida,    o movimento de recuperação de técnicas europeias no contexto das monções e das    tropas. Por fim, o processo de simbiose entre produtos, técnicas e conhecimentos    dos indígenas e dos colonizadores na agricultura, na fabricação de tecidos e    noutras técnicas quotidianas.  </p>      <p >Embora Wegner enfatize    essa aproximação lógica entre a tese da fronteira de Turner e os trabalhos de Sérgio Buarque sobre    a expansão do Oeste paulista, considero que o olhar de Sérgio Buarque sobre essas fronteiras em movimento se distancia da perspectiva    de Turner. Em mais de um momento, em <i>Caminhos e Fronteiras,</i>    o autor critica a tese de Turner e considera extremamente    complicado a aplicação desta teoria para explicar outros contextos históricos    situados em sociedades específicas. Há uma formulação histórica singular e de    múltiplos olhares sobre a fronteira nestes trabalhos de Sérgio Buarque    de Holanda. Podemos afirmar que Turner observa a fronteira através dos valores do individualismo    e da democracia dos pioneiros, não consegue ver outros seres humanos do outro    lado dos limites da &#8220;civilização&#8221; (observa somente selvageria, deserto, <i>wilderness</i>). Sérgio     Buarque, por sua vez, aproxima-se de uma perspectiva antropológica que reconhece    a humanidade e conhecimento legítimo do &#8220;outro&#8221;. Percebe a importância destes    saberes práticos de orientação, bebidas, comidas e vestimentas dos indígenas    aprendidos pelos mamelucos e portugueses no processo de domínio    dos sertões paulistas e de outras regiões em direcção ao Oeste. Para Françozo    (2007)<i>,</i> os indígenas não são obscurecidos na &#8220;selva&#8221; e no &#8220;deserto/sertão&#8221;    e nem são vistos somente como escravos capturados pelos bandeirantes. Os índios    são agentes do conhecimento, dominam o terreno e ensinam aos recém-chegados    novos caminhos e fronteiras da conquista do interior do Brasil.  </p>      <p >Entretanto, os indígenas não são os agentes históricos principais destes trabalhos    sobre a expansão paulista. A fronteira é pensada, neste momento, como frente    de expansão da sociedade colonial e nacional, zona de contactos entre os colonizadores    e os indígenas. Embora exista, por parte de Sérgio Buarque, todo um esforço    intelectual de produzir um duplo olhar sobre a fronteira (conhecimentos indígenas    e adaptação dos bandeirantes, monçoeiros, tropeiros), ainda está presente uma    abordagem analítica mais direccionada para os que estão em posições dominantes    nestas frentes de expansão. Os contactos culturais entre indígenas e bandeirantes    e as maneiras como os bandeirantes incorporaram os saberes indígenas são mais    enfatizados nesta análise do que os conflitos, os extermínios e as subordinações    que poderiam ser observados a partir das perspectivas das sociedades indígenas.  </p>     <p >&nbsp;</p>        <p >NOVAS FRONTEIRAS</p>      <p > As três concepções de fronteiras (zona de transição ibérica, diferenças políticas    e históricas entre colonização espanhola e portuguesa e frentes de expansão    na América) remetem principalmente para o contexto colonial. Estas abordagens    estão centradas no lugar específico da Península Ibérica e do movimento de exploração    dos povos ibéricos no continente americano. A quarta noção de fronteira, que    tento sistematizar, está focada na discussão política sobre a transição brasileira.    A fronteira pode ser aqui entendida como passagem entre a &#8220;tradição ibérica    e colonial&#8221;, que singulariza a sociedade brasileira e uma sociedade moderna    que a ocidentaliza.  </p>      <p >A preocupação de Sérgio Buarque com os dilemas do presente na sociedade brasileira inspira    a sua interpretação sobre o passado ibérico e colonial. Nas passagens anteriores    sobre os outros sentidos de fronteira há uma tensão permanente entre tradição    e modernidade. O personalismo ibérico é compreendido na intersecção entre a    negação das hierarquias feudais e o individualismo moderno. O realismo português,    em contraste com a fantasia dos espanhóis, é aparentemente moderno, mas remete    para o concreto e para o pormenor das crónicas medievais. As monções são entendidas    como percursos fluviais de transição e racionalização comercial dos caminhos    a pé dos sertanistas e dos passos ligeiros dos cavalos dos     tropeiros em direcção a um mundo que produz outros trajectos. Estradas que apagam    rastos de outros tempos e que também se extinguem na competição dos trens que    trilham em direcção às actividades comerciais e urbanas.   </p>      <p >Influências modernistas<sup><a name="top11"></a><a href="#11">11</a></sup>    e inquietações democráticas produziram no seu modo de pensar um cuidado permanente    em observar as formas de conservação das forças políticas e culturais, em tensão    com as forças sociais nascentes que poderiam produzir mudanças políticas importantes.    O livro <i>Raízes do Brasil,</i> especialmente o último capítulo<i>,</i> gira    em torno desta tensão entre o tradicional e o moderno e entre as &#8220;saídas&#8221; democráticas    e autoritárias. O historiador percebe os caminhos das mudanças que se estão    a processar e, num sentido normativo, deseja alterações mais substanciais e    modernizadoras para a sociedade brasileira e para os outros países da América    Latina. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p >O autor analisa a abolição da escravatura    (1888) como um marco importante na alteração das relações económicas e sociais.    As mudanças não são somente de ordem política, restritas à transição do império    para a república (1889). Mas dizem respeito, principalmente, às modificações    advindas do declínio das aristocracias do açúcar e da ascensão da produção do    café na região do Rio de Janeiro e no Vale do Paraíba, em São Paulo, bem como    do fim do trabalho escravo e da expansão do trabalho livre. As plantações de    café, embora fossem similares ao modelo das grandes propriedades do &#8220;ciclo da    cana&#8221;, modificam a relação entre a cidade e o campo. Os proprietários geralmente    deixam de viver  no campo, e a cidade passa a constituir o pólo predominante    de poder e de estilo de vida. Em 1840, o Oeste da província de São Paulo configurava-se    como lugar singular de modernização nestas relações rurais e urbanas.  </p>      <p >Além deste processo de urbanização,    as relações de trabalho alteram-se substancialmente com o fim do tráfico negreiro,    a abolição da escravidão e a ampliação do trabalho livre. Todas essas mudanças    económicas e sociais convivem com formas políticas tradicionais, herança ainda    viva do personalismo, do patriarcado e do caciquismo e caudilhismo das sociedades latino-americanas.  </p>      <p >Para alguns intérpretes, um dos principais    temas de <i>Raízes do Brasil</i> é a discussão sobre os obstáculos à efectivação    da democracia (Candido, 1995 [1967] e 1998; Rezende,    1996; Sanches, 2001). A problemática põe em destaque o contraste entre uma aristocracia    (rural e do espírito) que simboliza os valores do passado que necessitam de    ser &#8220;exorcizados&#8221; (personalismo, patriarcado, cordialidade) e uma democracia    liberal importada e mal enraizada nesta parte do território americano. As mudanças    democráticas geralmente são vistas pelas elites brasileiras como simples alterações    dos detentores do poder ou como uma crença de que as &#8220;revoluções&#8221; podem ser    implementadas por decreto, sem alterações substanciais na base económica e na    base social de composição das classes e dos valores sociais.   </p>      <p >Os limites que separam e distanciam    a vida social da organização política de tipo liberal democrática são centrais    na discussão sobre a transição entre o iberismo e o americanismo nas sociedades    latino-americanas. Embora haja todo um movimento de &#8220;aniquilamento&#8221; da herança    ibérica no contexto das mudanças económicas e sociais que vinham ocorrendo na    sociedade brasileira desde meados do século xix,    não se tinha ainda  configurado    nitidamente, nos anos 30, um novo estilo de organização social capaz de superar    determinadas raízes personalistas e aristocráticas. &#8220;O americano ainda é interiormente    inexistente&#8221; e as expressões democráticas da vida americana não se constituíram    como o &#8220;mundo de formas vivas&#8221; em oposição ao &#8220;mundo das fórmulas e dos conceitos&#8221;    (Holanda, 1936, pp. 137 e 146).  </p>      <p >As sociedades latino-americanas, com    exceção do Uruguai no período do governo de José Batlle y Ordóñez (1903-1907 e 1911-1915), não    enraizaram as experiências democráticas e vêem de maneira positiva os governos    personalistas e aristocráticos. O personalismo &#8220;conseguiu abolir as resistências    da demagogia liberal, acordando os instintos e os sentimentos mais vivos do    povo&#8221; e tem produzido &#8220;uma estabilidade política que de outro modo não teria    sido possível&#8221; (Holanda, 1936, p. 152).  </p>      <p >Sérgio Buarque de Holanda, especialmente no período da escrita da 1.ª edição    de <i>Raízes do Brasil,</i> em 1936, vivia os dilemas e impasses das formas    autoritárias e democráticas da vida política europeia, latino-americana, e particularmente    do Brasil. Uma leitura cuidadosa do último capítulo deste ensaio não aponta    somente para uma linha de raciocínio: crítica do personalismo e desejo de implementação    de uma ordem efectivamente democrática no Brasil, como ficou consagrada na interpretação    de Antonio Candido (Candido, 1995 [1967])<sup><a name="top12"></a><a href="#12">12</a></sup>.    O que observamos é que o autor se posiciona do lado dos argumentos da democracia    liberal para criticar as formas políticas oligárquicas e personalistas, mas    que também olha o mundo do outro lado da fronteira liberal &#8212; a partir de um    certo vitalismo das raízes positivas do personalismo &#8212; e critica as &#8220;leis mortas&#8221;,    a democracia como conjunto de fórmulas e de conceitos vazios. </p>      <p >A tensão entre a herança, a conservação    e o aniquilamento lento das formas políticas de matriz ibérica e colonial chama    a atenção para um novo movimento em direcção à modernização económica, social    e política, a ocorrer também noutros países da América Latina (Holanda, 1948).    Sérgio Buarque faz referência às alterações na estratificação    social da sociedade mexicana desde os movimentos revolucionários de 1917, as    reformas de 1925 no Chile, que obtiveram como resultado &#8220;o aniquilamento do    poderio exclusivo dos <i>hacondados</i><i> </i>e da oligarquia    administrativa&#8221;, e o &#8220;significado das vitórias eleitorais ultimamente alcançadas    [década de 40] no Brasil e na Argentina pelas massas dos trabalhadores, embora    a sua articulação tenha sido aproveitada e em grande parte alimentada<i> </i>por    forças retrógradas&#8221; (Holanda, 1948, p. 272)<i>. </i>A fronteira enquanto transição    entre o iberismo e o americanismo não é específica da sociedade brasileira.    Os processos de modernização aproximam esses países, &#8220;herdeiros&#8221; de determinados    valores políticos e culturais dos países ibéricos e dos domínios coloniais.    No México, Chile, Argentina e Brasil, a transição democrática acontece lentamente,    mediante composições entre conservadores e radicais e em direcção a uma experiência    americana centrada em valores igualitários, racionais e de efectiva participação    política de outras classes sociais.  </p>      <p >As mudanças descritas até aqui e os    desejos políticos de consolidação de uma experiência democrática na sociedade    brasileira, explícitos a partir da 2.ª edição de <i>Raízes do Brasil</i> passam    a impressão de que somente mediante o &#8220;aniquilamento&#8221;, um &#8220;cataclismo&#8221; ou a    &#8220;revogação da velha ordem colonial e patriarcal&#8221; se poderia construir o americanismo    no Brasil. Entretanto, Sérgio Buarque pondera e afirma que    essas raízes tradicionais e longínquas não são totalmente negativas, que há    espaços possíveis de confluência que caracterizariam a particularidade brasileira    no continente americano. Na construção dessa nova sociedade não há uma barreira    intransponível entre determinados valores ibéricos, aqueles originários do continente    americano e os ideais liberais e democráticos ocidentais. O historiador enfatiza    então a repulsa do brasileiro &#8220;por toda hierarquia racional&#8221;, a crença na &#8220;autonomia    do indivíduo&#8221;, a falta de resistências às influências novas advinda do mundo    urbano e a &#8220;relativa inconsistência dos preconceitos de raça e de cor&#8221; (Holanda,    1948, pp. 277-278). </p>      <p >Sérgio Buarque associa    ainda a confluência de valores culturais brasileiros com a concepção de &#8220;bondade    natural&#8221; disseminada no contexto da Revolução Francesa (1789), visando aproximar    a singularidade da cordialidade brasileira com &#8220;as construções dogmáticas da    democracia liberal&#8221;. Esta aproximação abriu margem para interpretações parciais    e polémicas sobre o significado do &#8220;homem cordial&#8221;, especialmente com o escritor    Cassiano Ricardo. Este autor associava a cordialidade à bondade como característica    permanente do homem brasileiro. Sérgio Buarque discordou    diversas vezes desta vinculação entre cordialidade e bondade, bem como do seu    carácter essencialista.  Em carta-resposta a Cassiano Ricardo,    Holanda afirma que &#8220;a própria cordialidade não me parece virtude definitiva    e cabal que tenha que prevalecer independente das circunstâncias mutáveis de    nossa existência [...] Associo-a antes a condições particulares de nossa vida    rural e colonial, que vamos rapidamente superando&#8221; (Holanda, 1956, pp. 313-314).    </p>      <p >Como fio condutor desta transição, podemos    dizer que a fronteira americana é pensada, por um lado, como zona de tensão    entre o &#8220;Brasil rural&#8221; e o &#8220;Brasil urbano&#8221;, entre as experiências políticas    autoritárias e democráticas, entre as &#8220;forças vivas&#8221; e as &#8220;leis mortas&#8221;, entre    a ordem e a desordem da vida política brasileira no contexto republicano.  Por outro lado, como    uma &#8220;zona de confluência e de simpatia&#8221; entre o iberismo, os processos de adaptação    e americanização do período colonial e o &#8220;nosso americanismo&#8221;. Neste duplo sentido,    está presente o sentido de impasse, tensão, obstáculo, que terá de ser superado    para que haja a efectivação de uma nova sociedade brasileira. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p > Em suma, as fronteiras na obra de Sérgio Buarque de Holanda podem ser compreendidas    mediante os vários movimentos analíticos construídos ao longo do texto. Não    são noções rígidas, pensadas mediante tipologias que pretendem cristalizar o    pensamento do autor. Trata-se de uma maneira flexível de pensar alguns dos seus    trabalhos e de criticar as dicotomias produzidas no debate sobre o iberismo    e o americanismo. Este debate tende a unificar em dois grandes grupos de países    o continente americano: um mundo de tradição latina, ibérica e católica e outro    de herança anglo-saxónica, protestante e moderna<sup><a name="top13"></a><a href="#13">13</a></sup>.    Sérgio Buarque, ainda que no início da sua carreira literária reproduza os argumentos    de Enrique Rodó (1991 [1900])<sup><a name="top14"></a><a href="#14">14</a></sup>    sobre a espiritualidade da América Latina e o utilitarismo dos Estados Unidos,    questiona, em trabalhos posteriores, a homogeneidade destes grandes blocos e    apresenta, em vários níveis de interpretação, a diversidade das experiências    regionais e nacionais no continente americano. </p>      <p >Para o autor, durante a conferência    em Genebra em 1954, todas essas realidades são heterogéneas, e tanto os Estados    Unidos têm muitas diferenças regionais como os países da América Latina apresentam    as mais variadas formas de composição étnica, linguística, de processos migratórios    e diferentes experiências de desenvolvimento técnico. Sérgio Buarque    apresenta então o exemplo específico da cidade de São Paulo, como contraposição    a qualquer imagem homogénea e cristalizada das sociedades latino-americanas:    &#8220;uma cidade como São Paulo, com seu ritmo de crescimento sem equivalente nos    últimos anos [...] dificilmente está em consonância com a imagem de imobilidade    que se faz das sociedades latino-americanas&#8221; (Holanda, 1954, p. 3).  </p>      <p >Portanto, as fronteiras ibero-americanas compreendem inicialmente as matrizes    culturais transoceânicas que foram deslocadas para o continente americano. Estas    &#8220;raízes&#8221; já eram híbridas de povos, culturas, classes sociais e de tensão entre    o tradicional e o moderno. Ainda que houvesse muitas semelhanças nos valores    culturais e políticos dos portugueses e espanhóis, existiam também diferenças    políticas e económicas importantes que demarcaram fronteiras (barreiras) entre    a colonização castelhana e portuguesa.  Entretanto, as matrizes ibéricas abrem-se    para outras influências externas no contexto europeu e na colonização americana    e possibilitam a construção de pontes em direcção ao americanismo da experiência    brasileira. O movimento de distanciamento das fronteiras ibéricas e de aproximação    das fronteiras americanas pode ser pensado a partir de uma dupla noção de americanismo:    o processo de americanização no contexto colonial mediante a adaptação do português    aos elementos materiais e simbólicos da cultura indígena; e o movimento paradoxal    de aproximação e distanciamento aos valores de igualdade social da democracia    americana, conforme formulação de Aléxis de Tocqueville (Wegner, 2000). </p>     <p >&nbsp;</p>        <p >CONSIDERA&Ccedil;&Otilde;ES FINAIS: UM ESTILO FRONTEIRI&Ccedil;O</p>      <p > As noções de fronteira aqui destacadas não visam esgotar os vários significados    do termo nos diferentes momentos da obra deste autor. Outros sentidos podem    ser sistematizados no aprofundamento das investigações. Além disso, os sentidos    seleccionados não são tipologias rígidas e separadas, mas metáforas que possibilitam    vários significados interpretativos. Há elos de contacto. Os &#8220;territórios-ponte&#8221;    aproximam-se das &#8220;zonas de confluência&#8221; e das &#8220;frentes de expansão&#8221; e podem    contribuir para  a construção de uma abordagem específica sobre os processos    de colonização e modernização do continente americano.  </p>      <p >A perspectiva aberta pela abordagem    das fronteiras permite reflectir também sobre o próprio estilo de escrita do    autor, pois &#8220;a linguagem e as palavras eram as pontes entre a sua consciência    e a dos testemunhos da época&#8221; (Dias, 1988, p. 73). O último capítulo de <i>Caminhos    e Fronteiras</i>, intitulado &#8220;Redes e rendeiras&#8221;, pode ser pensado como um fio    de inspiração do seu estilo de escrever e de criar metáforas que simbolizam    os eventos e as representações históricas. As palavras usadas durante a urdidura    do capítulo apreendem o movimento das rendeiras e das redes feitas nos teares    portugueses e indígenas, na produção de panos compactos e largos e nos movimentos    verticais e horizontais destes teares. Durante a sua narração, as palavras buscam    os significados destes movimentos das rendeiras e das mudanças ocorridas nos    seus mundos: &#8220;a abrideira&#8221;, &#8220;o lançamento de cada um dos    fios da trama&#8221;, &#8220;a trama e urdidura&#8221;, &#8220;as varandas laterais e as     franjas correspondentes&#8221;, &#8220;desenhos ou combinações&#8221; e &#8220;efeito final&#8221;.  </p>      <p >A acção das rendeiras e os usos das    redes podem ser pensados como uma metáfora dos processos mais amplos e fluidos    da vida social. Os &#8220;fios da trama&#8221; do texto de Sérgio Buarque    aproximam-se das imagens das formas e conteúdos da socialização, tal como é    encarada por Simmel, em que &#8220;a cada instante se tecem fios    deste género, se desatam e voltam a atar, se substituem por outros, se entrelaçam    com outros&#8221; (Simmel, 1986 [1908],  p. 30).   </p>      <p >A própria obra de Sérgio Buarque pode ser pensada como um campo de experiência fronteiriça    na construção do conhecimento sobre a sociedade brasileira, a singularidade    paulista, a sociedade latino-americana ou sobre o mundo americano. Os livros    <i>Raízes do Brasil, Caminhos e Fronteiras </i>e<i> Visão do Paraíso</i> foram    tecidos em diferentes momentos através de linhas que contrastam e outras que    aproximam, fios entrelaçados que produzem semelhanças e diferenças, raízes e    mudanças, limites e travessias na compreensão dos valores políticos, culturais    e simbólicos da singularidade brasileira e paulista. Mas também os processos    de fusão da cultura material e as transposições, adaptações e difusão das mentalidades    neste amplo cenário de encontro, desencontro, choques e de &#8220;fusão de horizontes&#8221;    que a experiência do continente americano permitiu a diferentes agentes históricos.    </p>      <p >As raízes, fronteiras e visões do mundo    americano tecem-se com estes fios e teias em que se entrelaçam a crítica literária,    o ensaio sociológico e as pesquisas historiográficas centradas na cultura material    e no campo das mentalidades. Não há separações entre as discussões metodológicas,    epistemológicas e as narrativas históricas. Nos rastos, nas pegadas e indícios    observados atentamente pelos indígenas nos caminhos em direcção ao interior,    o autor discute uma nova maneira de entender a metodologia antropológica e histórica.    Para Souza, &#8220;muito antes das considerações de Carlo    Ginzburg sobre o conhecimento indiciário, Sérgio Buarque de Holanda aborda este problema em &#8216;Veredas de pé posto&#8217;    e em &#8216;Samaritanas do sertão&#8217;, detendo-se sobre a dimensão cultural dos sentidos    e da percepção&#8221; (Souza, 1995, p. 10). E através da experiência    e fantasia dos cronistas e navegantes no contexto dos descobrimentos Sérgio Buarque distancia-se de uma visão de ciência moderna como ruptura    com os saberes anteriores e aproxima a racionalidade e a magia dos renascentistas    e dos fundadores do racionalismo e do empirismo modernos.  </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p >As fronteiras enquanto limites entre as áreas do conhecimento (literatura,    sociologia, antropologia, geografia, história, etc.) são questionadas e abrem-se    para novas fronteiras que se tecem como travessias, mesclas, entrelaçamentos    e combinações possíveis.</p>     <p >&nbsp;</p>        <p ><b>BIBLIOGRAFIA</b></p>     <p >Abud, K. (1985), <i>Sangue Intimorato e as Nobilíssimas Tradições. A construção    de um símbolo paulista: o bandeirante.</i> Tese de doutoramento, São Paulo,    Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, USP. </p>      <p >Bosi, A. (1992),     <i>Dialética</i><i> da Colonização,</i> São Paulo, Companhia das Letras.  </p>      <p >Braudel, F. (1983    [1949]), <i>O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrâneo na Época de Felipe II,</i>    São Paulo, Martins Fontes.  </p>      <p >Candido, A. (1995    [1967]), &#8220;O significado de <i>Raízes do Brasil</i>&#8221;. <i>In</i>    S. B. de Holanda, <i>Raízes do Brasil,</i> São Paulo, Companhia das Letras,    pp. 9-21.   </p>      <p >Candido, A. (1998), &#8220;A visão política de Sérgio Buarque de Holanda&#8221;. <i>In</i>    A. Candido (org.), <i>Sérgio Buarque de Holanda e o Brasil,</i> São Paulo, Fundação    Perseu Abramo, pp. 81-88. </p>      <p >Dias, M. O. L. S. (1988), &#8220;Estilo e método    na obra de Sérgio Buarque de Holanda&#8221;. <i>In</i> M. O. L. S. Dias, <i>Sérgio Buarque    de Holanda, Vida e Obra,</i> São Paulo, Edusp, pp. 73-82.    </p>      <p >Ferreira, A. C. (2002),  <i>A</i><i> Epopéia Bandeirante</i>:    <i>Letrados, Instituições e Invenção Histórica (1870-1940),</i> São Paulo, UNESP.    <b></b></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p >Finazzi-Agrò, E. (2008),    &#8220;Caminhando entre fronteiras: a lógica &#8216;trivial&#8217; em Sérgio Buarque de Holanda&#8221;.<i> In</i> P. M. Monteiro    e J. K. Eugenio (orgs.),  <i>Sérgio</i><i> Buarque de Holanda: Perspectivas,</i> Campinas, SP, Unicamp, e Rio de Janeiro, UERJ, pp. 413-424.  </p>      <!-- ref --><p >Françozo, M. (2007),    &#8220;Os outros alemães de Sérgio: etnografia e povos indígenas em <i>Caminhos e    Fronteiras</i>&#8221;. <i>Revista Brasileira de Ciências Sociais,</i> 22, n.º 66,    pp. 137-152.  &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000104&pid=S0003-2573201000020000500001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p >Freyre, G. (1996    [1933]), <i>Casa Grande &amp; Senzala</i>: <i>Formação da Família Brasileira    sob o Regime de Economia Patriarcal,</i> 31.ª ed., Rio de Janeiro, Record.  </p>      <p >Freyre, G. (2001    [1947]), <i>Interpretação do Brasil</i>, São Paulo, Companhia das Letras.  </p>      <!-- ref --><p >Galvão, W. N. (2001), &#8220;A presença da literatura    na obra de Sérgio Buarque de Holanda&#8221;. <i>Estudos Avançados,</i>    15, n.º 42, pp. 471-483.  &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000107&pid=S0003-2573201000020000500002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p >Holanda, S. B. de (1936), <i>Raízes do Brasil,</i> Rio de Janeiro, José Olympio.  </p>      <p >Holanda, S. B. de (1948),<i> Raízes do Brasil, </i>2.ª ed., Rio de Janeiro, José Olympio.    </p>      <p >Holanda, S. B. de (1954), <i>Le</i><i> Brésil dans la vie     americaine</i>. Conferência proferida na IXèmes Rencontres     Internationales de Génève.  </p>      <p >Holanda, S. B. de  (1956), <i>Raízes    do Brasil, </i>3.ª ed., Rio de Janeiro, José Olympio.  </p>      <p >Holanda, S. B. de (1958),<i> Elementos Formadores da Sociedade Portuguesa na época    dos Descobrimentos</i>. Dissertação de mestrado em Ciências Sociais, São Paulo,    Escola de Sociologia e Política.  </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p >Holanda, S. B. de (1986), <i>O Extremo Oeste, </i>São Paulo, Brasiliense, co-edição com a Secretaria de Estado da Cultura.  </p>      <p >Holanda, S. B. de (1994 [1957]), <i>Caminhos e Fronteiras, </i>São Paulo, Companhia    das Letras.  </p>      <p >Holanda, S. B. de (1996 [1920]), <i>O Espírito e a Letra, </i>São Paulo, Companhia    das Letras.  </p>      <p >Holanda, S. B. de (2000 [1959]), <i>Visão do Paraíso, </i>São Paulo, Brasiliense.  </p>      <p >Holanda, S. B. de (2002 [1954] ), <i>A Contribuição Italiana para    a Formação do Brasil,</i> Florianópolis, NUT/NEIITA/UFSC.  </p>      <p >Holanda, S. B. de (2008 [1935]), &#8220;Corpo e alma do Brasil: ensaio de psicologia social&#8221;.     <i>In</i> P. M. Monteiro e J. K. Eugenio (orgs.), <i>Sérgio Buarque de Holanda: Perspectivas,</i> Campinas, SP, Unicamp, e Rio de Janeiro, UERJ, pp. 583-600.  </p>      <p >Monteiro, P. M., e Eugenio, J. K. (orgs.) (2008), <i>Sérgio Buarque    de Holanda: </i>Perspectivas, Campinas, SP, Unicamp, e Rio de Janeiro, UERJ.  </p>      <p >Morse, R. (1988), <i>O Espelho de Próspero:    Cultura e Idéias nas Américas,</i> São Paulo, Companhia das    Letras.  </p>      <!-- ref --><p >Morse, R. (1989), &#8220;A miopia de Schwartzman&#8221;. <i>Novos Estudos,</i> n.º 24, pp. 168-176.  &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000121&pid=S0003-2573201000020000500003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p >Prado, A. A. (1998), &#8220;<i>Raízes do Brasil    </i>e o modernismo&#8221;. In A. C. de Mello e Souza (orgs.), <i>Sérgio Buarque de Holanda e o Brasil, </i>São Paulo, Fundação Perseu Abramo, pp. 71-80. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p >Rezende, M. J.    (1996), &#8220;A democracia em Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda&#8221;. <i>Plural. Revista de Sociologia da USP,</i>    3 (1), pp. 14-48.  </p>      <p >Rodó, J. E.    (1991 [1900]) <i>Ariel</i><i>,</i> Campinas, SP, Unicamp.  </p>      <p >Sanches, R. R. (2001), <i>A Questão da Democracia    em Sérgio Buarque de Holanda.</i> Dissertação  de mestrado em Sociologia,     Araraquara, Faculdade de Ciências e Letras, UNESP,  </p>      <p >Schwartzman, S. (1988),    &#8220;O espelho de Morse&#8221;. <i>Novos Estudos,</i> São Paulo, n.º 22, pp. 185-192.    </p>      <p >Schwartzman, S. (1989),    &#8220;O gato de Cortázar&#8221;. <i>Novos Estudos</i>, São Paulo, n.º    25, pp. 191-203.  </p>      <p >Simmel, G. (1986),<i>     Sociología</i>: <i>Estudios</i><i> sobre las    Formas de Socialización,</i> Madrid, ES, Alianza    Editorial.  </p>      <p >Simmel, G. 2001),     <i>El</i><i> Individuo y la Libertad,</i>    Barcelona, Península.  </p>      <p >Simmel, G. (2004),    <i>Fidelidade e Gratidão e Outros Textos,</i> Lisboa, Relógio d&#8217;água.  </p>      <p >Souza, L. M.     e (1995), &#8220;Sérgio Buarque de Holanda entre a história e a sociologia&#8221;. <i>Folha de    São Paulo, Jornal de Resenhas,</i> 3 de Abril, especial A-10.  </p>      <p >Vangelista, C. (2002),    &#8220;Formas de fabulação na construção do passado: história e memória em torno da    brasilidade&#8221;. <i>Letterature</i><i> d&#8217;America,</i> xxii, n.º 92,    pp. 123-147.  </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p >Vangelista, C. (2005),    &#8220;&#8216;Sua vocação estaria no caminho&#8217;: espaço, território e fronteira&#8221;. <i>In</i><i> </i>S. J. Pesavento (org.),    <i>Um Historiador nas Fronteiras</i>: <i>o Brasil de Sérgio Buarque    de Holanda, </i>Belo Horizonte, UFMG, pp. 107-142.  </p>      <!-- ref --><p >Velho, O. (1989), &#8220;O espelho de Morse e outros    espelhos&#8221;. <i>Revista de Estudos Históricos,</i> 2 (3), pp. 94-101.  &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000134&pid=S0003-2573201000020000500004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p >Wegner, R. (2000)<i>, A Conquista do Oeste</i>: <i>a Fronteira na Obra de Sérgio Buarque de Holanda,</i> Belo Horizonte, UFMG.</p>      <p >&nbsp;</p>      <p ><b >Notas</b></p>      <p ><Sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></Sup> Essas características mais &#8220;essencialistas&#8221; estavam presentes no artigo &#8220;Corpo e alma do Brasil&#8221;, publicado na revista <i>Espelho</i> em 1935 e que antecede a formulação de <i>Raízes do Brasil</i>. Boa parte deste artigo foi utilizada na formulação do capítulo sobre o &#8220;Homem cordial&#8221; (Holanda, 2008 [1935]).</p>      <p ><sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></sup> Essa percepção da Península Ibérica como zona fronteiriça entre dois continentes já havia sido discutida por Gilberto Freyre em <i>Casa Grande &amp; Senzala</i> (1933), antes da 1.ª edição de <i>Raízes do Brasil</i> (1936), e foi retomada no texto <i>Interpretação do Brasil </i>(1947), um pouco antes da 2.ª edição de <i>Raízes do Brasil</i> (1948).  </p>      <p ><sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></sup> Ensaio de Sérgio Buarque de Holanda, escrito em italiano, e publicado em 1954 em Siena (Itália), na revista <i>Ausonia</i> (ix, n.º 5), sob a direcção de Luigi Fiorentini. Foi traduzido somente em 2002 para português pela editora da Universidade Federal de Santa Catarina.</p>      <p ><Sup><a name="4"></a><a href="#top4">4</a></Sup> Em 1920 escreve um artigo em homenagem ao poeta e jornalista peruano José Santos Chocano (1875-1934). Neste ensaio, explicita a falta de conhecimento dos escritores brasileiros sobre os &#8220;tesouros desconhecidos&#8221; nos países da América espanhola e critica o olhar limitado da intelectualidade brasileira somente para o Velho Mundo. </p>      <p ><Sup><a name="5"></a><a href="#top5">5</a></Sup> A exempo de Braudel (1983 [1949]).</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p ><Sup><a name="6"></a><a href="#top6">6</a></Sup> Na conferência para a UNESCO<i> em Genebra </i>em 1954 o historiador esclarece que os termos que têm legitimidade política naquele contexto são Castela e castelhano. Espanhol era um termo mais genérico e podia ser utilizado também para os portugueses (Holanda, 1954, p. 7).</p>      <p ><Sup><a name="7"></a><a href="#top7">7</a></Sup>As conquistas da Espanha no próprio continente eram o objectivo principal do rei Carlos V, visando transformar o Estado espanhol num império cristão capaz de substituir o Sacro Império Germânico da Idade Média. Para Sérgio Buarque, Castela transformou-se no primeiro império moderno ao procurar constituir-se como um império antigo.</p>      <p ><Sup><a name="8"></a><a href="#top8">8</a></Sup> Os termos &#8220;assimilação&#8221;, &#8220;adaptação&#8221;, &#8220;mestiçagem&#8221; e &#8220;plasticidade&#8221; do português estão, conforme Bosi (1992), sobrecarregados de uma concepção ideológica dominante centrada no ponto de vista do colonizador. </p>      <p ><Sup><a name="9"></a><a href="#top9">9</a></Sup> As representações variadas sobre os bandeirantes acompanham o próprio movimento da história política e económica da província e do estado de São Paulo e da historiografia paulista (Abud, 1985; Ferreira, 2002).</p>      <p ><Sup><a name="10"></a><a href="#top10">10</a></Sup> Em diálogo com estes tempos da fronteira analisados por Sérgio Buarque, Chiara Vangelista (2002) apresenta a história de vida de duas mulheres que vivenciaram diferentes frentes de expansão no contexto paulista e mineiro e que narram as suas histórias em conexão com a história regional e nacional. A autora cruza e aproxima trechos de <i>Raízes do Brasil</i> e de outros trabalhos de Sérgio Buarque sobre a expansão paulista com estas narrativas pessoais. Nestes relatos aparecem os tipos sociais da fronteira (aventureiro, trabalhador, &#8220;gambira&#8221;, etc.) e as metáforas que singularizam estes processos de deslocamentos e busca de novos trajectos de vida, como a metáfora da janela apresentada pela personagem Eunice: &#8220;Eu sempre digo: tem que ter janela para as coisas. Janela é isso, literalmente falando, é isso: um abre uma janela, você tem a visão das coisas [...] Você tem que aprender as coisas de várias maneiras, de vários ângulos (Eunice, <i>apud</i> Vangelista, 2002, p. 136).</p>      <p ><Sup><a name="11"></a><a href="#top11">11</a></Sup> V. os trabalhos de Prado (1998) e Galvão (2001) sobre o lugar de Sérgio Buarque no movimento modernista no Brasil e as suas relações com outros intelectuais que viveram naquele contexto; cf. também outras referências bibliográficas e outros documentos do autor no sistema dearquivos (SIARQ) da Universidade de Campinas (UNICAMP) em <a href="http://www.unicamp.br/siarq/sbh/pesquisa_no_acervo.html">http://www.unicamp.br/siarq/sbh/pesquisa_no_acervo.html</a>.</p>      <p ><Sup><a name="12"></a><a href="#top12">12</a></Sup> Duas apresentações recentes têm posto em causa esta leitura que consagrou o autor como defensor da democracia desde o período da escrita de <i>Raízes do Brasil</i> em 1936. A sinalização inicial de Pedro Meira Monteiro em exposição no GT Pensamento Social no Brasil na ANPOCS (2008), <i>Raízes do Brasil no Espelho de Próspero, </i>e a exposição polémica de Leopoldo Waizbort acentuam as referências a Nietzsche e Carl Schmitt e a presença de uma visão política autoritária no último capítulo de <i>Raízes do Brasil</i> (1936), a qual foi apresentada durante o seminário &#8220;O Brasil (não) é para principiantes&#8221;, em Março de 2009, na Universidade de São Paulo (USP).  Nesta linha de raciocínio, o livro <i>Raízes do Brasil</i> é bastante modificado na 2.ª edição (1948), depois da derrota dos nazis na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), e adquire uma interpretação hegemónica favorável à democracia, especialmente após o famoso prefácio de Antonio Candido para a edição do livro em 1967.</p>      <p ><Sup><a name="13"></a><a href="#top13">13</a></Sup> O brasilianista Richard Morse apresentou novos argumentos para a velha discussão sobre as diferenças  entre a civilização ibérica e a civilização ocidental industrializada. O livro <i>O Espelho de Próspero</i> (Morse, 1988) gerou um acalorado debate no Brasil. V. Schwartzman (1988 e 1989), Morse (1989) e Velho (1989).   </p>      <p ><Sup><a name="14"></a><a href="#top14">14</a></Sup> Em 1920, Sérgio Buarque publicou o artigo &#8220;Ariel&#8221; na <i>Revista do Brasil, </i>um comentário ao livro de Rodó. Nesse momento, Sérgio Buarque concordava com a interpretação dicotómica entre as duas Américas. Posteriormente, o autor iria desconstruir este tipo de interpretação, especialmente na década de 40, com a aproximação à história e historiografia dos Estados Unidos.   <b ></b></p>      <p >&nbsp;</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p > <a name="a1"></a><a href="#topa1">**</a> A pesquisa para a realização deste    artigo foi feita na Biblioteca Sérgio Buarque de Holanda e no sistema de arquivos    (SIARQ) da Universidade de Campinas (UNICAMP) em 2008. A primeira versão do    trabalho foi apresentada no GT Pensamento Social, no Brasil, no 32.° Encontro    Anual da ANPOCS, 2008. Agradeço os comentários críticos de Robert Wegner e as    questões colocadas por Lilia Schwartz. <span style='font-size: 12.0pt;line-height:150%;font-family:"Times New Roman"'> </p>      ]]></body><back>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Os outros alemães de Sérgio: etnografia e povos indígenas em Caminhos e Fronteiras]]></article-title>
<source><![CDATA[Revista Brasileira de Ciências Sociais]]></source>
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