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</front><body><![CDATA[ 

    <p align="right"><b>RECENSÃO</b></p>



    <p><b>SILVA, Luís</b></p>

    <p><i><b>Património, Ruralidade e Turismo. Etnografias
de Portugal Continental e dos Açores</b></i>,</p>

    <p>Lisboa, Imprensa de Ciências Sociais,
2014, 211 pp.</p>

    <p>ISBN 9789726713449</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>Xerardo Pereiro</b>*</p>

    <p>*Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Escola de Ciências Humanas e
Sociais, Departamento de Economia, Sociologia e Gestão, Edifício do Pólo II da ECHS, Quinta
de Prados, 5000-801-Vila Real, Portugal. E-mail: <a href="mailto:xperez@utad.pt">xperez@utad.pt</a></p>


    <p>&nbsp;</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Este é um livro do
antropólogo Luís Silva (CRIA), com um prefácio de João Leal sobre as novas
funções do campo em Portugal, a sua multifuncionalidade, as novas produções e
consumos, e também as suas representações. João Leal afirma neste prefácio a
continuidade e renovação do olhar ruralista da antropologia portuguesa, com
destaque para o autor deste magnífico livro. Um livro de 168 páginas muito
acessível na linguagem, não exclusivamente orientado para académicos. Ele teve
como base um longo, multisituado e longitudinal trabalho de campo do autor em
Portugal Continental e nos Açores. Ao contrário de um ­anterior livro em língua
portuguesa (Silva, 2009), que se centrou no turismo rural, este foca a
problemática relação entre patrimónios cultur-naturais e turismo.</p>

    <p>Além de uma introdução geral, o livro
estrutura-se em três partes, que integram cinco capítulos, unidades que dão
corpo a cinco casos de estudo bem etnografados pelo autor, e com um fio
condutor bem definido. A maioria dos textos já tivera publicação anterior em
revistas científicas internacionais de grande prestígio, portanto já eram
conhecidos e reconhecidos pelos académicos. Agora, com esta publicação, o autor
torna acessível em língua portuguesa e para um público mais alargado, trabalhos
publicados anteriormente em inglês. Este exercício de partilha e transferência
de conhecimento com os estudados e outro público mais vasto é muito relevante
para os leitores, que dispõe assim de um livro muito agradável na sua
apresentação e estrutura, esclarecedor, analítico e profundamente reflexivo.</p>

    <p>Logo na introdução geral, o autor
apresenta a dupla realidade do rural, a material (geográfica)
e a imaterial (imaginada), e as suas premissas em relação à permanência do
rural português, recusando a utilidade do conceito de “pós-ruralidade” para
este caso, assumindo antes o de “nova ruralidade” para definir as
transformações na conceção e no papel do rural nas últimas décadas. Luís Silva
chega a afirmar aqui algo com o qual não posso estar mais de acordo: “(…) hoje
talvez mais do que no passado e de diferentes formas, a ruralidade é uma
constante da sociedade portuguesa”. E a ruralidade portuguesa é idealizada pela
imagem turística assente em três elementos-chave para o autor: a paisagem, as
relações sociais e a autenticidade.</p>

    <p>A primeira parte aborda os significados do
património cultural, os seus usos turísticos e os seus efeitos em contextos
rurais. Estamos a assistir a uma mudança, relativamente recente na sua
intensidade e extensão, que é a conversão do património cultural de emblema
nacional e também regional, diria eu, a símbolo de promoção turística. Isto é,
o património cultural já não é só para nós, é cada vez mais para os outros,
sendo este convertido em mercadoria, ou melhor, a experiência turística deste.</p>

    <p>O primeiro caso de estudo é apresentado
pelo autor no capítulo 1, e refe­re-se ao seu trabalho de campo em Castelo
Rodrigo (município de Figueira de ­Castelo Rodrigo, distrito da Guarda). Nesta
aldeia histórica as casas habitadas foram-se convertendo em património cultural
através de processos de institucionalização de uma imagem idílica do rural.
Esta segunda vida do património vai afogar a primeira vida e gerar confrontos
entre visões e agentes sociais participantes no processo de patrimonialização.
Ela é fundamentalmente protagonizada por práticas governamentais que usam
tecnologias de poder para alhear os residentes e os seus pontos de vista sobre
as suas habitações sociais. Neste capítulo, o autor desenvolve uma crítica às
teorias e práticas da governamentalidade, por não contemplarem a resistência e
a contestação, mas também por não escutarem e integrarem o ponto de vista dos
­residentes do património cultural nas políticas de patrimonialização lideradas
por políticos e arquitetos.</p>

    <p>Neste primeiro capítulo também se mostra o
efeito reduzido do turismo na regeneração rural em Portugal e também na Europa,
algo que na nossa perspetiva é de geometria variável, tendo em atenção as
diferentes relações entre turismo, agricultura e meios rurais. Este primeiro
capítulo conclui com um tom reflexivo sobre a procura de conciliação entre a
proteção do património cultural e a necessidade de as pessoas habitarem o
património cultural, isto é, é preciso articular a componente estética com a
componente social, algo que vem sendo repetido por numerosos investigadores.
Este capítulo, baseado numa etnografia muito elucidativa e pedagógica, aponta
para a necessidade de uma nova governança do património cultural em ­Portugal.</p>

    <p>O segundo capítulo apresenta os efeitos da
construção patrimonial na perceção dos residentes de Sortelha (aldeia histórica
do município de Sabugal, distrito da Guarda), que potencialmente são de divisão
ou de coesão social. Do ponto de vista económico, os efeitos positivos da
patrimonialização ficaram aquém das expetativas ou previsões. Segundo o autor, a consciência da singularidade do património cultural leva consigo
maior coesão social entre os residentes e torna-se uma fonte de orgulho pessoal
e coletivo. Mas o sentido do lugar e da localidade podem
ver-se ameaçados se o turismo afetar a perda de privacidade das
comunidades recetoras, gerando assim concorrência e tensão intracomunitária,
inveja e competição por recursos e prestígio social.</p>

    <p>A segunda parte do livro envolve dois
capítulos sobre ecoturismo e governamentalidade nos Açores, centrando-se mais
nos patrimónios naturais. O terceiro capítulo aproxima-se da observação de
cetáceos e os seus efeitos socioculturais e económicos numa perspetiva
qualitativa. Um foco de análise, particularmente relevante, e já presente nos
capítulos anteriores, diz respeito à tensão entre conservação e desenvolvimento
turístico, o que dificulta a governança de um turismo de base comunitária e a
distribuição dos benefícios gerados pelo turismo.</p>

    <p>No capítulo quarto, o autor faz uma
apresentação exemplar da governamen­ta­lidade e das suas perspetivas teóricas
(governamentalidade transnacional, contra­governamentalidade, governamentalidade
a partir de baixo, ecogovernamentalidade,…) aplicadas ao desenvolvimento do
turismo. O contributo do autor é muito importante neste capítulo porque,
segundo uma perspetiva inspirada em Foucault, apresenta-nos uma etnografia dos
processos de patrimonialização da paisagem na comunidade de Sete Cidades
(Açores).</p>

    <p>A paisagem é vista pelo autor como uma
arena política contestada, um espaço disputado, na qual interesses diferentes,
que ele muito bem analisa, podem divergir no momento de utilizar os recursos
naturais. Na sua função antropológica de dar voz às pessoas, Luís Silva conclui
que os programas de conservação ambiental funcionam melhor quando o ponto de
vista local é tomado em consideração, e quando as comunidades locais participam
ativamente no processo. O autor também conclui que existem
modos diferentes de os contextos rurais experimentarem a globalização.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A terceira parte do livro foca-se na
persistência da ideologia pastoralista em Portugal. O pastoralismo é uma
ideologia que idealiza os espaços rurais e preconiza a fuga da cidade para os
campos, considerados mais simples, próximos da natureza, e repositórios de
virtudes perdidas nas cidades. O ideal pastoral é de dois tipos: a)
imaginativo-complexo; b) popular e sentimental. O primeiro é bem expresso na
literatura de ficção e Luís Silva analisa, de forma sumária e brilhante, a
literatura portuguesa do século XIX, o seu uso da dicotomia rural/urbano e a
idealização do campo como cenário paradisíaco. Segundo o autor, o turismo rural
atual é também uma versão da ideologia pastoral, catalisadora e força motriz da
viagem ao campo na procura de revigoramento, relações sociais mais estreitas e
amistosas, tranquilidade, calma e “cura” (diria eu). Paradoxalmente, como nos
mostra o autor, a maioria dos turistas rurais não querem ou gostam de viver no
campo por motivos profissionais, falta de serviços, equipamentos, oportunidades
de emprego e o que consideram “tédio”.</p>

    <p>De acordo com
Luís Silva, o ideal pastoral passou em Portugal da literatura de ficção para as
práticas turísticas. Ainda assim, o autor afirma que em Portugal, ao contrário
de outros países, os portugueses frequentam pouco o turismo rural, porque
segundo ele sentem mais atração pelas praias e porque os citadinos ainda
continuam a ter laços familiares fortes com o rural. Em síntese, recomendamos
vivamente o livro <i>Património, Ruralidade e Turismo</i>, que representa um
contributo antropológico muito importante para melhor entender as complexas e
dinâmicas relações entre patrimónios e turismo.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</b></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <!-- ref --><p>SILVA, L. (2009), <i>Casas no Campo. Etnografia do
Turismo Rural em Portugal</i>, ­Lisboa, Imprensa de Ciências Sociais.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=074771&pid=S0003-2573201500040001100001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>


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