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</front><body><![CDATA[ 


    <p align="right"><b>RECENSÃO</b></p>

    <p><b>PENVENNE, Jeanne Marie</b> </p>

    <p><i><b>Women, Migration & the Cashew Economy in
Southern Mozambique: 1945-1975</b></i>, </p>

    <p>James Currey, Boydell & Brewer, 2015, 303 pp. </p>

    <p> ISBN 9781847011282 </p>

    <p> &nbsp; </p>

    <p><b>Bárbara Direito</b>*</p>

    <p>*Universidade Nova de Lisboa, FCSH, IHC » Av. de Berna, 26-C — 1069-061 Lisboa, 
Portugal. E-mail: <a href="mailto:barbaradireito@gmail.com">barbaradireito@gmail.com</a></p>

    <p> &nbsp; </p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p> A recente
publicação de <i>Women, Migration & the Cashew Economy in Southern
Mozambique: 1945-1975</i>, de Jeanne Penvenne, representa,
para quem acompanha de perto a história de Moçambique e em particular na sua
fase colonial, um acontecimento digno de nota. Professora no Departamento de
História da Universidade de Tufts (Estados Unidos) desde a década de 1990,
Penvenne ajudou a lançar a profícua e influente linha de investigação sobre
história social e do trabalho de Moçambique, para a qual contribuiu com
trabalhos essenciais como <i>African Workers and Colonial Racism; Mozambican
Strategies for Survival in Lourenço Marques, Mozambique 1877-1962</i> (1995),
ainda hoje uma referência para qualquer estudante da história deste
território.  </p>

    <p>O tema do
caju em Moçambique tinha já merecido destaque em alguns trabalhos importantes
em língua portuguesa, em especial a monografia de Fernando Bessa Ribeiro (2010)
sobre as dinâmicas do capitalismo naquele território na atualidade e os
trabalhos de história económica de Joana Pereira Leite (1995), focados sobretudo no período
 anterior à independência. Na presente obra, o culminar de uma longa
investigação iniciada na década de 1990, Jeanne ­Penvenne, mantendo-se próxima
dos seus temas de eleição, privilegia a história oral para estudar as
trabalhadoras do setor da indústria do descasque da castanha de caju. Estas
escolhas refletem o objetivo da autora de se distanciar da “narrativa
androcêntrica da história do trabalho colonial” (p. 3) e de lutar contra o
relativo esquecimento a que as narrativas apoiadas sobretudo
em fontes arquivísticas e dedicadas apenas à economia formal do caju votavam as
vivências e a agência destas trabalhadoras. As inúmeras e ricas entrevistas que
realizou junto de trabalhadoras da fábrica da Caju
Industrial de Moçambique em 1993 e 1994, depositadas no Arquivo Histórico de
Moçambique, são habilmente integradas numa narrativa histórica sustentada em
fontes mais clássicas. Mas este olhar original nem por isso interessará apenas
aos que procuram uma perspetiva de género sobre a história de Moçambique. De
facto, é a complexa articulação entre história do trabalho, história social,
história urbana, história económica, história rural e história das migrações de
Moçambique, unidas pelas memórias destas operárias fabris, que constitui o
maior contributo desta obra, e que fará despertar o interesse de um conjunto
alargado de leitores. </p>

    <p> No primeiro capítulo desta investigação,
Penvenne começa por apresentar a história do caju na economia do sul de
Moçambique desde inícios do século XX e a sua importância nos circuitos
comerciais que ligavam este território à Índia, explicitando as várias
utilizações desta oleaginosa e o modo como estas se integravam tanto na
economia formal como na economia informal. Este capítulo permite compreender
tanto o percurso da castanha de caju não processada do sul do Moçambique até à
Índia, itinerário iniciado nas primeiras décadas do século XX pelas mãos de
comerciantes de origem indiana, como a importância dada pelas autoridades
coloniais portuguesas a este produto agrícola a partir da década de 50, que
culminaria na criação de uma indústria de descasque, parcialmente mecanizada a
partir dos anos 60. Em Moçambique, o caju sustentava também o fabrico e
comercialização de bebidas alcoólicas. A cargo das mulheres africanas, esta
produção assegurava um complemento para a subsistência familiar e comunitária,
quer em meio rural quer em meio urbano.  </p>

    <p> O capítulo seguinte trata da história na
primeira pessoa das trabalhadoras de uma das fábricas de caju, localizada no
bairro de Chamanculo, na então ­Lourenço Marques. A fábrica da
Caju Industrial de Moçambique, mais conhecida como Caju ou Tarana,
propriedade do empresário de origem indiana Jiva Jamal Tharani, chegou a
empregar milhares de mulheres, muitas das quais vindas sozinhas ou com os seus
filhos de diversas partes do Sul de Moçambique a partir da década de 50, onde
viviam em contextos de extrema pobreza. Ao ­descrever o ­processamento a que
eram sujeitas as castanhas de caju e a divisão do trabalho no interior da
fábrica, a autora revela o quotidiano dessas operárias, as suas tarefas
repetitivas, fisicamente exigentes, perigosas e perniciosas para a saúde. Mas
esta “industrial woman” (p. 90), conta-nos a autora, que procurou escapar à
pobreza e muitas vezes à violência a que estava votada na sua província de
origem, num contexto de forte migração masculina para a África do Sul, teria de
enfrentar muitos outros desafios para lá das difíceis condições de trabalho.
Enquanto “mulher[es] sem dono” (p. 86), isto é, sem
estarem submetidas à autoridade de um homem, estas mulheres eram muitas vezes
consideradas por outros habitantes da cidade como prostitutas. A fixação urbana
levou estas mulheres de diferentes idades, que por vezes traziam consigo os
seus filhos, a criar novas relações familiares e redes de solidariedade e a
procurar, além da integração na economia formal, a exploração de vias informais
sempre que era necessário complementar os seus parcos rendimentos enquanto
operárias fabris.  </p>

    <p> No terceiro capítulo, onde se descrevem os
contextos de origem destas mulheres e o conjunto de circunstâncias que as levou
à cidade e ao trabalho na fábrica Tarana, Penvenne dá um contributo muito
particular para um dos mais estudados temas da história de ­Moçambique: a
migração laboral desde finais do século XIX. Se a historiografia dos fluxos
migratórios da “mão-de-obra indígena” em Moçambique se tinha focado sobretudo na experiência dos homens que partiam para o
Transval, e que compunham boa parte da força de trabalho, aqui interpreta-se a
especificidade da mobilidade das mulheres e a trajetória que transformou
habitantes rurais empobrecidas em operárias fabris residentes nos bairros de
caniço de ­Lourenço Marques.  </p>

    <p>Voltando a
centrar-se na vida na cidade e explorando mais de perto os testemunhos de
algumas das entrevistadas que participaram no projeto de história oral levado a
cabo pela autora, o quarto capítulo trata das reconfigurações e estratégias das
trabalhadoras do caju em contexto urbano. Este capítulo permite compreender,
por exemplo, o modo como participavam na economia informal através do fabrico e
venda de bebidas alcoólicas. Trazendo à colação conhecidas fontes da história
urbana de Lourenço Marques deste período, nomeadamente os importantes trabalhos
do “administrador etnógrafo” António Rita-Ferreira, no capítulo seguinte
Penvenne integra já as experiências das trabalhadoras da Tarana no contexto
mais lato da vida das populações africanas do “caniço” no período colonial
tardio. A interação entre o mundo do “caniço” e o mundo do “cimento” e a
evolução das relações raciais entre populações africanas e europeias na fase
final do colonialismo português, temas aprofundados em algumas investigações
recentes, ajudam aqui a compreender algumas tendências identificadas pela
autora neste período, nomeadamente o peso crescente do trabalho doméstico na
vida das mulheres africanas.  </p>

    <p> Para terminar, Penvenne enuncia brevemente
num epílogo as continuidades e descontinuidades da economia do caju entre
1975-2014, sublinhando a importância que este tema continua a assumir em
Moçambique na atualidade.  </p>

    <p> Mas o que constitui o maior contributo
desta obra da historiadora Jeanne Penvenne é a visão integrada e dinâmica do
Sul de Moçambique em processo de industrialização entre as décadas de 40 e 70
do século XX, analisada a partir da perspetiva de um grupo de trabalhadoras,
cujas experiências e estratégias até agora estavam sujeitas a um relativo
esquecimento, e cujas memórias poderão sem dúvida ser utilizadas como fontes
para outras investigações. </p>

    <p> &nbsp; </p>

    <p><b>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</b></p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p> &nbsp; </p>

    <!-- ref --><p>LEITE , J.P. (1995), “A economia do Caju em Moçambique e as relações com a Índia:
dos anos 20 ao fim da época colonial”. In <i>Ensaios de Homenagem a Francisco
Pereira de Moura</i>, Lisboa, ISEG/UTL, pp. 631-653.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=077172&pid=S0003-2573201600010001100001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>

    <!-- ref --><p> RIBEIRO,
F.B. (2010), <i>Entre Martelos e Lâminas: Dinâmicas Globais, Políticas de
Produção e Fábricas de Caju em Moçambique</i>, Porto, Afrontamento.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=077174&pid=S0003-2573201600010001100002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>




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