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<publisher-name><![CDATA[Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa]]></publisher-name>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[“Pois temos touros?”: as touradas no Rio de Janeiro do século XIX (1840-1852)]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[“Do we have bulls”?: Bullfights in 19th-Century Rio de Janeiro (1840-1852)]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade Federal do Rio de Janeiro Departamento de História ]]></institution>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[In the mid-nineteenth century a new social dynamism emergedin Rio de Janeiro, marked by changes in mass entertainment. Among the noveltieswere bullfights, a practice that actually had existed in Brazil since the seventeenth century. This study discusses the resumption of bullfighting in this city, between 1840 and 1852, and addresses its historical antecedents, notably tensions concerning the occupation of public space, a debate related to the ideas and imaginary of modernity.]]></p></abstract>
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<kwd lng="en"><![CDATA[sports history]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ 

    <p align="right"><b>DOSSIÊ: ESTRUTURAS SOCIAIS, VALORES, SOCIABILIDADES</b></p>

    <p><b>“Pois
temos touros?”: as touradas no Rio de Janeiro do século XIX (1840-1852)</b></p>

    <p><b>“Do we have bulls”? Bullfights in 19th-Century Rio de Janeiro (1840-1852)</p></b>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>Victor Andrade de Melo</b>*</p>

    <p>*Universidade Federal do Rio de
Janeiro, Departamento de História, Largo de São Francisco de Paula, n.º 1, sala 311
— CEP 20051-070, RJ, Brasil.E-mail: <a href="mailto:victor.a.melo@uol.com.br">victor.a.melo@uol.com.br</a> </p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>RESUMO</b></p>

    <p>Em meados do século XIX, no Rio de Janeiro surgiu um novo
dinamismo social, marcado, entre outras coisas, pela valorização e estruturação
do comércio de entretenimentos. Entre as “novidades” encontravam-se as corridas
de touros, uma prática que, na verdade, já existia no ­Brasil desde o século
XVII. Este estudo tem por objetivo discutir essa retomada das touradas na
cidade, entre os anos de 1840 e 1852, considerando que ao seu redor se
manifestaram elementos diversos daquele cenário histórico, nomeadamente algumas
tensões relativas à ocupação do espaço público, um debate relacionado com a
adesão ao ideário e imaginário da modernidade.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>PALAVRAS-CHAVE</b>: touradas; entretenimento; Rio de
Janeiro; história do desporto.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>ABSTRACT</b></p>

    <p>In the mid-nineteenth century a new
social dynamism emergedin Rio de Janeiro, marked by changes in
mass entertainment. Among the noveltieswere
bullfights, a practice that actually had existed in Brazil since the
seventeenth century. This study discusses the resumption of
bullfighting in this city, between 1840 and 1852, and addresses its
historical antecedents, notably tensions concerning the occupation of public
space, a debate related to the ideas and imaginary of modernity.</p>

    <p><b>KEYWORDS</b>:
bullfight; entertainment; Rio de Janeiro; sports history.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>INTRODUÇÃO</b></p>

    <blockquote>    <p>É sem dúvida para sentir que a tarde de
domingo estivesse tão chuvosa e impedisse a representação do espetáculo da
Praça de Touros, onde tencionávamos concorrer, pagando (bem entendido) os
nossos cobrinhos, afim de podermos apreciar com o nosso espírito meditabundo
essas cenas em que a natureza, excitada pela arte, nos depara com quadros
variados do instinto animal. Em reação com as suas faculdades sensitivas, nos
faz ora estalar de riso, e ora estremecer de horror, imprimindo em nosso ânimo
ideias mais ou menos aquilatadas das faculdades dos brutos. Aguardamos as próximas
representações, permitindo o tempo, para dilatar o nosso entendimento na
contemplação de semelhantes espetáculos, contando que o seu empresário não se
descuidará de esforçar-se para bem merecer do público.<sup><a href="#1">1</a></sup><a name="top1"></a></p></blockquote>

    <p><sup>&nbsp;</sup></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Proclamada a independência, em 1822, começou a
configurar-se melhor no Brasil o que seria um longo processo de debates sobre a
identidade nacional e os projetos de nação. No decorrer do século XIX, até
mesmo pela vinculação, em diferentes graus, dos monarcas brasileiros com a
família real portuguesa, as discussões transitavam, com matizes, entre dois
polos: a adoção de uma linha de continuidade com certas “tradições” que vinham
do período colonial e a rutura definitiva com tudo o que lembrasse o antigo colonizador,
sugerindo-se a adesão a parâmetros observados em países “civilizados”
(nomeadamente França e Inglaterra).</p>

    <p>Depois de duas décadas muito conflituosas, a
antecipação<sup><a href="#2">2</a></sup><a name="top2"></a> da maioridade de Pedro II, em 1841, paulatinamente surtiu efeito no
sentido de manter o país unificado e conformar, nos mais distintos âmbitos, uma
estabilidade necessária para o forjar da nação
(Carvalho, 2012). Como sugere Paula (2012, p. 179), a partir de então
“consolidou-se um efetivo sistema cultural composto de produtores, veículos e
consumidores de bens simbólicos, que por ser, de fato, um sistema, não ficou
restrito aos grandes nomes, aos grandes autores”.</p>

    <p>O Rio de Janeiro foi-se fortalecendo como centro
decisório, como espaço das principais experiências de modernização, como polo
irradiador de modas e costumes (Schwarcz, 1998). Progressivamente sintonizada
com as novidades que chegavam do “mundo civilizado europeu”, na capital do
Império surgiu um novo dinamismo social, marcado, entre outras coisas, por uma
valorização e estruturação do comércio de entretenimentos, relacionados,
inclusive, com uma sociedade civil mais organizada, que desejava, e
necessitava, de expor publicamente os seus símbolos de <i>status</i> e
distinção. O quadro era diferente daquele das duas primeiras décadas do Brasil
independente, quando os divertimentos públicos basicamente se resumiam ao
teatro e aos bailes (além das festas religiosas).</p>

    <p>Entre as “novidades” que surgiram no âmbito do
entretenimento, encontravam-se as touradas. Essa prática, na verdade, já
existia no Brasil desde o século XVII, inclusive no Rio de Janeiro (Melo, 2013a e 2013b). Todavia, desde 1822, quando foi
desmontada uma importante praça de curros que se localizava no Campo de
Santana, a cidade ficara sem corridas de touros. Em 1840, houve uma breve
temporada, que antecedeu outra maior, de seis anos, realizada na transição para
os anos 1850. Depois de uma série de conflitos, após 1852 as touradas
praticamente deixaram de existir até à década de 1870.</p>

    <p>Este estudo tem por objetivo discutir esse
reinício das touradas no Rio de Janeiro, entre os anos de 1840 e 1852,
considerando que ao redor da prática se manifestaram elementos diversos daquele
cenário histórico, nomeadamente algumas tensões relativas à ocupação do espaço
público, debates relacionados com a adesão ao ideário e imaginário da modernidade.
Como fontes foram utilizados jornais publicados na
cidade no período em análise, tendo em conta que, na ocasião, os periódicos já
eram arenas nas quais diversas posições se enfrentavam.<sup><a href="#3">3</a></sup><a name="top3"></a></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>PRENÚNCIOS DE UMA
RETOMADA</b></p>

    <p><b>&nbsp;</b></p>

    <p>Depois de quase duas
décadas sem touradas, em março de 1840, Manoel Luiz Alves de Carvalho<sup><a href="#4">4</a></sup><a name="top4"></a> comunicou que pretendia oferecer espetáculos equestres, gímnicos e de
corridas de touros num anfiteatro a ser instalado no Campo de São Cristóvão.<sup><a href="#5">5</a></sup><a name="top5"></a> O proprietário vinha tentando conseguir a licença desde outubro de
1839<sup><a href="#6">6</a></sup><a name="top6"></a>, já na ocasião enfrentando um debate sobre a adequação da prática a
uma cidade que se pretendia civilizada (Castro, 2005). A própria escolha do
local pode ter sido ditada em função desta polémica.</p>

    <p>O Campo de São Cristóvão era um rossio, muito
utilizado para negócios agropecuários. Nas redondezas, em meados dos anos 1850,
seria instalado o matadouro, substituindo o que existia na Praia de Santa Luzia
(região central da cidade). É interessante pensar nessa transferência para
refletir sobre o espaço das corridas de touros no Rio de Janeiro.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Se na década de 1840, e durante um bom tempo,
ainda eram comuns as chácaras e a presença de gado no centro da cidade, no
decorrer do século, conforme foram mudando as sensibilidades e aumentando as
preocupações com a ordem e com o saneamento, os animais foram sendo afastados e
assiste-se a uma melhor conformação da fronteira entre a zona urbana e a zona
rural. Isto terá um impacto futuro na realização das touradas, que
progressivamente se tornariam mais estranhas à urbe, assumindo esta novas
características.</p>

    <p>Devido a polémicas e a
múltiplas dificuldades de organização, foi somente em abril de 1840 que foram
realizadas as corridas. Como era comum, na época, os anúncios esmeravam-se em
pedir a “proteção e o acolhimento”<sup><a href="#7">7</a></sup><a name="top7"></a> da população. Um público crescente e multifacetado, formado por
membros de diversos estratos sociais (elites, grupos intermediários e
populares), alocados em ­espaços distintos nos curros, passou a ser o
personagem emblemático da inflexão que levou as touradas do modelo estatal
(típico do período colonial)<sup><a href="#8">8</a></sup><a name="top8"></a> para o modelo comercial. A remuneração dos promotores dos eventos
(empresários, companhia tauromáquica e funcionários diversos ligados ao bom
andamento dos espetáculos) passou a depender da satisfação dos pagantes, que precisavam de sentir-se acolhidos e atendidos nas suas
expectativas. No lugar da louvação à família real e aos feitos do Império
português, antiga razão de ser das corridas (Melo, 2013a), introduziu-se o
primado da emoção gratuita, a alegria pela alegria, o divertimento pelo
divertimento.</p>

    <p>Conquistar o
público era uma necessidade para a manutenção do negócio. Para tal, os
promotores tinham que estar atentos a muitos detalhes: a escolha do gado, a <i>performance</i> da companhia, o conforto da praça, a
ordem do espetáculo, com seus ornamentos, vestuários, banda de música, entre
outras coisas. Certamente estas preocupações existiam em algum grau no modelo
anterior, mas agora a própria continuidade da prática dependia da boa execução
dessas ações.</p>

    <p>Entende-se, assim, por que motivo os anúncios nos
jornais – novo procedimento indispensável ao êxito comercial do empreendimento
– roçavam a bajulação. Além disso, o empresário tinha de ostentar os seus
esforços, fadigas, despesas e sacrifícios para contentar a assistência. Era uma
forma de prestar contas e de conquistar a confiança do público.</p>

    <p>Os pagantes, por
seu turno, cada vez mais queriam ver os seus desejos atendidos. Aplaudiam os
toureiros quando os julgavam dignos de mérito. Por outro lado, poderiam reagir
com violência quando se sentiam enganados. Nesse caso, os mais exaltados podiam
chegar a extremos, como depredar a arena.</p>

    <p>Havia um novo perfil de assistência em
delineamento, mais ativa e disposta a participar. Um sinal dessa tendência é o
sucesso do “touro dos curiosos”: destinava-se um animal para que voluntários da
plateia o enfrentassem. Outra forma de participação era mais generalizada: a
ordem para que os toureiros pegassem “à unha” o touro. O convite à manifestação
era reiterado nos anúncios e cartazes. O público, portanto, também tomava parte
e desempenhava um papel importante no espetáculo.</p>

    <p>Se atrair o público era uma clara preocupação,
também o era o seu transporte até à praça do curro. No caso da arena do Campo
de São Cristóvão, uma região relativamente afastada do centro naquela transição
dos anos 1830-1840, comunicou-se que “largará da ponte da corte, (…), às 11
horas da manhã e 2 ½ da tarde, uma barca de vapor para
aquele ponto, donde voltará meia hora depois de acabado o divertimento”.<sup><a href="#9">9</a></sup><a name="top9"></a> O escalonamento dos preços dos bilhetes era um sinal de que havia uma
expectativa de receber, inclusive, pessoas das camadas populares: $320 por
viagem, sendo $160 para descalços.<sup><a href="#10">10</a></sup><a name="top10"></a></p>

    <p>Atento à nova dinâmica da cidade, depois da
primeira experiência, o empresário tentou incrementar o espetáculo para manter
o interesse popular. Contratou uma companhia tauromáquica que vinha de
Montevidéu e esmerou-se para conseguir bons animais para o toureio. Para
facilitar o acesso, os ingressos foram também vendidos na loja de Paula Brito.<sup><a href="#11">11</a></sup><a name="top11"></a></p>

    <p>A temporada de 1841 foi mais intensa. Nesse ano,
João Lopes, que atuava no antigo anfiteatro, dizendo que não lhe era vantajoso
financeiramente permanecer por lá, abriu uma nova praça de touros, na cancela
de São Cristóvão.<sup><a href="#12">12</a></sup><a name="top12"></a> Essa iniciativa não logrou sucesso, mas é um indício de que já
existiam divergências na consolidação da tauromaquia na cidade. Na verdade, se
havia elementos que demonstravam a conformação do campo (calendário autónomo,
corpo de especialistas, entidades próprias, mercado ao seu redor)<sup><a href="#13">13</a></sup><a name="top13"></a>, ainda tardaria alguns anos o amadurecimento dos setores envolvidos,
de forma a permitir a manutenção da promoção das corridas.</p>

    <p>Depois das touradas de 1841, houve um novo
interregno. É possível especular sobre o porquê da interrupção. Além de a
cidade passar por um momento de refluxo nos seus entretenimentos, a estrutura
comercial e de negócios ao seu redor ainda estava em construção, não sendo
suficiente para dar conta das necessidades dos empresários envolvidos no ramo
do divertimento.<sup><a href="#14">14</a></sup><a name="top14"></a> Em poucos anos, contudo, novas iniciativas seriam experimentadas.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>

    <p><b>UMA NOVA TENTATIVA</b></p>

    <p><b>&nbsp;</b></p>

    <p>É só em 1847 que foram
realizadas novas corridas de touros no Rio de Janeiro. A praça foi instalada na
esquina da Rua Nova do Conde (atual Frei Caneca) com a Rua de Matacavalos
(atual Riachuelo). Percebe-se que foram entabulados esforços para oferecer bons
espetáculos: conforto nas instalações, banda de música completa, equipa de
toureio ricamente trajada, a incessante busca por
animais adequados. É possível identificar, inclusive pelo espectro dos preços
dos ingressos, que se tentava atrair público de diversos perfis
socioeconómicos. Um detalhe dos anúncios merece destaque: “Todos os
divertimentos e vestimentas são feitos segundo os costumes de Portugal”.<sup><a href="#15">15</a></sup><a name="top15"></a> Essa referência ao antigo colonizador
será uma constante na história da prática na capital brasileira.</p>

    <p>Nessa praça de touros, uma inovação foi
apresentada: uma toureira. Como se lê no <i>Diário do Rio de Janeiro</i>:</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <blockquote>    <p>O empresário sente não poder apresentar uma jovem
de 23 anos, toureando com braço varonil, e impavidez de cavalheiro, mas
pretende apresentar em compensação a srta. JOANNA
PAULINA.<sup><a href="#16">16</a></sup><a name="top16"></a></p></blockquote>

    <p><sup>&nbsp;</sup></p>

    <p>Causou grande alvoroço na cidade essa <i>performance</i>, por ser ainda rara a participação de
mulheres em atividades públicas, tanto mais por se tratar de uma prática tão
ligada a representações de masculinidade.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Na verdade, deve-se destacar a referência
explícita ao comparecimento de mulheres aos eventos tauromáquicos, havendo até
mesmo um espaço exclusivo para elas na arena. Em linhas gerais, acabou por
contribuir para que se tornasse mais intensa a presença social feminina a
constituição de um mercado ao redor dos entretenimentos, bem como o
delineamento de uma dinâmica pública mais intensa, ocorrências que, como vimos
na introdução, marcavam o Rio de Janeiro do período.
Esse processo, que naquele momento dava os seus primeiros passos, tornar-se-ia
mais visível no quartel final do século XIX.<sup><a href="#17">17</a></sup><a name="top17"></a></p>

    <p>A despeito do perfil da iniciativa, logo foi
leiloado o curro. A cidade, todavia, não ficaria muito tempo sem touradas. No
mês de setembro de 1847, ­Francisco York<sup><a href="#18">18</a></sup><a name="top18"></a>
 e Antonio José Godinho<sup><a href="#19">19</a></sup><a name="top19"></a> receberam uma licença para promover corridas num antigo anfiteatro
situado na esquina da Rua do Lavradio com a Rua do Senado. O leitor que assina
como “apreciador justo” (pelo teor suspeitamos que pode
ter sido alguém da empresa fazendo autopropaganda de maneira anónima) exulta:</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <blockquote>    <p><i>Sr.</i><i> Redator</i> – Tendo assistido às duas últimas
corridas de touros no curro à rua do ­Lavradio, confesso-lhe que muito gostei
por ver que o atual proprietário se não poupa a despesas, tendo comprado muitos
bons touros, e reformando já o pessoal dos capinhas. Tais esforços não devem
ser esquecidos pelo público por quem são eles feitos, e por isso é de esperar a
continuação de concorrência, e tanto mais quanto, segundo consta, preparam-se
já novas e belas cenas.<sup><a href="#20">20</a></sup><a name="top20"></a></p></blockquote>

    <p><sup>&nbsp;</sup></p>

    <p>Essa praça, de facto, promoveu corridas de touros
durante meses, com regularidade e boa organização. Em parte, deve-se ao
italiano Emilio Anselmi o seu sucesso. Esse cavaleiro/toureiro compreendeu bem
as mudanças em curso no Rio de Janeiro, esmerando-se para atrair a atenção do
público com <i>performances</i> notáveis e constantes inovações. Além disso,
tornou-se conhecido não só por motivos tauromáquicos: “carregado de crimes,
pretendia muitas vezes fazer até jogo – com a honra de sua mulher!”.<sup><a href="#21">21</a></sup><a name="top21"></a> Tratava-se de um polémico personagem, perfeito para alimentar o
falatório numa cidade que começava a apreciar a cena pública.</p>

    <p>Esse curro reinou sozinho até novembro
de 1848, quando Domingos José de Moura<sup><a href="#22">22</a></sup><a name="top22"></a> recebeu
uma licença para por em funcionamento uma nova praça, instalada na Rua das
Flores (atual rua de Santana). Tendo de lidar com a existência de uma
concorrente já bem estabelecida, não se poupou a esforços para atrair a
assistência. Por exemplo, os ingressos eram vendidos nos pontos das gôndolas;
quem os adquiria, ganhava transporte gratuito para ir até ao evento: “Assim
espera o empresário que com estas comodidades o público não deixe de concorrer
a fim de a reunião ser em tudo brilhante”.<sup><a href="#23">23</a></sup><a name="top23"></a></p>

    <p>Um detalhe importante dos eventos promovidos
nesse touril: o início dos espetáculos era marcado pela execução dos hinos
nacionais do Brasil e ­Portugal. Como já observámos, e retomaremos no decorrer
do texto, no Rio de Janeiro as touradas foram sempre relacionadas com o antigo
colonizador e contaram com a presença e apoio dos portugueses estabelecidos na
cidade, um fluxo de migração, aliás, que continuou a ser intenso mesmo depois
da independência (Lessa, 2002).</p>

    <p>Logo se estabeleceu uma rivalidade entre as duas
praças. No dia seguinte à sessão de inauguração do novo estabelecimento, um
anónimo criticou:</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>

    <blockquote>    <p><i>Sr.</i><i> Redator.</i> – Tendo visto pelos jornais anúncios
para duas corridas de touros diferentes no domingo, 12 do corrente, uma na rua das Flores na Cidade Nova, e outra na rua do Lavradio
n.º 35, e tendo eu já assistido por algumas vezes a esta última, tive vontade
de ir ver a outra à rua das Flores, a fim de aquilatar o merecimento de cada
uma, e poder melhor decidir-me sempre que tivesse de escolher entre estes dois
divertimentos. Com efeito, à hora marcada achava-me eu num dos lugares daquela
praça depois de ter dado os meus dez tostões, que tão mal empregados foram, e
que sem dúvida nunca mais lá tornarão. Posso assegurar ao público que nada
houve de agradável nesse divertimento, e ia me parecendo que só eu estava
desgostoso dele, quando vi que todos os espectadores faziam a mesma ideia, pois
que prorromperam em vaias e apupadas a todas as figuras do circo, e até ao
próprio cavaleiro, que foi sofrivelmente assobiado.<sup><a href="#24">24</a></sup><a name="top24"></a></p></blockquote>

    <p><sup>&nbsp;</sup></p>

    <p>A resposta não
tardou. Dois dias depois, outro anónimo contestou essa perceção. Sugeriu que o
grande número de assistentes (cerca de 1200, na sua apreensão) percebeu que se
tratava de uma praça “maior, mais elegante e a plateia muito cômoda”,<sup><a href="#25">25</a></sup><a name="top25"></a> ainda que reconhecesse que a equipa de
toureio não era das melhores. Concluiu dizendo que não mais poria o pé na Rua
do ­Lavradio.</p>

    <p>A polémica não parou por aí, motivada pela
procura de públicos. Em 17 de novembro, é o próprio Domingos José Moura que
escreve, pedindo desculpas ao público pelos eventuais problemas. Não perde a
oportunidade de criticar os que falaram mal da sua praça, sugerindo que se
tratou de perseguição daqueles que são “apenas interesseiros detratores, que
não duvidam lucrar jogando a reputação alheia”.<sup><a href="#26">26</a></sup><a name="top26"></a></p>

    <p>No dia seguinte, Godinho, considerando que a ele
foram “dirigidas algumas alusões desagradáveis e pouco leais”, fez questão de
afirmar que “nunca teve em vistas e nem empregou meio algum para detrair ou
abater o novo estabelecimento da rua das Flores na
Cidade Nova”,<sup><a href="#27">27</a></sup><a name="top27"></a> inclusive porque não “lhe causa prejuízo a abertura da nova praça,
apesar da qual nenhuma diferença sentiu na concorrência com que o público
honrou no domingo”. Sugeriu ainda que o empresário concorrente tentou subornar
o agente de touros para ficar com os melhores animais.</p>

    <p>O debate foi intenso, com acusações de ambos os
lados, envolvendo proprietários e leitores. Para a antiga praça, eram mesmo
comuns os elogios, ainda que também houvesse críticas, nomeadamente ao
comportamento polémico de Emilio Anselmi. Já o novo curro logo estaria melhor estruturado, acirrando ainda mais a concorrência.
José Maria Gonçalves era a principal atração, mas também recebiam
destaque Francisco Gonçalves Garcia (o China) e Salvador Vieira Leste,
conhecidos pelas inovações que introduziram nas corridas.</p>

    <p>Dois redondéis funcionando simultaneamente era um sinal de que a tauromaquia se consolidava na
sociedade da Corte. Mais ainda, com as tensões relacionadas com a necessidade
de atrair o público, aquele que poderia simultaneamente legitimar e viabilizar
economicamente o espetáculo, percebe-se uma maior
profissionalização das corridas e investimento na infraestrutura.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>DO SUCESSO A MAIS UM
FIM</b></p>

    <p><b>&nbsp;</b></p>

    <p>Depois de dois anos com
atividades frequentes, no ano de 1849 pareciam bem estabelecidas as corridas de touros: estava configurado, mesmo que de
forma precária, um campo da tauromaquia no Rio de Janeiro, com todos seus
elementos constitutivos – companhias relativamente estáveis, um calendário
próprio, corpo técnico profissional, um mercado conformado. Os seus personagens
ocupavam lugar de algum destaque na cidade, seja porque se envolviam com alguma
polémica, como o caso do já citado Anselmi, seja por serem considerados
exemplos de bravura, como ocorria com Salvador Vieira Leste.</p>

    <p>Esta relativa estabilidade não significava
monotonia ou permanência dos mesmos elementos. Pelo contrário, era necessário
continuar a inovar para envolver o público. O anfiteatro da Rua do Lavradio
passou a oferecer espetáculos híbridos: corridas de touros e apresentações de
ginástica. Já a praça da Rua das Flores se consolidou
como o grande palco das touradas. Também por lá se procurava apresentar
atrações diferenciadas, mais afeitas, todavia, à tauromaquia. Por exemplo, como
já ocorrera antes na capital, nas atividades de 11 de fevereiro de 1849, uma
francesa fora contratada para tourear.<sup><a href="#28">28</a></sup><a name="top28"></a></p>

    <p>Nos meses finais de 1849, sem que deixassem de
existir as praças, as corridas foram interrompidas por um tempo. Na verdade, em
outros países, como na Espanha e em Portugal, havia (e há) meses específicos
para a realização das touradas. No caso do Rio de Janeiro não existia uma
rotina anual estruturada, estando as interrupções mais
ligadas a questões comerciais, aos problemas da cidade ou à concessão ou não de
licenças por parte do poder público.</p>

    <p>Em 1850, pela primeira vez na cidade, a promoção
de espetáculos taurinos enfrentou esta última dificuldade: foi negada a licença
a João Valentim ­Cerqueira Esteves, o empresário que àquela altura estava à
frente do curro da Rua dos Flores.<sup><a href="#29">29</a></sup><a name="top29"></a> No final, a autorização foi concedida, mas já se anunciava que
aumentavam as resistências com a prática.</p>

    <p>Uma novidade nessa temporada foi a maior
cobertura das corridas por parte dos jornais. Surgiu até um comentarista
permanente. Não se sabe se é a mesma pessoa, pois assina de forma distinta, sempre
com um pseudónimo: “amante das touradas”, “amigo do requinte”, “cavaleiro da
roça”. De qualquer forma, demonstrava conhecimento sobre o assunto.</p>

    <p>Em novembro de 1850,
houve pela primeira vez um facto que se tornaria comum nos anos seguintes: um
grande conflito no curro, numa sessão que fora anunciada com bastante
estardalhaço – prometiam-se touros como jamais foram vistos nas arenas
fluminenses. Segundo o cronista do <i>Periódico dos Pobres</i>,<sup><a href="#30">30</a></sup><a name="top30"></a> tudo estava mal preparado, supostamente
por problemas financeiros, a seu ver não justificados, pois estava lotada a
praça. A insatisfação crescente culminou numa turba, somente encerrada com a
ação da polícia. Segundo o <i>Correio da Tarde</i>:</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <blockquote>    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Extraordinário concurso de povo houve ontem na
Praça da Rua das Flores para admirar a corrida dos touros, tão gabados pelo <i>Jornal
do Comércio</i>!… Apareceram 4 pacíficos bois (…), que
pela sua idade e hábitos julgaram mais prudente não servirem de divertimento a
curiosos. O respeitável tomou vingança por suas próprias mãos, escangalhando
todos os móveis. Aqui está o mais inocente divertimento em que alguns tenentes
poderiam exercer o maligno instinto de destruição!<sup><a href="#31">31</a></sup><a name="top31"></a></p></blockquote>

    <p><sup>&nbsp;</sup></p>

    <p>Desta vez, portanto, a interrupção das touradas
teve outro motivo: a destruição do curro. No <i>Diário do Rio de Janeiro</i>,
de 7 de fevereiro de 1851, vemos a notícia de leilão
da praça da Rua das Flores. Mais uma arena chegava ao fim. Depois do fim do
único redondel que estava em funcionamento<sup><a href="#32">32</a></sup><a name="top32"></a>, as touradas deixam de ser realizadas por
alguns meses.</p>

    <p>Há uma novidade nesse ano que nos ajuda a
entender as mudanças que estavam em andamento: a melhor configuração de uma
nova prática social que dera os seus primeiros passos já na década de 1810, mas
que somente naqueles meados do século efetivamente começou estruturar-se: o
desporto (Melo, 2001). Pelos jornais de 1851 podemos
ver as mais diversas informações sobre corridas de cavalos e de barcos.
Encaradas como sinal de refinamento e civilização, o turfe e o remo passaram
rapidamente a ser valorizados.</p>

    <p>De início, delineia-se até mesmo certa tensão
entre as touradas, uma prática que vinha do século XVII, bastante ligada aos
parâmetros culturais do antigo colonizador, e o desporto, novidade que viera
inicialmente a bordo dos navios ingleses, mas que também carregava, no Brasil,
inspiração dos ­franceses. Estava, assim, relacionado
com a modernidade, a que tanto aspiravam alguns, aqueles que apontavam um
caminho de construção identitária que se afastava da outrora metrópole (Melo,
2009).</p>

    <p>Percebemos esse debate na secção
“Comunicado/Pacotilha”, publicada no <i>Correio Mercantil</i> de 15 de junho de
1851. Vejamos que não se tratava de um anúncio mandado publicar pelos
empresários das praças ou uma carta de um leitor anónimo. Era sim um balanço
das principais notícias da semana, da lavra de um cronista.</p>

    <p>As corridas de cavalos, realizadas no
recém-inaugurado Prado Fluminense, chamaram a atenção do cronista. Muitos foram
os elogios ao evento, embora se observasse os problemas e necessidade de uma
melhor estruturação. Um comentário deixa clara a
conceção que começava a ser construída:</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <blockquote>    <p>As corridas de sexta-feira podem considerar-se
como um ensaio, mas pelo prazer e satisfação que vi reinar nesse ajuntamento
que se diz ter sido composto de quatro a cinco mil pessoas, parece que o novo
folguedo transplantado da Europa pegou na nossa terra, aclimou-se já neste
nosso país, que tendo falta, como fica dito, de um lugar de espetáculo para de
dia, pois que o estado de sua civilização já não tolera mais as bárbaras
corridas de touros, nem as antiquadas cavalhadas de argolinhas, sem duvida
abraça com todo o gosto e adota as corridas de cavalos.<sup><a href="#33">33</a></sup><a name="top33"></a></p></blockquote>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup>&nbsp;</sup></p>

    <p>Para o cronista, estava claro que a nova prática
que vinha da Europa, leia-se de Inglaterra e de França, finalmente apresentara
à população da capital a oportunidade de se divertir de acordo com um superior
“estado civilizacional”, sem a necessidade de recorrer às “inoportunas”
corridas de touros, que, vindas de Portugal, já não mais se ajustariam aos
“novos tempos”.</p>

    <p>De toda forma, ainda seguia a expectativa de
alguns apreciadores das touradas. Vejamos a posição entusiasmada de um leitor,
publicada alguns meses depois:</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <blockquote>    <p>Dé, gongodem, démdem, gongodém, dim…</p>

    <p>Ouvirão repicar agora os sinos?</p>

    <p>Esses sons tão alegres, tão divinos</p>

    <p>Estão anunciando um grão festim;</p>

    <p>De efeito singular… pomposo enfim!</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Grato a velhos, a moços e a meninos;</p>

    <p>– Sublimes espetáculos taurinos.<sup><a href="#34">34</a></sup><a name="top34"></a></p></blockquote>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>A sessão inaugural dessa nova temporada, uma vez
mais realizada na velha arena da Rua do Lavradio, em novembro de 1851, mereceu
algumas linhas no <i>Periódico dos Pobres</i>, na seção “Visita das priminhas”
(duas supostas parentes teciam comentários irónicos
sobre o que ocorria na cidade). Segundo o seu olhar, tudo parecia correr bem,
mas houve “alguns espectadores turbulentos que arrancaram algumas tábuas das
trincheiras, quando lhe desagradava qualquer coisa”.<sup><a href="#35">35</a></sup><a name="top35"></a> Uma vez mais ocorreram conflitos no curro.</p>

    <p>As críticas aumentaram ainda mais quando a sessão
de 18 de janeiro de 1852 terminou em pancadaria: a plateia reagiu à má
qualidade do espetáculo e ao incumprimento do programa. Como já ocorrera antes,
depois de confusão generalizada, inclusive conflitos com a polícia, o curro
acabou destruído. Para o <i>Correio Mercantil</i>: “É um clamor geral contra
esta especulação de corridas de touros, que só tem por fim enriquecer
espertalhões, que infelizmente gozam da proteção, sem a qual não poderiam obter
as licenças que têm obtido”.<sup><a href="#36">36</a></sup><a name="top36"></a></p>

    <p>Ainda que a crítica não tenha sido dirigida
diretamente às touradas, mas sim à esperteza de empresários e à ineficiência
governamental, o facto é que se fragilizava ainda mais o que já vinha débil.
Mal se recuperara dos conflitos de 1850, esses novos tumultos expunham as
vulnerabilidades das corridas numa cidade que “se civilizava”, colocando em
xeque o <i>ethos</i> que a sustentava.</p>

    <p>Ainda assim
persistiam muitas expectativas; os conflitos e críticas não eram suficientes
para eliminar o gosto pelos espetáculos taurinos. Vejamos como o cronista que
assina como Juca, no periódico <i>Marmota</i><i>
Fluminense</i>, comemorou a notícia que um empresário mandara de Lisboa, dando
conta de que estava arrebanhando uma nova companhia para voltar a promover as
touradas no Rio de Janeiro: “Moças de bom gosto, homens, mulheres, meninos e
meninas, preparai-vos todos, que em breve teremos de fruir belas corridas de
touros!”.<sup><a href="#37">37</a></sup><a name="top37"></a> Mais ainda, chegou a pedir apoio
governamental para a reinstituição da prática:</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <blockquote>    <p>Oh! Já era tempo que uma capital como a nossa
tivesse mais este gênero de divertimento; divertimento que muito apreciam os
seus habitantes! Nós desde já, fazemos um apelo ao corpo legislativo, a fim de
proteger mais esta distração pública, concedendo-lhe algum donativo para seu
sustentáculo.</p></blockquote>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>

    <p>Para Juca, as touradas eram mesmo superiores às
atividades teatrais: “Quem não preferirá, em vez de ouvir coros de qualquer
ópera italiana, ver as belas sortes dos capinhas, as
lindas pegas dos máscaras, ouvir os gritos e as apupadas ao touro
corrido?…Ninguém, por certo”. O seu entusiasmo ia mesmo em
contramão do que pensava um setor da cidade.</p>

    <p>De qualquer forma, concretamente demoraria muitos
anos para que fossem de novo organizadas touradas. Aprofundemos o debate sobre
as diferentes posições que as cercavam naquela transição de décadas.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>TENSÕES AO REDOR DOS
FESTEJOS TAURINOS</b></p>

    <p><b>&nbsp;</b></p>

    <blockquote>    <p>Não nos falem da
barbaridade do divertimento. Cada povo tem sua balda: os Ingleses pelas brigas
de galos e pelo soco, que muitas vezes é seguido de sangue pela boca, e pela
morte: os Espanhóis e Portugueses, de que descendemos,
pelas corridas de touros. (…). Entre nós se a fidalguia não empunha uma lança
(…) nem por isso deixam de apresentar-se nos
camarotes, e mesmo na plateia geral de mistura com o povo, Senadores do
Império, Magistrados, Militares, Empregados Públicos, e outras pessoas
graduadas.<sup><a href="#38">38</a></sup><a name="top38"></a></p></blockquote>

    <p><sup>&nbsp;</sup></p>

    <p>Conforme as corridas
se foram estabelecendo na cidade, por parte do público aumentou a exigência de
precisão nas cortesias, que deveriam marcar o início e o decorrer da atividade,
bem como nas “sortes”, as diversas técnicas e formas de lidar com os touros. Ao
redor dessas peculiaridades, havia mesmo disputas internas no campo
tauromáquico, conflitos entre o que era considerado mais ou
menos tradicional, a contestação ou valorização de certas inovações.
Esses embates constituíam-se em mais um atrativo. Como observa Capucha:</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>

    <blockquote>    <p>É das rivalidades que vive a festa. Sem a
concorrência, a inovação, a oposição de estilos, o público não se renovaria e
deixaria de acorrer às praças, crê-se no “mundillo” (…). O campo estagnaria e
perderia capacidade plástica para acompanhar as alterações do gosto do
“respeitável público” [Capucha,1988, p. 60].</p></blockquote>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>Vejamos que se nos anúncios e comentários das
primeiras touradas realizadas na cidade praticamente não havia descrição dos
procedimentos, por ocasião das corridas de 1847 esses já ocupam um espaço
importante. Com o decorrer do tempo, muitas seriam as novidades apresentadas.
Os nomes das técnicas passaram a ser destacados:</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <blockquote>    <p>O célebre D. Manuel Sanches executará com a
garrocha o difícil Salto do Paciego, do qual foi inventor o famoso Francisco
Montes. E bem assim toureará à verônica e à navarra,
ajoelhado e fingindo que mata o touro.<sup><a href="#39">39</a></sup><a name="top39"></a></p></blockquote>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>A própria dinâmica da cena pública, cada vez mais
agitada e multifacetada, gerava para os promotores o desafio de oferecer
atrações que chamassem a atenção da assistência, que rapidamente se acostumava
com uma nova emoção, exigindo graus superiores de excitação. No caso das
touradas essas dimensões são notáveis: “O público espera, dos produtores,
permanentes inovações que permitem a distinção, ao passo que a criação de novos
públicos (ou qualquer transformação ao nível do gosto dos consumidores),
provocará alterações nas relações de força entre os especialistas” (Capucha,
1988, p. 150).</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Um dos sinais mais notáveis do aumento da
participação do público foi o cada vez maior espaço para o “touro dos
curiosos”, ocasiões adequadas para os que desejavam exibir-se e provar o seu
valor. No decorrer do tempo, os estímulos foram os mais diversos. Colocava-se
algum prémio no pescoço ou entre os chifres do animal (moedas, bilhetes da
lotaria, um relógio, entre outros), ganhando quem conseguisse retirá-lo. Mais
ainda, passou a definir-se quem afinal poderia tomar parte dessas provas. No
anúncio de uma tourada observou-se que seria “proibido saltar na praça como curioso aquelas pessoas que já tenham trabalhado nas praças
conhecidas”.<sup><a href="#40">40</a></sup><a name="top40"></a></p>

    <p>A generalização das atividades gerava certa
desvalorização, a não ser que houvesse um grande corpo de especialistas que
pudesse hierarquizar as sessões. No caso do Rio de Janeiro, a falta desse
plantel, bem como de animais apropriados, eram elementos dificultadores da
manutenção da prática. As reclamações tornaram-se constantes, o público exigia
que se cumprisse o informado, que fosse oferecido um bom espetáculo.</p>

    <p>O centro das
reivindicações era mesmo a qualidade dos animais. Isso não ocorria só no
Brasil, como nos deixa perceber Capucha: “existem certos temas que se repetem
ciclicamente nos toiros, como a do tamanho e bravura dos mesmos, embora em
contextos diferentes e com diferentes intenções” (Capucha, 1988, p. 155). Para
o autor, isso tem a ver com valores que sempre estiveram consagrados: “a festa
de toiros, no seu conceito, constitui um acto sacramental em torno da morte. O
que acontece na arena circunscrito à acção, tem
inevitáveis reações psicológicas no público. Na praça ele aprende o mesmo que
quando acode a presenciar uma tragédia Grega” (Capucha, 1988, p. 158).</p>

    <p>As tensões não se circunscreviam ao cenário
interno das touradas. No decorrer da constituição do campo da tauromaquia,
também aumentava o divórcio entre o que desejava o público e as exigências de
alguns para uma cidade, que se queria moderna e civilizada, devendo-se,
portanto, extirpar algumas práticas que não condiziam com esse olhar. Na mesma
medida em que crescem e se diversificam as atividades de entretenimento,
modificam-se os parâmetros daquelas valorizadas, ou não.</p>

    <p>Além disso, o novo ativismo da população na cena
pública gerou a necessidade de negociação dos comportamentos. Este debate
articulava-se com uma peculiaridade das touradas que no Rio de Janeiro se
organizaram: a defesa da moda portuguesa, que valoriza a <i>performance</i>
a cavalo, e na qual não se mata o touro no fim. Nessa modalidade, o primeiro
aspeto tem relação com o facto de que a nobreza de Portugal jamais abandonou a
prática, tornando-a tanto uma forma de resistir aos novos símbolos da burguesia
quanto de atrair novos ricos (Capucha, 1988).<sup><a href="#41">41</a></sup><a name="top41"></a> O segundo aspeto relaciona-se com as intervenções do marquês de
Pombal, de inspiração iluminista, que proibiu o sacrifício público dos animais
(Crespo, 1990).</p>

    <p>Para Capucha, na Península Ibérica, essa
diferença de tradições entre portugueses e espanhóis, que geraram distintos
discursos de legitimidade, tinha mesmo relação com as possibilidades de os diversos
estratos sociais tomarem parte nas corridas. Para o autor, não é por acaso que
são sempre membros das camadas populares os matadores, personagens que acabam
desenvolvendo uma ética própria: “a vida de touros é uma vida de esforço e
sacrifício; ao toureiro não são permitidos prazeres que o seu poder económico
permitiria” (Capucha, 1988, p. 154).</p>

    <p>No caso brasileiro,
esse debate entre os dois estilos ganhou conotações diferenciadas, ligadas à
adequação das touradas. O facto de se adotar maioritariamente (e a partir de
determinado momento exclusivamente) a moda portuguesa, para além de ser uma
clara influência do antigo colonizador, também foi uma estratégia para defender
que as corridas organizadas no Rio de Janeiro não eram uma prática violenta. O
costume de não matar o touro foi sempre um argumento usado pelos que as
apreciavam. Segundo Z., por exemplo, no Brasil não se
pode dizer que se tratasse de um divertimento bárbaro, já que aí não ocorriam
as “cenas sangrentas e funestas que tem sucedido em outros países”.<sup><a href="#42">42</a></sup><a name="top42"></a></p>

    <p>Entre 1840 e 1852, houve espetáculos híbridos,
com provas realizadas à moda de Portugal e de Espanha num mesmo programa.
Chegou mesmo a existir a morte de animais nas arenas cariocas. Até ao final do
século, houve também corridas à portuguesa, com os touros com chifres
descobertos (isso é, sem passar pelo processo de “embolação”, colocação de
armações de couro e metal nos cornos). Já na década de 1870, contudo, a moda
espanhola fora definitivamente suprimida das praças do Rio de Janeiro.</p>

    <p>De toda a forma, com morte ou sem morte,
cresceram as críticas à prática. Na verdade, logo por ocasião do
reestabelecimento das touradas, surgiram as primeiras contestações. Em <i>O
Sete D’Abril</i>, de 16 de março de 1839, um anónimo, que assina como
“Chronista”, censura a municipalidade de Niterói por
ter concedido autorização para a realização das corridas. Para o autor,
tratava-se de um dos “divertimentos mais bárbaros e mais execráveis, (…) que
horroriza a natureza, e contra o qual têm uníssonos clamando todos quanto se
prezam da menor centelha de humanidade” (p. 1).</p>

    <p>Os argumentos eram explícitos: “com quanto
direito não censuraremos nós, cristãos, nós que vivemos n’um século de luzes e
de filantropia, esse divertimento onde os perigos do homem são as delícias do
espetador, onde suas bárbaras façanhas contra um pobre animal são os objetos
dos gerais aplausos”. Até aqui se percebe uma mistura de argumentos religiosos
e filosóficos para sugerir que a prática era inadequada aos novos tempos. Mais
adiante, contudo, ficam mais claras as razões da crítica.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Chronista deixa claro que sua motivação maior não
é o amor aos animais. O seu intuito “não é outro senão perguntar (…) se
refletiram eles ao menos na época do ano em que nos achamos”. Para ele,
“Infelizmente este ano representações profanas tem tido lugar (…) em tempo de
quaresma; e como se isso ainda não bastasse, houve curro, matança de bois
mansos, anunciada aparatosamente!”. O que mais o incomodou foi mesmo o suposto
desrespeito a uma data religiosa.</p>

    <p>Nessas primeiras
temporadas (de 1840-1841 e de 1847-1852), a maior parte das touradas ainda
respeitou a quaresma. Na concessão de licenças parece que não havia restrições
desse género. Tratava-se mesmo de um cálculo dos empresários: desrespeitar a
data podia despertar a reação dos detratores e deixar a praça esvaziada, numa
cidade em que a religiosidade tinha influência.</p>

    <p>As contestações de natureza religiosa voltaram a
ocorrer várias vezes. Em novembro de 1847, a crítica prendeu-se com o facto de
as corridas terem sido realizadas no dia de Todos os Santos: “Qual o católico,
ainda do coração mais empedernido, que se não sentiria magoado pelo escandaloso
fato ocorrido n’esta cidade na tarde do dia 1º do corrente novembro?”. Para o
autor, que assina como “católico sem fanatismo”, era absurdo que na mesma hora
das missas estivessem acontecendo o “bárbaro e sanguinolento espetáculo de
corrida de touros”.<sup><a href="#43">43</a></sup><a name="top43"></a></p>

    <p>Devemos, assim, concordar com Capucha: “a
referência de oposição decisiva encontra-se fora do campo. São as ideologias
‘civilizadoras’ que ­despontaram com a centralização do poder religioso da
Igreja Romana e tiveram seu suporte culminante nas Cortes Iluminadas” (Capucha,
1988, p. 164). Para o autor, trata-se, antes de tudo, de uma perseguição a uma
prática que se popularizou, mesmo marcada pela relação com a nobreza.</p>

    <p>De facto, a partir de meados do século XIX, como
vimos, as críticas foram de outra natureza, ligadas à sua inadequação para a
cidade que se pretendia modernizar. Em 1849, nos três meses em que a arena da
Rua das Flores cedeu lugar a “torneios medievais”, os argumentos dos promotores
tocaram exatamente nesse ponto. Começa-se por falar nas mudanças no curro: “a
face do antigo circo está mudada; o seu aspecto de barraca festeira
desapareceu; hoje ornado com gosto, e com gosto artístico, e com o carácter
marcial que lhe convém, vai oferecer um dos mais belos divertimentos e dos mais
nobres que se possam desejar”.<sup><a href="#44">44</a></sup><a name="top44"></a> Informava-se que, ao contrário das touradas, se tratava de uma
atividade “moderna”, uma diversão que contribuiria para a formação militar da
juventude brasileira.</p>

    <p>Importa observar que as ressalvas à violência não
advinham do público das touradas, que queria mesmo mais emoção, reagindo quando
se sentia ludibriado. Já vimos algumas dessas ocorrências. Muitas mais foram
registradas nos jornais.</p>

    <p>Por vezes, o redondel ficou bastante destruído.
Podemos ver isso nos conflitos que ocorreram em 24 de novembro de 1850, na Rua
das Flores. Em função da desorganização do espetáculo e da má qualidade dos
touros, o público começou a vaiar, até que o pior ocorreu:</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <blockquote>    <p>Em um abrir e fechar de olhos foi escangalhado o
curro; o taboado voava para o meio da praça, com velocidade igual a com que poucos momentos antes caiam as belas notas dos
logrados na caixa da empresa! Dentro de cinco minutos apresentava o curro da rua das Flores o aspecto de uma praça forte tomada por escalada:
folhas de pinho, e pernas de serra, que dividiam os camarotes, e formavam a
arquibancada ou plateia, tudo estava em montões no meio da praça.<sup><a href="#45">45</a></sup><a name="top45"></a></p></blockquote>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup>&nbsp;</sup></p>

    <p>Outra cena de destruição foi vista nas corridas
realizadas em 18 de janeiro de 1852, no curro da Rua do Lavradio. O público
reagiu à baixa qualidade dos touros, “que pelo seu péssimo estado e extrema
mansidão em nada correspondiam à expectativa dos amadores e aos anúncios
publicados nos jornais e cartazes”.<sup><a href="#46">46</a></sup><a name="top46"></a></p>

    <p>Quando as tribunas aclamaram que o touro fosse
agarrado “à unha”, possibilidade que, inclusive, fora anunciada no programa, os
toureiros negaram-se a fazê-lo, mesmo com ordens do subdelegado da freguesia,
que, de outro lado, também tentava calar a plateia. A balbúrdia foi aumentando
e logo “algumas tábuas da arquibancada foram arrancadas e atiradas para o meio
do circo”. A polícia prendeu algumas pessoas, a “maior parte caixeiros”.<sup><a href="#47">47</a></sup><a name="top47"></a></p>

    <p>Deve-se perceber que o tom contestatório das
matérias jornalísticas nem sempre se referia à inadequação das touradas, mas
sim ao facto de que os empresários prometiam espetáculos cujos programas não
eram cumpridos. A polícia teria grande responsabilidade nesses problemas, pois
não fiscalizava adequadamente e não sabia como se portar no meio da confusão,
prendendo gente inocente e jamais punindo os verdadeiros culpados.</p>

    <p>A cada ocorrência destas, ampliava-se o tom das
críticas. A diagnóstica e irónica secção “Visita das Priminhas”, do <i>Periódico
dos Pobres</i>, registou o avanço das novas conceções:</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <blockquote>    <p>— (…) então diga-me, foi
a algum dos divertimentos que houve no Domingo, Cavalinhos, Arlequins, Touros.</p>

    <p>— A nenhum desses fui, nem iria, muito
principalmente aos Touros.</p>

    <p>— Então não gosta desse divertimento?</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>— Nem um bocadinho; e não sei como tal se
consente no nosso país tão civilizado e amável; fazendo aquele divertimento
embrutecer os corações de quem ali vai, pelas barbaridades que vê.<sup><a href="#48">48</a></sup><a name="top48"></a></p></blockquote>

    <p><sup>&nbsp;</sup></p>

    <p>Para alguns, não era aceitável que tamanha
violência com animais, tamanha quantidade de sangue, fosse exposta
publicamente. Além disso, havia os comportamentos “inadequados” do público:
xingamentos, descomposturas, gritos e mesmo destruição dos curros. O problema é
o que outro cronista identificou, alguns anos depois:
“o povo só gosta de divertimento quando vê perigo, e quando mesmo vê sangue!”<sup><a href="#49">49</a></sup><a name="top49"></a>    <p>

    <p>Os promotores de touradas ainda tentavam
argumentar que a prática poderia trazer benefícios para o desenvolvimento da
raça taurina nacional (sem se deter a maiores explicações sobre o que era isso
exatamente). Além disso, por vezes foram realizadas corridas beneficentes, com
a renda a reverter para alguma instituição assistencial. Nada disso aplainava
as críticas.</p>

    <p>Um importante indício a ser considerado é que a
família real nunca estava presente nas arenas, um sinal de desprestígio das
touradas<sup><a href="#50">50</a></sup><a name="top50"></a>. Em setembro de 1847, percebemos uma curiosa ocorrência na realização
de uma corrida na praça da Rua Nova do Conde.
Comunica-se que a homenageada seria a “sereníssima princesa imperial”, à
revelia de qualquer participação dos monarcas.</p>

    <p>Encontramos outros poucos indícios de algum
envolvimento da família real nas touradas. Por exemplo, um espetáculo taurino
realizado em fevereiro de 1848, em benefício da Imperial Sociedade Amante da
Instrução, “tendo se dignado S. M. o Imperador a conceder a sociedade sobredita
seis dos melhores touros da imperial fazenda de Santa Cruz”.<sup><a href="#51">51</a></sup><a name="top51"></a> Pedro II, por uma boa causa, a educação, ainda ofereceu alguma ajuda,
mas efetivamente não se tornou um apreciador da prática. Jamais foi visto num
redondel.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>CONSIDERAÇÕES FINAIS</b></p>

    <p><b>&nbsp;</b></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Pelo seu caráter de <i>performance</i>, não
surpreende que nesse primeiro momento de autonomização, o segundo momento da
sua presença em terras cariocas, as touradas se tenham aproximado (ou tenham
sido aproximadas) do teatro. Essa relação existia desde os tempos coloniais,
quando, nos festivais monárquicos, as corridas de touros se misturavam com
apresentações diversas (Melo, 2013a).</p>

    <p>O que também aproximava touradas e teatro era a
conformação dos espetáculos circenses, numa cidade em que progressivamente se
estruturava um mercado de entretenimentos. Relevante é um anúncio de 1847, em
que o proprietário do curro “pede ao respeitável público desta corte todo o
favor, honrando-o com sua presença, por isso que no dia 3 o divertimento não
pode ter a costumada concorrência, por haverem nesse dia outras distrações”.<sup><a href="#52">52</a></sup><a name="top52"></a> Já havia até mesmo “excesso” de diversões, ocupando o circo um lugar
de destaque, imbricando o erudito e o popular, as elites e o povo (Melo e
Peres, 2014).</p>

    <p>O curioso posicionamento de Valente, publicado no
<i>Correio da Tarde</i>, de 20 de novembro de 1848, permite-nos lançar um olhar
sobre essa diversificação. O que o motivou foi a baixa
presença de público numa apresentação da Companhia Lírica, realizada no Teatro
São Pedro de Alcântara. Entre outras razões para tal, sugere: “Temos dois
teatros na Corte; duas praças de touros; de vez em quando bailes mascarados que
se consentem em todo o decurso do ano, dando-se carro de graça às <i>madamas</i>
para a ida; além disso, temos Sociedades de Bailes, A Filarmônica etc. etc.
Isto estafa!” (p. 3).</p>

    <p>Plenamente integradas na estrutura de
entretenimentos da cidade, as touradas paulatinamente estabeleceram-se como uma
diversão peculiar, algo que era sentido pelo próprio público, que se dividia escolhendo os seus divertimentos preferidos. Vejamos
como se posicionou um cronista:</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <blockquote>    <p>Pois temos touros? Ora venha isso para
descansarmos dos passeios sobre o globo e das brigas teatrais sobre finanças. O
divertimento dos touros convém à rapaziada; é de tarde e por isso fica a noite
para mil outros entretenimentos; é barato e por isso agrada aos patuscos e
gritadores; é popular.<sup><a href="#53">53</a></sup><a name="top53"></a></p></blockquote>

    <p><sup>&nbsp;</sup></p>

    <p>As relações entre touradas e teatro foram-se
enfraquecendo com o crescimento das contestações às primeiras. Vemos um indício
disso já em 1843. Um anónimo, ao fazer uma crítica ao funcionamento do que
deveria ser a mais prestigiosa casa teatral da cidade, o São Pedro de
Alcântara, procurou marcar a diferença entre os estabelecimentos “civilizados”
e os “anfiteatros”, apropriados para espetáculos mais “exóticos”. Sem depreciar
por completo esses últimos, clama o autor pelo desenvolvimento dos primeiros,
deixando clara uma diferença que se acentuará no decorrer do século.<sup><a href="#54">54</a></sup><a name="top54"></a></p>

    <p>Esse afastamento
tornou-se mais percetível e categórico depois dos conflitos de 1850/1851/1852.
A expressão “corrida de touros” passou a ser utilizada como sinónimo de turba,
tudo aquilo que o teatro não deveria ser. Em tom crítico, observou-se no <i>Correio
Mercantil</i> de 7 de dezembro de 1852: “Domingo à
noite, durante o espetáculo no Teatro de S. Pedro de Alcântara, alguns
indivíduos entenderam dever transformar esse belo salão em praça de touros, e
dirigiram motejos e ditérios a uma família de cor que se achava em um camarote”
(p. 3). No mesmo jornal, em 23 de setembro de 1854, vemos algo de teor
semelhante: “O Teatro Lyrico vai-se tornando uma verdadeira praça de touros;
ali já não se respeita a pessoa do monarca, nem as autoridades, e nem ao
publico sensato”.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Esse uso do termo tornou-se rapidamente comum
também noutras esferas, como na política. Vejamos um comentário sobre um debate
do parlamento: “a oposição constitucional assistiu de palanque a essa nova
corrida de touros, admirada de tanto encarniçamento da parte do governo em
provar que era inábil para presidir a câmara o deputado por ela elevado ao
cargo de 1º vice-presidente”.<sup><a href="#55">55</a></sup><a name="top55"></a> Ou essa comparação mais genérica: “O que é hoje o nosso governo, seus
delegados, seus atos, suas propensões, sua corrupção e sua ignorância,
assemelha o nosso país a uma vasta praça de touros, em que os aplausos sobem na
proporção da ferocidade ridícula de uns e da libertinagem imunda de outros”.<sup><a href="#56">56</a></sup><a name="top56"></a></p>

    <p>Enfim, em linhas gerais, a sentença abaixo
sintetiza o que se pensava no processo de diferenciação e conceção de um novo
modelo de público, que se autorrepresentava como mais civilizado, mais
refinado:</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <blockquote>    <p>Se a polícia não intervém reprimindo estes
escândalos, o teatro ficará deserto, e o publico privado de o
frequentar. Quem despende o seu dinheiro quer ouvir o canto, e a
harmonia, não se abala de casa para achar-se em uma praça de touros sem poder
ouvir uma nota de musica.<sup><a href="#57">57</a></sup><a name="top57"></a></p></blockquote>

    <p><sup>&nbsp;</sup></p>

    <p>O crescimento das críticas e contestações ocorreu
em paralelo a uma maior adesão a ideais e imaginários de modernidade em curso
na capital, nomeadamente a partir da transição das décadas de 1840 e 1850. Em
linhas gerais, tratou-se de um processo similar ao que
houve noutras nações, uma perseguição a práticas consideradas ultrapassadas e
bárbaras (Holt, 1989). No caso brasileiro, todavia, uma das peculiaridades foi
o estabelecimento de uma relação entre o atraso das touradas e a sua origem
lusitana, discurso esgrimido, entre outros, por aqueles que julgavam que a
construção da nação brasileira deveria privilegiar a rutura com o seu passado
colonial. De outro lado, entre muitos, especialmente entre os ligados à colónia
portuguesa, persistia o gosto pela tauromaquia. A moda de tourear típica de
Portugal, aliás, era utilizada como argumento para defender a pertinência das
corridas de touros.</p>

    <p>Não sendo já bem acolhidas como ramo teatral, e
sob críticas diversas tanto dos amantes, que as consideravam pouco emocionantes
e desorganizadas, quanto dos oponentes, que as encaravam como bárbaras e
contraditórias com o processo civilizacional que o país deveria seguir, as
touradas precisavam de um novo “guarda-chuva” para as acolher.
Curiosamente, vão encontrá-lo naquela prática que, a
princípio, se considerava como o seu oposto, por ser moderna: o desporto.</p>

    <p>Isto ocorrerá entre 1876 e 1884, quando houve uma
nova promoção das touradas. Nesse período, ampliaram-se os setores que
desejavam definitivamente substituir as referências a Portugal na construção
identitária brasileira. Acirraram-se ainda mais as críticas à prática, mesmo
que também o campo da tauromaquia estivesse muito mais estruturado (Melo, 2013b).</p>

    <p>&nbsp;</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS</b></p>



    <p><b>&nbsp;</b></p>

    <!-- ref --><p>CAPUCHA, L. (1988), “O campo da tauromaquia”. <i>Sociologia,
Problemas e Práticas</i>, 5, pp. 147-165.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000195&pid=S0003-2573201500020000700001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>CARVALHO,
J.M. (2012), “A vida política”. <i>In</i> J.M. Carvalho (coord.), <i>História do
Brasil Nação (1808-2010)</i>, vol. 2, <i>A Construção Nacional (1830-1889)</i>,
Rio de Janeiro, Objetiva, pp. 83-130.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000197&pid=S0003-2573201500020000700002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>CASTRO,
A.V. (2005), <i>O Elogio da Bobagem</i>,
Rio de Janeiro, Família Bastos Editora.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000199&pid=S0003-2573201500020000700003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>CRESPO,
J. (1990), <i>A História do Corpo</i>, Lisboa,  Difel.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000201&pid=S0003-2573201500020000700004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>HOLT, R. (1989), <i>Sport and the British: a Modern
History</i>, Nova  Iorque, Oxford
University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000203&pid=S0003-2573201500020000700005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>LESSA,
C. (2002), “Rio, uma cidade portuguesa?”. <i>In</i> C. Lessa (org.), <i>Os
Lusíadas na Aventura do Rio Moderno</i>, Rio de Janeiro, Record,
pp. 21-61.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000205&pid=S0003-2573201500020000700006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>LUSTOSA,
I. (2006), <i>D. Pedro I – Um Herói sem Nenhum Caráter</i>, São Paulo,
Companhia das Letras.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000207&pid=S0003-2573201500020000700007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>MARZANO,
A., MELO, V.A. (2010), <i>Vida Divertida:
Histórias do Lazer no Rio de Janeiro (1830-1930)</i>, Rio de Janeiro, Apicuri.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000209&pid=S0003-2573201500020000700008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>MELO, V.A.
(2001), <i>Cidade  Sportiva: Primórdios do Esporte no
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    ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>MELO, V.A.
(2009), “Das touradas
às corridas de cavalo e regatas: primeiros momentos da configuração do campo
esportivo no Brasil”. <i>In</i> M.D. Priore, V.A. Melo, <i>História do Esporte no
Brasil: do Império aos Dias Atuais</i>, São Paulo, Editora Unesp,
pp. 35-70.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000213&pid=S0003-2573201500020000700010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>MELO, V.A.
(2013a), “As touradas
nas festividades reais do Rio de Janeiro colonial”. <i>Horizontes
Antropológicos</i>, 40, pp. 365-392.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000215&pid=S0003-2573201500020000700011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>MELO, V.A. (2013b), “Uma diversão adequada?:
as touradas no Rio de Janeiro do século
XIX (1870-1884)”. <i>História</i>,
32 (2), pp. 163-188.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000217&pid=S0003-2573201500020000700012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>MELO,
V.A., PERES, F.F. (2014), <i>A Gymnastica
no Tempo do Império</i>, Rio de Janeiro, 7 Letras.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000219&pid=S0003-2573201500020000700013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>PAULA, J.A. (2012), “O processo econômico”. <i>In</i> J.M. Carvalho (coord.), <i>História do
Brasil Nação (1808-2010)</i>, vol. 2, <i>A Construção Nacional (1830-1889)</i>,
Rio de Janeiro, Objetiva, pp. 179-224.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000221&pid=S0003-2573201500020000700014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>SCHWARCZ,
L.M. (1998), <i>As Barbas do Imperador</i>,
São Paulo, Companhia das Letras.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000223&pid=S0003-2573201500020000700015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>SODRÉ, N.W. (1994), <i>História da Imprensa no
Brasil</i>, São Paulo,  Mauad.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000225&pid=S0003-2573201500020000700016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>Recebido a 28-02-2014.
Aceite para publicação a 15-12-2014.</p>

    <p>&nbsp;</p>


    <p><b>NOTAS</b></p>


    <p><sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></sup>Diário do Rio de Janeiro</i>,
18-11-1847, p. 3.</p>

    <p><sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></sup>Pedro I abdicou em 1831,
por seu desejo de interferir nos conflitos que estavam a ocorrer em Portugal,
mas também por pressão e insatisfação dos brasileiros. Para mais informações, v.
Lustosa (2006).</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></sup>No período, o Rio de
Janeiro chegou a ter cerca de 60 periódicos, de distintos alcances e durações.
Alguns não passaram de experiências breves, outros tiveram longa trajetória,
como o <i>Jornal do Comércio</i>, o <i>Correio Mercantil</i> e o <i>Diário do
Rio de Janeiro</i>. Ao seu redor, reuniam--se os diversos grupos políticos da
Corte. Os perfis, assim, eram diversos, ainda que houvesse muitos pontos em
comum entre eles, nomeadamente no que tange à necessidade de modernizar a
sociedade. Maioritariamente eram lidos pelas elites e estratos médios; todavia,
há indícios de que o grande conjunto da população tinha alguma forma de acesso
às notícias e posições veiculadas. Para mais informações, v. Sodré (1994). </p>

    <p><sup><a name="4"></a><a href="#top4">4</a></sup>Há evidências de que Manoel
Luiz fosse de origem portuguesa. Havia na cidade, no momento, um importante
médico homónimo, também oriundo de Portugal, não sendo, todavia, possível
afirmar que se trate do mesmo personagem.</p>

    <p><sup><a name="5"></a><a href="#top5">5</a></sup><i>Diário do Rio de Janeiro</i>,
10-03-1840, p. 3.</p>

    <p><sup><a name="6"></a><a href="#top6">6</a></sup>A licença era solicitada à
Câmara e avaliada por fiscais ligados às freguesias.</p>

    <p><sup><a name="7"></a><a href="#top7">7</a></sup><i>O Despertador</i>,
14-04-1840, p. 4.</p>

    <p><sup><a name="8"></a><a href="#top8">8</a></sup>No período colonial, o
público não pagava para assistir às corridas. Os eventos eram organizados por
ocasião de datas festivas, sendo os custos assumidos, de diversas formas, por
agências governamentais, nomeadamente pelas Câmaras (Melo,
2013a).</p>

    <p><sup><a name="9"></a><a href="#top9">9</a></sup><i>O Despertador</i>,
16-04-1840, p. 3.</p>

    <p><sup><a name="10"></a><a href="#top10">10</a></sup> É
possível que essa referência a “descalços” claramente fosse uma expressão de
que eram aceites escravos, o que seria mais um indício do amplo público que as
touradas pretendiam atrair.</p>

    <p><sup><a name="11"></a><a href="#top11">11</a></sup> <i>O Despertador</i>,
11-08-1840, p. 4. Paula Brito era proprietário de um estabelecimento de
variedades que também vendia livros, e foi um ponto de encontro dos literatos
da época. Foi um dos personagens notórios do Rio de Janeiro de meados do século
XIX, envolvendo-se em várias iniciativas de dinamização cultural. Foi um dos
primeiros editores de relevância da capital. Na sua loja foram, por muitos
anos, vendidos bilhetes para as touradas.</p>

    <p><sup><a name="12"></a><a href="#top12">12</a></sup> <i>Diário do Rio de Janeiro</i>,
06-04-1841, p. 3.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a name="13"></a><a href="#top13">13</a></sup> Trabalhamos aqui com o
conceito de Pierre Bourdieu a partir de apreensão de Capucha (1988).</p>

    <p><sup><a name="14"></a><a href="#top14">14</a></sup> Devemos lembrar que as
touradas eram um espetáculo caro, o que aumentava a dependência do empresário
em relação ao público pagante. No caso brasileiro, era ainda mais caro, por ser
difícil conseguir bons animais e porque a companhia tauromáquica em muitas
ocasiões vinha de outros países, já que, em função das constantes interrupções
nas temporadas, havia dificuldades de se constituir um corpo profissional
nacional estável. Vale também lembrar que, ao contrário de outras diversões,
como os desportos, o teatro e os bailes, praticamente não houve incentivo
governamental para as corridas de touros.</p>

    <p><sup><a name="15"></a><a href="#top15">15</a></sup> <i>Diário do Rio de Janeiro</i>,
25-04-1847, p. 3.</p>

    <p><sup><a name="16"></a><a href="#top16">16</a></sup> <i>Diário do Rio de Janeiro</i>,
22-05-1847, p. 2.</p>

    <p><sup><a name="17"></a><a href="#top17">17</a></sup> Para um panorama, v. Marzano
e Melo (2010).</p>

    <p><sup><a name="18"></a><a href="#top18">18</a></sup> York atuara durante muitos
anos no Conservatório Real de Lisboa. No Brasil, desempenhara também as funções
de mestre de dança, dramaturgo e diretor teatral.</p>

    <p><sup><a name="19"></a><a href="#top19">19</a></sup> Militar de origem portuguesa, desempenhou algumas funções importantes na Corte.</p>

    <p><sup><a name="20"></a><a href="#top20">20</a></sup> <i>Diário do Rio de Janeiro</i>,
04-11-1847, p. 4.</p>

    <p><sup><a name="21"></a><a href="#top21">21</a></sup> <i>O Grito Nacional</i>,
06-03-1852, p. 2.</p>

    <p><sup><a name="22"></a><a href="#top22">22</a></sup> De origem portuguesa, a
família Moura estabeleceu-se no Rio de Janeiro ainda na primeira metade do
século XIX.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a name="23"></a><a href="#top23">23</a></sup><i> Diário do Rio de Janeiro</i>,
25-11-1848, p. 4.</p>

    <p><sup><a name="24"></a><a href="#top24">24</a></sup> <i>Diário do Rio de Janeiro</i>,
14-11-1848, p. 4.</p>

    <p><sup><a name="25"></a><a href="#top25">25</a></sup> <i>Diário do Rio de Janeiro</i>,
16-11-1848, p. 4.</p>

    <p><sup><a name="26"></a><a href="#top26">26</a></sup> <i>Correio Mercantil</i>,
17-11-1848, p. 3.</p>

    <p><sup><a name="27"></a><a href="#top27">27</a></sup> <i>Diário do Rio de Janeiro</i>,
18-11-1848, p. 4.</p>

    <p><sup><a name="28"></a><a href="#top28">28</a></sup> <i>Diário do Rio de Janeiro</i>,
11-02-1849, p. 4.</p>

    <p><sup><a name="29"></a><a href="#top29">29</a></sup> De origem portuguesa, na
cidade estabeleceu um negócio de penhores.</p>

    <p><sup><a name="30"></a><a href="#top30">30</a></sup> <i>Periódico dos Pobres</i>,
25-11-1850, p. 3.</p>

    <p><sup><a name="31"></a><a href="#top31">31</a></sup> <i>Correio da Tarde</i>,
25-11-1850, p. 4.</p>

    <p><sup><a name="32"></a><a href="#top32">32</a></sup> Na ocasião, a praça da Rua do Lavradio somente acolhia espetáculos
circenses.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a name="33"></a><a href="#top33">33</a></sup> <i>Correio Mercantil</i>,
15-06-1851, p. 1.</p>

    <p><sup><a name="34"></a><a href="#top34">34</a></sup> <i>Correio Mercantil</i>,
17-11-1851, p. 2.</p>

    <p><sup><a name="35"></a><a href="#top35">35</a></sup> <i>Periódico dos Pobres</i>,
02-12-1851, p. 1.</p>

    <p><sup><a name="36"></a><a href="#top36">36</a></sup> <i>Correio Mercantil</i>,
20-01-1852, p. 2.</p>

    <p><sup><a name="37"></a><a href="#top37">37</a></sup> <i>Marmota Fluminense</i>,
03-05-1853, p. 2.</p>

    <p><sup><a name="38"></a><a href="#top38">38</a></sup> <i>Periódico dos Pobres</i>,
25-11-1850, p. 3.</p>

    <p><sup><a name="39"></a><a href="#top39">39</a></sup> <i>Diário do Rio de Janeiro</i>,
30-10-1858, p. 4.</p>

    <p><sup><a name="40"></a><a href="#top40">40</a></sup> <i>Correio Mercantil</i>,
11-02-1849, p. 4.</p>

    <p><sup><a name="41"></a><a href="#top41">41</a></sup> O oposto ocorreu com a
espanhola; tornando-se uma atividade popular, desenvolveu-se mais o toureio a
pé (Capucha, 1988).</p>

    <p><sup><a name="42"></a><a href="#top42">42</a></sup> <i>Diário do Rio de Janeiro</i>,
11-12-1849, p. 4.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a name="43"></a><a href="#top43">43</a></sup> <i>Diário do Rio de Janeiro</i>,
03-11-1847, p. 2.</p>

    <p><sup><a name="44"></a><a href="#top44">44</a></sup> <i>Correio Mercantil</i>,
07-09-1849, p. 3.</p>

    <p><sup><a name="45"></a><a href="#top45">45</a></sup> <i>Periódico dos Pobres</i>,
25-11-1850, p. 3.</p>

    <p><sup><a name="46"></a><a href="#top46">46</a></sup> <i>Correio Mercantil</i>,
20-01-1852, p. 2.</p>

    <p><sup><a name="47"></a><a href="#top47">47</a></sup> <i>Correio Mercantil</i>,
20-01-1852, p. 2. Os caixeiros eram um público costumeiro das touradas. Vale a
pena lembrar que uma boa parte deles provinha de Portugal.</p>

    <p><sup><a name="48"></a><a href="#top48">48</a></sup> <i>Periódico dos Pobres</i>,
06-07-1852.</p>

    <p><sup><a name="49"></a><a href="#top49">49</a></sup> <i>Correio de Mercantil</i>,
31-10-1858, p. 4.</p>

    <p><sup><a name="50"></a><a href="#top50">50</a></sup> A família real era presença
constante nos teatros e competições desportivas; em menor número, comparecia
também a alguns bailes.</p>

    <p><sup><a name="51"></a><a href="#top51">51</a></sup> <i>Diário do Rio de Janeiro</i>,
09-02-1848, p. 3.</p>

    <p><sup><a name="52"></a><a href="#top52">52</a></sup> <i>Diário do Rio de Janeiro</i>,
05-06-1847, p. 3.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a name="53"></a><a href="#top53">53</a></sup> <i>Diário do Rio de Janeiro</i>,
11-12-1849, p. 4.</p>

    <p><sup><a name="54"></a><a href="#top54">54</a></sup> <i>Diário do Rio de Janeiro</i>,
17-08-1843, p. 1.</p>

    <p><sup><a name="55"></a><a href="#top55">55</a></sup> <i>Constitucional</i>,
04-08-1864, p. 1.</p>

    <p><sup><a name="56"></a><a href="#top56">56</a></sup> <i>Opinião Liberal</i>,
28-08-1867, p. 2.</p>

    <p><sup><a name="57"></a><a href="#top57">57</a></sup> <i>Correio Mercantil</i>, 04-02-1855,
p. 1.</p>



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