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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Onde Pereira vê hierarquias, eu proponho relações: A propósito da recensão de Victor Pereira sobre a minha obra Geração Europa? Um Estudo Sobre a Jovem Emigração Qualificada para França]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[  

    <p align="right"><b>DEBATE</b></p>

    <p><b>Onde Pereira vê hierarquias, eu proponho relações</b></p>

    <p><b>A propósito da recensão de Victor Pereira
sobre a minha obra <i>Geração Europa? Um Estudo Sobre a Jovem Emigração
Qualificada para França</b></i></p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>João Teixeira Lopes</b>*</p>

    <p>*Universidade do Porto, Faculdade de Letras, Departamento de Sociologia e
Instituto de Sociologia, Via Panorâmica, s/n — 4150-564 Porto,
Portugal. E-mail: <a href="mailto:jmteixeiralopes@gmail.com">jmteixeiralopes@gmail.com</a></p>


    <p>&nbsp;</p>

    <p>Uma
recensão muito crítica de uma obra nossa é uma ocasião rara que não deve ser
desperdiçada para entabularmos um diálogo crítico com um investigador e um
público leitor mais ou menos especializado. Por isso, não hesitei em solicitar
à direção da <i>Análise Social</i> a possibilidade de responder à recensão de
Victor<i> </i>Pereira (2015) sobre o meu livro <i>Geração Europa? Um Estudo
sobre a Jovem Emigração Qualificada para França.</i></span></p>

    <p>Curiosamente, o autor da recensão
é historiador, o que não parece ter-lhe aguçado a prudência ao entrar na
discussão sobre conceitos utilizados dentro de quadros de referência
explicitamente sociológicos, como o de geração ou transições para a vida
adulta. A isso, aliás, voltarei mais adiante. Note-se que não defendo qualquer
espírito de coutada epistemológica, teórica ou metodológica. Apenas a
necessidade de uma prudência acrescida quanto entramos em subcampos científicos
com uma história e institucionalização próprias</span>, um
percurso de autonomia e uma acumulação de protocolos de cientificidade
adaptados aos seus contextos de enunciação, o que se traduz, necessariamente,
por códigos conceptuais adequados (e por vezes, confesso, algo
herméticos, embora tal derive amiúde da necessidade de rompermos com as
linguagens espontâneas). Vamos então aos inúmeros pontos de dissenso.</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>

    <p>1.Afirma
Pereira que não é lógica a minha afirmação de que os emigrantes qualificados
para França sofrem de um acumular de invisibilidades (uma das razões utilizadas
para justificar o meu interesse pela questão), já que os não
qualificados “são bem mais invisíveis no espaço público”. Não desejo entrar
aqui numa guerrilha de hierarquias de visibilidade… Mas é objetivo que rareiam
ainda os estudos científicos (que não os debates, artigos e programas
televisivos, esses muito abundantes) sobre os primeiros (qualificados), ao
invés da muita e boa literatura científica produzida sobre os segundos. E que o
estudo destes fluxos cuja intensidade recentemente aumentou (apesar de sempre
ter existido, como Rui Pena Pires não se cansa de afirmar)não é particularmente acarinhado pelos poderes instituídos (como de resto ficou
patente na rescisão do contrato do Governo de coligação com o Observatório da
Emigração), na medida que pode ser interpretado como
uma espécie de dedo apontado aos discursos de “país vencedor” e às orientações
hegemónicas das políticas públicas. Para mim, que fique claro, é tão importante
estudar uns, como outros. Não tenho fascínios científicos de estimação, nem
dívidas de classe a pagar ou exotismos a explorar.Nãohátemas mais
oumenos nobres para as pesquisas sociológicas,
como há tantasdécadas nos ensinaram os interacionistas
simbólicos da Escola de Chicago. Mas refuto, por exemplo, a ideia de que os não qualificados contactem menos com as autoridades
portuguesas. Todas as evidências recolhidas no trabalho de campo apontam para
uma muito maior autonomia (ligada à posse de recursos superiores) face aos
serviços da embaixada, dos consulados e dos bancos por parte por parte dos
qualificados, escapando, assim, aos registos oficiais sobre a sua passagem.</p>

    <p>Eu próprio refiro na introdução do
meu livro: “é verdade, ainda, que os <i>mass media</i> parecem ter esquecido os
“velhos” emigrantes, num encantamento pelo que é “sexy” (jovem, escolarizado,
urbano e cosmopolita)” (Lopes, 2014, p. 1). Mas, insisto: existe por parte das
ciências sociais, e em particular da sociologia, uma tendência para privilegiar
o estudo dos grupos e classes sociais mais polarizados, esquecendo, com
frequência, as camadas médias ou em trânsito de classe. De certa forma, esta
pesquisa é um modesto contributo para colmatar essa lacuna persistente.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>2.Afirma
ainda Pereira que os resultados eram previsíveis, nomeadamente quando chego à
conclusão de que “a emigração surge como uma oportunidade para obter um melhor
salário, fugir à precaridade e ver as suas qualificações profissionais reconhecidas”
(Pereira, 2015, p. 669). Mas essa, meu caro Victor Pereira, é uma das sinas da
sociologia: às vezes tem mesmo de mostrar que o que parece é, para que não se
diga que é outra coisa, como um dom, um espírito, uma vocação, uma natureza,
uma essência, uma predestinação, um destino ou uma fatalidade. Mostrar pela
prova o que antes era apenas impressão, ainda que pareça evidente a uns
quantos, é um poderoso utensílio contra as mitologias dos poderes dominantes.
Tenho pena que fazer ciência não seja às vezes muito excitante. Mas Pereira
opta, curiosamente, por não realçar nenhum dos aspetos menos expectáveis do
estudo. Por exemplo, que, ao contrário dos anteriores fluxos de emigrantes não
qualificados, não existe, na antecipação de futuros prováveis, a expetativa do
regresso, Alfa e Ômega do tradicional imaginário da emigração portuguesa. Ou a
feminização da amostra. Ou o impacto da crise. Ou os processos sociais de
“naturalização” da mobilidade. Ou, ainda, que, para além da busca de
satisfações extrínsecas (salário, carreira), se prova a importância da
mobilização de valores intrínsecos (autonomia e satisfação no trabalho).
Compreendo bem que o seu olhar disciplinar, específico e situado, como o meu,
que sou sociólogo e não historiador,nãomobilize as grelhas deleitura que captam essas dimensões. É talvez uma questão de perspetiva.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>3.Pereira
dá mais um passo ao afirmar que o estudo é “principalmente descritivo e oferece
poucas análises sociológicas”. É fácil e um pouco atrevido que o diga, à luz do
que anteriormente mencionei (ele que é historiador e não sociólogo). Refere,
ainda, que não aprofundo as questões de etnia e de género subjacentes às
migrações femininas especializadas na saúde e nos cuidados: as enfermeiras
portuguesas, à semelhança das filipinas, seriam mais desejadas por serem brancas, católicas e ­culturalmente próximas. Talvez seja
uma boa pista para uma investigação que Victor Pereira queira realizar. Pela
parte que me toca não o podia mesmo fazer, não somente por o estudo ser
exploratório, com duração de um ano e 5 mil euros de
apoio financeiro, mas sobretudo porque toda a lógica da pesquisa se centra nos
percursos biográficos emigratórios e não nas representações dos utentes de
saúde ou das empresas que contratam estes profissionais. Convém não esquecer
que, mesmo que essa pista me pareça heurística, a ideia transmitida pelas
enfermeiras de que são benquistas na sociedade francesa prende-se também com a
estrutura da sua formação académica, em que certas questões antropológicas e
sociológicas (relacionais) são abordadas. Mas tal não cabia no declarado âmbito
deste estudo, que é a resposta a uma encomenda com um caderno de encargos
preciso. Se quisesse, por exemplo, estudar os campos profissionais de
enfermeiros ou engenheiros, deveria fazer uma pesquisa autónoma. Além do mais,
pensar que é fácil chegar a estes indivíduos por intermédio das empresas de
contratação temporária revela uma ingenuidade própria de quem faz uma economia
das dificuldades de pesquisa de terreno em contextos de informalidade, nos
interstícios da legalidade e do segredo.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>4.Pereira
afirma uma vez sem verdade. Cito (e mais do que citar, li e trabalhei) algumas
pesquisas de Maria Ionannis Baganha. O gráfico da página 9 não refere (e poderia fazê-lo, porque
essa questão é sobejamente conhecida para quem trabalha os Censos do INE) a
subavaliação das saídas entre 1969 e 1974. Mas, ainda assim, vale pela
evidência da inversão da tendência de abrandamento que se verifica na viragem
do século XX para o XXI. A ausência de referência a estudos já clássicos sobre
a situação social francesa face à imigração (que, de facto, poderia ter sido
trabalhada) deve-se em parte à míngua de desenvolvimentos sobre a emigração
qualificada.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>5. Critica ainda Pereira o “nacionalismo metodológico”
que perpassa pela minha pesquisa. Mas devo lembrar-lhe que trabalhei (e isso
está bem presente nos “retratos sociológicos”) a perceção face aos franceses (e
vice-versa) ou a relação com as autoridades gaulesas. Todavia, este é, acima de
tudo, insisto, um estudo sobre <i>socialização</i> e <i>percursos biográficos</i>,
de forma a entender como se criam <i>disposições migratórias</i> e como se
aciona, num dado momento e no cruzamento de vários contextos, a decisão de sair
do país. A questão da integração política joga ainda muito pouco nos discursos
e representações destes portugueses porque acabaram de chegar, empurrados pela
crise. Pereira gostaria que eu fizesse um estudo guiado pelos quadros de
referência da história contemporânea. Não é o caso, por formação e opção.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p>6.Pereira
não domina o conceito sociológico de geração, nem a sua constante tensão (desde
Adérito Sedas Nunes e o uso da “geração social” para estudar a população
universitária, até Machado Pais com a unidade e a diversidade das “culturas
juvenis” ou o meu próprio trabalho de 1996 sobre as divisões simultaneamente
estruturais e quotidianas na juventude estudantil liceal) entre tipicidade e
fragmentação por classe, género, etnia… Pressupor abusivamente a homogeneidade
ou a heterogeneidade é um golpe de força teórico. Estudar empiricamente essa
tensão é ofício da sociologia. Aliás, nunca reifico qualquer homogeneidade em
detrimento de linhas de fratura. O próprio título do livro <i>Geração Europa</i>?
consagra o primado da interrogação. Da mesma maneira,
ao propor uma “comunidade de comunidades” para dar conta dos diferentes <i>modos
de relação</i> dos emigrantes com o país de origem, estou a insistir nesse
conflito e diversidade. E refiro, expressamente, que me situo no plano das <i>comunidades
imaginadas</i> (bem distintas, como decerto saberá Pereira, das comunidades
reais constituídas pelas interações em situação de co-presença),
na senda de Benedict Anderson. Que se ultrapasse a visão meramente objetiva ou
institucional dos conceitos é um desiderato que pode ser trabalhado pelas
ciências sociais e mesmo pelas políticas públicas anti--reducionistas.</p>

    <p>Eu não digo, por isso, que a atual
vaga de emigração qualificada é mais europeia do que as anteriores (de novo a
obsessão de Pereira pelo pensamento hierarquizado e sua permanente “dívida” para
com os emigrantes não qualificados…). Eu demonstro,
isso sim, que as representações do espaço europeu e as perceções de mobilidade
constituem-na de uma forma distinta, alargando o seu campo de possíveis.</p>

    <p>Da mesma forma, Pereira não
conhece e/ou não entende o conceito de transições para a vida adulta
(multifacetadas: no trabalho, na família, na sexualidade) e de como essas
transições se têm arrastado por períodos de moratória que configuram uma
instalação em espaços-tempo precários (o estágio, a bolsa, a intermitência
intensa entre emprego, subemprego, desemprego, etc.). Esse habitar no
provisório forma uma cultura de precariedade bem diferente (insisto: distinta,
não necessariamente pior!) da situação e perceção prévias à implementação
do Estado-Providência, onde as transições, ainda que duríssimas, eram bem mais
curtas e lineares (não havia esse “luxo” chamado juventude…). Refiro-me,
evidentemente, à lógica insinuante do capitalismo pós-fordista de acumulação
flexível, que escolariza, segmenta, balcaniza e precariza a força de trabalho
para aumentar a mais-valia e a dominação. </p>



    <p>&nbsp;</p>

    <p> Em suma, em termos epistemológicos prefiro sempre
a procura da relação à submissão a um centro soberano, a busca das tensões a
pares dicotómicos ou as interseções (entre biografia e contexto ou entre tempos
assincrónicos) a uma insistência em hierarquias científicas ou reducionismos
mais ou menos lineares. Onde Pereira vê falta de questionamento ou
descritivismo, eu proponho que se encontre um prudente (e exploratório) vaivém
entre teoria e empiria, sem <i>a prioris</i> de agendas pré-formatadas
por olhares disciplinares e disciplinados por uma clara economia de
auto-objetivação participante.</p>

    <p>&nbsp;</p>

    <p><b>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</b></p>

    <p >&nbsp;</p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p> LOPES, J.T. (2014), <i>Geração Europa? Um Estudo Sobre a Jovem Emigração
Qualificada para França</i>, Lisboa, Mundos Sociais.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=074881&pid=S0003-2573201500040001500001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

    <!-- ref --><p> PEREIRA</span>, V. (2015), <i>Recensão
“Geração Europa? Um Estudo sobre a Jovem Emigração Qualificada para França</i>,
de João Teixeira Lopes, Mundos Sociais, 2014”. <i>Análise Social</i>, 216, L
(3.º), pp. 668-671.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=074883&pid=S0003-2573201500040001500002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>



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