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</front><body><![CDATA[ 

     <p align="right"><b>RECENSÃO</b></p>

    <p><b>TAIBO, Carlos</b></p>

    <p><i><b>Comprender
Portugal</b></i> , </p>

    <p> Madrid, Los Libros
de la Catarata, 2015, 272 pp. </p>

    <p> ISBN 9788483199817 </p>

    <p> &nbsp; </p>

    <p><b>Xerardo Pereiro*</b></p>

    <p>*Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Escola de Ciências Humanas e Sociais, Departamento de Economia, 
Sociologia e Gestão, Edifício do Pólo II da ECHS, Quinta de Prados — 5000-801-Vila Real, 
Portugal. E-mail: <a href="mailto:xperez@utad.pt">xperez@utad.pt</a></p>
    <p>&nbsp; </p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>E ste é um livro escrito por um politólogo galego,
professor de ciência política na Universidade Autónoma de Madrid, no qual
partilha o seu conhecimento íntimo, reflexivo e comparativo da complexa
realidade social portuguesa. Neste mais do que recomendável livro, o autor mostra
o seu apreço por Portugal, motivação fundamental para a sua escrita. O livro,
que demorou quase 20 anos a ser escrito, tem como público-alvo os leitores
espanhóis que, como bem afirma no prólogo, desconheçam
Portugal em detalhe. Portanto, colmatar esta lacuna, alargando horizontes, é a
missão deste trabalho erudito que traduz interculturalmente a complexa
realidade histórica, social, cultural, geopolítica e económica portuguesa.<sup><a href="#1">1</a></sup><a name="top1"></a></p>

    <p> O livro, redigido em castelhano, tem por
base não só a experiência vivencial subjetiva e próxima do seu autor, mas
igualmente uma profunda e bem fundamentada revisão da literatura científica e
literária escrita sobre Portugal. A publicação está estruturada em 5 capítulos, que abordam a geografia, a história, a
literatura, a língua galego-portuguesa, as relações com o Brasil, a cozinha
portuguesa, o fado, o futebol e o estilo artístico “Manuelino” enquanto eixos
diacríticos das identidades portuguesas. Sem fugir dos tópicos e lugares
comuns, o autor tenta explicar como foram construídos, por quem e qual o seu
sentido na ação social. Reconhece-se o esforço do autor na produção de um guia
erudito para “turistas culturais” espanhóis, relacionando sempre Portugal com o
seu vizinho ibérico peninsular, e particularmente com a Galiza. </p>

    <p> No primeiro capítulo faz-se uma
apresentação territorial e identitária de Portugal (uma sexta parte do
território do Estado espanhol), o seu enquadramento entre o Atlântico e o
Mediterrâneo, e a construção social da sua diferença com Espanha e da sua
semelhança com a Galiza. O segundo capítulo aborda sumariamente a história de
Portugal nos seus confrontos com o país vizinho, e nas alianças partilhadas face a outros inimigos comuns (ex. Contra-Reforma). Conclui
questionando as causas do <i>ethos</i> imobilista português, algo mais do que
discutível, e as suas semelhanças com o galego. </p>

    <p> O terceiro capítulo foca a literatura
portuguesa como objeto plural (­literaturas portuguesas) e como campo de tensão
entre Lisboa e o resto do país. A sua passagem transversal por este tema, que
relaciona com a música e o fado enquanto expressões culturais nacionais,
questiona a interpretação que alguns portugueses fazem da literatura portuguesa
como exercício de provincianismo (satélite intelectual de Madrid, Paris ou
Londres), para a olhar sob outra perspetiva. Segundo
Carlos Taibo, a literatura portuguesa tem mostrado uma grande capacidade para
adquirir e assimilar influências estrangeiras, mas também para criar
cosmopolitismo. O autor procede a uma revisão cronológica da literatura
portuguesa desde os cancioneiros galaico-portugueses do século XIII até à
literatura contemporânea de ­Fernando Pessoa, Agustina Bessa-Luís, José
Saramago, entre outros. Ao longo da sua análise desconstrói tópicos como o <i>cliché</i>
do fraco teatro ou o da alma portuguesa mesurada e cortês. </p>

    <p> O capítulo quarto é o menos pacífico de
todos, abordando um tema sempre controverso, o da língua de Portugal e da
Galiza. Com uma abordagem muito rigorosa e esclarecedora para não
especialistas, o capítulo começa por falar do esquecimento secular da Galiza em
Portugal, de um conhecimento superficial em Portugal que reduz a Galiza (a
Alsácia portuguesa, segundo Jaime Cortesão) a uma região espanhola. Apesar
disso, o autor também reconhece que há hoje maior interconhecimento por causa
do turismo e do comércio. Analisa os estereótipos cruzados entre Portugal e a
Galiza, para mais tarde dar especial relevo à questão linguística propriamente
dita. Neste ponto realça as raízes comuns das duas línguas, o galego-português,
originário do território da antiga ­Gallaecia, para
logo focar os dois pensamentos dominantes no panorama atual: a) os que pensam
que são línguas diferentes (diferencialistas e isolacionistas); b) os que
pensam que são a mesma língua, ainda que não sejam exatamente iguais (os
reintegracionistas). </p>

    <p> Carlos Taibo dialoga, na sua análise, com
muitos linguistas, indo além do disfarce ortográfico que exagera as diferenças
entre galego e português e da surpresa que a fonética do galego causa em
Portugal. Segundo o autor, o português padrão recebeu influência árabe, judaica
e mozárabe; pelo seu lado, o galego castelhanizou-se mas
não desapareceu ainda, resistiu e representa um <i>continuum</i> com o
português de Portugal e de todas as regiões lusófonas. Todavia, a reprodução do
galego foi feita em contacto colonial e substitutivo com o espanhol, pesando
mais nas atuais normas oficiais galegas a referência ortográfica e normativa do
espanhol do que a da língua “irmã”, o português. Isto obedeceu a interesses
geopolíticos e não a argumentos filológicos de peso, como esclarece Carlos
Taibo. O desfecho deste processo é o da progressiva substituição do galego pelo
espanhol como língua de prestígio numa situação social de diglossia. De uma
política eutanásica passou-se a outra homicida (Taibo, 2015, p. 176), o que
acabou com sinais de identidade que ligavam a Galiza e Portugal. </p>

    <p> Face a essa situação, o autor analisa neste capítulo a proposta do
reintegracionismo linguístico galego-português, e também as suas críticas, uma
problemática que já tinha sido alvo de outra importante publicação do autor (De
­Nieves e Taibo, 2013). Esta secção do livro tenta elucidar os leitores
espanhóis sobre a ligação da Galiza com a lusofonia (ou lusogalegofonia) e
apresenta propostas filológicas para a intensificação desse vínculo entre os
codialetos galego-portugueses, que envolvem uma comunidade de mais de 200
milhões de falantes. Como reconhece o autor, neste debate há quatro níveis que
se entrecruzam: o da ortografia, o da língua, o da cultura e o da política. </p>

    <p> No quinto capítulo, e último, o autor
observa a mudança de valores sociais em Portugal condensada
na trilogia dos três “F”: a trilogia do “fado, Fátima e futebol”, e a
mais recente do “futebol, FMI e <i>facebook</i>”. Aqui o autor analisa a
relação entre Portugal e Brasil, a cozinha portuguesa, o fado e outras músicas,
o futebol português e o estilo artístico “Manuelino”. A partir de uma abordagem
da geopolítica histórica, Carlos Taibo elucida-nos sobre os encontros,
desencontros e ignorâncias mútuas entre Portugal e Brasil. Hoje em dia residem no Brasil meio milhão de portugueses, os quais são
vistos com frequência como pessoas solenes, tradicionalistas, religiosas,
fechadas, pouco comunicativas. Em Portugal, a imagem estereotipada e redutora
dos brasileiros traduz-se na representação destes como pessoas ignorantes, que
falam mau ­português, e do Brasil como país corrupto,
sectário, e instável do ponto de vista económico. Estes <i>clichés</i> têm
outros complementares, mas o certo é que ­Portugal perdeu para o Brasil o papel
de guia da lusofonia. </p>

    <p> O segundo foco de atenção deste último
capítulo recai sobre a culinária portuguesa e sobre os hábitos alimentares em
Portugal. Se somos o que comemos, os portugueses comem
mais do que a média europeia fora de casa e gastam mais dinheiro em comida do
que o resto dos europeus. Isso é uma realidade palpável no quotidiano, num país
no qual há três vezes mais restaurantes (1 cada 131
habitantes) <i>per capita</i> do que no resto da União Europeia (1 restaurante
cada 374 habitantes). Num país em que se aprecia o bacalhau e se comem cerca de 56 quilos de peixe por pessoa e por ano (22 na média
da União Europeia), os portugueses falam mais de comida do que de política,
futebol e da família, segundo o autor deste livro. </p>

    <p> O terceiro foco deste capítulo incide
sobre a música em geral, e sobre o fado em particular. Taibo explicita diversas
facetas deste género musical, da sua utilização política pelo Estado Novo, e de
como após o 25 de Abril lhe foram atribuídos novos
usos e significados, com novos fadistas a reinventarem este género musical. </p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Fala ainda do futebol e do seu poder para
criar identidades coletivas, e daquele que é considerado o estilo artístico
nacional, “o manuelino”, mistura de gótico tardio com renascimento italiano e
elementos pré-barrocos. </p>

    <p> Entre os poucos pontos fracos da obra
destacamos: a falta de análise do mirandês (asturiano-leonês) como segunda
língua oficial de Portugal; a afirmação sobre o escasso interesse pela Galiza
do escritor transmontano Miguel Torga; a falta de análise sobre o papel do
Duque de Bragança e do atual movimento monárquico em Portugal; a falta de
análise do papel de Filgueira Valverde na assunção das normas diferencialistas
do galego; a falta de uma pequena aproximação à normativa do galego-português
das Astúrias Ocidental; também notamos a falta de diálogo com a importante obra
do filólogo galego Elias Torres, que analisa a política educativa “homicida” em
relação à língua galega; a abordagem do papel de cantores populares como Quim
Barreiros, de grande sucesso também na Galiza rural; e, finalmente, o facto de
não diferenciar as imagens de Eusébio, Figo, Cristiano Ronaldo e Mourinho e o
que representam como arquétipos sociais portugueses contemporâneos. </p>

    <p> De forma sumária e para concluir, podemos
afirmar que estamos face a um excelente livro, com uma
abordagem que pode contribuir para reduzir o ­etnocentrismo intercultural
ibérico e contribuir para melhorar a ­compreensão da diversidade cultural de
Portugal e da Península Ibérica. Pensado para um ­leitor espanhol, consideramos
que o seu valor e interesse vai mais além dessa intenção original,
representando também uma mais-valia para Portugal e para o conhecimento dos
portugueses relativamente aos modos como os outros olham para nós. </p>

    <p> &nbsp; </p>


    <p><b>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</b> </p>

    <p> &nbsp; </p>

    <!-- ref --><p>DE NIEVES , A. e TAIBO, C. (coord.) (2013), <i>Galego,
Português, Galego-Português? Falam 56 Figuras da Cultura Galega</i>, ­Santiago
de Compostela, Através Editora.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=077138&pid=S0003-2573201600010001000001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>

    <!-- ref --><p> TAIBO,
C. (2010), <i>Parecia não Pisar o Chão. Treze Ensaios Sobre as Vidas de
Fernando Pessoa</i>, Santiago de Compostela, Através Editora.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=077140&pid=S0003-2573201600010001000002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>


    ]]></body>
<body><![CDATA[<p> &nbsp; </p>
    <p><b>NOTAS</b></p>

    <p><sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></sup> Este trabalho é financiado
por Fundos Nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia,
no âmbito do projeto UID/SOC/04011/2013. </p>





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