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</front><body><![CDATA[ <p><i>Manuel Villaverde Cabral, Filipe Carreira da Silva</i> e<i> Tiago Saraiva    </i>(orgs.), <b>Cidade e Cidadania. Governação urbana e participação cidadã    em perspectiva comparada, </b>Lisboa, Imprensa de Ciências Sociais, 2008, 341    páginas. </p>     <p>&nbsp; </p>     <p><b>Susana Cabaço</b> </p>     <p>ICS, Universidade de Lisboa</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i>Cidade e Cidadania </i>traz-nos a visão de diversos autores sobre o clássico debate      em torno da relação entre urbanidade e participação cívica, mobilizando para      a análise aspectos como a governança urbana, as      culturas políticas e o perfil de mobilização política das populações citadinas.      A pertinência de tal debate é reforçada pelo facto de actualmente se discutir      uma aparente dissonância associada aos valores e práticas políticas dos cidadãos:      por um lado, tem sido reportado um alargado e estável apoio popular aos sistemas      políticos democráticos e, por outro, diversos estudos apontam para níveis      de participação e envolvimento cívico considerados baixos. Questiona-se então      em que medida é que a experiência urbana contribui para estimular ou transformar      valores e comportamentos políticos. Será que podemos distinguir um perfil      de participação mais associado ao contexto urbano? Até que ponto é que as      práticas de governação urbana se têm conseguido assumir como respostas aos      desafios contemporâneos? </p>        <p>Este livro reúne o contributo      de diversos investigadores ligados a diferentes áreas disciplinares, cujos      capítulos estão organizados em três partes. A abrir a primeira secção, Terry Clark propõe-nos uma reflexão      em torno da controvérsia entre as escolas de estudos urbanos — Chicago, Los      Angeles e Nova Iorque —, discutindo o enfoque dos      argumentos propostos pelos autores nelas alinhados. É neste sentido que compara      as diferentes estratégias analíticas, de modo a demonstrar que cada uma das      correntes é fortemente influenciada pelas dinâmicas das cidades em análise.      Entre as suas principais propostas destacamos a ideia de que é possível “oferecer      um melhor enquadramento para a análise urbana” se claramente associarmos as      lógicas analíticas às teorias gerais das ciências sociais e, desta forma,      compreendermos também a génese das próprias orientações dominantes de cada      escola (marxismo, individualismo pós-moderno e pós-industrial). </p>        <p>Em seguida, é-nos apresentada      uma interessante discussão das concepções de cidadão e cidadania que permite      abrir a discussão — central ao longo dos capítulos subsequentes — em torno      das raízes profundas que alicerçam a relação entre cidade e cidadania, apontando      para as suas origens clássicas (exemplificadas pela cidade-estado Atenas)      e modernas, por referência à interdependência da concepção de cidadania e      outros processos estruturantes da modernidade, nomeadamente a secularização,      racionalização e valorização da individualidade. A cidade, assim entendida,      é mais do que um espaço de mudança e transformação individual e social, provocando      também impactos sociopolíticos que ultrapassam largamente as suas fronteiras      físicas, atingindo as atitudes e comportamentos dos cidadãos (e certamente      as instituições democráticas e actores políticos que os representam). No entanto,      Mónica Brito Vieira mostra alguma reserva face às tendências e moldes que      formatam a participação cívica no espaço metropolitano, defendendo que estas      continuam a afastar-se do ideal normativo de inclusão e igualdade no acesso      à esfera pública, caracterizando-se por um maior isolamento, menor interacção      e maior selectividade dos seus intervenientes — já que se privilegiam as tecnologias      de comunicação e o contacto social mediado como meios para o exercício da      cidadania. </p>        <p>O capítulo de Tiago Saraiva fecha      a primeira parte do livro, e nele o autor opta por se concentrar numa dimensão      relativamente negligenciada pelos cientistas sociais: o impacto que a tecnologia      tem na estruturação do “ecossistema” urbano. Um exemplo fundamental desta      relação será o papel que as redes de infra-estruturas assumem na inclusão      ou exclusão do acesso a bens e serviços que alimentam as cidades — elas próprias      metamorfoseadas pelas possibilidades das ligações entre cidade e tecnologia      (a mancha gerada pelo crescimento dos subúrbios assume-se como o protagonista      da análise, aqui posto em perspectiva, seja discutindo os olhares académicos      ou literários). </p>        <p>Na segunda parte do livro são      apresentados dois capítulos dedicados às tendências e práticas de governação      urbana. Idalina Baptista recorre à metodologia de estudo de caso para fazer      luz sobre as estruturas e processos de governança,      analisando em pormenor o mediático programa POLIS, dirigido sobretudo ao planeamento      e intervenção no âmbito da requalificação e valorização ambiental das cidades      portuguesas. A partir do seu trabalho de investigação constata-se que as iniciativas      dedicadas à interacção entre os poderes públicos e os cidadãos tendem a não      ser capazes de se assumirem como verdadeiros fóruns, confundindo-se, por vezes,      “a acção de prestação de informação ao público com o seu envolvimento na tomada      de decisão”. Este exemplo deixa claro que continua por ultrapassar o problema      associado à tensão entre a eficiência na implementação e gestão das políticas      públicas e a plena realização dos valores democráticos nestes processos.       </p>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p>No capítulo seguinte, assinado      por João Seixas, são também discutidos os instrumentos e as práticas de governança, agora no contexto da cidade de Lisboa. O diagnóstico      realizado leva o autor a concluir que (apesar de ténues sinais encorajadores)      os instrumentos de participação cidadã no planeamento e na tomada de decisão      do governo municipal têm alcançado resultados pouco significativos. Tal cenário      enquadra a reflexão que empreende em torno do conceito de capital sociocultural,      que será o elemento--chave da sua discussão acerca do perfil de mobilização      política dos lisboetas. Os principais constrangimentos que destaca passam      não só por um défice de conhecimento da cidade e da área metropolitana, como      também pela “inexistência de canais abertos de governança,      ou de espaços públicos de diálogo e participação estabelecidos” fora dos processos      de consulta legalmente consignados.  </p>        <p>A terceira parte do livro, “Metrópoles      e novas cidadanias”, integra quatro capítulos dedicados à análise da relação      entre o exercício da cidadania e a experiência urbana a partir de dados do      inquérito ISSP (<i>International Social Survey      Programme</i>). Num primeiro momento, Manuel Villaverde      Cabral analisa as práticas de cidadania em torno de dois eixos principais:      por um lado, discute o “efeito metropolitano”, aqui percebido como o efeito      da influência específica do facto de se viver numa zona metropolitana no exercício      da cidadania, assim como os impactos de mudanças sociais mais globais, nomeadamente      o pós-materialismo e a nova cultura política. Verifica-se que, mesmo estando      perante indivíduos com capitais escolares e socioprofissionais equivalentes,      são os residentes na cidade que mais estão envolvidos em práticas automobilizadas.      Os dados indicam que é exactamente este perfil de participação que parece      estar a ganhar mais expressão (quando comparado com formas mais convencionais      de acção colectiva, exemplificadas pelo associativismo). </p>        <p>Filipe Carreira da Silva, Sofia      Aboim e Tiago Saraiva, no capítulo “Cidade e participação: o ‘efeito-cidade’ nas práticas de cidadania em Portugal”, retomam      este debate, introduzindo também dimensões espaciais no seu modelo de análise      da participação. Os autores incluem na sua investigação aqueles que vivem      e trabalham na cidade, uma vez que não são apenas aqueles que aí residem que      estão expostos aos estímulos citadinos. Os resultados alcançados revelaram-se      consonantes com as hipóteses dos autores. Em primeiro lugar, destaca-se a      importância de se ter em conta o tipo de participação política em causa, já      que, segundo a análise, o melhor preditor da automobilização      é a mobilização cognitiva (o que sugere a importância de um maior acesso à      informação e capacidade crítica para o envolvimento cívico e político), enquanto      a frequência da prática religiosa é a variável que mais se correlaciona com      o associativismo. Paralelamente, destacamos a discussão feita em torno da      relação entre práticas e valores políticos que se desenvolve em contexto urbano:      conclui-se que as formas de participação não convencionais estão sobretudo      associadas a valores pós--materialistas, em particular a solidariedade e a      igualdade.  </p>        <p>Já Sérgio de Azevedo, Orlando      Júnior e Luiz Queiroz Ribeiro apresentam um estudo      comparativo da realidade portuguesa e brasileira. Os autores sustentam que      para uma compreensão cabal da evolução e tendências das práticas e normas      de cidadania dominantes (ou emergentes) é necessário compreender as especificidades      de cada um dos sistemas democráticos (neste caso, ambos inaugurados na terceira      vaga de democratizações). A crescente adesão a valores associados à nova cultura      política nas metrópoles brasileiras — por oposição ao restante território      não metropolitano — assemelha-se às tendências assinaladas noutros contextos.      Porém, os autores põem este resultado em perspectiva para notar que os níveis      de auto-mobilização são baixos quando se comparam os resultados alcançados      para a população metropolitana portuguesa e as classes sociais mais favorecidas      do Brasil. Segundo estes investigadores, parte da explicação estará relacionada      com os valores e atitudes políticas que estão consolidados naquele país (clientelismo,      corporativismo e populismo). </p>        <p>A fechar, Filipe Carreira da      Silva, Antónia Ramírez e Mónica Brito Vieira reflectem      acerca dos valores políticos de um grupo que parece ter vindo a assumir um      cada vez maior protagonismo nas cidades globais: a “nova classe média-alta”,      que se caracteriza pela sua elevada mobilidade, individualismo e tolerância      social. Este capítulo deixa claro que as categorias de análise “institucionalizadas”      (para a interpretação das orientações normativas dos cidadãos) tendem a revelar-se      obsoletas, pois as próprias noções de espaço, tempo e mesmo das possibilidades      de acção desafiam as noções que tendiam a circunscrever o cidadão (os seus      interesses, os impactos da sua acção, etc.) à sua comunidade política ou ao      seu estatuto socioprofissional. </p>         <p>Por fim, uma palavra acerca dos objectivos, organização da obra e seu enquadramento    na literatura. Os organizadores deste volume propuseram-se “recuperar a relação    virtuosa identificada pelos pais fundadores das ciências sociais entre vida    urbana e práticas de cidadania”, reunindo para tal o contributo de vários investigadores    de diferentes áreas disciplinares. Apesar do ambicioso objectivo, o resultado    é um trabalho muito interessante, rigoroso e inovador na integração das diversas    perspectivas teórico-metodológicas. Este é, na nossa perspectiva, um contributo    estruturante para todos os que investigam e se interessam pelos estudos urbanos    e pela sociologia política urbana, em particular.</p>      ]]></body>
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