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<country>Brasil</country>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Territorial governance usually exists in contexts of social complexity and multi-scalar relations deriving from challenges facing the practical applications of planning and management processes. Following a theoretical framework review, we highlight those that may be considered foundational principles of territorial governance practices, and incorporate them in a proposal for a methodology based on the knowledge and perception of the actors involved to evaluate Brazilian and Portuguese experiences. Results suggest enquiring into the theoretical scope: is the territorial governance a reality? We conclude with suggestions for future avenues of research that seek to elucidate this question based on a wider spectrum of organizations and territorial contexts.]]></p></abstract>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[governança territorial]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[desenvolvimento territorial]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[gestão pública]]></kwd>
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<kwd lng="en"><![CDATA[territorial governance]]></kwd>
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<kwd lng="en"><![CDATA[territory]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ 

    <p align="right"><b>ARTIGO</b></p>

    <p><b>Governança territorial: do debate
teórico à avaliação da sua prática</b> </p>

    <p><b>Territorial governance: from the theoretical debate to
evaluation of their practice</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>Valdir Roque
Dallabrida*</b></p>

    <p>*Universidade do Contestado, Santa Catarina, Rua Roberto Ehlke,
86, Centro, Canoinhas —
CEP 89460-000, Santa Catarina, Brasil. E-mail: <a href="mailto:valdirroqued897@gmail.com">valdirroqued897@gmail.com</a></p>

    <p>&nbsp;</p>


    <p><b>RESUMO</b></p>

    <p>A
governança territorial, como processo de planeamento e gestão de dinâmicas
territoriais, transcorre em contextos de sociedades complexas, conflituosas e
regidas por processos multiescalarmente interpenetrados, implicando desafios na
sua prática. Com base em referenciais teóricos diferenciados, destacamos
aqueles que podem ser considerados os princípios-chave de práticas qualificadas
de governança territorial, utilizando-os na elaboração de uma proposta
metodológica de avaliação de experiências brasileiras e portuguesas a partir da
visão dos atores envolvidos. Os resultados da pesquisa sugerem um
questionamento fundamental: até que ponto o padrão de governança territorial
proposto teoricamente tem tradução em termos de realidade factual? O texto
termina sugerindo linhas de pesquisa futuras que procurem elucidar essa
questão, tendo como referência um universo mais amplo e diversificado de
organizações e de contextos territoriais.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>PALAVRAS-CHAVE</b>: governança territorial;
desenvolvimento territorial; gestão pública; território.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>ABSTRACT</b></p>

    <p>Territorial governance usually exists in contexts of
social complexity and multi-scalar relations
deriving from challenges facing the practical applications
of planning and management processes. Following a theoretical
framework review, we highlight those that may be considered
foundational principles of territorial governance practices,&nbsp;and
incorporate them in a proposal for a methodology based on the
knowledge and perception of the actors involved to evaluate Brazilian and
Portuguese experiences. Results suggest enquiring into the
theoretical scope: is the territorial governance a
reality? We conclude with suggestions
for future avenues of research that seek to elucidate this
question based on a wider spectrum of organizations and territorial
contexts.</p>

    <p><b>KEYWORDS</b>:
territorial governance; territorial development; public management; territory.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>INTRODUÇÃO</b><sup><a href="#1">1</a></sup><a name="top1"></a></p>

    <p>Nos estudos relativos a
esta investigação foi proposto analisar a situação, os desafios e as
possibilidades de avanços nas práticas de tomada de decisão que ocorrem nas
experiências de governança territorial, entendidas como processos de
planeamento e gestão de dinâmicas territoriais.</p>

    <p>Muitos são os autores que se propõem definir
governança. Outros, em menor número, definem de forma mais específica
governança territorial. Recorrendo à bibliografia sobre estes temas, e
considerando as várias abordagens teóricas existentes, é possível sistematizar
um conjunto de princípios constituintes de práticas qualificadas de governança
territorial. Identificados tais princípios, surgiu uma dúvida, que motivou a
presente investigação: como são estes princípios aplicados nas práticas de
governança territorial? Por outras palavras, que aproximações ou discrepâncias
existem entre a teoria e a prática?</p>

    <p>Por se considerar esta questão relevante,
assumiu-se o desafio de elaborar uma proposta metodológica para avaliação de
práticas de governança territorial e aplicá-la, de uma forma experimental, em
experiências do Brasil e de Portugal. A proposta baseia-se num conjunto de
questões que sintetizam as componentes analíticas sobre governança territorial
destacadas na bibliografia consultada, com vistas a avaliar práticas do ponto
de vista dos atores envol­vidos.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Na sua aplicação, a proposta metodológica mostrou
ser um instrumento adequado para os objetivos a que se propunha. Analisando as
respostas do inquérito efetuado para esse efeito, percebe-se que, apesar da
predominância de posicionamentos otimistas, vários desafios estão presentes nas
diferentes práticas de governança territorial analisadas, pois um número
significativo de respostas apresenta avaliações de discordância.</p>

    <p>Inicia-se o texto com uma síntese do debate
teórico sobre governança territorial. Na sequência, justificam-se os estudos de
caso, efetua-se a caracterização da amostra e explicitam-se os procedimentos
metodológicos utilizados. Como terceiro momento, é esboçada uma proposta
metodológica, a que se segue o relato dos resultados e a sua análise.
Finaliza-se o texto com reflexões suscitadas pelos resultados da investigação,
e com alguns apontamentos sobre novos estudos a desenvolver no futuro.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>O DEBATE TEÓRICO SOBRE
GOVERNANÇA</b></p>

    <p><b>&nbsp;</b></p>

    <p>Na bibliografia mais
relevante sobre este tema, algumas abordagens fazem referência à governança, no
seu sentido geral<sup><a href="#2">2</a></sup><a name="top2"></a>, enquanto outras demarcam a sua dimensão territorial, ou seja,
referem-se à governança territorial.<sup><a href="#3">3</a></sup><a name="top3"></a> ­Sintetizam-se aspetos do debate teórico contemporâneo com dois
propósitos. O primeiro prende-se com a contextualização teórica e prática do
que convencionamos chamar governança e governança territorial. O segundo visa
tomar como referência a noção e as componentes analíticas destacadas por
diferentes autores, com o fim de elaborar uma proposta metodológica que possa
ser utilizada na avaliação de práticas de governança territorial.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>UMA SÍNTESE DO DEBATE TEÓRICO</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>Em geral, as diferentes
abordagens estão focadas em três aspetos: (a) noção de governança; (b)
propósitos da governança; (c) desafios na sua prática.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Sintetizando contribuições dos principais
autores, o conceito de governança, no seu sentido geral, refere-se às redes
auto-organizadas envolvendo conjuntos complexos de organizações, instituições e
atores provenientes dos setores público e privado (Rosenau e Czempiel, 1992),
como representantes do setor empresarial, dos sindicatos de trabalhadores, da
sociedade civil, dos movimentos populares e agentes estatais (Kazancigil,
2002), agindo num processo interativo (Stoker, 1998), cujas interações estão
enraizadas e reguladas por regras do jogo negociadas e acordadas pelos seus
participantes (Rhodes, 1996). Trata-se de processos de tomada de decisão ou
espaços de prestação de conta (Weale, 2011) relativamente horizontais, como um
novo modelo de regulação coletiva e de fazer política (Blanco e Comà, 2003;
Graña, 2005), ou seja, uma forma de governar mais cooperativa, diferente do
modelo hierárquico em que as autoridades estatais exercem um poder soberano
sobre os grupos e cidadãos que constituem a sociedade civil (Mayntz, 1998).
Tais processos podem ser concebidos também como instrumento para conceber os
problemas e as oportunidades em contextos que se posicionam na fronteira entre
o social e o político (Kooiman, 2004). Apesar de se tratar de uma relação
relativamente horizontal de atores interdependentes, ela é funcionalmente
autónoma (Sørensen e Torfing, 2005). Em geral, tais processos estão focados em
áreas setoriais ou funcionais específicas, contribuindo para a formulação de
políticas públicas (Héritier e Lehmkuhl, 2011).</p>

    <p>Já sobre a noção de governança territorial, os
autores consultados referem-se a processos de articulação de atores sociais,
económicos e institucionais em redes de poder socioterritorial (Dallabrida e
Becker, 2003), com vista ao planeamento, tomada de decisão e gestão dos
assuntos públicos (Farinós, 2008; Dallabrida, 2006, 2007 e 2011), como um modo
de organização da ação coletiva e estruturação de coligações orientadas em
direção a um objetivo comum (ESPON, 2006) e capaz de integrar os diferentes
interesses dos grupos situados territorialmente (Feio e Chorincas, 2009). É
fundamental que tais processos assentem numa lógica inovadora, partilhada e colaborativa
(Ferrão, 2010), numa ideia qualificada de democracia e num maior protagonismo
da sociedade civil, respeitando, no entanto, o papel insubstituível do Estado.</p>

    <p>Em relação aos propósitos da governança no seu
sentido geral, os autores consultados apontam que tais processos assumem um
papel mais amplo do que o de governo (Rosenau e Czempiel, 1992), buscando
integrar objetivos comuns ao conjunto de atores que interagem num determinado
meio (Kooiman, 1993), que, desse modo, definem formas de regulação (Rhodes,
1996). Tais processos, ao envolver uma multiplicidade de atores em processos de
regulação (Milani e Solinís, 2002), estimulam modos de interação social, com o
fim de alcançar propósitos públicos (Sørensen e Torfing, 2005).</p>

    <p>Entre os propósitos
da governança territorial merecem destaque, por parte dos autores consultados,
a gestão dos assuntos públicos com impacto nos territórios (Dallabrida, 2006,
2007 e 2011), com vista a acordar uma visão partilhada para o futuro entre
todos os níveis e atores envolvidos (Farinós, 2008), de modo a assegurar a
representação de diferentes grupos e interesses territoriais face
a atores externos, e o desenvolvimento de estratégias (unificadas e
unificadoras) em relação ao mercado e ao Estado (Feio e Chorincas, 2009). Trata-se
da tentativa de estabelecer voluntariamente relações horizontais de cooperação
e parceria (Ferrão, 2013), com o fim de contribuir para a coesão e o
desenvolvimento territorial de forma sustentável e equilibrada (ESPON, 2006).
Ou seja, o propósito final dos processos de governança terri­torial é o
desenvolvimento de um determinado território (Ferrão, 2013; Dallabrida, 2011).</p>

    <p>Ainda no que se refere à governança territorial,
a bibliografia destaca desafios em relação à sua aplicação, apontando a
necessidade de avançar em termos de legitimidade e de aprofundamento
democrático, numa linha mais cidadã e participativa (Blanco e Comà, 2003;
Romero e Farinós, 2011; Sørensen e ­Torfing, 2005), criando laços de cooperação
e coordenação vertical e horizontal entre os vários níveis de governo, as
políticas setoriais com incidência territorial, as organizações governamentais
e não-governamentais e os cidadãos (ESPON, 2006; Feio
e Chorincas, 2009). Trata-se de contemplar um adequado equilíbrio entre esfera
pública, mercado e sociedade civil (Romero e Farinós, 2011), empoderar a
sociedade e reinterpretar a sua função (Romero e Farinós, 2011), e assumir o
desafio de integrar políticas de ordenamento do território e modos de
governança (Ferrão, 2010 e 2013). Por outro lado, existe também o desafio de
superar, ao nível conceptual, o atual caráter de imprecisão, polissemia e
ambiguidade da noção de governança territorial (Romero e Farinós, 2011).</p>

    <p>Revistas as abordagens teóricas, permanece ainda uma outra questão: em que contextos institucionais e
organizacionais ocorrem as práticas de governança territorial? É sobre essa
questão que incidem as referências que se seguem.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>CONTEXTUALIZAÇÃO DOS PROCESSOS DE GOVERNANÇA
TERRITORIAL</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>As práticas de governança
territorial devem ser contextualizadas a partir das dimensões de ação e de
poder prevalecentes. Na <a href="#f1">figura 1</a> representam-se, de forma esquemática,
distintas situações-tipo a partir de três instâncias: estatal, público-privado
e empresarial. A cada uma destas instâncias estão associadas modalidades
específicas de governança. A governança territorial relaciona-se com contextos
institucionais e organizacionais caracterizados pelo
envolvimento de entidades públicas e privadas, quer das ações de governo
(instância estatal), quer da governança empresarial (instância empresarial).
Por outro lado, os processos de governança territorial situam-se
territorialmente, mesmo que os seus atores estabeleçam conexões com outras
escalas espaciais (componente multiescalar da governança).</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<a name="f1">
    <p><img src="/img/revistas/aso/n215/n215a04f1.jpg"></p>
    
<p>&nbsp;</p>

    <p>Conforme foi
referido, a ações e relações de poder que ocorrem num
determinado território provêm e incidem de/em instâncias de três tipos:
estatal, público-privada e empresarial. É possível considerar que a instância
estatal, por meio das ações de governo, concretiza o processo de governação<sup><a href="#4">4</a></sup><a name="top4"></a>, interferindo nas demais instâncias
através de regulamentações ou políticas verticalizadas. Da instância
empresarial, por meio de formas diversas de cooperação, provêm as estratégias
empresariais, que visam fins predominantemente económico-financeiros. A gestão
das estratégias empresariais ocorre por meio daquilo que a bibliografia designa
por governança empresarial.<sup><a href="#5">5</a></sup><a name="top5"></a></p>

    <p>No entanto, o objeto central deste estudo são as
práticas de governança ­territorial. As práticas de governança territorial
correspondem às relações de cooperação e parceria entre atores públicos,
semipúblicos, sociais e empresariais, através de diferentes arranjos cooperativos,
aqui denominados arranjos cooperativos institucionais, uns deles, liderados por
atores estatais, e abrangendo, basicamente, o campo das políticas públicas, e
outros arranjos cooperativos organizacionais, tratando-se de iniciativas
articuladas por atores semipúblicos, sociais ou empresariais, com a
participação e/ou apoio estatal. Estes processos ocorrem na instância
público-privada. Portanto, governança territorial são ações e relações de poder
que ocorrem nesta instância, diferenciando-se das ações exclusivamente estatais
ou empresariais.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>TIPIFICAÇÃO DOS CASOS
ESTUDADOS E PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS</b></p>

    <p><b>&nbsp;</b></p>

    <p>Tendo por base o enquadramento conceptual e analítico apresentado nas
secções anteriores, foram analisadas 19 experiências de governança territorial
do Brasil e de Portugal, com o objetivo de identificar convergências e
divergências em processos com um histórico distinto e desenvolvidas em
contextos institucionais, organizacionais e político-administrativos bastante
diferentes.</p>

    <p>Os estudos de caso realizados basearam-se num
inquérito por questionário enviado a cinco membros de cada uma das experiências
de governança territorial consideradas. Obteve-se uma taxa de resposta de
55,2%, atingindo assim um universo de 55 atores. Os inquéritos foram realizados
entre os meses de junho e setembro de 2013.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>As experiências atingidas com o inquérito estão
divididas entre três tipologias: experiências de associativismo com articulação
do Estado; experiências de associativismo com autonomia da sociedade civil; e
experiências de associativismo empresarial com o apoio do Estado (v. <a href="#q1">Quadro 1</a>).</p>

    <p>&nbsp;</p>
<a name="q1">
    <p><img src="/img/revistas/aso/n215/n215a04q1.jpg"></p>
    
<p>&nbsp;</p>

    <p>Entre as experiências de associativismo com
articulação do Estado, como estruturas estatais regionalizadas, no caso de
Portugal, a pesquisa foi realizada com atores de uma das cinco Comissões de
Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR)<sup><a href="#6">6</a></sup><a name="top6"></a> do país. No caso do Brasil, atingiu atores de uma Secretaria de
Desenvolvimento Regional (SDR) do Estado de Santa Catarina e de um dos
Territórios da Cidadania, sendo este último um programa do governo federal
brasileiro que abrange as regiões predominante agrícolas
e que apresentam maiores problemas quanto aos indicadores de desenvolvimento
­socioeconómico.<sup><a href="#7">7</a></sup><a name="top7"></a> Já a SDR é uma estrutura de regionalização do Governo do Estado de
Santa Catarina, implantada em 2003.<sup><a href="#8">8</a></sup><a name="top8"></a></p>

    <p>Como experiências de associativismo com
articulação da sociedade civil, a pesquisa abrangeu, em Portugal, três
Associações de Desenvolvimento Local, duas da região do Alentejo e uma da
região Centro, as quais têm como objetivo estimular formas de desenvolvimento
local integrado.<sup><a href="#9">9</a></sup><a name="top9"></a> No Brasil abrangeu quatro Conselhos de Desenvolvimento Regional
(Coredes), de quatro regiões do Estado do Rio Grande do Sul, também tendo como
objeto a articulação dos processos de desenvolvimento local e regional.<sup><a href="#10">10</a></sup><a name="top10"></a></p>

    <p>Já em relação às práticas de associativismo
empresarial com apoio do Estado, a pesquisa atingiu nove experiências. Em
Portugal, foi realizada em três iniciativas de Denominação de Origem Controlada
e Protegida (DOC/DOP), sendo uma de vinho regional, e duas relacionadas com
produtos de origem animal.<sup><a href="#11">11</a></sup><a name="top11"></a> No Brasil, foram pesquisadas três experiências de Indicação
Geográfica, uma da região Nordeste e duas da região Sul, respetivamente, uma de
própolis de abelha e duas de vinho. Além destas, a pesquisa atingiu dois
arranjos produtivos locais e uma agência de desenvolvimento, das regiões Norte,
Sul e Sudeste do Brasil. Em todas, foram inquiridos atores que atuam nas
associações que articulam ou fazem a gestão de tais experiências.</p>

    <p>Para além de garantir a representação de três
tipos de situações, a seleção das experiências de governança territorial levou
ainda em conta, como critérios adicionais, a localização em diferentes regiões
dos dois países e a existência de aspetos comparáveis, tendo por base um
trabalho prévio de análise documental de cada uma delas.</p>

    <p>Quanto à tipologia dos atores envolvidos,
optou-se por atingir, em cada experiência, um dirigente, um assessor técnico,
um representante da sociedade civil, um do setor empresarial e um do setor
público (v. <a href="#q2">Quadro 2</a>).</p>

    <p>&nbsp;</p>
<a name="q2">
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><img src="/img/revistas/aso/n215/n215a04q2.jpg"></p>
    
<p>&nbsp;</p>

    <p>Sobre os procedimentos metodológicos, a
investigação contemplou os seguintes aspetos: (a) estudos bibliográficos e sua
sistematização; (b) elaboração de proposta metodológica para avaliação de
práticas de governança territorial, com a estruturação de um instrumento de
inquérito por questionário; (c) aplicação do questionário e análise dos
resultados obtidos. Em seis das 19 experiências investigadas, três brasileiras
e três de Portugal, foi ainda realizada uma visita de
reconhecimento, contemplando entrevistas presenciais com atores, principalmente
dirigentes. O teor destas entrevistas versou sobre questões relacionadas com
dois aspetos: estrutura organizacional e de funcionamento; principais desafios
e resultados alcançados. Estas visitas e entrevistas tiveram o propósito de
contribuir para um melhor entendimento dos resultados dos inquéritos por
questionário.</p>

    <p>No questionário utilizado deu-se a opção ao
inquirido de justificar as suas respostas. Cerca de 20% dos inquiridos
utilizaram esta opção. Essas respostas permitiram, também, uma melhor
compreensão dos resultados obtidos através da aplicação do questionário. O
posicionamento dos atores em relação ao grau ou intensidade com que os
princípios resultantes dos indicativos teóricos são considerados nas
experiências analisadas foram fundamentais para
inferir indicações sobre o nível de qualificação dessas práticas.</p>

    <p>Na revisão da bibliografia foram consultados
diversos autores, considerados referenciais na reflexão sobre os temas da
governança e da governança ­territorial, conforme anteriormente referido. Tais
reflexões foram sistematizadas, procurando destacar qual a perspetiva desses
autores sobre a governança e as componentes analíticas por eles apontadas como
indicativos para a qualificação das práticas desenvolvidas neste âmbito, o que
está sintetizado no  <a href ="/img/revistas/aso/n215/n215a04q3.jpg ">quadro 3</a>.</p>



    
<p>No <a href ="/img/revistas/aso/n215/n215a04q4.jpg ">quadro 4</a>, as
componentes analíticas sobre governança destacadas da reflexão dos autores
considerados foram estruturadas na forma de dimensões, princípios e respetivos
critérios, para servir de referência na avaliação de práticas de governança
territorial, tendo sido utilizadas na elaboração do questionário aplicado.</p>

    
<p>Os princípios e
respetivos critérios, no total de 24, foram distribuídos por quatro dimensões:
(a) atores, poderes e relações, para referir-se às características dos
processos de governança territorial que envolvam o
relacionamento entre atores; (b) processos de decisão, relativos aos aspetos
decisionais da governança; (c) coordenação de políticas, referindo-se às formas
de articulação das políticas nos territórios; e (d) resultados dos processos de
governança territorial, abrangendo os princípios que digam respeito aos
impactos territoriais das políticas.<sup><a href="#12">12</a></sup><a name="top12"></a></p>

    <p>Conforme se salientou anteriormente, o inquérito
foi aplicado a cinco atores-chave de cada uma das 19 experiências escolhidas
como estudos de caso. O instrumento de pesquisa inclui questões estruturadas,
com resposta objetiva, utilizando a escala <i>Likert</i> entre o valor 1 (discordância total) e 4 (concordância total), com a opção
de o inquirido justificar a sua resposta.</p>

    <p>O questionário faz referência a cada uma das 24
categorias conceptuais consideradas como princípios-chave da governança
territorial. Solicitou-se aos inquiridos que indicassem o seu posicionamento face a afirmações que faziam referência aos vários
princípios com tradução nas diferentes dimensões da prática da governança
territorial. Vejamos um exemplo. Para aferir o posicionamento do inquirido em
relação ao princípio “ancoragem democrática”, apresentou-se a seguinte
afirmação: <i>Na instituição ou organização em que participo, o processo de
liderança é feito de forma desconcentrada, distribuída entre os seus membros. </i>Apresentaram-se
aos inquiridos quatro opções de resposta: duas indicando uma avaliação
predominantemente positiva (concordo em parte e concordo totalmente) e duas
indicando uma avaliação predominantemente negativa (discordo em parte e
discordo totalmente).</p>

    <p>É importante salientar que a opção assumida aqui,
ao utilizar uma escala em que não há um posicionamento de neutralidade, não é a
única possível. Em outras investigações pode-se
utilizar diferentes opções de escala, mantendo o mesmo instrumento de inquérito
aqui proposto. Da mesma forma, como se verifica nos quadros que descrevem a
proposta metodológica, esta pode servir de referência para avaliações de
caráter exclusivamente quantitativo ou associar métodos qualitativos. Ou seja,
a presente proposição tem a pretensão de se apresentar como um instrumento
metodológico de avaliação de práticas de governança territorial passível de ser
utilizado em outros casos. De seguida, analisam-se os resultados deste primeiro
exercício de avaliação.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>

    <p><b>RESULTADOS</b></p>

    <p><b>&nbsp;</b></p>

    <p>Antes da apresentação da
análise dos resultados, justificam-se algumas considerações sobre a avaliação
das práticas de governança territorial.</p>

    <p>Estudos, como por exemplo
os que são relatados em Büttenbender <i>et al</i>. (2011) e Theis <i>et al</i>.
(2011), têm mostrado que as práticas de governança territorial se confrontam
ainda com muitos desafios, o que justificou a preocupação com a sua avaliação.
Diferentes obras e documentos resultantes de investigações ou
produzidas por organismos nacionais e internacionais de assessoria aos
processos de desenvolvimento territorial têm-se preocupado com o tema em referência.</p>

    <p>Por exemplo, o <i>Livro
Branco sobre Governança Europeia</i>, publicado em 2001 (CCE, 2001), propõe
princípios institucionais para orientar a construção e proceder à valorização
dos processos de governança. O projeto ESPON (2006), financiado pela Comissão
Europeia, realizou estudos sobre as ­práticas de governança territorial nos
países membros a partir de indicadores territoriais e multinível, tanto na
dimensão horizontal como vertical. Mais recentemente, no documento ESPON TANGO
(2012) são apresentadas sugestões de indicadores de governança territorial para
os países da União Europeia.</p>

    <p>Ainda no âmbito da União Europeia, nos últimos
anos alguns autores fizeram propostas metodológicas para a avaliação das
práticas de governança territorial. Referem-se as
obras de Wilson-Grau e Nuñez (2007), que propõem uma estrutura conceptual e
metodológica para avaliação de redes internacionais através de uma abordagem
participativa; Monteiro (2009), que propõe uma matriz de avaliação do
desempenho das parcerias interorganizacionais; e Ferreira (2012), que, com base
nas duas obras citadas anteriormente, centra a sua análise na avaliação da
eficácia de um instrumento de política pública referente à regeneração urbana
em Portugal. As três obras podem contribuir com elementos indicativos para
futuros avanços em propostas de avaliação de práticas de governança
territorial, como a que está sendo sugerida.</p>

    <p>Sobre os resultados da primeira avaliação da
proposta metodológica aqui apresentada, a análise divide-se em dois momentos.
Primeiro, tomando os dados obtidos nos inquéritos do Brasil e de Portugal no
seu conjunto. Depois, utilizando dados em separado, os quais permitem análises
comparativas.</p>

    <p>Ao observar os dados resumidos no <a href ="/img/revistas/aso/n215/n215a04q5.jpg ">quadro 5</a>, constata-se que os princípios que receberam uma melhor
avaliação, com mais de 80% das respostas assinalando a opção 3 ou 4
(concordância parcial ou total), são: ancoragem democrática, reflexibilidade,
subsidiariedade, reciprocidade, transparência, territorialização dos processos
e gestão territorial, distribuídas por três dimensões, com predominância para a
dimensão “processos de decisão”. Já a dimensão “coordenação de políticas” é a
que teve maior quantidade de respostas com avaliação predominantemente
negativa. Das muitas análises possíveis, duas delas merecem destaque. A
primeira é que, na perceção dos inquiridos, nas experiências analisadas há uma
prática qualificada considerando as relações e a disputa de poder entre os
atores envolvidos.</p>

    
<p>Essa avaliação predominantemente positiva em
questões relacionadas com a articulação ou o assessoramento dos processos
permite-nos questionar se os inquiridos não terão sido demasiadamente otimistas
na sua avaliação. Esta pergunta tem relevância, visto que entre os 55
inquiridos estão 18 dirigentes e 11 assessores ou técnicos. Fica a dúvida, a
qual exigirá novos estudos que recorram à utilização de métodos de investigação
diferenciados, os quais possam contribuir para uma melhor aferição.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O segundo destaque é que o processo de
coordenação das ações no território demonstra ser o principal desafio a ser
suplantado. Veja-se que nenhum dos princípios que receberam uma melhor
avaliação integra a dimensão coordenação de políticas. Pelo contrário, esta é a
dimensão com maior incidência de avaliações discordantes, variando os valores
relativos aos vários princípios entre 31 e 60%.</p>

    <p>De entre os princípios, os que se referem à
integração vertical e horizontal das políticas, com destaque para o último, são
os que revelam maiores fragilidades, tendo 60% e 38% dos inquiridos, respetivamente,
optado por respostas predominantemente de discordância. Nas justificações das
respostas em relação à integração vertical houve os seguintes posicionamentos:
é frequente a realização de várias ações sobrepostas, por vezes similares;
falta contacto ou articulação entre as instituições; as constantes alterações
de políticas e práticas do governo criam dificuldades adicionais. Houve
posicionamentos sobre o princípio da integração horizontal, os quais também
revelam fragilidades dos processos, tais como: é preciso uma maior densidade,
pois as características do território não facilitam essa integração; as
instituições não conseguem atender às demandas setoriais, muito menos gerar
integração horizontal com as demais políticas; é frequente a descoordenação dos
diversos atores e instituições que participam nas ações.<sup><a href="#13">13</a></sup><a name="top13"></a></p>

    <p>Ainda no que se
refere aos princípios com maior incidência de avaliações discordantes, outros
merecem destaque. Como segundo princípio com maior avaliação de discordância
(55%) está o protagonismo estatal na articulação das redes. Nas justificações
das respostas aparecem os elementos apontados pelos inquiridos: necessidade de
mais capacitação para os atores estatais envolvidos nos processos; falhas na
regionalização das instâncias e órgãos de governo; necessidade de maior
orientação, além da urgência de o Estado assumir as suas atribuições. Na
sequência, com 40% de respostas discordantes, aparece o princípio da
resiliência. Em relação à avaliação neste princípio, uma interpretação possível
é que, em geral, existe bastante resistência às mudanças e que a maior parte das
ações tem modelos definidos, deixando pouco espaço para novas temáticas ou
políticas. Esta é uma questão que, apesar de ocorrer no Brasil, tem maior
significado nos países da União Europeia, onde existem diferentes programas de
apoio às iniciativas locais e regionais, os quais preveem regras rígidas, que
definem <i>a priori</i> a forma de aplicação de tais recursos financeiros.</p>

    <p>Por ordem, entre os princípios que apresentam
percentagens significativas de respostas discordantes seguem-se: o
empoderamento dos atores (38%), a descentralização de políticas (36%) e a
partilha de metas e objetivos (35%). Sobre o empoderamento, um comentário que
merece ser registado, levando em consideração entrevistas e observações
realizadas durante as visitas: os atores não se sentem sujeitos, pois predomina
a ideia de que o Estado é sempre a instituição responsável.</p>

    <p>Tomando separadamente os dados relativos ao
Brasil e a Portugal, conforme o <a href="#q6">quadro 6</a>, é possível
fazer análises comparativas, considerando as respostas dos inquiridos. Algumas
questões merecem destaque: (a) quanto à avaliação feita pelos inquiridos, ela é
significativamente mais otimista em Portugal; (b) em alguns aspetos, há grandes
diferenças quanto à avaliação, a exemplo dos princípios da subsidiariedade,
interação, transparência, reflexibilidade, governabilidade, pluralidade,
territorialização e gestão territorial;
(c) apesar disso, há coincidências significativas,
como a forte discordância no que se refere aos princípios do protagonismo
estatal e da integração vertical e, ainda que de forma menos significativa, aos
princípios do protagonismo social, resiliência, descentralização de políticas,
integração horizontal, partilha, aprendizagem interativa e empoderamento de
atores, com percentagens de discordância acima de 23%; (d) outra coincidência
surge em relação aos princípios referentes à dimensão “coordenação de políticas
nos territórios”, os quais, tanto no Brasil como em Portugal, estão entre os
que receberam maior número de avaliações de discordância.</p>

    <p>&nbsp;</p>
<a name="q6">
    <p><img src="/img/revistas/aso/n215/n215a04q6.jpg"></p>
    
<p>&nbsp;</p>

    <p>Estes últimos dados permitem várias
interpretações. Uma delas é que as avaliações revelam um problema que merece
atenção especial, observado tanto no Brasil como em Portugal: a necessidade de
revisão da ação do Estado nos processos de governança territorial no que se
refere ao seu papel, avançando na integração das políticas com impacto nos
territórios, evitando sobreposições.</p>

    <p>As interpretações apresentadas não são, por
certo, as únicas possíveis. No entanto, os resultados da pesquisa revelam
indicações interessantes, evidenciando desafios que exigem novos estudos.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>

    <p><b>CONSIDERAÇÕES FINAIS</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>A alusão feita no resumo
deste artigo, em que se questiona até que ponto o padrão de governança
territorial proposto teoricamente é uma realidade factual na sua prática, tem
relação com as questões suscitadas na presente investigação.</p>

    <p>Ao principiar a realização deste estudo, o
propósito era investigar a situação, os desafios e as possibilidades de avanços
em relação à participação social nos processos de decisão que ocorrem em
experiências de governança territorial brasileiras e
portuguesas. No entanto, no início dos estudos constatou-se que as propostas
metodológicas para avaliação de práticas de governança territorial disponíveis
na bibliografia de referência mereciam avanços. Foi o que motivou que se tenha
focado esta investigação na elaboração de uma proposta metodológica que pudesse
servir para avaliar práticas diferenciadas de governança territorial.</p>

    <p>O estudo realizado limitou-se a atores de 19
experiências do Brasil e de Portugal. Considera-se, portanto, esta iniciativa
como um primeiro teste, que deverá merecer aprofundamento.</p>

    <p>Como já foi ressaltado,
outras análises realizadas recentemente sobre as práticas de descentralização
político-administrativa no sul do Brasil apontaram uma série de desafios para
as práticas de governança territorial (­Dallabrida, 2011). É importante
salientar que várias das questões referidas foram reafirmadas na presente
pesquisa, ou seja, confirma resultados anteriores e junta-lhes
outros novos.</p>

    <p>Das análises que o presente estudo permite, a que merece uma atenção especial é a questão da
integração vertical e horizontal das políticas com impacto nos territórios.
Aqui há um duplo desafio. O primeiro é que o Estado, ao propor políticas
territoriais, desconhece, ou pouco considera,
processos históricos de articulação territorial, mesmo que tais políticas
contemplem, na sua génese, princípios participativos. O segundo, é que as
experiências de associativismo territorial, sejam elas de cunho social ou
empresarial, também não demonstram a eficácia necessária para governar um
território de forma associativa e participativa. Fica evidente, então, que são
necessários avanços em relação aos dois desafios apontados.</p>

    <p>Outra questão relevante tem a ver com o papel dos
três principais protagonistas nos processos de governança territorial: o
Estado, os grupos sociais e o setor empresarial. Pode ser percebida esta
questão pela significativa discordância de avaliações relacionadas com este
tema. Uma possível interpretação dos dados da pesquisa é que a proeminência do
Estado na articulação das redes de governança, aqui defendida, parece ser
confundida pelos governantes e agentes políticos com uma maior liberdade para
realizar ações de caráter centralizador, seja através das políticas propostas
para os territórios, ou de práticas clientelares ainda presentes. Por outro
lado, as entrevistas realizadas parecem indiciar que os grupos sociais têm uma
dupla reação: uns veem o Estado como um aliado não confiável; outros entendem
que a ação proeminente do Estado implica atribuir-lhe todas as
responsabilidades.</p>

    <p>Sobre as avaliações
feitas pelos inquiridos das experiências em que participam,
outra interpretação possível é que, mesmo os processos mais solidifi­cados de
governança territorial, seja no Brasil ou em Portugal, carecem de práticas mais
qualificadas. Tal interpretação fundamenta-se no facto de que, através das
respostas ao inquérito por questionário, complementadas pelas entrevistas
realizadas com atores de algumas experiências, existem evidências de que as
pessoas envolvidas avaliam como positivas práticas “viciadas”. Por “viciadas”
enten­dem-se práticas em que, sendo percetível que as decisões permane­cem
centralizadas (tanto em função da ação dos governos centrais, como pelo impacto
territorial das normativas oriundas dos organismos supranacionais, seja ainda
por práticas centralizadoras de dirigentes das experiências de associa­tivismo
territorial), são, ainda assim, consideradas positivas pelos ­participantes.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Talvez aqui esteja uma questão não respondida
pela presente investigação: qual o limite entre a democracia idealizada e a
possível, da mesma forma que ações de cooperação, descentralização,
transparência, integração, etc.? Que condicionantes,
territoriais e extraterritoriais, limitam possíveis práticas de
governança territorial mais qualificadas? É uma questão que fica para
aprofundar em novos estudos.</p>

    <p>Por fim, quando se faz referência às práticas
qualificadas de governança territorial parte-se de uma visão pessoal, a qual
converge com diversos autores aqui mencionados. A governança territorial
corresponde a um processo de planeamento e gestão de dinâmicas territoriais que
dá prioridade a uma ótica inovadora, partilhada e colaborativa, por meio de
relações horizontais. No entanto, esse processo inclui lutas de poder,
discussões, negociações e, por fim, deliberações, entre agentes estatais,
representantes dos setores sociais e empresariais, de centros universitários ou
de investigação. Processos desta natureza fundamentam-se num papel
insubstituível do Estado, numa noção qualificada de democracia, e no
protagonismo da sociedade civil, objetivando harmonizar uma visão sobre o
futuro e um determinado padrão de desenvolvimento territorial. O
desenvolvimento territorial é entendido como um processo de mudança continuada,
situado histórica e territorialmente, mas integrado em dinâmicas
intraterritoriais, supraterritoriais e globais, sustentado na potenciação dos
recursos e ativos (materiais e imateriais, genéricos e específicos) existentes
no local, com vistas à dinamização socioeconómica e à melhoria da qualidade de
vida da sua população.</p>

    <p>Espera-se que esta investigação tenha permitido
mostrar novas reflexões teóricas sobre governança territorial, ao mesmo tempo que se apresentou uma proposta metodológica
para avaliar a qualidade dos processos de governança territorial. Esta proposta
metodológica, mesmo considerando que os dados desta primeira aplicação não
permitem generalizações, mostrou-se eficaz, em especial pelo facto de se ter
utilizado um conjunto de 24 categorias conceptuais como referência na avaliação
de iniciativas diferenciadas de governança territorial.</p>

    <p>A análise comparada de experiências brasileiras e
portuguesas permitiu realçar algumas diferenças, cuja justificação se prende
com a existência de contextos institucionais, socioculturais e
político-administrativos distintos. Apesar dessa diversidade de contextos, que
têm por certo um impacto relevante, foram igualmente identificados aspetos
comuns. Justifica-se, assim, um aprofundamento adicional, baseado numa agenda
de investigação envolvendo pesquisadores de diversos países, para que seja
possível averiguar com maior rigor o efeito de contextos nacionais
diferenciados nas práticas de governança territorial desenvolvidas em distintas
regiões.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS</b></p>

    <p><b>&nbsp;</b></p>

    <!-- ref --><p>BEVIR,
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    <!-- ref --><p>FARINÓS,
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    <!-- ref --><p>FERRÃO,
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    <p>&nbsp;</p>

    <p>Recebido a 16-12-2013.
Aceite para publicação a 14-01-2015.</p>

    <p>&nbsp;</p>



    <p><b>NOTAS</b></p>


    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></sup>Este artigo resume estudos
referentes à <i>Bolsa Luso-Afro-Brasileira em Ciências Sociais</i>, edição
2013, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.</p>

    <p><sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></sup>Com destaque para obras de
referência, tais como: World Bank, 2002; Kooiman, 1993 e 2004; March e Olsen,
1995; Rhodes, 1996 e 2007; Jessop, 1998, 2000 e 2006; Stoker, 1998 e 2004;
Mayntz, 1998 e 2001; Pierre, 2000; Pierre e Peters, 2000; Prats, 2005; Torfing,
2005; Sørensen e Torfing, 2005; Bevir e Rhodes, 2006; Bevir, 2011; Weale, 2011;
Héritier e Lehmkuhl, 2011.</p>

    <p><sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></sup>Alguns autores têm
utilizado o termo governança local ou regional, ou governação, com o mesmo
sentido aqui atribuído à governança territorial. Entre estes, destacam-se:
Dallabrida e Becker, 2003; Ferrão, 2004, 2010 e 2013; ESPON, 2006; Farinós,
2005 e 2008; Dallabrida, 2006, 2007 e 2011; Feio e Chorincas, 2009; Romero e
Farinós, 2011; Pires et al., 2011; Covas e Covas,
2013; Gonçalves, 2013; Pereira, 2013.</p>

    <p><sup><a name="4"></a><a href="#top4">4</a></sup>Neste
texto, o termo governação será utilizado para referir as ações coordenadas pelo
governo nas diferentes instâncias estatais (nacional, estadual, regional ou
municipal). Na Europa, o termo é utilizado, também, para referir as ações de
governo dos organismos da União Europeia com incidência nos países membros.
Alguns autores portugueses e espanhóis utilizaram, até há
alguns anos, o termo como sinónimo de governança. Atualmente, em geral,
reconhece-se como inadequado o uso do termo governação como sinónimo de
governança.</p>

    <p><sup><a name="5"></a><a href="#top5">5</a></sup>Na bibliografia,
principalmente no Brasil, a governança empresarial é também designada por
governança corporativa, termo que faz referência à forma de gestão interna das
empresas. O termo governança empresarial é aqui utilizado para referir as ações
de cooperação interempresarial que têm incidência nos territórios.</p>

    <p><sup><a name="6"></a><a href="#top6">6</a></sup>Em Portugal as CCDR
correspondem às regiões de planeamento do país (parte continental): Norte,
Centro, Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve.</p>
    <p><sup><a name="7"></a><a href="#top7">7</a></sup>V. informações sobre o
referido programa no site: <a
href="http://www.territoriosdacidadania.gov.br/" target="_blank">http://www.territoriosdacidadania.gov.br/</a>.</p>

    <p><sup><a name="8"></a><a href="#top8">8</a></sup>Informações e análises
sobre as Secretarias de Desenvolvimento podem ser consultadas em: Filippim e
Abrucio (2010), Theis <i>et</i><i> al</i>. (2011) e
Dallabrida <i>et al</i>. (2013).</p>

    <p><sup><a name="9"></a><a href="#top9">9</a></sup>Informações sobre as ADL
podem ser encontradas em: <a
href="http://www.animar-dl.pt/index/oquee/associados" target="_blank">http://www.animar-dl.pt/index/oquee/associados</a>.</p>

    <p><sup><a name="10"></a><a href="#top10">10</a></sup> Informações sobre as regiões
dos Coredes podem ser consultadas no sítio: <a
href="http://www.fee.tche.br/sitefee/pt/content/resumo/pg_coredes.php" target="_blank">http://www.fee.tche.br/sitefee/pt/content/resumo/pg_coredes.php</a>.
Para ver análises sobre a experiência dos Coredes, consultar: Büttenbender <i>et</i><i> al</i>., 2011; Dallabrida, 2007; Dallabrida <i>et
al</i>., 2013.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a name="11"></a><a href="#top11">11</a></sup>Informações e legislação
sobre produtos com Denominação de Origem Protegida (DOP) e afins, em Portugal,
v. no sítio: <a
href="http://www.dgadr.mamaot.pt/val-qual/dop-igp-etg" target="_blank">http://www.dgadr.mamaot.pt/val-qual/dop-igp-etg</a>.</p>

    <p><sup><a name="12"></a><a href="#top12">12</a></sup>A elaboração da proposta
metodológica contou com a colaboração destacada do Prof.
Doutor João Ferrão, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa,
que atuou como orientador, a quem agradeço. No entanto, as limitações que o
trabalho possa apresentar são da minha exclusiva responsabilidade.</p>

    <p><sup><a name="13"></a><a href="#top13">13</a></sup> Esta observação coincide com
as conclusões da pesquisa realizada no Estado de Santa ­Catarina (Brasil),
conforme obra recentemente publicada por Dallabrida <i>et</i><i>
al</i>. (2013).</p>



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