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    <p align="right"><b>RECENSÃO</b></p>

    <p><b>Murteira, Mário</b></p>

    <p><i><b>Esta Noite Sonhei com a Crise</b></i>, Lisboa, Institute for Training and Human Development
Consulting/Sítio do Livro, 2013, 242 pp.</p>

    <p>ISBN 9789892037882</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>Miguel Quaresma Brandão*</b></p>

    <p>*
Universidade do Porto, Faculdade de Letras, Instituto de Sociologia, Via Panorâmica Edgar Cardoso, 4150-564 Porto, Portugal. 
E-mail:  <a href="mailto:mbrandao@letras.up.pt">mbrandao@letras.up.pt</a>


    <p><i>&nbsp;</i></p>

    <p><i>Esta Noite
Sonhei com a Crise </i>é o último livro de Mário Murteira,
conceituado economista e Professor Catedrático Jubilado do ISCTE-Instituto
Universitário de ­Lisboa, cujo falecimento ocorreu na manhã de 15 de março de
2013, no mesmo dia em que o trabalho de organização desta obra, realizado por
­Cláudia Freire, ficou concluído, tendo sido feito sob
a orientação do autor, que iria ­completar 80 anos no dia 19 de abril de 2013,
como descreve, no Prefácio (­Murteira, 2013, pp. 7-17), Américo Ramos dos
Santos, presidente do Grupo CESO CI, empresa responsável pela edição, publicada
pelo Sítio do Livro.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Seria a última data mencionada, aquela que
foi escolhida para o seu lançamento e apresentação, num evento oficial de
homenagem que foi prestado a Mário Murteira pelo ISCTE-IUL, e que contou com as
intervenções do prefaciador da obra e de José Manuel Rolo (ICS--UL), mediadas
pelo reitor, Luís Antero Reto, tendo-se procedido à exibição de um documentário
biográfico, intitulado <i>Mário Murteira: um Homem Aprendente</i>, realizado
por Jorge ­Murteira. Num momento prévio, foi também atribuído o nome do
homenageado a um dos auditórios do Edifício I, com o descerramento de uma
placa, na qual estão gravados vários elementos que definem a identidade
académica, científica e cívica de Mário Murteira e onde se refere que, em 2008,
foi titulado Professor Emérito do ISCTE-IUL, facto a que se sucederam, no ano
de 2009, a atribuição do “Prémio Carreira” da Ordem dos Economistas e, em
agosto de 2010, a condecoração, pela Presidência da República de Cabo Verde,
com a Primeira Classe da Medalha de Mérito.</p>

    <p>Este livro pode considerar-se mais um
marco na sua longa carreira e no conjunto vasto das suas obras publicadas, mas,
desta vez, assinalou a sua “ponta final da existência”, para utilizarmos uma
expressão <i>murteiriana </i>(<i>idem</i>, p. 225), visto que consiste numa
compilação de escritos (a maioria deles já anteriormente publicados) da última
etapa do percurso de um dos “pais fundadores” das Ciências Sociais em Portugal,
numa altura em que lhe foi prestada essa homenagem pelo ISCTE-IUL e em que
também se comemoraram os 50 anos do GIS/ICS e da revista <i>Análise Social</i>,
com diversos tipos de eventos, organizados por uma comissão presidida por José
Manuel Rolo.</p>

    <p>Será, portanto, pertinente relembrar que
Mário Murteira, nas décadas de 50, 60 e 70 do século XX, integrou, de modo
ativo, as instituições pioneiras que fundaram o ensino e a investigação da
Economia e da Sociologia académicas e científicas com Adérito Sedas Nunes
(Cardoso, 2013; Sedas Nunes, 1988), a quem o liga uma amizade pessoal e
familiar, para além de o considerar “um pai
espiritual” (Murteira, 2008, p. 30 e p. 185), sendo sempre identificado, por
Mário Murteira, como o “grande pioneiro da investigação social em Portugal”
(Murteira, 1993, p. 745; 2007, pp. 13-14; 2008, p. 30; Rolo, 2011, p. 567). Daí
que se possa afirmar, com toda a propriedade, “que em Portugal a sociologia,
enquanto campo disciplinar, começou a emergir,
justamente, a partir da economia – num movimento que Mário Murteira acompanhou
de perto, enquanto colaborador próximo de Adérito Sedas Nunes e colaborador
também da <i>Análise Social</i> desde o seu primeiro volume” (Marques, 2008, p.
655).</p>

    <p>Esta última obra, em que Adérito Sedas Nunes,
Joseph Schumpeter, Peter Drucker e Lester Thurow aparecem, mais uma vez, como
as suas referências científicas principais, é um reflexo desse percurso e
também uma oportunidade para se ficar familiarizado com várias noções
fundamentais do pensamento <i>murteiriano</i>, que Américo Ramos dos Santos
começa a sistematizar numa parte do Prefácio (Murteira, 2013, pp. 10-17). O
livro, com ilustrações de ­Cristina ­Sampaio e fotografias de Cláudia Freire,
Guilherme Bragança, João Paulo ­Murteira e Jorge Murteira, está
organizado em quatro blocos, que aglomeram, cada um, um conjunto de escritos
recentes com uma identidade similar.</p>

    <p>O Bloco I, “Esta noite sonhei com a crise”
(<i>idem</i>, pp. 19-66), que dá origem ao título principal da obra, é composto
por nove textos que abordam a peculiaridade da crise económica do presente, num
contexto de globalização económica e financeira, desencadeada pela
mundialização do capitalismo e da economia de mercado, em que a União Europeia
e os EUA, no sistema económico mundial, se reposicionaram quer entre si, quer
em relação aos países das denominadas economias emergentes, sobretudo devido à
ascensão económica da China (que é, na atualidade, a segunda maior economia do
mundo e cujo tipo de desenvolvimento era objeto da atenção constante do autor),
onde ainda são abordados alguns assuntos de índole social (o denominado
“terceiro setor” ou “economia solidária”) e sobre a valorização da identidade
autóctone de Portugal nesse contexto global.</p>

    <p>No Bloco II, “Entrevistas” (<i>idem</i>, pp.
67-130), reúnem-se três entrevistas concedidas por Mário Murteira. Na primeira
(<i>idem</i>, pp. 69-78), realizada no ano de 2005, começa por analisar o
impacto da colonização europeia em África, relatando as missões de assistência
técnica que desempenhou nos países africanos lusófonos, referindo a sua
particular simpatia por Cabo Verde. Aborda também os possíveis modelos de
desenvolvimento de Angola e Moçambique. Segue-se a segunda entrevista (<i>idem</i>,
pp. 81-110), publicada em 2006, que incide sobre as suas memórias biográficas,
desde a caracterização do seu berço familiar à descrição das várias etapas da
sua formação universitária e dos cargos que desempenhou em várias instituições,
com o contacto e a convivência com inúmeras pessoas de vários quadrantes e
interesses. A terceira entrevista (<i>idem</i>, pp. 113-130) teve lugar em
2004, no âmbito do curso de formação de tutores em <i>e-learning</i>, realizado
no INDEG-IUL, sobre a economia do conhecimento, que é o novo tipo de economia
do mercado global, centrada no conhecimento e na informação.</p>

    <p>No Bloco III, “Lição de jubilação”, “Da
economia do trabalho à economia do conhecimento”, que é o texto escrito da sua
lição de jubilação do ISCTE-IUL, que decorreu no dia 21 de outubro de 2003,
acompanhado por várias apresentações esquemáticas (<i>idem</i>, pp. 131-164), é
descrita a transição da economia do trabalho para a economia do conhecimento,
que corresponde às transformações estruturais do capitalismo e da economia de
mercado no último meio século, com a transformação da relação capital/trabalho
no processo capitalista de criação e repartição de valor. Mário Murteira
descreve a evolução do modelo de crescimento económico, durante as últimas
décadas, constatando que o conhecimento e a informação são, no presente,
fatores determinantes da competitividade no mercado global e no processo de
acumulação de capital das atuais sociedades de Modernidade avançada, onde se
verifica a consolidação e a aceleração do fenómeno da globalização do capital
financeiro, com a transição concomitante do “mercado de trabalho” para o
“mercado do conhecimento”.</p>

    <p>Por fim, o Bloco IV, “A gestão da condição
humana” (<i>idem</i>, pp. 165-242), composto por oito textos que retomam os
assuntos do Bloco I, mas onde também são abordadas as temáticas do valor do
tempo e do aumento da duração média da vida humana, bem como da gestão dos seus
anos finais, sendo estes assuntos do interesse de alguém que se enquadrava no
modelo<i> murteiriano </i>de <i>homem aprendente</i>, definido como aquele que
“procura conhecer mais e melhor do mundo que o cerca e, em particular, de si
mesmo”, mas conhecer também para agir “sobre o objecto do seu conhecimento,
seja ele próprio ou o meio circundante” (<i>idem</i>, p. 237), de tal modo que,
perante o caráter inigualável do seu percurso, vivido com intensidade e
convicção, como confessa numa das entrevistas, se possam aplicar, a Mário
Murteira, as palavras que ele próprio escreveu sobre Peter Drucker: “Com a
morte de cada ser humano, morre também um particular ‘conhecimento’ do mundo; a
perda dos vivos, neste sentido, é tanto maior quanto maior é a envergadura
desse particular conhecimento” (<i>idem</i>, p. 7).</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</b></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>

    <!-- ref --><p>CARDOSO, J.L. (2013), <i>Ensaio bibliográfico </i>“O
Gabinete de Estudos Corporati­vos (1949-1961) e a génese de uma biblioteca
moderna de ciências sociais”. <i>Análise Social</i>, 206, XLVIII (1.º), pp.
193-219.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000024&pid=S0003-2573201500020001100001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>MARQUES,
E.M. (2008), <i>Recensão</i> “<i>A Nova Economia do Trabalho: Ensaio
sobre Emprego e Conhecimento no Mercado Global</i>. M. Murteira. Lisboa,
Imprensa de Ciências Sociais, 2007”. <i>Análise Social</i>, 188, XLIII (3.º),
pp. 655-658.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000026&pid=S0003-2573201500020001100002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>MURTEIRA,
M. (1993), “Um olhar (dos anos 60) sobre Portugal”. <i>Análise Social</i>,
123-124, XXVIII (4.º e 5.º), pp. 745-752.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000028&pid=S0003-2573201500020001100003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>MURTEIRA,
M. (2007), <i>A Nova Economia do Trabalho: Ensaio sobre Emprego e Conhecimento
no Mercado Global</i>, ­Lisboa, Imprensa de Ciências Sociais.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000030&pid=S0003-2573201500020001100004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>MURTEIRA,
M. (2008), <i>Disse Bom Dia à Noite: Crónica de Tempos Inesperados</i>, Lisboa,
Imprensa de Ciências Sociais.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000032&pid=S0003-2573201500020001100005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>ROLO,
J. M. (2011), “Entrevista a Mário Murteira”. <i>Análise Social</i>,<i> </i>200,
XLVI (3.º), pp. 564-573.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000034&pid=S0003-2573201500020001100006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>SEDAS NUNES, A. (1988), “Histórias, uma história e
a História – sobre a origem das modernas ciências sociais em Portugal”. <i>Análise
Social</i>, 100, XXIV (1.º), pp. 11-55.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000036&pid=S0003-2573201500020001100007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>





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