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</front><body><![CDATA[  

    <p align="right"><b>RECENSÃO</b></p>

    <p><b>PIKETTY, Thomas</b></p>

    <p><i><b>O Capital no Século XXI</i></b>,</p>

    <p>Lisboa, Temas e Debates, 2014, 912 pp.</p>

    <p>ISBN 9789896443047</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>Elísio Estanque</b>* e <b>Ana Alves da Silva**</b></p>

    <p>*Universidade de Coimbra, Faculdade de Economia, CES,  Colégio de S. Jerónimo, Largo D. Dinis, Apartado 3087 —
3000-995 ­Coimbra, Portugal. E-mail: <a href="mailto:elisio.estanque@gmail.com">elisio.estanque@gmail.com</a></p>
    <p>**Universidade de Coimbra, CES, Colégio de S. Jerónimo, Largo D. Dinis, Apartado 3087 —
3000-995 ­Coimbra, Portugal. E-mail: <a href="mailto:ana77silva@gmail.com">ana77silva@gmail.com</a></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>


    <p><i>O Capital no
Século XXI</i> de Thomas ­Piketty (2014) convida-nos a uma
análise do capital e das suas dinâmicas desde a génese do capitalismo moderno
até à atualidade. Na linha de algumas das suas publicações anteriores, o autor
retoma a questão da reposição das desigualdades nos estudos económicos, através
de uma obra cuja leitura, mais do que nos suscitar questões sobre o futuro, nos
deixa uma permanente sensação de irresolução do mesmo na encruzilhada do mundo
atual.</p>

    <p>Apresentando-a como uma obra de história
económica, Piketty oferece-nos um texto disposto em quatro partes e 16
capítulos, que visam responder a um conjunto de questões sobre a produção da
riqueza e a sua distribuição ao longo dos últimos 150 a 200 anos nos países
mais desenvolvidos da Europa, bem como nos EUA e no Japão (sempre que os dados
o possibilitam). A adoção de uma perspetiva de longo prazo tem em vista a
realização de uma análise económica historicamente fundamentada em que o autor
visa <i>estabelecer pacientemente os factos e padrões</i> e analisar <i>com
serenidade os mecanismos económicos, sociais e políticos suscetíveis de os pôr em evidência</i>. Pretendendo interessar também a um
público não especialista, Piketty começa por fazer uma apresentação dos
conceitos de capital, de rendimento nacional e da sua inter-relação,
indispensáveis à compreensão das suas análises ulteriores. É aqui que se
prepara o leitor para o que se revelará ser uma análise patrimonialista do capital
e das suas flutuações ao longo de mais de um século, da qual se concluirá
adiante que, sem políticas que contrariem a concentração de capital, o <i>Novo
Mundo está talvez em vias de se transformar na nova Velha Europa do planeta</i>.</p>

    <p>De inegável mérito no esforço de
compilação e análise de dados estatísticos, a obra possibilita um estudo num
muito longo prazo de dados relativos à produção e ao rendimento do capital e do
trabalho. Desse esforço de sistematização resulta a apresentação da primeira
lei fundamental do capitalismo, que permite compreender que a parte do
rendimento do capital no rendimento nacional é dada pelo rácio entre a taxa
média de rentabilidade do capital e a proporção de volume de capital no
rendimento nacional, o que deixa já adivinhar o papel dos patrimónios
acumulados e da rentabilidade do capital na distribuição do conjunto do
rendimento nacional. Os dados ­analisados por Piketty apontam para uma taxa
média de rentabilidade do capital na ordem dos 5%, permitindo uma acumulação de
capital em torno dos 600% do rendimento nacional num país desenvolvido.
Significa isto que o país produz, em património acumulado, 6
anos do seu rendimento nacional, sendo este maioritariamente privado. É,
todavia, ao observar a relação entre capital e rendimento no longo prazo,
introduzindo na análise a variação do crescimento (da produção e da população),
que é encontrada uma segunda lei dinâmica do capitalismo, segundo a qual a
relação capital/rendimento depende das taxas de poupança e das taxas de
crescimento económico.</p>

    <p>As principais conclusões da obra podem
resumir-se nos resultados da aplicação destas duas leis fundamentais aos dados
disponíveis para vários países – a França e o Reino Unido, principalmente, mas
também os EUA, a Alemanha, o Japão, entre outros. Partindo dessa análise da
dinâmica de acumulação do capital nas diversas sociedades ao longo de um vasto
período histórico, Piketty constata, na terceira parte da obra, que a taxa
média de rentabilidade do capital tende a ser mais elevada que a taxa de crescimento
da produção, do que resulta um processo de acumulação contínuo. A dinâmica do
capitalismo, salvo num período compreendido entre o início da Primeira Guerra
Mundial e o final dos Trinta Anos Gloriosos (1945-1975), demonstra que o
principal mecanismo de perpetuação das desigualdades reside, precisamente, numa
relação de longo prazo historicamente verificada, em que a taxa de
­rentabilidade do capital é sistematicamente superior à taxa de crescimento
(r&gt;g), ou seja, a acumulação financeira é maior que a economia ­produtiva.</p>

    <p>A principal conclusão – de que o
capitalismo atual está a tomar novamente a forma de um capitalismo
patrimonialista altamente desigual, apenas verificado na Velha Europa do século
XIX – advém da compreensão das implicações da dinâmica r&gt;g e do
reconhecimento de que esta tem uma relação direta com a herança. Explica
Piketty que é inevitável que, com fluxos sucessórios na ordem dos 20%-25%, o
património herdado na França, ao longo do período de 1820-2010, prevaleça
copiosamente sobre o património poupado. Esta prevalência deriva essencialmente
do efeito cumulativo do próprio património, determinado pela desigualdade na
rentabilidade do capital que é, por sua vez, determinada pela própria dimensão
do património. Significa isto que as condições objetivas de gestão do
património possuído variam consoante a dimensão do mesmo, numa relação que
confere maiores ganhos ao capital de maior dimensão através da obtenção de
taxas de rentabilidade superiores – na ordem dos 7% – à taxa média de rentabilidade
do capital (de 4% a 5%, enquanto os pequenos patrimónios conseguem taxas de
rentabilidade de apenas 2%-3%). O processo de acumulação é, portanto,
favorecido por um efeito de escala, em que os patrimónios de maior dimensão
tendem, mantendo-se outras variáveis constantes, a capitalizar-se ainda mais
intensamente que os de média e pequena dimensão.</p>

    <p>Ora, caracterizando-se o capitalismo atual
por taxas de crescimento fracas (inferiores a 1%), com uma taxa de poupança na
ordem dos 10% (onde cabem as poupanças sobre capital herdado), e ainda uma taxa
de rentabilidade média de capital na ordem dos 4% a 5% – gozando esta ainda de
efeitos de escala patrimonial que a fazem ascender ou ultrapassar os 7% –
torna-se portanto incontestável, conclui Piketty, que
“a concentração patrimonial tenda para níveis tais que os rendimentos mais
altos do capital herdado dominem largamente sobre os rendimentos do trabalho”.
Daqui resulta o paradoxo meritocrático – só após várias gerações a acumulação
de rendimentos do trabalho atingirá uma dimensão tal que a sua taxa de
rentabilidade iguale os níveis médios de recapitalização dos patrimónios
herdados.</p>

    <p>É a partir da constatação de que a
desigualdade r&gt;g, somada ao efeito de escala dos patrimónios, pode suscitar
uma trajetória explosiva da desigualdade, que o autor propõe um imposto mundial
sobre o capital. Segundo Piketty, “a maneira mais simples e objetiva de
proceder seria fazer evoluir as taxas de tributação em função das
rentabilidades médias efetivamente verificadas no seio de cada classe de
património durante os anos precedentes”. Não descurando uma reflexão sobre as
dificuldades e exigências político-burocráticas suscitadas pela
operacionalização da sua proposta, Piketty considera que a indexação da
progressividade do imposto à rentabilidade média do capital possuído
permitiria: (i) evitar o emprego de um imposto pesado sobre o capital possuído,
que levaria decerto várias empresas à falência e à extinção de capital
tributável ao cabo de poucos anos; (ii) gerar uma
receita fiscal anual considerável, já que os patrimónios privados detêm uma
proporção muito significativa do rendimento nacional dos diversos países e são,
precisamente, os percentis superiores na detenção de riqueza os mais afetados
pela lógica da progressividade do imposto; e, ainda (iii), regular o processo
de agravamento da desigualdade e tendencialmente patrimonialista de acumulação
de riqueza do capitalismo atual, determinado pela dinâmica r&gt;g.</p>

    <p>Pode constatar-se desde logo que, embora
lhe faça algumas referências, Piketty não tem intenção de dialogar diretamente
com a obra de Karl Marx. Não há tal intenção expressa e, em boa verdade, o
autor declara-se vacinado contra qualquer discurso anticapitalista,
considerando que o mecanismo de geração das desigualdades no capitalismo atual
necessita de ser combatido recorrendo aos ideais sociais-democratas
que estiveram na base da fundação do modelo social europeu. Afirma, portanto,
que o esquema de tributação que propõe constitui a “resposta mais adequada para
a desigualdade r&gt;g e para a desigualdade da rentabilidade em função do
capital inicial” dentro daqueles que são os limites de uma economia de mercado,
pelo que o imposto mundial sobre o capital aparece como “a forma liberal de
fiscalização do capital”.</p>

    <p>Pese embora o mérito que se reconheça à
obra, a sua leitura não deixa de suscitar algumas interpelações. Uma das mais
prementes é, sem dúvida, relativa a uma manifesta contradição encontrada no
pensamento do autor relativamente à historicidade dos fenómenos económicos. Se,
por um lado, o autor a pretende restituir, parece por outro não escapar a um
determinismo económico que, controversamente, retira história à própria
historicidade dos fenómenos analisados. Uma segunda, na mesma linha, prende-se
com o modo como a questão das desigualdades é reposta no seio da análise
económica. Ora, sendo a obra uma tentativa assumida de contextualizar
historicamente os factos económicos, cria-nos certa confusão, por exemplo, o
facto de as flutuações económicas vividas no período dos Trinta Anos Gloriosos
e da revolução conservadora dos anos 1970-1980 serem descritos como fenómenos
determinantemente económicos, que aconteceriam independentemente dos contornos
políticos que, em grande medida, condicionaram o rumo da história social e económica
desses períodos (veja-se, por exemplo, as declarações feitas pelo autor logo no
início da obra, pp. 151-154). Esta ideia retira motivação ao autor para fazer
uma contextualização pormenorizada dos factos históricos que determinaram os
contornos político-económicos e socioculturais que definiriam o rumo das
políticas expansionistas do pós-guerra e da tendência conservadora no período
tachteriano, após as crises dos anos 70. Motivação que é especialmente
necessária para a exposição paciente dos factos que estão na base dos fenómenos
(entenda-se estatísticas) económicos, bem como para a informação do leitor não
especialista, a quem Piketty pretende, também, elucidar.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Por outro lado, a reposição das
desigualdades no seio da análise económica – assunto que é de nosso especial
interesse – é realizada com recurso a uma análise estatística extensiva que,
embora tenha o inegável mérito de permitir compreender as ordens de grandeza
envolvidas na desigual repartição de rendimentos do trabalho e capital – e entre
um e outro fator –, peca em larga medida por enveredar, uma vez mais, por uma
análise económica determinista. Tendência que, aliás, justifica a adoção de uma
terminologia negligente de todo o património da ciência social (em especial
sociológica) na análise das desigualdades sociais. Se a adoção de uma
terminologia produzida no seio de outras ciências sociais poderia denunciar um
dado pendor paradigmático, o certo é que a análise dos modos de produção dessas
desigualdades não pode ser, grosso modo, reduzida a
mecanismos como a dinâmica r&gt;g ou à arbitrariedade na determinação dos
supersalários, negligenciando todo um conjunto de “razões sociais” que estão na
génese dos contornos assumidos pelos dados apurados pelo autor. A adoção de uma
terminologia puramente estatística na abordagem das desigualdades (i.e., de percentis de população com dada proporção da remuneração
nacional) visa “precisamente poder fazer corresponder desigualdades e épocas
impossíveis de comparar de outro modo, e fornecer uma linguagem comum que em
princípio será de aceitação ampla”. Ora, o problema está, com efeito, no facto
de uma terminologia com base em <i>decis</i> e <i>centis</i> não carecer apenas
de <i>poesia</i> – como ironiza o autor – mas também de todo um entendimento
sociológico sobre a complexidade de fatores e dimensões que estruturam a
dinâmica social de (re)produção das desigualdades e
que negligencia, evidentemente, o facto de estas não se reduzirem a
desigualdades remuneratórias (como bem demonstrou, entre muitos outros
sociólogos, Pierre ­Bourdieu). Se retomar as desigualdades como objeto da
economia é um propósito que louvamos, não podemos, porém, aceitar tal
reducionismo, que estará assente no problema de fundo da negligência de um
diálogo com outros domínios da ciência social.</p>

    <p>Por último, resta ainda dizer que esta
opção terminológica não se dissocia da contrariedade encontrada no pensamento
do autor, que é relevada também no conceito de capital. Se o intento da obra é
o de estabelecer os factos e padrões que restituem a historicidade aos
fenómenos económicos, a ambição de adotar uma linguagem que permita comparar
épocas incomparáveis anula, controversamente, a própria génese histórica dos
conceitos. Comparar a flutuação do capital desde a antiguidade até ao início do
século XXI é, de facto, um exercício que transforma o conceito de capital num
conceito trans-histórico, que está para lá da própria determinação
socioestrutural da realidade. Não é possível comparar sociedades que renumeram
o trabalho com sociedades que não o fazem, da mesma maneira que não é possível
analisar o capital numa sociedade não capitalista. Não só o modo de
estruturação do social é profundamente diferente entre épocas historicamente
determinadas, como só da incompreensão dessa fundamental distinção entre modos
de organização social se pode assumir a utilidade de conceitos
“trans-históricos”.</p>

    <p>Em suma, esta obra de Thomas Piketty, para
além do rigor e credibilidade da análise económica sistemática que nos
apresenta, teve sobretudo o enorme mérito de conferir
maior centralidade à temática das desigualdades no debate público atual, pondo
em evidência uma serie de contradições estruturais do sistema capitalista
global enquanto força indutora de assimetrias estruturais na distribuição da
riqueza, sobretudo quando o princípio do mercado prevalece – como tem sido o
caso nas últimas quatro décadas – sobre a capacidade reguladora e
redistributiva do Estado.</p>


     ]]></body>
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