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</front><body><![CDATA[ <p><i>Maria Filomena Mónica,</i> <b>Os Cantos. A tragédia de uma família açoriana</b>,    Lisboa, Alêtheia Editores, 2010, 430 páginas. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Leonor Sampaio da Silva </b></p>     <p>Universidade dos Açores </p>        <p>&nbsp;</p>        <p>Respirando numa atmosfera semelhante à      d’<i>Os Maias,</i> dos quais se distancia pela escrita historiográfica, mas      com os quais partilha semelhanças que são visíveis no epílogo, no título,      no enquadramento epocal e na saga familiar, o livro de Maria Filomena Mónica      dá-nos a conhecer um período da história económica portuguesa marcado pela      figura central de José do Canto. </p>        <p>Com <i>Os Cantos,</i> a autora regressa      à biografia e ao arquipélago dos Açores. Depois de ter escrito sobre a influência      da família Dabney no Faial, Maria Filomena Mónica investe na descoberta de      um nome micaelense que, embora essencial no desenho da paisagem natural e      edificada, no desenvolvimento económico e na ilustração pública de São Miguel,      ainda é insuficientemente conhecido fora dos territórios murados do saber      académico.  </p>        <p>Nas mais de 400 páginas que compõem a narrativa      cativante de Filomena Mónica põe-se em evidência a personalidade mais dinâmica      de uma geração ilustre de micaelenses. Com efeito, José do Canto foi mais      do que um simples produtor e exportador de laranja apaixonado por botânica.      Suspeitando de que a Inglaterra estivesse a usar a fruta micaelense para abastecer      mercados como a Bélgica e a Holanda, procurou dotar a ilha com os meios que      permitissem colocar directamente a fruta nestes países. Conhecendo a tendência      que se verificava na Europa para escassear a carne de bovino, propôs uma reforma      agrícola com a finalidade de aumentar a criação de gado em substituição da      produção de cereais. Foi fundador da Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense.      Lançou a ideia de se fundar uma companhia de vapores para escoamento das exportações.      Concebeu um esquema de “comícios rurais” para ilustração do povo. Alargou      o destino da cultura do chá para além do proveito ornamental que se retirava      da planta. Deixou arborizada uma boa parte das bermas dos caminhos, das montanhas      e matas micaelenses, tendo consciência da utilidade deste serviço “para os      seus proprietários […] para o clima e para o país em geral” (p. 204).      </p>        <p>Igualmente sensível ao valor do investimento      cultural, dedicou grande parte do seu tempo a coleccionar obras de e sobre      Camões. Gostava de actuar como mecenas junto dos intelectuais portugueses      e estrangeiros. Foi sócio da Academia das Ciências. Conviveu com Lamartine,      Edmond About e Léon Gautier. Correspondeu-se com o director do Kew Gardens.      Possuiu uma das melhores bibliotecas particulares portuguesas do seu tempo.      Privou com Ferdinand Denis, director da Biblioteca de Sainte-Geneviève. Financiou      viagens e algumas publicações de António Feliciano de Castilho. Serviu de      intermediário na contratação de arquitectos e engenheiros estrangeiros para      obras públicas portuguesas. Interveio junto das autoridades e dos seus conterrâneos      para a construção da doca de Ponta Delgada, obra essencial à modernização      de São Miguel: contratou o engenheiro inglês responsável pelo projecto, tratou      com o conde do Lavradio, embaixador de Portugal em Londres, as questões relativas      a este assunto, diligenciou junto dos deputados açorianos em Lisboa a agilização      do processo. </p>        <p>Sem desprezar a carne histórica de um período      que acomodava inquietações sob a pele do progresso, <i>Os Cantos</i> mostra      ainda os mundos plurais em que se moveu este <i>gentleman farmer,</i> desde      São Miguel, onde nasceu e para onde sempre sonhava regressar, até França,      onde residiu, e Inglaterra, país que visitava com frequência, incluindo os      corredores do poder lisboeta, nos quais reclamava com empenho as estruturas      necessárias ao desenvolvimento da ilha. Viajante incansável por uma geografia      física que o levou às exposições universais de Londres e de Paris, às estufas      de plantas exóticas, aos parques, portos, praças e avenidas cosmopolitas das      principais capitais europeias, José do Canto pontificou ainda na geografia      íntima dos afectos familiares. Preencheu estes lugares com cuidados dirigidos      à família, à preparação dos filhos para um futuro íntegro e independente e      à saúde de um casamento ciclicamente abalado pelas lamentações da mulher,      que adoecia sempre que o marido se ausentava.  </p>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Igualmente atento às peripécias políticas,      vários foram os acontecimentos que atraíram a sua atenção, tanto locais como      internacionais. Da agricultura à guerra, passando pela sensibilidade paisagística      com que arquitectava a construção de casas e de jardins, o livro toca na multiplicidade      dos centros e das periferias que agitaram o mundo oitocentista que José do      Canto conheceu. À semelhança de outros intelectuais europeus, também ele seguiu      os motins nacionais suscitados pela reforma fiscal e tributária, manteve-se      informado sobre a política mundial, comentou os efeitos da intensificação      do dogmatismo católico, angustiou-se com o modo como a nação era conduzida.      </p>        <p>Das ambições mais modestas de José do Canto      (“ler um bom livro e podar umas árvores ou semear umas couves”, p. 153) às      mais sofisticadas (ver colocada a toalha de mesa pertencente a Napoleão III,      que adquirira em leilão ou decorar os móveis ingleses com peças da Companhia      das Índias), o livro de Maria Filomena Mónica mostra-nos setenta e oito anos      de uma história pessoal vertida num sistema de vasos comunicantes que ligavam      a ilha ao país e à Europa. Para isso apoia-se numa vasta bibliografia publicada,      que inclui artigos da imprensa, trabalhos científicos, relatos de viajantes,      à qual acrescenta espólios particulares que contenham a correspondência do      biografado. Acima de tudo, Filomena Mónica articula os vários tipos de escritas      de modo a transmitir a dimensão do vivido. Não se limitando às largas pinceladas      históricas, <i>Os Cantos</i> mostra-nos um quotidiano poliédrico, levando-nos      a sentir as vibrações das vozes e das emoções nele contidas. </p>        <p>Um dos grandes méritos desta obra consiste      na integração bem sucedida do material epistolar — frequentemente extenso      e escrito num estilo diferente daquele a que estamos habituados — no discurso      da autora. Com esta estratégia, o relato do quotidiano ganha intensidade sem      sobre ele se abater a suspeita do exagero artificial. Um exemplo que ajudará      a ilustrar a afirmação anterior é o do retrato de um certo universo feminino.      A conhecida sensação de vacuidade que atormentava mulheres inteligentes destinadas      a vidas fúteis transparece nas linhas que elas trocavam entre si e com o biografado.      A par das rotinas e ocupações que caracterizavam o mundo das senhoras micaelenses,      revela-se nas cartas escritas pela mulher, pela sogra e pelas irmãs de José      do Canto uma insatisfação que frequentemente recebe o rótulo de “doença de      nervos” e que tem em duas das mulheres mais ricas da ilha, Maria Guilhermina      e sua mãe, dois casos exemplares. A sogra de José do Canto, apesar “das grandes      aflições” que “interiormente sent[ia]”, não “se queixa[va]      senão de nada a distrair e de todos os vestidos a agoniarem” (p. 164). Por      seu turno, a mulher raramente resistia à tentação de falar da sua “triste      vida” (p. 140). Uma das irmãs revela numa carta estar “acostumada a sofrer”      (p. 182). </p>        <p>Ao lermos as cartas não só conhecemos sem      mutilação as reacções aos factos, os matizes de um amor difícil, o carácter      singular de um casamento e de um homem que exibia com desassombro uma paixão      erótica nem sempre correspondida na medida desejada, como também contactamos      com a linguagem da época. É assim que encontramos os banhos frios, ou <i>de      choque,</i> a <i>não se darem</i> com algumas pessoas (e não o inverso), que      <i>os precisos</i> e <i>as precisões</i> nos surpreendem num enquadramento      semântico que já não nos é familiar, que alguém <i>com poucas carnes</i> espelha      uma verbalização desusada da magreza, que <i>ter um perigo</i> designa uma      gravidez abortada. </p>        <p>Arrumando a matéria que o constitui em      três partes, o livro começa e termina com a referência à felicidade. Depois      de, na primeira parte, nos apresentar os anos de formação de José do Canto      até ao início da vida adulta e de, na segunda, já no-lo apresentar casado,      no seu momento de “cativeiro” em Paris (1853-1868), onde esperava proporcionar      uma educação esmerada aos filhos, dá-se o acontecimento inaugural da <i>tragédia</i>      que figura no subtítulo do livro. “O conflito”, designação atribuída ao último      capítulo da segunda parte, consistiu no desentendimento com o primogénito.      As expectativas sobre este filho ruíam no momento em que se tornava claro      que o rapaz nem pretendia concluir o curso nem viver em casa dos pais. Na      terceira parte da obra, o regresso da família a São Miguel é ensombrado por      esse desgosto, que viria a constituir a primeira de uma sucessão de perdas:      o alcoolismo deste filho, a instabilidade mental do outro, a morte da mulher      e a distância dos netos levariam José do Canto a escrever nos últimos anos      “não sou feliz” (p. 336), depois de ter sentido que passara a vida “a endireitar      coisas tortas” (p. 272). </p>         <p>O tema da felicidade confere, assim, circularidade ao livro, tornando pertinentes    as palavras iniciais de Maria Filomena Mónica. Porém, se é verdade que, como    a autora afirma, “nunca se recupera de uma infância feliz” (p. 17), porque a    memória da felicidade é uma companhia espectral quando a vontade e a planificação    sucumbem sob poderes cegos que as ignoram, não é menos verdadeiro que sem esta    memória todas as infâncias, felizes ou não, se convertem em idades gastas. Tendo    recuperado as lembranças de uma idade decorrida entre 1820 e1898, as páginas    d’<i>Os Cantos </i>fixam, de forma acessível e elegante, a memória de papéis    que narram uma vida que persiste — a doca, os jardins, as casas, a capela, a    laranja, o chá, os ananases e a biblioteca de José do Canto perduram na paisagem    micaelense.</p>             ]]></body>
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