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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Artes e intervenções urbanas entre esferas materiais e digitais: tensões legal-ilegal]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Urban art or vandalism?: the views of the public and the law-makers]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade Federal do Ceará Departamento de Ciências Sociais ]]></institution>
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<country>Brasil</country>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This text tackles diverse forms of art expression when it comes to and about urbanism, between the frontiers of the legal and the illegal, the underground and the mainstream, between the present environment and the “virtual”. The central axis of reflection of this article finds its support in the tension between the usual classification of what is considered art and vandalism in the sphere of galleries, museums, and schools, as well as in the fluxes of the arts from the streets. The text seeks to identify how the public sphere has found ways of incorporating those arts and urban interventions and also of creating regulatory juridical and non-juridical avenues to repress and restrict the phenomenon. Through the direct observation of the writers in Lisbon, through the attentive listening to their narratives, it is possible to regard the urban art works as an emancipation act, be it in the making of a tag, a mural, a graffiti, or a mere act of urban writing. It is possible to conclude that the terms “legal” and “illegal” act more as classification and regulation spheres that do not really address the practices performed by the urban artists themselves.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[  

    <p align="right"><b>ARTIGO</b></p>

    <p><b>Artes e
intervenções urbanas entre esferas materiais e digitais: tensões
legal-ilegal</b></p>
    <p><b>Urban art or vandalism?: the
views of the public and the law-makers</b></p>

    <p><b>&nbsp;</b></p>

    <p><b>Glória Diógenes</b>*</p>
    <p>*Universidade
Federal do Ceará, Departamento de Ciências
Sociais, Av. da Universidade, 2995, CEP 60020-181, Benfica, Fortaleza, Ceará, 
Brasil. E-mail: <a href="mailto:gloriadiogenes@gmail.com">gloriadiogenes@gmail.com</a></p>

    <p><b>&nbsp;</b></p>


    <p><b>RESUMO</b></p> 

    <p><b>&nbsp;</b></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Este texto aborda formas
diversas de expressão das artes<i>do</i>e <i>no</i>urbano,
entre as fronteiras do legal e do ilegal, entre os ambientes presencial e
“virtual”. O eixo central de reflexão deste artigo apoia-se na tensão entre as
usuais classificações do que é considerado arte e vandalismo na esfera das
galerias, museus e escolas, assim como nos fluxos das artes de rua. A proposta
do texto éidentificar de que forma o poder público e as instâncias de
regulação urbana têm encontrado maneiras tanto de incorporar essas artes e
intervenções urbanas, quanto de criar instâncias regulatórias para coibir e
ordenar esse fenómeno. Através da observação direta da ação dos <i>writers</i>em
Lisboa, pode-se perceber que a arte urbana opera como ato de emancipação, seja
na feição de um<i>tag</i>, um mural, um<i>graffiti</i>, seja em num
mero escrito urbano. Conclui-se que legal e ilegal atuam como esferas
classificatórias e disciplinadoras exteriores às práticas efetuadas pelos
próprios artistas urbanos.</p>

    <p><b>PALAVRAS-CHAVE</b>: cidade; arte urbana; vandalismo;
ciberespaço; etnografia.</p>

    <p><b>&nbsp;</b></p>

    <p><b>ABSTRACT</b></p>

    <p><b>&nbsp;</b></p>

    <p>This text tackles diverse forms of art
expression when it comes <i>to</i> and <i>about </i>urbanism, between the
frontiers of the legal and the illegal, the underground and the mainstream,
between the present environment and the “virtual”. The central axis of
reflection of this article finds its support in the tension between the usual
classification of what is considered art and vandalism in the sphere of
galleries, museums, and schools, as well as in the fluxes of the arts from the
streets. The text seeks to identify how the public sphere has found ways of
incorporating those arts and urban interventions and also of creating
regulatory juridical and non-juridical avenues to repress and restrict the
phenomenon. Through the direct observation of the <i>writers</i> in Lisbon,
through the attentive listening to their narratives, it is possible to regard
the urban art works as an emancipation act, be it in the making of a <i>tag</i>,
a mural, a <i>graffiti</i>, or a mere act of urban writing. It is possible to
conclude that the terms “legal” and “illegal” act more as classification and
regulation spheres that do not really address the practices performed by the
urban artists themselves.</p>

    <p><b>KEYWORDS</b>: city; urban art; vandalism; cyberspace; ethnography.</p>

    <p><b>&nbsp;</b></p>

    <p><b>INTRODUÇÃO</b></p>

    <p><b>&nbsp;</b></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Durante quase todo o ano
de 2013,<sup><a href="#1">1</a></sup><a name="top1"></a> efetuei um trajeto etnográfico em torno das intervenções de artistas
urbanos<sup><a href="#2">2</a></sup><a name="top2"></a>writers,</i><sup><a href="#3">3</a></sup><a name="top3"></a>entre espaços da cidade
<sup><a href="#4">4</a></sup><a name="top4"></a> e a ambiência das redes sociais digitais.<sup><a href="#5">5</a></sup><a name="top5"></a>
Defini uma zona de pesquisa em Lisboa,<sup><a href="#6">6</a></sup><a name="top6"></a>relativa
a uma área específica do seu perímetro histórico,<sup><a href="#7">7</a></sup><a name="top7"></a> marcada por frequentes intervenções urbanas, produção de&nbsp;<i>graffiti</i>&nbsp;e
inscrição de <i>tags.</i><sup><a href="#8">8</a></sup><a name="top8"></a></p>

    <p>O eixo condutor deste texto tanto diz respeito às
tensões entre legal e ilegal como àquilo que, embora num nível institucional,
ganhe o rótulo de ilegal é, habitualmente, acatado como legítimo por parte
considerável dos artistas urbanos. A paridade material-digital emerge como
plano combinado de análise, com a finalidade de melhor decifrar táticas,
deslocamentos e estratégias no âmbito das tensões acima referidas. Mesmo
tratando-se de um <i>duplo </i>campo de observação, busca-se escapar de
princípios comparativos efetuados entre espacialidades (Lisboa e Porto) e das
usuais binaridades legal-ilegal, digital--material, local-translocal, entre
outras. Interessa, no âmbito destes escritos,
identificar uma arte que se realiza por contágios, influências mútuas, <i>misturas,</i><sup><a href="#9">9</a></sup><a name="top9"></a> <i>compartilhamentos </i>entre <i>material </i>e digital, qual seja,
por uma deriva que se move entre sítios. A lógica narrativa, em alguns
momentos, pode assim revelar uma natureza não linear, tendo em vista as
passagens de terreno <i>in between</i>, por ambientes que se conectam em redes
e temporalidades que escapam a uma ordem cronológica linear.</p>

    <p>O ato de percorrer cotidianamente as ruas
possibilitou-me ir identificando uma curiosa <i>tela </i>pictórica urbana em
reiterada mutação. Os desenhos e letras que pareciam fazer-se anunciar eram
sucessivamente apagados<i> </i>das paredes<sup><a href="#10">10</a></sup><a name="top10"></a>, assumindo 
planos de continuidade nos ambientes digitais. Entre <i>legal
</i>e <i>ilegal</i>, presencial e digital, promovia-se uma espécie de <i>circuito sobrepostos</i><i>.</i><sup><a href="#11">11</a></sup><a name="top11"></a>
Os interditos que marcavam as ações dos <i>writers </i>nas ruas<i> </i>da cidade ganhavam outros fluxos
<sup><a href="#12">12</a></sup><a name="top12"></a> e regimes de visibilidade na esfera do ciberespaço.<sup><a href="#13">13</a></sup><a name="top13"></a></p>

    <p>Desde 2008, com a referida criação da Galeria de
Arte Urbana (GAU), a zona envolvente do Bairro Alto torna-se alvo de múltiplas
intervenções<sup><a href="#14">14</a></sup><a name="top14"></a> na esfera da<i> </i>arte urbana, 
assim como outros sítios de Lisboa<i>.
</i>A criação da GAU não apenas passa a promover e multiplicar intervenções nas
artes de rua em Lisboa como, concomitantemente,
intensifica<i> </i>o processo de <i>apagamento</i><sup><a href="#15">15</a></sup><a name="top15"></a> daquilo que, ao nível de poder público, se considera <i>não arte </i>e,
nesse intento, conforme já exposto, estabelece multas e sanções para
intervenções ilegais que infrinjam a lei.<sup><a href="#16">16</a></sup><a name="top16"></a></p>

    <p>Observa-se, de forma
curiosa, que quanto mais os agenciamentos de repressão ao que se considera <i>graffiti
</i>ilegal em Lisboa vão operando no âmbito da cidade, mais se nota o afluxo
dessas inscrições nos suportes digitais. Essa “contiguidade eletrônica”
(Appadurai, 1996, p. 45) permite uma espécie de <i>drible </i>entre os
perímetros de classificação do que é considerado legal e ilegal no âmbito das
artes de rua e, nesse esteio, faz esbater as fronteiras de distinção<sup><a href="#17">17</a></sup><a name="top17"></a> 
entre arte e vandalismo. Ao longo da
pesquisa, pude perceber que os artistas urbanos, perante as elevadas multas e
coerções ao <i>graffiti </i>ilegal em Lisboa, mobilizam <i>linhas de fuga</i><sup><a href="#18">18</a></sup><a name="top18"></a>
moduladas entre os ambientes materiais e digitais.</p>

    <p>Dentro da categoria
arte urbana, considero todo traçado que, mesmo constituindo-se como assinatura,
<i>tag</i>, designada no Brasil de piXação<sup><a href="#19">19</a></sup><a name="top19"></a>, desenha um propósito
 “pensante”, anunciando mais que um objeto, um processo vivo (Samain, 2012), um tipo de participação
intempestiva<i> </i>na visualidade da cidade<i>. </i>A participação visual<i> </i>de
artistas urbanos pode ser traduzida num tipo de desconexão, resistência e
distância em relação à arte agenciada nas galerias e museus. Isso ocorre,
possivelmente, próximo daquilo que Rancière (2005, p. 2) denomina de obras não
passivas, analogicamente “ativas”<i>, </i>quais sejam, afora as que são
exibidas em “[…] lugar onde visitantes solitários vêm
encontrar a solidão e a passividade de obras despojadas de suas antigas funções
de ícones de fé, de emblemas de poder ou decoração da vida dos Grandes”.</p>

    <p>Já a arte realizada no ambiente <i>aberto</i> das
ruas, tecida pela lógica da efemeridade, costuma intensificar a sua presença em
espaços públicos, tanto no sentido de assegurar um grau máximo de visibilidade
como de acionar e intensificar um número mais amplo de <i>espetadores</i>.
Nesse fluxo de mobilidade, as artes urbanas “desmaterializam-se” de sua forma <i>concreta</i>
e multiplicam-se nos meios digitais. Escapam <i>da solidão e passividade de
obras dispostas </i>nos espaços dos museus<i>, </i>tal qual o exemplo de
Rancière, assim como dos critérios de valor, certificação e validação dos
peritos e curadores concernentes ao campo artístico.<sup><a href="#20">20</a></sup><a name="top20"></a> Na rua, em princípio, qualquer um pode ser autor/artista, pode
interferir, apagar, completar, rasurar a sua própria obra, a de outros atores,
gerando um princípio plural<i> </i>e contínuo dos processos de criação, fruição
e compartilhamento das intervenções efetuadas <i>entre </i>espaços.</p>

    <p>A retórica da classificação, se
é arte ou não, se é uma <i>tag</i>, risco, <i>graffiti,</i> traço,
escrito, <i>stencil</i>, <i>sticker, </i>se é legal<i> </i>ou ilegal, está
também interligada ao espectro do observador. Mais do que o registro do que vê,
o antropólogo que se movimenta nessas fendas recria um móbile dos ângulos que
compõem o olhar dos atores da pesquisa, refletidos no seu próprio olhar. Cidade
e ciberespaço, mais que distintas conexões espaciais, combinam-se
em planos de mútua reflexividade. Isso significa, como
bem notou Hine, numa entrevista concedida à <i>Revista da Compós</i>, que</p>

    <p><b>&nbsp;</b></p>

    <blockquote>    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>[…] os fenômenos digitais são muito complexos.
Existem em múltiplos espaços, são fragmentados e costumam ser temporalmente
complexos. Não podemos esperar ter uma vivência de um fenômeno assim apenas
“estando presentes ali”, porque não sabemos automaticamente onde é ali, nem
como “estar presentes” […] Penso que este aspecto da
reflexividade – refletir como sabemos o que sabemos sobre uma situação –
provavelmente seja a parte mais significativa da etnografia em ambientes
digitais [Braga, 2012].</p></blockquote>

    <p><b>&nbsp;</b></p>

    <p>O processo da reflexividade, experimentado pelo
pesquisador por meio de linhas descontínuas entre espaços e tempos, também
incide nas constantes auto indagações realizadas entre
os <i>writers</i>: “nessa atuação estou sendo legal ou ilegal?”.<sup><a href="#21">21</a></sup><a name="top21"></a> Em que medida a cidade que vejo, aquilo que ela comunica, reflete as
ruas e imagens projetadas e partilhadas nas redes sociais digitais? Que jogos
de espelhos se efetivam entre os planos legais e ilegais da arte urbana <i>entre
</i>espaços? O ensaio de instaurar na cidade um tipo de arte mais disciplinada,
regulada, normatizada, formando a GAU – inclusive constituindo um acervo do que
“já não existe mais” –, provavelmente acaba por
transferir para o espaço público a <i>equalização</i> do gosto, promovida pelos
críticos, peritos, galeristas, entre outros que aquiescem com a estética da
arte “passiva” dos museus.</p>

    <p>Dessa forma, instaura-se em Lisboa e em tantas
outras espacialidades uma censura prévia, que vai sendo assimilada entre alguns
<i>writers </i>e moradores, relativa aos atos da livre expressão desses
artistas nas públicas telas urbanas. A cidade também promove uma espécie de <i>reflexividade
</i>de imagens dissonantes. A rua, para os <i>writers</i>,<i> </i>atua na
estatura do <i>empírico</i>, plano de experimentações, diferentemente da forma
ampla e abstrata aplicada pelos planeadores urbanos que designam e projetam uma
dimensão mais <i>funcional</i> de cidade.</p>

    <p>Quando se trata de estabelecer correlações entre
arte e conglomerados urbanos, os <i>writers </i>em geral acenam ao termo rua,
ao invés da dimensão de cidade aludida por outros agentes que compõem a cena
urbana, incluindo os já mencionados – no caso, os críticos de arte, produtores
culturais, peritos, galeristas e os próprios artistas considerados “de gosto”.
Como afirma Frehse (2009, p. 151), “[…] a expressão ‘rua’ remete a passagens,
becos, largos e mesmo praças fisicamente abertos, isto é, não cercados, nas
cidades, e cujo acesso legal é irrestrito em qualquer horário”. Nessa base de
reflexão, trata-se de tomar a rua muito mais sob um enfoque interacional do que
mesmo aqueles que privilegiam elementos funcionais do espaço, relativos a
fatores de organização e processos de estruturação social (2009, p. 159). <i>Grosso
modo</i>, é como se houvesse dois léxicos urbanos que se colidem nas visões e
usos diferenciados das ruas e <i>esbarram </i>nas definições entre <i>legal </i>e
<i>ilegal, </i>entre o que pode ser considerado público e privado.</p>

    <p>O discurso acerca do legal nos usos urbanos
refere-se de forma mais direta à preocupação com normas, funções, planeamentos
e políticas patrimoniais citadinas. Já as narrativas sobre o ilegal das artes
urbanas empreendidas por alguns dos artistas de rua de
Lisboa, como veremos a seguir, estabelece-se no curso do que Argan (1998, p.
241) denominou de “[…] sentimento da cidade”, cuja finalidade é “[…] dar uma
forma em que cada qual possa reconhecer a si mesmo e à sua experiência de vida
pessoal”. Interessante notar nos relatos de pesquisa<sup><a href="#22">22</a></sup><a name="top22"></a> que as artes de rua, mais do que um modo de interação, de expressão de
“sentimentos de cidade”, constituem-se como maneiras de <i>produzir cidade.</i></p>

    <p>Vale ressaltar que
pouco interessa se se trata de um mural, <i>stencil</i>, <i>tag</i>/<i>pixo</i>,
colagem ou <i>graffiti</i>.<i> </i>O que está em jogo é um processo não
institucional<i> </i>de um tipo peculiar de <i>produção urbana</i>, qual seja, tal como habitualmente se apregoa, a arte urbana <i>ilegal</i>;
mais que um efeito de demonstração de inscrições de si e de grupos, de ocupação
de lugares da cidade de difícil acesso a equipamentos e serviços urbanos,
provoca a criação de alternativas por outras vias, pondo em questão os seus
usos<sup><a href="#23">23</a></sup><a name="top23"></a> oficiais e costumeiros.<sup><a href="#24">24</a></sup><a name="top24"></a> 
Se, como diz Ferrara (1993), para romper
a inelegibilidade do urbano se torna necessário improvisar novas locuções e
variações da sua linguagem, a arte “concreta” das ruas, de natureza ilegal,
produz descontinuidades e desvios nas paisagens e nos usos da cidade.</p>

    <p>A <i>cena</i><sup><a href="#25">25</a></sup><a name="top25"></a>do <i>graffiti</i>, além de apontar
reinvenções do urbano-Lisboa, promove transposições entre os domínios digitais
e materiais. O <i>graffiti </i>ilegal, por ocorrer na incessante tensão entre
existir e ser apagado, por se inscrever sob o crivo da efemeridade, migra de
forma mais veloz para o ciberespaço. Nesse aspeto, como diz Brighenti (2011, p.
35), “[…] as imagens não são só extensões, mas também
intensidades, não são apenas formas, mas também eventos de metamorfose”. As
paredes, montras, viadutos, calçadas e placas são, simultaneamente, materiais e
imateriais, colocam-se tanto como superfície de inscrição quanto na qualidade
de projeção e visibilidade de uma cidade continuamente desenhada e apagada, re-inventada e des-inventada.</p>

    <p>Por tal razão, necessitando esquivar-se das
armadilhas da fixação e da delimitação de fronteiras em permanente negociação
entre legal e ilegal, o ­<i>graffiti </i>ajusta-se, apropria-se e deixa-se
afetar pelas inovações tecnológicas por meio das redes digitais da internet
(Campos, 2009, p. 108). Como bem assinala La Rocca (2011, p. 65), “[…] os <i>graffiti,
</i>ao intervirem no território, ao serem expostos no território, conferem-lhe
um caráter dinâmico: proporcionam uma caligrafia, como é o caso da pichação em
São Paulo, que provoca uma profunda transformação estética da cidade” – e, acrescentaria, também nos logradouros<i> </i>que povoam o
ciberespaço.</p>

    <p><b>&nbsp;</b></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>PINTAR A CIDADE
“ILEGAL”: A <i>AUTORIZAÇÃO MORAL</i> DE HAZUL LUZAH</b></p>

    <p><b>&nbsp;</b></p>

    <p>No dia 21 de maio de 2013, uma iniciativa da Câmara do Porto de
“destruição” de uma pintura é flagrada pelo próprio autor, o artista urbano
local denominado Hazul Luzah. O <i>blog </i>“Jardim das Delícias”,<sup><a href="#26">26</a></sup><a name="top26"></a> no dia 25 de maio de 2013, realiza uma
publicação com o seguinte título: “<i>Graffiters</i> ameaçam responder à
destruição de pintura de Hazul”. Em curto espaço de tempo, a foto da
“­destruição” gerou polémica e revolta entre uma rede de <i>writers </i>conectados
em diversas partes do mundo. Um trecho da referida publicação no <i>blog</i>
sinaliza as tensões e conflitos que dinamizam esse campo de múltiplos
enfrentamentos:</p>

    <p><b>&nbsp;</b></p>

    <blockquote>    <p>Graffiti: “uma autêntica praga”? O combate “sem
tréguas” que a Câmara do Porto declarou aos “graffiti” visa tornar a cidade
mais limpa e acolhedora, alega a autarquia, que considera este tipo de
manifestações “uma autêntica praga”, destruidora da paisagem urbana. O projecto
das brigadas antigraffiti custou cerca de 150 mil euros e, desde Novembro, já
interveio em cerca de 20 ruas. Para Hazul, a Câmara deveria optar por outra
solução, bem mais simples e barata: permitir que se pintassem os tijolos que
emparedam as casas devolutas ou disponibilizar paredes para o efeito. “Qualquer
destas opções não necessita de dinheiro, só de vontade”, remata. O “writer”
reivindica ainda o apoio do município para aqueles que querem “embelezar o
espaço público”, garantindo que “muitas paredes na cidade ficariam enriquecidas
se fossem pintadas por um artista” [Jardim das Delícias, 2013].</p></blockquote>

    <p><b>&nbsp;</b></p>

    <p>O binómio destruir <i>versus </i>embelezar agita
o debate, de acordo com a perceção do poder público, da “praga” que mobiliza a
Câmara no “combate sem tréguas” em relação à prática do <i>graffiti</i>. No
diário de campo <i>online,</i><sup><a href="#27">27</a></sup><a name="top27"></a> publicado poucos dias após o
 “apagamento” do <i>graffiti </i>de Hazul Luzah,<sup><a href="#28">28</a></sup><a name="top28"></a> já se evidenciam rastos da proclamada guerra, tendo o Porto como
cenário.</p>

    <p><b>&nbsp;</b></p>

    <blockquote>    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Caminhei por volta de quatro horas na zona
geográfica que perfaz a Faculdade de Ciências e Letras, passando por toda zona
histórica até a Rua Sá de Noronha, na baixa do Porto. Percorri uma cidade
rasurada por escritos, desenhos, murais,<i>graffiti</i>,<i>tags</i>,
mensagens espalhadas por toda parte. Tanto havia muros apagados, com vestígios
de pinturas e<i>tags</i>, como paredes e vitrinas que superpunham
inscrições, uma por cima das outras. Parecia acontecer, amiúde, o
denominado<i>cross</i>.<sup><a href="#29">29</a></sup><a name="top29"></a> O que de princípio, poderia incomodar tanto o poder público como
provocar algumas rivalidades entre os próprios<i>writers</i>.Durante
o percurso, ocorreu-me que ao contrário do que esperava realizar a Câmara na
“brigada anti-grafitos” – o “apagamento” arbitrário –
sem uma percepção dos significados da arte urbana, ela acabou por mobilizar
ainda mais os <i>graffiters</i> a multiplicarem suas marcas na cidade
[Diógenes, 2013b].</p></blockquote>

    <p><b>&nbsp;</b></p>

    <p>As três imagens tomadas pela autora no momento do
conflito, em maio de 2013, destacam o impacto visual de uma guerra cujo <i>front</i>
são as paredes.</p>

    <p>O ilegal sobrepõe-se ao legal, imprimindo um
princípio que, segundo Câmara (2014 p. 160), norteia a <i>old school </i>das
artes de rua<i>: se vais crossar</i><sup><a href="#30">30</a></sup><a name="top30"></a><i>, tens que fazer maior e melhor. </i>As práticas
ilegais do <i>graffiti</i>, dentro do seu plano <i>interno </i>de interação,
definem e regem ações que são potencialmente consideradas legítimas entre os <i>writers.</i></p>

    <p><b>&nbsp;</b></p>
<a name="f1">
    <p><img src="/img/revistas/aso/n217/n217a01f1.jpg"></p>
    
<p><b>&nbsp;</b></p>

    <p>A fronteira mais nítida entre o <i>graffiti </i>legal
e ilegal é proporcional à potência de resistência, podendo já não ser
considerado <i>graffiti,</i> por alguns pesquisadores<sup><a href="#31">31</a></sup><a name="top31"></a> e <i>writers</i>, quando ele é realizado de forma institucional e no
contorno de espaços liberados pelo poder público, ou ainda por proprietários
dos edifícios ou equipamentos que dão suporte à intervenção. Um dos traços que
inteiram a inscrição dos denominados <i>graffiti </i>na cidade é a própria tinta da <i>ilegalidade</i>.<sup><a href="#32">32</a></sup><a name="top32"></a> Em que medida a ação ilegal dos artistas de rua<i> </i>aspira ao
estatuto de legalidade e à classificação de <i>gosto </i>ensejada pelo que se
considera arte na arena dos <i>estabelecidos</i>?<sup><a href="#33">33</a></sup><a name="top33"></a></p>

    <p>De acordo com Machado Pais (2006, p. 13), “[…] de
um ato ilegal (ilegalidade prescrita pela lei) o grafite transforma-se em arte
(e toda a arte é legal na opinião dos artistas); por isso os jovens grafiteiros
falam da <i>legalização</i> das paredes quando delas se apropriam”. Mesmo sendo
o ato de “pintar a cidade” uma ação de natureza ilegal, <i>um empreendimento
desviante, </i>um “[…] ataque, um insulto, uma degradação” (Brighenti, 2011, p.
37), para os <i>writers, </i>essa ação reveste-se de um tipo de ocupação da
cidade <i>correta moralmente</i>, tal qual relata Hazul Luzah, artista urbano
da cidade do Porto:</p>

    <p><b>&nbsp;</b></p>
<a name="f2">
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><img src="/img/revistas/aso/n217/n217a01f2.jpg"></p>

    
<p><b>&nbsp;</b></p>
<a name="f3">
    <p><img src="/img/revistas/aso/n217/n217a01f3.jpg"></p>

    
<p><b>&nbsp;</b></p>


    <blockquote>    <p>Uma altura que percebi que minha própria vontade
era suficiente pra eu conseguir fazer uma parte daquilo que eu queria. Claro
que não consigo fazer tudo, porque estou sujeito a regras que tenho que estar
mais ou menos atento para não ter problemas. Mas consegui perceber que era
possível aquilo que eu achava certo e, ao mesmo tempo, depois receber a opinião
das pessoas que gostavam e que me davam a garantia que ok, aquilo ficava bem
ali, ou seja, pronto. E a partir daí eu comecei achar que valia a pena correr
eu pessoalmente, poderia correr o risco em prol de fazer uma coisa que eu
achava correto e que pelo que tenho visto a maior parte das pessoas também gostavam, ou seja, era quase como se tivessem impedido por
parte dos governantes, mas tivesse quase uma autorização moral por parte das
pessoas, o que de certa forma pra mim é bastante mais importante ter a opinião
positiva das pessoas que vivem a cidade do que dos governantes que estão na
Câmara<i>.</i></p></blockquote>

    <p><b>&nbsp;</b></p>

    <p>A <i>autorização moral</i> alcançada por Hazul
Luzah, assim como ressalta noutra passagem da sua narrativa, é percebida pelo
artista como<i> uma coisa natural</i>, atitude possível para que possa
interagir na cidade em que habita:</p>

    <p><b>&nbsp;</b></p>

    <blockquote>    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>[…] o espaço público é
tão meu como é do vizinho, e acho que da mesma forma que eu gostava que
houvesse mais espetáculos na rua e gosto muito de ver as pessoas virem cozinhar
para a rua, fazerem os assados e as sardinhas e aquelas coisas todas, e eu
gosto muito dessa interação.<sup><a href="#34">34</a></sup><a name="top34"></a></p></blockquote>

    <p><sup>&nbsp;</sup></p>

    <p>A ideia de <i>autorização
moral</i>, ressaltada por Hazul, como se pode identificar nos seus depoimentos,
compete com outros regimes de legitimação das obras de arte, de reconhecimento
artístico e de princípios instituídos por meio dos campos
social e político. Mesmo com o impedimento <i>por parte dos governantes</i>,
Hazul sustenta-se numa espécie de aceção de <i>agência moral </i>(Werneck,
2013)<i>. </i>Predomina, nas palavras do artista, um princípio cognitivo, a
construção de um juízo próprio relativo ao ato de pintar a cidade, balizando
uma “determinada gramática de actância moral” (Werneck, 2013, p. 707). Desse
modo, a <i>autorização moral </i>autoconcedida pelo artista e o seu
considerável reconhecimento diante dos moradores do Porto surgem, ao contrário
de um operador de contenção, “como dispositivo de potencialização da agência” (<i>idem</i>,
2013, p. 713) de intervenção artística na cidade. Assim sendo, mesmo ilegal do
ponto de vista das leis e regulamentos prescritos pelos <i>governantes</i>,
Hazul cria uma singular “economia de motivos” (Werneck, 2013)<i> </i>que o
incitam e o convencem da sua também <i>propriedade </i>do espaço público e de
sua potência de agir.</p>

    <p><b>&nbsp;</b></p>
<a name="f4">
    <p><img src="/img/revistas/aso/n217/n217a01f4.jpg"></p>
    
<p><b>&nbsp;</b></p>

    <p>Para o artista do
Porto, a <i>opinião positiva das pessoas</i> – <i>aquilo ficava bem ali</i> – era
o salvo-conduto de que ele necessitava para empreender a sua brigada a favor do
que considera ser <i>correto moralmente.</i> A <i>interação </i>e a ocupação <i>moral
</i>dos artistas urbanos nos ambientes citadinos apregoam não apenas ondas de
resistência e rebeldia, como também, tal qual mencionou Ferrel (1995),
possibilitam a instauração de alternativas urbanas que dilatam os usos da rua.
Hazul Luzah, também em 2013, decide realizar uma exposição de arte ilegal num
local de quase abandono na zona portuária da cidade. O suporte das <i>telas </i>opera-se
nos desvãos de prédios devolutos e nas portas e janelas emparedadas. Todas as
madrugadas, de modo solitário, Hazul produzia uma peça.</p>

    <p>A convulsão causada pelo “apagamento” do <i>graffiti
</i>de Hazul Luzah e o impacto do ocorrido nas redes sociais da internet e em
alguns jornais e revistas conferiram ao artista uma notória visibilidade, de
tal modo que a exposição “Florescer”, na Rua São Pedro de Miragaia, ganha
inegável destaque e adesão de moradores no momento da “abertura” do evento. A
revista <i>Time Out</i> do Porto, de agosto de 2013,<sup><a href="#35">35</a></sup><a name="top35"></a> enfatiza a importância da <i>sui generis</i> exposição do artista.</p>

    <p><b>&nbsp;</b></p>
<a name="f5">
    <p><img src="/img/revistas/aso/n217/n217a01f5.jpg"></p>
    
]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>&nbsp;</b></p>

    <p>No diário de campo do dia 22 de agosto, publicado
no Antropolo­gizzzando,<sup><a href="#36">36</a></sup><a name="top36"></a> relatei uma visita a São Pedro de Miragaia na companhia do artista,
mesmo que ninguém no local minimamente antevisse tratar-se do autor das obras
expostas no “Florescer”:</p>

    <p><b>&nbsp;</b></p>

    <blockquote>    <p>Outro senhor, denominado Pereira, disse que há
diferenças entre essa arte da Miragaia e o vandalismo.Diz ser contra qualquer tipo de vandalismo nas paredes,os
rabiscos que só estragam a cidade e solta,o que diz se tratar de um
ditado popular: cada qual na sua arte. E continua, há grafitismo por vezes
considerado vandalismo, há outros que até se ganha dinheiro com isso. Aqui tem
vindo muito estrangeiro, visitar agora essas pinturas. Tiram muitas fotos. Isso
aqui é arte [Diógenes, 2013a].</p>

    <p><b>&nbsp;</b></p>

    <p>Percebo que, apesar da natureza impressionista e
intuitiva das considerações dos moradores, a maior parte delas parece
identificar, na exposição de Hazul, um perfil diferenciado, se utilizando
de termos relativos às artes plásticas, quando mencionam a exposição: são
quadros, são pinturas [Diógenes, 2013a].</p></blockquote>

    <p><b>&nbsp;</b></p>

    <p>Considera-se que os “juízos de gosto” (Agamben,
2012), as esferas de “distinção” (Bourdieu, 2013) entre o que é arte e
vandalismo, qual seja, o que é legal e ilegal, extrapolam as instâncias
jurídico-institucionais e entremeiam-se aos discursos e às práticas cotidianas
dos moradores e dos visitantes locais. Entre o primeiro contacto efetuado com
Hazul, tendo como foco a exposição “Florescer”, no curto espaço de tempo de
menos de seis meses, verificaram-se significativos deslocamentos tanto na visão
do artista sobre sua obra como nos olhares dos moradores e dos demais agentes
sociais: Câmara do Porto, <i>media</i> e redes sociais
digitais, tal qual relatado no referido diário.</p>

    <p><b>&nbsp;</b></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>    <p>O artista que revelou
na primeira entrevista pintar sem se dar conta do olhar do público sobre suas
obras, vivenciar uma experiência de autoconhecimento e simbiose das figuras do
formador-artista-espectador-curador passa a “brincar” com esses papéis. Luzah
insiste no uso do termo brincar, como se isso redundasse numa inversão e
mistura dos usuais papéis que compõem os roteiros da produção artística.
Provavelmente, também, ao confundir enunciados, funções e as dinâmicas
contemporâneas da produção artística (produtor-curador-crítico) o artista, como
diz Rancière (2010) também “emancipa o espectador”. Hazul acaba criando uma
eficácia paradoxal do fazer artístico: “é a eficácia da própria separação,
da descontinuidade entre as formas sensíveis da produção artística e as formas
sensíveis através das quais essa mesma produção é apropriada pelos
espectadores, leitores, ouvintes” (2010, p. 85). O “brincante” Hazul, no seu
Facebook, apresenta o curador de sua exposição, o gato. Paradoxalmente,
silencioso, tem olhar observador mas produz uma visão
“por dentro”, qual seja, é parte da “natureza” local [Diógenes, 2013a].</p></blockquote>

    <p><b>&nbsp;</b></p>

    <p>A repercussão da
exposição “Florescer” provoca uma implicação peculiar: as demais obras, que estão há mais de três anos espalhadas na zona histórica do
Porto, auferem um estatuto de visibilidade e curiosidade dos moradores locais e
de segmentos de visitantes. Até então anónimo, a indagação sobre quem é Hazul<i>
</i>Luzah confere ao artista uma significativa<i> autorização moral </i>(Werneck,
2013)<i> </i>e um salvo-conduto do que denomino de um tipo de <i>legalidade
ilegal.</i> A transposição das fronteiras entre legal-ilegal no seu percurso
artístico<sup><a href="#37">37</a></sup><a name="top37"></a> é conduzida por uma <i>opinião positiva </i>dos
<i>espetadores </i>urbanos, o que, para Rancière (2010, p. 27), denota uma
forma específica de interatividade, desmantelando fronteiras entre os que agem
e os que veem, entre indivíduos e membros de um corpo coletivo.</p>

    <p>O rito de passagem da arte urbana de natureza
ilegal para o âmbito do que é permitido <i>moralmente </i>pelo conjunto dos <i>espetadores</i>,
no caso de Hazul Luzah, aconteceu de forma veloz e bastante singular. Em maio
de 2014, na página do <i>Facebook</i> de Hazul Luzah,<sup><a href="#38">38</a></sup><a name="top38"></a> puderam-se identificar diversas fotos e mensagens sobre uma exposição
pública em que uma obra do referido artista é projetada no prédio da Câmara do
Porto, sendo proclamado da seguinte forma: “Mudam-se os tempos, mudam-se as
vontades. Hoje, na ­inauguração do STREET ART AXA PORTO, uma obra de&nbsp;Hazul
Luzah, com vista para a Câmara do Porto”.</p>

    <p><b>&nbsp;</b></p>
<a name="f6">
    <p><img src="/img/revistas/aso/n217/n217a01f6.jpg"></p>

    
<p><b>&nbsp;</b></p>
<a name="f7">
    <p><img src="/img/revistas/aso/n217/n217a01f7.jpg"></p>

    
<p><b>&nbsp;</b></p>
<a name="f8">
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><img src="/img/revistas/aso/n217/n217a01f8.jpg"></p>

    
<p><b>&nbsp;</b></p>
    <p>O ilegal sobrepõe-se à superfície incorpórea do
aparato legal do poder autárquico do Porto: <i>mudam-se os tempos, mudam-se as
vontades.</i> Pouco antes desse feito, Hazul Luzah, numa publicação de 26 de
abril de 2014, na sua página do Facebook, noticia:</p>

    <p><b>&nbsp;</b></p>

    <blockquote>    <p>Saímos à Rua. Street Art Axa Porto inaugura
dia 30, 4.<sup>a</sup> feira (véspera de feriado), 22h. <i>Street Art</i>: os “<i>writers</i>”
saíram à rua de madrugada para homenagear a arte urbana: <a
href="http://p3.publico.pt/node/11856" target="_blank">http://p3.publico.pt/node/11856</a>.
Seis cabinas telefónicas da Avenida dos Aliados, no Porto, foram transformadas
com a ajuda de <i>graffiti</i>, instalações e <i>stencil</i> [informação
verbal].<sup><a href="#39">39</a></sup><a name="top39"></a></p></blockquote>

    <p><b>&nbsp;</b></p>

    <p>A arte urbana, tal qual se observa nos trajetos
de Hazul Luzah na cidade do Porto, mais do que contrapor-se ao binómio
legal/ilegal, equilibra-se no próprio estatuto do duplo. Classificada como
ilegal, ainda o artista “não dando a cara”, a obra de Hazul é realçada num
notório empreendimento legal: a pintura de uma cabina pública de uma das
principais avenidas da cidade do Porto. Onde acaba o legal e começa o ilegal é
um discurso que mais concerne às autoridades públicas, aos críticos de arte,
aos galeristas e curadores do que mesmo aos <i>writers </i>que atuam nas
confluências e fronteiras entre as artes e o urbano.</p>

    <p>É nas ruas, no fluxo da apropriação realizada
pelos <i>espetadores,</i> que se <i>decidem</i> os domínios de atuação do
consentido e do reprimido e as suas ­repercussões na arena institucional e no <i>mainstream.</i>
Qualquer que seja a natureza, ilegal é um valor intrínseco ao fazer intervenção
nas ruas, que acaba por determinar o que se considera ou não arte urbana. Na
medida em que é dada ao artista a palavra possível de avizinhar legal e ilegal,
ele opera no circuito contínuo entre o permitido e o proibido. Slap, um dos
mais emblemáticos artistas urbanos de Lisboa,<sup><a href="#40">40</a></sup><a name="top40"></a> define o que para ele representa a sobreposição legal-ilegal, após uma
<i>descoberta </i>efetuada no fluxo da conversa entre pesquisador e narrador.</p>

    <p><b>&nbsp;</b></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>    <p>Quando não se limpa a determinados tempos
acontece isto, né, que pra muitos é bonito e pra outros é horrível. E depois
isto é o que vai sempre colocar a arte urbana naquela tangente, onde é que
acaba o legal e começa o ilegal, o quê que é arte, o
quê que é vandalismo – ou poderá o vandalismo ser considerado arte? Por
exemplo, isto pode tá muito horrível, este vidro pode se partir e tirar fora,
mandar pra lixo, mas se tivesse alguém que descolasse o vidro, levasse e
pusesse no Centro Cultural de Belém, era uma peça da arte. Então é esta a
diferença, é a abordagem que nós damos às coisas, não é
as coisas, as coisas em si são o que elas são, nós não precisamos estar nós a
decidir se isso vai ser ou não vai ser, né? Mas se houver alguém que valorize
isso e diga: “Eu quero esse vidro pra mim, eu dou 2
mil euros por este vidro, eu quero este vidro pra mim”, compreender alguém que,
com muito cuidado pra não partir, colam por cima e descolam não sei quê, e isto
vai ser preservado, vai ser guardado, e se calhar daqui a 10, 20 ou 30 anos
ainda tão pessoas a olhar pra este vidro assim meio espelhado, que dá pra nós nos
vermos lá também, nós conseguimos por lá também. Mas é, estás a compreender,
acho que é mais é mais por aí, não há uma definição, não há uma coisa concreta
em relação ao quê que é, ao quê que não é, legal ou
ilegal.<sup><a href="#41">41</a></sup><a name="top41"></a></p></blockquote>

    <p><sup>&nbsp;</sup></p>

    <p>No momento de
entrevista, Slap apresenta uma intervenção efetuada num túnel em Alcântara,<sup><a href="#42">42</a></sup><a name="top42"></a> que, sob sua supervisão, é pintado por
vários artistas urbanos de Portugal, como se pode observar na fotografia
abaixo.<sup><a href="#43">43</a></sup><a name="top43"></a></p>

    <p><b>&nbsp;</b></p>
<a name="f9">
    <p><img src="/img/revistas/aso/n217/n217a01f9.jpg"></p>
    
<p><b>&nbsp;</b></p>

    <p>Inusitadamente, observo a sua <i>tag </i>estampada
bem no meio de uma montra, que segundo ele será removida, e indago-o sobre a
autoria. Slap, sorrindo como quem fora descoberto, informa que ela está ali há
mais de 15 anos. Os liames entre o que significa valor-arte e <i>lixo</i>,
legal e ilegal, as variações estéticas entre belo e feio surgem na fala de
Slap. Assim, como destaca Hazul Luzah (2013), esse “[…] valor vem a depender da
abordagem que damos às coisas” ou da <i>autorização moral</i> autoconcedida
pelo próprio <i>writer</i> e pela plateia de <i>espetadores </i>que, de modo
virtual, também passam a assinar e <i>liberar</i> a obra.</p>

    <p><b>&nbsp;</b></p>
<a name="f10">
    <p><img src="/img/revistas/aso/n217/n217a01f10.jpg"></p>
    
]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>&nbsp;</b></p>

    <p>O que parece
definir a arte urbana é aquilo que, para alguns, como afirma Slap, pode parecer
<i>horrível </i>e, para outros, um modo não somente de se ver, de ter um lugar
na cidade, mas, fundamentalmente, de <i>participar </i>e<i> </i>construir a
cidade. Como diz Agamben (2012, p. 151) a propósito do exercício de “pintar a
cidade”:<sup><a href="#44">44</a></sup><a name="top44"></a> a arte atua como autorregeneração da
vontade de potência. O que importa para os <i>writers</i> que preferem
arriscar, mesmo impedidos pelos governantes — como enfatiza Hazul Luzah —,
transcende o ato restrito da vontade de rebeldia, ou, como propõe Becker
(2008), de um empreendimento desviante.</p>

    <p>O debate sobre os “usos das ruas”, seja legal ou
ilegalmente, conforme Frehse (2009, p. 165), tem o corpo e suas atuações como
elemento central, mesmo que muitos autores não se deem conta disso. “É ele que
se move, que interage, que atua na rua, cumprindo ou
não funções, produto e produtor de contexto” (<i>idem</i>, 2009, p. 166). A
intervenção da arte urbana na cidade é um modo de <i>participação corporal </i>na
esfera material da cidade. Diferentemente das “obras passivas” dos museus,
referidas por Rancière, no contexto e “usos da rua” as intervenções conectam-se
aos corpos dos <i>writers</i>, numa espécie de fusão material, orgânica e, por
vezes, digital. A obra atua, mesmo ­revertendo-se numa argamassa palpável, na
condição de <i>corpos misturados</i><sup><a href="#45">45</a></sup><a name="top45"></a><i> e também ganha</i> certa volatilidade.
A diferença é que, muito embora o <i>writer </i>ocupe um espaço, utilize um
tipo de suporte – paredes, muros, vitrinas, viadutos, placas, dentre outros –,
ele opera na lógica dos cursos e deslocamentos. Como releva a artista urbana de
Lisboa, Tamara Alves, <i>na rua tudo pode acontecer:</i></p>

    <p><i>&nbsp;</i></p>

    <blockquote>    <p>O primeiro contexto da rua em si é tudo. Acho que
o facto, o abandono da peça na rua é doloroso, mas faz parte. É preciso haver
uma espécie de afastamento, […] a partir do momento em que tá feito deixa de
ser meu e acaba por ser dos outros, e vive com o tempo e desgasta-se com a
passagem, e num (sic) escolhe, é eclético, não escolhe público. O local influencia, como é óbvio, mas o desgaste é a intervenção dos
outros artistas em cima, isso faz tudo parte. Isso eu acho, a obra não tá
finalizada, não tá enquadrada pra já, não é tela, nem um retângulo acadêmico, é
exterior.<sup><a href="#46">46</a></sup><a name="top46"></a></p></blockquote>

    <p><sup>&nbsp;</sup></p>

    <p>É o <i>abandono da peça </i>e o seu previsível
desgaste<i> </i>que estabelece o elemento diferencial entre a arte dos “juízos
de gosto” e aquela que é ec<i>lética e não ­escolhe público </i>– uma arte que
escapa do crivo estético como capacidade exclusiva do artista, ao passo que ao
não artista resta apenas <i>spectare</i> (Agamben, 2012, p. 40). Uma obra não
finalizada, não esquadrinhada em limites fixos, age como um convite à
participação, mesmo que ocorra apenas ao nível do olhar<sup><a href="#47">47</a></sup><a name="top47"></a> do transeunte que vive e usa a cidade. A cena da <i>street art</i> não
só se esquiva da perceção de <i>passividade</i><sup><a href="#48">48</a></sup><a name="top48"></a>que tem marcada a condição do <i>espetador </i>de
museus e galerias como, por se revestir de um caráter de efemeridade e
“abandono” das obras nos espaços urbanos, pode ser facilmente reapropriada e
transposta das ruas para os corredores e vias do ciberespaço.</p>

    <p>Um muro com “pixo”, uma cadeira improvisada em
regiões de fluxo, um assento de praça utilizado como dormitório, faixas e
riscos sobre monumentos públicos conferem à cidade
diferenciadas indumentárias e compõem geografias não oficiais, não
legais. As artes urbanas aparentam operar nessa fratura entre o material, o
concreto e aquilo que se encontra em permanente ­mutação; entre a instância da
figuração e o imaterial efémero da invenção. Trata-se, como alude Canevacci
(2013, p. 45), de um tipo de comunicação que, ao ser liberta das <i>molduras</i>,<i>
</i>é “[…] negociada entre diversos sujeitos que participam do evento: o autor,
o texto, o contexto, o espectador”.</p>

    <p>As culturas digitais, enfim, aceleram tal
processo através da <i>web</i>-comunicação. O espetador deixa de ser apenas
espetador e muito menos deseja sê-lo. É como se os <i>writers</i>,<i> </i>albergados
na condição <i>criativa</i> da impotência, do não poder deixar marcas na
cidade, comumente <i>impedidos por parte dos governantes, arriscassem </i>a
capacidade do agir e resistir não apenas em relação a si próprios, mas um atuar
também na construção da cidade. A perceção estética do urbano como espaço
visual, obra de arte ou conjunto de obras de arte está bem mais relacionada com
o valor atribuído por uma comunidade, por segmentos e usos diferenciados do que
por um valor em si (Argan, 1998, p. 228). Não apenas os usos da cidade, e os
seus escopos de atribuição de valores ganham novos matizes, como a perceção e o
uso do tempo revestem-se de uma tensão que dimana entre afastamento e
vizinhança (Agamben, 2010, p. 26), entre presencial e virtual,<sup><a href="#49">49</a></sup><a name="top49"></a> entre cidade, arte urbana e ciberespaço. O ilegal da arte <i>desliza </i>e
transpõe os lugares <i>estriados</i><sup><a href="#50">50</a></sup><a name="top50"></a>da cidade, atuando de forma tática no jogo da
marcação, apagamento e promoção de um caráter de permanência dos <i>graffiti</i><sup><a href="#51">51</a></sup><a name="top51"></a>nas páginas do <i>Facebook</i>, assim como em
outras tantas esferas das redes sociais digitais.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>&nbsp;</b></p>

    <p><b>O LEGAL E O ILEGAL:
ENTRE OS CIRCUITOS <i>UNDERGROUNDS </i>E O <i>MAINSTREAM</i> (NOTAS
CONCLUSIVAS)</b></p>

    <p><b>&nbsp;</b></p>

    <p>A “cena moderna”, como
enfatiza Eugênio (2006, p. 161), faz-se zona fronteiriça, envolve o uso de
tecnologias (câmeras fotográficas digitais, internet e telemóvel). A foto de
Hazul Luzah, capturada no momento em que os agentes da Câmara do Porto
efetuavam a “destruição” do seu <i>graffiti, </i>ultrapassa as paredes e
perímetros da cidade e ganha dobras e paisagens das redes sociais digitais. A
itinerância e a velocidade (Eugênio, 2006, p. 173) da imagem inúmeras vezes
partilhada faz dela um múltiplo do uno. Transforma-se a imagem, por ser a
mesma, continuamente deslocada do seu suporte original, e assim se recompõe a
noção de rua e de espaço, tal como as molduras cronológicas do tempo. É outra
cena de um mesmo enredo. Por tais razões, o próprio conceito de cena, também
discutido por Bennett (2004), avoca novos trajes, designados pelo referido
autor de <i>virtual scenes</i>.<sup><a href="#52">52</a></sup><a name="top52"></a></p>

    <p>Na medida em que as
cenas de interação virtual agenciam e facilitam outro nível de trocas, de uma
espécie de copresença entre atores distantes geograficamente, a natureza ilegal
das ações de arte urbana, ao se propagarem, alcançam outro tipo de aceitação e
de legitimação pública. Os golpes que tentam contornar os <i>espaços estriados </i>das
multas, decretos e das ações do estado de <i>branqueamento </i>da cidade, ao
multiplicarem nas redes a mesma intervenção, em infinitas paredes virtuais, populariza
e cria uma espécie de aceitação pública do <i>ilegal.</i> O artista urbano
Miguel Januário, cujo nome artístico é ± MAISMENOS ±, acentua os impasses que atravessam a arte urbana num contexto social
lisboeta que ele denomina de pseudoconfortável:</p>

    <p><b>&nbsp;</b></p>

    <blockquote>    <p>[…] a <i>street art</i> também ela se tornou um
produto porque o mercado é aglutinador, portanto acaba por aglutinar até aquilo
que o partido é contra ele mesmo. Depois existem as questões da domesticação,
ou seja, da tentativa de controlar um bocadinho as mensagens […].<sup><a href="#53">53</a></sup><a name="top53"></a></p></blockquote>

    <p><sup>&nbsp;</sup></p>

    <p>Assim como os contextos legal e ilegal da <i>street
art</i> são organicamente conectados, os circuitos <i>mainstream </i>e <i>underground
</i>também se interpõem em zonas de compatibilidade e de dissenção. Simões
(2012, p. 190), numa instigante discussão acerca do amadorismo e da
profissionalização no <i>hip-hop</i>, atenta para o valor “facto de os mesmos
artistas poderem conciliar ambas as opções na sua trajectória, mesmo sabendo
que representam realidades diversas, com uma importância simbólica
diferenciada”. Em conjunções similares, observa-se a emergência daquilo que
Campos (2009, p. 97) denominará de redes dobradas,
comentadas por Lopes da Silveira (2011, p. 134), sinalizando que “[…] os novos
grafites são outros grafites” quando atuam nesse duplo lugar – a rede física e
a malha virtual. De outro modo, reitero que são vários desdobramentos que
operam em simultaneidade na paisagem das artes de rua – legal
e ilegal, <i>mainstream</i><i> </i>e <i>underground</i>, físico e
virtual –, como se um apenas alcançasse funcionalidade e força se atuasse em
conjunção com o outro.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Indago, nestas
linhas finais, até que ponto a imagem <i>viral</i> do mural de Hazul Luzah, a<i>pagada
</i>pela Câmara do Porto e registada em foto digital nas redes sociais,
estabeleceu outro nível de importância e de visibilidade às obras do agora
proeminente <i>writer </i>da referida cidade. Qual seria <i>o destino das
imagens </i>das artes de rua, tal qual questiona Rancière (2011, p. 28), nas
operações entre o ordenamento urbano e as classificações do gosto estético?
Parece que quanto mais se tenta estabelecer fronteiras, divisas e binarismos,
mais a arte opera nessa confluência aparentemente contraditória da convivência
vantajosa entre duplos. “É esse entrelaçamento discursivo da arte e da não-arte, da arte e da mercadoria, que o discurso
medialógico contemporâneo tenta apagar […]”. E quanto mais se tenta neutralizar
esses entrelaçamentos, <i>domesticá-los</i>,<i> </i>como ressalta ± MAISMENOS±, mais a arte urbana opera
no regime do que Rancière denomina de <i>dissemelhança</i>, na feição de um
contramovimento, lugar de apreciações, formas plurais de assimilação de
intervenções, como diz Tamara, naquilo que “[…] deixa de ser meu e acaba por
ser dos outros” (informação verbal).<sup><a href="#54">54</a></sup><a name="top54"></a></p>

    <p>A vizinhança
legal-ilegal não estaria produzindo outros modos de fruição e de apropriação
urbana realizados com o corpo, tal qual sinaliza Frehse (2009), nas suas
práticas de marcação, afora normas e prescrições de uso da cidade? Apontando
assim já para outro eixo narrativo e reflexivo para próximos escritos, não
seriam esses os “[…] estimulantes diagramas da criatividade contemporânea”
(Almeida e Pais, 2013, p. 17)? Um tipo de intervenção, “[…] um jogo de astúcias
e audácias que coloca em estado de sítio a normatização” (<i>idem</i>, 2013, p.
17)? Essas “diferentes modulações” do fazer, esses “lugares intercambiáveis”, o
“[…] estar em contato facilitado pelas novas tecnologias da informação e
comunicação” (Almeida e Pais, 2013, p. 17) não estariam, também, deslocando os
limites facilmente discerníveis entre arte e vandalismo, entre o <i>underground
</i>e o <i>mainstream?</i></p>

    <p>Por fim, do mesmo modo que se estabelece, nos
usos das ruas, o <i>risco </i>do ilegal, não estaria qualquer forma de
apropriação da arte urbana pelo mercado fadada a ser percebida, principalmente
por meio do olhar de quem se situa fora desse campo, como atuação de natureza
económica,<i> </i>capturada pela lógica do mercado?<sup><a href="#55">55</a></sup><a name="top55"></a></p>

    <p>Através da observação direta da ação dos <i>writers
</i>em Lisboa, na escuta atenta de suas narrativas, pude perceber que a arte
urbana opera como ato de emancipação, seja na feição de um <i>tag</i>, um
mural, um <i>graffiti</i>, seja como um mero escrito urbano. O que parece estar
em xeque é a <i>emancipação do espetador</i>,<i> </i>“o desmantelar as
fronteiras entre os que agem e os que veem, entre os indivíduos e membros de um
corpo coletivo” (Rancière, 2010, p. 31). E o que faz com que se rompa a <i>passividade
</i>do <i>espetador </i>é aquilo que ± MAISMENOS ± vai sinalizar como sendo a essência da <i>street art:</i> o
desassossego. A tinta do desassossego derrama-se afora o rótulo da massificação
ou da apropriação pelo mercado. Atravessa o legal e o ilegal, infiltra-se nas
ruas, no <i>underground</i> e no <i>mainstream</i>, instaurando espaços de usos
inventados. Age <i>entre</i> tudo aquilo que o mercado se <i>apropria</i> e o
tanto que irrompe da criação artista, desfazendo usuais binarismos entre a arte
e a vida.</p>

    <p><b>&nbsp;</b></p>

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href="http://www.scielo.br/pdf/es/v28n98/a03v2898.pdf" target="_blank">http://www.scielo.br/pdf/es/v28n98/a03v2898.pdf</a>, [consultado em 10-08-2014].</p>

    <!-- ref --><p>RANCIÈRE,
J. (2005), “A política da arte e seus paradoxos contemporâneos”. In <i>Encontro
Internacional Situação</i>, 3 Estética e Política, São
Paulo, SESC, Disponível em <a
href="http://ww2.sescsp
.org.br/sesc/conferencias/subindex.cfm?Referencia=3562&ID=206&ParamEnd=6&autor=3806" target="_blank">http://ww2.sescsp
.org.br/sesc/conferencias/subindex.cfm?Referencia=3562&ID=206&ParamEnd=6&autor=3806</a>, [consultado em 20-07-2015].    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=072977&pid=S0003-2573201500040000100033&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>RANCIÈRE,
J. (2010),<i>O Espectador Emancipado</i>, Lisboa, Orfeu
Negro.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=072979&pid=S0003-2573201500040000100034&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>RANCIÈRE,
J. (2011), <i>O Destino das Imagens</i>, Lisboa, Orfeu Negro.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=072981&pid=S0003-2573201500040000100035&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>ROSE,
T. (1997), “Um estilo que ninguém segura: política, estilo, e a cidade
pós-industrial no hip-hop”. <i>In</i> M. Herschman, <i>Abalando
os Anos 90: Funk e Hip-hop, Globalização, Violência e Estilo Cultural</i>, Rio
de Janeiro, Rocco, pp. 191-212.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=072983&pid=S0003-2573201500040000100036&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>SAMAIN,
E. (2012), <i>Como Pensam as Imagens</i>, São Paulo, Unicamp.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=072985&pid=S0003-2573201500040000100037&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>SANTAELLA,
L., LEMOS, R. (2010),<i>Redes Sociais Digitais</i>, São
Paulo, Paulus.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=072987&pid=S0003-2573201500040000100038&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>SENNETT,
R. (1988), <i>O Declínio do Homem Público: as Tiranias da Intimidade</i>, São
Paulo, Companhia das Letras.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=072989&pid=S0003-2573201500040000100039&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>SERRES,
M. (2001), <i>Os Cinco Sentidos: Filosofia dos Corpos Misturados</i>, Rio de
Janeiro, Bertrand Brasil.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=072991&pid=S0003-2573201500040000100040&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>SIMÕES,
J.A. (2013), “Viver (d)o hip-hop: entre o amadorismo
e a profissionalização”. <i>In</i> M.I.M.
Almeida, J.M. Pais, <i>Criatividade &
Profissionalização: Jovens, Subjectividades e
Horizontes Profissionais, </i>Lisboa, Imprensa de Ciências Sociais, pp.
186-209.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=072993&pid=S0003-2573201500040000100041&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>SOARES,
C. (1998), <i>Imagens a Educação no Corpo</i>,Campinas,
Autores Associados.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=072995&pid=S0003-2573201500040000100042&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p>WACLAWEK, A. (2008), “From graffiti to the street art
movement: negotiating art worlds, urban spaces, and visual culture, c.
1970-2008”, Disponível em
<a
href="http://spectrum.library.concordia.ca/976281/1/NR63383.pdf" target="_blank">http://spectrum.library.concordia.ca/976281/1/NR63383.pdf</a>, [consultado
em 28-03-2015].    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=072997&pid=S0003-2573201500040000100043&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>WERNECK,
A. (2013), “Sociologia da moral como sociologia da agência”. <i>Revista
Brasileira de Sociologia da Emoção</i>, 12 (36), Disponível em
<a
href="http://www.cchla.ufpb.br/rbse/WerneckDos.pdf" target="_blank">http://www.cchla.ufpb.br/rbse/WerneckDos.pdf</a>, [consultado em 18-07-2015].    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=072999&pid=S0003-2573201500040000100044&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <p><b>&nbsp;</b></p>

    <p>Recebido a 24-11-2014. Aceite para publicação a
10-09-2015.</p>


    <p><b>&nbsp;</b></p>

    <p><b>NOTAS</b></p>

    <p><sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></sup> Bolsa da Capes para
pós-doutorado em antropologia, no Instituto de Ciências Sociais (ICS) da
Universidade de Lisboa, sob supervisão do professor
José Machado Pais.</p>

    <p><sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></sup> Aqui me refiro à arte
urbana como expressão que engloba tipos diversos de linguagem e intervenção
artística, tendo o urbano como cenário e/ou como suporte. Ricardo Campos (2010,
p. 280), notório investigador português nesse campo temático, considera o <i>graffiti</i>
como sendo um dos elementos emblemáticos da cultura visual contemporânea. O <i>grafitti</i>
é um código expressivo das artes de rua (<i>street art</i>), tendo
recorrentemente como móbil a transgressão e a irreverência. Waclaweck (2008, p.
121) também associa o <i>graffiti</i> a uma forma de inserção transgressiva nos
contextos socioculturais das cidades – assim, a natureza ilegal e o vetor da
rebeldia acompanham, de forma mais destacada, a genealogia do <i>graffiti</i>.
No âmbito da arte urbana, além do <i>graffiti</i>, as pinturas de muros, também
designadas de muralismo, o <i>stencil</i>, técnica de pintura por meio de
elementos vasados, a colagem ou lambe, os <i>stickers</i>, entre outros,
inserem-se dentro do mesmo campo semântico. Apresento esse conjunto de
considerações para que se possa identificar o terreno diverso e ambíguo de
qualquer esforço generalizante de conceptualização dessas experiências de
intervenção urbana.</p>

    <p><sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></sup> No corpo deste texto
identificarei sempre os atores que atuam nesse múltiplo terreno sob a
denominação de <i>writers</i>.</p>

    <p><sup><a name="4"></a><a href="#top4">4</a></sup> Sendo que, especificamente
no caso de Hazul Luzah, um dos artistas pesquisados, o impacto do “apagamento”
de uma das suas obras nas redes sociais da internet me impeliu a deslocar-me
até à cidade do Porto com a intenção de acompanhar <i>de perto</i> o referido
episódio.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a name="5"></a><a href="#top5">5</a></sup> Lúcia Santaella (2010, p.
14) entende por redes sociais digitais laços de variadas métricas,
utilizando-se meios técnicos disponíveis para a mediação de interações.</p>

    <p><sup><a name="6"></a><a href="#top6">6</a></sup> A decisão de empreender uma
pesquisa entre os domínios presencial e digital, tendo como lócus de investigação
a cidade de Lisboa, não se deu por mera escolha da pesquisadora. A criação da
Galeria de Arte Urbana em Lisboa, em 2008, sob a tutela do Departamento de
Património Cultural do Município, não apenas tem atraído visitantes de diversos
pontos do planeta, como também tem propagado o cenário do <i>graffiti</i> em
variados sítios digitais. Para uma melhor perceção do processo de criação da
GAU e de difusão do cenário das artes urbanas em Lisboa, ver também o texto de
Sílvia Câmara (2014) intitulado “Arte urbana como <i>performance</i>:
entre o corpo sublimado e a crítica política”, em que ela relata o processo de
remoção das inscrições deixadas em palimpsesto por artistas nacionais e
internacionais no Bairro Alto em 2008. Recentemente, o jornal <i>Huffington
Post</i> identificou a capital portuguesa como uma das paisagens com a melhor
arte urbana ao nível global. Disponível em <a
href="http://www.huffingtonpost.com/2014/04/17/best-street-art-cities_n_5155653.html" target="_blank">http://www.huffingtonpost.com/2014/04/17/best-street-art-cities_n_5155653.html</a>,
[consultado em 20-07-2015].</p>

    <p><sup><a name="7"></a><a href="#top7">7</a></sup> A área de percurso quase
diário da pesquisadora iniciava-se no Largo do Rato, passando pela Rua da
Escola Politécnica, chegando ao Chiado, atingindo o Rossio, descendo até ao
Cais do Sodré e por toda a extensão da Avenida da Liberdade. </p>

    <p><sup><a name="8"></a><a href="#top8">8</a></sup> A assinatura comummente
utilizada para designar os <i>graffiti</i> ilegais.</p>

    <p><sup><a name="9"></a><a href="#top9">9</a></sup> Alusão ao livro <i>Os Cinco
Sentidos: Filosofia dos Corpos Misturados</i>, de Michel Serres (2001).</p>

    <p><sup><a name="10"></a><a href="#top10">10</a></sup> Remeto para uma discussão
acerca da efemeridade das artes urbanas para uma publicação anterior da autora:
“Assim sendo, pode-se considerar a arte urbana, tanto nas cidades presenciais
como no ciberespaço, uma marca diferencial urdida e nomeada por quem dela se
utiliza. Sendo assim, ela é essencialmente não oficial e é quase sempre objeto
de polêmica entre <i>graffiters</i> e poder público, provavelmente por fazer
parte da esfera das escrituras urbanas inventadas para serem des-inventadas e
raspadas continuamente da paisagem oficial das cidades. A arte urbana, a <i>street
art</i>, se constitui no esteio efêmero das inscrições que se mesclam aos
suportes materiais da cidade e, ao serem rascunhadas, por terem existência
efêmera, evocam o próprio caráter transitório da vida urbana. Essa é uma arte,
como bem exemplifica Hazul Luzah, que existe para ser apagada. Cada lugar, cada
público tem formas próprias de nomear e de diferenciar a <i>street art</i>;
assim como nos ritos das artes clássicas, de museus e galerias, a qualificação
da arte e da não arte tanto vai depender da intencionalidade do artista, como
também do espetador” (Diógenes, 2013d, p. 57).</p>

    <p><sup><a name="11"></a><a href="#top11">11</a></sup> Instigante a discussão de
Fabrício Lopes da Silveira (2011) acerca das topografias e daquilo que denomina
medialidades do <i>graffiti</i>.</p>

    <p><sup><a name="12"></a><a href="#top12">12</a></sup> Lídia Borges (2013, p. 13),
considera que “[…] com a popularização da <i>internet</i> e das redes sociais,
muitos artistas começaram a disponibilizar um grande acervo fotográfico – que
até então era pessoal – dos seus <i>graffitis</i> nesse universo virtual. A
partir desses compartilhamentos de imagens, o <i>graffiti</i> ganha uma nova
dimensão. A sua visibilidade não precisa agora necessariamente que seja <i>in
loco</i>, basta ‘um clique’ nas páginas pessoais desses artistas ou um passeio
virtual pela <i>internet</i>”.</p>

    <p><sup><a name="13"></a><a href="#top13">13</a></sup> Com o intuito de trafegar de
forma mais veloz e eficaz entre os âmbitos da cidade e as redes sociais
digitais, criei um <i>blog</i> “diário de campo” denominado Antropologizzzando,
que pode ser acedido no seguinte endereço virtual:
<a
href="http://antropologizzzando.blogspot.com.br/" target="_blank">http://antropologizzzando.blogspot.com.br/</a>. Ele percorreu todo o ano de
pesquisa em Lisboa, ao longo de 2013. Algumas passagens deste texto farão
alusão a escritos registados no referido <i>blog</i>.</p>

    <p><sup><a name="14"></a><a href="#top14">14</a></sup> Iniciando na Calçada da
Glória, com a instalação de um conjunto de painéis.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a name="15"></a><a href="#top15">15</a></sup> No documentário “Rastos da
arte urbana em Lisboa” (<a
href="https://vimeo.com/116549650" target="_blank">https://vimeo.com/116549650</a>),
realizado pela autora, a coordenadora da GAU, Sílvia Câmara, ressalta a
importância do apoio das entidades oficiais no processo de projeção da cidade
como Galeria de Arte Urbana e explica a dinâmica de <i>apagamento</i> das
obras: “A Câmara decide simultaneamente agilizar o programa da reabilitação do
Bairro Alto, limpando, entre outras medidas, algumas das principais ruas, onde
aparecia uma densidade muito forte de inscrições nas paredes. De algum modo
significava estar a dignificar também aquele espaço, mas por outro lado estar
simultaneamente a apagar boa parte da memória da arte urbana em Lisboa […] para
além desse programa de limpeza, a Câmara decidiu criar um espaço, decidiu criar
a Galeria de Arte Urbana, que, de algum modo, promovia um diálogo com os
diferentes elementos que pertenciam a essa comunidade artística. A Câmara
começou a pensar que era importante não só limpar, mas também restaurar,
salvaguardar, mas também, simultaneamente, começar a conhecer essas pessoas,
começar a perceber como é que trabalham, e começar a dar-lhes oportunidade para
se expressarem, e a se manifestarem de forma autorizada e legal”.</p>

    <p><sup><a name="16"></a><a href="#top16">16</a></sup> No dia 23 de agosto de 2013,
foi promulgada em Lisboa, no <i>Diário da República</i>, a Lei n.º 61/2013, 1.ª
Série, n.º 162, p. 5090, que “[…] estabelece o regime aplicável aos grafitos,
afixações, picotagem e outras formas de alteração, ainda que temporária, das
caraterísticas originais de superfícies exteriores de edifícios, pavimentos,
passeios, muros e outras infraestruturas, bem como de superfícies interiores e
ou exteriores de material circulante de passageiros ou de mercadorias”,
prevendo coimas para os infratores que podem chegar a 25 mil euros. Disponível
em <a
href="http://dre.tretas.org/dre/311214/" target="_blank">http://dre.tretas.org/dre/311214/</a>, [consultado em 20-07-2015].</p>

    <p><sup><a name="17"></a><a href="#top17">17</a></sup> Pierre Bourdieu, ao
reportar-se à “crítica social do julgamento do gosto”, observa que a arte não é
um prazer direto dos sentidos – assinala então que a relação de distinção é um
componente acessório e auxiliar da disposição estética. O gosto é uma expressão
dos sentimentos <i>comuns</i> que os homens <i>comuns</i> experimentam em sua
existência <i>comum</i> (2013, p. 34). Mais que isso, os sistemas de classificação,
os sensos de distinção, de julgamento e certificação ativados no campo
artístico constituem também diferenças sociais, “[…] pretexto para desencadear
lutas entre os grupos que, através de sua oposição, são definidos em suas
características por esses sistemas […]” (2013, p. 442). Parte das distinções de
gosto, o que define um “nós” em relação a “eles”, aos “outros”, como enfatiza
Bourdieu, são lutas por classificação que contribuem para produzir as classes
apesar de, paradoxalmente, serem, também, o produto das lutas entre elas. Para
além do campo artístico propriamente dito, o gosto é uma disposição adquirida,
mas também funciona como uma espécie de sistema classificatório que acaba por
hierarquizar e <i>distinguir</i> os atores que compõem tanto a paisagem das
artes como as demais esferas do mundo social.</p>

    <p><sup><a name="18"></a><a href="#top18">18</a></sup> Refiro-me à ideia de rizoma,
desenvolvida por Deleuze e Guattari, como plano de produção de multiplicidades,
sendo as linhas de fuga movimentos de desterritorialização pelas quais essas
superfícies múltiplas fogem sem parar (1995, p. 18).</p>

    <p><sup><a name="19"></a><a href="#top19">19</a></sup> Conforme grafia nativa.</p>

    <p><sup><a name="20"></a><a href="#top20">20</a></sup> Com isso, de modo algum
estou afirmando que a conexão entre as esferas presencial e digital é uma
prerrogativa exclusiva às artes urbanas. Creio que, no caso das artes de rua, a
esfera digital atua como uma espécie de <i>outro</i> espelho da cidade, fazendo
reverberar o que potencialmente pode “sumir” rapidamente dos suportes materiais
da cidade.</p>

    <p><sup><a name="21"></a><a href="#top21">21</a></sup> Machado Pais, refletindo
sobre “Cotidiano e reflexividade” e as tensões do que se denominou de
modernidade reflexiva, sinaliza o dilema em que se vê envolvido o sujeito na
medida em que a modernidade remete para um mundo que é produção de sujeitos e,
ao mesmo tempo, estes vão-se construindo a si mesmo
como autores, num jogo de espelhos (2007, p. 37). Disponível em
<a
href="http://www.scielo.br/pdf/es/v28n98/a03v2898.pdf" target="_blank">http://www.scielo.br/pdf/es/v28n98/a03v2898.pdf</a>, [consultado em 11-08-2014].</p>

    <p><sup><a name="22"></a><a href="#top22">22</a></sup> Acompanhei, durante o ano de
2013, de forma mais sistemática, quatro artistas urbanos (Tinta Crua, Dalaiama
Street Art, Tamara Alves, de Lisboa, e Hazul Luzah, do Porto), além de ter
entrevistado mais quatro (MaisMenos, Slap, Nómen,
Pantónio e Fidel Évora). Neste texto específico, tomarei como caso exemplar o percurso
de Hazul Luzah na cidade do Porto e citarei passagens de conversas e
entrevistas realizadas com Tamara Alves, Slap e MaisMenos.</p>

    <p><sup><a name="23"></a><a href="#top23">23</a></sup> É significativa a perceção
de Lucrécia Ferrara sobre os usos urbanos. Ressalta a autora no livro <i>O
Olhar Periférico</i> que o hábito é a sedimentação de um uso urbano. “Este uso
habitual torna ilegível o lugar urbano e inibe a locução verbal; ao contrário,
para ler o ambiente é necessário romper aquele hábito e surpreender-se ante o
local do dia a dia” (1993, p. 21).</p>

    <p><sup><a name="24"></a><a href="#top24">24</a></sup> Jeff
Ferrel, no texto <i>Urban
Graffiti: Crime, Control and Resistence</i>, considera: “As they piece and tag, then, graffiti writers
not only alter the look of the city and resist its structures of authotity, but at the same time create elaborate urban
alternatives” (1995, p. 39).</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a name="25"></a><a href="#top25">25</a></sup> Bennett, reportando-se aos
seus estudos sobre práticas musicais, assinala a importância de se pensar o
conceito de cena para além dos limites estritamente locais, de referenciais
teóricos anteriormente utilizados, nomeadamente os que identificam tais
práticas no âmbito da subcultura. Aponta o citado autor para possibilidades
plurais de configuração desse conceito, ultrapassando-se as cenas locais e
configurando cenas trans-locais e virtuais. Disponível em 
<a
href="https://www.sfu.ca/cmns/courses/2011/488/1-Readings/Bennett%20Consolidating%20Music%20Schenes.pdf" target="_blank">https://www.sfu.ca/cmns/courses/2011/488/1-Readings/Bennett%20Consolidating%20Music%20Schenes.pdf</a>
[consultado em 20-07-2014]. O referencial cena é também apreendido por Fernanda Eugênio
no texto “Corpos voláteis: estética, amor e amizade no universo gay”, fazendo
emergir a ideia de que ela “[…] é fluida o bastante para ‘aportar’
randomicamente nos mais diversos espaços” (2006, p. 159).</p>

    <p><sup><a name="26"></a><a href="#top26">26</a></sup> Disponível em
<a
href="http://jardimdasdelicias.blogs.sapo.pt/197954.html" target="_blank">
http://jardimdasdelicias.blogs.sapo.pt/197954.html</a>, [consultado em 07-08-2014].</p>

    <p><sup><a name="27"></a><a href="#top27">27</a></sup> Disponível em
<a
href="http://antropologizzzando.blogspot.com.br/2013/06/entre-paredes-materiais-e-digitais.html" target="_blank">
http://antropologizzzando.blogspot.com.br/2013/06/entre-paredes-materiais-e-digitais.html</a>,
[consultado em 10-08-2014].</p>

    <p><sup><a name="28"></a><a href="#top28">28</a></sup> No ano de 2013, o presidente
da autarquia do Porto, Rui Rio, empreendeu aquilo que denominou de Brigada Antigrafito.
Criou um grupo de voluntários para colaborar com o processo de “apagamento” dos
<i>graffiti</i> e estabeleceu pesadas multas para quem infringisse a lei.
Inclusive criou uma política de delação e de sanção para quem tivesse um muro
grafitado e não denunciasse o autor. A foto tomada pelo próprio <i>writer</i>
acendeu a polémica nas redes sociais. Disponível em
<a
href="http://www.porto24.pt/cidade/camara-do-porto-apaga-pinturas-na-rua-de-forma-indiscriminada/#.Ua5JuCs4oSh" target="_blank">
http://www.porto24.pt/cidade/camara-do-porto-apaga-pinturas-na-rua-de-forma-indiscriminada/#.Ua5JuCs4oSh</a>. Tudo isso está narrado de forma mais detalhada
na publicação do <i>blog </i>Antropologizzzando do dia
22 de agosto de 2013: “Florescer da arte: o legal pode ser ilegal?”. Disponível
em <a
href="http://antropologizzzando.blogspot.com.br/2013/08/o-florescer-da-arte-o-ilegal-pode-ser.html" target="_blank">
http://antropologizzzando.blogspot.com.br/2013/08/o-florescer-da-arte-o-ilegal-pode-ser.html</a>,
[consultado em 10-08-2014].</p>

    <p><sup><a name="29"></a><a href="#top29">29</a></sup> Pintar por cima, atropelar a
obra de outro <i>writer</i>.</p>

    <p><sup><a name="30"></a><a href="#top30">30</a></sup> Produzir um<i>graffiti</i>,
ou uma <i>tag</i>por cima da obra de outro<i>writer</i>.</p>

    <p><sup><a name="31"></a><a href="#top31">31</a></sup> Para Ricardo Campos, o que
sinaliza a diferença na prática do <i>graffiti</i> é o componente da
transgressão. “Agir no território do proibido é, invariavelmente, algo que
distingue o <i>graffiti</i> de outras formas de comunicação no espaço público”
(2010, p. 81).</p>

    <p><sup><a name="32"></a><a href="#top32">32</a></sup> Tricia Rose (1997, p. 208)
assinala a correlação entre a emergência do <i>hip-hop</i> e do <i>graffiti</i>
como projetos de resistência e afirmação social: “[…] eles criam, sustentam,
acumulam, estratificam, embelezam e transformam as narrativas. Mas também estão
preparados para a ruptura e até encontram prazer nela, pois de fato planejam
uma ruptura social”.</p>

    <p><sup><a name="33"></a><a href="#top33">33</a></sup> Utilizo aqui categorias
utilizadas por Elias e Scotson (2000) na obra <i>Estabelecidos</i><i>
e Outsiders</i>.</p>

    <p><sup><a name="34"></a><a href="#top34">34</a></sup> Entrevista realizada com
Hazul Luzah, na cidade do Porto, a 1 de novembro de
2013.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a name="35"></a><a href="#top35">35</a></sup> A abertura ocorreu no
dia 20 de julho.</p>

    <p><sup><a name="36"></a><a href="#top36">36</a></sup>Disponível em
<a
href="http://antropologizzzando.blogspot.com.br/2013/08/o-florescer-da-arte-o-ilegal-pode-ser.html" target="_blank">
http://antropologizzzando.blogspot.com.br/2013/08/o-florescer-da-arte-o-ilegal-pode-ser.html</a>,
[consultado em 09-08-2014].</p>

    <p><sup><a name="37"></a><a href="#top37">37</a></sup> Vale ressaltar que ele,
quando mais jovem, já fez <i>bombing</i>, que significa deixar <i>tags</i>
estampadas nos comboios e metropolitano do Porto.</p>

    <p><sup><a name="38"></a><a href="#top38">38</a></sup> Disponível em <a
href="https://www.facebook.com/eusouhazul?fref=ts" target="_blank">https://www.facebook.com/eusouhazul?fref=ts</a>, [consultado em 04-08-2014].</p>

    <p><sup><a name="39"></a><a href="#top39">39</a></sup> Hazul Luzah, numa publicação
de 26 de abril de 2014, no seu perfil pessoal da rede social Facebook.</p>

    <p><sup><a name="40"></a><a href="#top40">40</a></sup> Slap, assim como outros <i>writers</i>,
destacam-se em Lisboa como os “primeiros” a intervirem no Muro das Amoreiras
(considerado um <i>Hall of Fame</i>, qual seja <i>graffiti</i> efetuado na
maior parte das vezes em paredes legais, de grandes dimensões e com maior
variação pictórica). É responsável, juntamente com Nomen e Kurtz, pela produção
de um mural que marcou a vinda da chanceler alemã
Ângela Merkel a Lisboa. Ela manipula as marionetes dos ministros portugueses
Paulo Portas e Pedro Passos Coelho. Essa imagem foi reproduzida nos principais
jornais impressos de Portugal. Disponível em <a
href="http://www.opj.ics.ul.pt/index.php/maio-2013" target="_blank">
http://www.opj.ics.ul.pt/index.php/maio-2013</a>,
[consultado em 10-8-2014].</p>

    <p><sup><a name="41"></a><a href="#top41">41</a></sup> Entrevista realizada com
Slap em Lisboa, no final de novembro de 2013.</p>

    <p><sup><a name="42"></a><a href="#top42">42</a></sup> Slap é um dos dirigentes da
Associação Portuguesa de Arte Urbana (Apaurb), responsável pela ação no túnel.
Disponível em <a
href="https://www.facebook.com/pages/APAURB/118261905010840" target="_blank">https://www.facebook.com/pages/APAURB/118261905010840</a>, [consultado em 10-08-2014].</p>

    <p><sup><a name="43"></a><a href="#top43">43</a></sup> Foto publicada na página da
Apaurb no Facebook no dia 19 de dezembro de 2013. Disponível em <a
href="https://www.facebook.com/118261905010840/photos/a.120724714764559.1073741828.118261905010840/129320547238309/?type=1&theater" target="_blank">
https://www.facebook.com/118261905010840/photos/a.120724714764559.1073741828.118261905010840/129320547238309/?type=1&theater</a>, [consultado em 10-08-2014].</p>

    <p><sup><a name="44"></a><a href="#top44">44</a></sup> Alusão ao livro de Ricardo
Campos, já citado: <i>Por que Pintamos a Cidade?.</i></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a name="45"></a><a href="#top45">45</a></sup> Refiro-me, novamente, à obra
de Michel Serres (2001), <i>Os Cinco Sentidos: Filosofia dos Corpos Misturados</i>.</p>

    <p><sup><a name="46"></a><a href="#top46">46</a></sup> Entrevista realizada com a
artista Tamara Alves, em novembro de 2013, na cidade de ­Lisboa.</p>

    <p><sup><a name="47"></a><a href="#top47">47</a></sup> Didi-Huberman, na obra <i>O
que Vemos, o que nos Olha</i>, lembra que “[…] sem dúvida, a experiência
familiar do que vemos parece na maioria das vezes dar
ensejo a um ter: ao ver alguma coisa, temos a impressão de ganhar alguma coisa”
(1998, p. 34). Isso significa que em quase nenhuma circunstância o olhar é uma
ação passiva.</p>

    <p><sup><a name="48"></a><a href="#top48">48</a></sup> Acerca dessa condição de <i>passividade</i>
do <i>espetador</i>, volto a insistir na ideia de que, muito embora Agamben e
também Rancière sinalizem a importância das obras <i>ativas</i>, e algumas
vezes façam alusão às tecnologias expositivas de natureza mais tradicional, no
que tange aos recetores, a ação de ver não é uma simples mobilização da
“máquina de perceber” – como enfatiza Didi-Huberman “dar a ver é sempre
inquietar o ver, em seu ato, em seu sujeito” (1998, p. 77).</p>

    <p><sup><a name="49"></a><a href="#top49">49</a></sup> O <i>writer</i> Tinta Crua
enfatiza: “Se não fosse a internet, não se tinha conhecimento
das minhas coisas, elas não têm vida muito longa na rua” (informação verbal).</p>

    <p><sup><a name="50"></a><a href="#top50">50</a></sup> São categorias usadas por
Gilles Deleuze e Félix Guattari (1995): enquanto o espaço estriado organiza,
segmenta e classifica, o espaço liso condensa uma potência de
desterritorialização, da velocidade, do fluxo de forças.</p>

    <p><sup><a name="51"></a><a href="#top51">51</a></sup> Ver texto de Glória Diógenes
na revista <i>Cadernos de Campo</i>, n.º 22, 2013, cujo título é: “Signos
urbanos juvenis: rotas de piXação no ciberespaço”. “O
jogo cria o inabitual dentro da cadência turva do cotidiano. Por tal razão, no ciberespaço,
bem mais que no fluxo da multidão, os piXadores marcam
reuniões ampliadas, ‘expõem’ seus arquivos de memória e exaltam o valor das
assinaturas nas ‘folhinhas das agendas’” (p. 55).</p>

    <p><sup><a name="52"></a><a href="#top52">52</a></sup> “[…]
while interaction in physical local scenes is at that face-to-face level, thus
allowing for the exchange of both verbal communication, interaction in virtual
scenes is based entirely around the exchange of written words, and occasionally
images to support particular points made” (Bennett, 2004, p. 232).</p>

    <p><sup><a name="53"></a><a href="#top53">53</a></sup> Entrevista realizada com o
artista Miguel Januário, na cidade de Lisboa, em 2013.</p>

    <p><sup><a name="54"></a><a href="#top54">54</a></sup> Entrevista realizada com
Slap em Lisboa, no final de novembro de 2013.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a name="55"></a><a href="#top55">55</a></sup> Vítor Sérgio Ferreira, ao
discutir a “arte de tatuar”, sinaliza que “[…] as mudanças recentes dentro do
mundo da <i>body art</i> têm levado seus praticantes a tentar incorporar também
estratégias de natureza mais formal” (2013, p. 73).</p>



     ]]></body><back>
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