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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[One of the most interesting factors that might be present in the construction of technology is the one derived from the user, mainly because it is the one that corresponds to the non-producer and the one that has less tradition in this respect. This article makes an analysis of the presence of this agent in the technological development through a case study of a Portuguese company of navigation systems (GPS).Even though some approaches are focused exclusively on production or consumption, in this work both fields are articulated in order to define a conceptual framework that is critical of the user’s effective interference in the conception of technology.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ 

    <p align="right"><b>ARTIGO</b></p>

    <p><b>A
interferência do utilizador na produção: estudo de caso a uma empresa de
tecnologia</b></p>

    <p><b>User involvement in production: a case study of a
techno­logy firm</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>Pedro Xavier Mendonça</b>* 
e <b>José Luís Garcia</b>**</p>


    <p>*Instituto Superior de Comunicação Empresarial, Praça do Príncipe Real, n.º 27 — 1250-184
Lisboa, Portugal. E-mail: <a href="mailto:pedrofxm@gmail.com">pedrofxm@gmail.com</a></p>
    <p>**Universidade de Lisboa, ICS-UL, Av. Professor Aníbal de Bettencourt, 9 — 1600-189 Lisboa, Portugal.
 E-mail: <a href="mailto:jlgarcia@ics.ulisboa.pt">jlgarcia@ics.ulisboa.pt</a></p>

    <p>&nbsp;</p>


    <p><b>RESUMO</b></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Um dos fatores possíveis na construção
tecnológica que mais interessam compreender é o do utilizador. Em especial
porque corresponde ao agente não produtor comum e aquele que menos tradição tem
nessa intervenção. Neste artigo analisa-se a presença deste agente no
desenvolvimento tecnológico através de um estudo de caso a uma empresa portuguesa
de sistemas de navegação (GPS). Se bem que algumas perspetivas se centrem
exclusivamente na produção ou no consumo, neste estudo articulam-se os dois
polos e delineia-se um quadro conceptual crítico em relação a uma efetiva
interferência do utilizador na conceção de tecno­logia.</p>

    <p><b>PALAVRAS-CHAVE</b>: utilizador; consumo; produção;
tecnologia.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>ABSTRACT</b></p>

    <p>One
of the most interesting factors that might be present in the construction of
technology is the one derived from the user, mainly because it is the one that
corresponds to the non-producer and the one that has less tradition in this
respect. This article makes an analysis of the presence of this agent in the technological
development through a case study of a Portuguese company of navigation systems
(GPS).Even though some approaches are
focused exclusively on production or consumption, in this
work both fields are articulated in order to define a conceptual
framework that is critical of the user’s effective interference in the
conception of technology.</p>

    <p><b>KEYWORDS</b>:
user; consumption; production; technology.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>INTRODUÇÃO</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>A construção tecnológica
resulta de múltiplos fatores. Uns existirão no interior do espaço de produção,
podendo envolver atividades como a científica, a militar ou a empresarial;
outros tenderão a constituir-se próximos do consumo,
de que são exemplo o inventor isolado, o utilizador criativo ou o chamado
utilizador-líder. Embora a produção e o consumo não sejam âmbitos completamente
estanques, pode ser adequado distingui-los em ordem à compreensão das dinâmicas
de construção técnica. Neste estudo, esta distinção serve para os colocar em relação na conceção de tecnologia por parte de
uma empresa portuguesa de sistemas de navegação, denominada NDrive. Daremos
atenção especial aos modos como o utilizador interfere na construção dos
artefactos de navegação rodoviária.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O artigo começa por considerar a relação entre
produção e consumo, confrontando perspetivas que veem na produção a principal
plataforma na construção tecnológica (tradição crítica ligada ao Instituto para
a Pesquisa Social da Universidade de Frankfurt) com abordagens que enfatizam o
papel do utilizador na condução deste processo (Cowan, 1989; von
Hippel, 2006). De modo a explorar uma articulação entre estes dois domínios,
consideramos depois a relação entre poder e vontade a partir de contributos de
Habermas (2009 [1968]). Integra-se a noção de “poder” nas possibilidades
construtivas próprias da produção e a de “vontade” no que diz respeito às
expetativas volitivas dos utilizadores. Defende-se que articular estes dois
elementos é determinar o papel da vontade do utilizador no poder da produção,
questão que é fundamental para quebrar visões que não estabelecem esta relação
(Miller, 2006). Segue-se a componente empírica, onde se procede à avaliação dos
diferentes pesos da produção e do consumo, bem como dos lugares de contacto
entre ambos.</p>

    <p>Esta pesquisa é sobretudo
um estudo de caso a uma organização particularmente adequada por representar a
típica empresa de tecnologias de informação e comunicação: de média dimensão,
flexível, internacionalizada e que procura a inovação. Em Portugal, apresenta a singularidade de ser a única que desenvolve sistemas de
navegação. Neste âmbito, a hipotética participação do utilizador apresenta
bastantes potencialidades. Como técnicas de recolha de dados, recorremos à
realização de entrevistas, bem como à análise de documentos internos e de
comunicação externa da empresa NDrive. Foi ainda
efetuado um estudo relativamente extenso de fóruns de utilizadores na <i>internet</i>
consultados pela firma. Desta investigação resulta a ideia de que o utilizador
não tem um poder efetivo na construção de artefactos tecnológicos, do que decorre
mais uma precipitação da empresa sobre o mesmo do que uma interferência deste.
Propomos um conjunto de noções consideradas pertinentes na compreensão de
outros casos. Distinguem-se as que têm relevância no processo de criação de
tecnologia. Consideramos, em particular, a noção de “problema” como componente
paralela à noção de “solução”, tão presente neste domínio tecnológico. Por
forma a permitir uma operacionalização a nível empírico, articulamos problemas <i>a
priori</i> e problemas <i>a posteriori</i>. Os problemas <i>a priori</i> são os
que antecedem e conduzem, no uso, à idealização de uma funcionalidade e são
detetados pela produção. Estes produzem-se numa maior
fidelidade ao saber do quotidiano e, por conseguinte, ao espaço de vida do
utilizador. Os problemas <i>a posteriori</i> são os que não resultam de uma
manifestação prévia do utilizador, mas de uma construção interna à produção,
quer implícitos numa funcionalidade que se procura concretizar, quer enquanto
falhas que os utilizadores detetam, e de que se queixam. As conclusões a que o
estudo conduz devem ser consideradas mais como um contributo realizado a partir
de uma análise concreta do que enunciados gerais de causalidade e determinação
de casos do mesmo tipo.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>PRODUÇÃO E CONSUMO,
PODER E VONTADE</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>A tradição das ciências
sociais tem oscilado entre visões do utilizador, frequentemente sob a
designação de “consumidor”, de base utilitarista e racionalista, próximas da
economia neoclássica, e outras que o veem como agente que incorpora disposições
inconscientes, hedonista e de identidade fragmentada, numa reflexão que
encontra o seu pioneiro em Veblen (2007 [1899]) e que encontramos hoje em
Bauman (2008). Com algumas exceções, de que é exemplo destacado o
individualismo metodológico, confluiu-se para conceber a produção como um
processo racional e programado, e o consumo, enquanto ato de uso, mas também de
compra, como uma prática emocional e irracional (Touraine, 1994). Não é aqui
lugar para resumir este debate em poucas páginas. Assim, tentaremos antes de
mais analisar as linhas mestras que encontram na relação entre estes dois
domínios um processo de controlo da produção sobre o consumo numa lógica
programada, embora alguns destes autores não detetem uma verdadeira
racionalidade em qualquer destas dinâmicas.</p>

    <p>Entre as visões exemplares na denúncia de uma
produção dominadora do consumo encontram-se as associadas às já referidas
teorias críticas da Escola de Frankfurt. A sociedade do capitalismo tardio,
vista por esta corrente, elimina a experiência individual da diferença, provocando
uma aglutinação na semelhança entre os fenómenos. As ideias para novos produtos
são comparadas às ideias fixas platónicas, que pré-existem prontas a serem
descobertas somente através da indústria que as elabora. Ocorre um processo de
criação de necessidades que prendem os indivíduos ao sistema, retirando-lhes a
capacidade de desenvolverem as suas próprias subjetividade e espontaneidade
(­Horkheimer e Adorno, 2002 [1944]).</p>

    <p>Um dos principais
representantes desta linha de pensamento, Herbert Marcuse (1968), denuncia a
emergência de um homem unidimensional como resultado da sociedade tecnológica
capitalista. Esta unidimensionalidade designa um ser prisioneiro de uma
ontologia monolítica imposta pela tal estrutura <i>a priori</i> de criação de
produtos e necessidades. O autor distingue entre necessidades verdadeiras e
falsas: as primeiras são as que resultam de uma escolha livre e alheia à gama de opções imposta do exterior; as segundas são as que
se enquadram e desenvolvem nesta gama. É considerando estas últimas que
Baudrillard (1981), influenciado por estas perspetivas, mas numa abordagem
semiótica, fala da ausência de uma “verdade do objeto”, referindo a existência de um sistema sustentado no valor de
troca-signo e não em qualquer valor prático. Só este poderia atribuir alguma
“verdade” ao objeto.</p>

    <p>Estes autores tendem a relevar o poder dos
processos de produção sobre os de consumo, destacando como o utilizador se
acomoda ao produtor sem que sobre espaço para uma efetiva liberdade. Quem
compra não tem influência autêntica sobre aquilo que lhe é vendido. Estas
visões são alvo de crítica, por se centrarem numa perspetiva linear do processo
de conceção e produção.</p>

    <p>Ao longo do século XX, aparecem algumas posições
contra a ideia do utilizador como agente passivo. A emergência de uma sociedade
de afluência (Galbraith, 1958), onde a capacidade produtiva deixa de ser uma
dificuldade, contribui para deslocar a problemática da produção para o consumo.
Nos anos 1980 surge a expressão “prosumer” para designar uma
certa porosidade entre estes dois polos, sugerindo-se uma condição na
qual quem consome também recria aquilo que usa (Toffler, 1980). A maior atenção
à interferência do utilizador em relação à produção em geral, mas também no que
diz respeito à construção de artefactos tecnológicos, cresce em parte devido a
este tipo de argumento.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Ruth Cowan (1989)
propõe uma visão que seleciona os utilizadores como grupo socialmente
relevante. Centra-se num aspeto importante para a consideração da liberdade e
poder de decisão de quem adquire um artefacto: o momento em que se faz uma
escolha entre tecnologias concorrentes no ato de compra – aquilo que a autora
designa como “consumption junction”. Cowan descreve tecnologias que só são
adotadas muito depois de serem criadas devido à estrutura organizada em torno
do seu consumo demorar a adaptar-se, e não por causa de uma qualidade técnica,
eventualmente superior.</p>

    <p>Em termos desta
influência do utilizador, o economista Eric von Hippel
(2006) propõe o conceito de “democratização da inovação” para referir o que
considera ser uma tendência: os utilizadores participarem com propostas e com
desenvolvimento na inovação. Ainda que o campo do <i>software</i> seja aquele
que mais se dá a este tipo de criação, por caraterísticas próprias desta
tecnologia, von Hippel (2006) oferece exemplos de
utilizadores que inovam outro tipo de artefactos, como bicicletas e pranchas de
<i>windsurf</i>. Uma realidade que, segundo afirma, contribui mais do que
qualquer outra para o bem-comum, visto corresponder a construções que os
beneficiados fazem numa relação mais fiel entre o uso e as funcionalidades. O
utilizador incorpora a sua necessidade e um melhor conhecimento do contexto de
uso nas suas inovações. Os produtores tendem a especializar-se nas informações
técnicas que já possuem sobre as soluções do artefacto. Daí que sejam propensos
a favorecer as possibilidades que dominam, lançando preconceitos no uso (von Hippel, 2006). A este respeito, é apropriado referir que
a participação do utilizador no desenvolvimento de novos produtos surge muitas
vezes como uma forma de trabalho não remunerado, visto acrescentar valor
(Boutang, 2007).</p>

    <p>Com o objetivo de
avaliar as interferências do utilizador na construção de artefactos
tecnológicos, estas últimas abordagens são importantes. Exploram os modos
através dos quais a construção técnica se deixa moldar por quem usa a
tecnologia, contrariando as visões lineares que obliteram estas vias de
transformação. A este respeito, é oportuno mencionar Jürgen Habermas (2009)
quando chama a atenção para o facto de muitas das nossas questões práticas
“serem determinadas pelo sistema das nossas realizações técnicas”. Sublinha a
necessidade de se efetuar uma mediação entre o “saber e poder técnicos” e o
“saber e poder práticos”, isto é, uma “dialética entre poder e vontade”. O
autor estabelece uma relação entre tecnologia e quotidiano com implicações
políticas claras, destacando a dicotomia entre a produção de um poder e a
vivência prática desse poder (Habermas, 2009 [1968], pp. 100-
-105). Esta articulação coloca-se no interior da problemática que os estudos de
consumo encontram quando detetam uma separação entre a sociedade de consumo e
os intentos da reforma social, depois da Segunda Guerra Mundial (Alonso, 2006)
um aspeto que também deve ser lido à luz de um questionamento da visão
naturalizada e acrítica de inovação tecnológica, convocando para este domínio
considerações de ordem ética (Garcia, 2012).</p>

    <p>É neste contexto que se revelam dois espaços em
relação: por um lado, a empresa como <i>locus</i> privilegiado de construção de
artefactos tecnológicos – o poder; por outro, o quotidiano em que se inscrevem
as práticas dos artefactos tecnológicos e a relação dos utilizadores com as
mesmas – a vontade. Para compreender esta relação na
empresa NDrive consideramos o binómio problema-solução
como proposta conceptual heurística na medida em que corresponde a uma
compreensão pragmatista do quotidiano, embora não tenhamos a intenção de
realizar qualquer redução a esta perspetiva. Pretendemos um olhar que contorne
abordagens de cunho utilitarista, racionalista ou articuladas ao individualismo
metodológico. Todavia, destacamos a esfera na qual, no complexo do quotidiano
em que se usam funcionalidades, estas se colocam como soluções para problemas
dos utilizadores. Não obstante uma tradição sociológica que se centra no estudo
das relações entre a componente simbólica e distintiva do consumo e posições na
esfera social (por exemplo, Veblen, 2007 [1899], Goblot, 1967 ou Bourdieu,
1979), seguimos um ponto de vista que se atém às
práticas vinculadas ao uso de artefactos tecnológicos. Estudamos os
utilizadores tendo em conta a influência do seu domínio prático na
estabilização da tecnologia. Tomando as funcionalidades como soluções, deixamos
espaço para a manifestação de problemas do utilizador na construção dos
artefactos, o que seriam problemas <i>a priori</i>. Estes representarão uma
interseção dos processos de produção com a emanação de uma vontade prática, ao
contrário dos problemas <i>a posteriori</i>. Partimos do pressuposto de que a
relação entre problema e solução é a de que o problema aparece primeiro e só
depois a solução. Procurando uma expressão do utilizador, uma força endógena,
devemos considerar o problema quando é manifestado por quem o tem. O que não
implica que sigamos o modelo do <i>problem-solving</i>. Apenas destacamos
enquanto ideal-tipo uma configuração prática no uso dos artefactos não
alargável a uma conceção antropológica ou a uma visão racionalista da ação
humana. De seguida aplicamos estas considerações ao caso.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>ESTUDO DE CASO</b></p>

    <p><b>&nbsp;</b></p>

    <p>Criada em 2007, a NDrive é uma empresa portuguesa sedeada no Porto,
direcionada ao mercado do <i>software</i> de sistemas de navegação.<sup><a href="#1">1</a></sup><a name="top1"></a> Nasce a partir de uma outra, a Infoportugal, especializada em
cartografia digital, cujos mapas do território português haveriam de servir os
fins da NDrive. Ambas surgem da iniciativa de um especialista em <i>marketing</i>
que viu nestes domínios oportunidades de negócio. Deste ponto de vista, o ideal
de uma orientação ao “consumidor” aparece desde logo na sua raiz. Numa primeira
fase, a NDrive desenvolve apenas <i>software</i> de
navegação. É o caso da chamada “imagem real”, que consiste em imagem
fotográfica com perspetiva oblíqua em lugar dos mapas tradicionais, e as
“comunidades”, grupos com interesses comuns ligados a redes sociais e a listas
de lugares, como pescadores e locais de pesca. Posteriormente, chega a apostar
em <i>hardware</i>, como quando constrói um dispositivo de navegação muito
fino, algo que acaba por deixar de fazer. Aproveitando o mercado de <i>smartphones</i>,
também desenvolve aplicações não circunscritas à navegação. O período em
análise já não se refere a esta última tendência, mas abrange todas as outras.</p>

    <p>Na história desta empresa, a produção é
dominadora como fonte das funcionalidades tecnológicas criadas. Quase nenhuma
resulta do utilizador através da manifestação de um problema <i>a priori</i>.
Quando se trata de tecnologia de ponta, em geral, esta situação tende a
acentuar-se, ideia que se confirma neste caso. Um dos responsáveis de <i>marketing</i>
afirma que os utilizadores “não têm a capacidade de imaginar coisas que ainda
não viram” (M1). Segundo um outro, “o consumidor não
sabe do que necessita”, é antes “bombardeado com novas necessidades” (M2).<sup><a href="#2">2</a></sup><a name="top2"></a> A captação das práticas de uso desenvolve-se principalmente no registo
de problemas <i>a posteriori</i>. Apesar deste dado, podemos observar algumas
propostas de funcionalidades por parte dos utilizadores que são assimiladas
pela empresa. Não se pense também que a NDrive não tem
em atenção o utilizador – bem pelo contrário. Por isso, é importante perceber
como esta organização procura aproximar-se deste agente. A empresa utiliza como
meios principais de interseção entre produção e consumo as pesquisas de
mercado, o apoio técnico (com o respetivo <i>call center</i>),
o departamento de testes, a <i>internet</i>, algum contacto direto, a
auscultação de familiares e conhecidos dos profissionais, bem como estes quando
se imaginam na pele de utilizadores, isto é, quando procuram conceber como se
comportam os que utilizam dada funcionalidade. Trataremos cada um destes
aspetos por si.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>O DOMÍNIO DAS PESQUISAS DE MERCADO</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>Um dos mais importantes e
comuns modos através dos quais as empresas procuram ter acesso aos utilizadores
são as pesquisas de mercado. Quase todas as que a NDrive
tem acesso no período em questão não são realizadas pela empresa, com algumas
exceções mais recentes. Pertencem a organizações do setor da análise de
mercados, como a Berg Insight ou a Canalys, que as vendem a agentes
interessados, como instituições da indústria ou dos <i>media</i>. Umas são
compradas; outras são públicas; algumas referem-se
apenas às vendas a retalho; outras colocam questões aos utilizadores; e há
ainda as que apenas são relatórios de seminários.</p>

    <p>Destacamos a diferença entre as pesquisas que
acompanham as vendas e as que colocam perguntas diretamente aos utilizadores.
Por exemplo, em algumas apresentações usadas pela empresa quando se propõe a
clientes empresariais surgem referências a pesquisas que mostram um claro
predomínio da análise das vendas em lugar de perguntas diretas, isto é, mais a
“consumption juction” de Cowan (1989) do que manifestações daquilo que é
desejado. Não obstante este seu caráter, estas pesquisas podem influenciar a
construção de funcionalidades. A tendência para o aumento nas vendas a retalho
de artefactos de navegação maiores (com 4,3 polegadas), em algumas pesquisas,
favorece a aposta da empresa em objetos um pouco mais volumosos (de 5 polegadas). Estes casos não se enquadram na expressão
direta de um problema <i>a priori</i>. Por maioria de razão, a expressividade
do utilizador nestas abordagens é reduzida ao ato de compra, ficando oculta a
sua opinião sobre o que pode vir a ser uma funcionalidade.</p>

    <p>Ainda que a maioria
das pesquisas de mercado corresponda a esta descrição, algumas conseguem uma
expressão do utilizador mais próxima, com perguntas diretas. Nas mesmas
apresentações encontram-se dados que resultam de questões colocadas de forma
direta. No inverno de 2006 questionam-se utilizadores iniciais sobre
diferentes funcionalidades possíveis de associar às comunicações sem fios, como
os telemóveis e os PDA. Pede-se que selecionem as opões “tenho que ter”, “seria
bom ter” ou “redundante” em relação a cada uma das funcionalidades, consoante a
vontade de as possuir. A câmara digital, o mp3 e a <i>internet</i>
figuram nas três primeiras posições. O GPS surge em sétimo lugar, o que, com
19% de “tenho que ter” e 45% de “seria bom ter”, é
apresentado pela empresa como uma boa razão para apostar neste tipo de
funcionalidades nos artefactos móveis. Um outro
exemplo deste tipo de abordagem é mais recente, mostrando uma tendência da
empresa para uma maior mobilização de meios. Com o crescimento do departamento
de <i>marketing</i>, a NDrive realiza uma pesquisa
direta <i>online</i> a cerca de 600 utilizadores. Também aqui se fazem
perguntas. Estas compreendem tanto o domínio informativo, como por exemplo saber o país de origem do utilizador, quanto, em
maioria, solicitações para que se classifiquem de forma crescente, de 1 a 5, as
funcionalidades oferecidas pela empresa (como mapas ou pontos de interesse) ou
o uso do manual.</p>

    <p>Estes exemplos com pergunta
diretas, ainda que nos mostrem a existência passada e a ocorrência
recente de espaços de expressividade, revelam-nos que esta abertura se produz
de um modo exógeno, isto é, os utilizadores são chamados a pronunciar-se
através da apresentação de opções definidas no exterior. Colocam-se várias
possibilidades para os artefactos móveis, desde a câmara digital até ao GPS, sem
que se dê espaço a uma idealização própria não sugerida. No que se refere à
pesquisa realizada pela empresa, há uma concentração das questões numa
avaliação às funcionalidades oferecidas sem qualquer opção para a manifestação
de um problema <i>a priori </i>ou de uma funcionalidade desejada. Poder-se-á
argumentar que as necessidades de não fazer o utilizador perder tempo nas
respostas e facilitar a análise das mesmas explicam esta tendência para a
escolha múltipla. Provavelmente, este argumento está correto. Apenas
constatamos esta realidade, a sua persistência e o seu fechamento à
manifestação endógena.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>DOIS ESPAÇOS DA TÉCNICA – O APOIO TÉCNICO E O
DEPARTAMENTO DE TESTES</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>Abordamos agora dois
domínios em que o grupo de técnicos tem alguma importância: o apoio técnico e o
departamento de testes. Enquanto espaço de relação com o utilizador, o apoio
técnico permite uma aproximação entre os âmbitos de criação tecnológica e de
uso à luz das funcionalidades existentes. É uma plataforma onde as injunções do
utilizador dizem mais respeito às funcionalidades pré-existentes e a problemas
decorrentes da não concretização das mesmas do que a qualquer outro tipo de
interferência.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Em termos de conserto de equipamentos, embora
chegue a tratar de casos no seu interior, a empresa subcontrata uma outra, especializada nesse âmbito.O esforço dos técnicos orienta-se no sentido
de cumprirem o prometido aos utili­zadores. A empresa possui ainda um <i>call center</i> através do qual aceita ­chamadas telefónicas e <i>emails</i>.
Segundo o seu responsável, existem três tipos de contactos de utilizadores:
reclamações; pedidos de informação sobre o funcionamento; e sugestões. Só estas
últimas correspondem a propostas de funcionalidades. As outras duas dizem
respeito ao mau funcionamento das utilizações que são prometidas e, portanto,
aos problemas que aí se inscrevem <i>a posteriori</i>. Apesar de não termos
acesso aos relatos dos utilizadores, como no caso dos fóruns <i>online</i>,
segundo o responsável pelo <i>call center</i>, as
sugestões de novas funcionalidades são muito raras. Além disso, pouco são seguidas – o responsável não sabe precisar quais.
As “queixas” são a participação mais frequente, sobretudo no que se refere à
atualização que o <i>software</i> precisa de fazer
amiúde.</p>

    <p>Das questões lançadas à empresa pelos
utilizadores resulta a fixação de um conjunto de “perguntas frequentes”
disponíveis no sítio da <i>internet</i>. As problemáticas da relação entre o
funcionamento e o uso normalizam-se. São perguntas que previnem problemas que
possam advir da não concretização do idealizado, como instruções sobre a
instalação. </p>

    <p>O departamento de testes, por sua vez, é a
unidade da empresa onde o <i>software</i> é testado antes de ser lançado no
mercado. Tal como as “perguntas frequentes”, previne problemas e erros de
construção de modo a evitar queixas. Centra-se no que ocorre antes de o
artefacto chegar ao utilizador, integrando de forma simulada
a experiência posterior de funcionamento com vista a moldá-la antes do uso.
Para tal, utiliza programas de <i>software</i> que permitem automatizar estes
processos.</p>

    <p>Nas palavras de um responsável deste
departamento:</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <blockquote>    <p>Por vezes, quando há tempo, testamos as queixas
dos utilizadores, mas às vezes são queixas demasiado especializadas, num
documento especial, com um mapa em especial, e às vezes não é possível pôr isso
direitinho [no programa], e por isso comunicamos diretamente com o utilizador,
trocamos <i>emails</i>, e eles ficam agradados por saberem que estamos a olhar
para os problemas deles, mesmo não os corrigindo. Por vezes, quando não têm
razão, procuramos explicar tecnicamente porquê (T1).</p></blockquote>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>Por vezes “há tempo” para testar as queixas dos
utilizadores. Desenvolvendo-se numa programação técnica, a atividade de testes
nem sempre integra as especificidades das queixas. Isto obriga a uma comunicação
direta que serve muitas vezes, como se percebe no relato, para estabelecer uma <i>performance</i> de contacto em lugar de resolver
problemas efetivos. Estes, quando estão presentes neste tipo de departamento
são tipicamente <i>a posteriori</i>, isto é, resultam da não concretização do
prometido. É na aproximação deste ao uso que o departamento trabalha, afincando
na forma como a empresa se propõe. As sugestões dos utilizadores perdem-se nas
margens da automação.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>OS FÓRUNS <i>ONLINE</i> COMO LOCAIS DE CRÍTICA
AOS ARTEFACTOS</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>Tendo em consideração que
vários responsáveis afirmam vigiar formal e informalmente sítios da rede onde
os utilizadores discutem os artefactos, afigura-se importante visionar uma
variedade destes sítios. Acresce que algumas destas plataformas não só exibem intervenções
identificadas de agentes da empresa, como são criadas por esta com o fim de
interagir com o utilizador. De acordo com o nosso convívio com os profissionais
através de entrevistas, sabemos que a maioria destas discussões pouco
influencia a construção do artefacto em termos da criação de funcionalidades de
raiz. Mas estas plataformas são úteis para sondar o nível crítico dos
utilizadores num âmbito que se inscreve nos processos de captação da empresa,
ainda que não haja assimilação das propostas. Permite o acesso a mais de 2000
mensagens de utilizadores.<sup><a href="#3">3</a></sup><a name="top3"></a></p>

    <p>Como é possível observar no <a href="#q1">quadro 1</a>, tipificamos os comentários em 10 categorias. Os mais
importantes são os que dizem respeito a propostas de funcionalidades por parte
dos utilizadores. Representarão problemas <i>a priori</i>. Os pedidos de ajuda
sobre a instalação ou variados, bem como a identificação de erros, inscrevem-se
nos problemas <i>a posteriori</i>, pois referem-se à
não concretização do prometido pela empresa, quer por ignorância do utilizador,
quer por algum problema técnico ou de entendimento mútuo. Os outros casos dizem
respeito a dinâmicas menos problematizadoras, mas que ainda assim nos trazem
alguns dados.</p>

    <p>&nbsp;</p>
<a name="q1">
    <p><img src="/img/revistas/aso/n215/n215a02q1.jpg"></p>
    
<p>&nbsp;</p>

    <p>Tendo em
consideração o grupo dos “fóruns gerais de Portugal”, verificamos que ainda que
o sítio PortalPCC some apenas comentários durante o
período de 1 ano, e o sítio GSMPT o equivalente a 3, os dados são relativamente
idênticos, apesar de persistirem algumas discrepâncias importantes, em grande
medida consequência de filosofias de atuação diferentes. Estes sítios são em
língua portuguesa, mas não se restringem ao português de ­Portugal. Surgem muitas
intervenções em português do Brasil, país onde a NDrive
cresce. Em ambos os sítios, o tipo de comentários predominantes são pedidos de
ajuda sobre o modo como se podem atualizar ou instalar <i>software</i> e mapas NDrive, sobretudo em telemóveis. Outros pedidos de ajuda
­diferenciados são o segundo tipo de comentário mais
numeroso. Surgem num espectro que compreende desde questões sobre a leitura dos
cartões de memória ao funcionamento do som ou à falta de sinal de satélite. Os
outros comentários têm números residuais. Assim, é possível verificar que os
mais frequentes se enquadram na não realização de funcionalidades prometidas
pela empresa, muitas vezes por falta de acesso conveniente às descrições de
funcionamento – manuais e afins. O PortalPCC exibe um
conjunto de propostas de funcionalidades por parte dos utilizadores que no
outro sítio estão ausentes. Pela sua importância, tratamos esta questão um
pouco mais à frente, quando analisarmos o conjunto dos resultados.</p>

    <p>O segundo grupo em análise é o que compõe sítios
controlados na sua totalidade pela empresa. Ao contrário dos dois anteriores,
estes são bastante diferentes entre si nos dados. Quanto aos tipos de
comentários, no <i>Facebook</i> dominam os informativos e promocionais.
Diferentemente, no sítio Beta-tester predominam identificações de erros e
propostas de funcionalidades por parte dos utilizadores. É o sítio, dos
analisados, onde estes dois tipos de comentários mais aparecem.</p>

    <p>O terceiro conjunto é constituído por quatro
sítios exibidos no <a href="#q2">quadro 2</a>. Dizem respeito a marcas
de plataformas móveis em relação às quais a empresa torna o seu <i>software</i>
compatível. Em comparação com os outros sítios, estes possuem menos
participações, sobretudo o Badaforums e o Allaboutsymbion. Nos dois menos
participados citados predominam os comentários com pedidos de conselhos e de
comparações com outras aplicações, nomeadamente de navegação. Um utilizador com
o nome “Xume” coloca a seguinte mensagem: “olá a todos. O meu primeiro <i>post</i>… :) Estava à procura de uma aplicação para navegação para o
meu novo Wave e deparei-me com isto: <a
href="http://www.ndriveweb.com/<i>software</i>-bada/" target="_blank">http://www.ndriveweb.com/<i>software</i>-bada/</a>
[…]; é algo a considerar ou a esquecer? Tenho a Route 66 instalada mas só posso
usá-la se pagar”.<sup><a href="#4">4</a></sup><a name="top4"></a> Nesta mensagem, o utilizador questiona outros utilizadores sobre a
qualidade do <i>software</i> NDrive, estabelecendo uma comparação implícita com
outras marcas ao nível do preço. Este é um processo muito importante e comum,
pois coloca os artefactos e as funcionalidades numa plataforma concorrencial
produzida no campo expressivo do uso, isto é, não se quedando no interior da
indústria. Algo a que os agentes da empresa estão atentos e a que procuram
responder no desenvolvimento. Isto resulta principalmente em imitações da concorrência.
Por isso, ainda assim é uma dinâmica que permanece no quadro da produção.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<a name="q2">
    <p><img src="/img/revistas/aso/n215/n215a02q2.jpg"></p>
    
<p>&nbsp;</p>

<a name="f1">
    <p><img src="/img/revistas/aso/n215/n215a02f1.jpg"></p>
    
<p>&nbsp;</p>


    <p>Os fóruns das plataformas Android e iPhone são mais participados, talvez por serem de marcas com
maior sucesso comercial. No Androidforums predominam os pedidos de ajuda para
atualizações e instalações. Um sítio em que os artefactos NDrive
têm algum sucesso, com um nível baixo de críticas e muita atividade. No
Macrumors a situação é diferente. Curiosamente, não existem pedidos de ajuda
sobre atualizações e instalações, mas existem bastantes críticas e alguns
pedidos de informações, bem como comparações com outros sistemas de navegação.
Um aspeto que se deve a mal-entendidos entre a empresa e os utilizadores quanto
a algumas funcionalidades prometidas.</p>

    <p>Observando a soma dos fóruns, é visível como as
atualizações/instalações, informações/promoções e outras ajudas dominam as
temáticas com uma percentagem somada de 67%. Como referimos, estes comentários
fazem-se no âmbito dos problemas <i>a posteriori</i> e numa relação replicativa
com aquilo que a empresa promete e anuncia. Não obstante, existem algumas
propostas dos utilizadores, ainda que poucas, que não se reduzem à não conformidade com o publicitado. À semelhança da identificação
de erros, perfazem 5%. Os únicos sítios que apresentam um número relevante de
propostas deste tipo, e que produzem diálogo sobre as mesmas, são os sítios PortalPCC e Beta-tester. Estes possuem algumas
especificidades que não podemos ignorar. No caso do ­PortalPCC,
o número notável que se apresenta – cerca de 10% – não corresponde a um hábito
enraizado nos participantes. A sua presença resulta da iniciativa de um único
utilizador, de nome “josé_ribeiro”, que escreve uma mensagem de incentivo às
mesmas.<sup><a href="#5">5</a></sup><a name="top5"></a> O sítio Beta-tester, por sua vez, servindo especialmente para estas
intervenções, atrai os utilizadores-líder, não se podendo dizer, portanto, que
os seus números, ainda mais volumosos – 33,9% – sejam representativos da
maioria dos intervenientes. Por estas razões, propor funcionalidades, ou
revelar problemas <i>a priori</i>, são aspetos que não
ocorrem com um grande nível de iniciativa ou variação, quer na quantidade de
pessoas, quer de sítios, comparando com os outros tipos de comentários.</p>

    <p>Apesar do seu caráter minoritário, estes
comentários não perdem relevância. É neles que se encontra a problematização do
quotidiano e respetivos processos de “solução” para lá daquilo que é lançado
pela empresa. Olhemos alguns exemplos com mais detalhe. No sítio PortalPCC a mensagem que provoca as outras propostas é a
seguinte:</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <blockquote>    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Deixo aqui um tópico onde cada um poderá deixar
ideias de novas funcionalidades que o <i>software</i> NDrive
deverá incorporar no futuro. Acho que como a NDrive
atualiza o <i>software</i> de forma gratuita [até então], quanto mais nós
deixarmos ideias de novas funcionalidades, melhor vamos ser servidos no futuro.</p>

    <p>Já agora, fica aqui uma sugestão de uma nova
funcionalidade, que penso será extremamente útil para quem tem os destinos
profissionais fora de estrada, como eu. No modo fora de estrada, indicar em
linha reta […] a distância que falta até […] [à estrada mais próxima]. Eles já
têm a reta a indicar a direção da estrada mais próxima, mas seria importante
também a indicação da distância a que estamos da estrada, assim era mais fácil
saber se dá para ir a pé o restante, ou não.</p></blockquote>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>Depois de incentivar os outros utilizadores a
participarem, o utilizador em causa problematiza a sua utilização do artefacto
de navegação, imaginando uma solução para o seu problema <i>a priori</i>. Neste
sentido, mostra uma pragmática do quotidiano. Para entendermos este texto há
que aceder aos seus pressupostos. Ao referir-se à opção “modo fora de estrada”
designa o “modo aventura” – esta funcionalidade, apontando um destino sem
indicação de estrada, torna-se apropriada para caminhos baldios. Afirma fazer
um uso profissional de algo expresso de forma desportiva por parte da empresa.
Por vezes, os usos deslocam-se em relação às expectativas da empresa. Ainda que
a partir de uma funcionalidade já existente, o utilizador imagina um acréscimo.
Este consiste, nas suas palavras, na “indicação da distância a que estamos da
estrada” mais próxima em relação a um destino marcado. Apesar de já existir uma
reta a indicar a direção, o utilizador gostaria de lhe adicionar a distância. A
possibilidade que oferece também é expressa: “era mais fácil saber se dá para
ir a pé o restante”. Como em muitos casos, o problema aparece implícito. Pela
negação, percebe-se que reside na dificuldade em saber se vale a pena ou não
caminhar a partir de um percurso mais próximo para um dado destino fora de
estrada. O problema, como é de esperar, surge antes da idealização de uma nova
funcionalidade, pois produz-se no uso que a implica
(ou mesmo na sua imaginação pré-ação, podemos especular) e antes do
desenvolvimento, visto não existir à data uma opção correspondente no
artefacto.</p>

    <p>No sítio Beta-tester, um utilizador, sob o
pseudónimo “roel_v”, afirma: “gostaria de ver um botão adicionado aos meus
contactos, tipo ‘Navegar para’,que iniciaria o NDrive
e o colocaria a navegar para esse destino”.<sup><a href="#6">6</a></sup><a name="top6"></a> Esta idealização propõe um acesso à navegação para um determinado
local colocado diretamente na lista de contactos do telemóvel. Mais uma vez o
problema está implícito em pano de fundo: são necessários demasiados gestos
para navegar para um destinatário presente na lista de contactos telefónicos.
Portanto, é possível imaginar, idealizar, uma solução que reduza a quantidade
de movimentos, um aspeto muito presente nestas construções. Como noutros casos
neste sítio, a resposta do administrador da NDrive é a
seguinte: “reportámos esta sugestão, espere por mais informações”.</p>

    <p>Não tivemos
informação de que qualquer sugestão tenha sido assimilada pela empresa no tempo
da nossa análise. Todavia, vemos como existe capacidade crítica nos
utilizadores para lá do quadro de funcionalidades lançadas pela empresa, ainda
que sempre numa relação com estas. Vejamos agora uma interação mais física
entre a empresa e o utilizador na construção de tecnologia.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>CONTACTOS DIRETOS, INDIVÍDUOS PRÓXIMOS E OS PRÓPRIOS</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>Além das plataformas
descritas, esta organização procura que a fisicalidade do uso se coloque no
interior do desenvolvimento. As estratégias mais comuns desta aproximação
física são a relação com indivíduos próximos e o uso que os próprios fazem dos
artefactos. Raramente, mas por vezes, é o utilizador quem se desloca à empresa
para resolver problemas, não sendo incentivado a isso. Amiúde, existem outros
contactos diretos, mas não há uma sistematização desta relação. As mediações
predominam.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Com a máxima proximidade possível como objetivo,
ocorre um contacto com o utilizador que é familiar, no sentido literal. Muitos
dos responsáveis da empresa afirmam que, ainda numa fase “protótipo”, o
artefacto é emprestado a familiares e amigos com o intuito de ser experimentado
e criticado de forma a fornecer pistas ao desenvolvimento sobre a qualidade das
funcionalidades projetadas. Por exemplo, um dos responsáveis de <i>marketing</i>
indica que o seu pai é muitas vezes um utilizador deste tipo. Da utilização
deste septuagenário resulta a informação de que as letras do ecrã e os botões
de um dado artefacto são demasiado pequenos. A vivência do quotidiano de
utilização com os mais próximos ajuda a aceder a uma compreensão do uso. Uma
experiência que permite chegar a sugestões de transformação – um uso que
informa a construção. Contudo, isto continua a fazer-se em relação a
funcionalidades propostas pela empresa e não numa plataforma aberta a sugestões
dos utilizadores. Quando um utilizador diz que as letras são pequenas,
refere-se às letras apresentadas. As grandes, como alternativa, são apenas uma
diferença quantitativa.</p>

    <p>A estes aspetos acresce o óbvio: também os
técnicos e os <i>marketeers</i> experimentam o artefacto. No desenvolvimento,
todos os intervenientes tendem a usar as funcionalidades que estão em
configuração. Qualquer construção de um artefacto técnico é acompanhada por
esta componente. Os profissionais procuram colocar-se no papel dos
utilizadores, aliando os conhecimentos especializados aos de uso. Estes agentes
da empresa também são agentes do quotidiano, é certo. Participam no âmbito do
uso. Mas esta relação, no que aos artefactos NDrive
diz respeito, é condicionada pelos propósitos específicos da empresa e dos seus
quadros de produção. Persiste uma tensão entre o papel empresarial e o uso que
não permite um acesso do profissional ao espaço de quotidiano endógeno em
termos da vivência de problemas.</p>

    <p>Perante as limitações na aproximação descrita, a
organização faz algo que classificamos como “precipitação sobre o uso”, num
processo mais rápido e barato do que a interferência aberta. A impossibilidade
deste contacto efetivo resulta num exercício de esforço, por vezes corporal,
que atravessa as idealizações de funcionalidades e os fóruns de interação com o
uso, mas também alguns processos de trabalho dos técnicos. Incide, em
particular, nos próprios profissionais. Uma das formas deste tipo de
precipitação é a representação do utilizador.</p>

    <p>Nesta empresa, os profissionais tendem a
representar um utilizador-tipo. Nas palavras de um <i>marketeer</i>, o
utilizador final “tem que ser a pessoa mais normal” (M4). Um dos técnicos
acrescenta que “é o utilizador que não perceba muito de informática” (T5). O
utilizador que se imagina, portanto, em termos de conhecimentos e gestos
plausíveis, não é um especialista, não estando ao mesmo nível dos técnicos e
até dos <i>marketeers</i> em termos de conhecimentos sobre o funcionamento.
Esta imaginação exige que os criadores saiam de si mesmos e, por assim dizer,
se coloquem no corpo imaginado do utilizador. Há uma precipitação sobre o
quadro de uso, isto é, um quase-ser aquele que usa,
que obriga cada um a deixar um pouco de ser quem é, pelo menos naquilo que não
o deixa ser o utilizador – os conhecimentos e gestos plausíveis num
especialista podem impedir a representação dos conhecimentos e gestos
plausíveis no utilizador-tipo. O que é óbvio para os técnicos nem sempre o é
para o utilizador, como reconhece um dos engenheiros (T3). Outro afirma estarem
“um bocado viciados na forma de utilizar” (T1). Por esta razão, reforça um
terceiro, na linha do contacto com os próximos, “pedimos a outras pessoas para
experimentarem para termos noção se é complicado ou não” (T2). É por isso que a
empresa exibe numa das paredes da sala de desenvolvimento a frase “não é o que
o <i>software</i> faz, é o que o utilizador faz”. Uma sugestão de transferência
da fixação do trabalho na <i>performance</i> do
artefacto para a <i>performance</i> do utilizador quando interage com as
funcionalidades.</p>

    <p>Uma das formas que os profissionais encontram
para criar uma relação simbiótica entre o artefacto e o utilizador, no que o
corpo deste é um fator central, em sequência de uma representação, é através da
criação de funcionalidades simples e intuitivas. Das entrevistas entende-se que “simplicidade” e “utilização intuitiva” são
conceitos mais ou menos pares, coniventes e complementares. A noção de simplicidade
remete para o destaque do essencial em detrimento do secundário – “libertar
espaço para informação mais vital” (M3), no dizer de um <i>marketeer</i>. A
ideia será evitar o “canivete suíço onde nada funciona particularmente bem”
(T1), como afirma um engenheiro. Aquilo a que chamamos “utilização intuitiva”,
por sua vez, e alguns responsáveis designam como “intuição” ou uso “natural”,
expressa a noção de que os artefactos têm de permitir uma
certa continuidade entre as funcionalidades e o utilizador, a qual se dá
tanto ao nível simbólico, enquanto informante do funcional, como em termos de
possibilidades corporais, contíguas às funcionalidades dos artefactos. A visão
é a de que o utilizador tenha poucos desafios simbólicos e corporais – “o NDrive é um <i>software</i> que no limite a gente não
precise de olhar para ele” (M4), como refere um dos <i>marketeers</i>.</p>

    <p>Explicando um pouco melhor esta utilização
intuitiva, quando mencionamos uma continuidade ao nível simbólico, referimo-nos
ao reconhecimento do campo simbólico paradigmático que qualquer utilizador tem
de empreender quando lida com um artefacto tecnológico com um
<i>interface</i> tão marcado por registos simbólicos de acesso a
funcionalidades. A linguagem e os símbolos no ecrã têm que ser reconhecíveis
pelo utilizador para que ele os possa usar. Entre os comentários em fóruns na <i>internet</i>,
há um caso em que um utilizador se queixa de aparecerem no ecrã vários pontos
de interrogação (“?????”) nos lugares onde deviam
estar palavras. Algo que não seria de esperar, portanto, uma
funcionalidades prometida implícita, não concretizada ao nível
­simbólico. Este não reconhecimento é uma falha na continuidade simbólica entre
o artefacto e o utilizador. Quando aparecem os símbolos de uma seta na opção
navegar ou de uma lupa na de procurar, estamos igualmente neste âmbito, mas sem
falhas. Estas inscrições participam nos quadros comuns de entendimento.</p>

    <p>Em termos corporais também se exige um
reconhecimento. O tamanho do artefacto deve poder ser segurável com as mãos ou
acomodável no bolso. Como diz um dos responsáveis citados (M4), a “caneta” é
menos “natural” do que o toque do dedo, o qual parece mais contínuo. A redução
do número de interações necessárias para fazer determinada função pretende
também contribuir para que haja uma relação mais imediata com o artefacto
tecnológico, com menos movimentos intermediários. As possibilidades do corpo
devem reconhecer as possibilidades do artefacto. Um efeito cascata deve ocorrer
entre os dois polos, criando-se uma extensão do sistema tecno-humano.</p>

    <p>Não partimos do pressuposto de que os símbolos
paradigmáticos e os gestos considerados “naturais” resultam de qualquer
essencialismo a que os indivíduos pretendam chegar para um uso ótimo. É mais
correto afirmar que se lida com estabilizações simbólicas e corporais
produzidas sociobiologicamente.<sup><a href="#7">7</a></sup><a name="top7"></a> A língua e o corpo são esferas que se sujeitam aos novos usos da
escrita, como as mensagens “sms”, e aos novos gestos do corpo, como o uso do
rato. São estruturas dinâmicas que ora estabilizam, ora se modificam. Por
exemplo, nas palavras de um dos técnicos da empresa: “não é suposto que uma
funcionalidade funcione de maneira radical em relação ao que o utilizador está
à espera. Se ele faz ‘procurar’, é suposto aparecer de seguida o que ele está a
procurar” (T3). Há uma vigilância àquilo que o utilizador está à espera – aos
usos simbólica e gestualmente estabilizados – bem como uma consequente tentativa
de transformação desses usos mediante funcionalidades prometidas. Estas devem
ser suficientemente próximas dos usos para serem reconhecidas, mas diferentes
para serem inovações ou representarem incentivos à compra.</p>

    <p>Em termos da descrição dos pontos de contacto
entre produção e consumo ficamos por aqui. Porém, outras empresas, enquanto
clientes empresariais em lugar de utilizadores, acabam
por ter um papel importante. Estas organizações têm mais influência sobre o
artefacto do que os utilizadores finais, embora por vezes resgatem para si a
ideia de que representam os<i> seus</i> utilizadores. São empresas que ou
associam uma nova marca ao artefacto, ou o vendem como NDrive.
Têm por vezes uma ação direta no desenvolvimento, exigindo novas
funcionalidades sob pena de não se efetuarem grandes
encomendas, muitas delas imitações da concorrência visando uma equivalência.
São ocorrências que evidenciam uma estrutura dinâmica de construção dos
artefactos muito mais interempresarial do que em relação com o utilizador final.</p>

    <p>Em confronto com o mencionado no início quanto à
suposta incapacidade de imaginar funcionalidades por parte dos utilizadores,
novas razões são avançadas por um dos responsáveis técnicos: “muitas vezes
aparecem umas sugestões [dos utilizadores] […] às quais acabamos por não dar
grande seguimento porque é muita dispersão […] Se formos ver, em média a
sugestão do utilizador é boa, a empresa não terá é a capacidade…” (T4). Esta
explicação vem rejeitar o argumento segundo o qual os utilizadores não conseguem
imaginar novas funcionalidades e junta-se às
evidências encontradas nos fóruns <i>online</i>, em que vários mostram saber
fazê-lo. Portanto, mesmo não existindo muitas propostas, elas ocorrem. O
problema é que implicam um desvio excessivo ao previsto. A empresa não tem
recursos para deixar o seu caminho para entrar no do utilizador. É necessário
sustentar uma coerência interna, a qual interfere com o tipo de funcionalidades
que a empresa procura concretizar. As que advêm do utilizador possuem a
particularidade de, para se efetivarem, terem que
“exigir poucas alterações”, nas palavras deste último engenheiro referido. As
propostas incorporadas no desenvolvimento são também as que dificilmente afetam
planos traçados.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>

    <p><b>CONCLUSÃO</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>Com este artigo
procuramos verificar a influência do utilizador na construção de tecnologia na
empresa NDrive. Verificamos que as funcionalidades que
a firma constrói resultam sobretudo de processos
originados na produção. Contudo, as interseções com o uso não são desprezadas.
Ocorrem por diversos meios: pesquisas de mercado; apoio técnico e departamento
de testes; fóruns <i>online</i>; contactos diretos, na relação com indivíduos
próximos dos responsáveis da empresa e através do que os próprios profissionais
fazem com os artefactos, projetando o uso. Estas relações com o utilizador
centram-se em problemas <i>a posteriori</i>, isto é, naqueles que resultam do
quadro de propostas da empresa, e não de qualquer estado prévio ou diferenciado
à produção, a que chamamos problemas <i>a priori</i>. Em geral, dizem respeito à não conformidade entre o prometido e o uso.</p>

    <p>Em contraponto a esta centralização na produção
dos processos de inovação, a empresa procura fixar-se no utilizador. Vê neste
uma condição para o seu sucesso, a que não será alheio o facto de ser uma
organização que nasce da iniciativa de um profissional do <i>marketing</i>, e
de reproduzir o discurso clássico desta disciplina no que à orientação ao
consumo diz respeito. Por isso, a empresa precipita-se sobre as práticas de uso
à procura de pistas para a criação de tecnologia. Identificamos vários
processos através dos quais o faz, sobretudo
relacionados com os contactos diretos, com os próximos e através dos próprios:
representando o utilizador e os seus usos, bem como procurando criar
funcionalidades simples e intuitivas. Este esforço não atinge o caráter
endógeno da manifestação do uso, no que as expressões espontâneas e voluntárias
seriam centrais, centrando-se na provocação e simulação, portanto, na
precipitação sobre os modos de usar.</p>

    <p>Da análise dos fóruns <i>online</i> resulta a
identificação de propostas de funcionalidades por parte dos utilizadores. Estas
expressões, à luz da temporalidade em análise, não têm influência significativa
sobre os artefactos. Mas a sua existência mostra uma capacidade crítica,
colocando em causa o argumento comum, e utilizado por muitos dos profissionais,
de que o utilizador tem pouca competência imaginativa no que diz respeito à
tecnologia. A perspetiva que ganha peso é a de que a empresa não assimila as
participações nos termos propostos porque não tem recursos. As exceções a esta
regra são funcionalidades tecnicamente pouco desafiantes. Implicam alterações
mínimas e pouco exigem por parte da empresa. São então casos que reforçam o
argumento da falta de recursos.</p>

    <p>Estas conclusões vêm favorecer as visões que
afirmam que a construção tecnológica tende a fixar-se nos processos de
produção. O utilizador, a participar na dinâmica de criação de novas
funcionalidades, fá-lo muito mais longe do desenvolvimento e com intervenções
demasiado complementares para que se possa considerar um efetivo agente de
criação de tecnologia. Isto não implica que o desenvolvimento seja linear. A
participação do utilizador nos melhoramentos e na manutenção dos artefactos
oferece uma certa circularidade à dinâmica. Contudo,
esta não é suficientemente profunda para assimilar propostas de raiz. Com este
caso julgamos fornecer um conjunto de indícios e conceitos capazes de fazerem
uma crítica a discursos que assumem apressadamente a
narrativa do “prosumer”. As empresas e o <i>marketing</i> projetam um discurso
que articula as novas tecnologias com a emergência de um utilizador mais
participativo na criação tecnológica. Todavia, no que ao campo material diz
respeito, isto é, em termos de funcionalidades, a interferência pode ser pouco
mais do que simbólica e integrada num quadro de materialidade lançado pela
produção. A saída deste quadro implica a marginalização do uso em relação ao
processo produtivo e às construções mais radicais. É certo que assistimos a uma
deslocação da produção para o consumo de muitas das práticas de interferência
na criação tecnológica. Mas sublinhar demasiado esta deslocação parece ser
ainda uma hipérbole em relação às práticas que vamos vislumbrando.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS</b></p>

    <p>&nbsp;</p>



    ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>ALONSO,
L.E. (2006), <i>La Era del Consumo</i>, Madrid, Siglo XXI.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000113&pid=S0003-2573201500020000200001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>BAUMAN,
Z. (2008), <i>A Vida para Consumo: a Transformação das Pessoas em Mercadoria</i>,
Rio de Janeiro, Zahar.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000115&pid=S0003-2573201500020000200002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>BAUDRILLARD,
J. (1981),<i> Para uma Crítica da Economia Política do Signo</i>, trad. de
Aníbal Coutinho, Lisboa, Edições 70.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000117&pid=S0003-2573201500020000200003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>BOURDIEU, P. (1979), <i>La Distinction: critique sociale du jugement</i>,
Paris, Minuit.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000119&pid=S0003-2573201500020000200004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>BOUTANG, Y.M.
(2007), <i>Capitalisme </i><i>cognitif:
la nouvelle grand transformation</i>, Amsterdão, Éditions Amsterdam.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000121&pid=S0003-2573201500020000200005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><i></i></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>COWAN, R. (1989), “The consumption junction: a
proposal of research strategies in the sociology of technology”.<i> In</i> W. Bijker, T.P. Hughes e T.J.
Pinch<i> </i>(orgs.), <i>The Social Construction of Technological Systems: New
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    <!-- ref --><p>GALBRAITH, J.K.
(1958), <i>The</i><i> Affluent Society</i>, Boston,
The Riberside Press Cambridge.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000125&pid=S0003-2573201500020000200007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <p>GARCIA,
J.L. (2012) “El discurso de la
innovación
en tela de juicio: tecnología,
mercado y bienestar humano”. <i>Arbor: Ciencia,
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    <!-- ref --><p>GOBLOT,
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    <!-- ref --><p>HABERMAS,
J. (2009 [1968]), <i>Técnica e Ciência como “Ideologia”</i>, trad. de Artur
Morão, Lisboa, Edições 70.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000130&pid=S0003-2573201500020000200010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>HORKHEIMER, M., ADORNO, T.W.
(2002 [1944]), <i>Dialectic of Enlightenment: Philosophical Fragments</i>, trad. de Edmund Jephcott, Stanford, 
Stanford University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000132&pid=S0003-2573201500020000200011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>HIPPEL, E. von (2006), <i>Democratizing
Innovation</i>, Massachusetts, The MIT Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000134&pid=S0003-2573201500020000200012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>MARCUSE, H. (1968), <i>One-Dimensional Man: Studies in
The Ideology of Advanced Industrial Society</i>, Boston, Beacon Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000136&pid=S0003-2573201500020000200013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>MAUSS, M. (1973 [1934]),
“Techniques of the body”. <i>Economy and Society</i>, 2
(1), pp. 70-88.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000138&pid=S0003-2573201500020000200014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>MILLER, D. (2006), “Consumption”. <i>In</i>
C. Tilley <i>et al</i>. (orgs.), <i>Handbook of Material Culture</i>, Londres, SAGE, pp. 341-355.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000140&pid=S0003-2573201500020000200015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>TOFFLER, A. (1980), <i>The</i><i>
Third Wave</i>, Nova &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000142&pid=S0003-2573201500020000200016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>TOURAINE,
A. (1994), <i>Crítica da Modernidade</i>, trad. de Élia
Ferreira Edel, Lisboa, Instituto ­Piaget.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000144&pid=S0003-2573201500020000200017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>VEBLEN, T. (2007 [1899]), <i>The</i><i>
Theory of the Leisure Class</i>, Oxford, Oxford University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000146&pid=S0003-2573201500020000200018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>WORKMAN, J. (1993), “Marketing’s limited role in new
product development in one computer systems firm”. <i>Journal</i><i> of
Marketing Research</i>, 30 (4), pp. 405-421.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000148&pid=S0003-2573201500020000200019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>Recebido a 27-04-2014.
Aceite para publicação a 17-10-2014.</p>

    <p>&nbsp;</p>


    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>NOTAS</b></p>

    <p><sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></sup>Centramos a pesquisa no
período entre 2007 e 2010. As entrevistas realizaram-se ao longo de 2010 e
2011. Os entrevistados são codificados através de letras: a “M” para designar
profissionais da área do <i>marketing</i>, entendido em termos latos (aqui
cabem responsáveis pela área comercial em geral); e a “T” para referir
indivíduos da área técnica. Os números acrescentados às letras diferenciam os
agentes dentro do mesmo grupo.</p>

    <p><sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></sup>Este tipo de perspetivas
surge por vezes nos quadros socioprofissionais, que constituem os diferentes
papéis. Os profissionais de <i>marketing</i> tendem a considerar que os
engenheiros não são capazes de compreender o mercado, enquanto estes tendem a
ver os profissionais de <i>marketing</i> como incompetentes em termos técnicos
(v. Workman, 1993). Cairá, por vezes, sobre o utilizador o mesmo tipo de
preconceito.</p>

    <p><sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></sup>Dividimos os sítios da <i>internet</i>
analisados em 3 grupos: os de Portugal, cujas
temáticas são variadas, mas centradas nas tecnologias de informação e
comunicação (“www.portalpcc.com” e o “www.gsmpt.net”); os criados e dirigidos
pela empresa, logicamente focalizados nas suas atividades (página no <i>Facebook</i>
e “beta.ndrive.com”); e plataformas especializadas em diversas marcas de
tecnologias móveis, nas quais a NDrive tem aplicações (“www.badaforums.net”,
“www.allaboutsymbian.com”, “www.androidforums.com” e “www.macrumors.com” – a
primeira diz respeito aos sistemas móveis da Samsung; a segunda, da Nokia; a
terceira, da Google; e a última, da Apple).</p>

    <p><sup><a name="4"></a><a href="#top4">4</a></sup>No dia 15-09-2010.</p>

    <p><sup><a name="5"></a><a href="#top5">5</a></sup>Com isso provoca a maioria
dos comentários somados, muitos deles do próprio, entre 27-04-2009 e
17-02-2010.</p>

    <p><sup><a name="6"></a><a href="#top6">6</a></sup>No dia 15-11-2010.</p>

    <p><sup><a name="7"></a><a href="#top7">7</a></sup>Para uma abordagem à
questão de como o corpo e os seus gestos têm uma dimensão social e cultural, v.
Mauss (1973 [1934]).</p>



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