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</front><body><![CDATA[ 

 

    <p><b>Resposta daqui
da Província</b></p>

    <p><b>João
Teixeira Lopes</b></p>

    <p>*Universidade do Porto, Faculdade de Letras, 
Departamento de Sociologia e Instituto de Sociologia, Via Panorâmica, s/n — 4150-564 Porto, 
Portugal. e-mail: <a href="mailto:jmteixeiralopes@gmail.com">jmteixeiralopes@gmail.com</a> </p>

    <p>&nbsp; </p>

    <p>Victor Pereira, na réplica à resposta sobre a
recensão que elaborou a respeito do meu livro <i>Geração Europa? Um Estudo
sobre a Jovem Emigração Qualificada para França</i>, acusa-me
de não ter cultura de recensão crítica e de ter exacerbado a reação ao seu
texto, que o próprio considera pouco crítico. Creio que esta posição é
epistemologicamente arrogante, por dois motivos: em primeiro lugar, pretende
limitar o meu campo de possibilidades na receção ao que escreveu. Ora, os
textos não vivem apenas das intenções dos autores e prolongam-se, enquanto
forem lidos e interpretados, num diálogo infinito que é também uma luta, sempre
ilusória, pela fixação do sentido. Julgaria Pereira que eu me furtaria a essa
luta? Não faz parte do meu património de disposições, para utilizar uma
expressão cara a Lahire. Aliás, estas ocasiões ativam e mobilizam ainda mais
disposições que em mim estão geralmente acordadas: envolver-me, ir à luta,
argumentar. Não apenas para me sentir vivo (como pessoa e como cientista), não
apenas para investir no reconhecimento das minhas pesquisas, mas também por
imperativo político mais vasto. Participar, tomar partido, contestar,
partilhar, abdicar de falsas neutralidades. Tenho-o feito na ciência, procuro
confirmá-lo noutras esferas de vida. </p>

    <p> Em segundo lugar, Pereira fala
como estrangeirado, senhor que habita o campo científico francês e que corrige
os indígenas daqui por serem provincianos e pouco dados quer a polémicas
científicas, quer a estudos que rompam com o nacionalismo metodológico. Poderia
falar-lhe de dezenas de investigações comparadas e transnacionais de colegas meus, 
rotinizados em práticas científicas, com uma intensa
componente de reinvenção e adaptação metodológicas, fortemente empenhados no
desabar de (falsas) fronteiras.  </p>

    <p> Com António Firmino da Costa e
Bernard Lahire, por exemplo, trabalhámos sobre os <i>Percursos de Estudantes no
Ensino Superior</i>, colhendo, com grande proveito, os frutos da experiência
deste autor francês sobre as matrizes de socialização plurais de tal nível de
ensino em França; sociólogo tão desconfiado quanto nós do que Braudel apelidava
de barreiras alfandegárias do saber.  </p>

    <p> Mas tal desconfiança pelas
artificiais divisões do trabalho científico nunca invalida o esforço da
prudência. Pela minha parte, renunciaria a pronunciar-me em arenas científicas
sobre o campo de estudos francês das migrações, porque não possuo o domínio das
condições teóricas de produção dos conceitos e das relações entre conceitos que
aí se forjam, nem tampouco dos seus múltiplos usos em contextos diversos de
pesquisa. Se assim o faço, o mesmo aconselho para situações homólogas. </p>

    <p> Enfim, são reveladoras, as
polémicas. Permitem-nos perceber, desvendar e (auto e hetero) objetivar
percursos e contextos da nossa socialização como cientistas e, acima de tudo,
enquanto atores sociais. </p>

    ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Esta foi, em síntese, uma
excelente oportunidade para encetarmos um diálogo. Agradeço sem hipocrisia a
Victor Pereira o sincero desejo de que o meu estudo seja lido. Aproveito para
lhe comunicar que já foram publicados, em 2015, dois novos livros de uma equipa
coordenada pelo meu colega Rui Gomes, em que ativamente participei: <i>Fuga de
Cérebros</i> (Lisboa, Bertrand) e <i>Entre o Centro e a Periferia</i>
(­Coimbra, Universidade de Coimbra), ambos explorando as potencialidades da metodologia
dos “retratos sociológicos” proposta por Bernard Lahire e que tantas pontes
estabelece com a história social dos indivíduos. Fico pois,
à espera, com genuína expectativa, de novas recensões de Victor Pereira, pois a
vida (e a luta) continua. </p>



     ]]></body>
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